24.3.14

Ano escaldante

Você começa a perder o otimismo com o ano novo quando dorme, em 2013, com o termômetro pra lá de trinta graus e acorda, em 2014, com o mesmo termômetro pra lá de quarenta. Pode escrever: o clima alinhava o que virá.
Então você, mal acordou, senta-se num cantinho da casa, o único preservado da bagunça, pega o jornal — e agradece que haja jornal, ainda que fininho, sem notícias e dispensável — e finge que o lê. Isso consome um pouco do seu tempo e o distrai a tal ponto que você quase não percebe que o calor está de lascar, que o ano vai ser daqueles.
Cai em si. O Botafogo vai jogar duas partidas — uma lá nas alturas de Quito — que podem abrir ao time as portas da Libertadores. Isso é bom e, frente aos acontecimentos de 2014, um detalhe menor, cujos efeitos não mudarão em nada a vida de ninguém, a não ser deixar alegre ou triste meia dúzia de torcedores como eu. Mas, no futebol, a coisa vai pegar é em junho, na Copa. E vai pegar não só no campo. O padrão Fifa, já provado, vai ser questionado, não tenho dúvida. E vai haver protestos. Ao mesmo tempo, os que talvez fujam desses protestos contestarão o resultado do campo. Roubou-se para o Brasil, se formos campeões. Roubou-se contra o Brasil, se não formos. Os quarenta graus, com sensação de cinquenta, expressam apenas os dias passionais pelos quais temos passado.
Foto de Alexandre Brandão.

Ora, fosse só isso, o termômetro ficava ali pertinho dos trinta, dava uns pinotes, mas não enlouquecia como tem se visto. É época de eleições. Prepare-se. A mentira, o conluio mal-intencionado, as amizades oportunistas desfilarão pelas redes de televisão, pelas ondas de rádio. Ah, sim, estarão de fraque, de longo, bem penteados, no esquema (e é essa a palavra) para fazer com que a gente acredite em suas boas intenções.
No Rio de Janeiro, ou é o Pezão, ou é o Garotinho, ou é o Bispo, ou é o Lindinho. E nós, ó... nem digo. No Brasil, tia Dilma vai tentar se manter ali onde está, e o Aécio irá com tudo pra cima dela. UFC em cadeia nacional. E as redes sociais vão, como se diz por aí e não me agrada a palavra, repercutir os golpes e contragolpes a torto e a direito. Em julho, terminada a Copa, mesmo que o termômetro lá no sul despenque para dez graus, a média no Brasil se manterá nos quarenta, vinte no termômetro, outros vinte no xingatório e no blá-blá-blá.
Se o brasileiro é forte e nunca desiste, em dezembro ele espera que a coisa amanse. Já teremos perdido a euforia da vitória na Copa ou nos acostumado com a derrota; as disputas eleitorais terão chegado ao termo que têm de chegar, uns achando um bom termo, outros não, mas, jogo jogado, será a hora de se preparar para lidar com o novo governo. Ou nem tão novo assim, se Dilminha continuar no Palácio da Alvorada.
Mas tudo isso todo mundo sabe, assim como sabe que esse calor é aviso para que nos mantenhamos atentos. O que ninguém sabe, e eu sei e digo, é que no ano que vem outro verão de mesma intensidade adiantará outras conjunturas de pelejas apaixonadas. Outros cenários políticos, outras disputas esportivas, muitos outros para a mesmice de nossos dias de aprendizes da democracia.

28.2.14

Da noite pro dia

Enquanto ouço o “Viralatas de Córdoba”, de Ademir Assunção & Banda Fracasso da Raça, reparo num sujeito que passa bem na minha frente. Eu o conheço embora não saiba seu nome. Nunca trocamos palavras um com o outro. Até aí, coisa nenhuma, mas acontece que ele envelheceu da noite para o dia. Ontem, bem, não era um jovem, mas não caminhava nem nas franjas da velhice na qual se meteu na última manhã.
Algo o levou a esse estado. Pode ter sido um golpe baixo da vida, um sofrimento que o tomou por dentro, de forma silenciosa, como quem não quer nada. Doença? Não parece — pelo menos não uma doença física. Sua velhice precoce anda envolta em sete véus. Está ali, não se esconde, tampouco se mostra às claras.
É uma velhice filosofal. 
Velhice filosofal? A que nível de cretinice cheguei. O cara acorda velho do nada, e eu nomeio filosóficas suas rugas. De certo pensando em uma velhice que sempre esteve ali, a ponto de explodir. Dia a dia, ambos negociavam, e ele conseguiu até recentemente mantê-la longe dos outros. Um dia, cansada do ostracismo, a velhice deu-lhe o golpe e saiu do armário.
Não, não pode ser assim. Essa velhice, exibindo-se com certa volúpia, é um calo provocado por arranhões e trombadas, nasceu de um soco — por dentro — no estômago. Efeito de enfrentamentos que minha vista, acostumada a contemplar sem mais um homem que de vez em quando cruzava meu caminho, não alcança.
Se não tenho qualquer espécie de intimidade com o envelhecido, nem mesmo aquela reduzida a uma troca de “oi”, tenho de ficar preso a especulações. Isso? Aquilo? Lembro-me de dona Rosa. Ela ficava à janela contemplando as pessoas que passavam defronte a sua casa e chutava o destino de cada uma delas: aquele ali está atrasado para o ônibus das quatro; aquele outro, sacola na mão, tem de passar no açougue e levar a carne a tempo do almoço. Assim, dona Rosa se distraía, sem nunca confirmar suas suspeitas. De meu lado, não me distraio, pois não foi um Zé Mané que passou aqui pela primeira e última vez. É praticamente um amigo, amigo de contato fortuito, não declarado, assim mesmo pessoa com quem me encontro com assiduidade, na esquina que nos juntou no mundo. E o amigo, caramba, o amigo ficou velho, velho.
Penso que ele me conhece também. Certa vez, eu e ele olhamos sem cerimônia, — de forma ostensiva, melhor dizendo —, uma moça que passou entre nós. Depois, quando ela se perdeu, eu e ele nos encaramos e rimos. Foi o máximo a que chegamos. É possível que tenha se esquecido de mim. Se não antes, agora que ficou velho. Que envelheceu e eu jamais saberei por quê — e, por não saber, eu também envelhecerei um tanto, assim, de uma vez.

14.2.14

Papai Mamãe [1]


                                                                      

— Cadê o menino?
— Saiu pra matar mendigo.
— De novo?
— De novo.
— Você não acha que isso está indo longe demais?
— Bem...
— Bem o quê?
— Ora, você...
— Eu?
— Sim, você.
— Que que eu tenho com isso?
— Você incentivou ele.
— Incentivei coisa nenhuma. Só dei minha opinião.
— Que é...
— Que esses mendigos são uns párias. Por mim, mandava matar todos eles.
— E isso não é incentivo?
— Isso é opinião.
— Filho não sabe diferenciar uma coisa da outra. O seu tomou sua opinião como ordem. Está lá obedecendo ao papai.
— Até agora quantos?
— E eu lá fico contando!
— Hoje vou conversar com ele. Vou dizer que está bem assim.
— Você acha mesmo?
— Não, não acho.
— Então deixa o menino fazer o serviço.
— Fico preocupado. Se a polícia pega, vai dar trabalho pra livrar a cara dele e a minha.
— Ele sabe fazer direito. Vi uma vez.
— Verdade, você foi logo no início. Ele engatinhava nisso.
— Mas já era bom. Ele tem precisão e sabe se esgueirar sem deixar vestígios.
— Um menino desses...
— ... enche a gente de orgulho.
— ...
— Você está chorando?
— Os filhos crescem tão depressa.

___________________________________________________________________ 
[1] Título provisório. Escrito em 2013, com o assassinato de índios por jovens e ricos adolescentes do Distrito Federal em mente. E era só um início.

1.2.14

Não quero ser turista

Aos onze que estiveram comigo em Buenos Aires

Estive em Buenos Aires, com olhos de turista e, assim mesmo, por ter alugado um apartamento, sofri como os da terra o sabor da crise energética da cidade; do país, na realidade. Doze horas no escuro. Doze horas sem ar-condicionado, utensílio imprescindível por aquelas bandas. Faz calor em Buenos Aires. E olha que tenho como comparação a cidade do Rio de Janeiro, quente feito poucas.
Foto tirada por algum dos acompanhantes de viagem.
Fiz o que todo turista faz por lá. Caminhei pela Recoleta, pelo Caminito, por Porto Madero e pela manjada Calle Florida, mas, ao contrário dos que estavam comigo, não fui ao tango. É meu jeito de fugir em parte do estereótipo de turista. Faço quase tudo que um turista faz. 
Turista insatisfeito com a própria condição, o momento mais glorioso foi quando, na Avenida Santa Fé, enquanto alguns de meus acompanhantes reviravam uma loja e outros desfrutavam do ar da mesma loja, eu, do lado de fora, fui abordado por uma moça. Não, por favor, nada de imaginar coisas, a moça simplesmente me fez uma singela pergunta: ¿Que horas tienes, maestro? Isso me deslocou da situação de turista para a de um habitante da cidade, um local. Respondi no meu portunhol safado — “dos horas” — e a vida seguiu adiante: a moça com a informação desejada, eu me sentindo um pouco menos estrangeiro.
Foto de Alexandre Brandão.

No Malba (Museu de Arte Latinoamericano) está nosso Abaporu, da Tarsila do Amaral, e estão também obras de Frida Kahlo e de seu marido, Diego Rivera. Teresa Cristina notou que os quadros dos três artistas são os únicos protegidos por uma tela de vidro. Reverência à importância das obras. Do lado de fora do museu, há um muro pichado, reivindicando a volta do Abaporu ao Brasil. Em torno das artes plásticas sempre há polêmica, principalmente por ser um negócio que movimenta altas cifras. O museu pertence a um milionário argentino, e isso me faz pensar nos banqueiros de cá, como aqueles do Banco Santos, que esquentavam a grana adquirindo obras de arte. Sei lá se o hermano é suspeito. Não sei nem quero saber. Estava de turista e, no museu, de apreciador.
O acervo é bacana, vai desde Maria Martins, artista de Campanha, cidade mais ou menos perto de Passos, até Botero, o colombiano que pinta gordinhos, passando por Portinari. Entretanto, o que mais me impressionou foi a exposição temporária com trabalhos da portenha Lilian Porter. Ela junta objetos quebrados (de bonecas de louça a pianos) a homúnculos trabalhando. Aliás, o nome da exposição remete ao trabalho: “El hombre com la hacha y otras situaciones breves” (traduziria por “O homem com o machado e outras situações breves”). Para mim, a artista tratou de mostrar nossa pequeneza frente ao que nós mesmos criamos.
À entrada dessa exposição, me deparei com uma mulher muito bonita. Ela lia o texto do curador afixado na parede. Eu ao lado dela fazia o mesmo. Ela lia em inglês, eu em espanhol. Acompanhei seu trajeto pelo salão até ela sumir. A presença de uma mulher bonita me fez lembrar de “O túnel”, livro do também portenho Ernesto Sábato. No romance, o artista plástico se apaixona por uma mulher que, ao visitar sua exposição, se detém num detalhe menor de um dos quadros. Ninguém, além dele mesmo, dera tanta importância àquele pormenor. Essa paixão torna-se obsessiva. Li o livro umas três vezes, da última já nem gostei, sentimentos tão extremados não me caíram bem. De todo modo, aos dezenove, vinte anos, depois da primeira leitura, o mundo ficou um pouco mais habitável. Voltando à exposição, a paixão não me tomou pelos braços, eu apenas reparei, num lugar onde se espera encontrar o belo, em uma mulher bonita.
Não poderiam faltar os livros. Buenos Aires é conhecida por suas livrarias, entre as quais está El Ateneo, situada dentro de um antigo teatro. O café, por exemplo, fica no palco, e salas de leitura estão instaladas nos camarotes. Uma beleza reconfortante. Além dos contos completos de Cortázar (comprado em outra livraria, a Cuspide), comprei livros de César Aira (um contemporâneo que indico fortemente), de Luis Gusmán (autor que estou conhecendo agora e tem me soado bastante estranho) e de Osvaldo Soriano. Pois é, tenho material para botar em marcha meu espanhol tímido e capenga por um bom tempo.
Foto de Alexandre Brandão.
Mais jovem, talvez sob a influência de Sábato, imaginava que, se fosse a Buenos Aires, não voltaria, passaria a viver na cidade mais europeia da América Latina. Mas aí está, fui e voltei. Com as boas lembranças que trouxe, meu compromisso é, da próxima vez, tirar de vez a roupa de turista e desvendar por inteiro a cidade. E, quem sabe, ficar por lá de vez.

6.1.14

Aprenda a terminar uma briga de amor


Casais brigam. Isso não quer dizer que devam chutar o balde, deixar-se levar pelo fígado e/ou pelo coração. A razão serve melhor a esses momentos, mas é difícil aliar-se a ela, apesar de não ser impossível.
Partindo dessa premissa — difícil, mas possível —, selecionei algumas frases ou atitudes que um dos parceiros pode usar para tentar contornar o pior da briga, conduzindo o foco para o problema a ser enfrentado e resolvido.
Antes de sugerir uma lista de frases e gestos, conto uma história. Aconteceu comigo. Eu e minha parceira discutíamos pesado. Não me lembro o motivo, mas era coisa das mais importantes: um atraso de cinco minutos, um comentário feito fora de hora, em mesa de bar compartilhada com amigos. Não sei. E pouco importa. O fato é que, enquanto rolava uma DR (para quem não sabe uma discussão da relação), eu disse: “Eu não perdo tempo”. Perdo, amigo. Pode? Não, não pode nem pôde. Eu e ela caímos na risada, e o problema se resolveu por si só. Esse tipo de solução é obra do acaso (ou da mão de Deus). Não é usual que aconteça, na realidade, é raro, razão pela qual não se pode fiar nessa espécie de solução.
Então, restam-nos as estratégias.
A boa intenção, ao contrário do que afirma o senso comum, não leva um dos brigões ao inferno e chega a salvar um relacionamento. Ela pode inclusive vir em forma de uma frase horrível ou sem sentido. Sendo assim, não há por que não dizer, quando o tom tiver ultrapassado o limite superior do razoável, “meu amor, você está mais para presunto do que para mortadela”. Veja que péssima frase, de qualquer ponto de vista que se olhe. Não é literatura. Não é pertinente tratar pessoas como frios. Entretanto, digo por mim, se ouço uma frase dessas, recuo; frente à mortadela ser presunto é um elogio e tanto. Por preconceito, é verdade, haja vista que mortadela é tão bom (ou tão ruim) quanto presunto. Mas mortadela, sabe como é, mais comumente, é mortandela. E, pelo som tão desagradável de mor-tan-de-la, ninguém admite ser comparado a ela.
Imagens valem mais que mil palavras. Outro lugar comum, mas sabedoria muito bem escrita — e nunca desenhada, o que é uma contradição, mas deixa pra lá. Assim, no meio do imbróglio, use e abuse das mãos. Claro, não para fazer aqueles gestos que intencionam mandar o parceiro lá pras bandas do mau cheiro, mas, para desenhar com elas, na altura do peito, um coração, que deve pulsar na direção do amor à beira de um ataque de nervos. Tamanha fofura desarma qualquer espírito bélico. É tiro e queda. Tiro e queda não é, nem deve ser. De fato, é o contrário de tiro e queda, mas espero que vocês tenham me entendido.
Tudo isso soa ridículo. E é. Já dizia Fernando Pessoa (ou um de seus heterônimos), no amor tudo é ridículo, mas, de fato, não amar é que é ridículo. E briga de amor — sim, estou falando só dessas — são apenas um lado do amor. Se nas cartas amorosas usamos e abusamos dos clichês, do derramamento, nada mais justo que façamos o mesmo nas brigas. Fazer coraçõezinhos com as mãos ou chamar o amor de presuntinho é um jeito estranho de acabar com aquele bate-boca improdutivo.
Em síntese (sempre quis acabar uma crônica com esse “em síntese”, pois dá ao texto ares de academia, fica chique mesmo. Vou até repetir a expressão e terminar a crônica).
Em síntese:  acaso, frase, gesto — ridículos, mas amorosos — o que importa é fazer da briga apenas um muxoxo do amor. Um tropeço. Um descuido. Uma oportunidade de transformar aquela energia toda em prazer, daqueles que começam com um olhar, um carinho e, depois, seja o que Deus quiser e o diabo comandar.

30.12.13

Filosofias de botequim à moda antiga

Foto copiada do seguinte blog.

A vida, grã, é um trem grande demais da conta e passa rápido que nem avião. Às vezes se parece com um carrinho de sebo descendo pelo passeio da Bonsucesso, da esquina do doutor Breno até às raias do corgo — quarteirão mais íngreme da rua. Ou seja, vai zunindo e ainda deixa sebo na calçada, um risco para senhoras e senhores, andem de bengala ou não. Aquele moço de Cordisburgo, o tal Guimarães Rosa, dizia que viver é perigoso. Renga, se é. Por isso eu bebo. E bebo também porque, tonto, é mais fácil andar em corda bamba — ou em passeio torto ou ensebado.
Veja se concorda com a minha falta de ciência. Tem é coisa errada entre o aquém do Tula e o além da Praça do Rosário. Professor ganhar pouco. Polícia desrespeitar um sujeito só porque ele é preto ou pobre ou pobre e preto. Homem bater em mulher. Essas são graves, mas outras nem tão graves assim são também gravíssimas. Dono de botequim servir cerveja quente. Playboy ouvir no carro música no último volume (eu nos meus ontens). Mulher bater em homem. Cruz, credo!

Se existe um troço que não entendo é a falação que dentista arranja enquanto cuida da gente. O paciente — anestesiado, boca aberta por imposição e necessidade — não consegue responder, nem com movimento de cabeça. No máximo, mexe os olhinhos. E isso de mexer os olhinhos, Jesus Cristim, é estratégia de flerte no rela, não tem nada a ver com sim, não, talvez, pensando bem, palavras boas para entabular uma prosa. Dentista é chegado numa torturinha, já não bastassem os preços. Sai de mim, boi de Garça.
Nó, sô, me lembrei de uma dor de dente que tive num carnaval. Os dentistas todos lá pras Furnas e suas beiras. Ligo, no desespero, pro meu primo, o Cássio. Ele me atende no consultório e, sem desperdiçar palavras, abre meu dente. Era um canal, não poderia cuidar dele, pois, como eu logo voltaria ao Rio de Janeiro, não daria tempo. Milagre, só de abrir o dente a dor sumiu. Cassinho me explicou a química daquela maldição. Fiquei boquiaberto e despossuído de palavras ao saber que, presos entre as paredes do dente, alguns gases comprimidos provocavam, nas palavras do primo, a ondontalgia. Portanto, feito pessoa ou mesmo bicho, esses gases só precisavam de liberdade. Dentista é mesmo uma bênção, esqueça tudo quanto já foi dito antes.
As pernas da Martinha foram cantadas em marcha de carnaval. Eu alembro, das pernas e da música. O engraçado é que, logo de cara, a musiquinha insistia “Martinha, Martinha, está na hora de você entrar na linha”. Erraram de musa. Quem deveria entrar na linha são os lalaus de todos os naipes, esses blefadores de truco apostado com o dinheiro alheio. Se prefeito, secretário, vereador, deputado, senador, juiz, governador, presidente, esse mundaréu todo — seja do Manda-brasa ou da Arena, do Pato ou do Peru, seja vermelho ou de outra cor, tucano ou outro bicho — andasse nos trilhos, virge, o mundo, de tão leve, avoava. Sabe quando esses velhacos se emendam? Mané hoje, não; e nem amanhã.

Vorte! Tô que nem doido, mas não vario. Com a cabeça no “Bem bolado”, as costas na “Primor” e os pés no “Zé Feio”, dou um galeio, salto no lugar-nenhum e espio pela fechadura só pra ver se encontro mulher vestida. Resolvi devolver o nu pra imaginação. É difícil, mas eu coiso assim mesmo.

7.12.13

Pensando alto

No agora há muitos tempos. Enquanto alguns transitam na mais sofisticada banda de internet, outros não chegaram sequer ao telefone ou à luz elétrica. Enquanto a indústria diz estar pronta para oferecer roupas íntimas que não deixam escapar o pior de nossos cheiros, o esgoto ainda é uma realidade de poucos.
Sempre ouvi a história segundo a qual político não gosta de investir em esgoto porque é uma obra subterrânea e invisível. Preferem pontes, ruas, praças. Ou metrô, subterrâneo visível e transitável. No novo filme de Bruno Barreto, “Flores raras”, o foco é a relação amorosa entre a poeta americana Elizabeth Bishop e Lota de Macedo Soares, brasileira que, depois de botar a cara a tapa e convencer o governo da então Guanabara da importância da obra, comandou a criação do Parque do Flamengo — embora não fosse, como dá a entender o filme, arquiteta. Sob sua coordenação estavam nomes como Affonso Eduardo Reidy, Sérgio Bernardes, Burle Marx e outros tantos, estes, sim, donos das pranchetas que definiram a feição do parque. No filme, Lota aconselha Carlos Lacerda a esquecer essa coisa de esgoto e apostar numa obra vultosa, ao mesmo tempo bela e útil, neste caso para o lazer da população. Se foi licença poética do cineasta, não sei, mas não tenho dúvida de que a opção estivesse sobre a mesa. A situação do esgoto era mais aguda nos anos de 1960, quando se fez a obra, portanto, não havia como não estar em debate.

Foto do autor. Aterro, Rio de Janeiro.

Ganhamos todos com o Aterro, é certo. Mas muitos continuaram e continuam sofrendo das doenças causadas pela falta de esgoto e, de quebra, talvez poucos tenham desfrutado ou desfrutem ainda do parque.
Escrevo uma frase lugar-comum: viver é optar. Ou isso ou aquilo. A maneira como escolhemos, no Brasil, não tem sido feita de forma clara e democrática. Houve, e não sei como anda, o orçamento participativo nas gestões do PT em Porto Alegre, primeiro, e em outras cidades depois. A ideia é ótima. A população discute — em seus bairros e levando-se em consideração que não há dinheiro para tudo — se é melhor asfaltar uma rua ou colocar mais um poste de luz. Se houver a opção pelo poste, o asfalto da rua necessariamente ficará para amanhã (e não esquecido para sempre). Nunca a participação política foi tão radical. Nessa solução, problemas há aos montes (como se escolhe quem representa a comunidade? Quem fiscaliza a obra? Como tratar o descumprimento de um acordo por parte do município? Quanto do orçamento é, de fato, aberto à negociação?), mas o sujeito está metido até o talo nas questões de sua cidade.
A exposição de Sebastião Salgado, Gênesis, até há pouco tempo aqui no Rio — e agora em São Paulo —, é um registro de vários tempos no tempo presente. Acredito que o desenvolvimento também deve ter princípios. Isso quer dizer que as fronteiras agropecuárias têm de respeitar os aborígines, sua cultura, seu habitat natural (tão bem retratados por Salgado). Mas não vai faltar terreno para plantar e, com isso, alimentar sete bilhões de pessoas no mundo? Ora, vamos comer insetos. A ONU testa um projeto que transforma insetos em pó comível (tipo shake). Fonte fabulosa de proteína, essa criação requer pouco espaço. Não torçam o nariz, cedo ou tarde nos acostumaremos. Conheço gente que não se arrisca ainda hoje na culinária japonesa, mas, principalmente, os mais novos, aqui no Brasil mesmo, já nascem hábeis com o hashi, o pauzinho com que se come sushi ou yakisoba.
Ufa, me entusiasmei e disparei a falar feito um doido. Peço-lhe desculpas, leitor, mas é o Brasil que me tira do sério. Prometo não cometer erro semelhante outra vez. Agora vou me recolher e pensar baixinho um monte de coisas da pá virada, todas com um quê de pecado.

3.11.13

Herança miúda

Em março de 1980, eu botava os pés no Rio de Janeiro, daquela vez para viver na cidade. Fui morar com meu irmão e sua família, o que me ajudou na fase de adaptação. Havia também meu tio, mas, por azar, justo nesse ano, ele adoeceu e veio a falecer. Eu e Norma, sua companheira, estivemos juntos dele nesses meses nada fáceis.
Sobre meu tio havia certa mística. Ele seria um sujeito pouco sociável, metido com o trabalho e tímido no afeto. No nosso convívio, descobri um homem diferente do que deixava transparecer. Foi ele, por exemplo, quem me catalogou como homem, ou seja, o Alexandre que estava ali não era o rapazote meio desajuizado do Joaquim e da Haydée, e sim um homem que tomava decisões e o ajudava. Ouvir isso não é pouco para um rapazote meio desajuizado.
Tio Hélio, em sítio em Jacarepaguá. Foto de família.
Depois que tio Hélio foi embora, a família achou por bem que eu tivesse algum privilégio na escolha das coisas do seu espólio afetivo. Escolhi um chapéu, que já não sei onde está. Também um casaco, que só há pouco, quando o tecido esgarçou de vez, deixei de usar (guardo-o ainda no armário). E, não poderia ser diferente, discos e livros.
No baú estavam Campos de Carvalho e seu “Vaca de nariz sutil” (prefaciado por Jorge Amado). Dificilmente um garoto de dezoito anos vê cair em suas mãos, sem ser por indicação, um autor desses (para mim, um dos melhores). Estava também “Solitude on guitar”, disco do Baden Powell.
O disco do Baden tem muitos de seus clássicos, mas tem, sobretudo, “Márcia, eu te amo”. Num econômico diálogo entre violão, baixo acústico e percussão, a música, de cinco minutos, não pede licença e se abriga na gente — isso sem melodia fácil e cantante. Naquela época, algumas Márcias haviam passado por minha vida. Vieram e se foram daquele jeito de ir e vir das primeiras experiências amorosas: com leveza, mas ferindo. Estranhamente, ouvir uma, duas, três — sei lá quantas vezes —“Márcia, eu te amo” me curou das Márcias que não se quiseram minhas. E me descurou de meu tio. Perdi alguém que poderia me dar a mão nos momentos vacilantes pelos quais, jovem percorrendo seu caminho, eu passaria e passei.

9.10.13

O bichano experimental

O gato que não tenho teme o Zorro, o cachorro que eu já tive. O temor não tem a ver com a possibilidade de ser devorado pelo cão, já que o tempo de suas existências é distinto: um viveu ontem, o outro, o gato, talvez viva amanhã. Não sendo temor físico, só pode ser ciúme. O gato que não tenho quer que todo afeto que devoto aos animais seja dele e que ele não corra o risco de me ouvir dizendo: o Zorro, sim, era o bicho. O gato que não tenho é um absolutista.
O gato é gato porque tem olho de gato. Um gato sem olho de gato gato não é — embora uma rodovia com olho de gato não seja um gato. (É mais ou menos a mesma história contada por Mary França e Eliardo França — “O rabo do gato”, Editora Ática —, só que, na visão deles, o rabo define o gato.) O gato que não tenho tem olhos azuis tão intensos que a cor, como a batatinha quando nasce, se esparrama por toda a extensão do seu corpo. Seu pelo branco parece azul. Seu focinho é azulmente triste.
O gato que não tenho gosta de unhar a porta, de arranhar as paredes e de rasgar o tecido do sofá. Quando se entusiasma, destrói porta, parede e sofá, mas, em contrapartida, perde as garras (por um tempo). Resta-lhe o bigode, que passa a exibir como símbolo fálico. No caso do gato que está por nascer e que, depois de nascido, poderá ser meu, seu bigode (preto, mas com halo azul) vive eriçado, e ele roça seus fios por todos os cantos da casa. Menos no terreno da gata que não tenho nem terei para evitar a procriação e o problema de distribuir gatos entre amigos.
Em vez de jantá-los, o gato que não tenho gosta de sair com ratos, dar umas bandas esgotos afora. Além de franquear minha casa à visita de seres tão asquerosos, no fim das farras, ele volta sujo e esfarrapado. Em tom de ironia e ameaça, digo-lhe que até mesmo sete vidas se consomem com alguma rapidez. Ele então me confessa que já queimou seis das sete e veio para morrer comigo. Em seguida, com calafrios e olhos púrpuros, o gato que não tenho ataca, com as unhas, uma fileira de poeira e rói o silêncio matutino de nossa casa.
Quem disse? Não sei. Drummond? Talvez. Mas ouvi que os gatos se acariciam em nós e não aceitam que nós o acariciemos por nossa vontade. O gato que não tenho age desse modo, sem tirar nem pôr, e, assim como vem, vai. Se arrisco um gesto espontâneo em sua direção, ele me morde. O que faz lembrar seu parentesco com tigres-de-bengala. Aliás, o bichano sonha se encontrar com os poucos tigres-de-bengala ainda existentes no mundo e não entende, por mais que eu explique, a existência de um valão oceânico que, ao separar a América da Ásia, estabelece a lonjura. Ser nascido depois da internet, todos os lugares, para ele, são o mesmo sítio pontocom. Como não bastasse sua dificuldade com latitudes e longitudes, os tigres não respondem suas mensagens no facebook, com o que ele sofre uma frustração cavalar e passa a falar mal da família.
Há uma relação amorosa entre escritores e gatos, que se explica, segundo certa hipótese, pelo fato de ambos serem solitários; pode ser, mas acho que a razão é outra. O gato é excelente revisor, e não há escorregada gramatical que lhe escape do olhar (azulado em alguns casos). Na língua do gato, os próprios advogam, não se comete erro. Talvez seja verdade, mas acredito que, na base do miado, ninguém consiga registrar um delírio causado pela larica de uma dor profunda. Como esse que arrisquei fazer agora.
Feito por mim. Mais experimental impossível.


1.10.13

De enfiadinha

Dia desses, no Facebook, falei uma mentira. Disse que, desde que lera e relera no mesmo instante um livro de Nabokov (Machenka, Companhia das Letras), só agora, ao ler “O que deu pra fazer em matéria de história de amor” (Companhia das Letras), de Elvira Vigna, voltara a ter experiência similar. Na realidade, essa de dar duas leituras assim de enfiadinha havia me ocorrido um pouco antes com livros de dois amigos meus. Um do conterrâneo Alexandre Marino (Exília, Dobra Editorial) e o outro do também mineiro Sérgio Fantini (Novella, Jovens Escribas).
Foto de Alexandre Brandão.

O que leva um sujeito a ler duas vezes em seguida um mesmo livro? Ou encanto ou assombro. Encantado, é impossível abandonar o livro. Assombrado, é imperativo voltar a ele para, de fato, compreendê-lo ou decifrá-lo — e ser, enfim, devorado por ele.
A releitura de Nabokov esteve ligada à questão do assombro — li e reli, confesso, por não entendê-lo na primeira leitura. Se não estou enganado, já que busco na memória algo acontecido há muitos anos, não é um livro fácil. Do mesmo Nabokov, é melhor ler “Lolita” (Alfaguara Brasil).
Nos casos de Fantini e Vigna, a questão tem a ver com o encantamento, mas, como escritor, a releitura foi também um golpe baixo, quer dizer, tentei decifrar, na segunda visita, os truques dos nobres colegas. Fantini, por exemplo, é dono de um texto enxuto, mas de um enxuto comparável ao sujeito magro de nascença, daqueles (não sou eu, mas foi meu pai) que passam a vida sem saber o que é gordura. Assim, meu amigo de Belo Horizonte, ainda que trabalhe muito para ter o texto pronto e seco, não deixa vestígios de seu bisturi no que escreve. Seus contos estão de um jeito que parecem ter sido desde o nascimento. Assim especialmente nesse “Novella”, livro de narrativas curtas, que flertam com a poesia.
Já Vigna nos conta uma história que a própria personagem e narradora conhece, digamos, de ouvir falar. Isso não seria nada surpreendente se ela não se agarrasse àquela história como forma (quase) única de estruturar a própria vida. Ela relata a vida de seus sogros, se é que os pais de um parceiro com quem vive e deixa de viver com certa frequência podem ser chamados de sogros. Bem, ao narrar e confrontar-se com a história contada, a personagem (sem nome) vai fazendo o que dá em matéria de história de amor com seu homem, que talvez não seja filho do pai dele e que é pai, sem saber, do filho dela. Vale situar o período histórico da narrativa, pois, me parece, ele é fundamental: começa, no período da Segunda Guerra, com a migração de uma família judia, a do sogro, da Alemanha para o Brasil, passa pelo período da ditadura militar e desemboca nalgum momento mais recente, no qual, por exemplo, a AIDS já tinha dado a sua cara e feito suas primeiras vítimas. Seja como for, para quem associa literatura feminina a Clarice Lispector, um conselho: interne-se numa clínica e desintoxique-se antes de ler Vigna. O feminino são muitos, destaco e teclo sem motivo aparente o óbvio.
Resta meu xará, Alexandre Marino, dono de uma poesia que me encanta e me assombra. Para falar dele (ou da própria poesia), tenho de confessar uma idiossincrasia: nunca dou por terminada a leitura de um livro de poemas. Se me perguntam se já li um livro qualquer de poesia, mesmo que já o tenha lido, respondo que não, que não li, que estou lendo. Por que tamanha sandice? Ora, porque os livros de poesia são como a Bíblia ou o Alcorão, leitura para a vida inteira, portanto interminável. Se agora eu confesso que li e reli o Exília de enfiadinha estou apenas anunciando o início do embate. Voltarei ao livro, hoje ou amanhã, ou hoje e amanhã, para reencontrar “Os pássaros de Bagdá”, poema que diz que “ninguém pensou nos pássaros de Bagdá,/desafios canoros/que os ditadores ignoram”. Antes do poema estive entre os que não pensaram nos pássaros — nem nas baratas, nem nas árvores que velam os generais mortos em combate.

9.9.13

Conselhos (quase) inconsequentes

Desarme a polícia.
Libere as drogas.
Proíba a publicidade governamental.
O poder não legisla, julga ou administra em nome de Deus (ou de Deuses). O bagulho é entre nós.
Rir pelo menos três vezes ao dia é bom para a saúde. Rir do governo, do vizinho ou de nós mesmos — não necessariamente nessa ordem. O governo também deve ser saudável, assim deve rir do governo, por óbvio, de outro governo, por exemplo, o nosso poderá rir do americano ou do russo. No caso do vizinho, o governo não reservará seu riso apenas para a  fronteiriça Argentina, devendo contemplar do mesmo modo andinos, caribenhos e platinos. Numa coletiva o governo rirá de si mesmo.
Reuniões entre agentes do governo e entre eles e agentes não governamentais poderiam ser filmadas, transmitidas ao vivo e mantidas na internet por tempo indeterminado. Nada de edição.
São péssimas as soluções de emergência, logo que se faça uso delas apenas quando de fato houver urgência (desastre natural, invasão das fronteiras). Diante das manifestações populares, o governo decide... Nada disso: diante das manifestações populares, o governo ouve antes de sugerir.
Incentivar artista, empresário, agitador cultural, enfim, todo aquele que receber dinheiro público (ainda que por renúncia fiscal) a escrever e tornar público um texto com críticas ao governo (seu mecenas). Construtivas, se achar por bem. Se optar por crítica leve, um senão à roupa usada pelas autoridades, que, em seguida, aponha outra mais contundente, que ajude o governo e o próprio estado a serem mais justos.
Imagem tirada daqui.

Uma vez por mês, formar uma mesa de biriba com os chefes do Executivo, do Legislativo e o do Judiciário. Transmitida ao vivo, claro. Depois de um ano, aquele que fizer mais pontos terá direito a um mimo do Estado: uns dias mais de poder, isenção de imposto de renda ou qualquer coisa que faça os jogadores lançarem mão de todas as suas artes e artimanhas para ser o vencedor.
O presidente, pelo menos duas vezes por ano, os governadores, quatro vezes, e os prefeitos, doze, bem que poderiam passar um dia inteiro na rua olhando as modas. As escolhas de por onde flanar respeitariam a diversidade: um dia de Leblon e outro de sertão sem chuva. Durante esse dia, o chefe do Executivo estaria obrigado a entrar num boteco, pedir um café, contar uma piada. E ouvir, ouvir muito.
Abrir as seções eleitorais para o eleitor arrependido justificar seu arrependimento e deseleger o antes eleito. Como consequência, a prática de desvoto de cabresto seria crime.

3.9.13

João

“Deus é propício” ou “graça divina” são significados dados ao nome João. Entre aqueles que fundaram a era cristã, dois Joões se sobressaíram: João Batista, que batizou Jesus, seu primo, e João Evangelista, o mais longevo dos apóstolos.
Meu padrinho era João, mas ninguém o chamava pelo nome. Lôzo, o apelido. Não se casou. Gostava de tomar uns tragos. Fumou bastante e, por isso, um câncer na boca desdentada havia não sei quanto tempo.
O primeiro a quem chamei de João, porque João era, foi meu tio João Ernesto. Sobrevivera a um derrame, tinha dificuldades motoras e brincava de boneca. A casa na qual ele e tia Maria viviam, na rua Formosa, tinha um quê de magia: na sala, um homúnculo de madeira batendo um pequeno sino anunciava as horas no relógio de parede e, no quintal, um banco que eu só via nas praças ficava a minha disposição para subir, deitar, pular e até me sentar nele para ficar, menino ainda, burilando minhas primeiras caraminholas.
Foto do relógio de tio João Ernesto e tia Maria (foto cedida por seus netos Guilherme e Vanessa).

João Batista virou Tista, amigo de escola em cuja casa a Bá torcia, como eu, pelo Botafogo. João Gaiola, hoje perdido no tempo, decerto gostava de prender passarinho. Nós todos gostávamos. Deixei de gostar ainda criança.
Tratavam o João Veloso como retardado. Dançava sozinho tanto na pista das matinês dançantes quanto na rua, neste caso para chamar chuva. Houve uma época em que ele passou a visitar a casa de meus pais — com seus prováveis um metro e noventa apanhava mangas na árvore alta e custosa. Foi quando descobri sua inteligência. Retardado não era — era (deve ser ainda) um ser especial, que, quando queria, fazia chover.
João Timponi, um terapeuta para meus dezoito anos de muitas incertezas e certa gana de ferir o mundo com a unha.
Quando ouvi o “Amoroso”, de João Gilberto, comecei a prestar atenção à dobradinha técnica e emoção. Uma vez, num bar no Leblon, sem razão aparente, eu estava sentado no banquinho do piano. João Donato cutucou um de meus ombros e pediu licença para se sentar ali e improvisar uma coisinha. Com aquela trilha musical, tive a ilusão de que a vida é sempre generosa.
João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, João Gilberto Noll: Joões para meu bico de leitor respeitoso. João Paulo Vaz e João Bastos são de outra natureza: dividimos nossos originais, portanto o que espero deles — e acho que eles esperam o mesmo de mim — é que não respeitem em demasia meus rascunhos.
Chegou meu dia de ser pai; isso há tempo. O primeiro filho, João. Não para homenagear alguém. Foi o gosto comum meu e da Bia. Meus pais, que não escolheram nomes bíblicos para os filhos, estranharam. Não liguei — não ligamos. Meu João, hoje um homem, um homem que admiro, caça seu rumo. E viver não é outra coisa senão caçar o rumo, sabendo-se que o rumo adora brincar de pique-esconde. 

4.8.13

Torcedor acanhado

Senti falta de negros na torcida durante a Copa das Confederações. Meu amigo, o Alberto Mattar, reclamou da ausência do torcedor desdentado, com radinho de pilha colado ao ouvido. Eu e o Beto não somos apenas uns nostálgicos empedernidos, ao contrário, nós, como muitos outros, captamos o aspecto excludente do evento. A ausência do negro ou do desdentado significa que à camada mais pobre da população não foi franqueada a entrada nos jogos. Uma pena, principalmente porque o País tem se empenhado em diminuir algumas de suas diferenças mais abissais, como a de renda, por exemplo. E mais pena ainda: o futebol é o esporte queridinho dos brasileiros, ricos ou pobres.
Imagem retirada deste site.

Em maio de 2010, Daniela Pinheiro, numa matéria para a revista Piauí, questionava as benesses de uma Copa do Mundo, tomando o caso da África do Sul, onde discussões parecidas com as que travamos hoje aconteceram. Em seu artigo, ela diz: “Quando a Fifa alardeia que os estádios devem estar lotados, portanto, é mais uma questão de estética de show do que financeira. O lucro da entidade em nada depende da venda de ingressos, mas para o sucesso do espetáculo as arquibancadas precisam estar cheias. ‘É o que o Berlusconi disse: o futebol ideal vai ser o dia em que a torcida receber para estar no estádio e se comportar exatamente como uma claque de auditório de um programa de tevê’, comentou Alvito“ (antropólogo Marcos Alvito, da Universidade Federal Fluminense).
Se essa é uma questão estética, o pobre não coaduna com os padrões de beleza definidos justamente por quem não é pobre — e é quem manda na Fifa, na televisão etc. e tal. Portanto, o que se vê é o seguinte: o país que aceita sediar a Copa do Mundo aceita cumprir todas as exigências da entidade. E essas funcionam como se, durante os jogos, uma área do país fosse extraída dele, passando a ser de responsabilidade da Fifa. De responsabilidade não, pois a Fifa faz as exigências, mas não arca com os custos delas. A segurança, por exemplo, é garantida pelas polícias nacional, estaduais e municipais.
Estive no Maracanã para ver um dos jogos da Copa — a festa dos dez a zero da Espanha sobre o Taiti. O estádio está confortável, vê-se bem o gramado de todos os cantos. Os banheiros são bons e havia sempre alguém cuidando de sua manutenção. (Vejamos como funcionará a coisa em jogos dos campeonatos nacionais ou estaduais.) Enfim, ainda que possamos ter saudade do antigo, o de agora responde bem aos anseios de inovação.
Não vou tocar na questão de custo e corrupção porque, em relação aos custos, todo mundo sabe que foram exorbitantes e, no caso da corrupção, como brasileiro e mineiro desconfiado, não boto a mão no fogo por ninguém, mas não tenho elementos para dizer se houve ou não.
Sei que tudo que esteve e está fora dos campos de futebol (que, diga-se de passagem, não é novidade) fez de mim um torcedor acanhado. Não fui o único, ouso dizer. Como o Brasil estava em alvoroço cívico, gritando aos quatro ventos a frustração com uma pá de coisas, paralelamente à Copa das Confederações — e até por conta dela –, o grito de gol encontrou resistência numa garganta que pedia passagens mais baratas, escola de melhor qualidade, saúde para todos. Minha torcida desbragada está em virar o jogo das mazelas brasileiras.

A verdadeira festa junina

A polifonia das ruas zumbe e zumbirá por um bom tempo nas dobras do País. Esqueça o vandalismo e pense: um sopro só e os políticos se mexeram. No Congresso votaram projetos guardados nos armários havia séculos. A presidente viu entrar por sua sala uma pauta com a qual não contava. Todos sabemos que as reformas política e tributária, entra governo, sai governo, não passam de assuntos tratados nas campanhas eleitorais, se tanto. 
Como não somos burros, não comungaremos a unanimidade das ruas por muito tempo. Nem tudo que quero para o País meu vizinho quer. Quero andar num ônibus confortável, ter metrô de alcance compatível com o tamanho da cidade em que vivo, ele quer lugar na garagem para mais um carro. Ele quer estourar o Maracanã, eu, poder assistir meu futebol em paz. Teremos pensamentos distintos em relação à ideia de cura dos gays, ao lugar que devem ocupar as igrejas nos espaços público e representativo.
Nossas manifestações arranharam a importância da política, dos partidos. As mudanças que estão sendo demandadas (multifacetadas e nem sempre convergentes) dependerão da política — portanto dos partidos. Esse atrito abre espaço para experiência de exceção? Sim, claro, mas também pode reforçar os protocolos da democracia e, por conseguinte, a própria democracia.
Acredito que nossa trajetória recente — viver a ditadura, superá-la, entrar na democracia, viver sob o comando de aventureiros devidamente expulsos do poder e, depois, ter governos menos distantes dos anseios populares (PSDB e PT), ainda que reféns do jeito ancestral de fazer política em nossa terra — nos fará optar pela democracia. Então será fatal reforçar os partidos, dar cor bem definida a cada um deles. Essa tal reforma política, de um jeito ou de outro, terá de vingar.
(Faço um ato de fé, agarrando-me ao meu otimismo atávico.)
Antes de terminar, dedico duas ou três palavras à questão do vandalismo. Acredito que houve aquele incentivado por forças retrógradas, mas também houve o espontâneo. Houve, no abuso das polícias, o vandalismo de farda (uma pequena passeata iniciada em Bonsucesso terminou com um verdadeiro massacre, comandado pela polícia do Rio de Janeiro, na favela da Maré).
Partindo desse ponto de vista, minhas palavras serão voltadas aos vândalos espontâneos. No muque, no furto, na destruição, não dizem nada? Dizem, ora se dizem. Eles dizem que há uma fatura não paga. Não bastam as bolsas isso e aquilo — boas, sem dúvida nenhuma —, mas é preciso agregar algo que as mercadorias por si só não são capazes de satisfazer. Há um desejo de inclusão, que, muitas vezes, não passa de uma demanda básica, como é o pedido de saneamento (e não de teleférico) na Rocinha. Aliás, a passeata que saiu da Rocinha e engrossou no Vidigal, a meu juízo, foi o momento máximo de todo esse movimento. Quebrando todos os estereótipos, nenhum ato de vandalismo. Ao contrário dos vândalos espontâneos, estes souberam dizer muito bem.
Imagem retirada deste site.

7.7.13

ABC da rata

Não sei quem e quantos conhecem a expressão “dar uma rata”. Significa cometer uma gafe, dar uma mancada. O sujeito que dá ratas é o sem-noção, o mané, não sei mais quais adjetivos aproximam a expressão tirada do fundo do baú de outras hoje em voga. Pouco importa, não estou aqui para platitudes vocabulares e sim para destrinchar a rata com um pingo de didática; e só.
A rata pode ser da alçada íntima, por exemplo, alguma estranheza que, sem saber, um ou outro do casal recém-formado deixa escapar durante o sono: uma frase enigmática balbuciada entre dentes; uma virada de lado com energia descabida e distribuição de socos ao deus-dará. Ratas íntimas e inconscientes são para deleite e análise de Freud, não para o meu. As conscientes, ou pelo menos aquelas que encontram os namorados acordados, interessam mais ao meu rascunho didático. Um segredo revelado numa mesa entre amigos ou uma reclamação do caráter do parceiro na casa dos sogros são ratas típicas. E doloridas. Quem viveu, sabe; quem não, esteja preparado, acontece com alguma frequência.
Pode-se definir a rata coletiva, cometida por um amigo e absorvida pelos demais. Quando adolescente — na realidade, pré-adolescente, ali com uns doze anos —, o Mosquito (que foi feito dele?) foi operado de fimose, e uma amiga não sabia que diabo era isso. Num tempo em que sentíamos vergonha de fazer comentários sobre aquela região do corpo que até nossos pais não costumavam nomear, não encontrávamos palavras para tirar a inusitada dúvida. Apostamos na generalidade: tratava-se de uma cirurgia feita com o propósito de não inibir o crescimento. Não dissemos do quê, mas, se bem me lembro, fizemos um gesto. A amiga, incapaz de perceber a sutileza de nossa comunicação e sabendo, como todos sabíamos, que o Mosquito não era um menino alto, diagnosticou que ela também deveria render-se ao bisturi, pois era baixinha além da conta. A rata dela virou folclore entre nós, mais que isso: tornou-se nosso patrimônio coletivo. Sempre que nos encontramos, relembramos o bafo. Para quem chegou depois, maridos e mulheres que não pertenciam ao grupo, rata, rata mesmo, é contar e recontar coisa tão desimportante — e sem graça. Essas ratas fraternas, na prática, alinhavam e sustentam as relações duradouras. É a rata mosqueteira: uma por todos, todos por uma.
Nas barbas da diplomacia, prolifera a rata internacional. Não pode ser confundida com atrocidades do tipo invadir países ou promover golpes de estado. A rata internacional é o rei da Espanha mandando Hugo Chávez calar a boca. Ou Reagan dizendo que Buenos Aires é a capital do Brasil. É coisa mais jocosa que grave, mas, nem por isso, isenta de danos. A Guerra de Troia começou com uma rata: entre todos os deuses, a deusa da discórdia, Éris, foi a única não convidada para o casamento de Peleu e Tétis (que viriam a ser os pais de Aquiles). Ora, não deu outra: a deusa, vingativa e manipuladora, fez e aconteceu, jogando, ainda que de forma indireta, Paris nos braços de Helena, a esposa de Menelau. Daí em diante foi o que foi; se é que foi.

Haverá — é lógico, mas não se prova — a rata intergaláctica. Vai que a noite e o dia (resultado de uma complexa engrenagem), do ponto de vista de galáxia distinta da nossa, não passem de um tropeço risível do sistema solar. Ou que um cometa, que só de rai e rui corre visível a olho nu pelo céu, equivalha a um pum impertinente, que escapa no meio de uma reunião de negócios. A ideia de rata nesse nível não parece desajuizada, embora poucos se preocupem com ela, talvez nem mesmo, ou muito menos, a própria cosmologia.
Deus comete ratas. Os muito céticos afirmam que o homem e a mulher foram um erro divino. Não vou discutir essa questão delicada, que julga o ato divino, que o considera errado. Não vou por aí, meu foco é a rata, coisa miúda. E a rata de Deus foi dar próstata ao homem e marcar o ciclo da mulher com a menstruação. Havia soluções de engenharia ou arquitetura mais eficazes. 


30.6.13

Imagens colombianas e outras

Em maio circulou pela internet reportagem sobre um dicionário muito particular, o “Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças” (não há notícia de que tenha sido traduzido no Brasil, e o título é o que consta das matérias). O livro, um apanhado de definições genéricas, foi resultado do que o professor colombiano Javier Naranjo recolheu no seu convívio com crianças ao longo dos dez anos em que lecionou numa região rural de seu país.
Naranjo, autor do livro.
Há coisas realmente surpreendentes. Uma pequerrucha de sete anos, Natalia Bueno, diz que a igreja é “onde a pessoa vai perdoar Deus”. Imagino que o professor catalogou essa “definição” sem fazer nenhum juízo de valor a respeito. Já não sei se, ao sair o livro, a menina não tenha levado um bom corretivo. De seus pais. Do pároco local. Eu considero a frase um soco nas nossas certezas religiosas, o que me apraz, não por ser assunto religioso; de fato me apraz tudo que vá contra qualquer outra certeza. É meu espírito anárquico, e cínico.
Menos controversa é a frase de Duvan Arnnulfo Arango, que, no alto de seus oito anos, definiu o céu como sendo “de onde sai o dia”. Com a mesma idade, Leidy Johanna García afirmou que a lua “é o que nos dá a noite”. Para terminar as citações, com pitada poética e uma ironia desmesurada, ao definir mãe, Juan Alzate (seis anos) disse que “mãe entende e depois vai dormir”.
Ao ler a matéria, me lembrei de Gabriel García Márquez. Se há algo que marque a literatura do colombiano são algumas das imagens que ilustram suas histórias. Boi que sobe escada (“O outono de um patriarca”). Borboletas amarelas que anunciam a presença de Maurício Babilonia (“Cem anos de solidão”). O médico que, ao auscultar um coração, ouve as lágrimas que o paciente derrama dentro do peito (“Crônica de uma morte anunciada”).
García Márquez.

Por pouco não alinhavo uma teoria. Já ia dizendo que o realismo mágico é apenas uma reportagem de García Márquez sobre as entranhas de seu país, haja vista que os meninos do dicionário são tão realistas mágicos quanto ele. Mas aí me curvei às minhas lembranças de pés quebrados. E Kafka, lá doutra banda? E Juan Rulfo, anterior ao colombiano? E os surrealistas? Não encontro razão, mas, nessa viagem rasa, aportei em Murilo Mendes, ele também cheio de imagens brutas. Num de seus poemas mais conhecidos, uma paródia à “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, ele canta: “Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade/ e ouvir um sabiá com certidão de idade!” E noutro momento, em “O homem, a luta e a eternidade”, seus versos finais são estes: “Um dia a morte devolverá meu corpo,/minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins/meus olhos verão a luz da perfeição/ e não haverá mais tempo.”
Murilo Mendes, por Guignard.

Entre o pensamento bruto das crianças colombianas (e de qualquer outra, na verdade) e os trabalhos de García Márquez ou Murilo Mendes, há uma linha estendida, longa; numa ponta, o bárbaro; na outra, a sofisticação, o pensamento profundo e articulado. Mas pergunte a um escritor, os que citei ou outros, o que procuram. Aposto um contra mil que todos querem recuperar a criança que um dia foram, querem abraçar a espontaneidade e a visão assustada e virgem que os pequenos têm.