23.5.20

Viveremos em Marte

Em quarentena, a noção de espaço muda, se é que o próprio espaço não mude. Vamos com calma: a noção de espaço muda. Acostumado a caminhar — às vezes sozinho, noutras com os amigos Marco Antonio e Fernando — dez quilômetros pelo Aterro, nesta época de confinamento, às 16h, vou do quarto ao banheiro, do banheiro, passando pela sala e pela cozinha, à área de serviço e, de lá, volto ao quarto e recomeço. É uma caminhada bem menor que aquela sob o sol, margeando, como disse Lévi-Strauss, segundo Caetano Veloso, a boca banguela da praia de Botafogo — ando dez minutos e não dez quilômetros. De manhã, tomo quinze minutos de sol.

Rotina. Rotina e disciplina. Resignação com um tempero de desobediência. Se o presindecente nos quer em vida normal, estar confinado é desobediência civil. Portanto desobedeço. Mas, neste instante, quero escrever sobre o confinamento, a política em nazi menor sustenido deixo um pouco de lado, na entrelinha, sob o tapete.

Se não me organizo, nem sei o que pode acontecer. Chutar o medo, descer à rua, dançar pela calçada, entrar no mercado apenas para ver o preço do óleo da soja colhida no oeste do oeste do Centro-Oeste? Seria lindo, não fosse estúpido. Fico em casa e, à distância, participo de reuniões de trabalho em plataformas impressionantes, mas incapazes de fazer da reunião uma reunião de fato. Quando vejo, em miniaturas, todos os colegas, deparo-me com pessoas pouco preocupadas em olhar o outro ou para o outro. Ao contratempo, a solução possível. O virtual é o novo aqui, um menos aqui que o aqui de sempre, pois falta-lhe sutileza.

Estranho mundo. Criticávamos as redes sociais por nos darem a falsa sensação de proximidade, e agora é tudo que temos. Então, reescrevo a frase anterior: as redes sociais são a única forma de encontro. Me dê um emoticon ou um like e, de curtida em curtida, superemos a morte diária. De curtida em curtida, cantemos. De curtida em curtida, falemos daquele meme, daquele vídeo, daquele verso.

Depois que o espaço desmilinguiu-se e perdeu o sentido, construímos a vizinhança afetiva. Nela, o Whatsapp, o Facebook e o Instagran são as janelas abertas de onde bate-se papo com primos na Suíça, com a quase irmã na cidade natal, com um ex-colega de trabalho. Trocam-se receitas, poemas, chistes. Treta-se. Alguns vizinhos trocam de roupa sem se preocupar com o olhar curioso lançado de outra janela. Muitos, frágeis, desmoronam sem se preocupar com a própria vaidade. Por precisão, por sufocamento, escancaram-se as janelas e as portas. Os homens são ou estão ou parecem bons.

Sem querer quebrar o encanto, não continuaremos bons depois de tudo. Crucificamos Cristo, beijamos a mão de Torquemada, dizimamos autóctones em todos os hemisférios, passamos por inúmeras guerras, duas chamadas de mundiais, e, até hoje e diariamente, matamos crianças na Síria e nas favelas brasileiras. Então, me desculpem, sairemos os mesmos da quarentena, usando máscaras, é verdade e igualmente simbólico. E não apertando a mão dos amigos. E não beijando a torto e a direito. E temendo dar ao corpo o alimento do corpo alheio.


Retirado do site.


É possível salvar-se do pessimismo pensando que em breve viveremos em Marte, em breve não contaremos mais a idade em anos, mas em séculos: veja aquela criatura, um século e já está pensando em deixar a casa dos pais. Em breve, a inteligência artificial nos livrará do mal, amém. Fiquem tranquilos, eis a gota de otimismo, a espécie humana estará salva a despeito dos muitos que não têm resistido à atual ação ostensiva da morte.

Os dias são, mas não sabermos como são de fato. Esta crônica é, mas não sabemos quão crônica é. Eu, o último fio desse novelo, dessa novela, acordo e durmo varado de interrogações. Só me resta então, de minha janela pan-óptica, recitar, em tom de até logo, um verso meio de improviso e sarcástico até sob chuva de canivírus.

 

Se pedir o seu amor, meu amor,

manda-me-lô, criptografado

e higienizado em álcool em gel, safra 2020,

pela deep web,

mas não envie nudes, meu amor,

já me esqueci como ser happy.


10.5.20

Os menores

“há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis” (Bertolt Brecht)


Não sei se Voltaire, se Pascal ou se um terceiro, em carta, se desculpou com o amigo por escrever um texto longo, pois estava sem tempo para um curto.

Nos anos de 1970, fez sucesso o livro Smal is beatiful (O negócio é ser pequeno), de Ernst Friedrich Schumacher, economista que incentivava o consumo de bens e serviços oferecidos pelos pequenos estabelecimentos, aqueles situados em nossas vizinhanças. Não é uma ideia sepultada, está aí até hoje.

O que pretendo com esses exemplos colhidos aleatoriamente?

Primeiro apontar que o pequeno, ao contrário do que se possa pensar, é um trabalho de extremo cuidado estético, típico de ourives. Segundo chamar a atenção para o fato de que o grande pode destruir a diversidade. Em síntese, sublinhar o pequeno, sua pluralidade e potência.

Sou um artista menor, não no sentido da qualidade do meu trabalho, não é isso que está em jogo, sou menor porque ando por uma faixa menos exposta, quer se pense em termos de mídia quer se pense em termos de acesso a outros escritores.

Como eu, há muitos. Não sou um escritor profissional no sentido de viver do que escrevo, trabalho com o diploma de economista. Porém, na faixa dos miúdos, está uma variedade de artistas que fazem da literatura — ou da música, ou do cinema, ou da fotografia, ou das artes plásticas, ou do teatro, ou do artesanato, enfim, de qualquer uma das artes e de suas manifestações — seu ganha-pão.

Como fazem para sobreviver? De mil maneiras. Há artistas que se apresentam em sinais, no transporte público. Outros enfiam seus livros embaixo do braço e desbravam este país para vendê-los. Existem alguns mais estruturados, com biografia estabelecida ou prêmio incensado, que são convidados para festas literárias, festivais de música, de teatro. Muitos conseguem participar de leis de incentivo patrocinadas por alguma das instâncias de governo. Há uma lista grande de escritores que, para viverem da escrita, trabalham com livros didáticos, revisão, tradução etc. Estou sendo genérico, sem pretensão de esgotar todos os casos. A ideia é focar essa miríade de artistas que, digamos, correm por fora.

A crise econômica, entre nós não é de hoje, foi elevada a uma potência máxima a partir da atual pandemia. Os artistas menores, se vivem com dificuldade quando a maré é boa, desmoronam na situação atual. O que viaja para vender livros, não pode — e, se for responsável, não quer — viajar. O que tem um grupo de teatro não pode (e certamente não quer) nem ensaiar nem se exibir. O músico não tem plateia. O cineasta não tem onde passar seus filmes. É o caos.

Em torno desses artistas, há um emaranhado de editoras, produtoras, locadoras de material e outros tantos serviços, que, do mesmo modo, ruem. Sigo com o exemplo de um setor que conheço mais.

Várias editoras pequenas, chamadas de independentes, trabalham com poucos autores e adotam um modelo de negócio baseado na impressão em pequena escala. A sobrevivência delas está na venda miúda, muitas vezes fora de livrarias. Ao contrário de uma grande, em alguns casos ramificada em outros países — portanto capaz de segurar o tranco por uns bons meses —, a redução da receita da pequena editora é o seu fim.

Escritores menores vendem poucos livros, mas cem livros vendidos de cada um de seus autores, em um ou dois lançamentos, garantem o fluxo necessário à pequena editora. Os lançamentos, todos sabem, estão descartados. A consequência é imediata: cofres vazios e a diminuição imediata desse “nicho” de mercado.

Pouco podemos fazer a não ser, aqui e ali, comprar livros que não seriam comprados agora, contribuir para uma caixinha virtual com vistas a garantir um produto futuro, mas nosso limite é pequeno — há outras demandas: contribuir para instituições que levam alimentos e produtos de limpeza a milhões de desassistidos, por exemplo — e, verdade seja dita, muitos de nós estão sendo jogados ao desemprego ou à redução de salários (os ainda assalariados). Os governos, bem, ou estão perdidos ou, como é o caso do Federal e seu “edaiísmo”, estão se lixando para a cultura, produzida por artistas tanto pequenos quanto grandes.

Não tenho solução para nada. Este meu texto, com ares distintos de uma crônica domingueira, foi a forma encontrada para compartilhar minha angústia. Foi escrito pensando em vários artistas e empresários menores. Cito, em nome deles, Eduardo Lacerda (poeta e editor em São Paulo. Editora Patuá), Marco Ajeje (artista plástico e moveleiro em Tiradentes. Divinas Gerais), Maurílio Romão (ator, diretor e administrador de teatro em Passos. Trupe Ventania). Os três representam trinta, que representam trezentos, que representam três mil, trinta mil, trezentos mil.

Os menores produzem uma beleza vasta, heterogênea, combativa, amorosa, engraçada, inovadora... Pensemos neles. Façamos uma ação por eles.

27.4.20

O pesadelo


Para Manu e Tiê





Quem não acha bom receber de um amigo um telefonema para dizer que fez parte do seu sonho? E se não foi sonho, mas pesadelo? Pois é, foi o que me ocorreu no domingo passado, aniversário de mês de meu confinamento e mais um dia de desatino daquele lá, taokey?


Não vou contar todo o pesadelo, não me pertence, é de amigo, não de um qualquer, mas um daqueles que, em momentos egoísticos, digo: veio ao mundo só para ser meu amigo. E isso tanto é verdade — me perdoe sua família, aqui relegada à coadjuvante — que, certa vez, quando ele havia voltado a viver com a mãe, fui visitá-lo, e dona Guida serviu café num jogo de xícaras que o próprio filho não sabia da existência. As mães, chovo no molhado, reconhecem os irmãos de seus filhos à distância, em particular os que não nasceram de seu ventre. Não posso revelar o pesadelo do camarada, espero ter deixado clara a razão.

Posso dizer sim que o que foi um pesadelo para ele para mim soou como uma história estranha, engraçada até. Mas ele, opa, ele sentiu tudo aquilo no corpo. Meu amigo tomara vinho durante o almoço e, sozinho em casa, cochilara. Acordou suado, um pouco ofegante. Ligou para a filha, precisava falar. Ela disse, ligue para o Xandão, conte-lhe tudo.

Alguns grupos de pesquisa têm recolhido sonhos ocorridos durante a treva pela qual passamos. O do meu amigo valeria fazer parte do estudo, pois envolve o ambiente de trabalho (onde nos conhecemos há mais de trinta anos), troca de socos, transformação de um prédio no pé do morro da Mangueira em uma caravela e uma figura misteriosa, o vilão, de nome Malaquias. Busco por alguma referência a esse nome. Na minha infância, quando alguém tentava enganar o outro era chamado de Malaquias ou malaca. Não sei se teria alguma ligação com um dos profetas menores, Malaquias, é claro, que em quatro breves capítulos do Antigo Testamento mostrou toda a ira de Deus com os homens e anunciou a vinda do Messias. A profecia precedeu em quatro séculos o nascimento de Cristo.

O Malaquias do pesadelo está mais para o da minha infância, pois empenhava-se em desfazer nosso trabalho e, enigmático em nível máximo, transformava um símbolo redondo e verde — semelhante ao vírus do momento —, carimbado nos papéis como atestado de que a tarefa havia sido bem-feita, em prateado. Dentro da realidade onírica, a mudança de cor indicava um passo na direção de uma situação indesejada, limite. Não anunciava a salvação; não há salvação em pesadelos.

Meu amigo não cogitou mandar o pesadelo para um dos grupos de estudo, ele só queria se livrar daquela angústia, em grande parte causada ao me ver pendurado na mais alta gávea da caravela à deriva. De lá eu bradava, talvez em delírio, que comia raios — e, de fato, eu os comia. Minha boca cintilava. O ditado agora é comer raios e arrotar trovões. Por que achei graça na história num primeiro momento? Não sei se passada uma semana ainda posso apaziguar meu amigo, mas gostaria que ele pensasse se alguém sonha em dias noturnos como são os atuais.

Que minha mãe não venha a saber disso de eu comer raios, seria sua segunda morte. Digo isso porque dona Haydée temia a chuva de forma incontrolável e, quando os raios iluminavam o céu e os trovões gritavam, ela cobria a cabeça, se armava de um terço e desfalecia por um tempo. 

Penso nela não só pela associação com os raios, mas porque terei de fazer-lhe um pedido: que se encontre com a dona Guida, tomem juntas um chá celestial e em seguida procurem o profeta Malaquias. Perguntem a ele por que demorou quatro séculos entre sua profecia e a vinda de Cristo. Ouçam atentas a autocrítica, aprendam com ela e, então, tratem de descolar com urgência não um Messias — temos um que não honra o nome, melhor deixar essa empreitada de lado —, mas um raio de sabedoria. Não irei comê-lo; do alto da gávea de onde não se tem à vista terra nova ou velha, o pegarei e lançarei sua luz sobre os homens. 

13.4.20

Pandemia, modos de rir e de se desesperar

Chovem memes, chovem histórias aterrorizantes. Chove sufoco, chovem gestos de solidariedade. Chove paranoia, chovem motivos para a paranoia. Narrativas contrastantes chovem igualmente e chovem hipocrisia e má-fé ou “dá cá meu pinhão primeiro”. Bem, nós que aqui estamos vamos rindo e chorando, e nesta crônica rio um cadinho para chorar outro tanto.



Depois da quarentena
Sou moço bom, recatado e do lar, com alguns episódios de fuga para o boteco. Pois bem, então, não se escandalizem com o que vou dizer, é só que esse confinamento deixa a gente carente como o quê.
Passado tudo isso, um abracinho nos amigos vai ser pouco, melhor pensarmos desde já numa alternativa forte e acolhedora. Acho que vai ter de ser uma suruba mesmo, respeitosa e sem pecado, mas suruba.

Discussão, discussão, mas virar as costas para a unanimidade provisória...
Discutir se o confinamento deve ser radical ou não, tudo bem. Dizer que, se confinados, a economia esfarela, tudo bem. Agora, quando se forma um entendimento, que pode ser conservador, excessivo — ninguém sabe por enquanto —, ouvir de uns e outros, em particular de médicos, “esqueça isso, a crise é maior que a doença”, dá uma leseira, um “ai, ai, mundo”.

Abrir o negócio
Resolvi, amanhã vou abrir meu negócio.
Mas, Xandão!
É, chega. Já deu, é mimimi e mumuuuuu demais. Tô no preju.
Então tá, se é assim, que assim seja. Mas, a propósito, Xandão, que negócio é esse que você vai abrir?
Ah, meu caderninho de poemas. Ele tá bem ali, na escrivaninha, fechado nem sei desde quando.

O nome dos mortos
Há um momento em que são números. Muitos contaminados na China; taxa de letalidade de tantos por cento. A Itália, apesar das óperas cantadas em suas varandas, apesar do gesto espetacular do Papa, na praça vazia, tem números ainda mais alarmantes. A Espanha perde para o touro da doença. Ninguém vela seus mortos, meras estatísticas. Um dia, no entanto, a morte passa a se chamar Daniel, dona Maria, Godofredinho do Posto, filho da Zuleide. Aí é tormento, abismo e queda.

Bate-papo à distância
Que tal uma conversa (a)fiada?
À distância sanitária aconselhável
por vídeo, áudio, chamada telefônica ou sinais de fumaça
a gente desenrola uma prosa, fala mal de Maria
bem de Jandira
de nós a gente só fala que vai levando.

Você pensa em como seria sem internet e rede social
eu especulo como foi na gripe espanhola
você exclama: nó!
e eu rio. Rio de nervoso, explico. E você ri, ri de mim.
Acabamos numa gargalhada besta. Para, você pede.
Não consigo, gaguejo. Mas a gente para.

Você comenta sobre o moço que se despediu da família pelo  celular
reclamo que durmo mal. Você fala das pílulas, do coquetel de vitaminas
confesso que senti um desejo doido um dia desses,
você chora, sem vergonha nenhuma, chora.
Você precisa de um abraço. É, você concorda lacônico.
Assobiamos músicas diferentes, as duas sobre amigos.

Sugiro que a gente conte uma piada. Nem pensar, você reage.
É piada demais, o dia inteiro, você se encheu delas.
Mas eu queria contar uma. Uma só.
Conte, você ordena.
Vai passar.
É uma piada? Você acha uma pena que eu continue o cínico de sempre.

Depois do silêncio
você pergunta como estou
vou levando, eu digo. E você?
Vou levando.
Não foi sempre assim?
Quem pergunta? Eu ou você, não sei.
Mas foi, foi sempre assim. Era Maria quem dizia isso. Ou era Jandira.

Barrichello
O presindecente chegou tarde à retidão, e a plateia que ainda o incensava, naquele momento aplaudia, com o perdão da rima, o bufão.

30.3.20

O clown sem graça

Ó meu ódio, ódio majestoso,
Meu ódio santo e puro e benfazejo
(Cruz e Souza, Ódio Sagrado)



Numa visão superficial, parece que na esquerda sobram os quadradões e na direita deitam e rolam os “de boa”. O presidente, quer dizer, me desculpem pela violação de um cargo tão sagrado, me corrijo: o presindecente apregoa por aí que o vírus made in China é bichinho bobo e que temer um inimigo miúdo desses é pura histeria. Ele se parece com amigos inconsequentes que sempre tivemos. A esquerda, nessa metáfora, é o tiozão preocupado, o que acha que nove da noite é hora avançada para moços e moças estarem pelas ruas. No caso do enfrentamento ao vírus, é melhor se trancar em casa e esperar o pior passar. Nunca fomos tão tiozões e tiazonas. Viva a caretice, que enfim encontra serventia.

Noves fora o vírus e tudo que ele nos faz enfrentar — seu contágio, de um lado, nosso caráter, de outro —, o fato é que, diante desse desgoverno eleito, nossos dias são dedicados a assombros, sustos e depressões. Pelo menos os meus têm sido assim. Penso que, por sorte, tenho a literatura, essa ilusão que nos fortalece ao oferecer uma realidade paralela. Quem não usufrui da arte (como “produtor” ou “consumidor”) passa um perrengue maior. Leiam! Ouçam música! Visitem virtualmente os museus! Dancem sozinhos em seus quartos!

Não estou contra este governo agora que virou modinha ser contra — modinha é esta expressão. O atual ocupante da presidência entrou no meu raio de observação quando, em seu voto no impeachment da Dilma, fez loas a um desqualificado, a um torturador. Naquele instante, achei que o senhor deveria ter saído preso da sessão. Não saiu, o que prova que nosso acordo em torno da Anistia deixou um monte de cicatrizes e, peço desculpas pela próxima palavra, empoderou os que, a serviço do Estado, torturaram e mataram.

O sujeito em foco neste texto tem dado mostras claras de que não tem preparo nenhum, muito menos para governar. Alguns dizem que está de olho na reeleição, ouso discordar, os políticos estão sempre de olho na reeleição. Para mim, ele governa respondendo a interesses escusos, especula-se que das milícias. Soma-se a isso sua personagem popularesca. Apegado à imagem de machão e de homem do povo, ecoa impropérios, incentiva a violência, em particular contra as mulheres. A palavra incivilidade cai como uma luva sobre o desgovernante do país.

Sua atuação no dia das manifestações a seu favor deu mostras de seu descontrole. Suspeito de ser portador do vírus que, indiferente a países ricos ou pobres, tem aterrorizado o mundo, o paspalhão foi à rua cumprimentar e tirar selfies com os fãs. Merecia, novamente, sair dali preso. Passa-se mais uma vez o pano, dada a conjuntura, com álcool em gel ou com a mistura de um litro de água sanitária em três litros de água comum.

O que parecia irresponsabilidade suficiente não parou aí; no dia 22 de março, em rede nacional, o senhor jogou a ciência e toda a experiência no enfrentamento da nova doença dos países estrangeiros no lixo. Um arroubo menos que juvenil decidido na antessala da presidência, no que é chamado de escritório do ódio.

No dia 18 de março, quando sairíamos às ruas pela educação (uma das áreas mais afetadas pela política ideológica que se diz sem ideologia), os protestos, em período de recolhimento, migraram para as janelas e varandas. O panelaço — símbolo da luta contra o governo Dilma — foi resgatado por quem não admite tamanhos descalabros. Claro que, agora, àqueles que nunca se convenceram de que o atual governo poderia ser bom juntaram-se os arrependidos. O devaneio do clown (sem graça) — ou o anticlown, como sugere minha irmã Teresa Cristina, revisora de meus textos — pelas ruas, quando poderia estar contaminado pelo vírus, foi um facho de luz sobre quem acreditou que, pior do que estava (no tempo do PT), não ficaria. Ficou, ficou muito.

Charge de Nando Motta, publicada no Barsil 247

16.3.20

Em torno do umbigo

Gostaria de começar esta crônica-espelho com a palavra convulsão, pois me vi num estado convulsivo nos dias próximos ao lançamento no Rio de Janeiro de “Nenhuma poesia: uma antologia” (Editora Patuá), um conjunto de poemas escritos ao longo de quarenta anos. Como quarenta são os anos vividos no Rio, é um livro comemorativo. Sim, uma comemoração minha comigo mesmo. Meu nome é Narciso Alexandre Pessôa Brandão. Ou foi por uns dias. Agora já voltei à realidade estúpida reproduzida pelos espelhos, vitrines, capôs de carros e latas abandonadas nas ruas.

Nos meus dias de beleza revelada pela água, vivi as bobagens mais bobas que a ansiedade nos faz viver. Me vi um adolescente que não sabe muito bem como lidar com os compromissos que, da noite para o dia, mudam de tom. Símbolo dessa mudança era deixar de usar calças curtas. Pois então, nos dias em torno do dia do lançamento, minhas calças compridas estavam sendo confeccionadas pelo alfaiate da delicadeza, da amizade. Eu não sabia e pensava que elas iriam me apertar e me reter no chão. Insônia, dúvidas em cascatas, essas são as companhias da ansiedade adolescente.

Mas também há um nível da ansiedade menos estúpido, aquele no qual um cara com sete livros soltos pelo mundo se vê metido. Será que não fui longe demais, por que não ficar escrevendo meus contos e crônicas, deixando isso de poesia pra lá? Mas por que não, se há material para um livro? Essa briguinha tem, de um lado, a vontade de se dar ao mundo como mais uma voz que lhe quer falar e, de outro, a vaidade, a proteção um tanto quanto covarde do próprio nome.

Publicar o livro foi a vitória de quem quer dialogar. Como digo sempre, escrevo com esse fim. Claro que, ao escrever, busco a forma que me agrade, ou seja, não faço pouco caso das questões estéticas, mas o meu interesse é falar com o hoje.

Amigos que escrevem entendem esse estado convulsivo, um pouco letárgico e muito viçoso. Para quem não escreve, pode soar incompreensível, mas, por favor, faça um esforço, não saia por aí dizendo que o Xandão é cheio de nove horas. Não sou, só tenho um umbigo que, numa hora dessas, fica maior que o mundo.

Chegado o dia do lançamento, raspei o prato do afeto. No quintal da casa que minha filha e outras psicólogas alugam (mulheres, obrigado pelo espaço tão acolhedor), recebi pessoas de vários mundos: da faculdade, do trabalho, da família, do círculo de amigos, da literatura. E foi um encontro, além de lindo, potente. Todos nós sorríamos. Poderia ser simplesmente uma festinha, mas não, ali firmávamos o compromisso calado de manter o sorriso no rosto para enfrentar a monstruosidade que governa nosso país, eco desafinado de uma monstruosidade que se impõe ao mundo.

Na viagem ao umbigo, encontrei forças para sair dele e exigir que a gente lute para retornarmos à convivência social respeitosa — ainda que contraditória, com forças conflituosas puxando a corda cada uma para o seu lado —, que, com a intermediação do Estado, deve buscar o bem comum. 

1.3.20

Conjecturas


Claro, não existem bruxas, existem mulheres que passam o pano no terror comandado por esses nostálgicos da Idade Média.

Claro, não existem mulas sem cabeça, existem homens que se sentem abraçados pelos novos bafos do ultrapassado.

Claro, não existem fantasmas, existem crianças que não querem brincar de bangue-bangue, mas, sim, de atirar e matar.

Claro, claro, claro, Juscelino, retórico, publicitário, político, jamais pensou ser possível dar mil passos para trás avançando o tempo em um ano.

Mayo, Coups de Bâtons 1937.


Exagero, a besta se construiu ou foi parida aos poucos e ao longo do tempo.

Exagero, a besta não é um acidente, um fato raro, um absurdo, um ator que enganou a todos. A besta sempre esteve aí, no peito, na essência.

A besta dormiu em mim?

Sim.

Em você?

Sim.

Por que você canta e enaltece a besta enquanto eu não?

Porque eu, você diz, fui ignorado pelos não ignorantes. Os dedos me apontaram como o ontem. Mas eu estou aqui com Deus — um que não compreende; com a família — uma que não existe, de tão limpa, suja; com a propriedade — conquistada de berço ou de suor, sim, de suor de pronto esquecido. Quem fui, não sou mais. Como com garfo, atiro com bala; as mãos são sujas, as flechas, imprecisas. Os leões matam. Mato igualmente. Os leões rugem. Eu afirmo com todas as letras: mato porque matar a meu modo, saciado, é a atitude dos que não rugem.

Claro, não existe o inferno, a escuridão é um descuido do sol.

Claro, não existe a dor, o fracasso é uma fruta podre.

Claro, não existe a fome, o paraíso é a etapa superior do sacrifício.

Claro, claro, claro, o sonho civilizatório foi pisoteado pela insônia.

Exagero, ninguém está acordado. Anestesiado é como estamos.

Exagero, brinca-se de pique onde não há esconderijo — na luz do deserto.

Você tem comido o riso e arrotado a loucura enquanto eu queimo os versos que não são mais que cinzas.

17.2.20

O assobio

para Viveca e Boinha

Aos 18 anos, eu, amigo da noite e de seus maus conselhos, voltava para casa quando os miseravelmente responsáveis (mal sabia que seria um deles em futuro próximo), já acordados, preparavam-se para o trabalho. Foi nessa época que, tendo ficado viúva, tia Yole me escolheu para acompanhá-la nas visitas que fazia à fazenda deixada pelo tio Elin.

Eu me recolhia às três ou quatro da manhã, às seis era despertado, às seis e pouco minha tia e eu entrávamos no carro e fazíamos uma pequena viagem de uns cinquenta quilômetros, de Passos a Cássia. Chegávamos ao Morro Alto, que tinha apenas um curral, nada mais, descíamos e literalmente olhávamos para o pasto e seus boizinhos. Era tudo. “Está tudo bem, não está, querido?” “Sim, tia, está tudo ótimo.” Minha resposta tinha mais a ver com o meu estado deplorável. Apesar de o bate-estaca da boate ainda ecoar pela cabeça e de os infortúnios da ressaca já se prepararem para tomar conta da área, tudo estava bem; ótimo era exagero.

Uma vez, fomos acompanhados por um primo meu (sem parentesco com a tia), veterinário. Ele examinaria o Astuto, touro reprodutor — de má fama, por ter um apetite sexual típico dos pandas — com o qual o tio Elin planejara desenvolver o maior e mais bonito plantel do Sudoeste de Minas, mas que, nas mãos de quem não tinha intimidade com a pecuária, acabou se transformando num estorvo.

Durante a consulta, aproveitando um descuido da tia, meu primo cochichou comigo que não voltaria com ela na direção (ele, de fato, foi o motorista da volta). Puro machismo, claro, tia Yole dirigia bem, aliás dirigiu até às vésperas de morrer, o que foi acontecer quando tinha quase noventa anos (que ela não me ouça falar de sua idade, que, aliás, ganharia mais um ano no próximo 20 de fevereiro), mais de trinta depois da história que conto. O que talvez tenha assustado meu primo é que, alérgica ao sol, ela se protegia segurando uma revista; quer dizer: dirigia com uma só das mãos.

Passada essa época, evoluímos de sobrinho e tia para cúmplices: eu acobertei algumas de suas traquinagens, ela, muitas das minhas. Para reforçar nossos vínculos, houve a escrita. Tia Yole escrevia com sensibilidade, lindamente. Lembro-me da carta que me mandou quando a Helena nasceu. E é inesquecível a crônica que dedicou a meu padrinho, um solteirão, um joão-ninguém, um homem doce, qualidades que “Yoyó, a viúva louca”, como eu carinhosamente a chamava, soube destacar.

Não vou dizer da beleza de minha tia. Não vou dizer de como eram engraçadas suas histórias com o marido, cujo humor era a sua forma de estar na droga deste mundo. Não vou dizer como ela era sofisticada. Vou deixar apenas esse caso miúdo que vivemos juntos. Ah, e acrescentar que tia Yole assobiava. Quem assobia, não sei se vocês sabem, perpetua sua passagem pelo mundo.

3.2.20

Paulinho não só da Viola

Nem sei bem como conheci e quando passei a ouvir Paulinho da Viola. Deve ter sido por meio do rádio, no pré-carnaval, única época em que o samba dava a cara pelas bandas de Minas, isso há mais de cinquenta anos, hoje não sei como é. Samba era só no carnaval e, mesmo assim, perdia em popularidade para as marchinhas de salão. Eu devo ter ouvido nessas circunstâncias, distraída e meninamente, Foi um rio que passou em minha vida, talvez o maior sucesso do compositor.

Depois de eu me curvar à música popular brasileira graças ao antológico “Milagre dos Peixes ao vivo”, de Milton Nascimento, Paulinho entrou no radar da minha curiosidade musical. Não esperava a rádio ou a TV me darem notícias dele, eu procurava por elas. É verdade que não fui, logo no início, um fã ardoroso; Milton, Chico, Caetano e Gil ocupavam esse espaço.

Penso que a aproximação definitiva veio depois de ouvir, numa roda de comes e bebes na casa de meu irmão, um dos convidados falar que o samba havia acabado, nada prestava, e outro fazer um aparte: mas e o Paulinho da Viola? A exceção, concluíram. Eu, que já conhecia um pouco a música do sambista de Botafogo, fiquei intrigado com o diálogo e, aí sim, com afinco fui ouvir seus discos — e na época era isso mesmo: ouvir os discos de vinil ou as fitas cassetes.

Em sua deliciosa Eu canto samba, Paulinho deu o recado: “Há muito tempo eu escuto esse papo furado / dizendo que o samba acabou / só se foi quando o dia clareou”. A audição de sua obra só me fez entender que sobre as costas do samba pesam séculos de ancestralidade e, por isso, ele não acaba. A tal morte não passa de despeito branco. Papo de branco.

Um dos maiores sambistas do país — anda ali com Cartola, com Nelson Cavaquinho, com qualquer gigante —, mas não se pode prendê-lo ao samba, Paulinho é, sim, um dos mais requintados compositores da música popular. Sinal fechado, por exemplo, não é exatamente um samba ou é um samba ao avesso. O fiel compositor de sambas é também um traidor. Sorte do samba. Sorte nossa.

No último 25 de janeiro, fui ao Circo Voador ver o esteta do samba. A qualidade do som não estava muito boa, mas nem isso o tirou do sério. Nesses shows, a ideia é, sem grandes surpresas, tocar os sucessos e promover uma comunhão entre o público e o artista que é porta-voz do afeto desse público. Paulinho soube fazer isso.

Desenho de Elifas Andreato, retirado daqui.


Registrei a história de como nasceu uma de suas composições mais lindas, Para um amor no Recife. Ele teve problema com a hospedagem na cidade, então uma senhora — professora e intelectual que fazia a cabeça do pessoal de Pernambuco — ofereceu-lhe pouso para um ou dois dias, que, por fim, se transformaram em mais de trinta. A música é para ela. O teor desse amor pouco me importa, mas, ao recordar o caso, acho uma oportunidade para falar sobre a qualidade do poeta. 

O filho do violonista Cesar Faria e de dona Paulina Batista não faz feio para ninguém. Pego duas das músicas de que mais gosto. A primeira é justamente a homenagem à pernambucana e fala: “Quero estancar o sangue / e sepultar bem longe / o que restou da camisa / colorida que cobria / minha dor”. A outra é Para ver as meninas: “Quem sabe de tudo não fale / quem não sabe nada se cale / se for preciso eu repito / porque hoje eu vou fazer / ao meu jeito eu vou fazer / um samba sobre o infinito”. Ambas devem ter sido escritas por um menino, um rapazote com seus vinte anos. Não é coisa de monstro? Um monstro delicado, deus preto de calça curta e pés descalços. Em um samba gravado em 1971, ele disse que ninguém explica a vida num samba curto, eu, quase cinquenta anos depois, digo que ninguém explica um Paulinho da Viola em crônica curta ou longa.

Quando eu e a família visitávamos meus pais em Minas, havia uma seleção musical para nos distrair das nove, dez horas de estrada. Rolava de tudo, de Mamonas Assassinas e Rita Lee a João Bosco, passando por Paulinho da Viola, especialmente por seu Bebadosamba. Quando tocava uma de suas parcerias com Hermínio Bello de Carvalho, Timoneiro — “Não sou eu quem me navega / quem me navega é o mar” —, aquele carro tonto das curvas da Mantiqueira a cantava em coro. A música fez parte do show, o que me levou a fazer uma coisa abominável: saquei o celular, gravei um trechinho e enviei para os filhos. Espero que o tenham visto e se dado conta de que Paulinho faz parte de nossa alegria.