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14.5.18

Seu Tunico do café

Entrou na repartição como Antônio, seu nome de batismo. Virou Tunico depois de uns chopes com a turma, quando o apelido, filho sem pai nem mãe, grudou-se nele. À medida que envelhecia, os novos funcionários, de concursos cada vez mais distantes daquele no qual foi aprovado o rapaz sério e tímido, passaram a chamá-lo de seu Tunico, e seu Tunico ficou sendo para todos.


Num ambiente em que os colegas usavam roupas esportivas — com exceção do chefe, sempre de paletó e gravata, e daqueles que, em dia de reunião com gente de fora, se metiam numa calça social com camisa de manga comprida —, Antônio, desde jovem, trajava camisa de linho passada com um esmero de dar gosto, calça escura de microfibra, cinto combinando com o sapato de amarrar impecavelmente engraxado. Os mais atentos comentavam também das meias, pretas ou, quando muito, azuis. Seu Tunico era esse paradoxo: silencioso e, por conta da roupa, espalhafatoso.  


No trabalho, nunca fez nada, nadica de nada. Ouvia-se que era um crânio, mestre na matemática, ciência sem serventia aparente na repartição. Contavam inclusive que, por seu conhecimento de informática, certa vez fora chamado ao Aeroporto Tom Jobim para desfazer uma pane no sistema de controle de pouso e decolagem. Iam além: o fato teria sido narrado pelo próprio Tunico num dia em que bebeu um pouco mais. Verdade? Os fatos não ajudam: o funcionário jamais foi visto perto de um computador — nem para consultar um e-mail ou navegar na internet.

Apesar de tudo, seu Tunico logo se enturmou e passou a sair com os colegas no final do dia para tomar uma (no caso dele, só uma) cerveja e brindar os aniversários. Nunca se juntou aos boêmios, que de um bar pulavam para outro ou fugiam para um show ou baile ou escapavam para um lugar pouco familiar. 

Desconhecidos eram seus amores, e, no palpite de alguns, ele vivia com a mãe e, no de outros, sozinho. Não deveria morar longe, pois era o primeiro a chegar ao escritório e, não raro, o último a sair. Do ponto de vista do horário, era um funcionário exemplar, sem atraso ou falta. Tanto comprometimento para não fazer lhufas. Minto. Seu Tunico se encarregava do café. Nisso era insubstituível, tanto é que suas férias eram batizadas de tempos mal-bebidos. “Ai, os tempos mal-bebidos já vão chegar!” A tristeza institucional chegava antes.

Seu Tunico sabia dosar o café, que não saía forte, tampouco fraco. Para muitos, um milagre, pois não havia na cozinha nada que não fosse o próprio olho para medir o pó. Coisa trivial quando a tarefa caía nas mãos de um cara capaz de controlar o tráfego aéreo de um dos maiores aeroportos do país, maliciavam. A história da suposta chamada ao colega para debelar uma tragédia iminente era a grande ironia sobre ele, talvez a única. Quer dizer, muitos especulavam sobre sua sexualidade, mas, pasmem, não passava disso, de uma especulação inocente e sem eco.


Com a experiência, seu Tunico descobriu que em torno do café era possível saber a quantas andava o trabalho. Nos dias que antecediam a reunião importante, o estresse disparava e o consumo idem. Se coava um de manhã e outro à tarde, nos dias de tensão eram dois ou três por turno. O ambiente carregado não estava atrelado apenas aos assuntos internos. Nunca se bebeu tanto quanto depois de coxinhas e petralhas surgirem na crônica política. A partir daquele momento, todos procuravam levantar uma discussão, provocar quem defendia o lado oposto ao seu. Não havia melhor lugar para isso do que perto da cafeteira. No instante em que a radicalização ficou incontestável, as pessoas passaram a evitar o confronto e, com isso, fugiam da mesinha e do café. Tudo isso captado e guardado em segredo pelos olhos do moço bem-vestido e estranho, que, além de tudo, não era de jogar conversa fora, quanto mais se o assunto fosse política.


“Hum, delícia!” “Nem na Itália se faz um desses.” “Ai, seu Tunico, vai morar lá em casa, vai.” Quando as reações ao café fresquinho começavam a soar pelo salão, o tartamudo e antiquado concursado fechava os olhos, suspirava discretamente e pensava lá com seus botões que não havia nada melhor do que ser amado. Isso compensava tudo, inclusive o pouco tempo que lhe restava devido ao trabalho árduo na repartição.

5.3.18

Uma ida à loteria

Às vezes faço uma fezinha. Os jogos de loteria são, a meu ver, o jeito difícil mais fácil de ganhar dinheiro. Sem derramar uma gota de suor, marca-se um número aqui e outro ali e, depois, entrega-se a sorte a Deus ou, acreditando-se na lisura dos homens, à máquina. Quem vai botar dificuldade nessa mecânica? Ninguém. Daí a ganhar, já é outra história.

Mas não era sobre o jogo que eu gostaria de falar, é sobre a experiência de hoje; que, esclareço, tampouco é sobre a experiência de jogar. O que tenho para contar tem a ver com o ambiente da loteria em que entrei. Primeiro, havia uma senhora que, revirando sua bolsa grande, descobriu-se sem a bolsa pequena, uma que ela havia mexido um pouco antes e onde guardava o dinheiro miúdo. Alardeou aos quatro ventos a perda, olhou para cada um de nós de cima a baixo, com desconfiança. Os menos vulneráveis a olhares acusatórios deram conselhos à senhora, que ligou para um lugar em que esteve, saiu e voltou para a fila até levantar a hipótese de ter sofrido um furto antes, talvez na rua. Mesmo assim, incontrolável e inocente, não escondeu de ninguém que ainda carregava na bolsa grande quatrocentos reais em notas de cem.

Isso não foi nada diante do sujeito que furou a fila e abordou a atendente de um modo que, segundo ele, quando passou a se defender, era leve, brincalhão. Não foi interpretado assim por ninguém, muito menos pela moça do caixa. O filho desse homem havia estado ali um pouco antes para pagar uma conta. Correu tudo bem no que diz respeito ao pagamento, mas o reclamante viu que, por erro próprio, a conta paga era outra, uma que não pretendia quitar. Cheio de empáfia, exigia um estorno. As moças da loteria, reagindo à antipatia com dose similar de antipatia, negaram que pudessem fazer alguma coisa, o sistema não permitia. Ele saiu de lá cuspindo ameaças.


Depois do dentista, fui comprar tinta para impressora e, na sequência, tomar um café. A loteria era bem em frente, não resisti. Fui jogar, tão somente isso, e saí impregnado daquela tremenda confusão. Só pensei numa maneira de me livrar do baixo astral: me meter no metrô e voltar para casa.

Entre o metrô e o prédio onde moro, um muro está pichado com a seguinte frase: “Por onde anda a empatia?”. Há um complemento, um gracejo que remete a favores sexuais, mas, no que pensei depois, não me importei com ele. Pelo caminho, fui martelando sobre a empatia em estado puro e concluí que ela foi sequestrada dos nossos dias. Restou-nos a repulsa, ou algo mais radical. Nada que fuja do que professamos ou gostamos nos atrai. Somos o avestruz da vez, com a cara enterrada no espelho.

Tenho uma vizinha de mais de 100 anos de idade. Não é raro encontrá-la sentada no pequeno jardim ou embaixo da marquise da portaria. Calada, olha tudo. Um dos seus gestos habituais é, certeira, pegar a mão de quem passa por perto e dar um, dois ou três beijos nela. Ganhei esses beijos ao chegar a minha casa e imediatamente desenhei uma utopia: as pessoas passariam a pegar as outras pela mão e, em seguida, depositariam ali um beijo. Não aquele de quem toma, por obrigação, a bênção dos pais, dos tios, dos avós, e sim aquele de quem agradece ao outro por ser justamente o outro.

23.5.16

Perguntas à toa

Fazendo perguntas ao modo de Neruda

Você poderia me dar um silêncio de seu tempo?
Por que os cegos fecham os olhos ao recordar?
De vinte em vinte a gente ultrabraça o intocável?
Com quantas palavras é possível navegar um minuto?
Por que o riso fuma maconha?
Vovó contraiu o diabetes num beijo mal dado?
O que não estou vendo é uma chuva que brota do chão?
Quando me distraio eu roubo a alegria dos beduínos?
O dia brigou com a morte?
Aquele relógio estava desesperado?
A cor da ilusão esgana?
No céu, a terra é um esquecimento?
Os urubus salgam os próprios voos?
Se uma palavra for elevada ao quadrado nós nos entenderemos menos ainda?
Posso morrer depois de passar o café?
Você está rindo pra onde?
É possível acender cigarro em ovo?
As gotas invejam a enxurrada?
Alguma mulher pelada tentou entrar numa revista esquecida no banheiro?
O que pensa o escocês que só me viu em sonhos?
Dois e dois reconhecem algo além da matemática?
Do lado de lá dói?
O que o cansaço diria ao tempo?
Você poderia me dar um minuto do seu temperamento?
A função social do homem é prender o choro?
Qual o melhor remédio para não se curar de nada?
A histeria conhece os canais de Veneza?
Por que o mar não nos conta tudo?
Todas as palavras são inconstantes?
A sujeira tem saudades do esfregão?
O que meu pai fez com o não de minha mãe?
O sol também sabe?
O buraco da fechadura mede o poder que transfere aos olhos do curioso?
Se essa rua fosse minha eu seria menos órfão?
Chegaremos a tempo de adiar a noite?
De onde vieram as incertezas das perguntas?


Pablo Neruda, aparentemente num momento de indagação.