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4.5.15

As quatro estações em torno do amor

Minha primeira trombada amorosa me custou uma borracha, com a qual apaguei o nome da namorada de minha agenda de endereços. A segunda, com contorno adulto, me fez tomar um porre homérico e curtir, ouvindo “Ronda”, de Paulo Vanzolini, num rádio de pilha na zona boêmia, a famosa — e até então desconhecida — dor de cotovelo. Na terceira, chutei o pau da barraca e caí, quase de imediato, nos braços de outra mulher, que me salvou, mas não para sempre. O amor é clichê, desde o início, regado a flores, declarações absurdas e outras traquitanas, até o fim. O amor sempre acaba.

Acaba e não acaba, pois, na verdade, o amor evapora para em seguida chover no mesmo terreno ou, quando carregado por nuvens, pesadas ou não, num outro mais adiante, quiçá longe, muito longe. Intempestivo, contra o fígado o amor cultiva pinimba e mantém total controle sobre nossos braços, pés e aquilo que a evolução social soube por bem denominar de nossas vergonhas. O amor é foda e aprende apenas as lições tomadas das pernas bambas e do sentido roto. Sua sabedoria é uma árvore que brota do nada. Vive o amor de primaveras reincidentes.


Foto do autor, na região serrana do Rio Grande do Sul.


Cabem aos amantes o outono, a perda das folhas e, ainda, o suspiro gratuito e solitário no alarido das ruas — revelação do golpe baixo cujas dores resistiram à fuga para as drogas e o sexo eventual. Ao murmúrio do prazer — parte inseparável do prazer — segue-se o seu outro, desgozo de um abandono, tristeza que não alcança o ouvido do amor, voltado para dentro e indiferente à luz. Autofágico o amor medonho.

No quarto tombo, já entendia o vaivém amoroso. Nem por isso deixei de sofrer os horrores de sempre, em segundas de abstenções e terças e quintas e finais de semana de excesso e ressaca. Em seus trajes de vento, o amor suspende nossas cobertas e, não satisfeito, arromba janelas, dando-nos, assim, o inverno que não vive. Por sermos condescendentes, há certo conforto no enfrentamento desse frio.

Todo o resto — o amor abrange também suas fronteiras e o que está fora delas — é um verão que sobe pelas nossas pernas e que, no meu quinto tropeço amoroso, tornou-me corado e bem disposto. Voluptuoso. Sem vergonha. Calejado inocente, mais uma vez beijei o chão. A flor da primavera amorosa é um tapa na cara do amante.