27.2.21

Puxando assunto

Tendo um minutinho, perca-o comigo, porque estou perdido há mais de hora. Perder-se no tempo significa estar com o pensamento ciciando sem cantar e beliscar o braço da irrealidade só para ver se não estou morto. Então, se você se dispõe a perder um minutinho, pode ser que eu não desperdice os meus, que eu tome prumo, consulte o mapa do tempo e encontre uma praça para boa charla, a partir da qual o improdutivo de minhas especulações aporte num diálogo no mínimo agradável.



Como o diálogo se dará assim, eu escrevo, você lê, é imperioso que eu o inicie. Não é difícil concluir que o assunto virá justamente da pororoca de meus devaneios, mas não importa como começam as prosas, importa que evoluam. Depois de um longo tempo distantes uns dos outros, Nelson, Horácio e eu nos encontramos no Bar Luiz, e o princípio da conversa veio de uma proposta feita à queima roupa por Horácio. Que tal se assaltássemos um banco? Num mundo conectado, ele dizia, nada mais fácil. Temos sofrido assaltos virtuais constantes — o roubo de nossos dados, os golpes pelo zap —, assim, na atualidade, assaltar um banco parece fácil, pode-se fazer de casa, mas, naquela época, quinze anos atrás, o mundo ainda ensaiava a plena conexão. Seríamos pioneiros e acabaríamos de vez com os assaltantes de bancos, que são, entre os bandidos, não sei se vocês sabem, os mais respeitados. Pelo menos eram, quando, para assaltar um banco, bastavam revólver e coragem. Hoje assaltam com o uso de drones, bombas e metralhadoras, é um espetáculo que talvez não perdure. O que virá ou já veio é o assalto limpo, à distância.

Horácio não queria assaltar um banco, queria ligar a máquina do papo furado ali entre chopes e milanesa com salada de batata. Nelson e eu mordemos a isca, e a conversa se estendeu. Sobre assalto? Não, falamos sobre o mundo virtual, sobre mulheres, falta de grana, literatura, descalabros políticos, tudo bem temperado no humor, pois meus dois amigos são desses. Horácio era.

Se a coisa começa sempre de qualquer jeito, proponho falar como o envelhecimento, antes de se instalar no corpo, se insinua nos sentidos. No meu caso, por exemplo, fiquei, já na passagem dos meus vinte para trinta anos, menos propenso a acompanhar o que de novo aparecia na música. A velhice precoce ficou restrita à música, pois, para a literatura, continuei e continuo aberto aos lançamentos. Talvez seja uma coisa minha, pode ser. Lembro-me de um lugar comum segundo o qual devemos reservar a velhice para a releitura dos clássicos, sem nos arriscar com os contemporâneos. Se é verdade, nesse diapasão ainda não sou velho. No campo da música, envelheci conquanto permanecesse jovem. O pop, com sua bateria tatibitate entremeando a massa sonora amorfa de instrumentos indistinguíveis, me deixou enfezado ainda nos anos de 1980. Eu pensei, nunca mais ouço essas músicas, no entanto, há três ou quatro anos, viajava de Belo Horizonte para Passos e, no pedágio perto de Itaúna, prestei atenção ao som que tocava. Que lindo! O que era? Michael Jackson.

Estou tentando dizer que eu me fechei ao pop que surgiu no rastro do próprio Michael Jackson. Acho que depois que o pop que me deu nos nervos envelheceu, eu, impiedosa e musicalmente velho, o acolhi. É uma tese e requer tempo para que eu a explique. Exige um chope. Ou dois. Ou três.



Aproveito esse papo de estranhamento, ter envelhecido quando eu era novo, aceitar o novo quando ele envelheceu, e mudo de assunto. — (Estivesse no bar, o número de chopes na mesa possibilitaria empilhar os porta-copos de papelão e jogá-los para cima para tentar agarrá-los sem que nenhum se desprendesse da pilha e antes que todos caíssem no chão.) — Não gosto de armas, se dei dois ou três tiros com espingarda de chumbo foi muito, e foi frustrante. Não vi graça alguma. Nunca quis matar passarinhos, nem a tiros nem a estilingadas, no máximo quis aprisioná-los, e, para tal, armei alçapão e esperei, esperei. Juro, nunca capturei nenhum. Os que tive ganhei de presente, comprei ou barganhei — barganha na qual invariavelmente levava manta. Dos maus negócios não me arrependo, de ter aprisionado passarinhos, sim.

Armas espalhadas entre a população promovem a violência, basta ler as pesquisas para se certificar disso. Mas o que temos no catálogo do poder? Uma bandeja de armas no lugar de uma de alimentos, isso que anda custando o olho da cara num momento em que muita gente retrocedeu da pobreza para a miséria; uma saraivada de tiros no lugar de um pico de vacina. A infelicidade tomou o palco e faz o show. Na plateia, há os que deliram e rugem como se fossem felizes.

Chego àquele instante em que, se estivesse no bar e cansado de falar, beberia um gole longo, olharia para alguma coisa interessante que se passasse na rua, a beleza de uma mulher, a ternura de uma criança que, em vez de andar, saltitasse sem largar a mão de seu acompanhante adulto, o abandono da lata vazia de cerveja a ser amassada pela roda de um carro velho, a imobilidade do poste prestes a ser aceso; olharia para a vida, enfim, tão besta e maravilhosa.

Chego àquele instante em que sou todo ouvidos.

25.2.21

Urgência no céu

 Ao olhar para a Terra, como faz todas as manhãs, Deus sentiu um baque. Só agora?, pensou o arcanjo que ordena os pensamentos de Deus. Pensou, mas não ousou falar, afinal, um ano na Terra é um segundo no relógio divino, não deveria ser tão inflexível com Deus, logo com Ele. Mas Deus, e isso é que importa, sentiu o baque ao ver que um corpo invisível, tanto quanto Ele, mas sem a Sua significância, pregava uma derrota fragorosa em Seus filhos. Dessa vez, Suas crianças não promoviam a guerra para matarem umas às outros, embora as guerras persistissem, elas simplesmente caíam feridas ou mortas pelo tal vírus. Não só por ele, concluiu Deus, ao fixar melhor Seus óculos no rosto que nunca se cansa. Suas crianças lidavam mal com o bichinho, não teriam aprendido nada com as situações similares enfrentadas ao longo da História. Eram destituídos de inteligência? Deus sabia que não. Suas crianças guerreavam até quando não havia motivo, motivo lá deles, que Deus nunca compreendeu ao certo.

Deus foi olhando caso a caso. A Nova Zelândia e outros poucos lidaram bem com tudo desde o início, ali estava uma gente que aprendera alguma coisa. Israel cuidava bem dos seus, aplicando-lhes rapidamente a vacina, embora maltratasse seus vizinhos palestinos, dificultando-lhes o acesso ao elixir. Uma gota de alegria e outra de tristeza. A Europa ia aos trancos e barrancos, porém ricos como eram, dariam um jeito em tudo. O mesmo aconteceria nos EUA, no Canadá. A África é a lágrima de Deus, e ele preferiu olhar mais tarde e com cuidado aquele caso. Talvez tivesse de intervir, sabia-se lá se segurando a mão dos poderosos dos países ricos, fazendo-os transferir recursos e/ou vacinas, ou mandando uma tormenta onde abundasse a indiferença em relação às crianças que deram início à vida na Terra.

Quando bateu os olhos no Brasil, Deus caiu sentado. Os arcanjos deram-lhe de beber, molharam Seu rosto, afrouxaram Suas vestes. Seu arcanjo confessor pediu aos outros que saíssem. Deus nem esperou que o arcanjo se aproximasse depois de fechar a porta e foi logo dizendo: muitos mortos, uma sandice atrás da outra, políticos interessados em si mesmos e não em quem representam, a pobreza crescendo como flor no Éden, o amor sendo ceifado como praga. O confessor nunca havia visto Deus assim, quer dizer, já, mas havia, dessa vez, uma entrega, uma desistência. Deus retomou a voz. Disse ao arcanjo que precisaria pensar bem em como agiria, e ele agiria. (O arcanjo suspirou, ah, o velho Deus!) Uma primeira atitude seria talvez cosmética, não se importava, era necessária. Que lhe chamassem Aurélio e Houaiss.

— Senhores, o que é Brasil?

— Um país, Pai — adiantou-se Houaiss.

— Disso eu sei, embora no momento preferia não saber. Mas a palavra, o que é?

— Substantivo masculino, hoje nome do país, mas foi primeiro a árvore que ali abundava, o Pau-brasil. Por extensão, e ainda como substantivo, a cor dessa árvore, um avermelhado, uma tintura fabricada com sua madeira — explicou-lhe Aurélio.

— Um substantivo. Pois os senhores, sentem-se ali e tratem de transformá-lo em um adjetivo.

— Um adjetivo, Pai?

— Sim, Houaiss. Um adjetivo que ande ao lado dos piores, daqueles que existem para marcar os que andam longe de mim.

Os dois dicionaristas, um pouco acabrunhados, sentindo-se traidores da pátria, não tinham o que fazer, uma ordem de Deus não se questiona, cumpre-se. Além do mais, bem, além do mais, eles olhavam para o país e viam como tudo encaminhava para a destruição. Dia triste no infinito.

19.2.21

Movimentos (publicado em Contos de homem, de 1995)

Número Um

Mandararn? Eu fui. Está aqui a agulha perdida no palheiro.

 

Número Dois

Ir até lá. Eu queria, e pronto. Juntei as forças, abri as portas. Não brindei despedidas ou apertei mãos, prometendo espaço dentro de mim.

A estrada era um rascunho de deserto. Mas não sofri o sol nem tive sede. Deixei a poeira levantar-se e não virei o rosto para ter certeza de que ficava para trás o que ficava para trás.

Nenhum problema maior. Um ou outro carro na contramão, uma friagem na madrugada. E só. Cheguei.

Encontrei aquilo que eu queria. Comprei o que pude; o resto roubei. Montei meu reino. Construí os castelos, os porões, as estrebarias para os corcéis de guerra, raptei a virgem. Tudo pronto. Ordenei que descessem a ponte. E, estranho, tive medo de entrar.

 

Número Três

Na comunhão do pó, forjo alegria. A lâmina risca os trilhos, o corpo recebe a dádiva. Eu danço, ele dança, nós dançamos. Um carnaval simulado. O sorriso nos lábios é anúncio de pasta de dente. O aperto de mão, negócio fechado. Tenho o controle do leme, mas a sensação de que no barco sou caroneiro.

Amanhã, o último confete estará colado ao peito, ainda. Uma dor incorruptível. Não me devolverão sequer um níquel. Abro janelas, cadê luz? Remexo minhas gavetas, e é um lenço de Soraia, um cinto de Solange. Mas elas, elas mesmas, não estão aqui. Carregaram a lembrança do meu peso, regaram-se com meu jorro, na melhor das hipóteses.

Com que pernas vim dar nesse porto? Eu era moço, viril, e isto bastava. Mas se futuco mais, esgarçando o tecido do colchão, riscando a tinta da parede, abro caminhos. Sigo pelas frestas e molas, nos vazios possíveis. Pronto, tenho ao alcance das mãos. Pego. Aperto. Ai!

Uma minhoca veio viver na minha cabeça. Depois, uma outra, e outra, e outra. Na louça dos meus dentes, cáries. Nas pessoas de ouro, carne. Meus sonhos, imagens desfocadas na lente que é puro mofo.

 

Número quatro

Não restaram nem os ratos; estou só. Parece, assim mesmo, que é o início da festa. A madeira do chão range, pisoteada por passos que já fugiram de mim. No tanque, a roupa úmida cria bolores, meu retrato com cheiro. O som da gota que cai ininterruptamente convida para mais uma dança. Aceito. Apago as luzes, e me solto. Vou-me desfazendo, novelo. Meus fios não viram nada, casaco, colete ou luvas. A última convidada me recolhe, com vassoura e pá. Lança-me no Azul.

 

Número Cinco

Eu chovo.

13.2.21

Veja bem essa gente

 

Para o Matheusinho



Cansado do trabalho usual, o japonês Shoji Morimoto inventou de vender sua maior habilidade: "comer, beber (com responsabilidade, claro) e dar respostas simples". Ele, a uma diária de uns quinhentos mangos, livre das despesas de locomoção e alimentação, atende àqueles que querem companhia. Shoji fica lá quieto, comendo e bebendo, e, a pedido e não passando disso, pode dar um adeusinho numa estação ferroviária. Consta que tem faturado o suficiente para pagar as despesas de casa. Se pudesse, eu o contrataria para ouvir suas respostas simples, coisa rara neste mundo em que sobram respostas simplórias.

Há alguns anos, havia lido sobre serviço similar, oferecido no mesmo Japão. Na reportagem, enumeravam algumas demandas: alguém para se passar pelo pai num jantar com a família da namorada; homem ou mulher para chorar um morto (nossas velhas carpideiras); uma pessoa para, ao chegar a um bar, abordar o contratante assim meio por acaso, como se fosse um desgarrado à procura de um amigo. A solidão também vai ao mercado.

Alguns amigos de São Paulo me contaram que na firma na qual trabalhavam havia um sujeito bom de conversa, verdadeiro sedutor, característica que dava a ele certa desenvoltura no negócio. Descobriu-se com o tempo que era um mitômano. No dia de seu aniversário, ele contratava um serviço para espalhar, pela rua da empresa, faixas enaltecendo seu nome e deixar sobre a sua mesa de trabalho uma magnífica cesta recheada de guloseimas, além de balões e fitas enfeitando os quatro cantos. Havia até bilhete de quem enviava os mimos, alguém fictício. O espantoso para os meus amigos paulistanos é que a estranha figura casou-se com uma juíza. Se era sedutor, por que não haveria de se casar com juíza ou com quem quer seja? Difícil é manter o casamento, mas ninguém nunca soube me dizer se foi o caso, pois o colega pediu transferência, foi para o interior e não deixou nem endereço nem telefone.

Quando, no início dos anos 1980, eu e Carlos fomos à Bolívia, dentre as várias experiências interessantes, uma me marcou de modo especial. Não sei se estávamos em Totora, perto de Cochabamba, ou em Potosí. É provável que estivéssemos na primeira, pois ali convivíamos com as pessoas do local e éramos convidados para visitar suas casas. Numa cidade ou noutra, era um almoço, e eu, depois de me servir, não havendo mesa e cadeira suficientes, fui para um canto do cômodo e me agachei. Comecei a comer e em determinado momento percebi que todos me olhavam. Meu espanhol era (e é) sofrível, então recorri à ajuda de Carlos, chileno, e soube que todos estavam encantados com a minha posição. Não era comum uma pessoa ou um homem de cócoras, ou de cócoras comendo, ou um não boliviano acomodar-se daquele jeito na hora da refeição. Um montanhês de Minas não é um andino.

Na minha cidade, havia os irmãos Máximo e Mínimo. O Máximo se chamava Máximo, e Mínimo talvez fosse apelido. O primeiro, expansivo e mentiroso, conseguia, mal chegasse a qualquer lugar, ficar rodeado de gente interessada em sua conversa interminável. O segundo entrava mudo e saía calado, e entre uma coisa e outra, sentava-se na roda que tinha seu irmão como centro e o ouvia, atentamente o ouvia. Numa síntese rasteira, o Máximo era o máximo, e mínimo era o Mínimo. Um dia, eles sumiram da minha vida, e, desconhecendo o paradeiro e o destino dos dois, só me resta especular. Foram para Serra da Saudade, lá envelheceram e se esqueceram do passado. O Mínimo virou barbeiro e o Máximo, jogador de truco a dinheiro. Pode ser que hoje o Mínimo fale pelos cotovelos e o Máximo chore, inconformado com a velhice. Talvez sejam solitários e tristes, ou, ao contrário, são eles que garantem a alegria da menor — e de nome mais bonito — cidade do Brasil.

Em outubro de 1991, dois meses antes de minha filha nascer, por conta do trabalho, fui a Helsinque. Estava sozinho e gostava de caminhar à toa depois do compromisso. Meu olhar estrangeiro se espantava, por exemplo, com o fato de ninguém atravessar a avenida sem carros quando o sinal estava vermelho para os pedestres. Uma bobagem de espanto, principalmente diante de um outro que eu teria numa das andanças. Ao chegar a uma praça, como se por encanto, o sol apareceu, atravessou a copa das árvores e elevou a temperatura de dez graus para doze, não mais que isso. Uma mulher, que ia à minha frente, sentou-se num dos bancos, tirou a blusa, o sutiã e deu-se ao sol. O sol não ficou por muito tempo, e assim que ele se foi, a mulher se vestiu e tomou seu rumo.

Na república em que me hospedava em Freiburg, na Alemanha, o chuveiro ficava na cozinha e o vaso sanitário, na área comum do prédio. Quando os moradores iam ao vaso, andavam nus pelo prédio. Quando queriam tomar banho, despiam-se na cozinha, tivesse ou não outras pessoas por lá — e, em torno da mesa, sempre havia amigos e amigas. Eu tomava banho no descuido do sono de todos.

Esta crônica começou quando Matheusinho, ao ser questionado sobre por que havia feito uma coisa e não outra, respondeu assim: “Não tive tempo de fazer as duas ao mesmo tempo”. A frase pouco comum disparou meu circuito de associações e me levou às histórias recém-contadas. Sabe, gente, o cronista é, antes de tudo, um carro que só pega no tranco e, uma vez em funcionamento, tergiversa pelas ruas.

30.1.21

Um encontro com Stein e Lebowitz

Li “A autobiografia de todo mundo” (Everybody´s Autobiography), de Gertrude Stein, numa edição da CosacNaify. É um diário? Um ensaio? Uma crônica de viagem? É tudo isso. Se eu fosse Funes, o memorioso de Borges, decoraria as mais de trezentas páginas da autobiografia que, sendo de todo mundo, é minha e de quem passe os olhos por ela. Escrito com enorme liberdade sintática — me pareceu muito bem transcriada por Júlio Castañon Guimarães —, o livro conta o cotidiano dessa escritora americana que vivia em Paris, dando ênfase ao tempo em que ela, depois de estar trinta anos ausente, volta aos Estados Unidos para uma série de conferências. Destas não ficamos sabendo nada ou quase nada, mas das viagens de trem, de carro ou de avião (era a primeira vez que ela voava), dos hotéis, da comida, dos encontros, do encantamento com a paisagem, sim.

Stein confronta os estilos de vida americano e europeu, fala de artes plásticas, enumera personagens famosos que circulam à sua volta, Picasso, Chaplin, outros tantos. O permanente trânsito entre dentro e fora, entre pensar e viver, talvez seja o ponto central da obra. Tudo que Stein faz qualquer um de nós faria; e tudo que conta nós poderíamos contar. A diferença é que ela escreve, e escreve como se pensa, não como se fala ou até mesmo como se escreve. O livro é, enfim, uma reflexão sobre a escrita que quer dar conta do pensamento em sua amplitude, circularidade e imperfeição, ou seja, quando nasce.  

Registro uma passagem. No vaivém pelos Estados Unidos, Stein passa por Virgínia, um lugar muito vazio. Alguém comenta que o pai, vivendo naquele estado, acorda, senta-se em numa cadeira e observa os pinheiros crescerem. Isso é tudo e é assim todos os dias. Stein acha isso muito interessante — interessante é a palavra mais usada por ela.

Estando, ainda em Virgínia, com pessoas mais jovens, a escritora nota como são conservadoras e reflete sobre uma delas: “Ela também era virginiana quer dizer acreditava no que acreditavam quando os virginianos eram virginianos. Acreditavam que viam a árvore quando a árvore fora substituída por um edifício, ver a árvore poderia ser interessante se fosse possível tornar isso interessante mas para essa geração que ainda vê a árvore quando foi substituída por um edifício e como esse edifício não é feito de madeira pode não ser interessante.” Não me lembro de ter visto o entrechoque entre conservar e progredir — tomo conservar e progredir tanto no sentido econômico quanto no ideológico e afetivo, que a educação familiar procura perpetuar — escrito de forma tão original.

Vi “Faz de Conta que NY é uma Cidade” (Pretend It's a City), documentário de Scorsese sobre Fran Lebowitz. Ela é escritora? Sim, de duas ou três coletâneas de crônicas escritas na juventude e de um romance inédito que, segundo ela, vem sendo trabalhado. Apesar da produção escassa, é figura importante no ambiente cultural e político de Nova York, cidade à qual chegou, no final dos anos de 1960, com dezenove anos. Nos sete episódios disponíveis na Netflix, conhece-se uma mulher de humor refinado, sarcástica, bibliófila — mantém em seu apartamento dez mil livros —, dona de uma visão bem peculiar sobre a contemporaneidade.

Ela se irrita por ser atropelada por jovens e não jovens que, concentrados em seus celulares, andam distraídos pela rua — e isso não é interessante, diria Stein. Não é só desdém, Lebowitz dispensa computadores, celulares, micro-ondas; sequer máquina de datilografar ela usa. Dei um exemplo ao acaso, o mais trivial; Lebowitz vai além. O escritor César Cardoso leva em seu canal no Youtube o espetacular “Poesia prato do dia / Poesia para todo dia”, projeto no qual lê diariamente poesia, e dedicou um programa a Lebowitz, que não escreve poesia. De lá trago tiradas afiadas dessa francoatiradora. “A vida é algo que acontece quando você não consegue dormir.” “Pergunte ao seu filho o que ele quer comer apenas se ele for pagar.” Ah, sim, Fran aceitaria ser prefeita de Nova York desde que pudesse trabalhar depois das 19 horas. A cidade manteria um administrador diurno e deixaria a noite com ela.

Esteja certo ou não, Stein ecoa em Lebowitz. Para além da sagacidade, ambas refletem sobre o tempo, ainda que de forma distinta. Por estar entre as duas guerras e na ressaca da Grande Depressão, Stein parece obrigada a acreditar no futuro; Lebowitz, nascida depois da Segunda Guerra, mostra-se cética em relação ao que sucederá a um presente cheio de quinquilharias eletrônicas, com pouca interação humana e propenso a acabar com as livrarias de rua e com a própria leitura.

Stein antes, Lebowitz depois — quando a primeira morreu, a segunda ainda não havia nascido — têm em comum o fato de se ocuparem com qualquer assunto sem o menor pudor. Se aqui e ali demonstram ignorância, preconceito, nunca deixam de olhar o mundo com curiosidade e absoluta certeza de que elas podem e são fundamentais para compreendê-lo.

Stein se considerava gênio, não duvido de que Lebowitz também. Sendo ou não, o que posso dizer é que, flambadas no ego, as duas são deliciosamente instigantes.

18.1.21

Leitores reclamam de falta de limpeza no Terminal Rodoviário

Joca precisava chegar a Guaxupé no final do dia. Haviam dito para ele que não existia viagem direta, que deveria tomar um ônibus até Ribeirão Preto ou Alfenas e de lá ir para Guaxupé. Uma viagem que de carro levaria uma hora e meia, por aí, de ônibus se transformaria sabe-se lá em quanto tempo. Oito horas? Joca tocou na mochila para ter certeza de que o livro estava lá. O livro.
Renatinho, por sua vez, iria a Belo Horizonte. Comprara passagem para o meio-dia, seu compromisso era na próxima manhã. Viajaria com tempo. De todo modo, precavido, chegou à rodoviária bem cedo, com duas horas de antecedência. Renatinho tocou na mochila para ter certeza de que o livro estava lá. O livro.
O terminal rodoviário não é muito grande, e em um dia de movimento inesperado, Joca e Renatinho acabaram se sentando no mesmo banco.
Joca tirou o livro da mochila.
Renatinho tirou o livro da mochila.
O livro de Joca era de um autor europeu.
O livro de Renatinho era de uma autora nacional.
Procurando ser discreto, Joca esticou os olhos para ler o título do livro de Renatinho.
Como Renatinho fazia o mesmo, os olhares se encontraram. Ficaram um pouco encabulados. Um e outro ficaram bem encabulados.
Joca lia um livro de Ian McEwan, Na Praia.
Renatinho lia um livro de Raquel de Queiroz, O Quinze.
Joca não conseguiu ver que livro era que Renatinho lia.
Renatinho não conseguiu ver que livro era que Joca lia.
No entanto, o encontro do olhar de um com o outro não deixava margem para que não se dissesse alguma coisa. Era inevitável, era obrigatório até.
Foi Joca que se adiantou. Ele disse:
— Como está sujo o terminal. E Renatinho quase repetiu a frase:
— Sim, como tudo está tão sujo.
Joca levantou-se, foi ao banheiro. Renatinho levantou-se, foi à lanchonete.
Depois, sentaram-se em bancos diferentes e foram ler seus livros.

Joca não chegou a tempo a Guaxupé. Renatinho chegou com tempo de sobra a Belo Horizonte, mas, ao sair para o compromisso, desistiu dele.

Três meninos de Belfort Roxo

Acordei em mais um dia quente na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A cidade é um caos. O estado é um caos. O país, se não é, está um caos.

Reagi cantarolando “Fantasia”, de Chico Buarque. A música convida para uma pequena utopia ao dizer: “Se de repente / a gente distraísse / o ferro do suplício / ao som de uma canção”. Estribilha: “canta, canta uma esperança / canta, canta uma alegria / canta mais”. E completa: “Preparando a tinta / enfeitando a praça / canta, canta, canta, canta / canta a canção de glória / canta a santa melodia.” Ouvi muitas vezes, repetindo a dose como se fosse uma seringa de heroína, uma talagada de cachaça, um cigarro, de maconha ou não, tragado no limite dos pulmões.

Não que eu tivesse esperança de que o calor diminuísse, mas, como o viciado, gostaria de, por algum instante, me ver livre dessa sensação de que o caos irá nos cozinhar, nos estorricar, nos tornar inviáveis. Nós, os seres humanos. A nossa vidinha passageira.

Fora a ira que me acomete aqui e ali, o que sinto é equilibrado e político. O calor e o caos irão passar, o primeiro temporiamente, pelo menos por enquanto, antes da efetiva catástrofe ambiental; o segundo para sempre, custe o que custar — e custará muito.

Para os familiares, em particular as mães e avós de Lucas Matheus, de oito anos, Alexandre da Silva, de dez, e Fernando Henrique, de onze, — três meninos que saíram, no dia 27 de dezembro, para brincar na quadra perto de onde vivem em Belfort Roxo, no Castelar, e estão desaparecidos até hoje —, pode ser que o calor e o caos não passem. Na busca das crianças, três homens foram mortos pela polícia; um, levado pelas famílias dos garotos à delegacia, foi acusado de ser o responsável, o que não se confirmou; um ônibus foi incendiado; a avó dos primos Lucas e Alexandre, depois de correr atrás de uma pista do paradeiro deles, se envolveu em um acidente automobilístico de consequências leves. O caos, além do calor.

Não se descarta que essas famílias venham a vestir o luto absoluto, que já cobre inúmeras moradoras das áreas mais desassistidas, aquelas em que o tráfico e a milícia acham por bem coabitar, aquelas em que a polícia não vê problema algum em entrar atirando e matando inocentes em prol do combate ao crime.

A estatística da violência — e outras igualmente indignas — engorda no Brasil. Por aqui, o ferro do suplício não se distrai com nenhuma canção.


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Se quiser, ouça a música do Chico aqui.

4.1.21

2001: Uma odara no terraço

Caetano Veloso terminou sua segunda e última live de 2020 desejando ao público um excelente 2001.

Caetano está velho? Velho, com certeza; gagá, nem um pouco. Um homem de 78 anos tropeça física e mentalmente, ora essa! O velho cantou quase trinta canções sem titubear. Sua voz é ainda cristalina, e ele dá conta de um repertório de um compositor pleno e compromissado com o tempo em que está, e quem está por tanto tempo no tempo em que está, sem se tornar um nostálgico empedernido, é, como o tempo, atemporal. Caetano é.

Seu violão não é nenhuma maravilha, soa bonitinho e, em Terra — a música, que está no coração do documentário “Narciso em férias” (Renato Terra e Ricardo Calil), amarra as pontas do que o baiano tem falado recentemente — esteve abaixo de todo o resto. Caetano sempre disse que não é músico; músico é o Gil. O irmão de Bethânia é, segundo ele mesmo, um amador, o que não o impede de ter feito melodias extraordinárias (não falo do letrista, pois o assunto é o músico), de as ter cantado e tocado extraordinariamente. Caetano é um gênio.

Gênio controverso, que numa hora diz odiar o socialismo e noutra diz estar muito interessado em teóricos marxistas atuais. É um intelectual talvez igualmente amador, que transita pela avenida de suas paixões e, indiferente a nosso julgamento sobre ele e suas ideias, trabalha as inquietudes que o movem. Ser amador, no caso do pai dos três meninos, areja todo o seu trabalho, na música, na escrita, no cinema.

Por que esse velho, “rei dos animais” que deixou “a vida e a morte pra trás”, nos desejou um ano bom por nós já vivido e enterrado e que hoje não passa de uma mancha de alegria e tristeza na memória?

Em 2001, o país dava pinta de que assinara um documento de compromisso duradouro com a democracia e deixaria apenas no registro histórico as exceções autoritárias. A partir de então, traria à cena o enfrentamento das questões realmente prementes, entre elas e talvez as mais importantes, a disparidade e a concentração de renda. O PSDB, na época um partido de centro-direita, civilizado e com boas cabeças, conseguiu deter a inflação, esse desacerto da economia que atinge com mais força os pobres — para os economistas, a inflação é um imposto regressivo, portanto pesa mais sobre os pobres do que sobre os ricos. O PT — que, para ocupar o poder em seguida, teve de caminhar da esquerda para o centro —, apoiado também em boas cabeças, radicalizaria as políticas públicas visando a justamente reduzir as desigualdades. Enfim, os extremos eram ocupados por dois partidos próximos do centro (e, por conta do pragmatismo político, também do Centrão) e nem tão distantes um do outro. Esse “arranjo” da democracia durou pouco, e o impeachment de Dilma Rousseff, estimulado por um PSDB cada vez mais à direita, foi seu velório e cremação. Das cinzas a democracia não tem renascido.

Iniciado numa sexta-feira, 2001, com suas trezentas e cinquenta e cinco manhãs e noites, foi um ano de sufoco mundial, parecido com o atual, embora não estivéssemos acossados por um vírus, mas pelas mãos desumanas da cobiça — foi o ano do ataque às Torres Gêmeas e da eleição do little Bush, presidente que deu voz e arma para a diplomacia da vingança. Mas também, como todo e qualquer ano, 2001 foi cheio de acontecimentos da vida: nele morreram Jorge Amado, Cássia Eller e o titânico Marcelo Fromer; prenderam, na Colômbia, Fernandinho Beira-Mar; o Brasil entrou no mundo do racionamento de energia, um sinal do desequilíbrio ecológico. 

Em 1968, jogando-nos para a frente, Kubrick — o cineasta apontado por alguns como responsável pelo truque cinematográfico que nos faz acreditar na chegada do homem à lua — fez “2001 - uma odisseia no espaço”. No filme, em 2001, buscar-se-ia o monolito primordial, a pedra filosofal, navegando no espaço da mesma forma como os gregos navegavam no mar. Caetano, jogando-nos para trás, quer menos, quer, ao refazer o caminho dos últimos vinte anos, evitar os erros cometidos e nos dar um 2021 diferente deste que nos avizinha. Como o espaço é grande demais, Caetano talvez pense que no redivivo 2001 se possa ficar odara no terraço. E que o terraço entusiasme a praça; a praça, a cidade; a cidade, o estado; o estado, o país. Enfim, depois de recuar até 2001, 2021, um ano também com início numa sexta-feira, seria o momento de “ficar tudo joia rara, qualquer coisa que se sonhara”. 

Bem que merecíamos.


PS: Ouça Odara.

21.12.20

Bafo de esperança

 

“Antes que a crueldade faça / de vítima as crianças” (Murilo Antunes)



As últimas três crônicas falaram de minhas leituras nos primeiros oito meses de confinamento. Escrever sobre os livros foi um exercício de memória para o miolo mole aqui. Ainda que não tenha feito resenha, crítica, qualquer coisa parecida com isso, ao escrever sobre tantas e tantas páginas, quis mostrar como me relaciono com elas. Mas escrever sobre livros foi também um jeito de me manter um pouco fora do assunto que domina o país: seu descaminho.

Ao fazer isso, não detive os acontecimentos, o que é uma pena.

Nesse período:

O assassinato de Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes completou mil dias, e ainda há muito (tudo?) por descobrir sobre essa pistolagem política. Quem mandou matar Marielle e de enfiada ceifou a vida de Anderson?

As primas Emilly, quatro anos, e Rebecca, sete, crianças inocentes e, não por coincidência, negras foram mortas na porta de suas casas no início de dezembro. Juntam-se a outras dez que, no estado do Rio de Janeiro, morreram só neste ano e em circunstâncias parecidas: Anna Carolina, João Vitor, Douglas Enzo, Luiz Antônio, João Pedro, Kauã Vitor, Rayanne, Ítalo Augusto, Maria Alice e Leônidas. Em muitos desses casos, a morte ocorreu por tiro desferido por um policial.

Em uma cena de horror, dentro de uma loja da rede Carrefour, dois homens que faziam a segurança do estabelecimento mataram João Alberto, um negro. João teve uma morte semelhante à de George Floyd, americano também negro que foi asfixiado pela perna de um policial. No caso brasileiro, uma senhora, de celular na mão, acompanhava de perto os dois seguranças — era a coordenadora deles, soube-se depois — e outros funcionários do mercado auxiliaram no assassinato, por exemplo impedindo a mulher de João Alberto de se aproximar dele. A coordenadora e esses outros foram indiciados.

(Não custa lembrar que, segundo o Atlas da Violência, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no Brasil, em 2018, 75,7% das vítimas de homicídio eram negras. Mais do que isso: entre 2008 e 2018, a cada 100 mil habitantes, o número de negros mortos saltou de 34,0 para 37,8, ou seja, um aumento de 11,5%, número menor do que a redução dos assassinatos entre não negros, que saiu de 15,9 para 13,9 a cada cem mil, redução, portanto, de 12,9%.)

Enquanto escrevia sobre minhas leituras: inventaram a não-queimada amazônica para estrangeiro ver; não renovaram o contrato do teste de genotipagem dos vírus da Aids e da hepatite C, o que impacta a escolha do tratamento; usaram a Abin, órgão público, para auxiliar um dos filhos do presidente a se safar da suspeita de fazer rachadinhas quando foi deputado estadual no Rio de Janeiro; chamaram a China para a briga — quer dizer, um inconsequente fez uma lambança diplomática.

A Covid-19, que havia diminuído, recrudesceu. Claro que não foi pelos ajuntamentos em praias, em festas. Não foi pela falta de máscaras. O negacionismo e a incompetência administrativa dos mandatários da república não têm um dedo de responsabilidade sobre a situação, óbvio que não, foram os inimigos do país que, durante o nosso sono, espalharam o vírus em nossas casas. Para completar, a vacina, que já se aplica lá nas estranjas, aqui é apenas uma palavra na boca da pior política.

Durante vinte e dois dias, um apagão tomou o Amapá. Estando tudo às escuras, o governo federal não viu o estado e empurrou com a barriga a solução, mesmo uma provisória. A população, além de sofrer todas as consequências da falta de luz (conservação de alimentos, comunicação, abastecimento de água e por aí afora), se viu acuada por criminosos.

Para tentar reverter o baixo astral da crônica, cito dois ou três fatos que podem servir de alento.

Trump foi despejado do poder.

Existe a vacina.

Mais uma boa-nova? 

Em 2019, Emicida lançou AmarElo, um disco que serve como ponto de confluência da cultura negra brasileira — que passa, em termos musicais, pelo samba, pelo funk, pelo hip hop, pelo rap — e de onde ecoam a música banhada em toda essa influência e o grito de resistência da gente negra, que não aceita mais tudo isso que temos visto: assassinato de Marielle, Emilly, Rebecca, João Alfredo, discriminação no mercado de trabalho, impedimento de acesso às universidades, exclusão da política, perseguição religiosa etc. E bem agora, enquanto eu falava de minhas leituras, um documentário em volta de um show que Emicida fez no Municipal de São Paulo (no Municipal, sim) foi disponibilizado na Netflix. Disco e documentário fazem de Emicida o bafo de esperança que nos ajuda a atravessar esses dias imerecidos.


6.12.20

O que fiz das minhas leituras de confinamento: final

 Para encerrar os comentários sobre minhas leituras em tempo de confinamento, faço mais alguns e, se não estou errado, feito isso, terei dado conta dos livros de prosa lidos entre março — quando terminei, ainda antes do confinamento, “Os miseráveis”, de Victor Hugo — e novembro.

Pais e filhos” (Cosacnaify), de Ivan Turguêniev, uma história que, situada num momento de transição na Rússia, quando se dá o fim da servidão, popularizou o termo niilista. No romance, o tal niilista é o sujeito frio, científico e, por ironia e o grande achado do autor russo, incapaz de se manter em pé diante do amor. “O caminho de San Giovanni” (Companhia das Letras) é uma série de ensaios memorialísticos, que têm como pano de fundo a cidade natal de Ítalo Calvino. O papel do cinema, a plantação do pai, aspectos da cidade pequena se juntam na cabeça desse escritor tão peculiar que, por meio da escrita, nos conduz pela geografia de seu pensamento.

Numa blitz à estante, encontrei “O corpo e outras histórias” (Companhia das Letras), de Hanif Kureishi, livro com uma novela — “O corpo”, que é (estamos num momento em que se é possível nos transferir para outro corpo) e não é (a questão da técnica e a consequência social não são muito exploradas) ficção científica — e uma série de contos, eu diria que bem estranhos, desses que dão uma chacoalhada no leitor. Ainda assim, nada parecido em intensidade e risco ao que faz Sam Shepard no romance “Aqui de dentro” (Estação Liberdade). O múltiplo autor, ao mesmo tempo que escreve um romance, o desestrutura. Talvez por isso, Patti Smith, ex-companheira de Shepard, diz que, ao ler os originais, navegou “por um mosaico de ecos de conversas, perspectivas alteradas, lembranças claras e impressões alucinatórias”.

A visita de João Gilberto aos Novos Baianos” (Companhia das Letras), de Sérgio Rodrigues, usa como tema o futebol (é do autor “O drible”, um dos romances contemporâneos que resistirão ao tempo), a música e o mundo da literatura. Se Sérgio Sant’anna escreveu, nos anos de 1980, “O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro” (Companhia das Letras), cujo conto-título mostra como toda a cidade se mobilizou pelo show de João Gilberto, cancelado na última hora, Sérgio Rodrigues narra a visita do cantor (um artista reconhecido, já um pouco senhor) aos Novos Baianos (aquela turma jovem, que vivia em comunidade e sobre a qual recaíam todos os tipos de suspeita: amor livre, uso de drogas). Os dois contos ajudam a entender como o pai da bossa nova transformou-se em “mito”. No caso do livro de Rodrigues, seus contos sobre o mundo da literatura são um achado, deliciosamente irônicos.

Procurando dar conta de leituras atrasadas, li “Ensaio para o adeus”, de Eliezer Moreira (Editora Patuá), um romance de suspense, baseado em uma história muito peculiar, a de um repórter que, ao cobrir um assassinato, vê que o morto é a sua cara e com ele passa a ser confundido. Eliezer foi finalista do Jabuti de 2019, com outro livro, pelo que li a respeito, na linha desse primeiro, “Olhos bruxos” (Penalux).

Destaco duas leituras de mulheres, Lívia Garcia-Roza, “Meus queridos estranhos” (Record), e Andressa Barichello, “Ter a escrita” (Editora Patuá). Lívia escreve sobre uma mulher transitando entre os quarenta e os cinquenta anos abandonada pelo marido. Apesar de ele falecer logo em seguida e a viúva não tardar a casar-se de novo, a dor de ter sido abandonada perdura. O fato de ter uma filha adolescente, caprichosamente adolescente, não consegue ocupar esse vazio, se é que não o aumente. A mulher burguesa, educada, sem grandes limitações financeiras, enfim, moderna, caminha pelo livro percorrendo um arco muito bem (d)escrito de nuances. O livro de Andressa é de crônica. Sou cronista e não consigo fugir de comparar o meu mundo ao de Andressa. Começo pelo óbvio: eu um homem, ela uma mulher. Eu nos últimos passos da minha quinta década de vida, ela na força da juventude. Eu cada dia mais enfrentando o mundo de fora para dentro, ela, de dentro para fora. Gosto dessas diferenças. Seja como for, o talento da escritora foi reconhecido pelo Jabuti, que incluiu seu livro entre os semifinalistas do prêmio de 2019.

O último livro do período é realmente uma charada, pode ser um livro de ensaio ou um metarromance, um livro de humor ou, o que não descarta o humor, de reflexão profunda sobre a escrita. O título dá uma pista sobre o “mistério” alimentado por Marcel Bénabou, “Por que não escrevi nenhum de meus livros” (Tabla). O autor era, ao lado de Calvino e outros, membro do Oulipo — Ouvroir de Littérature Potentielle —, grupo que se impõe, na construção de uma história, regras limitantes, por exemplo, escrever sem usar a vogal “e”, o que fez Georges Perec em “O sumiço”. No livro que comento, a primeira discussão de Bénabou é como alguém pode não escrever nenhum de seus livros. A partir daí, há um embate intenso entre o leitor e o escritor, entre o escritor que tem pressa em publicar e o que não tem nenhuma, entre o escritor e o sujeito que deseja apenas um banho de sol. Como minhas crônicas foram sobre leitura, logo, um campo largo para meu esquecimento mostrar toda sua força, cito do livro: “Hoje, quando por exemplo arrumando caem-me às mãos certos folhetos em que anotara os títulos e as datas de minhas leituras de então, fixo-os longamente, incrédulo e consternado que absurda bulimia foi essa que me fez devorar tantas obras cuja lembrança não guardei, nem mesmo de tê-las manuseado?”

Matemática Bufa (publicado em Contos de homem, livro de 1995)

Veja, por exemplo, o Zé.

Biscateiro, faz ponto a uns trinta quilômetros de casa, assalariado mínimo. Só na condução ele gasta em torno de 20% da propina. Somando os outros gastos, inclusive a indispensável birita do dia-a-dia, chega-se a um déficit fácil.

Surpresa: Zé tem duas mulheres, Neide e Fátima.

Neide é esposa, papel passado em cartório, com testemunha, terno, vestido branco e tudo. O tudo incluindo uma saborosa sidra gelada, estourada sob os aplausos dos parentes mais próximos e o olhar amistoso e contente dos sogros.

Sim. e lua-de-mel. Perfume de Neide parecendo fugir do quarto do hotel. A vontade de Zé fugindo mesmo pela porta afora, voltando ao quarto, doendo. O encontro? Desculpe, uma foda ótima.

Fátima apareceu depois, e não há qualquer explicação baseada em crise de Zé e Neide, pileques inconsequentes do biscateiro ou pura peruagem. Sei lá, foi um flerte. Foi uma coisa tão forte, querendo e empurrando um para o outro, que não teve jeito.

No início, Zé quis guardá-las em compartimentos separados da sua afeição. Escondeu da Neide a Fátima e da Fátima a Neide. Mas ...

Um salário mínimo já é quase nada, é conta a pagar no próximo mês. Sabe, é o capricho de uma pedindo, e o não-querer nada da outra pedindo mais ainda. A grana não dava. E mais: era uma dor na consciência tão grande, que meteu duas caninhas na goela, um chiclete no bafo, colocou Neide no colo e falou de supetão.

Imagine Neide. Moça talhada para isso mesmo, não poder tomar a sopa sozinha, dividir o leite condensado com os nove irmãos etc. e tal. Sua resposta foi um silêncio manso, canto de passarinho. E um pedido: conhecer a outra.

Mesma coisa fez Fátima. Disse não se espantar, mas fazia questão de dizer à primeira que a respeitava, dali por diante, mais que à própria mãe.

 

O triângulo se fechou na sala da casa de Zé e Neide, tomando as seguintes decisões:

i) Fátima se mudaria para alguma casa ali perto;

ií) Os três trabalhariam para conseguir mais grana;

iii) Estavam felizes.

O que veio depois foi glória, glória, o além da glória. Juntando os três salários mínimos, descobriram que a cada um cabia mais que um salário. Fazendo de suas despesas uma coisa única, pouparam e compraram uma televisão, fizeram roupas bonitas para os fins de semana. Milagre: geladeira, cerveja gelada e Zé chegando sempre cedo em casa.

Ali pelas dez horas em um leilão velado, uma delas arrematava o companheiro e levava-o para exibir seu vigor sereno e incessante.

Esse era mais um lado dessa matemática. Cada uma delas, mesmo tendo apenas metade, tinha um inteiro. Na lógica do quando está comigo é meu, tinham o desejo saciado, e o olho nem pensava em futuro ou martelava saudade do passado.

Havia, contudo, nisso tudo, um sistema sem solução: a cobiça. Zé, baseado em sua experiência recente, imaginou que uma terceira mulher talvez lhe possibilitasse um carro. Não queria, é verdade, nenhum carro do ano, modelo esportivo, roda talalarga. Um Fusca antigo, uma Rural, Chevette, Gordini, TL, Corcel, o que fosse, ia diminuir a distância entre o biscate e a casa, ia aumentar o tempo de Zé para suas meninas.

Deixa de voltar mais cedo para casa um dia, adentra o bar da dona Sara e, sob os vivas dos camaradas antigos, aquece o espírito de cana, a coragem começa a dar pulinhos e o olho gruda em Neusa.

Neide e Fátima estão em casa, não têm nenhum pensamento ruim ou expectativa frustrada. Sabem que mais cedo ou mais tarde o Zé chega. Estão um pouco ansiosas porque querem contar a ele dos filhos que vêm. E tricotam, das receitas aprendidas juntas, os primeiros sapatinhos.

Agora é esperar. Se ele trouxer notícias de Neusa ou a própria, em carne e osso, será que o brim do ciúme esgarça?

Antes que ele se adiante, soltando a língua, recebe a notícia. Mal absorve a emoção, pensa no dinheiro. Não será pouco? Elas ouvem o plano, Neusa incluída, e sorriem esperança. Zé procura a vizinha proprietária de um cômodo e o aluga.

Neusa chega no dia seguinte, distribuindo uma alegria imensa, escancarando à toa o riso fácil. Em instantes já é convidada para ser madrinha das duas crianças. Apenas um detalhe gostaria de esclarecer: vai contribuir para aquela cooperativa com mais de um salário; em compensação se ausentará de noite. Portanto, Zé é dela pelas manhãs: café, pão e, sic, pau. 

E a creche? Sabe quanto custa? Uma fortuna. Solução: a quarta mulher. Esta já nem é propriamente escolhida nem se amiga para valer das outras. A quinta mulher, Neide não a conhece. Nem progressão geométrica daria conta da velocidade com que Zé se amasia com novas mulheres.

Mais importante, contudo, é saber se Zé, um dividido por entre infinitas, quase zero, dançava ainda apenas a dança do amante infalível ou se planejava o próximo sonho de consumo. 

Zé, bem, o velho Zé rodava em círculo, grana pede mais grana. Já não trabalhava. Tinha casa própria. Tinha carro, moto, lancha. Tinha cavalo correndo no Jóquei. Filho estudando na PUC. Filha atriz. E, pasme, uma amante. Sim, uma amante tradicional, escondida das outras, trancafiada em um pequeno apartamento do subúrbio, com direito a frequentar desfiles de moda, lugares da moda, e tudo o mais.

E o que ele não faria por ela, moça de seus vinte anos no máximo? Faria gatos e lagartos. Se grana pede mais grana, ele estava disposto ao pior: ao roubo.

Quando ela lhe pediu um apartamento na Zona Sul, raspou o dinheiro do banco, vendeu a casa, os carros, a filha. Banana para as esposas.

Surpresa: conseguiu ficar com menos de um salário. Na verdade, meio. Menos, 25%. Quase nada, 1% de um salário mínimo.

A realidade nua e crua e a matemática pura quando se juntam, é o que digo, não há como escapulir. Zé é Zé sempre. No máximo, na opulência da quinta dose, permite fingir-se milionário para o espelho sujo do banheiro, no bar de décima categoria. Prova do não-teorema.

Traços (publicado em Contos de homem, livro de 1995)

 Às vezes sai perdida pela cidade. Procura uma apuirana de onde possa sugar toda a estricnina. Noutras, tranca-se em casa, esperando ser capturada e salva por algo, alguém, pai, mãe, o além.

Resistiu a tudo. Até a um amor.

. . . o amor foi como uma rosa nascendo no concreto: belo, mas inútil.

Não é bonita. Um metro e sessenta, cinquenta e quatro quilos, mãos compridas, unhas grandes de fundo rosado, sobrancelhas finas e cílios espessos. Pés magros de veias salientes, a tez muito branca. Os pelos crespos, vermelhos e abundantes. Nádegas pequenas.

Tampouco é feia. Olho preto de jabuticaba, nariz torneado, boca tímida, carmim. Dentes sempre brancos, sem nicotina. Cabelos muito longos.

Ano passado recebeu um assobio na rua. Chorou. Estoica por fora, não se sabia como por dentro. Que tinha células sabia. Também, que tinha os aparelhos digestivo e reprodutivo. Rins, pulmão. Mas e que mais?

No dia em que acordou com o sexo umedecido e as mãos nele, atirou-se violentamente contra a parede, pousou o ferro quente pelo corpo. Sorriu por se sentir tão bem.

Quebrou os espelhos da casa porque achava que a imagem refletida não era a sua. Era triste assim? Aquelas olheiras dilaceravam mesmo o seu rosto? E as espinhas? Espelho algum dia foi feito para mostrar a dor?

Foi morar dentro do guarda-roupa, fitando a lembrança do espelho. Aí recordou o dia. O pai morto, a mãe chorando, e ela querendo que ele acordasse.

Ela é a Maria José do José e da Maria. A síntese. Não é a princesa que o pai inventaria. Não é a mulher que a mãe desejou.

Quando vai ao bar, diz ao garçom que espera nove amigos. Os outros são meras possibilidades de amizade. Sai antes de a bebida chegar.

Em um domingo de missa, ganhou um beijo. Ainda hoje sabe de cor seu gosto e, quando quer, sente.

Já deu um beijo. No vento.

Conhecia Cecília Meireles. Pegava o telefone, discava um número qualquer e recitava: "Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo". Como ninguém a ouvia até o final, deixou de conhecer a poeta.

O banho quente a tranquiliza. Dentro d’água, mesmo fria, sorri sem culpa ou medo. Batizou essa sensação de amor. 

Agora ela está lá, no alto da ponte, namorando o mar.


A caça (publicado em Contos de homem, livro de 1995)

A mata é hermética. O sol, quando consegue penetrá-la, é um fio, um frio facho de luz.

O que faço aqui? Caço. Comigo levo meu cão, minha arma, o saco para depositar a caça.

Lá vem um bicho. Tum, tum ...

Guardo o elefante.

Minha mãe chega, senta-se na cadeira, perto da mesa, perto da churrasqueira, perto de meu pai. Aproximo-me deles, sirvo-lhes, em bandeja de prata, o elefante temperado. Com o susto, infartam.

Pais ...

A mata cada vez mais fechada, um breu. Os morcegos tentam atacar-me. Primmm ...

Minha mulher chega do cabeleireiro. Está linda, o cabelo como um bolo de festa. Dou-lhe um beijo, prendo-a em meus braços, solto em suas costas os morcegos. Descabelando-se, atira-se pela janela. Plaft seco e buzinas fanhas engarrafam o trânsito.

Mulher ...

No meio da selva, assusto-me com um rio. Lanço nele rede, isca, vara, anzol. Pesco um tubarão.

As crianças acordam ansiosas pelo aquário novo. Enquanto se distraem com os peixinhos, desfaço a armadilha, cai do teto o tubarão. Como a água corre para o ralo, as crianças se jogam nos dentes da fera, que em um último impulso as devora,

Crianças ...

Morreu o cão. Perdi a arma.

Para lá ou para cá. Mata sem fim. 

Caçador...

5.12.20

Circense (publicado em Contos de homem, livro de 1995)

A Egberto Gismonti

 

O lápis traça a maquiagem no rosto do palhaço. A ponta arranha a carne por dentro. Já não há nenhum prazer em representar, em enfrentar a ansiedade das crianças, em proporcionar-lhes o riso. Mas ele terá de fazê-lo, mais uma vez e outras tantas. Para um homem de quarenta anos, recomeçar é um verbo inconjugável, é derrota.

Olha-se no espelho, tudo perfeito. Abre o armário, veste a peça que falta, a alegria que irradiará para a plateia. Trago seco.

A entrada em cena é triunfal. Cumprimenta a criançada, dirige-se para o centro, abre os braços e inesperadamente dá um salto mortal. Seus pés tocam o chão, mas tropeçam. O corpo rola como um aro, batendo nas laterais do círculo. Ao erguer-se, suas calças caem e, ao apanhá-las, deixa escapulir um peido alto. Finge envergonhado, senta-se; levanta-se surpreso com as fezes coloridas, de plástico.

Outro salto leva--o para outro canto do circo e assim sucessivamente, até que todos o tenham visto mais de perto, até que todos, como cúmplices, tenham testemunhado seus blefes, que desencadeiam risos compulsivos. As tábuas da arquibancada zunem.

No próximo pulo, o imprevisto. Ao rolar pelo chão, o palhaço mete o rosto na bosta do elefante. As palmas e as gargalhadas atingem níveis estrondosos, quase silenciam e retornam a toda, num vaivém interminável.

Para quem tem a carne talhada por dentro, o golpe fere as células, deixa o desejo exangue.

 

Émerson sente que seu riso mexe com os órgãos, incha o fígado, comprime o pulmão. Escorrem lágrimas em sua face. O palhaço havia planejado o melhor dos truques: insinuar que o chocolate na cara era bosta de elefante, que o cheiro do doce era o podre fedor da merda.

O rapaz sai do circo repleto. Naquelas duas horas, não pensou no mundo lá fora. Mas, em pouco tempo, está às voltas com uma rua que tem de ser atravessada, com a falta de grana para comprar um refrigerante. O desconforto da arquibancada era agora dor nas costas.

Um movimento brusco, como se pedisse de volta os minutos vividos sob a lona. Abraça-se a um poste, fecha os olhos e sonha com o mundo do circo. Fugirá na companhia para atuar como trapezista, contorcionista, macaco, leão, qualquer coisa.

E é assim, vivendo tudo isso, que Émerson tropeça na calçada e cai, metendo o rosto na bosta de um cachorro.

0 mesmo riso da lona explode ao lado de Émerson. São as crianças vindas do circo, vendo na cena de rua a repetição da trapaça do palhaço. Mas ele sabe que não há truque, nem o gosto nem o cheiro daquela merda se parecem em nada com o chocolate. Levanta-se, xingando todos os que o olham, fazendo os piores gestos possíveis. Vai-se arrastando para casa, para o quarto, para as roupas, para a mala. Para o circo.

 

Os trailers formam o círculo. Os animais nas jaulas cuidam de empestar o ar. As crianças correm por entre as tendas metálicas. A bailarina esfrega suas roupas e lava outras para o mágico. O trapezista sai para procurar mulher.

Alonso cerrou as cortinas. Tira a roupa de palhaço e toma a primeira talagada de cachaça. Em breve, a segunda, a terceira, e outras tantas. Em breve, o nariz de bola de pingue--pongue é amassado pelas suas mãos; o lápis da maquiagem (faca?), quebrado; as roupas, rasgadas.

 

O passo de Émerson é determinado. A bolsa, com suas roupas, é pequena e cinza. Sua vontade brada. Fecha a mão e toca a porta.

 

 Afonso ouve a batida e não sabe se o barulho é luz ou tiro de bala--morte.

Trocam olhares e dizem muito. Entram. Trancam a porta. Lá estão.

 

O próximo espetáculo é amanhã. Ou nunca.


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Certamente foi ouvindo Palhaço, do disco Circense, que escrevi o conto. Se quiser ouvi-la, clique aqui.

22.11.20

O que fiz das minhas leituras de confinamento: II

Dando sequência à crônica de quinze dias atrás, falo um pouco mais sobre minhas leituras do confinamento.

Apesar do que dizem — e acertadamente tem sido contestado —, somos um país racista e nós, os brancos ou criados como tal, temos de nos perguntar todos os dias, como fazia uma antiga campanha na TV Brasil, onde guardamos ou escondemos nosso racismo. A leitura de negros me ajuda nessa busca em mim, que, assim espero, logrará que eu apague o que resta, o que está incrustado. “O crime do cais do Valongo” (Malê), de Eliana Alves Cruz dialoga diretamente com “Um defeito de cor” (Record), de Ana Maria Gonçalves, uma leitura de 2019. Escritos por negras, ambos tratam da escravidão no século XIX e dão voz a escravas ou ex-escravas, mostrando as dificuldades para sobreviver num mundo violento não só por conta da escravidão, mas também do machismo. Os dois, cada um com seu estilo, trazem à tona a complexidade daquela sociedade em reverberação até hoje e que vai muito além do ensinado na escola, pelo menos na minha do final dos anos de 1960, início dos de 1970.

Noutra linha, caminha “Rio Negro, 50” (Record), do também sambista Ney Lopes. Ney fala de um Rio de Janeiro negro, absolutamente negro, arrancando 40% (número aproximado de negros e pardos na década de 1950, segundo o IBGE) da população da cidade da condição marginal com que aparecem na “literatura branca”. Num romance que eu chamaria de coletivo — não há um foco direto e permanente na vida de um ou de outro, o interesse é pela comunidade —, vemos passar, em dois bares do centro da cidade na época do vexame da Copa de 1950, intelectuais, atrizes, cantoras, vendedores de amendoim, jogadores de futebol, ativistas, advogados, bicheiros. Negros, todos negros. A forma narrativa escolhida pelo autor é, a meu ver, uma aula.

Li também autores não negros. Um deles, Leonardo Almeida Filho, fala, em entrevista, das influências sofridas na escrita de “Nessa boca que te beija”, romance lançado pela Patuá. De um lado Graciliano Ramos (“Angústia”), de outro Augusto dos Anjos, em cujos versos Leonardo buscou o título. Engana-se quem pensa que pesa sobre o autor a consciência dessa influência, pois sua personagem, um escritor atormentado, improdutivo, entregue a uma paixão um tanto quanto obscurecida, tem camadas próprias. Esse escritor em crise escreve um romance, e, no romance, a personagem escreve um poema. Enquanto lia o livro, eu gravava uns poemas e espalhava-os por minhas redes sociais, e o escrito pela personagem da personagem (e que aparece como peça autônoma em outro livro de Leonardo, “Babelical”, também da Patuá) foi um deles.

É também um autor improdutivo a personagem de “Um romance de geração” (Companhia das Letras), de Sérgio Sant’anna. Nos livros de Sérgio, não raro, outras artes — nesse, o teatro — têm um papel importante. As situações que o autor explora são sempre muito atuais, no caso o embate entre o escritor (homem) e a repórter que o vai entrevistar (mulher), entre o escritor decadente e seu ego, entre a repórter insegura e seus próprios limites, enfim, irônica, inteligente, controversa, a literatura do Sérgio, uma vítima da pandemia, é das mais impregnadas pelo assombro contemporâneo. 

Apesar de o dramaturgo decadente de Sérgio ser um perfeito exemplo de filho privilegiado do patriarcado, o romance não o defende, o expõe. Se falo da questão de gênero, me lembro de “6 contos da era do jazz”, de F. Scott Fitzgerald (L&PM), outra leitura atual. Fitzgerald é visto como aquele que deu voz à juventude e soube captar a efervescência dos anos de 1920 ao perceber o novo rumo tomado pelas mulheres. Apesar desse reconhecimento, Frances Fitzgerald Lanahan, sua filha com Zelda, anota no prefácio que, embora se encontrem no livro duas mulheres mais ousadas, “ninguém, nestas histórias, beija ninguém, a menos que haja entre tais pessoas laços matrimoniais ou paternos”, e completa: “o livro é inteiramente destituído de sexo, tal como presumimos encontrar nos escritos modernos”. Ou seja, Fitzgerald não foi muito além de colocar mulheres em festas cheias de excessos e em carros dirigidos por playboys, ainda que sua literatura não se resuma a isso. Já Virginia Woolf, lidando com um mundo bem mais conservador — também sem beijos e cenas de sexo —, avançou naquilo em que Fitzgerald não. Em “V. Woolf — contos completos” (Cosacnaify), fica patente que sua literatura é um espaço de reflexão sobre a mulher. Woolf tem um repertório técnico incrível, seus contos são muito diversos, às vezes circunspectos, noutras, atirados. São tristes, filosóficos e, em direção oposta, engraçados. Um vestido pode provocar numa mulher o sentimento mais profundo e obrigá-la a uma exploração vertiginosa do que ela é. Um embate com o marido — a quem a esposa via similaridade com um coelho, percepção que passa a fazer parte da vida íntima do casal — pode fazer a mulher seguir por caminhos próprios. A escritora inglesa, sensível perscrutadora da alma feminina, também conta a história de um casal que se tomou de amores por um cãozinho vira-lata.