21.6.09

Não se deve dar as costas aos poetas


Escrevi a última crônica (No Jardim Botânico). Saiu na revista Folha Carioca, depois veio para a internet (neste blog e também no Opinativas). Recebi elogios, inclusive de dois poetas. Um lá do Pará, meu amigo Edson, sujeito que está prometendo aterrissar aqui no Rio em fevereiro — demora, mas é menos do que nunca, ou mesmo de um não sei quando. Outro foi o homem que orelhou meu último livro, o danado do Barreto (que tem tantos nomes quanto prêmios literários – ora é Barretúmero, ora é Barretim, ora Seu Barreto, ora Barrevento, ora, bem, leitor, já deu pra entender a idéia, não? Invente o nome que quiser para o grande poeta que ele é. Para quem não sabe, ele está ali na foto comigo).

A coisa com o Barreto foi diferente e é o motivo de eu voltar à crônica aqui “No Osso”. Foi assim: o poeta me escreveu logo pela manhã. Disse assim: “Xandão, li sua crônica e achei uma delícia!
Me senti lá dentro do Jardim Botânico! Como você consegue isso?” A partir disso, como o biscoito em Proust, a crônica parece que transportou meu amigo lá pras profundezas de suas recordações e o fez lembrar dele mesmo passeando com a filha (que já é médica) num parque de BH. Ótimo, fiquei envaidecido.

Passou o tempo, recebo novo e-mail do poeta. Agora dizia: “Xandão, relendo sua bela crônica, me ficou um pequeno ruído... algo que ficou me atazanando e aí fui tomar banho e fiquei pensando em te sugerir o seguinte: tirar essa parte ....”. (Daqui a pouco, leitor, você descobre o que foi cortado.)

Meu primeiro impulso foi o seguinte: por que será que os poetas tomam banho? A poesia já não os limpa suficientemente? Havia uma suspeita (despeitosa) de que, ao banhar-se, o poeta cuidava de coisas distintas de sua poesia e, entre uma passada de bucha e outra, tirava o cisco do texto alheio.

Quase caí num orgulhoso perigoso, mas de pronto me recuperei. Ora, ora, poeta calejado quando dá de dar pitaco na palavra alheia só pode ser porque gostou do que leu. Sendo assim, republico a crônica com o corte sugerido pelo poeta. Aproveito para aceitar sugestões de minha irmã atenta, Teresa Cristina.

O fato de ter escrito este post tem a pretensão de mostrar duas coisas. Uma: minha caminhada no Jardim Botânico fez bonito. Outra: escrever é reescrever, e feliz daquele que tem leitores sensíveis e atentos. Ando tendo.


No Jardim Botânico – versão corrigida

Uma caminhada no Jardim Botânico equivale a uma sessão de yôga, ou de yoga como se dizia no tempo em que eu não sabia exatamente que sexo poderia gerar filhos — sabia, mas não acreditava.

Uma caminhada no Jardim Botânico num dia não muito ensolarado, tampouco fechado, pode deixar na gente — na memória que teremos no futuro, quando nossos filhos forem eles mesmos senhores e senhoras com vidas próprias e, se Deus quiser, independentes e bem encaminhados — algum gostinho de felicidade tão carregado, que poderemos mesmo imaginar que fomos, dentro e fora do Jardim Botânico, felizes, completamente felizes.

Pisar descalço o chão do Jardim Botânico, como vi um jovem fazendo no último domingo em que estive por lá, deve ser o grito mais veemente que conseguimos dar contra a tendência do mundo em nos distanciar da terra, do fogo, da água e do ar. Aquele rapaz, garanto sem conhecê-lo, sabe ser feliz quando quer: basta tirar os sapatos e pisar a terra úmida do parque.

Sentar num banco do Jardim Botânico numa manhã de maio, em pleno domingo das mães, ao lado da irmã, pode apaziguar as dores que sozinhos, o irmão e a irmã, não suportariam mais ter. As árvores dali, estrangeiras e nacionais, entendem dessa coisa de despoluir até o espírito mais sombrio.

Depois de uma caminhada que levou o desempregado à estufa das plantas carnívoras e a debutante, um pouco cansada, à beira do lago das vitórias-régias, a bica, pequena e elegante peça de metal bem aducido e corretamente coado, dará água fresca a quem já tem, a sua volta, toda espécie de sombra. Não vai nesse gesto do bebedouro nenhuma intenção de iludir o desempregado ou a jovem pensando-se vítima do maior cansaço do mundo, mas, fresca e fluida, a água ensinará sem querer que a generosidade mata a sede quando não escorre pelas mãos.

Pais e filhos, concebidos ambos na brasa do desejo ou na assepsia dos laboratórios, jogam folhinhas no riacho e vão correndo ao lado acompanhando aquela corrida de Fórmula 1 vagarosa e vegetal. Há uma bateria, depois uma segunda, e haverá outras até que a criança saia dali campeã. No Jardim Botânico, a simplicidade é sempre verde e imatura.

Vez ou outra o chão ficará enlameado. Vez ou outra alguma árvore o vento derrubará. Vez ou outra os esquilos cairão viciados em pipocas. Vez ou outra um estudante de artes plásticas errará a mão e não tracejará nada que se assemelhe ao que está por todo o lado. Por fim, poucas fotografias tiradas ali, aos milhares ou milhões, em alguma contagem do tempo não muito dilatada, terão a qualidade que o parque merece.

Vez ou outra um cronista menor compreenderá o mundo dinâmico que, entre ramagens, águas, pessoas e aves, o silêncio do parque guarda.


18.6.09

No Jardim Botânico

Uma caminhada no Jardim Botânico equivale a uma sessão de yôga, ou de yoga como se dizia no tempo em que eu não sabia exatamente que sexo poderia gerar filhos — sabia, mas não acreditava.

Uma caminhada no Jardim Botânico num dia não muito ensolarado, tampouco fechado, pode deixar — na memória que teremos no futuro, quando nossos filhos, filhos de nossas relações sexuais ou não (pois hoje já não se faz filho apenas com relações sexuais), forem eles mesmos senhores e senhoras com vidas próprias e, se Deus quiser, independentes e bem encaminhados — algum gostinho de felicidade na gente tão carregado, que poderemos mesmo imaginar que fomos, dentro e fora do Jardim Botânico, felizes, completamente felizes.

Pisar descalço o chão do Jardim Botânico, como vi um jovem fazendo no último domingo em que estive por lá, deve ser o grito mais veemente que conseguimos dar contra a tendência do mundo em nos distanciar da terra, do fogo, da água e do ar. Aquele rapaz, garanto sem conhecê-lo, sabe ser feliz quando quer: basta tirar os sapatos e pisar a terra úmida do parque.

Sentar num banco do Jardim Botânico numa manhã de maio, em pleno domingo das mães, ao lado da irmã pode apaziguar as dores que sozinhos, o irmão e a irmã, não suportariam mais ter. As árvores dali, estrangeiras e nacionais, entendem dessa coisa de despoluir até o espírito mais sombrio.

Depois de uma caminhada que levou o desempregado à estufa das plantas carnívoras e a debutante, um pouco cansada, à beira do lago das vitórias-régias, pequena e elegante peça de metal bem aducido e corretamente coado, a bica dará água fresca a quem já tem, a sua volta, toda espécie de sombra. Não vai nesse gesto do bebedouro nenhuma intenção de iludir o desempregado ou a jovem pensando-se vítima do maior cansaço do mundo, mas, fresca e fluida, a água ensinará sem querer que a generosidade mata a sede quando não escorre pelas mãos.

Pais e filhos, concebidos ambos na brasa do desejo ou na assepsia dos laboratórios, jogam folhinhas no riacho e vão correndo ao lado acompanhando aquela corrida de Fórmula 1 vagarosa e vegetal. Há uma bateria, depois uma segunda, e haverá outras até que a criança saia dali campeã. No Jardim Botânico, a simplicidade é sempre verde e imatura.

Vez ou outra o chão ficará enlameado. Vez ou outra alguma árvore o vento derrubará. Vez ou outra os esquilos cairão viciados em pipocas. Vez ou outra um estudante de artes plásticas errará a mão e não tracejará nada que se assemelhe ao que está por todo o lado. Por fim, poucas fotografias tiradas ali, aos milhares ou milhões, em alguma contagem do tempo não muito dilatada, terão a qualidade que o parque merece.

Vez ou outra um cronista menor compreenderá o mundo dinâmico que, entre ramagens, águas, pessoas e aves, o silêncio do parque guarda.

12.6.09

"A câmera e a pena" em novas livrarias

Em Belo Horizonte, "A câmera e a pena" pode ser encontrado nas seguintes livrarias:

Quixote Livraria e Café


Rua Fernandes Tourinho, 274 - Savassi
Telefone: (31) 3264-2858

Café da Travessa

Rua Pernambuco, 1286 - Savassi
Telefone: (31) 3223-8092

Status Café Cultura e Arte

Rua Pernambuco, 1150 - Savassi
Telefone: (31) 3261-6045

No Rio de Janeiro, "A câmera e a pena" pode ser agora também encontrado na:

Literárea


Rua Marquês de Abrantes, 177 - Loja 107 - Flamengo
Telefone: (21) 3237-3947

19.5.09

Mais uma livraria no Rio de Janeiro tem "A câmera e a pena".


É a Arlequim (especialista em CD e DVD, mas agora investindo também em livros).

De segunda à sexta-feira das 9:00h às 20:00h, e aos sábados de 11:00 às 17:00 h.
Telefaxes: (21) 2220-8471 ou 2524-7242.
E-mail: musica@arlequim.com.br

Endereço:
Praça XV de novembro 48 Loja 1
Centro Rio de Janeiro RJ
22010-010 Brasil

15.5.09

Livrarias que já têm "A câmera e a pena" (Ed. Cais Pharoux)

Empório das Letras 

Rua do Catete, 311/sobreloja 
Galeria do Cinema São Luiz 
Lg. do Machado - Rio de Janeiro – RJ 
Tel./Fax: (21) 2205-5330 

Leonardo Da Vinci Livraria

Av. Rio Branco, 185 – Ed. Marquês do Herval - Subsolo - Lojas 2, 3, 4 e 9
20045-900 Centro Rio de Janeiro RJ
Tel.: (21) 2533-2237 - Fax: (21) 2533-1277

Livraria do Museu da República 

Rua do Catete, 153 – Museu da República 
22220-000 Catete Rio de Janeiro RJ 
Tel.: (21) 2556-5828 
Fax.: (21) 2233-6845 e Cel.: (21) 9379-0255 – Glaucio 
http://www.livrariamuseudarepublica.com.br/ 

Em breve o livro estará em outras livrarias, inclusive fora do Rio de Janeiro.

9.5.09

Onde Encontrar "A câmera e a pena"?

 "A câmera e a pena" pode ser encontrado no site da Cais Pharoux ou no site da Martins Fontes.

No Rio, por enquanto, está disponível na Blooks Livraria, Praia de Botafogo, 316 - no Unibanco Arteplex.

Enterrei uma crônica


(Crédito: EP - O Globo. TZ - divulgação de "Fabricando Tom Zé".)

, e o leitor lucrou com isso. Não era boa, ou melhor, poderia até ter sido, o assunto leve e carioca ajudava, mas o resultado foi pífio.

Ela sairia na Folha Carioca à época da última eleição municipal, entretanto meu senso crítico, quase nunca apurado, interrompeu o processo no momento exato em que a mão apertaria a tecla enter lançando como um foguete a crônica bem no colo do editor.

Na falecida, eu lançava uma candidatura alternativa. Uma chapa com a nata da música popular brasileira, tendo à frente Paulinho da Viola como candidato a prefeito e Chico Buarque na qualidade de postulante ao cargo de “secretário municipal do Vai dar Merda”. Além deles, estavam lá: Clementina de Jesus, Tom e Vinícius, Elis Regina, Lenine, Guinga, Gismonti, Cartola, Nelson Sargento, Joyce, Dorival Caymmi, Pixinguinha, Zélia Duncan etc. Enfim, velha e jovem guardas, mortos e vivos ocupando os postos monopolizados por políticos e por amigos de políticos.

Veio a eleição, “Dudu da Ordem” virou prefeito, esqueci a crônica, e o tempo não parou. Fui assistir a “Palavra (en)cantada”, filme de Heloisa Solberg, e sofri um abalo: em minha crônica enterrada, não havia reservado nenhum cantinho para o Tom Zé. Alguns dirão: ele não mora no Rio. Eu mesmo poderia tentar me salvar dizendo que Tom Zé é tão grande que prefeitura é pouco pro bico dele.

E de fato é. Tom Zé deveria ser presidente do Brasil; imperador até. Precisamos de um maluco lúcido do naipe dele. Além do mais, o tropicalista já está com bastante idade, o que, no meu ponto de vista, é condição sine qua non para a habilitação ao cargo maior da república ou da monarquia.

Passados mais de cem dias da vitória de “Dudu da Ordem”, temos visto o novo prefeito mandando ver ou, por outra, mandando para ser visto. Conhecido meu conta de uma amiga dele que vendia roupas ali no Catete havia bem uns vinte anos. A senhorinha de seus sessenta, setenta anos se viu, da noite para o dia, transformada em perigosa fora da lei. Antes, ela se pensava informal, soube que era bandida. Fecharam sua tenda.

Li que, na Gávea, um morador foi agredido pela Polícia Municipal, que “zelava” pela derrubada de um imóvel irregular e sentiu-se ameaçada por um homem caminhando com seu cachorro.

Estão propondo a construção de muros nos limites das favelas. (Discussão interessante a esse respeito Sérgio Besserman propõe em seu blog no Globo on line.) Fala-se em conter a expansão com o objetivo de não danificar o meio ambiente. Chama o urubu de meu louro, chama!

Poderia listar mais um monte de ações cujo objetivo é atacar a consequência sem melindrar a causa. Eu me pergunto: “Dudu da Ordem” está à ordem de quem?

Resta-me, nessa altura do campeonato, rezar para que o prefeito eleito erre, mas não peque. E enquanto vai flanando nos ares do poder, Tom Zé bem que poderia cantar pra ele assim:

“Dorme, dorme

Meu pecado

Minha culpa

Minha salvação.” (Mãe, Tom Zé e Elton Medeiros)

 

Ou então:

 

“Menina, amanhã de manhã

quando a gente acordar

quero te dizer que a felicidade vai

desabar sobre os homens, vai

desabar sobre os homens, vai

desabar sobre os homens.” (Vai, dos mesmos Tom e Elton)

26.4.09

Em torno de uma xícara de café

Bem, dando continuidade àquele papo todo em relação ao lançamento de "A câmera e a pena", hoje coloco disponível aqui em "No Osso" um trecho da segunda novela.
Digo antes: a primeira novela girava em torno do cinema, a segunda, da literatura. Acompanho cinco escritores em formação. Portanto, além de tudo que acontece a partir da reunião que fazem para discutir os textos, os escritores, lógico, escrevem. Sendo assim, o texto abaixo é de um desses escritores, o Teco Sanbra, e está dedicado a Clara Limpes, outro membro desse grupo.

Deixo com vocês. E relembro: o lançamento será no dia 7 de maio, às 19 horas, na livraria Blooks, que fica no mesmo endereço do Cine Arteplex (Praia de Botafogo, 316. Telefone: 2559-8776).

*************************************************************************************

Leocádia e o Amor                                         

a Clara Limpes

    Jabô, o noivo de Leocádia, levou um tiro. Como avisá-la, moça de vida tristonha, que só agora se abriu a alguma ilusão? Preferiram, antes de tudo, saber do estado de saúde do operário. Na conversa à beira do ferido, na iminência da chegada do socorro, decidiram que Xaveco e Brito, este primo da vítima, seguiriam para o hospital. Com as novidades, alguém iria lá na casa de Leocádia dar o recado. Mas quem? Os olhos se voltaram todos para Reizinho, não por alguma qualidade especial, mas era amigo do irmão da moça, e sua chegada à casa dela não despertaria maiores suspeitas.

    Entretanto Padreco, o mulato parrudo da boca de fumo, vira com os próprios olhos o tal Reizinho disparar a arma contra Jabô e, malandramente, se meter na multidão para ninguém suspeitar dele. E Padreco não gostava do sujeito. Situação mais apropriada para a esperteza morder a isca da oportunidade. Padreco entrou na conversa e achou por bem acompanhá-lo quando fosse o momento, até porque quem pregou aquele fogo gratuito deveria estar solto por aí, e Reizinho era homem de paz, talvez carecesse de ajuda para uma eventualidade. Sensata a intervenção de Padreco, concluíram todos, inclusive Reizinho.

A notícia do hospital era das piores. Na realidade, a pior: Jabô, ó... Reizinho deu pra trás: isso não contava para a Leocádia de maneira alguma. Padreco pressentia outro esquema na declinada do astuto: defunto em morro é obra de assassino; logo, logo, a lei apareceria na cola do malfeitor. Reizinho armava um “vou ao vento”. Nova intervenção do Padreco na assembléia interminável: dava ele a notícia, mas Reizinho ia de fiel, de guia, para ensinar onde morava a noiva viúva. O sensato em pessoa, esse mulato do bagulho. Não houve jeito, Reizinho foi no correio do anúncio fúnebre.

Quanto mais se afastavam da assembléia, mais ficava a certeza de que os dois homens não cumpririam o prometido. Padreco esperava chegar a um canto vazio para despachar a alma do outro para o fim do mundo. Reizinho, que nunca foi bobo, mas fingia-se de, tinha consciência plena de que o tal Padreco vira tudo, portanto bastava uma brecha para cair no pé.

Porém os becos, apinhados de gente, não ofereceram chance nem para outro crime nem para uma arriscada fuga. E, assim, assim, os homens chegaram à casa de Leocádia transferindo, lá dentro deles, todos os planos para a volta. Reizinho bateu à porta. Não se ouviu um “vai entrando, moço” nem um “quem é”. Veio em resposta, isso sim, uma seqüência de tiros sem pejo. A polícia matava dois coelhos com uma única disparada de balas, coisa cara para os cofres públicos.

Nesse dia, Jabô não amou Leocádia. Reizinho, livrando-se do noivo, não se apossou da viúva. Padreco não fez justiça com as próprias mãos. E Leocádia ficou a ver navios. A ver navios, não, porque dali do morro não se via o mar.

 *********************************************************************************




18.4.09

Por que gosto de melodias simples?

Porque Deus não existe.

Porque sou limitado.

           Porque, certa vez, não tinha nem seis anos, disse à Denise que construíra sozinho, tijolo a tijolo, uma casa de vime.

           Porque passei a mão na Jane.

Ou por nada disso.

(Por ignorância, talvez.)

Quem sabe por preferir pão de queijo a ragu.

Por ter beijado de olhos abertos na minha primeira vez.

Por não conhecer nenhum Germinásio.

           Gosto de tudo que é simples, pois a simplicidade nada mais é do que a sabedoria despida de adereços.

Por não ser musical.

Porque posso cantá-las no banheiro.

Ou cantá-las à luz da lua, em serenata.

Pode-se perfeitamente pensar sobre elas em vez de cantá-las.

Para ouvi-las, não se requer muita atenção.

Melodias simples são a prova cabal da existência de Deus.

           Melodias simples não são assobiadas por pássaros.

Porque já tive um troço.

Porque já bebi demais e tive amores lunáticos.

Por meus amigos terem nomes como Sílvio, Marcus José, Pedro, Átila, Paulo, Nelson, Horácio e Jânio. E por outros amigos terem trocado seus nomes por apelidos.

           Se eu vivesse em Ipanema. Ou tivesse nascido em Januária.

Se alguém me esperasse em Oklahoma.

Se fosse outro, aumentariam as minhas chances de ter gosto refinado.

Porque Fernando Sabino humilha.

Porque Manuel Bandeira nem soube de minha existência.

Porque da janela do meu quarto eu via a mãe da Nádia tomar banho.

            O resto de inocência do mundo está guardado numa melodia simples.

            Toda (boa) relação sexual começa com uma carícia, que não passa de uma melodia simples, a mais simples entre as simples.

Porque Deus escreve certo por linhas tortas, mas, quando fala, não fala, canta melodias fáceis.

Por todos esses motivos. Por alguns deles: os que não se contradizem. Apenas pelos verdadeiros. Por nenhum deles.

 

 

Um instante, leitor:


Lanço meu novo livro — “A câmera e a pena”, Editora Cais Pharoux — no próximo dia 7 de maio de 2009, a partir das 19 horas, na Livraria Blooks, que fica junto do cinema Unibanco Arteplex, na Praia de Botafogo, número 316, Rio de Janeiro.

Já pensou se você aparece lá e a gente troca um dedo de prosa? Amarei se isso acontecer. Talvez eu até cante uma melodia simples, pois elas caem tão bem na voz de quem tem muito a agradecer.



5.4.09

A câmera e a pena

Amigos,

Em maio será lançado meu novo livro, A câmera e a pena, Editora Cais Pharoux (http://www.caispharoux.com.br/).

Neste livro usei e abusei daquilo que condenamos nos políticos, ou seja, ele é uma reunião de amigos. Os editores (Horácio e Glória) são meus amigos. O capista (Ricardo Tamm) é meu amigo. As revisoras (Glória e Teresa Cristina) são minhas amigas; Teresa, vejam que abuso, é minha irmã. A arte-finalista (Fernanda Garcia) é prima de minha mulher (Bia Werneck), que, por sua vez, nos ajudou na revisão. Para completar o time, e coroar esse verdadeiro nepotismo a serviço das letras, minha comadre Beth Brandão fez minha foto.

Além disso, planejei um livro com duas novelas (Um pouco mais que um diretor e Em torno de uma xícara de café). Convidei dois amigos escritores (Marco Túlio Costa e Alexandre Marino) para apresentar cada uma delas. Por fim, ainda "convoquei" meu outro amigo, o premiadíssimo Antonio Barreto para escrever a orelha. Aliás, que orelha! Na realidade, acho eu, uma inovação, pois a orelha é um e-mail. Vocês verão (espero que vejam).

Falo um pouco da primeira novela (Um pouco mais que um diretor). Comecei a escrevê-la em 1990 e só fui acabá-la em 2005. Não que tenha levado todo esse tempo na sua escrita, simplesmente havia abandonado-a quando ainda não passava de um conto de um escritor iniciante. Em 2005, quando fui levar meu livro "Estão todos aqui" (Editora Bom-Texto) ao editor, ele estranhou que fosse uma mistura de alguns contos com uma novela. Na dúvida de se aceitaria meu projeto, corri pra casa e pensei em uma novela para fazer par àquela outra. Lembrei do conto, voltei a ele, cheguei à novela. O livro saiu justamente como eu sugerira.

Esta novela se passa durante a filmagem de um primeiro longa metragem de um diretor. Conto os dias de filmagem, dias que operam mudanças em muita gente: nos atores, nos técnicos e, principalmente, no diretor. Ele tem uma espécie de surto. Com isso a filmagem não é concluída e o filme, óbvio, não se materializa.

O que estava pronto e acabado era o argumento do filme. Aliás, um argumento que dá a entender que o filme bem poderia ser uma espécie de Almodóvar, ou, quem sabe, um dramalhão mexicano. O que seria dependia do talento de todos, e ninguém soube e ninguém saberá a serviço do quê estava esse talento.

O argumento aparece na novela, e eu, em primeira mão, apresento-o a vocês, meus leitores. Que aguce a curiosidade de todos. Se tudo der certo, primeiro no Rio de Janeiro, dia 7 de maio, na Livraria Arteplex (que está para mudar de nome), à partir das 19 horas, estarei distribuindo autógrafos aos que aparecerem para tomar um vinho comigo.


***********************************************************************

Argumento
                                                                                                  Grande penedo
                                                                                                  Este carrega;
                                                                                                  E apenas chega ao cume,
                                                                                                  O faz rolar.
                                                                                                  A pedra sempre
                                                                                                  Ao vale desce,
                                                                                                  Sem que ele cesse
                                                                                                  De a ir buscar.
                                                                                                 (Lira XIII, Marília de Dirceu,Tomás Antônio Gonzaga)


Anos depois de ter fugido da fazenda do pai acompanhando a mulher recém-conhecida na pequena cidade, Aldo regressa. Seu olhar, espiando a propriedade de longe, oscila entre o temor e a aflição.

A mãe, Eneida, no período de sua ausência, contraíra uma doença misteriosa e, segundo os médicos, poderia morrer subitamente. Diante disso, ela achou por bem ficar, na maior parte do tempo, na fazenda, onde o clima ameno, a tranquilidade e os cuidados dos empregados manteriam as condições ideais sugeridas pelos especialistas. França, pai de Aldo, acatou a vontade da esposa.

Eneida reencontra o filho depois de um fim de semana em que fora ao Rio de Janeiro fazer os exames e as consultas de praxe. Revêem-se, assim, de chofre, no instante em que ela desce do carro. Depois de uma recusa inicial, quando os olhos da mãe não se fixam em lugar algum, os dois têm um contato amoroso intenso, selado em forte abraço.

Mãe e filho passam a cuidar das coisas rotineiras: desfazer as malas, guardar as roupas nos armários, fazer a cama do filho no mesmo quarto de antes, mantido intocado nos mínimos detalhes da decoração. Preparam lanche, chegam a tomar um cálice de vinho. Falam pouco entre si, não há nenhuma explicação que se peça, de um lado, ou que se dê, de outro. Combinam percorrer a fazenda na manhã seguinte, voltando aos cantos de que sempre gostaram: a beira do lago, a sombra daquela velha árvore na colina, a casa abandonada à beira da bica em que ele adorava se banhar.

Pela manhã, saem em caminhada. Observam os rebanhos, as plantações, conversam com os empregados. Antes do almoço, sentam-se à sombra da árvore frondosa. Ali, enfim, o filho toca no assunto difícil, pede perdão, convida a mãe para uma festa de conciliação, antes mesmo da chegada do pai. Mas, o mal súbito, do qual ele não sabia, mata Eneida antes de ela responder ao filho.

Aldo, atônito, trêmulo, leva o corpo para o quarto e o deita na cama. Liga para o pai, que ainda não sabia de sua volta. França se assusta, primeiro, por ouvir a voz do filho, depois com a notícia: a morte de Eneida, morte anunciada, sempre mais perto. A tristeza não o impede de desancar sua dor culpando o filho. Do corpo de Eneida cuidariam os empregados e o médico. O culpado que voltasse lá para o mundo dele, verdadeiramente responsável pela morte da mãe e pelo envelhecimento do pai, que se viu dividido entre cuidados exigidos por uma doença misteriosa e a necessidade de continuar a trabalhar. Voltasse para o mundo daquela mulher à-toa.

Aldo senta-se no banco e larga o telefone caído fora do gancho. Com que direito o pai poderia acusá-lo de matar a própria mãe? Não consegue ficar ali, sai porta afora, porteira afora, some da fazenda.

Durante as próximas vinte e quatro horas, o rapaz se perde pelas estradas da região. Dirige-se à cidade e de lá retorna; pára nos lugares ermos onde, na infância, gostava de se esconder.

Em algum momento, bate à porta de uma casa antiga, parecida com a da fazenda de sua família, mas construção maltratada, onde o reboco cai aqui e, lá, as janelas não fecham, empenadas que estão. Um ancião abre a porta. O reconhecimento é imediato, mas há um tempo para que se aproximem por meio de um aperto de mão e de um convite para entrar. O chão de tábua corrida, Aldo repara, está esburacado e sem brilho.

Nessa construção cai-não-cai, o velho e Aldo travam um penoso diálogo. O rapaz contando da morte da mãe, da reação do pai; o velho narrando todos os fatos que se passaram entre a fuga do menino e a sua volta: o sem sentido da doença da mãe; o distanciamento do casal, cisão que, pelo jeito, veio a público quando ela ficou na fazenda e o pai na cidade, mas já um fato antigo entre os dois; o recolhimento absoluto da mãe vivendo enfurnada no quarto, deitada no mais das vezes; a notícia que se espalhou a respeito de um relacionamento extraconjugal do pai. Aldo tenta resistir a continuar ouvindo, mas o velho o toma pelos braços, olha bem no fundo dos seus olhos e arremata: o próprio Aldo era filho de uma aventura paterna, aceita por Eneida ao saber que a mãe biológica morrera no parto.

O moço deixa o velho e volta às suas andanças incertas. Sobe o Pico do Garrafão, volteia a serra, desce no vilarejo contíguo à cidade, onde, sentado no banco da praça, avoado e tristonho, depara-se com a algazarra das crianças vindas da escola. Ele se vê na mesma praça, anos atrás, sentado no mesmo banco. Ao seu lado, a mulher com quem fugira. Ela está nua. Ela se levanta e cruza toda a extensão da praça, passa muito perto da meninada, mas ninguém se dá conta dela. Aldo esfrega os olhos como se tentasse se livrar de um cisco. Sai do banco. Corre para a venda da esquina, onde compra a pequena faca que facilmente oculta em sua roupa de verão.

O homem do armazém pergunta se ele não é filho do seu França e da dona Eneida. E, sem esperar resposta, emenda pergunta sobre pergunta: “A mãe vai bem? O pai vem na sexta? O senhor chegou hoje?” Aldo responde qualquer coisa já com o pé na rua.

Se até então seu vaivém fora na cadência de um passeio, a partir desse momento é uma besta cortando as estradas de terra, estreitas estradas de terra, vazias quase sempre, mas com algumas surpresas inesperadas: caminhões de leite; ônibus com bóias-frias; carroças vagarosas com mulher de sombrinha e homem de cigarro de palha na boca. Livra-se de cada um desses transtornos sabe-se lá Deus como: joga o carro contra o barranco para fugir do caminhão; não desvia um tico de nada fazendo o ônibus frear bruscamente; espreme a carroça entre seu carro e o precipício.

A estradinha da fazenda parece estacionamento. Os empregados se espalharam pelo pátio defronte da casa, e seus garotos sujinhos brincam sem cerimônia por tudo quanto é lugar, ora descendo o corrimão da escada principal, ora subindo na goiabeira. Consolada por um par de amigos, sua tia Luana, irmã de Eneida, ao vê-lo, tem impulso de ir a seu encontro, mas o sobrinho toma outro caminho, contorna a casa para entrar pelos fundos.

Mafalda, a preta da cozinha, larga tudo, afasta-se do pessoal que cochicha ao pé do fogão e aproxima-se dele. Abraçam-se com ternura. Ela lhe diz alguma coisa como estarem todos nervosos, aquele tempo fora difícil, primeiro a ausência fulminante dele, logo depois a doença inexplicável de dona Eneida. Ele quer saber se a doença tinha a ver com sua fuga, mas a velha bota o dedo em sinal de silêncio, pede para não falarem disso agora. Lá na sala, as pessoas, seu França principalmente, esperavam por ele, para compartilhar esse momento, triste, sim, mas já esperado. Aconteceu, aconteceria de uma forma ou de outra.

Os rostos vão em direção ao rapaz que adentra a sala. São vizinhos antigos, pessoas da cidadezinha, um ou outro vindo da capital: parentes, o sócio do pai na ferraria, o padre Afonso. Cumprimentam-no com educados pêsames, a prima Ceila abraça-o chorando convulsivamente. Aldo se desvencilha dela para se aproximar do caixão. De um lado está seu pai. De outro, o velho.

França caminha na direção do filho, mas Aldo grita, descontrolado, para o pai se afastar. Nada detém o pai, nem o murmúrio das pessoas. Pelo jeito, vai agarrar o moleque atrevido e aplicar-lhe uma sova. Aldo, contudo, não se intimida e esbraveja, sem meias palavras: da boca do pai, a vida toda, ouvira apenas um punhado de mentira; a maior delas: ter ocultado o fato de aquela senhora morta ali, a quem aprendera a chamar de mãe, não ser realmente sua mãe.

Aldo tem a faca aberta, empunhada. França, no entanto, já não avança mais, está estarrecido, petrificado. Consegue, sim, afirmar que nunca escutara tamanha sandice, onde já se viu isso. Aldo jocosamente afirma não ter visto coisa nenhuma, mas ouvido dele, aponta para o velho, a verdade mais doída do mundo. França parece tocado por uma nova força, descongela-se e ri absolutamente alto, nervoso até. “Então”, diz, “ele é o dono dessa verdade.” O velho, até então atento e silencioso, dá dois passos em direção a Aldo (como aliado perfilando-se ao batalhão de tropa). Estão arranjados os exércitos, e é França quem ataca, quem aponta o dedo para o velho e o chama de mentiroso. “Se querem verdade”, grita, “a verdade é que o velho, sim, ele, sim, é o seu verdadeiro pai. Você, garoto, é filho de Eneida e desse traste aí.”

A troca de olhares entre aqueles que vieram apenas para velar um corpo é intensa. Espantados alguns, enquanto outros, vê-se no rosto, estão aliviados por não ter mais de guardar tamanho segredo.

A arma, a ridícula arma, não lhe vai servir para aquela guerra. Aldo atira-a ao chão e chega a esboçar um sorriso ao vê-la cair de ponta e espetar a madeira. As vozes sussurradas continuam produzindo o seu zunido de abelha, crescendo e diminuindo de intensidade continuamente.

O velho, França e Aldo não se enfrentam mais como ainda há pouco. A expectativa é de que, não demora muito, um deles, provavelmente o velho, reaja ao último ataque. Mas não, o velho, ao contrário, enfia as mãos nos bolsos, deita o olhar no chão tão bem conservado dessa casa e movimenta-se para sair. França, do mesmo modo, sobe as escadas e segue para seu quarto, onde vai descansar.

Aldo fica. Sentado na cadeira ao lado do caixão, alisa as mãos de Eneida.

********************************************************************

Noutra hora irei colocar trecho da outra novela.

21.3.09

Rio de Janeiro, final de 2008


Em dezembro, como na música, Ipanema era só felicidade. Havia uma profusão de turistas, e todos, inclusive nós, os não-turistas, vestíamos roupas coloridas. Compensávamos o pouco sol do atípico dezembro que foi o de 2008 com muitos amarelos, laranjas, brancos e não sei mais que cores.


Eu e Átila fomos parar ali meio por acaso. E depois de cumprirmos nossa missão, tomamos um café. O dia era quente, não sei que idéia foi a minha de tomar café. Bem fez o Átila em pedir um mate.


(Desculpem-me se melindro alguns leitores, inclusive você, Átila, mas a verdade é que odeio mate. Não descartaria a hipótese de as substâncias contidas nele estarem fraquejando as pessoas, logo, todo esse excesso — como droga, violência, consumismo, narcisismo, egoísmo e por aí afora — seria consequência imediata da dependência criada pela bebida. O que acabo de dizer pode parecer um disparate, mas não vi pesquisa nenhuma que rejeitasse essa minha hipótese.)


Voltando para a vida fora do parêntesis: tomamos, eu meu café e Átila, coitado, seu mate. Fazia calor do pior tipo, sem sol o dia era abafado e úmido em qualquer lugar da rua. É verdade que a parada naquela livraria para compartilhar essas bebidinhas — e, quase me esqueço, um pedaço bem pequeno, pero caro, de bolo de laranja — nos permitiu conversar um pouco e com isso o mundo apertado de nossas tristezinhas ficou mais ancho e quase alegre. Amigos servem para promover reviravoltas no ânimo uns dos outros, nem precisa ser em véspera de Natal e de Révellion.


Aliviados, corremos à rua com o firme propósito de subir num ônibus e despencar em Botafogo, eu na Voluntários, ele na vizinhança da Santa Úrsula. Dois minutos sob aquele calor entorpecente, não agüentamos e acenamos, não para o primeiro, que nos pareceu velho demais, e sim para o terceiro ou quarto táxi. Já que o carro era rubro-negro, ou, para ser mais exato, o estofado alternava faixas pretas com outras vermelhas, mal entramos nele tive um pressentimento desanimador: um flamenguista levando dois botafoguenses pode não dar em boa coisa. Entreguei-nos a Deus.




(Mais uma ilustração bizarra deste que vos escreve)



O piloto era boa-praça. Fez logo umas brincadeiras e avisou-nos de um congestionamento em Copacabana por conta de ser o dia em que o pessoal “expulso” do dia 31 adiantava suas oferendas a Iemanjá. Seguimos os caminhos que ele sugeriu e íamos, protegidos pelo ar-condicionado, prontos para chegar em casa e levar a vida possível: boa hoje, não muito boa amanhã, bem ruizinha nalguma manhã incerta, porém nunca completamente má: sabíamo-nos e sabemo-nos privilegiados.



Eis que tocou o celular. Não era o do Átila. Não era o meu. O chofer, pouco se lixando para lei ou mesmo para segurança, atendeu seu aparelho. Falou “alô” e imediatamente passou a se comunicar em “portunhês”. Dava expediente sobre algum programa que preparara para um gringo, amigo do gringo pendurado do outro lado da linha. Vale registrar que nosso condutor falava bem nas barbas da polícia e esta pouco se importava com o fato de um motorista levar o carro atendendo a uma chamada telefônica.





Ao encerrar a ligação, o motorista nos contou algumas de suas peripécias. Agenciava prostitutas para turistas (não só para eles, como se verá), bem como aproveitava a cumplicidade de gringos e esquentava muambas, vendidas depois a um seleto grupo de clientes. (Uma freguesa, ansiosa por um perfume de morango não sei das quantas, contatou-o durante nossa viagem.) Gabou-se, a determinada hora, de manter em seu “cardápio” uma formosura (não falou nesses termos, mas poupo-os, leitores) do centro universitário em que leciono. Quando especulei a possibilidade de ela ser minha aluna, ele desconversou, disse que não, não era aluna de economia, já nem sabia se a jóia rara estudava mesmo naquele estabelecimento. Malandro dos bons.





Enquanto atendia a uma nova chamanda, ele nos pediu que o ajudássemos com o gringo, pois apenas “improvisava o inglês”. O meu não vai além de “the book is on the table”, mas Átila fala melhor do que o Bush — não é muito difícil, segundo dizem — e tão bem quanto o Obama. Nosso não foi dado em forma de silêncio. Entreolhamo-nos sem deixar o motorista perceber nossa cumplicidade. Ocupado como estava, ouso dizer, não ia prestar muita atenção em dois insignificantes passageiros. Até se gritássemos continuaria falando seu portunhês ruim, não ligando para o fato de não contestarmos seu pedido. Perguntou-nos por perguntar, por ser do tipo falastrão..





Desci em minha casa, Átila seguiu um pouco mais. Depois eu soube, o motorista perguntou-lhe, com segundas intenções, se estava sozinho na cidade. Meu amigo estava com mulher e filho. Enfático, o motorista proferiu: “não há nada mais sublime na vida do que a família”..






Nada de novo nesta crônica. O Rio de Janeiro é essa salada onde cabem Deus, Iemanjá, malandragem, algumas que furam a fronteira da contravenção, calor e amizade. Salada que se tempera com a velha e boa ironia, graças a qual, e apesar de tudo, vamos levando a vida. Porém, não sejamos inocentes: ironia também que, aqui e ali, resvala para a cafajestice pura e simples.

14.2.09

Pro ano

“Eu sempre quis muito.”
(Caetano Veloso)


Eu gostaria de começar 2009 entendendo por que cargas d’água a gente compra um cartão de viagem única do Metrô e só pode usá-lo no máximo em 48 horas. De onde foi que tiraram essa idéia de que o direito de usufruir de um serviço pré-pago tem prazo de validade? Cadê a defesa do consumidor, alguém viu?


O atual prefeito terá de dar jeito num vazamento lá na Voluntários da Pátria. O Maia passou por lá, refez o asfalto, e refez de novo, e mais uma vez refez (não estou exagerando), e o tal vazamento, ali entre a São João Batista e a Sorocaba, desdenhou de máquinas e braços e continuou intacto. É verdade que o prefeito terá de tratar de outro vazamento, este na sua rua, leitor. E terá de cuidar das escolas municipais. E terá de dar um basta na confusão do comércio ilegal. Que tudo se resolva, sem que se esqueça o problema da minha rua.

Acalento um sonho: que a cidade não tenha mais moradores de rua e crianças abandonadas. E esse sonho vai além: nele essas pessoas não são tiradas da rua; ao contrário, são elas que saem, pois reencontram suas casas e nelas um modo novo de viver e de reatar os elos rompidos de suas existências. Saúde psíquica e social de uma só vez.

O Botafogo não contratará nenhum Ronaldinho ou Ronaldão. Nenhum Kaká ou Cristiano Ronaldo ou mesmo Rooney. O Botafogo revelará outro Garrincha.

O Lula, numa passagem pelo Havaí, poderá aprender, e é bom que aprenda, a surfar em marolinha.

Lá pra março, o Chico Buarque termina o novo romance que parece estar escrevendo, entrega-o a seu editor e, de enfiada, corre pro estúdio e grava com o Zeca Baleiro.

As mulheres cheias de pudor andarão nuas como queria Vinícius de Moraes. Com isso, a polêmica de nudez no cinema perderá o sentido.

Não formamos um país angustiado ou de angustiados. Todavia, 2009 poderia resolver uma pendenga asfixiante: a tal Capitu pulava ou pulou a cerca? Meus pais passaram por essa dúvida, meus irmãos também. Não fui poupado e vejo agora minha filha indo pelo mesmo caminho, ainda que, para ela, Capitu não passe de uma sem-vergonha. Como um país pode perder tanta energia com uma questão dessa? Se não houver consenso, decreto-lei para definir se houve ou não houve a derrapada da moça e ponto final (muito cuidado na revisão para que não batam em lugar do ponto uma interrogação, uma exclamação ou mesmo um ponto e vírgula).

Dou agora um palpite com a intenção de resolver um problema municipal pequeno assim e, no entanto, muito simbólico: que tal operar de miopia a estátua do Drummond?





Pro ano está bom. O resto fica para 2010. E enquanto isso, que todos queiram muito e tenham uma boa vida neste 2009 que se inicia.

13.12.08

Circunlóquio em torno do vazio

Para pneu ou bola vazios, bomba de ar.


O som de Tim Maia reduz a pó vazios salões de festa.


Saco vazio não pára em pé, mas de saco cheio igualmente se vai ao chão.


Com trabalho, é possível nutrir o bolso. Infelizmente, com roubo também.

Deixar vazia uma rua vazia ajuda o sono dos moradores, portanto, os seus sonhos; e sonhos são como o aroma da flor: mesmo sem ocupar espaço, não passam despercebidos.

Canja bem leve serve como primeiro socorro a estômago vazio, no caso de fome verdadeira. Numa simples vontade de comer, bolacha Maria com manteiga resolve e, na falta dessa iguaria, barrinha de cereais.


Não há agenda vazia enquanto existirem cinema e chope.

Consultar a caderneta de telefone é o primeiro passo para ocupar o meio-vazio da cama de casal.

Falta de voto cura discurso vazio.

Não hesite em virar-se em direção à mesa vizinha quando estiver sozinho.

Beijo de língua em pessoa vazia é o melhor antídoto contra o vazio dessa pessoa.

É bom lembrar que uma mente vazia pode estar espiritualmente cheia. Quando não for o caso, aconselha-se ocupá-la com um par de bobagens.





Contra tardes vazias, noites intensas.

A bebida adequada cai como luva em copo vazio. Adequado é, quase sempre, o suco de laranja. Entre quase sempre e sempre, o vinho. E água o tempo todo, ou quando for preciso.

Vigilância é uma espécie de bomba de ar contra vazios de poder.

A memória é capaz de ocupar a casa desabitada da família.

Carrinho de mercado é ameaça à despensa vazia.

No inverno compreende-se piscina sem água.

Folha ou tela em branco são suplício certo para escritores. Também para pintores.

No primeiro pingo, a chuva lota todos os táxis da cidade.


Não sei o que dizer do vazio existencial.

23.11.08

Como ludibriar a abstinência ou carta aberta de um fã

Moacyr Luz, sambista da melhor estirpe, os atores Otávio Augusto e Antônio Pedro, além do acadêmico-de-rede, João Ubaldo Ribeiro, estão meio molongós. Proibidos de beber, imagino que proibidos também de triscar torresminho, feijão-tropeiro, leite gordo. Fígado não é mole, ou, por outra, quando começa a ficar mole é um deus-nos-acuda.

Todos vocês, meus camaradas, são mais velhos do que eu (até o Moacyr, esse menino, é), portanto não devem dar ouvido a fedelhos, ainda mais um desconhecido. De todo modo, vejam bem, em abstinência sou macaco velho, pois lá se vão dezesseis dos meus quarenta e sete anos sem dar uma bicadinha sequer.

Por que parei de beber? Hepatite C. (Alô, moçada, cuidado com a hepatite C.) Não estou aqui para dar alerta de saúde pública, e sim para tentar ajudá-los nesse início barra pesada. Pois não é fácil, bem lembro. Procurei terapeuta. Sonhei durante muito tempo que bebia dúzias de cervejolas; como bom mineiro, acompanhadas de cachacinha. A vida ficara meio sem graça, pois, ainda que não pudesse ser chamado de alcoólatra, tentava encaixar a birita em tudo que fazia. Cinema? Com chope depois. Sexo? Chope antes, durante não, mas depois, sim. Ler? Acompanhado de uma branquinha, coisa assim pouca, só para liberar a cabeça, nada de abuso.

Eis que o figueiredo me colocou em sinuca de bico: ou trancava-me em casa ou acostumava-me com a idéia e continuava a levar a vida normalmente. Preferi a segunda alternativa, é da minha natureza estar entre amigos. Acontece que meus amigos, claro (claro?), são bons de copo. Ir ao encontro deles é estar em ambiente de muita bebida. No início, bebi refrigerante exageradamente. Dá uma coca aí. Uma fanta. Desce um guaraná. No final da noite, estavam lá cinco, seis, em noites intensas, oito garrafas dessas doçuras gaseificadas. Descobri que ressaca dá em qualquer um, basta dormir pouco. Oito cocas e pouco sono é ressaca na certa.

Passado um tempo, surgiu uma muleta: a cerveja sem álcool. As vantagens dessa bebida sobre o refrigerante: seu copo fica parecido com o dos amigos e a bebida é menos doce, dá para beber quinze em noites de loucura desmesurada. A desvantagem: quando bebia cocas e afins, meus amigos achavam um absurdo eu pagar a conta. Com a cerveja sem álcool, não tem disso, custa tão (ou mais) caro quanto um chope, e a turma não perdoa, cobra.

Vocês dirão: “Tudo bem, e o pileque, cadê o pileque?” Esse é um assunto mais delicado.

Nem guaraná nem cerveja sem álcool são capazes de embriagar um sujeito comum. Comum? Olha só, não sou comum, os senhores muito menos. Quem compôe samba como o Luz, quem atua como o Otávio Augusto (que se parece muito com meu irmão) ou o Antônio Pedro (Bar Esperança, saravá, seu Antônio) e quem escreve como o Ubaldo não são pessoas comuns nem aqui nem na China. Muito menos na China.

Se não falo com gente comum, posso confessar que dá para ficar de pileque. De duas maneiras. A primeira exige fé, e funciona: basta segurar o xixi. Sim, tome um monte de cerveja zero por cento álcool e só vá ao banheiro quando a bexiga estiver explodindo. Minha tese é que, agindo assim, a amônia circula pelo corpo e chega ao cérebro. Insisto: dá barato, se feito com fé.

A segunda maneira é científica. Lá pelas tantas, seus amigos, que continuam bebendo, ficarão doidos e chutarão a razão lá pro raio que os parta. O que acontece nesse momento? Eles falam e os senhores não os entendem. Não entender o que os outros falam não é coisa de bêbado? No meu caso, quando chega essa hora, decreto-me pra lá de Marrakesh, caio fora, pego um táxi (lei seca é lei seca, não vamos vacilar) e corro para o conforto do meu lar.



Enfim, senhores, a coisa não é tão feia quanto parece. Como no filme “Minha vida de cachorro” (Mitt liv som hund, Lasse Hallström, 1985), pior foi a vida da cachorra Laika, sozinha deambulando no espaço sem fim. A gente está longe disso, e com os pés no chão.

27.10.08

Um conto de "Estão todos aqui"

O conto abaixo abre meu segundo livro ("Estão todos aqui, Bom Texto Editora). Ele está também disponível aqui.
Boa leitura.

O que vai dentro da caixa

Gabriel pensava no rosto de Melissa coberto de serenidade, dele apagada a dor num sopro. O fato de que poderia não ser aceito no velório, de provavelmente haver tumulto, enfrentamentos, nada disso contava agora, ou ainda. Melissa, na sua derradeira imobilidade, seria a beleza sem conteúdo, sem sentimento; seria apenas.

Em dias de tamanha violência, ninguém vela seus mortos depois de uma certa hora. Gabriel torcia por encontrar o velório vazio. Teria tempo para contemplar, sem pressa e pela última vez, o rosto de Melissa. Olhar sem ser olhado. Ser olhada sem olhar. No contato entre a vida dele e a morte dela, haveria chance de que todas as feridas antes abertas se transformassem em coisas banais, esquecíveis. O vivo, ao olhar o morto, se entregaria como nunca, nem antes nem depois. O morto, já entregue este, ao ser olhado, aceitaria a entrega do outro.

Na aparência tranqüila de Melissa, repousaria sua última mensagem, um não se importe, cara, fomos humanos, apenas humanos. Seria demais esperar que a dor tivesse vergado aquela mulher a ponto de transformar seu ódio em resignada piedade; assim, Gabriel preparava-se para carregar vida afora esse fardo feito condenação.

O avião aterrissou no Santos Dumont pontualmente às oito. No saguão do aeroporto, lembrou-se de sacar algum para pagar o táxi e cobrir as outras despesas. Achou melhor comer ali mesmo, antes de enfrentar a maratona. Deveria ligar para o Paulo para, de antemão, pedir sua ajuda? Tomou um café puro com dois pães de queijo. Entrou na livraria, folheou algumas revistas.

Precisava de um instante, de pegar fôlego antes de ir para a cidade de fato, a que se apresentava concreta fora dos limites do aeroporto. Sentou-se num banco qualquer, abriu o jornal e foi direto aos anúncios necrológicos. A família entristecida agradecia e anunciava. Os amigos — o nome dele não constava na lista, óbvio, mas doído —, os amigos anunciavam.

O celular tocou.

— Sim?

— Você?

Tremeu. O jornal, dobrado sobre sua perna, caiu no chão. Não estava em seus planos receber um telefonema, qualquer telefonema, aquele em particular.

— Eu.

— Você já sabe, não é?

— Sim. Sei.

— Você está no Rio? Vai vê-la?

— Que idéia!

— Vamos juntos?

Gabriel desligou o telefone como se isso fosse suficiente para livrá-lo do imprevisto. Levantou-se e foi ao banheiro. Não teve o que mijar. Lavou as mãos. Voltou ao balcão da lanchonete e pediu uma dose de uísque. Enfiou o dedo nas pedras de gelo e ficou, por um longo instante, mexendo-as. Não, ali não era o lugar para chorar. Não chorou. Bebeu com vagar o primeiro gole.

Novamente o celular.

— Olha, o enterro é amanhã, às dez. Venha para o Rio. Você está no Rio?

— Por que estaria, hem?

— Não lhe faltariam motivos.

— Por favor.

— Tome suas providências e venha. Precisamos ir juntos.

Não esperaria um novo telefonema parado ali, sem coragem para fazer o que havia proposto a si mesmo.

No carro, o Aterro ia sendo vencido a uma boa velocidade, e num piscar de olhos Gabriel estaria no São João Batista. Um novo telefonema — se houvesse, se ele, como lhe ocorrera agora, simplesmente não desligasse o aparelho — já o encontraria diante de Melissa, vivendo as emoções que sua mente não conseguia antever.

Veio-lhe à memória, quando o táxi ia pegar a Barata Ribeiro, a caixa, o dia exato em que ele e Melissa enfiaram as coisas na caixa e fizeram a promessa de mantê-la, em qualquer circunstância, como uma espécie de documento de amor. Gabriel pediu ao taxista para ir pela praia, havia se lembrado de ter de passar na casa de um amigo. Na altura da Bolívar, desceu do carro e foi caminhando no sentido de Ipanema. Caminhava como se não soubesse para onde, mas nunca estivera tão seguro de seu rumo.

Gesticulou ao porteiro e foi logo reconhecido.

— O senhor sabe, não é?

— Sim, Zé. Pediram para eu passar aqui e pegar uns documentos. As chaves estão com você, certo?

A casa não estava muito diferente. Os quadros eram os mesmos. De novo, uma cortiça com fotos; nenhuma dele, algumas tiradas por ele. Sobre o fogão, uma panela vazia e limpa. Lençóis pendurados no varal. Na geladeira, medicamentos e algumas poucas coisas, perecíveis, em estado adiantado de apodrecimento. Um suporte desses de pendurar soro estava ao lado da cama e, no lixo, seringas usadas, algodões sujos. Pelo jeito, saíram às pressas — e não voltaram. A cama não era a deles. Gabriel abriu o guarda-roupa para procurar a caixa. Encontrou-a debaixo de umas poucas camisetas, velhas, lisas, encardidas. Melissa só dormia de camiseta e calcinha, no frio ou no calor, no cio ou nas distâncias; com ele e provavelmente com os outros; no pleno gozo da saúde, mas não na doença, quando decerto a mãe se fizera dona da vida da filha e deitara sobre ela um punhado de regras, a começar pelo uso de camisolas de algodão para receber a visita dos médicos e a dos amigos.

Abriu a caixa. Vazia.

“Não, Gabriel”, disse a si mesmo, “você não acreditou que ela pudesse manter uma bobagem dessa por toda a vida!”

“Você faria o mesmo, Gabriel.”

“Gabriel, Melissa não era uma adolescente!”

Desceu à rua. Seguiu até a Nossa Senhora de Copacabana e entrou no pé-sujo da esquina. Talvez deixasse transparecer seu desapontamento, o certo é que o homem do bar perguntou-lhe se havia algum problema, se precisava de alguma coisa. Pediu uma bebida e foi tudo. A cerveja nem estava lá essas coisas, mas caiu-lhe bem.
A todo instante, Gabriel enfiava a mão no bolso da calça para certificar-se de que as chaves da casa de Melissa estavam ali, de que ali também estava a chave da caixa, da caixa vazia. Se contasse ao Paulo como se sentia ultrajado naquela hora, se contasse à voz no telefone, ririam dele — logo você?

Nem chegara a tomar toda a cerveja e já comandava um trago mais forte. O homem deu-lhe uma dose de pinga, bebida vorazmente. Um outro freguês, do outro lado do balcão, puxou um brinde. Gabriel chorou copiosamente.

A ordem do boteco não foi perturbada nem ninguém correu em socorro de Gabriel. Tampouco lhe fingiram indiferença, as peças permaneceram onde estavam: o atendente deitando um trago aqui, abrindo uma cerveja lá; o freguês dado a comemorações recolhido a um silêncio acompanhado de gestos voltados a Gabriel: vivas e mais vivas!
De volta ao apartamento, abriu novamente o armário e a caixa. Abriu também as gavetas e sacou tudo de lá de dentro: roupas, papéis, fotos, sapatos, bugigangas. Em algum lugar estaria.

O celular:

— O que você quer?

— Venha para o Rio. Vamos juntos ao cemitério. Você está no Rio?

— Tudo o que nos aconteceu já não foi suficiente? De certo modo, não matamos Melissa? Precisamos de um segundo erro?

— Ao contrário, seu merda.

Ficaram mudos. Em seguida, tudo o mais caiu em silêncio, ou, de outro modo, mesmo que tudo gritasse, Gabriel não ouviria; mesmo que tudo se mexesse, Gabriel não veria; mesmo que tudo se esclarecesse, Gabriel não notaria. Desligou mais uma vez o celular, tirou da bolsa o carregador de bateria e colocou o aparelho para carregar.
Não reconhecia as roupas largadas no chão. Talvez isso desse a dimensão do tempo transcorrido. Largo tempo que não amainou aquele sofrimento intenso e aprisionador. Gabriel fechou os olhos como se procurasse dentro de si o elo perdido. Encontrou borrões. Ora o rosto de Melissa, ora os pés, um quebra-cabeça gigante cujas peças andariam espalhadas aí pelos cantos — mastigadas dentro dele.

O interfone tocou. Gabriel atendeu-o como se fosse natural fazê-lo.

— Seu Gabriel?

— Diga, Zé.

— Sabe o que é? Não era só um documento que o senhor ia pegar?

— Não se preocupe, eu já estou indo embora.

— Seu Gabriel, assim o senhor arruma confusão para o meu lado.

— Não demoro muito mais, não.

Gabriel concluiu que estava agindo como uma criança, o porteiro tinha razão. Não conseguira ir ao cemitério. Não dera um basta à voz no telefone. Não ficara quieto no seu cárcere, triste, mas conformado, em nunca mais ver Melissa.

Antes de juntar suas coisas e sair, tirou uma das fotos da cortiça e guardou-a em sua bolsa.

Paulo custou a atender o interfone. Levou mais tempo para perceber, primeiro, e acreditar, depois, que era Gabriel quem chamava.

Os dois fitaram-se longamente antes de Paulo convidá-lo a sentar-se. O silêncio continuou entremeando alguns oferecimentos feitos por Paulo e aceitos por Gabriel: café, água, biscoitos, cerveja.

— Você já foi lá?

— Sim. Não pense em ir, cara. Nem pense.

— O que você acha que estou fazendo aqui?

— Esqueça.

— E a minha dor?

— Quem vai acreditar na sua dor?

— Ninguém precisa acreditar, basta que me deixem ver Melissa.

— Conta outra, Gabriel.

— Até você, Paulo?

— Eu? O que é que tem eu?

— Quero ver Melissa.

— Ela esticou as canelas, não existe mais.

— Quero vê-la.

Paulo convidou-o para ficar e dormir. Era melhor deixar para resolver as coisas logo cedo, descansados pensariam melhor. Gabriel agradeceu, mentiu estar hospedado em um hotel. Amanhã se falariam ou se encontrariam no enterro.

— Não vá, Gabriel.

Saiu do prédio de Paulo, tomou a Tonelero em direção ao Leme. Cruzava as ruas, e Copacabana fazia-se viva na memória. A delegacia da Paula Freitas certa vez. A Polonesa tantas vezes, com e sem Melissa. O colégio das freiras e o entra-e-sai de garotas e mães de garotas. As putas, em todos os lugares.

Entrou no Cervantes para comer um filé com abacaxi. Tomou dois chopes. Já estava com um pé na rua quando voltou para um terceiro e um quarto chopes. A manhã não tardaria.

Gabriel pegou o celular e ligou.

— Poxa, cara, onde você está afinal?

— No Cervantes.

— Não saia daí.

— Não venha, por favor.

— Vamos juntos. Eu, você, Melissa também, por que não?, merecemos essa chance.

— Melissa está morta, não fale dela.

— Nós precisamos ir lá. Você precisa. Eu preciso.

— Você? Por que você? Se não querem que eu vá, o que dizer de você?

— Temos de ir juntos, Gabriel.

— Se você tem, que vá sozinha. Já tenho problemas demais.

— Eu preciso lhe dizer uma coisa.

— Não me diga.

— Melissa...

— Não quero saber.

Gabriel ocupou um quarto simples de hotel. Pediu para ser chamado às nove.

Um pouco antes das dez, entrava no São João Batista. Alguns familiares de Melissa desciam as escadas para deixar o cemitério. Não se falaram. Foi Paulo quem lhe explicou as razões de o enterro ter sido antecipado. Foi também Paulo quem pediu para Gabriel ir até a sala onde fora velado o corpo de Melissa.

Lá dentro encontrou Maria. Nas mãos, uma caixa de madeira em tudo igual à outra.

— Melissa pediu para virmos os três: você, eu e a merda desta caixa. Ontem, por mais que eu tentasse lhe dizer, você não queria ouvir. Não cumpri uma promessa. Você perdeu sua última chance.

Gabriel não agradeceu nem se desculpou. Sequer olhou para Maria com alguma intenção ou curiosidade. Segurou a caixa e foi para perto da janela. Maria sumiu.

Poderia abrir a caixa e ver. Mas aquele punhado de trecos largado dentro dela, a bem da verdade, não teria significado algum. O pedreiro ainda estaria deitando os últimos tijolos no túmulo de Melissa, a derradeira caixa que o tempo cuidaria de esvaziar de sentido. Gabriel imaginou o desgaste do homem sob o calor daquele sol; meneou a cabeça em desaprovação a essa técnica antiga de guardar um amontoado de ossos; um amontoado de ossos, só isso.

Melissa, Maria e ele; para todos, um triângulo amoroso desses dados a ter um final cruel; para Gabriel, apenas a travessia entre o chão e o abismo. No primeiro, pisara triste; no segundo, caíra igualmente triste. Triste continuava sua vida na terceira margem do rio, no exílio voluntário encontrado em São Paulo. Viera ao Rio para não ver Melissa, para resistir a Maria, para não perder de vista o canalha que ele era e com o qual se aprazia.

Se é que era essa a verdade.

18.10.08

Antologia Viagra

Meu primo, naquela altura, velho e maltratado pelos excessos cometidos vida afora, andava macambúzio, mais do que preocupando os familiares. Seu filho quis saber o que se passava, o que poderiam fazer por ele, o que afinal o pai queria. “Quero nhanhá”, respondeu. O gesto que acompanhou a expressão não deixou dúvida, o pai, mais pra lá do que prá cá, queria o fogo íntimo de uma fêmea. O filho ficou aturdido, mas consultou a irmã, médica, e essa aconselhou-o a dar o comprimidinho azul ao velho, obviamente arranjando-lhe a companhia.

Foi tomar o remédio para meu primo quase partir dessa para a melhor. Ficou todo torto, a boca espumava, teve como que um ataque epilético. O filho tornou-se ainda mais zeloso tão logo o pai se recuperou. Recuperação em termos, pois a tristeza deitou-se a seu lado e não saiu mais dali. O filho, sempre filho, portanto devedor de respeito à autoridade maior do pai, ainda que este não passasse de um corpo a um fio de sumir, fez de novo as mesmas perguntas anteriores. O velho não titubeou: “quero nhanhá”. Não lhe foi dada a pílula pela segunda vez, e, pelos motivos que o levaram ao estado em que vinha metido havia muito, meu primo não tardou a morrer. Morreu sem a derradeira.

Em viagem de negócio, um amigo encontrou um conhecido, devasso sem igual. Trocaram conversa e ficaram de ver-se no outro dia. Nesse intervalo, meu amigo se meteu numa aventura sexual inesperada. Não se saiu bem. No outro dia, ao contar sua desventura ao “devasso”, este riu e estendeu-lhe uma azulzinha. O tempo de vexame havia sido deixado para trás.

Meu amigo experimentou. Um sucesso. Em suas próprias palavras: “um homem de mais de quarenta anos com disposição de garoto de dezoito”. Enfim, o grande sonho masculino tornara-se realidade. Porém, como meu amigo ama sua esposa, pensou então em dar a ela esse novo homem de presente. Agiu às escondidas. Tomou sua pílula. Ao deitar-se, a esposa estava bonita que era uma coisa, só que não quis nada. Com ou sem cabeça de homem de quarenta e tantos anos, ele teve de agir como os garotos de dezoito, ou de treze até. Vexame. Não é que o danado não se emendou? Passado um tempo, nova pilula, e outro não.



O ator Jack Nicholson, certa vez, disse a um jornal que, se fosse casado, tomaria a pílula três vezes por semana, pois não deixaria nunca de cumprir seu papel sexual em casa. Já o pessoal do Casseta, rindo-se, não do Viagra, mas do Levita, que, segundo consta, garante o usuário por setenta e duas horas, sugeriu que, nas setenta em que o sujeito não estivesse mais “nhanhando”, tratasse de ajudar a tapar as frinchas existentes nas paredes das usinas hidrelétricas, por onde a água escapa.

Argumento para ficcionista: O sujeito anda equilibrando-se em fio de náilon e sem sombrinha. Para soar verossímel, imaginemos um sujeito em crise de meia-idade. Algo está pedindo a ele para ir além e pisar do outro lado da cerca, soltando a mão da razão. Sua primeira atitude melhor serveria a momentos de desfecho: compra uma caixa da pílula azul. Estará pronto para quando surgir a oportunidade. Com o troço na carteira, sai de casa hoje. Sai amanhã. Sai depois de amanhã. E sai, sai, enlouquecidamente ele sai. Nunca calha de acontecer o tal encontro fortuito. O remédio perde a validade, e com isso o homem perde sabe-se lá o quê de si.