11.6.18

Minha colega e o pianista

No dia em que a Fatinha foi assassinada durante um assalto em Cascadura, eu fiquei com medo, com muito medo. Não de que eu pudesse ser também abatido, não por isso. Meu medo era de que, com a morte de minha colega de trabalho, o que eu pensava que houvesse de mais precioso nela — sua característica evidente — fosse, de fato, tudo que havia daquilo no mundo. Falo da doçura. Fatinha era doce. Mas não há mais doçura no mundo além daquela que seu olhar e sua voz carregavam?

Naquela noite, assisti a um programa gravado em 1985 com o pianista Horowitz, então com mais de 80 anos. Além de uma fala ou outra em ambiente familiar, no qual estavam a mulher, a filha do maestro Toscanini, Wanda Toscanini, e os amigos responsáveis pela gravação, o programa era praticamente o velho senhor tocando sem partitura várias músicas de compositores como Bach, Mozart, Chopin e Schubert. Horowitz parecia indiferente aos anos que decerto pesavam sobre suas costas arqueadas de pianista e deixava soar de seus dedos a própria doçura. A certa hora, o produtor do vídeo, aparentemente amigo íntimo do casal, pergunta a Horowitz se ele estava mais para deus ou para diabo. O concertista responde que, conforme a peça, ele deveria se ligar a um ou a outro. A despeito disso, nas peças diabólicas ou divinas, a doçura reverbera de suas mãos. A doçura que a morte de Fatinha subtraíra do mundo.


Não era um dia em que eu pudesse encontrar alguma alegria, longe disso, mas Horowitz resgatou minha esperança: nem mesmo o caos que nos arranca uma Fatinha pode acabar de vez com essa coisa miúda e tão humana. A doçura está entre nós. Em Fatinha era tudo, sua energia, sua presença, seu trabalho — tudo, repito. Estúpido mundo violento e ácido, é possível que nos arranquem as pessoas mais doces, mas a doçura continuará espalhada por aí. Na música, no poema torto, no diálogo de dois amantes, na travessura das crianças.
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