4.3.19

Meu curriculum vitae


Graduado em álbum de figurinhas, com mestrado em perdê-las no bafo.

Pelo assombro, doutor honoris causa em situações de emudecimento.

Aluno ouvinte de ideias furadas, ourives de angústias sem brilho, rábula das causas cabreiras.

Químico apenas teórico na faculdade do amor sem beijo.

Pároco da igreja de um deus ambivalente, metade qualquer coisa, metade coisa nenhuma.

Militante separatista do partido de um homem só, com pós-graduação em ouvir de pé e impassível qualquer sermão de louco.

Na universidade dos contempladores de pôr do sol, bolsista por mérito.

Grão-mestre em ruína alheia, vulgo amigo da onça.

Técnico ferroviário nesses trens lá de Minas, metalúrgico em céu de diamantes, subcoordenador de estados utópicos de exceção.

Síndico em condomínios que não saem do papel.

Preparador de infantocanibais barítonos para coral de descontentes.

Campeiro que anuncia com dez badaladas o passado logo adiante.

Regador de desertos, doxógrafo de filosofia de botequim, copidesque de não escritos.

PhD em dialeto de bêbados maltratados pela lucidez.

Professor emérito de Ignorância III, turma de quarta-feira (sexta, caso chova na quarta).

Todos os títulos podem ser confirmados com um simples pulo em cidades a que nunca fui, Anta Gorda ou Não-Me-Toque, no Rio Grande do Sul, Feliz Deserto, nas Alagoas, ou naquela que vivi por tanto tempo, Passos, a princesa do Sudoeste de Minas ou a cidade que anda. Nesta, não saia perguntando por mim pela rua, procure o Limão, ele guarda meus diplomas, que de fato são as digitais que deixei nos copos em que tomei a primeira dose, a segunda cerveja, o terceiro fogo paulista, enfim, nos copos que me deram verdadeiras aulas de como viver honestamente uma vida à toa.













18.2.19

Lima Barreto e os dias de hoje

Em “Diário do hospício”, primeira parte de “O cemitério dos vivos” (Planeta), Lima Barreto fala de uma das internações que teve, na realidade, a última, dois anos antes de seu falecimento. O problema do homem era a bebida, pelo menos era o que ele mesmo dizia. Tudo bem, ele dizia mais. Reproduzo suas palavras: “De mim para mim, tenho certeza que não sou louco; mas devido ao álcool, misturado com toda a espécie de apreensões que as dificuldades de minha vida material, há seis anos, me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura, deliro.”

Quadro de Wagner Castro, 2009*.
Apesar de todo o campo que se abre para discutir sobre a visão que o escritor tinha de si mesmo, um dos motivos que me levam a falar do livro é que, durante a leitura, encontrei a palavra geena, segundo o Houaiss, “local de suplício eterno pelo fogo, inferno” ou, por extensão de sentido, “sofrimento intenso, tormento, tortura”. Antes de buscar o significado do substantivo, me lembrei da amiga Stella Maris Rezende — escritora, colecionadora de prêmios Jabuti e verdadeira adoradora de palavras esquecidas — e a marquei no Face com a intenção de saber se ela o conhecia. Não, ela não conhecia. Concordamos que a sonoridade era bela, já o significado...

Henrique Fendrich, editor da revista Rubem, comentou que geena “era um vale fora de Jerusalém onde se jogava lixo e cadáveres” e que “Jesus usa muitas vezes a palavra como metáfora para o inferno”. Vera Moll — autora de “Meu adorado Pedro” (Bom-Texto), livro baseado na vida da imperatriz Leopoldina — reforçou a linha do Henrique ao perguntar: “não era desse modo que muitos eram condenados à morte segundo um dos livros da Bíblia? Na Geena.” Geena é uma palavra bíblica, que Lima Barreto usou com precisão ao escrever sobre seu calvário de viver num hospício, esse cemitério de vivos.

A ironia à postagem veio do Marco Túlio Costa — outro colecionador de Jabuti — ao fazer o seguinte comentário: “do modo que as coisas vão, alguém nascido na cidade do Rio de Janeiro poderá dizer ‘sou carioca da geena’”. Trocadilho digno de prêmio, reagiu o Henrique. Faço coro, quanto mais agora — um agora que não é de hoje — que o estado está à deriva. O autor de “O mágico desinventor” (Record), digníssimo Mago Túlio, como o poeta Antonio Barreto o chama, lacrou.

Volto ao diário da terceira internação de Lima Barreto. O interesse em lê-lo ainda hoje está não só no fato de que os “loucos” continuam por aí e são sempre personagens curiosos (quando são apenas personagens e não nossos familiares, sejamos honestos), mas na precisão com que Lima Barreto mostra que uma instituição dessas é a síntese do próprio país. Barreto fala de loucos ricos, com enfermeiros contratados, em contraposição aos despossuídos de juízo e dinheiro. Fala de médicos que não vão além daquilo que apregoa sua ciência, quer dizer, médico que está ali para receitar o mesmo tratamento para qualquer espécie de doente. Mostra enfermeiros pacienciosos, que, vivendo entre os loucos, sem o distanciamento reservado aos médicos, suportam todo tipo de maldição e impropérios.

Olhar arguto, Lima Barreto documentou um país que insiste em manter-se o mesmo. O Brasil, e não só o Rio, está jogado à geena. Ah, sim, e os escritores continuamos, como tem sido desde o início dos tempos, assoberbados pela falta de grana, com o que nos quedamos loucos mesmo sem a bebida e sem o delírio.

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* Wagner Castro, nascido em Franca, foi um importante artista plástico que residiu até a sua morte, perto dos 100 anos, em Passos.

13.2.19

4.2.19

Tragédia e Férias


Aos familiares das vítimas da Vale


Paisagem, de Marcelo Albuquerque*

O rompimento de uma barragem da Vale, outra vez ela, aconteceu quando eu estava de férias, em Tiradentes. O intervalo entre esta tragédia e a anterior (a de Mariana) foi pequeno, sinal de que a mineradora e todo o aparato de fiscalização não se empenharam em evitar uma nova catástrofe. O que aconteceu nos arredores de Brumadinho foi similar à atuação de um psicopata que entra na escola, mata quem vê pela frente e, por fim, se mata. É e não é similar, já que a Vale vai continuar por aí, rachando de ganhar dinheiro com o minério, descarte aqui, descarte lá os rejeitos desse minério. A empresa ressuscita no terceiro dia, embora não se possa associá-la a Cristo.


Muitos apontam a privatização como a razão de tantos rompimentos. Não concordo. A questão, me parece, está mais associada à forma como o capitalismo funciona por aqui: empresas viciadas em dinheiro público; fiscais que fiscalizam mais a própria conta-corrente; legisladores e membros do executivo que atuam com a mão (nem tão) invisível de interesses alheios aos de seus eleitores ou do próprio Estado. Desmontar essa engrenagem é que são elas.

O Ipiranga do novo governo promete fazer e acontecer para oxigenar o capitalismo tropical. Muita coisa que diz me soa bem, mas, claro, o sistema não é altruísta, regras e fiscalização são imprescindíveis. Tenho a impressão de que o homem forte da economia, um liberal puro-sangue, não acredita muito nisso e acha que as forças da economia — alicerçadas no egoísmo nosso de cada dia — nos levarão por si só ao equilíbrio. É aí que a vaca morta na lama, feito a porca, entorta o rabo.

O Brasil tem nós não desatados desde a primeira infância: a escravidão; a elite que não raro toma de assalto o poder e manda às favas os suspiros democráticos; a injustiça econômica e social. Eu pelo menos já não me assusto com essas jabuticabas (coitada das jabuticabas!), em compensação, me entristeço. A tragédia humana e os danos à fauna, à flora, às águas e a tudo mais me deixam na miséria. Somos inconsequentes e ponto.

Em Tiradentes, estava rodeado de amigos, alguns artistas, outros não, mas todos com alma cunhada no amor ao próximo. Sofremos juntos, e, por estarmos juntos, nos fortalecemos. O brinde levantado de forma recorrente na cidade histórica era muito mais que um desejo de saúde particular, era como se, no alegre tim-tim, transferíssemos ao outro uma força, pequena, mas resistente, capaz de fazer cada um de nós acreditar na melhora deste país e, principalmente, acreditar que, escrevendo, executando uma peça musical, talhando a madeira, preparando um bolo, inventando um drinque ou um prato, enfim, trabalhando, seremos protagonistas da mudança. 

Porque é importante, digo que, além da minha, esta crônica ecoa as vozes de uma Beatriz, duas Veras, uma Margarida, um Márcio, um Murilo, um João, um Celso, uma Lilian, uma Maria Helena, uma Fernanda, um Cléber, um Antonio, uma Graça e, como regentes, as vozes de uma Tereza e um Marco. Quando muito somos um bando de saltimbancos ou músicos de Bremen, mas, por isso mesmo, somos fortes no afeto e solidários na dor. No caso, na dor das famílias que viram seus entes tornarem-se vítimas de mais uma irresponsabilidade institucional brasileira.


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* Encontrei essa imagem num post de Antonio Barreto, poeta, conterrâneo e amigo do peito, não resisti e ilustrei minha crônica com ela, uma obra de Marcelo Albuquerque, cujo site pode ser visitado por aqui

21.1.19

Escrever nestes dias


Pro Cássio Zanatta e pro Renato Braz





Escrever é voar num carrinho de rolimã ou de sebo, que eu não sei se vocês sabem o que é, mas, no momento, não cabe explicar. É deixar-se levar pela mão da criança atrevida, dona de uma infância tão velha e caduca que nem em livros encontra registro. É andar amparado por Zanatta, o cronista que, sem saber, fala (só) de mim. É falar por ele ou dele, com vênia, evidentemente. É não alterar a voz nem erguer o punho, mas, com um verbo, dos mais singelos, ser capaz de matar um homem. É, resistente, mostrar-se pronto para dizer o dito, desdizer o dito, dosar o delírio, desbravar a delicadeza.

(Assim e assado escrevo, nestes dias em que os brutos dormem sem apagar o riso do rosto e o gozo do corpo.)

Escrever é comer com a fome pura-memória-dos-homens-velhos e desabrochar com coragem uma flor, úmida (e última) esperança de um bulbo feminino. Não se curvar, não dar as costas, ao contrário, semear o vento nos olhos do mar, do bicho, do não e quiçá. É dar a cara a tapa, meio Cristo, meio Gandhi, meio aquele primo nas brigas de rua. É desconjugar a febre da palavra e deixar boquiaberto o silêncio.

((Assim e assado escrevo, nestes dias em que a devassidão balança sua bem-dotada injúria nas fuças de nosso brio murcho.))

Escrever é enxugar o suor dos falsos adjetivos ou enfrentar o orgulho também falso da dor. É acompanhar com os olhos os carros que não passam. É dar um cavalo de pau em frase dita antes da invenção da roda. É contar centavo, cavar culpa, cintilar. É dar incerteza aos mapas.

(((Assim e assado escrevo, nestes dias, justo neles, mas também nos outros.)))

5.1.19

Do sono não saio: uma crônica insana, mas com sexto sentido


Parece que estou acordando. “Volte a escrever, Xandão”, um fiapo de voz-pensamento ecoa, repetindo-se feito um despertador que não quer ou não sabe calar. “Já vou, só mais um segundo, um mandato, uma vida.” Espreguiço.

Não sou dos que se lembram dos sonhos, mas não me esqueço de um recente. Estou em São Paulo, tento usar um APP para me conectar a uma empresa aérea e não consigo. Caminho descalço, o que me faz comprar umas sandálias. No segundo posterior, na companhia de um irmão e de uma irmã, desço em Orlando. Sinto-me preocupado por não ter passaporte, mas meu irmão, que tem a autoridade de já ter vivido nos Estados Unidos, dá de ombros como quem diz: “Não esquente”. Estamos num parque, num parque de chão batido, e reparo nas sandálias recém-compradas. (Recém-compradas? É um sonho, o tempo dança em torno de si mesmo.) Elas continuam nos meus pés, mas, por mais que me esforce, não distingo sua cor. Já não estou no parque, mas na casa de meu sobrinho, e ali minha sobrinha-neta pula no meu colo e pergunta a minha idade. Ficamos brincando com os números 57 e 58. Eu digo 57, ela diz 58 e, em seguida, me chama de velhinho.

Devo ser mesmo, pois não consigo acordar, acordar de fato. A realidade me empurra para a cama, o travesseiro me segura. Mas, ó, não estou na cama. A preguiça é apenas simbólica. A preguiça é um ato macunaímico-político. “Volte a escrever, Xandão”, martela a voz-não-mais-pensamento-mas-comando.

Sento-me diante do computador e, desatinado, teclo. Um passarinho canta lá fora. Paro tudo para ouvi-lo. O canto, de fato, parece um coaxar, de onde concluo que os sapos criaram asas. Vi num filme americano — não vou procurar o nome — uma chuva de sapos. Então, se os batráquios não estão voando, o coaxar é uma tormenta anfíbia. “Não consigo escrever”, vocifero. Lá da cozinha alguém diz que estou falando sozinho. Quem estará na cozinha se estou sozinho? Presto atenção. Não é voz de ninguém, e sim o pio de um pássaro fajuto e feio. Os pássaros perderam as asas e fofocam sobre nós, os humanos, ou os humanos preguiçosos, ou os humanos aturdidos pela realidade.

Uma expedição da Nasa fotografa o corpo celeste que estaria na fronteira do sistema solar, a seis bilhões de quilômetros da terra. As fotos levarão muitos anos até chegar aos computadores da agência americana. Para os lunáticos — esses cientistas que, é certo, são as mãos de vários interesses, sem que deixem de ser, como os poetas, a voz do delírio, do sonho e da aventura —, a demora é um nada diante do destempo do universo. Enquanto a terra dá trezentas voltas em torno do sol, o planetinha ora em exploração dá apenas uma. Se nele estivesse, eu não teria nem 20% de um ano, queria ver minha sobrinha-neta me chamar de velho. Aliás, os velhinhos de lá, se velhinhos houver, acharão os milenares homens e mulheres bíblicos apenas umas crianças expostas ao infortúnio do calor e do frio. Rirão da ficção que criamos para nos ajudar a lidar com uma vida tão curta.



Atrás de minha sombra, me escondo e não escrevo nem falo coisa com coisa. Depois das férias, sou o mesmo cansado — agora com o talento emperrado ou encarcerado.

Preciso dormir. Só mais um segundo. Só mais um mandato. Só mais uma vida.

19.12.18

Coleção Estilingues 30




Dia 5 de dezembro, nós, do grupo Estilingues, lançamos 7 livros pela Editora Patuá.


Alexandre Brandão - Uns e outros mais dois ou três - contos, com orelha de Luís Giffoni. Compre aqui.





Cristina Zarur - Esboço de uma possível boneca - contos, com orelha de Arthur Dapieve. Compre aqui.




Marilena Moraes - Asas de seda - haicais, com orelha de Paulo Henriques Britto. Compre aqui.





Miriam Mambrini - Meninas em tarde de sol - contos, com orelha de Valéria Martins. Compre aqui.






Nilma Lacerda - Pégaso na sala de jantar - contos, com orelha de Fabio Weintraub. Compre aqui.







Sônia Peçanha - Relógio d'água - contos, com orelha de Anélia Montechiari Pietrani. Compre aqui.








Vânia Osório - Desenhando uma janela - contos e poemas, com orelha de Edna Bueno. Compre aqui.





Para ver fotos do evento, clique aqui.


Para adquirir os livros, tome este caminho. A coleção pode ser adquirida inteira (com desconto) ou escolher apenas alguns dos livros.







10.12.18

Segunda feira chuvosa de março de 2019

Minha preocupação deu as caras ainda em 2018. Talvez fosse novembro, mês daqueles que, feito eu e conforme reza a lenda, foram concebidos nas estripulias momescas — com pouco amor e muita sem-vergonhice. Isso não importa, importa, sim, o fato de eu, nos dias que precederam aos meus 57 anos, ou seja, em pleno inferno astral, ter passado a desconfiar do que viria a acontecer. O inferno, decerto por conta do fogo, ilumina as mentes, torna as pessoas perspicazes, com dons adivinhatórios. E a clarividência comunga com a dor e o sofrimento, pelo menos foi assim na minha experiência. 
Novembro ia pelo meio, beirando o dia da República, quando comecei a temer o pior. Já se sabia de um general ou outro na equipe próxima do capitão, mas, no mais, eram especulações. Quantos afinal? Em que postos ficariam? Tudo se confirmou, e os militares, em número expressivo, tomaram assento nos cargos estratégicos do executivo.
Eu, na minha ignorância lustrosa, vendo toda a movimentação de formação do governo, conhecendo um pouco os currículos dos tais militares em trânsito para os cargos executivos — gente que serviu às missões de paz da ONU, um ou outro pouco pacífico, uma estranheza para a missão, mas não muito para auxiliar o capitão eleito presidente —, passei a coçar a cabeça, a chacoalhar a cabeça, a bater a cabeça e a me perguntar: quem vai ficar nas casernas?
Esse afluxo de militares para o poder executivo criaria, como de fato criou, um rombo no próprio exército. Não temos muitos militares para abrir mão deles em suas funções. Minhas perguntas, além de castigarem minha cabeça internamente, com pensamentos, e externamente, com pancadas, me levaram a um total estado de medo. Fiquei sitiado por essa sensação ao acordar, durante o almoço, nas horas de trabalho, ao fracassar no amor e no sono. Não tive coragem de comentar com ninguém. Medo solitário. Ah, o medo solitário! O medo que se tem só não é, ao contrário do sonho que se sonha só, na visão do Raul Seixas, apenas um medo, é um calvário armado, esperando a vítima. A vítima? Eu. A vítima? Você. Nós todos.
Casernas vazias, prato cheio para os inimigos. Sim, temos inimigos, todos sabem ou no mínimo imaginam. Nosso corpo diplomático é reconhecido por sua habilidade de não se meter de forma tendenciosa nos conflitos mais beligerantes ou que existem desde sempre. Logo que os novos inquilinos do poder arregaçaram suas mangas, a diplomacia astuta e pragmática foi sendo deixada de lado, e o Brasil afirmou que tinha lado no conflito entre Israel e Palestina. Bem, inaugurávamos a era de criar inimigos, mas não eram esses inimigos que me afligiam naquele novembro friorento. Pensava nos cultivados ao longo da história, aparentemente não mais inimigos, mas cicatrizes mal-curadas não tardam a sangrar. O estribilho do pancadão me martelava: caserna vazia reacende o desejo de vingança, caserna vazia reacende o desejo de vingança, caserna vazia... 
Hoje, nem bem o carnaval de 2019 afrouxou o couro do batuque e a quarta-feira santa redimiu um pouco dos nossos pecados, nessa segunda-feira que começou cinzenta e, de norte a sul, de leste a oeste, em pingos uniformemente distribuídos, descambou em uma chuva fina e contínua — situação rara, os meteorologistas estão chocados —; bem, nessa segunda-feira, segundo noticiam os jornais, as forças militares paraguaias fecharam a Ponte da Amizade e deslocaram um efetivo pequeno, porém maior que o vazio das nossas casernas, para a mítica Pedro Juan Caballero.

Batalha do Avaí, de Pedro Américo.

25.11.18

É treta


Palavra da moda é “treta”, que tem o sentido de um bate-boca meio desvairado e não de uma discussão ponderada. No limite rígido do dicionário, e me valho do Aurélio, os significados da palavra são “ardil, estratagema” e “habilidade na luta ou na esgrima”. Já “tretas” tem o sentido de “palavreado para burlar”, e “tretear” é “fazer uso de tretas”. Dando um nó nessas várias pontas, a treta tem a ver com uma esgrima da boca pra fora.

No calor das paixões atuais, não fazemos outra coisa que não seja promover tretas, já que o que importa é espetar o outro com a ponta rombuda da nossa espada. Nesse momento político conturbado, há os que, com ironia, clamam por treta mais amena, tipo aquela que, apenas para citar uma, surge quando se aponta o dedo para o que é considerado uma fraude literária. Afirmar, por exemplo, que o “escritor fulano é um engano”, a despeito de ter faturado vários prêmios e vendido milhões de livros, pode gerar uma troca de sopapos verbais inacreditáveis. Mas, diante das radicalizações do período eleitoral ou das diretrizes para as quais os futuros governos (federal e estaduais) têm apontado, o enfrentamento em polêmicas menores não passa de um sonho de consumo de toda gente.

Apesar de minha mineirice e aptidão à reserva, andei trocando uns sopapos nesses tempos passionais. Procurei combater sem me utilizar de fakenews, entretanto dei uma e só uma derrapada. Foi naquele caso, se não estou enganado ainda não de todo elucidado, da mulher gaúcha em cuja pele teria sido cravada uma suástica. Comprei logo a história de ela ter sido atacada, mas há uma hipótese grande de que tenha sido uma imolação. Em minha defesa, advogo que o grave é o símbolo nazista circular em tom exitoso pelo país. Naqueles mesmos dias, uma igreja na região serrana do Rio de Janeiro amanhecera com várias suásticas pichadas em suas paredes.

Muito já se disse sobre as fakenews, motor de arranque de muitas tretas, mas, para além de seu uso pelos desavisados — os idosos da família, os assustados da hora, os ignorantes, os crédulos de toda sorte —, o que me chamou a atenção foi o fato de que algumas pessoas usam a falsa notícia sabendo que é mesmo falsa. Tive a experiência de alertar uma pessoa sobre uma mentira que disseminava, e ela pouco se importou com isso. Seu objetivo, me disse, era incomodar o outro lado.

Estou fugindo da minha aspiração ao começar a crônica. O que eu queria dizer é que não tarda muito alguém fará uma antologia daquelas “tretas das galáxias”, as mais mais. Haverá capítulo dedicado aos argumentos pueris (os que falam em comunismo infiltrado em todas as reentrâncias da sociedade têm lugar ao sol), aos litígios violentos, às ironias certeiras, não podendo faltar o pequeno tratado da vergonha alheia. Tudo, claro, ilustrado pelos memes, que não são desse mundo. Não me admiro se um escritor conhecido, dos bons ou não, que engana ou não, se lance a essa empreitada. Acho mesmo que ela servirá como um documento indispensável de nossa época, sem contar, é óbvio, que, se o clima estiver menos exacerbado, abrirá o período de descer o malho no trabalho do colega de arte e, com isso, dar início a uma nova onda de tretas.

12.11.18

Sinuca de bico

Um sábio, desgostoso do pouco interesse pelo saber, resolve dar as costas justo ao saber e viver de brisa. Mas isso, em vez de livrá-lo da sabedoria, o torna ainda mais sábio. Diante do paradoxo, o sábio, enfim, não sabe.

Já a mulher que só encontra sentido na vida recheada de sexo e caipirinha, ao ver-se envelhecendo, cada dia com menos apetite para os embates do corpo e com menos fígado para a bebida, conclui que, sim, viver sem sentido também faz sentido. Mas não fica lá muito convencida.

Por sua vez, a criança precoce — a que a está à frente do seu tempo e, por isso, antes de deixar de ser criança já não é mais criança —, quando entende que no futuro viverá de nostalgia, vê correr entre os dedinhos o futuro que não terá.

O confuso, aquele débil para quem a melhor reta está dentro do ponto, é, entre muitos, o menos confuso pois, na sua visão de mundo, Deus é prolixo demais.

A avó materna do primo paterno da tia de um vizinho tem convicção de que as voltas que o mundo dá não são no sentido defendido pelos físicos. O mundo roda de banda, ela advoga para uma plateia de dinossauros.

Provocador, o reverendo espalha por aí que ser e estar dera origem ao universo. Argumenta: primeiro foi o verbo. Se corrige: foram os verbos. Volta atrás, essa diferenciação só existe numas malditas línguas latinas. E se põe a pensar em como seria no mandarim.

A poeta, que não aceita ser tratada por poetisa, pergunta a musicista se algum dia ela havia sido chamada de música, feminino de músico, que é como os instrumentistas são conhecidos. Recebe como resposta, de uma região ao sul do peito, um dó em forma de vento, que não nomeio em consideração à poeta, que não gosta de rimas.




O ventríloquo se dá conta de que está doente quando o boneco dispara a falar verdades. A pior de todas: ele, o ventríloquo, é que é o boneco.

A mulher fica feliz ao compreender que, quando deu à luz, o que era deixou de ser e o que não era passou a ser. O homem ao seu lado caçoa dela: ora se não é assim com todos, até com os pais! Não estava falando da maternidade, ela responde em tom de injúria, mas de não ser plena antes e de o ser depois. O homem canta de galo, de galo de uma nota só, que é o que pode fazer no momento.

Há outras sinucas de bico, mas elas saltarão aos olhos nos dias mais escuros.

29.10.18

O violão no baú

Se não me falha a memória — e a crônica, no seu miúdo, sempre é sobre memórias que falham —, há dezoito anos escrevo crônicas. Por suposto, tratei de muitos assuntos e me repeti inúmeras vezes. Repetir-se é tão humano quanto errar... amar... abluir-se (aprendi esta palavra num romance do Vargas Llosa; sugiro, a quem não sabe o que é, correr ao dicionário, se possível antes do banho).

Deixo o exibicionismo de lado e vou ao que interessa, repetindo-me ou não. Se der sorte (se dermos), velho assunto em roupa nova, o que já é alguma coisa.

No início da adolescência, eu era um moleque gordinho e, como estratégia para não ceder ao fracasso da vida amorosa que se mostrava a meus olhos, resolvi aprender violão. Aprendi. Mais até: compus algumas músicas. Com isso conquistei de fato, senão amores, alguns olhares, um tanto de carinho e uns dois ou três suspiros.

Foto do autor, de Conservatória.
Mais tarde, então um homem magrinho (entre a gordura da infância e a atual, houve a magreza), encontrei meu amor, alguém que nunca me ouvira tocar e cantar. Ou seja, o violão não parece ter ajudado. Seja como for, nos meus vinte anos, olhei pros meus dedos, mirei minhas mãos e concluí: “Véi, você é o pior violonista do planeta, se emenda, poupe o ouvido dos amigos, descanse sua garganta, que mais grita do que canta, e suas mãos e dedos, que vão encontrar coisa melhor pra fazer, não se preocupe”. Enfiei minha viola no baú e fui cuidar da vida.


O que era cuidar da vida sem o violão? Sem saber o que era, letrista de meia dúzia de músicas, passei a escrever poesia. E, claro, assim como em certo momento achei que eu era uma espécie de Baden Bituca de Holanda, ao escrever os primeiros versos me vi como um Manuel Drummond de Meireles Mendes. Se um dia esfaqueei o músico, fui condescendente com o poeta. Humildemente descobri que o Xandão era só o Xandão, e à escrita ao rés do chão, rodapé da literatura, me filiei. Fui da poesia pro conto, do conto pra crônica. E, tendo ido, voltei da crônica pro conto, do conto pra poesia. E vou e volto, já que a vida — ora em valsa, ora em samba, ora em tango e bolero que algum mestre tange —, não passa disso. 

15.10.18

Um caractere a menos


A crise está atormentando a vida de muitas pessoas. Sempre há gradações, por óbvio, e chega a ser pouco ético dizer que está ruim para todos. Para muitos está péssimo. Os sem-teto formam uma grande massa que se vê em todos os cantos, retrato sem retoque da pobreza extrema.

Deixando a profundidade dos fatos e agarrando a mão da insignificância, ando desconfiado que mesmo o amor, em todas as suas formas — o erótico, o de veneração, o fraterno —, tem atendido seus fregueses na boca da noite sem dentes, escondido do astro rei e de suas desmesuras. Se é assim com o amor, o que será do resto? O que será que será que andam suspitramando no breu das tocas? A miséria grassa, o amor se esconde, os de sempre só pensam em perpetuar o sempre.

Vamos ao que interessa, nada de timidez ou de tibieza, advogo com voz de barítono, em atitude de mãe. Sim, de mãe. Vocês sabem que as mães são o topo estruturante, o resto é conversa finada. Pois bem, a crise, sim, era sobre a danada que eu discorria. A crise não está respeitando mais nada. É conta sem dinheiro, é despensa sem comida, é escritor mendigando uma ideia na bicha da burocracia. Misericórdia. Isso tudo por quê? Ora porquê.

Porque, com razão dobrada, os homens, no reinado tão bem definido por um ditado quase esquecido, “farinha pouca, meu pirão primeiro”, gostam de impedir que outros homens acessem a ternurinha do afeto, a gratidão da reciprocidade. Tudo isso e muito mais ao preço impróprio da despromoção. Cinquenta por cento do dobro do dobro do dobro.

Estou tricotando a fome hoje para morrer de frio amanhã. Estratégia errada. Também, não podia ser diferente, meu (nosso?) coach é o medo. E nem terço eu rezo. E nem à umbanda vou. E nem resguardo os domingos. A crise é um cisco que, numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, deu por si transformado num imenso coiso que, por bem, não se deve dizer o nome.

Desço ao rés do chão e poupo vocês de minhas ácidas viagens vencidas. Ao que interessa, ao que da crise herdo. Não sei se notaram, mas sequestraram parte miúda, nem por isso menos importante, do abecê que escrevo. De modo que, se preciso vociferar contra o senhor tupiniquim da guerra, só o posso fazer noutro idioma. E é assim que termino: #nothim





1.10.18

Mais uma crônica política

Num evento em Recife, partidários da candidatura que pouco compromisso tem com a democracia cantaram assim: “Dou pra CUT pão com mortadela / E pras feministas ração na tigela / As minas de direita são as top mais belas / Enquanto as de esquerda têm mais pelo que as cadelas”. É uma cançãozinha divertida, uma troça contra o lado de lá? Não. Apesar de o verso da CUT ser até engraçado, a parte que visa às mulheres é um desastre. É um acinte. Um crime.

O senhor que encabeça essa candidatura menos de direita do que antidemocrática, a meu juízo, comete muitos crimes. Lembro-me de seu voto no impeachment de Dilma Rousseff, que foi dedicado ao coronel Ustra, conhecido torturador. E ainda está vivo no noticiário o que um de seus filhos fez circular em seu perfil em uma rede social: uma foto que simulava a tortura de um homem que tinha na camiseta a hastag #elenão. Lembro-me de suas palavras dirigidas a Maria do Rosário, deputada do PT do Rio Grande do Sul. Se alguém já se esqueceu, ele dizia que a deputada não merecia ser estuprada porque era feia. Lembro-me ainda da resposta dele a Preta Gil no programa CQC. Ela havia lhe perguntado como reagiria se um filho namorasse uma negra, e ele disse que não se pronunciaria sobre promiscuidade. Até onde sei, tortura, estupro e racismo são crimes neste país, logo é crime homenagear um torturador ou dizer que, fosse outra mulher, se poderia recorrer ao estupro ou que é promíscuo o namoro de um branco com um negro. Há exemplos da artilharia retrógrada lançada contra a comunidade LGBT. A guerrilha em prol do atraso é suja e interminável e, nela, o capitão é general.

Se me espanto com esse viés de conservadorismo obscurantista, também me espanto com outras ideias que ele e seus seguidores lançam esparsamente. Por exemplo, que, no futuro, se poderá fazer uma constituinte sem políticos, uma coisa de escritório, melhor dizendo, de quartel. Que, se desfavoráveis, os resultados das urnas serão contestados com força. E aí a força são as armas que generais e capitães têm sob controle. Quase sob controle, haja vista que muitas delas são desviadas sabe-se lá como e vão parar nas mãos de bandidos.

Esse “cardápio” que nos é apresentado vai de encontro aos valores que cultivo. Estou aliado às lutas femininas, dos negros, da comunidade LGBT, ando ao lado dos defensores dos direitos humanos e acredito fervorosamente nessa contradição ambulante chamada democracia. Na democracia há ou pode haver corrupção, sim. Na democracia há retrocessos, sim. Mas, no saldo geral, é nela que avanços sociais e econômicos têm mais chances de acontecerem. A nossa, de 30 anos, é cheia de exemplos: combate à inflação, diminuição ainda que temporária da concentração de renda, maior nível de escolaridade, a despeito do nível baixo do ensino, e por aí afora. Se, no momento, houve tropeços, é hora de insistir na democracia e não dar as costas a ela.

Mais uma vez, ocupo este espaço para me posicionar contra uma candidatura que refuta os avanços que tivemos. Mas, por favor, não pensem que acredito no discurso “não houve nada disso” do PT. Sinceramente, não é por aí. Tenho muitas insatisfações, só não abraço a barbárie. Aliás, por isso, termino minha conversa com a dúvida que não quer calar: Quem matou Marielle e Anderson?