Na rua Barão de São Borja, quase esquina da Dias da Cruz, no
Méier, vive meu traficante. Calma, meu traficante de títulos. Penso assim: não
fosse por um título como “História Universal da Infâmia”, quem leria Borges, o
cego? E Ramos, o preciso, sem a força de um sonoro “Vidas Secas”? No início da
minha vida literária, por não ser bom de título e imbuído de boas intenções, recorri
ao tráfico. Acabei viciado. Acontece.
O importante no parágrafo anterior, verdadeiro nariz de
cera, é o Méier, pois, ao sair do encontro com o traficante, vi uma placa
anunciando que Doroteia P., médium recém-instalada no bairro, abria as portas
para promover o diálogo entre os que aqui estão e os que estão num plano superior.
Sempre tenho um probleminha amoroso ou financeiro ou uma pedrinha nos rins, uma
insônia, então pensei que um contato dessa dimensão poderia jogar luz sobre o meu
futuro, aguçar a minha esperança, ou simplesmente permitir que eu falasse com
papai ou mamãe.
Meire, a assistente, me deixou numa saleta com mais duas
pessoas. Não tardou muito, ela voltou, pediu um minuto de nossa atenção e
contou como fora o processo de desenvolvimento mediúnico de sua mestra. Doroteia
P. gostava de fotonovelas e, não raro, passava pelos sebos do Centro à procura
de velhas revistas. Sentia-se feliz ao comprar uma Sétimo Céu, uma Capricho,
uma Grande Hotel que faltasse a sua coleção. Certa vez, encontrou uma
correspondência do Instituto Universal Brasileiro endereçada a um tal Rolando Hole
Medonho, que, por algum motivo, não chegou a abri-la. O Instituto era conhecido
por promover, no mundo anterior à internet, cursos por correspondência. Como
não houvesse nada que lhe interessasse, a fã de fotonovelas levou o pacote. Sem
saber, adquirira um curso de mediunidade. Ao descobrir o que era, em vez de se
desfazer do material, folheou o primeiro exemplar; em seguida, estudou a
coleção. Em linhas tortas, Deus lhe indicara um caminho, na realidade, o
caminho.
Meire nos contava aquilo, esclareceu, para mostrar como o
acaso interfere magnificamente em nossas vidas. Foi além: naquele exato instante,
o mesmo acaso lançava de novo seus dados. Fiquei boquiaberto, a ponto de me esquecer
da novela que escrevia, do título comprado, do sofrimento da criação; da
vidinha miserável, enfim.
Doroteia P. nos esperava em um cômodo pouco iluminado. Magra e com um longo cabelo solto, fez sinal para que sentássemos e disse que usaria a tábua de Ouija, o jogo do copo, como era conhecido. Justificou a escolha por seu aspecto coletivo, que nos permitiria, sem que um largasse a mão do outro, papear com os do lado de lá. Oramos o pai-nosso. Em seguida, a médium fez a pergunta inicial: “Tem alguém aí?” O copo deslizou para o “sim”. Era o momento de nossas perguntas, mas o espírito quebrou a regra e se adiantou: “Como está o Brasil? Vocês têm cuidado bem das estrebarias e da memória do venerável presidente Figueiredo?” O ambiente ficou tenso, e a voz insistiu: “Não vão me responder?” Doroteia P., tentando manter o controle da sessão, quis saber quem falava conosco. Eu sabia quem era: “É a Velhinha de Taubaté”. “Espertinho”, a alma disse com ironia. A médium, que nunca lera uma linha de como enfrentar uma situação semelhante, ordenou que eu continuasse a conversa. “Depois que a senhora morreu, em 2005, vítima do desencanto com o mensalão, o Brasil foi pra frente, foi pro lado e agora, justo agora, resolveu ir pra trás. Sendo assim, temos um vice que monta cavalos e um presidente que ressuscitou não só seu venerável Figueiredo, mas também Geisel, Médici, Costa e Silva e Castello Branco.” O copo correu pela mesa e indicou que a Velhinha suspirava. Que suspirava, não, que suspirou — “Ufa” — e fechou o bico.
Doroteia P. nos esperava em um cômodo pouco iluminado. Magra e com um longo cabelo solto, fez sinal para que sentássemos e disse que usaria a tábua de Ouija, o jogo do copo, como era conhecido. Justificou a escolha por seu aspecto coletivo, que nos permitiria, sem que um largasse a mão do outro, papear com os do lado de lá. Oramos o pai-nosso. Em seguida, a médium fez a pergunta inicial: “Tem alguém aí?” O copo deslizou para o “sim”. Era o momento de nossas perguntas, mas o espírito quebrou a regra e se adiantou: “Como está o Brasil? Vocês têm cuidado bem das estrebarias e da memória do venerável presidente Figueiredo?” O ambiente ficou tenso, e a voz insistiu: “Não vão me responder?” Doroteia P., tentando manter o controle da sessão, quis saber quem falava conosco. Eu sabia quem era: “É a Velhinha de Taubaté”. “Espertinho”, a alma disse com ironia. A médium, que nunca lera uma linha de como enfrentar uma situação semelhante, ordenou que eu continuasse a conversa. “Depois que a senhora morreu, em 2005, vítima do desencanto com o mensalão, o Brasil foi pra frente, foi pro lado e agora, justo agora, resolveu ir pra trás. Sendo assim, temos um vice que monta cavalos e um presidente que ressuscitou não só seu venerável Figueiredo, mas também Geisel, Médici, Costa e Silva e Castello Branco.” O copo correu pela mesa e indicou que a Velhinha suspirava. Que suspirava, não, que suspirou — “Ufa” — e fechou o bico.
Doroteia P. voltou à cena: “Alguém aí?” Outro espírito nos
disse que acabávamos de fazer o bem a uma alma penada. A Velhinha cumpriu sua
passagem, feliz da vida por saber que o Brasil resgatou o passado, aquele tempo
“imaculado e grandioso”. Ouvi um tímido “mito” sair da boca de um dos que
estavam ao redor da mesa e vi o outro fazer uma arminha com os dedos. A médium,
aliviada, deu por encerrada a sessão. Cobrou cinquenta mangos de cada um,
abusivo no meu modo de entender, mas nem reclamei. Ninguém reclamou.
Fui pro bar e, entre uma cerveja e outra, li o título comprado
ao homem do Méier. Me pareceu meio malhado, mas, ainda mexido com a recente
experiência sobrenatural, não dei bola para as questões literárias. Tive, isso
sim, vontade de ligar pro Veríssimo e açodar sua curiosidade com um “nem te
conto”. Não e não, seria uma baita indelicadeza, afinal se os autores não
controlam a vida dos personagens — uma verdade inquestionável —, o que dizer da
morte. Preferi abandonar a ideia, o cronista do Rio Grande não merecia saber que
os personagens também mergulham na vida eterna — alguns acabam presos ao purgatório.
Melhor que mantivesse a crença de que, uma vez que não é mais escrito, o
personagem deixa de existir. Melhor que não soubesse no que deu sua crédula e
inocente Velhinha de Taubaté.


