5.4.21
Horas Turvas (do livro Contos de homem, 1995)
29.3.21
Janelas
Ao fugir do castigo
da casa baixa onde imagino ter nascido, descobri que as janelas podem ser um
caminho para a liberdade. Alguns anos depois, num sobrado no Beco dos Aflitos, olhava
a rua pela janela e ouvia minha mãe dizer para eu não me debruçar. Minha mãe tinha
medo, e eu, anseio de ver o mundo. Feito essas namoradeiras esculpidas em madeira,
eu esperava a Elaine, no seu uniforme de secundarista, passar a caminho de sua
casa. Aquela janela me deu a dimensão de que a moça, por ser uns cinco anos mais
velha que eu, era inalcançável, e o correr da vida, estivessem meus cotovelos
apoiados numa janela ou num balcão de botequim, completaria a lição: muitas mulheres
são inalcançáveis. Em compensação, ao pular a janela da sede do diretório acadêmico,
despertei o interesse de uma garota por mim — nos alcançamos.
Quando as
janelas se fecham, os passarinhos, longe de nosso olhar de gaiola, voam plenos
de liberdade.
Recém-chegado
ao Rio de Janeiro, do nono andar de um prédio em frente ao consulado português,
em Botafogo, eu observava a fúria dos que, presos no engarrafamento, voltavam
para casa após o trabalho. Naquela época, ano de 1980, os motoristas não poupavam
a buzina. Alguma coisa houve de lá para cá e, hoje, buzina-se menos, assim como
se fuma menos — as janelas são o paraíso dos fumantes. No caso do cigarro, a
proibição de fumar em ambientes públicos e fechados, auxiliada por uma competente
campanha publicitária, explica a queda no número de fumantes, mas em relação à
buzina não houve nada parecido. Talvez seja uma compreensão espontânea do mal
que a poluição sonora faz. Sociologias à parte, lá da janela do nono andar, e,
depois de uma mudança, da equivalente do décimo segundo andar do mesmo prédio,
o recém-chegado descobria que, para viver no mundo escolhido, deveria descer à rua,
tomar o ônibus, sentar-se, caso desse azar, ao lado de um fumante, enfrentar o
engarrafamento e ouvir as buzinas soarem bem ao lado. As janelas estimulam a reflexão
e nos chamam à vida.
Para muitos, elas
não são a tela de cinema por meio da qual, além da imagem e do som, se
transmite o cheiro; ao contrário, apresentam-se como passagem entre um andar
alto e o chão, entre a vida e a morte. Não se culpam as janelas nem as moradias
tornadas verticais para comportar tanta gente em espaços exíguos. Cúmplice dos
arranha-céus, o salto obedece a comandos de uma alma ferida. As janelas não
julgam.
A evolução humana
se deu única e exclusivamente para tornar possível a construção de janelas e teve,
como consequência inesperada, a invenção, agora esquecida, da serenata. A
arquitetura moderna, com seus prédios de vidro, engana-se ao imaginar que nos
contentamos tão somente em ver o lá fora. Nada disso, queremos janelas.
Minha avó paterna
ficou cega por conta de uma enfermidade que hoje algumas gotas diárias de colírio
e uma cirurgia curariam. Para ela, a janela era fonte de brisa, mas poderia ser
de vento e chuva, logo, havia sempre alguém zelando para que prazer e frescor não
se transformassem em tormento. Se, como Da Vinci afirmou, “o olho é a janela da
alma, o espelho do mundo”, que espécie de janela é o olho decorativo dos cegos?
É este paradoxo que João Jardim e Walter Carvalho, no documentário não sem motivo
chamado de “Janela da alma”, lançam ao colherem depoimento de dezenove artistas
(de José Saramago a Hanna Schygulla, de Hermeto Pascoal a Agnès Varda) com problemas
que vão de limitações medianas de visão à cegueira, como é o caso do fotógrafo Evgen
Bavcar. Chego a um momento delicado, e, sem saber esclarecer o paradoxo, afirmo
apenas que as janelas são uma metáfora de fragilidade e potência.
Morei numa
pequena vila, e a janela principal, bela peça de uma construção do início do
século XX, me dava aos olhos a similar do vizinho da frente. Às vezes eu e ele,
olho no olho e uma ruazinha no meio, travávamos ótimas conversas. Do mesmo
lugar, soltando a voz, anunciava a hora da tarefa escolar ou da refeição e tirava
as crianças do pique-pega.
Falam da existência de janelas capazes de aproximar o nosso mundo de uma quinta dimensão. Não duvido disso, porém, nem em viagens induzidas por néctares vulgares, que me trouxeram aos olhos o que não havia, entrevi qualquer pedacinho do que imagino ser a mais bela visão. As janelas descortinam a quimera.
Manter as janelas abertas é princípio básico de saúde e está em evidência por conta desse maldito vírus assassino. Além de muita gente viver em moradias sem janelas, no Brasil elas foram fechadas, estão fechadas — sim, as janelas estão fechadas. Nem por isso os pássaros têm usufruído de sua máxima liberdade. Por solidariedade a nós? Não creio, devem estar estupefatos por ver a mão visível e incerimoniosa fechar as janelas, à luz do dia, sem que nós façamos nada para detê-la.
13.3.21
O jumento e a vacina
Há uns dez dias, um pequeno avião do governo da Bahia foi decolar de um aeroporto em Salvador e atropelou um jumento. Nem o animal nem o piloto se machucaram seriamente, mas o avião sofreu avarias e sua função, transportar doses da vacina contra a Covid-19 para o interior do estado, teve de ser executada por outro.
Nada mais metafórico do Brasil de hoje: o símbolo da
estultícia, o pobre jumento — não sei por que razão ganhou a fama de pouco
inteligente, ignorante, incapaz, mas vou aceitá-la sem crítica —, de um lado, e
o da sabedoria e diligência humanas, a vacina, de outro. Aquele retarda o voo deste,
ou seja, o acidente revela a encruzilhada civilizatória em que estamos. A
imagem de um abismo logo adiante não serve mais ao Brasil, pois já demos o
passo adicional e agora voamos em queda. Ainda que demore, pousaremos não
exatamente no território da morte, mas no Tártaro, lá onde os deuses gregos
supliciavam incorrigíveis como Sísifo. Repetir diariamente tarefas pesadas e
inúteis é o que nos espera.
Relacionar o atual governo à irracionalidade do jumento (ou
do gado) pode nos confortar, mas, ao fazê-lo, deixamos de reconhecer a
inteligência dos senhores no poder. Pois eles têm inteligência, grande até; perversa,
de fato. São conluiados com a morte. Se depois das grandes guerras, um ideal de
civilidade e respeito às diferenças parece ter se transformado em um valor universal
e desejável — ainda que pesem todas as atrocidades e guerras praticadas depois
—, sempre houve aqueles que, por uma razão ou outra, continuaram a entender que
governar é matar. Inventam inimigos em países vizinhos ou distantes, senão no
próprio, onde passam a perseguir os que incomodam pela ancestralidade (os
índios), pela potência (os negros), pela luta por independência e igualdade (as
mulheres), pela subversão dos valores tradicionais (a comunidade LGBTQIA+) ou pela
inconformidade (os artistas).
Quem nos comanda atualmente cultiva uma mentalidade mórbida como a descrita. A morte de quase trezentas mil pessoas (número aproximado de habitantes de Petrópolis, a nonagésima cidade, em termos de população, do Brasil, que conta com 5570 municípios), numa pandemia, não aflige os que militam na necropolítica, decerto os contenta. Queimar florestas é um espetáculo bonito. Dar as costas para a cultura é um ato de preservação de valores. Não faltam exemplos de como se compadecem da destruição.
Tenho um amigo que é exemplo dos que acreditam piamente no diálogo como forma de superar diferenças. Coerente com isso, o diálogo tem sido seu instrumento de ação profissional e política, papel que, aliás, desempenha muito bem. Por isso, fiquei surpreso com uma de suas publicações no Twitter. Diante da ruína civilizatória pela qual passamos, ele disse ter compreendido — não como um estudioso de um período passado, mas como alguém que experimenta, adulto e crítico, a dureza e periculosidade de seus dias — a opção de parte da juventude dos anos de 1960 pela luta armada. Meu amigo em nenhum momento defende que peguemos em arma, mas, com a violência e o autoritarismo inconsequente à solta, ele conclui, a escolha pelo combate no campo do inimigo (a violência) não é destituída de racionalidade. Eu acrescentaria: é exatamente isso que o novo poder quer de nós, portanto, tratemos de decepcioná-lo. Mais Gandhis, menos — como são muitos os que ocupam o espaço oposto ao de um pacifista, não cito nomes, preferindo a imagem talvez distorcida de outro animal — abutres.
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| Imagem captada na Internet/sem crédito |
27.2.21
Puxando assunto
Tendo um minutinho, perca-o comigo, porque estou perdido há mais de hora. Perder-se no tempo significa estar com o pensamento ciciando sem cantar e beliscar o braço da irrealidade só para ver se não estou morto. Então, se você se dispõe a perder um minutinho, pode ser que eu não desperdice os meus, que eu tome prumo, consulte o mapa do tempo e encontre uma praça para boa charla, a partir da qual o improdutivo de minhas especulações aporte num diálogo no mínimo agradável.
Como o diálogo se dará assim, eu escrevo, você lê, é imperioso que eu o inicie. Não é difícil concluir que o assunto virá justamente da pororoca de meus devaneios, mas não importa como começam as prosas, importa que evoluam. Depois de um longo tempo distantes uns dos outros, Nelson, Horácio e eu nos encontramos no Bar Luiz, e o princípio da conversa veio de uma proposta feita à queima roupa por Horácio. Que tal se assaltássemos um banco? Num mundo conectado, ele dizia, nada mais fácil. Temos sofrido assaltos virtuais constantes — o roubo de nossos dados, os golpes pelo zap —, assim, na atualidade, assaltar um banco parece fácil, pode-se fazer de casa, mas, naquela época, quinze anos atrás, o mundo ainda ensaiava a plena conexão. Seríamos pioneiros e acabaríamos de vez com os assaltantes de bancos, que são, entre os bandidos, não sei se vocês sabem, os mais respeitados. Pelo menos eram, quando, para assaltar um banco, bastavam revólver e coragem. Hoje assaltam com o uso de drones, bombas e metralhadoras, é um espetáculo que talvez não perdure. O que virá ou já veio é o assalto limpo, à distância.
Horácio não queria
assaltar um banco, queria ligar a máquina do papo furado ali entre chopes e
milanesa com salada de batata. Nelson e eu mordemos a isca, e a conversa se estendeu.
Sobre assalto? Não, falamos sobre o mundo virtual, sobre mulheres, falta de
grana, literatura, descalabros políticos, tudo bem temperado no humor, pois
meus dois amigos são desses. Horácio era.
Se a coisa
começa sempre de qualquer jeito, proponho falar como o envelhecimento, antes de
se instalar no corpo, se insinua nos sentidos. No meu caso, por exemplo, fiquei,
já na passagem dos meus vinte para trinta anos, menos propenso a acompanhar o
que de novo aparecia na música. A velhice precoce ficou restrita à música, pois,
para a literatura, continuei e continuo aberto aos lançamentos. Talvez seja uma
coisa minha, pode ser. Lembro-me de um lugar comum segundo o qual devemos
reservar a velhice para a releitura dos clássicos, sem nos arriscar com os contemporâneos.
Se é verdade, nesse diapasão ainda não sou velho. No campo da música, envelheci
conquanto permanecesse jovem. O pop, com sua bateria tatibitate entremeando a
massa sonora amorfa de instrumentos indistinguíveis, me deixou enfezado ainda
nos anos de 1980. Eu pensei, nunca mais ouço essas músicas, no entanto, há três
ou quatro anos, viajava de Belo Horizonte para Passos e, no pedágio perto de Itaúna,
prestei atenção ao som que tocava. Que lindo! O que era? Michael Jackson.
Estou tentando
dizer que eu me fechei ao pop que surgiu no rastro do próprio Michael Jackson.
Acho que depois que o pop que me deu nos nervos envelheceu, eu, impiedosa e
musicalmente velho, o acolhi. É uma tese e requer tempo para que eu a explique.
Exige um chope. Ou dois. Ou três.
Aproveito esse
papo de estranhamento, ter envelhecido quando eu era novo, aceitar o novo
quando ele envelheceu, e mudo de assunto. — (Estivesse no bar, o número de
chopes na mesa possibilitaria empilhar os porta-copos de papelão e jogá-los
para cima para tentar agarrá-los sem que nenhum se desprendesse da pilha e
antes que todos caíssem no chão.) — Não gosto de armas, se dei dois ou três
tiros com espingarda de chumbo foi muito, e foi frustrante. Não vi graça alguma.
Nunca quis matar passarinhos, nem a tiros nem a estilingadas, no máximo quis aprisioná-los,
e, para tal, armei alçapão e esperei, esperei. Juro, nunca capturei nenhum. Os
que tive ganhei de presente, comprei ou barganhei — barganha na qual invariavelmente
levava manta. Dos maus negócios não me arrependo, de ter aprisionado
passarinhos, sim.
Armas espalhadas
entre a população promovem a violência, basta ler as pesquisas para se certificar
disso. Mas o que temos no catálogo do poder? Uma bandeja de armas no lugar de
uma de alimentos, isso que anda custando o olho da cara num momento em que
muita gente retrocedeu da pobreza para a miséria; uma saraivada de tiros no lugar
de um pico de vacina. A infelicidade tomou o palco e faz o show. Na plateia, há
os que deliram e rugem como se fossem felizes.
Chego àquele instante
em que, se estivesse no bar e cansado de falar, beberia um gole longo, olharia
para alguma coisa interessante que se passasse na rua, a beleza de uma mulher,
a ternura de uma criança que, em vez de andar, saltitasse sem largar a mão de
seu acompanhante adulto, o abandono da lata vazia de cerveja a ser amassada
pela roda de um carro velho, a imobilidade do poste prestes a ser aceso;
olharia para a vida, enfim, tão besta e maravilhosa.
Chego àquele instante em que sou todo ouvidos.
25.2.21
Urgência no céu
Ao olhar para a Terra, como faz todas as manhãs, Deus sentiu um baque. Só agora?, pensou o arcanjo que ordena os pensamentos de Deus. Pensou, mas não ousou falar, afinal, um ano na Terra é um segundo no relógio divino, não deveria ser tão inflexível com Deus, logo com Ele. Mas Deus, e isso é que importa, sentiu o baque ao ver que um corpo invisível, tanto quanto Ele, mas sem a Sua significância, pregava uma derrota fragorosa em Seus filhos. Dessa vez, Suas crianças não promoviam a guerra para matarem umas às outros, embora as guerras persistissem, elas simplesmente caíam feridas ou mortas pelo tal vírus. Não só por ele, concluiu Deus, ao fixar melhor Seus óculos no rosto que nunca se cansa. Suas crianças lidavam mal com o bichinho, não teriam aprendido nada com as situações similares enfrentadas ao longo da História. Eram destituídos de inteligência? Deus sabia que não. Suas crianças guerreavam até quando não havia motivo, motivo lá deles, que Deus nunca compreendeu ao certo.
Deus foi olhando caso a caso. A Nova Zelândia e outros
poucos lidaram bem com tudo desde o início, ali estava uma gente que aprendera
alguma coisa. Israel cuidava bem dos seus, aplicando-lhes rapidamente a vacina,
embora maltratasse seus vizinhos palestinos, dificultando-lhes o acesso ao
elixir. Uma gota de alegria e outra de tristeza. A Europa ia aos trancos e
barrancos, porém ricos como eram, dariam um jeito em tudo. O mesmo aconteceria nos
EUA, no Canadá. A África é a lágrima de Deus, e ele preferiu olhar mais tarde e
com cuidado aquele caso. Talvez tivesse de intervir, sabia-se lá se segurando a
mão dos poderosos dos países ricos, fazendo-os transferir recursos e/ou
vacinas, ou mandando uma tormenta onde abundasse a indiferença em relação às
crianças que deram início à vida na Terra.
Quando bateu os olhos no Brasil, Deus caiu sentado. Os
arcanjos deram-lhe de beber, molharam Seu rosto, afrouxaram Suas vestes. Seu
arcanjo confessor pediu aos outros que saíssem. Deus nem esperou que o arcanjo
se aproximasse depois de fechar a porta e foi logo dizendo: muitos mortos, uma
sandice atrás da outra, políticos interessados em si mesmos e não em quem
representam, a pobreza crescendo como flor no Éden, o amor sendo ceifado como
praga. O confessor nunca havia visto Deus assim, quer dizer, já, mas havia,
dessa vez, uma entrega, uma desistência. Deus retomou a voz. Disse ao arcanjo
que precisaria pensar bem em como agiria, e ele agiria. (O arcanjo suspirou,
ah, o velho Deus!) Uma primeira atitude seria talvez cosmética, não se
importava, era necessária. Que lhe chamassem Aurélio e Houaiss.
— Senhores, o que é Brasil?
— Um país, Pai — adiantou-se Houaiss.
— Disso eu sei, embora no momento preferia não saber. Mas a
palavra, o que é?
— Substantivo masculino, hoje nome do país, mas foi primeiro
a árvore que ali abundava, o Pau-brasil. Por extensão, e ainda como
substantivo, a cor dessa árvore, um avermelhado, uma tintura fabricada com sua
madeira — explicou-lhe Aurélio.
— Um substantivo. Pois os senhores, sentem-se ali e tratem
de transformá-lo em um adjetivo.
— Um adjetivo, Pai?
— Sim, Houaiss. Um adjetivo que ande ao lado dos piores, daqueles que existem para marcar os que andam longe de mim.
Os dois dicionaristas, um pouco acabrunhados, sentindo-se traidores da pátria, não tinham o que fazer, uma ordem de Deus não se questiona, cumpre-se. Além do mais, bem, além do mais, eles olhavam para o país e viam como tudo encaminhava para a destruição. Dia triste no infinito.
19.2.21
Movimentos (publicado em Contos de homem, de 1995)
Número Um
Mandararn? Eu
fui. Está aqui a agulha perdida no palheiro.
Número Dois
Ir até lá. Eu
queria, e pronto. Juntei as forças, abri as portas. Não brindei despedidas ou
apertei mãos, prometendo espaço dentro de mim.
A estrada era um
rascunho de deserto. Mas não sofri o sol nem tive sede. Deixei a poeira levantar-se
e não virei o rosto para ter certeza de que ficava para trás o que ficava para
trás.
Nenhum problema
maior. Um ou outro carro na contramão, uma friagem na madrugada. E só. Cheguei.
Encontrei
aquilo que eu queria. Comprei o que pude; o resto roubei. Montei meu reino.
Construí os castelos, os porões, as estrebarias para os corcéis de guerra,
raptei a virgem. Tudo pronto. Ordenei que descessem a ponte. E, estranho, tive medo
de entrar.
Número Três
Na comunhão do
pó, forjo alegria. A lâmina risca os trilhos, o corpo recebe a dádiva. Eu
danço, ele dança, nós dançamos. Um carnaval simulado. O sorriso nos lábios é
anúncio de pasta de dente. O aperto de mão, negócio fechado. Tenho o controle do
leme, mas a sensação de que no barco sou caroneiro.
Amanhã, o
último confete estará colado ao peito, ainda. Uma dor incorruptível. Não me devolverão
sequer um níquel. Abro janelas, cadê luz? Remexo minhas gavetas, e é um lenço
de Soraia, um cinto de Solange. Mas elas, elas mesmas, não estão aqui.
Carregaram a lembrança do meu peso, regaram-se com meu jorro, na melhor das hipóteses.
Com que pernas
vim dar nesse porto? Eu era moço, viril, e isto bastava. Mas se futuco mais, esgarçando
o tecido do colchão, riscando a tinta da parede, abro caminhos. Sigo pelas
frestas e molas, nos vazios possíveis. Pronto, tenho ao alcance das mãos. Pego.
Aperto. Ai!
Uma minhoca
veio viver na minha cabeça. Depois, uma outra, e outra, e outra. Na louça dos meus
dentes, cáries. Nas pessoas de ouro, carne. Meus sonhos, imagens desfocadas na
lente que é puro mofo.
Número
quatro
Não restaram
nem os ratos; estou só. Parece, assim mesmo, que é o início da festa. A madeira
do chão range, pisoteada por passos que já fugiram de mim. No tanque, a roupa
úmida cria bolores, meu retrato com cheiro. O som da gota que cai
ininterruptamente convida para mais uma dança. Aceito. Apago as luzes, e me
solto. Vou-me desfazendo, novelo. Meus fios não viram nada, casaco, colete ou
luvas. A última convidada me recolhe, com vassoura e pá. Lança-me no Azul.
Número Cinco
Eu chovo.
13.2.21
Veja bem essa gente
Para o Matheusinho
Cansado do
trabalho usual, o japonês Shoji Morimoto inventou de vender sua maior
habilidade: "comer, beber (com responsabilidade, claro) e dar respostas
simples". Ele, a uma diária de uns quinhentos mangos, livre das despesas
de locomoção e alimentação, atende àqueles que querem companhia. Shoji fica lá
quieto, comendo e bebendo, e, a pedido e não passando disso, pode dar um adeusinho
numa estação ferroviária. Consta que tem faturado o suficiente para pagar as
despesas de casa. Se pudesse, eu o contrataria para ouvir suas respostas
simples, coisa rara neste mundo em que sobram respostas simplórias.
Há alguns anos,
havia lido sobre serviço similar, oferecido no mesmo Japão. Na reportagem,
enumeravam algumas demandas: alguém para se passar pelo pai num jantar com a família
da namorada; homem ou mulher para chorar um morto (nossas velhas carpideiras); uma
pessoa para, ao chegar a um bar, abordar o contratante assim meio por acaso, como
se fosse um desgarrado à procura de um amigo. A solidão também vai ao mercado.
Alguns amigos
de São Paulo me contaram que na firma na qual trabalhavam havia um sujeito bom
de conversa, verdadeiro sedutor, característica que dava a ele certa desenvoltura
no negócio. Descobriu-se com o tempo que era um mitômano. No dia de seu
aniversário, ele contratava um serviço para espalhar, pela rua da empresa,
faixas enaltecendo seu nome e deixar sobre a sua mesa de trabalho uma magnífica
cesta recheada de guloseimas, além de balões e fitas enfeitando os quatro cantos.
Havia até bilhete de quem enviava os mimos, alguém fictício. O espantoso para os
meus amigos paulistanos é que a estranha figura casou-se com uma juíza. Se era
sedutor, por que não haveria de se casar com juíza ou com quem quer seja? Difícil
é manter o casamento, mas ninguém nunca soube me dizer se foi o caso, pois o colega
pediu transferência, foi para o interior e não deixou nem endereço nem
telefone.
Quando, no
início dos anos 1980, eu e Carlos fomos à Bolívia, dentre as várias experiências
interessantes, uma me marcou de modo especial. Não sei se estávamos em Totora,
perto de Cochabamba, ou em Potosí. É provável que estivéssemos na primeira,
pois ali convivíamos com as pessoas do local e éramos convidados para visitar
suas casas. Numa cidade ou noutra, era um almoço, e eu, depois de me servir, não
havendo mesa e cadeira suficientes, fui para um canto do cômodo e me agachei.
Comecei a comer e em determinado momento percebi que todos me olhavam. Meu
espanhol era (e é) sofrível, então recorri à ajuda de Carlos, chileno, e soube
que todos estavam encantados com a minha posição. Não era comum uma pessoa ou
um homem de cócoras, ou de cócoras comendo, ou um não boliviano acomodar-se
daquele jeito na hora da refeição. Um montanhês de Minas não é um andino.
Na minha cidade,
havia os irmãos Máximo e Mínimo. O Máximo se chamava Máximo, e Mínimo talvez fosse
apelido. O primeiro, expansivo e mentiroso, conseguia, mal chegasse a qualquer
lugar, ficar rodeado de gente interessada em sua conversa interminável. O
segundo entrava mudo e saía calado, e entre uma coisa e outra, sentava-se na roda
que tinha seu irmão como centro e o ouvia, atentamente o ouvia. Numa síntese
rasteira, o Máximo era o máximo, e mínimo era o Mínimo. Um dia, eles sumiram da
minha vida, e, desconhecendo o paradeiro e o destino dos dois, só me resta
especular. Foram para Serra da Saudade, lá envelheceram e se esqueceram do
passado. O Mínimo virou barbeiro e o Máximo, jogador de truco a dinheiro. Pode
ser que hoje o Mínimo fale pelos cotovelos e o Máximo chore, inconformado com a
velhice. Talvez sejam solitários e tristes, ou, ao contrário, são eles que
garantem a alegria da menor — e de nome mais bonito — cidade do Brasil.
Em outubro de
1991, dois meses antes de minha filha nascer, por conta do trabalho, fui a Helsinque.
Estava sozinho e gostava de caminhar à toa depois do compromisso. Meu olhar
estrangeiro se espantava, por exemplo, com o fato de ninguém atravessar a avenida
sem carros quando o sinal estava vermelho para os pedestres. Uma bobagem de espanto,
principalmente diante de um outro que eu teria numa das andanças. Ao chegar a
uma praça, como se por encanto, o sol apareceu, atravessou a copa das árvores e
elevou a temperatura de dez graus para doze, não mais que isso. Uma mulher, que
ia à minha frente, sentou-se num dos bancos, tirou a blusa, o sutiã e deu-se ao
sol. O sol não ficou por muito tempo, e assim que ele se foi, a mulher se vestiu
e tomou seu rumo.
Na república em
que me hospedava em Freiburg, na Alemanha, o chuveiro ficava na cozinha e o vaso
sanitário, na área comum do prédio. Quando os moradores iam ao vaso, andavam
nus pelo prédio. Quando queriam tomar banho, despiam-se na cozinha, tivesse ou
não outras pessoas por lá — e, em torno da mesa, sempre havia amigos e amigas. Eu
tomava banho no descuido do sono de todos.
Esta crônica começou quando Matheusinho, ao ser questionado sobre por que havia feito uma coisa e não outra, respondeu assim: “Não tive tempo de fazer as duas ao mesmo tempo”. A frase pouco comum disparou meu circuito de associações e me levou às histórias recém-contadas. Sabe, gente, o cronista é, antes de tudo, um carro que só pega no tranco e, uma vez em funcionamento, tergiversa pelas ruas.
30.1.21
Um encontro com Stein e Lebowitz
Li “A autobiografia de todo mundo” (Everybody´s Autobiography), de Gertrude Stein, numa edição da CosacNaify. É um diário? Um ensaio? Uma crônica de viagem? É tudo isso. Se eu fosse Funes, o memorioso de Borges, decoraria as mais de trezentas páginas da autobiografia que, sendo de todo mundo, é minha e de quem passe os olhos por ela. Escrito com enorme liberdade sintática — me pareceu muito bem transcriada por Júlio Castañon Guimarães —, o livro conta o cotidiano dessa escritora americana que vivia em Paris, dando ênfase ao tempo em que ela, depois de estar trinta anos ausente, volta aos Estados Unidos para uma série de conferências. Destas não ficamos sabendo nada ou quase nada, mas das viagens de trem, de carro ou de avião (era a primeira vez que ela voava), dos hotéis, da comida, dos encontros, do encantamento com a paisagem, sim.
Stein confronta os estilos de vida americano e europeu, fala de artes plásticas, enumera personagens famosos que circulam à sua volta, Picasso, Chaplin, outros tantos. O permanente trânsito entre dentro e fora, entre pensar e viver, talvez seja o ponto central da obra. Tudo que Stein faz qualquer um de nós faria; e tudo que conta nós poderíamos contar. A diferença é que ela escreve, e escreve como se pensa, não como se fala ou até mesmo como se escreve. O livro é, enfim, uma reflexão sobre a escrita que quer dar conta do pensamento em sua amplitude, circularidade e imperfeição, ou seja, quando nasce.Registro uma
passagem. No vaivém pelos Estados Unidos, Stein passa por Virgínia, um lugar muito
vazio. Alguém comenta que o pai, vivendo naquele estado, acorda, senta-se em numa
cadeira e observa os pinheiros crescerem. Isso é tudo e é assim todos os dias.
Stein acha isso muito interessante — interessante é a palavra mais usada por
ela.
Estando, ainda
em Virgínia, com pessoas mais jovens, a escritora nota como são conservadoras e
reflete sobre uma delas: “Ela também era virginiana quer dizer acreditava no
que acreditavam quando os virginianos eram virginianos. Acreditavam que viam a
árvore quando a árvore fora substituída por um edifício, ver a árvore poderia
ser interessante se fosse possível tornar isso interessante mas para essa
geração que ainda vê a árvore quando foi substituída por um edifício e como
esse edifício não é feito de madeira pode não ser interessante.” Não me lembro
de ter visto o entrechoque entre conservar e progredir — tomo conservar e
progredir tanto no sentido econômico quanto no ideológico e afetivo, que a
educação familiar procura perpetuar — escrito de forma tão original.
Vi “Faz de
Conta que NY é uma Cidade” (Pretend It's a City), documentário de Scorsese
sobre Fran Lebowitz. Ela é escritora? Sim, de duas ou três coletâneas de
crônicas escritas na juventude e de um romance inédito que, segundo ela, vem
sendo trabalhado. Apesar da produção escassa, é figura importante no ambiente
cultural e político de Nova York, cidade à qual chegou, no final dos anos de
1960, com dezenove anos. Nos sete episódios disponíveis na Netflix, conhece-se uma
mulher de humor refinado, sarcástica, bibliófila — mantém em seu apartamento dez
mil livros —, dona de uma visão bem peculiar sobre a contemporaneidade.
Esteja certo ou
não, Stein ecoa em Lebowitz. Para além da sagacidade, ambas refletem sobre o
tempo, ainda que de forma distinta. Por estar entre as duas guerras e na ressaca
da Grande Depressão, Stein parece obrigada a acreditar no futuro; Lebowitz, nascida
depois da Segunda Guerra, mostra-se cética em relação ao que sucederá a um presente
cheio de quinquilharias eletrônicas, com pouca interação humana e propenso a
acabar com as livrarias de rua e com a própria leitura.
Stein antes, Lebowitz depois — quando a primeira morreu, a segunda ainda não havia nascido — têm em comum o fato de se ocuparem com qualquer assunto sem o menor pudor. Se aqui e ali demonstram ignorância, preconceito, nunca deixam de olhar o mundo com curiosidade e absoluta certeza de que elas podem e são fundamentais para compreendê-lo.
Stein se considerava gênio, não duvido de que Lebowitz também. Sendo ou não, o que posso dizer é que, flambadas no ego, as duas são deliciosamente instigantes.
18.1.21
Leitores reclamam de falta de limpeza no Terminal Rodoviário
Três meninos de Belfort Roxo
Acordei em mais um dia quente na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A cidade é um caos. O estado é um caos. O país, se não é, está um caos.
Reagi cantarolando
“Fantasia”, de Chico Buarque. A música convida para uma pequena utopia ao dizer:
“Se de repente / a gente distraísse / o ferro do suplício / ao som de uma
canção”. Estribilha: “canta, canta uma esperança / canta, canta uma alegria / canta
mais”. E completa: “Preparando a tinta / enfeitando a praça / canta, canta, canta,
canta / canta a canção de glória / canta a santa melodia.” Ouvi muitas vezes,
repetindo a dose como se fosse uma seringa de heroína, uma talagada de cachaça,
um cigarro, de maconha ou não, tragado no limite dos pulmões.
Não que eu
tivesse esperança de que o calor diminuísse, mas, como o viciado, gostaria de,
por algum instante, me ver livre dessa sensação de que o caos irá nos cozinhar,
nos estorricar, nos tornar inviáveis. Nós, os seres humanos. A nossa vidinha passageira.
Fora a ira que
me acomete aqui e ali, o que sinto é equilibrado e político. O calor e o caos
irão passar, o primeiro temporiamente, pelo menos por enquanto, antes da
efetiva catástrofe ambiental; o segundo para sempre, custe o que custar — e
custará muito.
Para os familiares,
em particular as mães e avós de Lucas Matheus, de oito anos, Alexandre da
Silva, de dez, e Fernando Henrique, de onze, — três meninos que saíram, no dia
27 de dezembro, para brincar na quadra perto de onde vivem em Belfort Roxo, no Castelar,
e estão desaparecidos até hoje —, pode ser que o calor e o caos não passem. Na
busca das crianças, três homens foram mortos pela polícia; um, levado pelas famílias
dos garotos à delegacia, foi acusado de ser o responsável, o que não se
confirmou; um ônibus foi incendiado; a avó dos primos Lucas e Alexandre, depois
de correr atrás de uma pista do paradeiro deles, se envolveu em um acidente automobilístico
de consequências leves. O caos, além do calor.
Não se descarta que essas famílias venham a vestir o luto absoluto, que já cobre inúmeras moradoras das áreas mais desassistidas, aquelas em que o tráfico e a milícia acham por bem coabitar, aquelas em que a polícia não vê problema algum em entrar atirando e matando inocentes em prol do combate ao crime.
A estatística da violência — e outras igualmente indignas — engorda no Brasil. Por aqui, o ferro do suplício não se distrai com nenhuma canção.
_______________________________________
Se quiser, ouça a música do Chico aqui.
4.1.21
2001: Uma odara no terraço
Caetano Veloso terminou sua segunda e última live de 2020 desejando ao público um excelente 2001.
Caetano está
velho? Velho, com certeza; gagá, nem um pouco. Um homem de 78 anos tropeça
física e mentalmente, ora essa! O velho cantou quase trinta canções sem
titubear. Sua voz é ainda cristalina, e ele dá conta de um repertório de um
compositor pleno e compromissado com o tempo em que está, e quem está por tanto
tempo no tempo em que está, sem se tornar um nostálgico empedernido, é, como o
tempo, atemporal. Caetano é.
Seu violão não
é nenhuma maravilha, soa bonitinho e, em Terra — a música, que está no coração
do documentário “Narciso em férias” (Renato Terra e Ricardo Calil), amarra as
pontas do que o baiano tem falado recentemente — esteve abaixo de todo o resto.
Caetano sempre disse que não é músico; músico é o Gil. O irmão de Bethânia é,
segundo ele mesmo, um amador, o que não o impede de ter feito melodias
extraordinárias (não falo do letrista, pois o assunto é o músico), de as ter
cantado e tocado extraordinariamente. Caetano é um gênio.
Gênio
controverso, que numa hora diz odiar o socialismo e noutra diz estar muito
interessado em teóricos marxistas atuais. É um intelectual talvez igualmente amador,
que transita pela avenida de suas paixões e, indiferente a nosso julgamento
sobre ele e suas ideias, trabalha as inquietudes que o movem. Ser amador, no
caso do pai dos três meninos, areja todo o seu trabalho, na música, na escrita,
no cinema.
Por que esse
velho, “rei dos animais” que deixou “a vida e a morte pra trás”, nos desejou um
ano bom por nós já vivido e enterrado e que hoje não passa de uma mancha de alegria
e tristeza na memória?
Em 2001, o país
dava pinta de que assinara um documento de compromisso duradouro com a democracia
e deixaria apenas no registro histórico as exceções autoritárias. A partir de
então, traria à cena o enfrentamento das questões realmente prementes, entre
elas e talvez as mais importantes, a disparidade e a concentração de renda. O
PSDB, na época um partido de centro-direita, civilizado e com boas cabeças,
conseguiu deter a inflação, esse desacerto da economia que atinge com mais
força os pobres — para os economistas, a inflação é um imposto regressivo, portanto
pesa mais sobre os pobres do que sobre os ricos. O PT — que, para ocupar o
poder em seguida, teve de caminhar da esquerda para o centro —, apoiado também
em boas cabeças, radicalizaria as políticas públicas visando a justamente
reduzir as desigualdades. Enfim, os extremos eram ocupados por dois partidos
próximos do centro (e, por conta do pragmatismo político, também do Centrão) e
nem tão distantes um do outro. Esse “arranjo” da democracia durou pouco, e o impeachment
de Dilma Rousseff, estimulado por um PSDB cada vez mais à direita, foi seu velório
e cremação. Das cinzas a democracia não tem renascido.
Iniciado numa
sexta-feira, 2001, com suas trezentas e cinquenta e cinco manhãs e noites, foi
um ano de sufoco mundial, parecido com o atual, embora não estivéssemos
acossados por um vírus, mas pelas mãos desumanas da cobiça — foi o ano do
ataque às Torres Gêmeas e da eleição do little Bush, presidente que deu
voz e arma para a diplomacia da vingança. Mas também, como todo e qualquer ano,
2001 foi cheio de acontecimentos da vida: nele morreram Jorge Amado, Cássia
Eller e o titânico Marcelo Fromer; prenderam, na Colômbia, Fernandinho
Beira-Mar; o Brasil entrou no mundo do racionamento de energia, um sinal do
desequilíbrio ecológico.
Em 1968, jogando-nos para a frente, Kubrick — o cineasta apontado por alguns como responsável pelo truque cinematográfico que nos faz acreditar na chegada do homem à lua — fez “2001 - uma odisseia no espaço”. No filme, em 2001, buscar-se-ia o monolito primordial, a pedra filosofal, navegando no espaço da mesma forma como os gregos navegavam no mar. Caetano, jogando-nos para trás, quer menos, quer, ao refazer o caminho dos últimos vinte anos, evitar os erros cometidos e nos dar um 2021 diferente deste que nos avizinha. Como o espaço é grande demais, Caetano talvez pense que no redivivo 2001 se possa ficar odara no terraço. E que o terraço entusiasme a praça; a praça, a cidade; a cidade, o estado; o estado, o país. Enfim, depois de recuar até 2001, 2021, um ano também com início numa sexta-feira, seria o momento de “ficar tudo joia rara, qualquer coisa que se sonhara”.
Bem que merecíamos.
PS: Ouça Odara.
21.12.20
Bafo de esperança
“Antes que a crueldade faça / de vítima as crianças”
(Murilo Antunes)
As últimas três crônicas falaram de
minhas leituras nos primeiros oito meses de confinamento. Escrever sobre os
livros foi um exercício de memória para o miolo mole aqui. Ainda que não tenha
feito resenha, crítica, qualquer coisa parecida com isso, ao escrever sobre
tantas e tantas páginas, quis mostrar como me relaciono com elas. Mas escrever
sobre livros foi também um jeito de me manter um pouco fora do assunto que domina
o país: seu descaminho.
Ao fazer isso, não
detive os acontecimentos, o que é uma pena.
Nesse período:
O assassinato
de Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes completou mil dias, e ainda
há muito (tudo?) por descobrir sobre essa pistolagem política. Quem mandou matar
Marielle e de enfiada ceifou a vida de Anderson?
As primas
Emilly, quatro anos, e Rebecca, sete, crianças inocentes e, não por coincidência,
negras foram mortas na porta de suas casas no início de dezembro. Juntam-se a outras
dez que, no estado do Rio de Janeiro, morreram só neste ano e em circunstâncias
parecidas: Anna Carolina, João Vitor, Douglas Enzo, Luiz Antônio, João Pedro, Kauã
Vitor, Rayanne, Ítalo Augusto, Maria Alice e Leônidas. Em muitos desses casos, a
morte ocorreu por tiro desferido por um policial.
Em uma cena de
horror, dentro de uma loja da rede Carrefour, dois homens que faziam a
segurança do estabelecimento mataram João Alberto, um negro. João teve uma
morte semelhante à de George Floyd, americano também negro que foi asfixiado pela
perna de um policial. No caso brasileiro, uma senhora, de celular na mão,
acompanhava de perto os dois seguranças — era a coordenadora deles, soube-se
depois — e outros funcionários do mercado auxiliaram no assassinato, por exemplo
impedindo a mulher de João Alberto de se aproximar dele. A coordenadora e esses
outros foram indiciados.
(Não custa
lembrar que, segundo o Atlas da Violência, elaborado pelo Fórum Brasileiro de
Segurança Pública (FBSP) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea),
no Brasil, em 2018, 75,7% das vítimas de homicídio eram negras. Mais do que
isso: entre 2008 e 2018, a cada 100 mil habitantes, o número de negros mortos
saltou de 34,0 para 37,8, ou seja, um aumento de 11,5%, número menor do que a
redução dos assassinatos entre não negros, que saiu de 15,9 para 13,9 a cada
cem mil, redução, portanto, de 12,9%.)
Enquanto
escrevia sobre minhas leituras: inventaram a não-queimada amazônica para estrangeiro
ver; não renovaram o contrato do teste de genotipagem dos vírus da Aids e da hepatite
C, o que impacta a escolha do tratamento; usaram a Abin, órgão público, para
auxiliar um dos filhos do presidente a se safar da suspeita de fazer
rachadinhas quando foi deputado estadual no Rio de Janeiro; chamaram a China
para a briga — quer dizer, um inconsequente fez uma lambança diplomática.
A Covid-19, que
havia diminuído, recrudesceu. Claro que não foi pelos ajuntamentos em praias,
em festas. Não foi pela falta de máscaras. O negacionismo e a incompetência
administrativa dos mandatários da república não têm um dedo de responsabilidade
sobre a situação, óbvio que não, foram os inimigos do país que, durante o nosso
sono, espalharam o vírus em nossas casas. Para completar, a vacina, que já se
aplica lá nas estranjas, aqui é apenas uma palavra na boca da pior política.
Durante vinte e
dois dias, um apagão tomou o Amapá. Estando tudo às escuras, o governo federal não
viu o estado e empurrou com a barriga a solução, mesmo uma provisória. A população,
além de sofrer todas as consequências da falta de luz (conservação de
alimentos, comunicação, abastecimento de água e por aí afora), se viu acuada por
criminosos.
Para tentar reverter
o baixo astral da crônica, cito dois ou três fatos que podem servir de alento.
Trump foi
despejado do poder.
Existe a vacina.
Mais uma boa-nova?
Em 2019, Emicida lançou AmarElo, um disco que serve como ponto de confluência da cultura negra brasileira — que passa, em termos musicais, pelo samba, pelo funk, pelo hip hop, pelo rap — e de onde ecoam a música banhada em toda essa influência e o grito de resistência da gente negra, que não aceita mais tudo isso que temos visto: assassinato de Marielle, Emilly, Rebecca, João Alfredo, discriminação no mercado de trabalho, impedimento de acesso às universidades, exclusão da política, perseguição religiosa etc. E bem agora, enquanto eu falava de minhas leituras, um documentário em volta de um show que Emicida fez no Municipal de São Paulo (no Municipal, sim) foi disponibilizado na Netflix. Disco e documentário fazem de Emicida o bafo de esperança que nos ajuda a atravessar esses dias imerecidos.
6.12.20
O que fiz das minhas leituras de confinamento: final
Para encerrar os comentários sobre minhas leituras em tempo de confinamento, faço mais alguns e, se não estou errado, feito isso, terei dado conta dos livros de prosa lidos entre março — quando terminei, ainda antes do confinamento, “Os miseráveis”, de Victor Hugo — e novembro.
“Pais e filhos” (Cosacnaify), de Ivan Turguêniev, uma história
que, situada num momento de transição na Rússia, quando se dá o fim da servidão,
popularizou o termo niilista. No romance, o tal niilista é o sujeito
frio, científico e, por ironia e o grande achado do autor russo, incapaz de se
manter em pé diante do amor. “O caminho de San Giovanni” (Companhia das Letras) é uma série de ensaios memorialísticos, que têm
como pano de fundo a cidade natal de Ítalo Calvino. O papel do cinema, a
plantação do pai, aspectos da cidade pequena se juntam na cabeça desse escritor
tão peculiar que, por meio da escrita, nos conduz pela geografia de seu
pensamento.
Numa blitz à estante, encontrei “O corpo e outras histórias”
(Companhia das Letras), de Hanif Kureishi, livro com uma novela — “O corpo”, que
é (estamos num momento em que se é possível nos transferir para outro corpo) e não
é (a questão da técnica e a consequência social não são muito exploradas) ficção
científica — e uma série de contos, eu diria que bem estranhos, desses que dão
uma chacoalhada no leitor. Ainda assim, nada parecido em intensidade e risco ao
que faz Sam Shepard no romance “Aqui de dentro” (Estação Liberdade). O
múltiplo autor, ao mesmo tempo que escreve um romance, o desestrutura. Talvez
por isso, Patti Smith, ex-companheira de Shepard, diz que, ao ler os originais,
navegou “por um mosaico de ecos de conversas, perspectivas alteradas,
lembranças claras e impressões alucinatórias”.
“A visita de João Gilberto aos Novos Baianos” (Companhia das Letras),
de Sérgio Rodrigues, usa como tema o futebol (é do autor “O drible”, um dos
romances contemporâneos que resistirão ao tempo), a música e o mundo da literatura.
Se Sérgio Sant’anna escreveu, nos anos de 1980, “O concerto de João Gilberto
no Rio de Janeiro” (Companhia das Letras), cujo conto-título mostra como toda
a cidade se mobilizou pelo show de João Gilberto, cancelado na última hora,
Sérgio Rodrigues narra a visita do cantor (um artista reconhecido, já um pouco
senhor) aos Novos Baianos (aquela turma jovem, que vivia em comunidade e sobre
a qual recaíam todos os tipos de suspeita: amor livre, uso de drogas). Os dois
contos ajudam a entender como o pai da bossa nova transformou-se em “mito”. No
caso do livro de Rodrigues, seus contos sobre o mundo da literatura são um
achado, deliciosamente irônicos.
Procurando dar conta de leituras atrasadas, li “Ensaio para o adeus”,
de Eliezer Moreira (Editora Patuá), um romance de suspense, baseado em uma
história muito peculiar, a de um repórter que, ao cobrir um assassinato, vê que
o morto é a sua cara e com ele passa a ser confundido. Eliezer foi finalista do
Jabuti de 2019, com outro livro, pelo que li a respeito, na linha desse
primeiro, “Olhos bruxos” (Penalux).
Destaco duas leituras de mulheres, Lívia Garcia-Roza, “Meus queridos estranhos” (Record), e Andressa Barichello, “Ter a escrita” (Editora Patuá). Lívia escreve sobre uma mulher transitando entre os quarenta e os cinquenta anos abandonada pelo marido. Apesar de ele falecer logo em seguida e a viúva não tardar a casar-se de novo, a dor de ter sido abandonada perdura. O fato de ter uma filha adolescente, caprichosamente adolescente, não consegue ocupar esse vazio, se é que não o aumente. A mulher burguesa, educada, sem grandes limitações financeiras, enfim, moderna, caminha pelo livro percorrendo um arco muito bem (d)escrito de nuances. O livro de Andressa é de crônica. Sou cronista e não consigo fugir de comparar o meu mundo ao de Andressa. Começo pelo óbvio: eu um homem, ela uma mulher. Eu nos últimos passos da minha quinta década de vida, ela na força da juventude. Eu cada dia mais enfrentando o mundo de fora para dentro, ela, de dentro para fora. Gosto dessas diferenças. Seja como for, o talento da escritora foi reconhecido pelo Jabuti, que incluiu seu livro entre os semifinalistas do prêmio de 2019.
O último livro do período é realmente uma charada, pode ser um livro de ensaio ou um metarromance, um livro de humor ou, o que não descarta o humor, de reflexão profunda sobre a escrita. O título dá uma pista sobre o “mistério” alimentado por Marcel Bénabou, “Por que não escrevi nenhum de meus livros” (Tabla). O autor era, ao lado de Calvino e outros, membro do Oulipo — Ouvroir de Littérature Potentielle —, grupo que se impõe, na construção de uma história, regras limitantes, por exemplo, escrever sem usar a vogal “e”, o que fez Georges Perec em “O sumiço”. No livro que comento, a primeira discussão de Bénabou é como alguém pode não escrever nenhum de seus livros. A partir daí, há um embate intenso entre o leitor e o escritor, entre o escritor que tem pressa em publicar e o que não tem nenhuma, entre o escritor e o sujeito que deseja apenas um banho de sol. Como minhas crônicas foram sobre leitura, logo, um campo largo para meu esquecimento mostrar toda sua força, cito do livro: “Hoje, quando por exemplo arrumando caem-me às mãos certos folhetos em que anotara os títulos e as datas de minhas leituras de então, fixo-os longamente, incrédulo e consternado que absurda bulimia foi essa que me fez devorar tantas obras cuja lembrança não guardei, nem mesmo de tê-las manuseado?”
Matemática Bufa (publicado em Contos de homem, livro de 1995)
Veja, por exemplo, o Zé.
Biscateiro,
faz ponto a uns trinta quilômetros de casa, assalariado mínimo. Só na condução
ele gasta em torno de 20% da propina. Somando os outros gastos, inclusive a
indispensável birita do dia-a-dia, chega-se a um déficit fácil.
Surpresa:
Zé tem duas mulheres, Neide e Fátima.
Neide é
esposa, papel passado em cartório, com testemunha, terno, vestido branco e
tudo. O tudo incluindo uma saborosa sidra gelada, estourada sob os aplausos dos
parentes mais próximos e o olhar amistoso e contente dos sogros.
Sim. e
lua-de-mel. Perfume de Neide parecendo fugir do quarto do hotel. A vontade de
Zé fugindo mesmo pela porta afora, voltando ao quarto, doendo. O encontro?
Desculpe, uma foda ótima.
Fátima
apareceu depois, e não há qualquer explicação baseada em crise de Zé e Neide, pileques
inconsequentes do biscateiro ou pura peruagem. Sei lá, foi um flerte. Foi uma coisa
tão forte, querendo e empurrando um para o outro, que não teve jeito.
No
início, Zé quis guardá-las em compartimentos separados da sua afeição. Escondeu
da Neide a Fátima e da Fátima a Neide. Mas ...
Um
salário mínimo já é quase nada, é conta a pagar no próximo mês. Sabe, é o
capricho de uma pedindo, e o não-querer nada da outra pedindo mais ainda. A
grana não dava. E mais: era uma dor na consciência tão grande,
que meteu duas caninhas na goela, um chiclete no bafo, colocou Neide no colo e
falou de supetão.
Imagine
Neide. Moça talhada para isso mesmo, não poder tomar a sopa sozinha, dividir o leite
condensado com os nove irmãos etc. e tal. Sua resposta foi um silêncio manso, canto
de passarinho. E um pedido: conhecer a outra.
Mesma
coisa fez Fátima. Disse não se espantar, mas fazia questão de dizer à primeira
que a respeitava, dali por diante, mais que à própria mãe.
O
triângulo se fechou na sala da casa de Zé e Neide, tomando as seguintes
decisões:
i)
Fátima se mudaria para alguma casa ali perto;
ií) Os
três trabalhariam para conseguir mais grana;
iii)
Estavam felizes.
O que
veio depois foi glória, glória, o além da glória. Juntando os três salários
mínimos, descobriram que a cada um cabia mais que um salário. Fazendo de suas
despesas uma coisa única, pouparam e compraram uma televisão, fizeram roupas
bonitas para os fins de semana. Milagre: geladeira, cerveja gelada e Zé
chegando sempre cedo em casa.
Ali
pelas dez horas em um leilão velado, uma delas arrematava o companheiro
e levava-o para exibir seu vigor sereno e incessante.
Esse
era mais um lado dessa matemática. Cada uma delas, mesmo tendo apenas metade, tinha
um inteiro. Na lógica do quando está comigo é meu, tinham o desejo saciado, e o
olho nem pensava em futuro ou martelava saudade do passado.
Havia,
contudo, nisso tudo, um sistema sem solução: a cobiça. Zé, baseado em sua experiência
recente, imaginou que uma terceira mulher talvez lhe possibilitasse um carro.
Não queria, é verdade, nenhum carro do ano, modelo esportivo, roda
talalarga. Um Fusca antigo, uma Rural, Chevette, Gordini, TL, Corcel, o que
fosse, ia diminuir a distância entre o biscate e a casa, ia aumentar o tempo de
Zé para suas meninas.
Deixa
de voltar mais cedo para casa um dia, adentra o bar da dona Sara e, sob
os vivas dos camaradas antigos, aquece o espírito de cana, a coragem começa a
dar pulinhos e o olho gruda em Neusa.
Neide e
Fátima estão em casa, não têm nenhum pensamento ruim ou expectativa frustrada. Sabem
que mais cedo ou mais tarde o Zé chega. Estão um pouco ansiosas porque querem contar
a ele dos filhos que vêm. E tricotam, das receitas aprendidas juntas, os
primeiros sapatinhos.
Agora é
esperar. Se ele trouxer notícias de Neusa ou a própria, em carne e osso, será que
o brim do ciúme esgarça?
Antes
que ele se adiante, soltando a língua, recebe a notícia. Mal absorve a emoção,
pensa no dinheiro. Não será
pouco? Elas ouvem o plano, Neusa incluída, e sorriem esperança. Zé procura a
vizinha proprietária de um cômodo e o aluga.
Neusa chega no dia seguinte, distribuindo uma alegria imensa, escancarando à toa o riso fácil. Em instantes já é convidada para ser madrinha das duas crianças. Apenas um detalhe gostaria de esclarecer: vai contribuir para aquela cooperativa com mais de um salário; em compensação se ausentará de noite. Portanto, Zé é dela pelas manhãs: café, pão e, sic, pau.
E a creche? Sabe quanto custa? Uma fortuna. Solução: a quarta mulher. Esta já nem é propriamente escolhida nem se amiga para valer das outras. A quinta mulher, Neide não a conhece. Nem progressão geométrica daria conta da velocidade com que Zé se amasia com novas mulheres.
Mais importante, contudo, é saber se Zé, um dividido por entre infinitas, quase zero, dançava ainda apenas a dança do amante infalível ou se planejava o próximo sonho de consumo.
Zé, bem, o velho Zé rodava em círculo, grana pede mais grana. Já não trabalhava. Tinha casa própria. Tinha carro, moto, lancha. Tinha cavalo correndo no Jóquei. Filho estudando na PUC. Filha atriz. E, pasme, uma amante. Sim, uma amante tradicional, escondida das outras, trancafiada em um pequeno apartamento do subúrbio, com direito a frequentar desfiles de moda, lugares da moda, e tudo o mais.
E o que ele não faria por ela, moça de seus vinte anos no máximo? Faria gatos e lagartos. Se grana pede mais
grana, ele estava disposto ao pior: ao roubo.
Quando ela lhe pediu um apartamento na Zona Sul, raspou o dinheiro do banco, vendeu a casa, os carros,
a filha. Banana para as esposas.
Surpresa:
conseguiu ficar com menos de um salário. Na verdade, meio. Menos, 25%. Quase
nada, 1% de um salário mínimo.
A realidade nua e crua e a matemática pura quando se juntam, é o que digo, não há como escapulir. Zé é Zé sempre. No máximo, na opulência da quinta dose, permite fingir-se milionário para o espelho sujo do banheiro, no bar de décima categoria. Prova do não-teorema.
Traços (publicado em Contos de homem, livro de 1995)
Às vezes sai perdida pela cidade. Procura uma apuirana de onde possa sugar toda a estricnina. Noutras, tranca-se em casa, esperando ser capturada e salva por algo, alguém, pai, mãe, o além.
Resistiu
a tudo. Até a um amor.
. . . o
amor foi como uma rosa nascendo no concreto: belo, mas inútil.
Não é
bonita. Um metro e sessenta, cinquenta e quatro quilos, mãos compridas, unhas grandes
de fundo rosado, sobrancelhas finas e cílios espessos. Pés magros de veias salientes,
a tez muito branca. Os pelos crespos, vermelhos e abundantes. Nádegas pequenas.
Tampouco
é feia. Olho preto de jabuticaba, nariz torneado, boca tímida, carmim. Dentes
sempre brancos, sem nicotina. Cabelos muito longos.
Ano
passado recebeu um assobio na rua. Chorou. Estoica por fora, não se sabia como
por dentro. Que tinha células sabia. Também, que tinha os aparelhos digestivo e
reprodutivo. Rins, pulmão. Mas e que mais?
No dia
em que acordou com o sexo umedecido e as mãos nele, atirou-se violentamente contra
a parede, pousou o ferro quente pelo corpo. Sorriu por se sentir tão bem.
Quebrou
os espelhos da casa porque achava que a imagem refletida não era a sua. Era triste
assim? Aquelas olheiras dilaceravam mesmo o seu rosto? E as espinhas? Espelho algum
dia foi feito para mostrar a dor?
Foi morar
dentro do guarda-roupa, fitando a lembrança do espelho. Aí recordou o
dia. O pai morto, a mãe chorando, e ela querendo que ele acordasse.
Ela é a
Maria José do José e da Maria. A síntese. Não é a princesa que o pai
inventaria. Não é a mulher que a mãe desejou.
Quando
vai ao bar, diz ao garçom que espera nove amigos. Os outros são meras possibilidades
de amizade. Sai antes de a bebida chegar.
Em um
domingo de missa, ganhou um beijo. Ainda hoje sabe de cor seu gosto e, quando quer,
sente.
Já deu
um beijo. No vento.
Conhecia
Cecília Meireles. Pegava o telefone, discava um número qualquer e recitava: "Eu
não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes
olhos tão vazios, nem o lábio amargo". Como ninguém a ouvia até o final, deixou
de conhecer a poeta.
O banho quente a tranquiliza. Dentro d’água, mesmo fria, sorri sem culpa ou medo. Batizou essa sensação de amor.
Agora ela está lá, no alto da ponte, namorando o mar.
A caça (publicado em Contos de homem, livro de 1995)
A mata é hermética. O sol, quando consegue penetrá-la, é um fio, um frio facho de luz.
O que
faço aqui? Caço. Comigo levo meu cão, minha arma, o saco para depositar a caça.
Lá vem
um bicho. Tum, tum ...
Guardo
o elefante.
Minha
mãe chega, senta-se na cadeira, perto da mesa, perto da churrasqueira, perto de
meu pai. Aproximo-me deles, sirvo-lhes, em bandeja de prata, o elefante
temperado. Com o susto, infartam.
Pais
...
A mata
cada vez mais fechada, um breu. Os morcegos tentam atacar-me. Primmm ...
Minha
mulher chega do cabeleireiro. Está linda, o cabelo como um bolo de festa.
Dou-lhe um beijo, prendo-a em meus braços, solto em suas costas os morcegos.
Descabelando-se, atira-se pela janela. Plaft seco e buzinas fanhas engarrafam o
trânsito.
Mulher
...
No meio
da selva, assusto-me com um rio. Lanço nele rede, isca, vara,
anzol. Pesco um tubarão.
As
crianças acordam ansiosas pelo aquário novo. Enquanto se distraem com os
peixinhos, desfaço a armadilha, cai do teto o tubarão. Como a água corre para o
ralo, as crianças se jogam nos dentes da fera, que em um último impulso as
devora,
Crianças
...
Morreu
o cão. Perdi a arma.
Para lá ou para cá. Mata sem fim.
Caçador...





