19.2.18

Estive de férias

Alguém me disse que foi Carnaval. Não precisava, eu vi, quer dizer, ao sair de casa e ir ao cinema, tropecei naquele monte de gente fantasiada circulando pela rua. Nessa época, se um desavisado aportar no Rio de Janeiro, mas não só nele, sem saber disso de Carnaval, achará tudo muito estranho. De fato, é, mas também não é. Dane-se o desavisado, a festa serve para pequenos ultrajes, e andar de índio, pirata, noiva ou sei lá mais o que faz parte da magia.

Não brinco mais, os senões (além dos meus quilos a mais, muita gente, muito calor, muita bebida) gritam mais alto. Então, leio. Vou ao cinema. Bebo minha cerveja em casa. Aqui e ali assistoTV. Me inteiro dos assaltos — as redes de televisão parecem ter um certo prazer em mostrar o pior. Passo os olhos nos desfiles das escolas de samba. Dessa vez, acompanhei a Portela e digo: não fosse a pobreza da comissão de frente, poderia ter terminado mais bem classificada do que o quarto lugar. Digo isso sem entender bulhufas. Mas quem é que entende de Carnaval? E para que entender?

No Rio, a crítica foi a grande vencedora. Beija-flor e Tuiuti jogaram pedra na nossa dura realidade. A primeira atirando nos escândalos que salpicam dia sim, dia não. A segunda, mais profunda, mirando o sistema. É o povão dizendo que está atento. Será que é mesmo o povão? Tenho minhas dúvidas. O fato é que o Brasil não é mesmo trivial. Veja o caso da Beija-flor: comandada por um notório contraventor, a escola veio cantando um samba certeiro contra a corrupção. É hipocrisia? É, mas tem sua beleza. Esse é o país que temos, e os bicheiros, tornados bandidos pela tolice de uma ex-primeira dama, estão sempre em evidência. Ora bancam times de futebol ou escolas de samba, ora estão presos; isso quando não estão matando uns aos outros.

Esqueço a grandiosidade da festa e falo do meu mundinho. No Carnaval, li “Pedaços de amor”, de Ronaldo Guimarães, lançado pela Miguilim. Eu e o também mineiro — ele morador do Prado, em Belo Horizonte, onde viveu Belmiro, o amanuense de Cyro dos Anjos, um escritor machadiano dos melhores e meio esquecido — nos conhecemos de um jeito interessante. Ronaldo ouvia do meu primo Lucas, dono do Agosto (um senhor bar de BH), que nossa literatura tinha algo em comum. Trocamos livros, ele leu alguma coisa minha, e eu mastiguei esse “Pedaços de amor”. Chegamos à conclusão de que o Lucas está completamente equivocado, mas daremos a ele, em breve, o direito de defesa. O fato é que o livro do Ronaldo é muito bom e, entre tantas coisas que possa dizer a respeito dele, chama a atenção a musicalidade de suas frases. É, assim, uma leitura agradável, mesmo que as histórias não sejam lá muito felizes.

Foram muitas sessões de cinema de filmes que, eu acho, são candidatos ao Oscar. Quem diria! Houve época em que eu fugia daqueles que estavam na lista do prêmio, era trauma de um tempo no qual, entrava ano, saía ano, as tragédias eram o tema de Hollywood. E tome câncer! E tome criança em sofrimento desmedido! Isso parece ter sido deixado para trás, mas pouco importa esse papo todo, fui ao cinema, ponto. Os candidatos ao Oscar são bons, pelo menos os que vi. “The Post” é um filme que suscita muitas questões, que vão desde os limites de um segredo de estado até a tão discutida liberdade de imprensa. Os americanos são zelosos de sua democracia, mas o caso tratado no filme vai além de uma autopromoção. Todavia, lindo, mas lindo no sentido mais puro que possa existir, é “Visages, Villages”, dirigido por Agnès Varda e JR. Uma velha senhora do cinema e um jovem artista plástico andam pela França, fazem uns projetos com fotos enormes, que são sobrepostas em ruínas. Tudo muito simples, mas, quem já o assistiu talvez concorde comigo, não é apenas um filme ou um documentário, é, isso sim, um filme-poema.

Antes do carnaval, houve Arraial d’Ajuda. Houve o loft de minha amiga Rosaly Senra e sua hospitalidade. Houve o mar, uma lua cheia de tirar o fôlego, mas também a chuva. Houve um cachorro de rua que se sentou ao meu lado. Houve o amor de mais de trinta anos, que continua havendo. Mas nada disso eu digo, guardo para mim, é o saldo de minhas férias e, afinal de contas, não estou no primário, portanto não tenho de escrever aquela redação manjada sobre como foram meus dias longe da escola.


Em Arraial d'Ajuda, Bahia.


7.2.18

Mais uma curva fechada

Minha amiga me disse que, sentada no metrô, enquanto se deslocava do trabalho para a livraria, onde afinal nos encontramos, observou que as pessoas estavam tristes. Reforçou: “As pessoas estão tristes até a raiz.” Mesmo o Chico Buarque, a quem assistira uns dias antes, lhe pareceu abatido, sem energia.
Sei que estamos sob pressão e a um passo de jogar a toalha e dizer: não dá mais. O sinal está fechado para nós, que não somos nem tão jovens assim, quiçá para os jovens. Ah, Belchior, você não teve tempo de presenciar nossa deblace. Só nós assistimos a sua derrota de homem triturado pela máquina, isso que se vê todos os dias e nos leva a dar de ombros e seguir adiante.
A queda coletiva está acontecendo e não parece ser a soma das individuais. É um processo. Adoniran Barbosa viu situação semelhante a isso, miúda, é verdade, no desmanche do Bexiga, no ocaso do seu mundo. Ecoa agora o que o Sargento Oliveira, de “Um samba no Bexiga”, fala, com intenção de acalmar as pessoas: “Num tem importância / Foi chamada as ambulância / Carma pessoal / A situação aqui está muito cínica / Os mais pior vai pras Clínica.” A dimensão das “tragédias” tem distintas implicações: no fracasso de um país Brasil, não há clínica que suporte tantos e tantas que precisam de socorro. Não haverá toque de silêncio em cornetas ou bumbos, simplesmente chegará o fim.
Eu e minha amiga fomos ouvir o papo de Rogério Reis, o fotógrafo responsável pela foto que serviu de modelo à estátua de Carlos Drummond de Andrade em Copacabana. A história do encontro dos dois é ótima. Antes da foto emblemática, Rogério fez outras, também muito conhecidas: Drummond, com um livro indecifrável na mão, ora está sentado, ora levemente deitado num tapete persa do chão de sua casa. Rogério tinha uns vinte anos nas duas oportunidades que teve de fazer as fotografias. Alguém na plateia comentou que, para tirar fotos como aquelas, o fotógrafo deveria ter uma grande empatia com o fotografado, rara capacidade principalmente em um jovem. Verdade. Que moleque era aquele e que poeta — um velho que completava oitenta anos — era aquele?
Falo da década de 1980. O Brasil também capotava na curva, mas conseguimos um alívio, desse modo torto com o qual historicamente avançamos. E Drummond estava vivo. E Rogério, hoje com sessenta anos, um pouco mais, um pouco menos, apostava todas as suas fichas na vida que mal começava. Apostávamos nossas fichas, eis a diferença para os dias atuais. Reunimos um milhão de pessoas em várias praças para ouvir um palanque com oligarcas, democratas históricos e exilados recém-chegados levantando as mesmas bandeiras. Alguma coisa nos unia. Hoje mais nada.
Uns querem a mão dura para enquadrar os meninos levados e as meninas levadas que nos tornamos aos olhos reacionários. Solução infantil, que não encontra adeptos nem na psicologia mais velha e/ou velhaca. Outros acreditam que o erro foi só do lado de lá, que há um homem bom capaz de dar jeito em tudo. Não, não há um homem bom. Ou por outra: não há um homem bom para além do que eu e você possamos ser.
Esse caso do apartamento no Guarujá, a um leigo feito eu, parece pouco substantivo, difícil de, a partir dele, levar uma pessoa à condenação. Apesar disso, Lula tem culpa pela conjuntura esfacelada. Tem sim. Culpa política. Não só ele, diga-se, e nomeiem-se mais alguns: Fernando Henrique e Aécio, um MDB de cabo a rabo e mais inúmeros entre políticos anões e religiosos devotos do cifrão. Conseguiram, em certos momentos com mérito, levar o carro para além da curva. Seguros de si, trocando a direção uns com os outros, pisaram fundo no acelerador logo em seguida. Estamos de novo no meio de outra curva. Os pneus são os mesmos de quarenta anos atrás, e o farol está queimado. A direção está e estará nas mãos de um político, e é bom que seja assim, apesar dos pesares. Os passageiros, que já tememos a velocidade, agarramo-nos à mão do destino. Somos bois abatidos, que ainda mugem (baixo).
A situação está cínica. Cínica e meia.

22.1.18

As muitas infâncias


Para o Daniel Ribas

Dia desses, fui convidado para um bate-papo com crianças, mas, infelizmente, a conversa foi cancelada. Deveria falar como me aproximei da literatura, acrescentando como a questão da violência interfere na relação livro-infância. Fiz umas anotações-guia, e são elas que, de modo geral, divido com vocês. Ah, sim, a linguagem é adulta, na hora do vamos ver, manteria outro nível, mas jamais, em hipótese alguma, falaria como se estivesse diante de animais, gorjeando onomatopeias para bebê dormir.

Cresci num mundo muito diferente do de hoje. Não havia internet nem celular; havia televisão, mas, durante muito tempo, não na minha casa. A primeira TV que tivemos foi em 1970, um pouco antes da conquista da Copa. Eu tinha nove anos.

O que fazia uma criança sem TV, internet e celular? Fora de sala de aula — o número de crianças que não frequentava a escola era grande —, a molecada brincava na rua, nos quintais. Brincava de pique esconde, de mamãe da rua, de balança caixeta, de bolinha de gude; jogava futebol; fazia guerra de mamona; pulava córrego com vara de bambu; roubava fruta dos vizinhos. Nos domingos, ia à matinê e, no fim de todos os dias, cansada, dormia cedo.

Poucas faziam um trenzinho a mais: liam um livro na hora de dormir. Liam espontaneamente, porque ajudava a desacelerar dos dias de tanto corre-corre e pula-pula. Eu lia? Só por volta dos doze anos, a leitura foi se tornando uma atividade corriqueira, que eu buscava. O que, muito cedo, eu fazia era imaginar coisas, fazer versinhos, músicas. Bolava números de circo (acrobacia, palhaçada) e convidava os vizinhos para ver. Na porta de casa, armava um jogo de argola, que muita gente parava para jogar. Investia o lucro em sorvete e figurinhas. Colecionar figurinhas era a coisa mais importante do mundo, e, graças a elas, uma vez ganhei um fogão. E o que uma criança fazia com um fogão? Nada, ué, dava pra mãe, e a mãe vendia.



O querido Carabolante mandou a turma de doze anos ler um livro de gente grande: “Capitães de areia”, de Jorge Amado, que conta a história de uns meninos de rua, muito diferentes do que eu era, ainda que fossem da minha idade. Putz, como aquilo me fez bem! O livro me acompanhou pelos dois ou três meses que gastei para lê-lo e depois fazer o trabalho. A partir de então, ler passou a ser uma atividade que se encaixava perfeitamente nas demais. É verdade que, entrando na adolescência, uma novidade — forte concorrente da rotina estabelecida — apareceu na minha vida: as meninas, quer dizer, a atração por elas.

Brincando até não poder mais, lendo livros que contavam histórias ao mesmo tempo diferentes e parecidas com as minhas e metido em paqueras, acabei, entre uma pelada e um mamãe da rua, entre “O escaravelho do Diabo” e “Lucíola”, rascunhando uns versos, uns versinhos de amor, feitos para impressionar.

Encontrei na leitura — e na escrita — terreno para alimentar a minha já robusta imaginação. Por que fui assim? Por que a fantasia sempre me atraiu? Não sei explicar, mas quem é que sabe tudo de si?

O mundo é violento desde sempre. Às vezes, a violência está mais distante, às vezes mais próxima. Na minha infância, numa cidade pequena, violência era briga de rua, eram os meninos mais fortes se impondo. Eram os meninos da periferia fazendo valer seu destemor contra a boa vida dos bem-nascidos. Era isso e mais algum crime raro, quase sempre de fundo passional, restrito ao mundo adulto. Violência, violência mesmo estava lá no Oriente Médio, eu via na TV. Estava também nos porões da ditadura, mas eu não via na TV. Hoje a violência é na esquina — de grandes ou de pequenas cidades —, por isso a infância foge da rua. Poderia ser um estímulo à leitura, mas parece que os jogos eletrônicos têm falado mais alto.

12.1.18

10 01 — do ano da graça de 2018

Não acredito em numerologia, nessas coisas, mas ontem, 10 do 01, foi um dia interessante, vai que tem a ver com a data espelhada, não é? Pois bem, o dia começou da seguinte forma: ouvi a conversa entre aqueles que chamei de revoltados da aurora (dois senhores, na primeira hora da manhã, enquanto levavam seus cachorros para as necessidades matinais, ameaçavam destruir a assembleia e o congresso na porrada) e li, num cartaz-propaganda de um leitor de búzios, a promessa de, depois de uma consulta, o cliente “ter êxito em seus problemas”.

Trabalhei, como sempre trabalho. No fim do dia, resolvi ir ao cinema. Seguindo a dica de meu amigo e xará, o poeta Alexandre Marino, fui ver “The Square — a arte da discórdia” (Ruben Östlund). Sobre o filme, digo que é importante, senão fundamental, vê-lo nesse momento. O crítico José Geraldo Couto, na primeira vez que falou do filme (no site do IMS), fez elogios rasgados, na segunda, recuou um pouco, viu certo didatismo no filme, uma tentativa de açambarcar todas as questões pungentes dos dias de hoje. É até possível que ele esteja certo, mas tudo no filme é colocado de forma intensa, verdadeira, então, a meu ver, esse didatismo se perde ou perde a importância.

Comprei o ingresso e dei um pulo na livraria que fica a um quarteirão dali. No caminho, esbarrei em dois escritores numa ilha que separa as calçadas da rua. Brinquei com eles dizendo: “poxa, já somos poucos e vocês ainda ficam aí, expostos ao perigo.” Rimos, e eu tratei de seguir para a livraria, sabia muito bem o que queria lá. Há algum tempo, numa conversa com a Suzana Vargas, ela me disse que havia conhecido e ganhado um livro do Marcelo Maluf. Me aconselhou fortemente a lê-lo. Depois, no Face, o Eugen Weiss, respondendo a uma enquete sobre quais seriam os bons escritores da atualidade, tascou um Marcelo Maluf. Então eu ia à livraria para comprar um Maluf, este, não o outro, aquele. E fui. Lá, o poeta, cantor e livreiro, Leonardo Marona, botou a livraria de cabeça para baixo (exagero) para achar o “A imensidão íntima dos carneiros” (Editora Reformatório). Eu e Leonardo, antes de qualquer coisa, ficamos embasbacados com o título, e, agora, avançado na leitura, posso dizer que o livro é bom, aliás, bem bom.

Voltei ao cinema, encontrei dois amigos, sentei num cantinho, comecei a ler a minha recente aquisição. Entrei pra sala, fui desligar o celular e, antes, resolvi dar uma espiada no Face. Para minha surpresa, o querido Marco Túlio Costa acabara de publicar um texto sobre o meu “O bichano experimental” (Patuá). Coisa linda. Respondi a ele o seguinte: “Eu aqui esperando o filme começar, numa sala lotada, onde devo ser discreto, e leio isso. Não posso gritar, nem chorar. O que me resta senão sentir-me um bichano feliz, ronronar baixinho e firmar um compromisso de, saindo daqui, tomar um chope e propor um brinde aos deuses? Valeu, grande Marco Túlio Costa." Ao sair da sala, encontro meus amigos Shirley e Átila. Cada um deles carrega uma garrafinha de cerveja. O Átila me dá a dele, já vai entrar no cinema (para assistir ao “The square”) e é com essa garrafa que cumpro o prometido e brindo aos deuses as palavras sobre o livrinho. Depois, fui pra casa comer macarrão com salsicha e, sentado no computador, ficar ouvindo o Catho, esse jovem cantor de quem nunca ouvira falar.

8.1.18

O inadiável

Acorda com a sensação de que está atrasado, de que espera por ele uma urgência não revelada.

Faz o asseio matinal sem apuro. Engole o pão e bebe apenas meia xícara de café. Não arruma a cama. Não troca uma ideia com o porteiro. Enfia-se no carro.

Enfrenta o trânsito com fúria. Faz ultrapassagens pela direita e pela esquerda, avança sobre a pista exclusiva dos ônibus, pouco se importando se, na primeira, na segunda ou na terceira vez, a câmera o flagre e multe seu excesso. Espreme um ciclista contra o meio-fio. Fura sinais e, quando não o faz, buzina — se depende de que outro carro, a sua frente, dê a arrancada — ou, se é o primeiro parado no sinal, engata a marcha e toca ainda que algum pedestre esteja terminando de atravessar a rua. Xinga o pedestre. Lamenta a falta de civilidade dos moradores de sua cidade. E acelera mais ainda.

À entrada do prédio onde trabalha, fura a fila dos automóveis que se encaminham para o estacionamento. Para de forma irregular na primeira vaga que encontra e nem se importa com as advertências do encarregado. Pega o elevador. Sai do elevador. Toma o outro elevador. Lê, no monitor de TV, que são 7h39m. Chegou cedo, a tempo (de quê?).

Dá bom-dia aos poucos que estão no escritório. Recebe, em troca, olhares desconfiados, irônicos talvez. Deve ser a hora, ele nunca chega tão cedo, é da jornada das 10h às 19h. Mas hoje é diferente, precisa se organizar.

Onde estão seus pertences? Suas canetas? Seus papéis de rascunho? A calculadora? O chefe ainda não chegou. A secretária tampouco. Depois se encarregará de saber o que aconteceu. Liga o computador. A senha é recusada. Uma, duas vezes. Se errar a terceira, terá problema, terá de pedir uma nova senha e não conseguirá uma tão cedo, os responsáveis por isso não teriam motivo para estar no escritório antes das 8h. Resolve tirar da bolsa uma caneta, um papel de rascunho, o celular para usar a função calculadora. Suspira.

— E aí, aposentado? Esqueceu o que por aqui? — Eleutério, em tom jocoso, deixa a frase no ar e dirige-se à sua mesa de trabalho, lá na ponta extrema do salão.

Na sexta-feira anterior, havia saído no Diário Oficial, hoje é seu primeiro dia útil de aposentado, ele não se deu conta, ao contrário, acordou com aquela sensação de trabalho por fazer, de rotina a cumprir. Sente vergonha. Recolhe o que espalhara pela mesa, desliga o computador. O que dirá ao chefe? À secretária? A todo mundo?

Acomoda-se na cadeira. Infla o peito de ar. Fecha os olhos. E morre.

25.12.17

Repertório

O editor da Rubem é um jovem, o Henrique Fendrich. Nem bem sei como um dia ele me convidou para escrever em sua revista eletrônica, o fato é que eu aceitei, e minhas crônicas por ali passeiam há mais de cinco anos. Encontrei em Henrique um conhecedor da crônica brasileira, um senhor conhecedor, melhor dizendo. Ele, que também é cronista dos bons, realmente leu tudo, o que deveria garantir-lhe um espaço nas festas literárias, nos saraus do Sesc, em júris de concurso, mas, até onde alcanço do seu dia a dia, isso não acontece. O jornalista Henrique vive de trabalhos avulsos em Curitiba. Oh, Brasil!

A erudição do jovem editor, vez por outra, levanta do pó do esquecimento algum ou alguma cronista. Recentemente foi a vez de Marisa Raja Gabaglia, escritora que escancarava o peito, virava-se do avesso. Não conheço absolutamente nada do que ela escreveu, portanto foi no perfil feito pelo Henrique que encontrei a seguinte frase: “Sonho com a família perdida como se a pudesse recuperar. Sonho com a família como os cegos sonham com a luz.”

Em meados de dezembro, passei uns dias na companhia do meu amigo Marco Túlio Costa — um Escritor, disse noutra oportunidade e repito em quantas julgar necessário. Acontece que o Túlio não é só um escritor, é também um sujeito que vira e mexe arruma um projeto para atuar como voluntário. Seu livro “A árvore do medo” (Editora Formato), por exemplo, foi escrito a partir de suas oficinas com crianças carentes da cidade de Passos, onde vive. Ultimamente, ele trabalha com a Associação dos Deficientes Visuais. Nesses dias que passamos juntos, meu amigo me contou várias histórias da turma que acompanha, histórias divertidas, pois aqueles cegos são alegres e contornam com humor suas limitações. Túlio perguntou a dois cegos de nascença se eles sonhavam e com o que sonhavam. A resposta é que sonhavam com sons e tatos.

Marisa Raja Gabaglia, ao dizer que sonha com a família da mesma forma como os cegos sonham com a luz, está idealizando o sonho dos cegos ou simplesmente está dizendo — ela, que abriu mão da sua — que, na verdade, não sonha com família alguma? A julgar pelo levantamento da vida da escritora, esse do Henrique, a frase está apoiada na ilusão de que os cegos sonham com a luz, pois Marisa era carente do convívio familiar.

Certa vez, ouvi o Túlio (onipresente por aqui) aconselhar algumas professoras do ensino médio a não se preocuparem com o que o escritor quis dizer; como leitores deveríamos nos perguntar o que aquilo escrito sabe-se lá por quem significa para nós. Acabei de dar esse tropeço, mas até certo ponto justifico-o. Não houvesse eu sido alertado para a espécie muito singular de que é feito o sonho de um cego (pelo menos aqueles que nasceram assim), a frase de Gabaglia teria uma única leitura. Tendo ganhado repertório, a leitura se multiplicou e desse modo tornou-se mais interessante. Ah, como isso é bom. E como leva uma vida inteira nosso processo de alfabetização.

11.12.17

Papo reto

Você que sabe que a terra é plana; que Paul McCartney morreu antes de os Beatles fazerem sucesso; que Elvis está vivo, vivíssimo. Você — o mesmo ou outro parecido com o primeiro — que não tem um pingo de dúvida de que a ida do homem à lua foi apenas um truque dirigido por Kubrick, a mando dos estúdios de Hollywood; que advoga que tomar óleo de coco, chá de boldo ou urina de homem ou mulher virgens cura até falta de dinheiro. Também você — reforço: o mesmo ou outro parecido com o/os anterior/es — que tem absoluta certeza de que Deus fala e atua por meio do pregador da esquina; que acredita fervorosamente na boa vontade daqueles homens circunspectos que, por meio de um discurso empolado, oferecem solução para tudo, particularmente para o fim da sua pobreza, que não depende da redução da riqueza deles. Você que toma uma colher de azeite para evitar a ressaca; que bebe diariamente, mas é só uma social, nada demais. Você que diz que ter fé é acreditar cegamente, sem questionamento, em tudo — esquecendo-se ou desconhecendo o fato de que muitos santos, inclusive Moisés e Jesus, exercitaram a dúvida até o limite. Você que é democrata, mas defende a violência como o melhor antídoto contra a violência; que é avançado, mas sente saudades do tempo em que os homens eram homens e as mulheres eram mulheres. Você que, solidário às mulheres, defende com unhas e dentes que o problema da violência contra elas está na minissaia que usam. Você que vê, no Brasil de Lula (e no de Temer, diga-se) e até mesmo nos Estados Unidos de Obama, a evidência da ascensão do comunismo. Você que não é racista, mas — é o que você diz — francamente tudo tem limite. Você que não é homofóbico, mas, ora, meu Deus, você se espanta, tudo tem limite. Você que já andou no lombo de mula sem cabeça. Você que já viveu de tudo e aprendeu que o esforço sempre é recompensado, ainda que não seja exatamente isso que lhe aconteceu. Você que não se deixa enganar. Você que não muda de opinião. Você que acha bobagem essa coisa de livro, de filme, de teatro, de pintura; que acredita que o mundo está como está porque ninguém quer trabalhar. Você que fuma, mas não traga.




Pois bem: é com você que estou falando e quero lhe dizer uma coisa: você está mal, muito mal. Porém sou obrigado a reconhecer: você ganhou, o mundo é seu, e você não fará bom uso dele — aliás, você, dono do mundo não é de hoje, nunca fez bom uso dele.

27.11.17

Mais uma derradeira carta de amor


Amor, tivemos uma recaída e agora, de novo, temos de enfrentar o fim. Não é o primeiro, oxalá, seja o último.


Ao contrário das outras, esta carta anuncia que não, não cortarei os pulsos.

Não, não vou pular do décimo andar. Não subo mais tão alto, aprendi a desfrutar das delícias ao rés do chão, depois, você sabe do pânico de altura que passei a ter. Nem mesmo o tombo me atrai. Logo eu. Você dirá: logo você. Sim, logo eu.

Nas outras despedidas, além de ameaças, falei um monte de verdades embrulhadas num rancor danado de sem-vergonha. A vantagem da recorrência é que, na segunda vez, aprimora-se a primeira, na terceira, a segunda, e assim por diante. O que não dizer então de nós, que estamos em nossa décima? Décima? Ah, os numerais! Ah, a contabilidade do destroço!

Então começo esta carta sem dedo em riste, sem revólver que ora aponte para sua fronte, ora para o meu ouvido direito. Porém não pretendo escrever uma carta lírica, a última das últimas em tom passional. Nada disso, é uma carta protocolar.

Devolva-me o Neruda que eu te tomei, li, mas voltei a colocar no seu criado-mudo. Tudo bem, não é um caso de devolução, mas, por favor, reconheça que o chileno e suas estrelas ficarão melhor na minha companhia.

Não carregarei mágoas sobre todas aquelas coisas que você, três doses acima do habitual, costumava dizer na casa de seus pais. Mas, se puder e sóbria, desminta a história de que fui um menino cruel, que matei peixes apenas por matar. Você bem sabe que eram pombos, esses ratos alados.

Tem aquele amuleto que você — por razões tantas vezes confessadas, mas que eu jamais compreendi muito bem — gostava de ter ao alcance dos olhos durante o sexo. Pois bem, num momento de incontida raiva, eu o enfiei numa das minhas quatro malas e não sei quantas caixas. Mal lacrei estas e passei o cadeado naquelas, fui tomado por um arrependimento enorme. Eu jamais faria isso, eu não farei isso. Assim, não revire a casa atrás de seu orgástico amuleto, está comigo, mas não ficará por muito tempo, é só eu me arranjar na nova moradia, que ainda não sei qual é.

Não temos conta conjunta, não temos poupança nem letras do tesouro. Se tanto, em sua escrivaninha deve ter uns cem dólares restantes de nossa última viagem. Isso facilita nossa separação, não há coisas concretas — e duras — para cuidarmos. Em compensação, não sei bem ainda o que farei com minhas lágrimas (filhas de dores profundas), que só fui conhecer depois que passamos a ser, além de amantes, amigos. Minha oculista, sem saber de nada, disse que meus olhos estavam menos secos, que pareciam mais saudáveis. Não, não pense que uso de um artifício raso ou de manipulação para adiar nosso fim. Longe disso, mas, de todo jeito, vamos ver como eu me saio na próxima consulta. Aliás, se puder, veja em sua agenda se é mesmo na próxima semana. Desde já, obrigado.

Começo a ficar sentimental, isso não é bom. Você me disse várias vezes que eu não sei lidar com essas exacerbações, que sou melhor quando contido. Assim, para fugir de um vexame, começo a me preparar para, levando as malas e deixando esta cartinha, cair fora de sua vida.

Fique bem, não se esqueça de fechar a janela da área à noite. Sempre tem a chuva e, de uns tempos pra cá, os morcegos.

13.11.17

Na rua

Fui conversar com o sujeito na rua. Ele me olhou com aquela cara de que pior do que estava poderia ficar, acabava de ficar. Pedi a ele que me perdoasse, não ia incomodá-lo, ou pelo menos não ia incomodá-lo muito. Ele disse que não conhecia bem o bairro, se fosse, então, para obter informação talvez não pudesse me ajudar. Melhor seria se eu falasse com a moça da banca de jornal, com o vendedor de frutas na esquina.

Toquei em seu ombro. Ele deu dois passos para trás, levantou as mãos, deixou claro que não queria esse tipo de intimidade. Bisei minhas desculpas. Ele me mandou desembuchar logo, tinha pressa. Acrescentara certo pavor à cara de poucos amigos. Achei melhor tranquilizá-lo, eu não era um assaltante. Contestou em tom irônico, eu não precisava ter feito esse esclarecimento, via-se logo que eu seria incapaz de um gesto desses. Emendou com todas as letras: “Tu é um bunda-mole.”

Nesse instante, me enfezei, afinal de contas por que tamanha violência? Apontei-lhe o dedo, cocei a garganta e soltei um “pera lá, pô”. Ele quase riu, mas novamente ergueu as mãos e fez um gesto de que estava tudo bem, que eu deveria desconsiderar suas palavras. Chamei a atenção para o fato de que a conversa, que seria breve, estava se arrastando à toa por culpa dele. Fez não com os indicadores da mão direita e da esquerda. Era uma figura ridícula, afetada com aqueles dedos tremelicando ao deus-dará, à moda do presidentinho canalha, mas sem imunidade, desprotegido e largado na rua do meu ou do nosso bairro. 

Diante de quadro tão hilário, caí na risada. Ri de me curvar, mostrando-me igualmente ridículo. Dessa vez, foi ele quem tocou meu ombro. Eu me afastei, estendi as mãos e o retive. Ele me olhou bem no fundo dos olhos. Se não fôssemos dois desconhecidos, diria que o amor nos envolvia. Alguma fraternidade.

Numa rua movimentada e barulhenta, nem eu nem ele demos muita importância ao silêncio que estava ali entre nós dois e que servia de base ao olhar afetuoso que trocávamos. Foi um menino quem, agarrado à mãe, perguntou a ela por que estávamos assim, quietos e olhando um para o outro. A mãe deu-lhe um puxão, uma espécie de cala-boca, uma lição de que não é bom se meter na vida alheia. Eles passaram, e eu voltei à tona, reclamei de que já estávamos servindo de chacota aos outros, que precisávamos acabar logo com aquilo. Quis saber se poderia fazer a pergunta que tanto queria. Ele disse não.

Não? Como não? Já havíamos perdido um tempo razoável ali parados na rua, e agora ele vinha com esse papo de não? Deu de ombro, não era problema dele. Fiquei furioso, a que ponto as relações humanas estavam chegando. A maldita rede social separava as pessoas umas das outras, ninguém mais sabia como manter uma boa convivência. Nervoso — cuspia, bem sei —, eu não admitia ser tratado daquele jeito. Ele cruzou os braços, fez pose desses brutamontes que se miram antes da luta. Imediatamente fiz o mesmo. O menino e a mãe passaram por nós mais uma vez. O menino, desatento à lição dada havia pouco pela mãe, não resistiu e riu da nossa cara, com um dos dedos fez rodinha em torno da orelha. Doidos, era isso que éramos para ele.

Não me importei muito com o menino, mas o sujeito que não queria conversa ficou uma arara. Despejou sobre mim um monte de impropérios. O que eu provocara havia nos levado àquela situação vexatória. Exigia que eu lhe pedisse desculpas, mais até, que eu, em alto e bom som, fizesse chegar o pedido ao menino, à mãe, ao vendedor de frutas, à moça da banca de jornal, ao motorista de ônibus que passava por ali naquele instante, ao taxista que pegava um velhinho com dificuldade para entrar no carro, ao mendigo que caminhava bem no meio da rua, indiferente a tudo e a todos. À medida que ele falava, fui sendo tomado por uma espécie de culpa, quase entro no jogo, quase me desculpo com o mundo. Buscando reencontrar meu caminho, um acerto de contas com as minhas reais intenções, respirei fundo.
O autor no bar Ouro Preto, Itaim Bibi, São Paulo.

Eu havia puxado assunto com aquele homem apenas para falar com alguém. Não tinha dúvida de nada, não tinha questões a levantar. Sabia todos os caminhos, conhecia todas as lojas, botequins, padarias. Mas estava só, absolutamente só. Tudo que acontecera a mim e ao desconhecido, aquela série de mal-entendidos, abrandara meu estado insular, deixara-me satisfeito, devolvera-me à vida.

Falei bem baixo que não me desculparia, também não lhe faria pergunta alguma. Que ele ficasse bem. Já seguia adiante quando ele me chamou e, quase aos gritos, assim pelo menos me pareceu, quis saber se eu era feliz. Fez a pergunta, mas não esperou a resposta, virou-se e foi embora. Caminhei em direção oposta. Vi, do outro lado da rua, o menino no colo da mãe. Ele me apontava. É possível que dissesse: “Mãe, lá vai o moço feliz.”

29.10.17

Aprendido, reaprendido, por aprender


Nos últimos dias, aprendi que as estrelas se formam por meio de gases, o que não é novidade para ninguém, mas para mim era até bater os olhos naquela tela de TV existente no elevador do prédio no qual trabalho. Nem bem li o enunciado, e o texto em si era apenas o enunciado, pensei: meu deus, nossos puns de hoje serão as estrelas de amanhã. Ao mesmo tempo, me lembrei de que o metano é um dos maiores responsáveis pelo efeito estufa. Qual o balanço afinal: mais estrelas ou mais buraco na camada de ozônio? Incapaz de responder, resta-me rogar aos céus para que caiba na cozinha do universo algum espaço para o delírio dos incautos.

Não que eu não soubesse, sabia e sei faz tempo, mas nos últimos dias reaprendi, a duras penas, sempre é a duras penas, que uma ideia se esvai facilmente. Havia fechado o livro que estava lendo ("Tirza", de Arnon Grunberg, publicado pela Rádio Londres) e me ajeitava para dormir quando uma insinuação de verso me tirou o sono. Poderia ser o início de um poema. O verso ligava o silêncio à imagem de um cão sem lua. A questão é que, sem ter me levantado e anotado a ideia, do possível verso só guardei essa ligação tênue entre o silêncio e um cão sem lua. O verso em si, se houve, foi perdido, um poema que poderia ter sido escrito foi abortado, ou melhor, nem foi concebido — ah, Onã, deus da infertilidade! Se minha ignorância permite até fazer piada com essa evidência de os gases formarem as estrelas, no caso da perda de um verso, eu — esse escritor calejado (ah, Onã!) e preguiçoso, colecionador de versos perdidos — transito além da lamentação e me puno. De que maneira? Não conto, não quero que alguns leitores sintam alegria por isso.

Dados o aprendido e o reaprendido, o que ainda pode aprender um burro velho feito eu? Ganhar dinheiro. Vestir-me bem. Arrumar o cabelo. Cortejar uma dama. Rir sem motivo. Engraxar os sapatos. Falar inglês e/ou javanês. De todo modo, falar pouco e na hora certa. Pescar. Ter espírito crítico. Aderir a uma causa. Cantar no tom e sem errar a letra. Piscar um olho só. Chutar de canhota. Chutar no gol. Dançar de olhos fechados. Beijar de olhos abertos. Ler Ulysses.

Caramba, faltam muitas coisas, vou precisar de mais umas três vidas. Filho de mascate, mascatinho, portanto, proponho uma barganha: aceito morrer no espaço desta vidinha mesmo, mas, em troca, exijo que os ratos que roem os nossos queijos, sapatos, calcanhares, calças, que roem as nossas vergonhas, cuecas, barrigas, camisetas, que roem os nossos queixos, brincos, cabelos, chapéus, que roem nossa decência, enfim, roam uns aos outros até se consumirem. Como isso não acontece assim, de graça, cada um que arme sua ratoeira, recolha seus ratos e os envie para aquela gaiola, o xilindró. O voto (ou o não voto) bem pode fazer esse papel de armadilha 



16.10.17

Tomates e liberdade

É metafórico: um grupo que defende a devolução do poder aos militares jogou tomates num senhor que parece determinado a não deixar o presente cumprir sua sina de vir a ser futuro. Em permanente embate, o Brasil lançou ao ringue dois adversários que carregam em si o pior deste país cheio de piores. Vendo-me obrigado a torcer nas várias porrinhas do nosso dia a dia, dou de ombros, mas não lavo as mãos, e saio para caçar alguma esperança.

Encontro na Maré um pouco dela. Um pouco, eu disse. A solução não está inteiramente ali, claro que não, mas na Maré (nas favelas) há uma juventude que resiste sem fuzis e lamentações a isso que temos chamado de guerra às drogas. Essa juventude busca, por meio da palavra, da música, das artes plásticas, se meter entre o tráfico e o Estado para dizer que não aceita o papel que reservam a ela. Há ali uma força descomunal que, por sorte, encontra espaços de acolhida, como o Observatório das Favelas e o Centro de Artes da Maré (para ficar restrito à Maré). Aquela turma não vai se calar e vai cobrar seu espaço. Os passadistas e os que não querem perder o status quo serão engolidos por movimentos desse tipo, pois há um país novo brotando deles. Um país que é jovem, negro, feminino e elegante. O “Poetas Favelados” é a síntese disso tudo.
Silvana Mezenes, do site do Mulherio.


O Mulherio das Letras, cujo primeiro encontro se deu nesta semana em João Pessoa, é mais que um grupo de escritoras que busca chamar a atenção para o fato de que a presença das mulheres na literatura — e não só nela — tem relevância diminuída. Ao acontecer num estado do Nordeste e ao adotar um modelo no qual não há exatamente palestras, o encontro questiona várias coisas ao mesmo tempo, entre elas, a centralidade Rio-São Paulo e a verticalização num mundo — o da literatura e das artes de modo geral — no qual os artistas devem se posicionar a favor da igualdade e da proximidade.

Perspectiva da exposição "Faça você mesmo sua Capela Sistina"
A reação que os artistas — e não só eles — têm tido aos ensaios (em alguns casos, bem mais que ensaio) de censura é outro canto de esperança. Ouvi relato de uma mulher que, diante da manifestação ruidosa de alguns religiosos inconformados com a exposição “Faça você mesmo sua Capela Sistina” — de Pedro Moraleida, um artista plástico que morreu muito jovem —, resistiu à presença ameaçadora percorrendo, ainda que assustada, a sala do Palácio das Artes de Belo Horizonte de cabo a rabo. Logo depois, grupos faziam ato de protesto em defesa da exposição e, claro, da própria liberdade. Outros movimentos, com adesão de artistas conhecidos, têm se organizado para fazer frente aos censores.

Termino contando o que li em Frei Beto — num artigo n’O Globo, em 9 de outubro. O religioso diz que no século XVI a inquisição obrigou Daniele de Volterra a cobrir todos os nus que Michelangelo, seu mestre, havia pintado na Capela Sistina. João Paulo II mandou restaurar os originais uns quinhentos anos depois. Não sejamos os novos inquisidores. Não precisamos concordar com tudo, é até bom que não, mas vamos exigir que uma coisa só seja respeitada: a liberdade. 

2.10.17

Nem para o passar do sol

Meu tio Wellington, o tio Elin, costumava dizer: “hoje não estou para nada, estou apenas para o passar do sol”. Falava como troça, zombeteiro que era. Não sei se a frase é de outra pessoa, mas que meu tio poderia ser seu autor não resta dúvida. Ele era desses sujeitos inteligentes, que desprezam a inteligência sisuda, preferindo levar a vida ao rés do humor. Foi uma das figuras mais marcantes na minha vida, e morreu cedo, muito cedo, mais ou menos com a minha idade hoje.

Não vou falar de meu tio, mas aproveitar o gancho da fala dele para dizer: amigos, hoje não estou para nada. Não estou para as minhas queixas. Não estou para as minhas limitações. Não estou nem mesmo para a tragédia que desaba sobre todos nós, neste Brasil que, apesar de não sei quanto em reservas cambiais, está falido. Falido de caráter. Falido de futuro. Não estou para nada disso.

Se um pássaro canta, meus ouvidos se fecharam antes. Se uma luz brilha, meus olhos se fecharam antes. Se um abraço me alcança, meu corpo se petrificou antes. Não estou para nada.

Não estou para o sorriso da moça. Não estou para a cerveja com o amigo. Não estou para o pôr do sol. Não estou para a lua.

Guerras não me interessam. O drama humano não me interessa. A festa não me interessa.

Não estou para o gol, nem para a grande defesa ou o erro do juiz. Não estou para a desfaçatez dos políticos. Não estou para a escrita. Hoje. Tudo isso hoje.

Mas eu sei, sei bem, sou um galo sozinho, todos vocês estão atentos e potentes. E como dizia João Cabral de Melo Neto: “Um galo sozinho não tece a manhã: / ele precisará sempre de outros galos.” Acrescento: não tece a manhã, tampouco a noite. Melhor assim.