10.9.05

Na Estrada


Dentro das Viagens
Alexandre Brandão

Depois de dias de muita chuva, vieram outros de plena estiagem. O calor voltou a pino, e a estrada levantava poeira ao menor sinal de carro. Uma poeira branda, é verdade. Mas como o suor escorria de minha testa, a fina camada de pó grudava na pele sem piedade. Meu cabelo ia pouco a pouco ficando nojento, duro. Quando eu voltasse, mesmo tendo passado dias fora e tendo tomado regularmente os banhos, minha mãe murmuraria: — nossa!
Lá ia eu pensando na volta mal a jardineira apontava para a subida que desemboca no Seu Tuca. A estrada da Julieira terá uns 40 quilômetros de cabo a rabo, não sei, e não cortáramos mais do que um décimo de toda a distância, muito pouco até mesmo para o meu destino e o de meu padrinho, a Fazenda do Gordurinha, a 20 quilômetros de Passos. Pensava na volta, porque sempre pensamos na volta no início das viagens, é como um lembrete para mantermo-nos inteirados de que é preciso, sim, voltar. Mas eu tinha, meu Deus, alguma coisa entre 8 e 10 anos e nenhuma noção de que somos cheios de escapes, subterfúgios. Eu pensava na volta e daí a pouco já não pensava mais — só isso. Sonhava com pomar, com bica de água fria, com a aventura de ter de ir cagar no mato. Sonhava em andar no Segredo, cavalo grande e manso. E tinha certeza de que meu padrinho, ali do meu lado, batendo seus dedos no apoio de braço do banco, olhando tudo e todos, deixaria eu fazer aquilo que me desse na veneta. Comer pão-de-queijo antes do almoço, não almoçar, chupar a fruta que estivesse no galho mais alto da árvore.
Dentro do ônibus, eu viajava no espaço, rumo à fazenda. E, de pensamento em pensamento, roçava distraído o beco inominável. Insisto: tendo aqueles 8, 10 anos, não podia imaginar que existisse, dentro da gente, um oco mais concreto que alicerce de casas de alvenaria.
Tendo passado outros 10 anos, lá vou eu de novo dentro de um ônibus maltrapilho. Agora a estrada, embora poeirenta, é outra, e a distância é maior. Cruzo a Bolívia, desde Santa Cruz de La Sierra até Cochabamba e de Cochabamba até nem sei onde e de aí, por fim, até La Paz. Meu padrinho não vai comigo, quem vai é o Carlos, amigo chileno que cometerá o desplante de morrer com pouco mais de 40 anos. Apesar de meus 20 anos de então e de viver sempre um pouco bêbado e de mascar as folhas de coca que me oferecem e de ter deixado um amor no Brasil e de estar lendo com indomada fúria e de ter medo do desconhecido que está por vir e de sentir calor e de ouvir música em um toca-fitas que é uma verdadeira geringonça; apesar de tudo, já tocara com as próprias mãos aquele oco imponderável. Não o conheci (nem conhecerei) plenamente, mas aprendi que é feito de pau e luz, de ferro e brasa, de barro e sombra.
Os motoristas destes ônibus são gente muito qualificada. O menino que tinha o cabelo cortado a mando da Dona França (nuca quadrada) vê com encantamento o homem que vinha muito sério lá na frente de repente subir, pela escada exterior do carro, na capota da jardineira e ir direto e reto na mala da senhora que irá descer ali nos Meireles.
O universitário em férias sente frio quando no meio da madrugada o motorista é obrigado a parar o ônibus que vem rateando já há algum tempo. Tendo pego uma lanterna muito da esculachada e enchido a mão de ferramentas, ele desce à estrada, estica um forro de papelão, deita-se sob o chassi e começa a fuçar para ajeitar aquilo e poder dar prosseguimento à viagem. Há crianças espalhadas pelo corredor do carro; Carlos dorme, tombado pelo excesso de chicha; o velho que vai ao meu lado, meu fornecedor de folhas de coca que me caem bem que é uma coisa, está muito preocupado com a galinha que leva sob a jaqueta esfarrapada. Não vou dormir. Nem vou encantar-me com mais nada.
Noite boliviana que recebe o sono dos lhamas, escrevo na sua escuridão, sem lápis e sem papel, um livro para esquecer logo depois.
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