7.4.19
1.4.19
Homens nas ruas do Rio
Com uma das mãos no bolso, coça a perna
e respira fundo. A tristeza não mede esforços para se apoderar de seus
sentimentos, homem. Ela é assim, sempre assim: dona da festa escura, da face incolor,
do sono tolo. Mas o mar está bem ali — o sol também. Crianças correm no pátio
das escolas, e gritam, e riem, e não sabem de nada. Respire, a tristeza não
passa de uma coceira passageira.
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| Foto do autor. |
Você, com essa pressa toda, já pensou se
o pior for justamente chegar a tempo? Digo isso porque, das poucas coisas que
me ficaram das lições de escola, uma pode não ter sido uma lição, pelo menos não
uma formal. A professora do quarto ano primário (hoje, acho, quinto do ensino básico)
disse para a classe que “mais vale perder um minuto na vida do que a vida em um
minuto”. Autoajuda fajuta, mas... e se ela estiver certa? Contenha-se, homem,
desacelere, o relógio não passa de uma frágil prisão para o tempo.
Passo por um homem que ri
desbragadamente. Contagiado, sigo em frente rindo desbragadamente. Esbarro num
jovem que me olha e, em vez de rir, veste a cara do espanto.
Encostado no poste, o rapaz de camisa
estampada e cabelo grande preso num lenço observa os meninos que correm pelas
ruas, todos com uma garrafa de plástico cujo conteúdo aspiram. O jovem — não
parece rico, talvez goste de samba e toque bem tocado o tamborim, pode estar no
centro para encontrar o pai, a mãe, quem sabe para comprar o material escolar —,
bem, ele ao olhar os meninos loucos de solvente, começa a pensar em como tudo
isso é triste. O que ele vai fazer com essa constatação ninguém sabe, é
possível que se torne indiferente ao nosso fracasso. Mas talvez não.
O
senhor e a senhora conversam à espera da condução. Quer dizer, ele fala, fala
muito, conta de fulano que foi traído, de sicrana que está endividada, da
vizinhança que já foi sossegada e não é mais. A mulher balança a cabeça, muito
raramente deixa que lhe escape um “sim”, um “não”, um “é mesmo?”. Ele acena
para o 409 e, antes de entrar no ônibus, diz que foi um prazer conhecê-la. Ela dá
um tchauzinho contido, e ele entende que o prazer foi todo dela.
Na rua Voluntários da Pátria, há uma
leva de abandonados; são mendigos, muitos com problemas mentais. O senhor que
vive na esquina da 19 de Fevereiro varre a calçada o tempo todo. Um rapaz sobe
e desce a rua entre os carros e não se abala com buzinas, bicicletas ou
freadas. Sentado na calçada estreita e tumultuada, um terceiro pede esmola às
mesmas pessoas que obriga a andar pela rua. O que encontro aos sábados desistiu
de me pedir dinheiro, mas, educado, não deixa de me cumprimentar. Além desses,
a crise despejou pela rua viva e caótica uma verdadeira chuva de desesperados.
O catador de latinhas para diante da
sede da Maçonaria da rua do Lavradio. Contempla sem pressa a esfinge metálica
que adorna o edifício histórico. Não sei se, como é o senso comum, tenta
decifrá-la, se imagina quanto ganharia com a venda da imagem derretida ou se
espera por um inaudível grito de ferro que o console.
O senhor nem é tão velho, mas tem jeitão
de velho. Ele anda devagar e chupa um picolé. Quando leva a boca ao picolé — e
não o picolé à boca, fica vesgo.
O menino com o uniforme de escola
pública e seu responsável (não arrisco a dizer que é o pai, parece tão novo)
descem do ônibus. O menino diz alguma coisa, parece que externa um medo, mas
pode ser que revele a incompreensão sobre um fato qualquer. O responsável larga
a mão do garoto, se ajoelha diante dele e o abraça.
O policial bate o cassetete contra a palma
da mão, em seguida, fecha e abre os dedos sobre o bastão. Faz isso mais uma vez.
Outra. Outras tantas. O tédio usa farda.
Dois bêbados ziguezagueiam pela rua. Dois passos
pra frente, dois pro lado, pro lado de cá, pro lado de lá. Pra cá quando é pra
lá, pra lá quando é pra cá. Pra frente de novo. Pra trás. Opa, pra frente. Opa,
pro lado. De cá? De lá? Por um triz, não caem. O mais alto para e, quase
empertigado, brada: “Não disse? A terra é plana”.
24.3.19
18.3.19
O que tenho para contar
Passeava pelo jardim quando fui fisgado pelo cheiro de uma
flor. Olhei atentamente para ela. A flor, rubra, exuberante, no ápice de sua
existência, era minha mãe. Minha mãe, intensa e breve! (Para meus irmãos)
Eu o via, aqui e ali, de quando em quando. Ontem, no parque,
ele estava visivelmente distraído, mexia os dedos e esfregava as mãos. Parecia
não ter se dado conta da minha presença, mas, do nada, olhou para mim e
perguntou: "Afinal, tio, o que veio primeiro, a cadeira ou a mesa?" (Para Marco Ajeje)
Se há uma criança peralta no mundo, é ela. E fui eu quem a
viu escalando esse prédio altão ali, ó. Sem proteção, subia de gatinhas pela
fachada. Quando chegou ao último andar, olhou para a sala daquele apartamento,
isso, o da direita. Não sei o que se passou, mas dali levantou voo. Sim, ela
tem asas. (Para Vitail Brandão)
"Tião, o que me conforta é que todos nós daquela velha
turma de certa forma nos demos bem." Sebastião, homem mais de gesto que de
palavra, dessa vez não respondeu apenas com um menear de cabeça ou um sobe e
desce de ombros. Estendeu os braços, virou as palmas das mãos para cima e,
quase sorridente, disse: "Menos os que continuamos vivos". (Para Atila Roque)
Vamos, vamos, telefone logo, conte a eles a novidade, já não
me aguento. (Alô... sou eu... sim... o quê?... pera... fale devagar... melhor
mais tarde?...) Ué, você mal abriu a boca, o que foi? (Eles têm novidade
também.) Qual? (Não conseguiram contar, estavam muito eufóricos.) (Para Tereza Portugal)
Certa vez deitei-me com uma mulher tão farta que tanto eu
quanto ela lamentamos o fato de eu não ter um terceiro braço e outras dezessete
mãos. (Para a mulher que, nos meus treze
anos, era dona das minhas fantasias)
A luta durava horas senão dias senão anos senão séculos. O
soldado do exército inimigo, espada cruzada com a minha, me perguntou: "O
que você tem contra mim ou eu contra você?" Sem respostas, baixamos as
armas. Os exércitos que nos resguardavam, zelosos de suas responsabilidades, abriram
fogo em nossa direção. Tudo leva a crer que estamos mortos. (Para Marielle Franco e Anderson Gomes)
Querem saber sobre a longevidade da esperança. Pois bem, eis
a verdade: ela é a primeira que corre. (Para
Eduardo Lacerda)
Os dois homens no filme relembravam uma história que, no detalhe
do detalhe, era a vida dela, que fazia da ida cotidiana ao cinema seu único
luxo — na sala, chorava sem censura de ninguém. Até então e depois de tantos
anos, nunca tinha visto na tela alguma coisa que se parecesse com sua vida, com
sua vidinha. Prestou ainda mais atenção nos homens. Olha só, acabavam de contar
sobre as travessuras de seu pai alcóolatra. Aí já era demais, uma intromissão
sem tamanho. Não, ali não ficaria, encontraria outro lugar para chorar em paz. (Para Shirley Villela)
14.3.19
9.3.19
4.3.19
Meu curriculum vitae
Graduado em álbum de figurinhas, com mestrado em perdê-las no bafo.
Pelo assombro, doutor honoris causa em situações de emudecimento.
Aluno ouvinte de ideias furadas, ourives de angústias sem brilho, rábula das causas cabreiras.
Químico apenas teórico na faculdade do amor sem beijo.
Pároco da igreja de um deus ambivalente, metade qualquer coisa, metade coisa nenhuma.
Militante separatista do partido de um homem só, com pós-graduação em ouvir de pé e impassível qualquer sermão de louco.
Na universidade dos contempladores de pôr do sol, bolsista por mérito.
Grão-mestre em ruína alheia, vulgo amigo da onça.
Técnico ferroviário nesses trens lá de Minas, metalúrgico em céu de diamantes, subcoordenador de estados utópicos de exceção.
Síndico em condomínios que não saem do papel.
Preparador de infantocanibais barítonos para coral de descontentes.
Campeiro que anuncia com dez badaladas o passado logo adiante.
Regador de desertos, doxógrafo de filosofia de botequim, copidesque de não escritos.
PhD em dialeto de bêbados maltratados pela lucidez.
Professor emérito de Ignorância III, turma de quarta-feira (sexta, caso chova na quarta).
Todos os títulos podem ser confirmados com um simples pulo em cidades a que nunca fui, Anta Gorda ou Não-Me-Toque, no Rio Grande do Sul, Feliz Deserto, nas Alagoas, ou naquela que vivi por tanto tempo, Passos, a princesa do Sudoeste de Minas ou a cidade que anda. Nesta, não saia perguntando por mim pela rua, procure o Limão, ele guarda meus diplomas, que de fato são as digitais que deixei nos copos em que tomei a primeira dose, a segunda cerveja, o terceiro fogo paulista, enfim, nos copos que me deram verdadeiras aulas de como viver honestamente uma vida à toa.
24.2.19
18.2.19
Lima Barreto e os dias de hoje
Em “Diário do hospício”, primeira parte de “O cemitério dos
vivos” (Planeta), Lima Barreto fala de uma das internações que teve, na
realidade, a última, dois anos antes de seu falecimento. O problema do homem
era a bebida, pelo menos era o que ele mesmo dizia. Tudo bem, ele dizia mais.
Reproduzo suas palavras: “De mim para mim, tenho certeza que não sou louco; mas
devido ao álcool, misturado com toda a espécie de apreensões que as
dificuldades de minha vida material, há seis anos, me assoberbam, de quando em
quando dou sinais de loucura, deliro.”
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| Quadro de Wagner Castro, 2009*. |
Apesar de todo o campo que se abre para discutir sobre a
visão que o escritor tinha de si mesmo, um dos motivos que me levam a falar do
livro é que, durante a leitura, encontrei a palavra geena, segundo o Houaiss,
“local de suplício eterno pelo fogo, inferno” ou, por extensão de sentido,
“sofrimento intenso, tormento, tortura”. Antes de buscar o significado do
substantivo, me lembrei da amiga Stella Maris Rezende — escritora, colecionadora
de prêmios Jabuti e verdadeira adoradora de palavras esquecidas — e a marquei no
Face com a intenção de saber se ela o conhecia. Não, ela não conhecia. Concordamos
que a sonoridade era bela, já o significado...
Henrique Fendrich, editor da revista Rubem, comentou que
geena “era um vale fora de Jerusalém onde se jogava lixo e cadáveres” e que
“Jesus usa muitas vezes a palavra como metáfora para o inferno”. Vera Moll — autora
de “Meu adorado Pedro” (Bom-Texto), livro baseado na vida da imperatriz Leopoldina
— reforçou a linha do Henrique ao perguntar: “não era desse modo que muitos
eram condenados à morte segundo um dos livros da Bíblia? Na Geena.” Geena é uma
palavra bíblica, que Lima Barreto usou com precisão ao escrever sobre seu
calvário de viver num hospício, esse cemitério de vivos.
A ironia à postagem veio do Marco Túlio Costa — outro
colecionador de Jabuti — ao fazer o seguinte comentário: “do modo que as coisas
vão, alguém nascido na cidade do Rio de Janeiro poderá dizer ‘sou carioca da
geena’”. Trocadilho digno de prêmio, reagiu o Henrique. Faço coro, quanto mais
agora — um agora que não é de hoje — que o estado está à deriva. O autor de “O
mágico desinventor” (Record), digníssimo Mago Túlio, como o poeta Antonio
Barreto o chama, lacrou.
Volto ao diário da terceira internação de Lima Barreto. O
interesse em lê-lo ainda hoje está não só no fato de que os “loucos” continuam
por aí e são sempre personagens curiosos (quando são apenas personagens e não
nossos familiares, sejamos honestos), mas na precisão com que Lima Barreto
mostra que uma instituição dessas é a síntese do próprio país. Barreto fala de
loucos ricos, com enfermeiros contratados, em contraposição aos despossuídos de
juízo e dinheiro. Fala de médicos que não vão além daquilo que apregoa sua
ciência, quer dizer, médico que está ali para receitar o mesmo tratamento para
qualquer espécie de doente. Mostra enfermeiros pacienciosos, que, vivendo entre
os loucos, sem o distanciamento reservado aos médicos, suportam todo tipo de
maldição e impropérios.
Olhar arguto, Lima Barreto documentou um país
que insiste em manter-se o mesmo. O Brasil, e não só o Rio, está jogado à
geena. Ah, sim, e os escritores continuamos, como tem sido desde o início dos
tempos, assoberbados pela falta de grana, com o que nos quedamos loucos mesmo
sem a bebida e sem o delírio.
____________________________________
* Wagner Castro, nascido em Franca, foi um importante artista plástico que residiu até a sua morte, perto dos 100 anos, em Passos.
13.2.19
10.2.19
4.2.19
Tragédia e Férias
Aos familiares das
vítimas da Vale
![]() | |
| Paisagem, de Marcelo Albuquerque* |
O rompimento de uma barragem da Vale, outra vez ela, aconteceu quando eu estava de férias, em Tiradentes. O intervalo entre esta tragédia e a anterior (a de Mariana) foi pequeno, sinal de que a mineradora e todo o aparato de fiscalização não se empenharam em evitar uma nova catástrofe. O que aconteceu nos arredores de Brumadinho foi similar à atuação de um psicopata que entra na escola, mata quem vê pela frente e, por fim, se mata. É e não é similar, já que a Vale vai continuar por aí, rachando de ganhar dinheiro com o minério, descarte aqui, descarte lá os rejeitos desse minério. A empresa ressuscita no terceiro dia, embora não se possa associá-la a Cristo.
Muitos apontam a privatização como a razão de tantos
rompimentos. Não concordo. A questão, me parece, está mais associada à forma
como o capitalismo funciona por aqui: empresas viciadas em dinheiro público; fiscais
que fiscalizam mais a própria conta-corrente; legisladores e membros do
executivo que atuam com a mão (nem tão) invisível de interesses alheios aos de
seus eleitores ou do próprio Estado. Desmontar essa engrenagem é que são elas.
O Ipiranga do novo governo promete fazer e acontecer para oxigenar
o capitalismo tropical. Muita coisa que diz me soa bem, mas, claro, o sistema
não é altruísta, regras e fiscalização são imprescindíveis. Tenho a impressão
de que o homem forte da economia, um liberal puro-sangue, não acredita muito
nisso e acha que as forças da economia — alicerçadas no egoísmo nosso de cada
dia — nos levarão por si só ao equilíbrio. É aí que a vaca morta na lama, feito
a porca, entorta o rabo.
O Brasil tem nós não desatados desde a primeira infância: a
escravidão; a elite que não raro toma de assalto o poder e manda às favas os
suspiros democráticos; a injustiça econômica e social. Eu pelo menos já não me
assusto com essas jabuticabas (coitada das jabuticabas!), em compensação, me
entristeço. A tragédia humana e os danos à fauna, à flora, às águas e a tudo
mais me deixam na miséria. Somos inconsequentes e ponto.
Em Tiradentes, estava rodeado de amigos, alguns artistas, outros
não, mas todos com alma cunhada no amor ao próximo. Sofremos juntos, e, por estarmos
juntos, nos fortalecemos. O brinde levantado de forma recorrente na cidade histórica
era muito mais que um desejo de saúde particular, era como se, no alegre tim-tim,
transferíssemos ao outro uma força, pequena, mas resistente, capaz de fazer
cada um de nós acreditar na melhora deste país e, principalmente, acreditar que,
escrevendo, executando uma peça musical, talhando a madeira, preparando um
bolo, inventando um drinque ou um prato, enfim, trabalhando, seremos
protagonistas da mudança.
Porque é importante, digo que, além da minha, esta crônica ecoa
as vozes de uma Beatriz, duas Veras, uma Margarida, um Márcio, um Murilo, um
João, um Celso, uma Lilian, uma Maria Helena, uma Fernanda, um Cléber, um
Antonio, uma Graça e, como regentes, as vozes de uma Tereza e um Marco. Quando
muito somos um bando de saltimbancos ou músicos de Bremen, mas, por isso mesmo,
somos fortes no afeto e solidários na dor. No caso, na dor das famílias que viram
seus entes tornarem-se vítimas de mais uma irresponsabilidade institucional
brasileira.
_____________
* Encontrei essa imagem num post de Antonio Barreto, poeta, conterrâneo e amigo do peito, não resisti e ilustrei minha crônica com ela, uma obra de Marcelo Albuquerque, cujo site pode ser visitado por aqui.
27.1.19
21.1.19
Escrever nestes dias
Pro Cássio Zanatta e pro Renato Braz
Escrever é voar num carrinho de rolimã ou de sebo, que eu não sei se vocês sabem o que é, mas, no momento, não cabe explicar. É deixar-se levar pela mão da criança atrevida, dona de uma infância tão velha e caduca que nem em livros encontra registro. É andar amparado por Zanatta, o cronista que, sem saber, fala (só) de mim. É falar por ele ou dele, com vênia, evidentemente. É não alterar a voz nem erguer o punho, mas, com um verbo, dos mais singelos, ser capaz de matar um homem. É, resistente, mostrar-se pronto para dizer o dito, desdizer o dito, dosar o delírio, desbravar a delicadeza.
(Assim e assado escrevo, nestes dias em que os brutos dormem sem apagar o riso do rosto e o gozo do corpo.)
Escrever é comer com a fome pura-memória-dos-homens-velhos e desabrochar com coragem uma flor, úmida (e última) esperança de um bulbo feminino. Não se curvar, não dar as costas, ao contrário, semear o vento nos olhos do mar, do bicho, do não e quiçá. É dar a cara a tapa, meio Cristo, meio Gandhi, meio aquele primo nas brigas de rua. É desconjugar a febre da palavra e deixar boquiaberto o silêncio.
((Assim e assado escrevo, nestes dias em que a devassidão balança sua bem-dotada injúria nas fuças de nosso brio murcho.))
Escrever é enxugar o suor dos falsos adjetivos ou enfrentar o orgulho também falso da dor. É acompanhar com os olhos os carros que não passam. É dar um cavalo de pau em frase dita antes da invenção da roda. É contar centavo, cavar culpa, cintilar. É dar incerteza aos mapas.
(((Assim e assado escrevo, nestes dias, justo neles, mas também nos outros.)))
13.1.19
5.1.19
Do sono não saio: uma crônica insana, mas com sexto sentido
Parece que estou acordando. “Volte a escrever, Xandão”, um
fiapo de voz-pensamento ecoa, repetindo-se feito um despertador que não quer ou
não sabe calar. “Já vou, só mais um segundo, um mandato, uma vida.” Espreguiço.
Não sou dos que se lembram dos sonhos, mas não me esqueço de
um recente. Estou em São Paulo, tento usar um APP para me conectar a uma
empresa aérea e não consigo. Caminho descalço, o que me faz comprar umas
sandálias. No segundo posterior, na companhia de um irmão e de uma irmã, desço
em Orlando. Sinto-me preocupado por não ter passaporte, mas meu irmão, que tem
a autoridade de já ter vivido nos Estados Unidos, dá de ombros como quem diz:
“Não esquente”. Estamos num parque, num parque de chão batido, e reparo nas
sandálias recém-compradas. (Recém-compradas? É um sonho, o tempo dança em torno
de si mesmo.) Elas continuam nos meus pés, mas, por mais que me esforce, não distingo
sua cor. Já não estou no parque, mas na casa de meu sobrinho, e ali minha sobrinha-neta
pula no meu colo e pergunta a minha idade. Ficamos brincando com os números 57
e 58. Eu digo 57, ela diz 58 e, em seguida, me chama de velhinho.
Devo ser mesmo, pois não consigo acordar, acordar de fato. A
realidade me empurra para a cama, o travesseiro me segura. Mas, ó, não estou na
cama. A preguiça é apenas simbólica. A preguiça é um ato macunaímico-político. “Volte
a escrever, Xandão”, martela a voz-não-mais-pensamento-mas-comando.
Sento-me diante do computador e, desatinado, teclo. Um passarinho
canta lá fora. Paro tudo para ouvi-lo. O canto, de fato, parece um coaxar, de
onde concluo que os sapos criaram asas. Vi num filme americano — não vou
procurar o nome — uma chuva de sapos. Então, se os batráquios não estão voando,
o coaxar é uma tormenta anfíbia. “Não consigo escrever”, vocifero. Lá da
cozinha alguém diz que estou falando sozinho. Quem estará na cozinha se estou
sozinho? Presto atenção. Não é voz de ninguém, e sim o pio de um pássaro fajuto
e feio. Os pássaros perderam as asas e fofocam sobre nós, os humanos, ou os
humanos preguiçosos, ou os humanos aturdidos pela realidade.
Uma expedição da Nasa fotografa o corpo celeste que estaria
na fronteira do sistema solar, a seis bilhões de quilômetros da terra. As fotos
levarão muitos anos até chegar aos computadores da agência americana. Para os lunáticos
— esses cientistas que, é certo, são as mãos de vários interesses, sem que
deixem de ser, como os poetas, a voz do delírio, do sonho e da aventura —, a
demora é um nada diante do destempo do universo. Enquanto a terra dá trezentas
voltas em torno do sol, o planetinha ora em exploração dá apenas uma. Se nele estivesse,
eu não teria nem 20% de um ano, queria ver minha sobrinha-neta me chamar de velho.
Aliás, os velhinhos de lá, se velhinhos houver, acharão os milenares homens e
mulheres bíblicos apenas umas crianças expostas ao infortúnio do calor e do
frio. Rirão da ficção que criamos para nos ajudar a lidar com uma vida tão
curta.
Atrás de minha sombra, me escondo e não escrevo nem falo coisa com coisa. Depois das férias, sou o mesmo cansado — agora com o talento emperrado ou encarcerado.
Preciso dormir. Só mais um segundo. Só mais um mandato. Só
mais uma vida.
21.12.18
19.12.18
Coleção Estilingues 30
Dia 5 de dezembro, nós, do grupo Estilingues, lançamos 7 livros pela Editora Patuá.

Alexandre Brandão - Uns e outros mais dois ou três - contos, com orelha de Luís Giffoni. Compre aqui.
Para ver fotos do evento, clique aqui.

Para adquirir os livros, tome este caminho. A coleção pode ser adquirida inteira (com desconto) ou escolher apenas alguns dos livros.
10.12.18
Segunda feira chuvosa de março de 2019
Minha preocupação deu as caras ainda em 2018. Talvez fosse novembro, mês daqueles que, feito eu e conforme reza a lenda, foram concebidos nas estripulias momescas — com pouco amor e muita sem-vergonhice. Isso não importa, importa, sim, o fato de eu, nos dias que precederam aos meus 57 anos, ou seja, em pleno inferno astral, ter passado a desconfiar do que viria a acontecer. O inferno, decerto por conta do fogo, ilumina as mentes, torna as pessoas perspicazes, com dons adivinhatórios. E a clarividência comunga com a dor e o sofrimento, pelo menos foi assim na minha experiência.
Novembro ia pelo meio, beirando o dia da República, quando comecei a temer o pior. Já se sabia de um general ou outro na equipe próxima do capitão, mas, no mais, eram especulações. Quantos afinal? Em que postos ficariam? Tudo se confirmou, e os militares, em número expressivo, tomaram assento nos cargos estratégicos do executivo.
Eu, na minha ignorância lustrosa, vendo toda a movimentação de formação do governo, conhecendo um pouco os currículos dos tais militares em trânsito para os cargos executivos — gente que serviu às missões de paz da ONU, um ou outro pouco pacífico, uma estranheza para a missão, mas não muito para auxiliar o capitão eleito presidente —, passei a coçar a cabeça, a chacoalhar a cabeça, a bater a cabeça e a me perguntar: quem vai ficar nas casernas?
Esse afluxo de militares para o poder executivo criaria, como de fato criou, um rombo no próprio exército. Não temos muitos militares para abrir mão deles em suas funções. Minhas perguntas, além de castigarem minha cabeça internamente, com pensamentos, e externamente, com pancadas, me levaram a um total estado de medo. Fiquei sitiado por essa sensação ao acordar, durante o almoço, nas horas de trabalho, ao fracassar no amor e no sono. Não tive coragem de comentar com ninguém. Medo solitário. Ah, o medo solitário! O medo que se tem só não é, ao contrário do sonho que se sonha só, na visão do Raul Seixas, apenas um medo, é um calvário armado, esperando a vítima. A vítima? Eu. A vítima? Você. Nós todos.
Casernas vazias, prato cheio para os inimigos. Sim, temos inimigos, todos sabem ou no mínimo imaginam. Nosso corpo diplomático é reconhecido por sua habilidade de não se meter de forma tendenciosa nos conflitos mais beligerantes ou que existem desde sempre. Logo que os novos inquilinos do poder arregaçaram suas mangas, a diplomacia astuta e pragmática foi sendo deixada de lado, e o Brasil afirmou que tinha lado no conflito entre Israel e Palestina. Bem, inaugurávamos a era de criar inimigos, mas não eram esses inimigos que me afligiam naquele novembro friorento. Pensava nos cultivados ao longo da história, aparentemente não mais inimigos, mas cicatrizes mal-curadas não tardam a sangrar. O estribilho do pancadão me martelava: caserna vazia reacende o desejo de vingança, caserna vazia reacende o desejo de vingança, caserna vazia...
Hoje, nem bem o carnaval de 2019 afrouxou o couro do batuque e a quarta-feira santa redimiu um pouco dos nossos pecados, nessa segunda-feira que começou cinzenta e, de norte a sul, de leste a oeste, em pingos uniformemente distribuídos, descambou em uma chuva fina e contínua — situação rara, os meteorologistas estão chocados —; bem, nessa segunda-feira, segundo noticiam os jornais, as forças militares paraguaias fecharam a Ponte da Amizade e deslocaram um efetivo pequeno, porém maior que o vazio das nossas casernas, para a mítica Pedro Juan Caballero.
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| Batalha do Avaí, de Pedro Américo. |
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