13.10.05

Uma Provocação Entre Duas Pingas


O sujeito entra no bar e pede uma pinga. Ao ser servido, oferece um trago ao pessoal que está por ali. Tendo bebido sua dose, o freguês boa-gente dá pernas pra quem te quero e não paga nem a birita consumida por ele nem a oferecida aos demais.

Uma semana depois, encontramos, de novo, o cachaceiro no boteco. Ele faz o mesmo pedido e acrescenta, entre os convidados, o dono do recinto, que, sem demonstrar nenhuma contrariedade, aceita a “gentileza”. Os copos vão sendo esvaziados e o cliente já se prepara para dar o fora quando o dono da espelunca salta o balcão, agarra o safado e o cobre de cascudos.

O cachaceiro não se emenda. Poucos dias depois, volta ao bar, pede cachaça para ele e para a rapaziada, mas adverte o dono do botequim:

— Para o senhor, que é violento e descontrolado, não.

O bom desta piada é que ela subverte a ordem das coisas. O trambiqueiro se comporta como vítima.

Mesmo sendo apenas uma piada, ao conhecê-la encasquetei com uma coisa. Este elo entre o consumo de drogas (cachaça é uma droga, lícita, mas uma droga) e a violência. Todo drogado é violento? Com certeza, não, embora seja senso comum dizer que sim. É até usual que o criminoso recorra ao fato de ter consumido drogas para tentar ficar em hospitais psiquiátricos e não em presídios.

O mundo das drogas ilícitas é violento por ser clandestino. Como os traficantes organizam-se em verdadeiros exércitos e estão, permanentemente, em pé de guerra com a polícia ou com outro grupo de traficantes, um consumidor ao desejar tão-somente conseguir um naco do produto de que é dependente, acaba tendo de enfrentar um mundo pra lá de violento. Se, no entanto, ele consegue comprar a sua droga e vai para casa, ou para um bar, ou para uma discoteca, e a consome, não necessariamente irá bater na namorada, apagar o primeiro que lhe apareça. Como diz o rock: ele não estará causando mal nenhum a não ser a si mesmo.

Vou a um posto de gasolina e encontro a frentista inconsolável. Naquele instante, ela havia percebido que alguém surrupiara, bem no seu focinho, o seu celular. Sua revolta, diga-se, não era pelo objeto perdido, que, com algum sacrifício, poderia ser substituído por outro; sua revolta era com a situação em que se encontra o país. Para ela, a culpa disso tudo deveria ser creditada às mães que fazem filhos para, em seguida, largá-los na rua. Eu já vinha rascunhando este artigo quando eu ouvi seu desabafo e minha posição se assemelha em muito à dela, embora, para mim, a culpa pode e deve ser dividida entre pai, mãe e, bem, o Estado. Para conter o exagerado crescimento das taxas de violência são necessários, sim, vários investimentos sociais (escola, saúde, desconcentração da renda etc.), mas, arrisco a dizer, só isso não basta. É preciso que os pais devotem a seus filhos tempo, atenção e carinho. Difícil, todavia, será definir prioridades no tratamento das duas faces de um mesmo cancro: dar educação formal para quem não tem afeto tem um alcance menor do que se espera; tentar resgatar a auto-estima e noção de responsabilidade social de quem já formou família e vive, ou no lodo da pobreza ou no conforto da abastança, é matéria que não encontra bê-a-bá definido e de fácil aplicação.

Aposto que a violência não se esgotaria se hoje todos os consumidores de drogas, por algum milagre, abandonassem seus vícios. E se é assim, melhor liberar o uso das drogas - reforço: drogas que ainda são ilícitas já que um punhado delas pode ser consumido em qualquer lugar e hora - e, através de pesada carga tributária, auferir recursos para combater os males que causam à saúde física e psicológica das pessoas e também as diferentes espécies de violência que permanecerão existindo - a começar por alguma assistência às pessoas que ou não podem ou não querem ver-se como uma peça muito pequena de um intricado jogo de armar.

Eu bem disse, não foi? Seria uma provocação. Mas, pronto, acabou. Volto, então, à pinga. Um amigo meu costumava chegar nas vendas (quando estas existiam) e pedia uma pinga e um sabonete. Outra pinga e outro sabonete. E mais uma pinga e outro sabonete. Se perguntada a razão de pedido tão estranho, respondia que no final da farra contava os sabonetes e sabia quantas pingas tinha que pagar. Ninguém lhe passava a perna. Faz sentido, ora se faz.

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