17.9.05

Diálogo com Dois Amigos

Ilustram essa pequena divagação dois chamamentos visuais.




O primeiro deles, retirado do FOTOLOG “Olho da Rua”, de meu amigo e jornalista e escritor e músico e também agora fotógrafo Nelson Vasconcelos, é um achado do instante, como são em geral as crônicas visuais desse artista. Vê-se um gato avizinhando-se de uma garrafa de uísque escocês. Há estranheza na junção de dois mundos quase que de todo apartados: o da bebida e suas significações e o do gato também com suas significações.
O uísque não é para qualquer um, por raridade e, portanto, preço. O gato também não o é, mas por um senso de liberdade muito próprio dele. Isso não impede que alguns pés-rapados se lambuzem com a iguaria escocesa nem que se domestiquem os gatos.
Na foto, o amarelo que se derrama e se espalha por ela inteira, do primeiro plano até o fundo, pode vir da coloração da bebida ou do olho do bichano, muito embora seja mesmo um efeito secundário da luz, convertida de mera dádiva natural em invento científico muito propício à sociabilidade humana. O artista rouba as funções dos elementos ao alcance de sua criatividade, acrescentando-lhes outras. Na salada de embriaguez, zoologia e ciência, Nelson Vasconcelos brinca com os sentidos de quem navega no mundo que não é, o do espaço virtual. E o faz cavalgando o cavalo do humor tão carioca, tão dele.

O segundo deles é trabalho de meu amigo Horácio Soares, analista de sistema, escritor e artista plástico, que pode ser visto em www.barenforum.org/ members/soares/(1). Até onde sei, o sítio mencionado é uma comunidade de xilogravuristas espalhados mundo afora, uma turma que troca seus trabalhos e, com isso, cada um deles pode ter sua obra exposta por tudo quanto é canto do planeta. E não digo exposição no espaço virtual, mas aquela das antigas, em museus, ateliês e que tais.
O nome do trabalho: “Trip”. Batemos os olhos e reconhecemos o trem apinhado de gente suburbana, como o próprio Horácio foi um dia, correndo o caminho entre a casa e o trabalho. Chama a atenção, no entanto, o fato de não ser uma viagem atual, é alguma feita não pelo homem maduro de hoje, mas pelo jovem em descoberta da vida. Uma única mulher está entre os homens cujos trajes fixam o tempo passado. Não só a roupa: é o bigode de um e uma expressão, ainda que cansada, leve de todos; por fim, o próprio fato de ser uma única mulher, então em minoria nas lidas do mercado.
Mas o esforço de Horácio, ao resgatar de sua memória esse trem em que viajou do subúrbio ao centro e vice-versa, não pretendeu trazer à luz um enunciado sociológico, histórico. Não, ali uma narrativa oculta-se nas expressões. O olhar ausente do homem de terno; a bondade transbordante do careca no primeiro plano à esquerda; a expressão algo irônica e pedinte daquele de bigode logo atrás da mulher. Como bem sei da aproximação do artista com a literatura de Nelson Rodrigues, os personagens de Horácio vão chegar em casa para viver os fantasmas domésticos tão bem revelados pelo dramaturgo.
Não percamos de vista, está entre tantos uma única. Com uma das mãos agarra-se à alça, com a outra segura o baú. Baú, sim. Lá, no tempo do mundo laboral estritamente masculino, uma mulher, enquanto trabalhadores vão e voltam das oficinas e escritórios, viaja entre eles tendo nas mãos o baú. Uma caixa de Pandora, quem sabe. Ou não: o baú seria apenas o instante, voltamos ao instante, em que a mulher segurou seus segredos com as próprias mãos, tornando-se enfim donas de si mesmas.

(1)A página pessoal de Horácio é: www.analisevital.com.br/.
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