23.10.05

Filosofia Primitiva

Aprendi com minha sogra: queijo com educação é o cortado bem fino e, consequentemente, o sem educação é um toloco só.


Essa classificação trouxe elementos para rascunhar algumas idiossincrasias da moçada lá de casa. Somos quatro irmãos e três modos distintos de encarar o famoso queijo com goiabada, estranhamente chamado por alguns de Romeu e Julieta.



Na primeira turma, o queijo é sem educação e a goiabada, fina. Na segunda, o queijo e a goiabada não primam pela boa educação. Por fim, na minha turma, o queijo é educado e a goiabada chega a ser uma aberração de tão grossa.

(Por sermos quatro, o leitor pode estar curioso em saber qual dos paladares encontra dois defensores. Nenhum deles. Na realidade, uma de minhas irmãs não come doce já há algum tempo e, então, apagamos de nossa memória qual era mesmo a sua preferência.)

É hora de entender como cada um de nós faz de sua opção a única.



Queijo sem educação, goiabada fina: poderíamos batizar essa turma de afrancesada, já que o que importa, na sobremesa, é o sal do queijo. Em sua defesa, a turma diz que o doce deve aparecer muito discretamente e busca comparações com os bons perfumes: mínimos no tamanho e máximos na fragrância.

Queijo e goiaba sem educação: ora, dizem esses pitgulosos, se é para se lambuzar, que seja por inteiro, sem frescuras. A acirrada disputa entre sabores opostos, o sal e o doce, é o ó do rococó da opção.

Queijo com, goiabada sem: o queijo, aqui, cumpre o papel daquele jogador que pouco aparece para a torcida, mas é a alma do time. Mesmo discreto – se discretíssimo ainda melhor – o queijo reinventa o doce.

O que fiz até agora não foi mais do que listar alguns modos de comer a melhor das guloseimas. Não abordei, ainda, a questão filosófica. Portanto vamos amarrar as pontas e dar sentido à coisa.


Um homem vê-se distante de casa, o mundo continua esta bola sem freio, rodando, rodando, rodando. Conhecedor da noite e do amor, experimenta o lícito e o não lícito, planeja revoluções; é, quando mais se precisa dele, um covarde; quando ninguém dele espera um ai, é o valente e o vitorioso. Rei que já passou pela miséria, íntimo dos segredos dos deuses, é um desbravador com inocência. Este homem lê e reescreve todos os dias os seus dias de ontem e não para aí, nada ao encontro do futuro e descansa na cabeceira do rio circular. Quando tudo parece, enfim, alcançar o ápice e repousar, a nostalgia corta a garganta desse homem, que experimenta, assim, a sensação de ter perdido alguma valia: o seu contorno e o seu recheio. Neste momento, seus planos de escrever versos, de investigar a alma, senhor supremo da filosofia, estancam. Meu Deus – diz com o olhar deitado no horizonte – não sou ninguém se me negarem o queijo e a goiabada.



Vocês não entenderam nada? Ou falta-lhes filosofia ou sobram-lhes o vermelho (mole ou de cortar, cascão ou liso) e o branco (fresco, curado ou meio) combinados com ou sem educação. Quem vive longe das verdadeiras iguarias e não se contenta com a goiabada em lata, feita de chuchu, e o queijo frescal mais do que entende o ser ou não ser do filósofo sem-doce.
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