19.6.21

Abobrinhas

Um amigo e eu falávamos do apetite sexual da juventude. Na mocidade dele e depois na minha, os homens eram predadores sexuais. Quer dizer, nem sempre eram, mas, por imposição cultural, deveriam ser. Deveríamos ser. Deitar-se com todas as mulheres do mundo era o esperado. Quando não satisfeito, ou seja, sempre ou quase sempre — haja vista que o desejo é insaciável,  — essa ânsia acabava gerando tristeza, frustração e um gasto excessivo com revistas masculinas. Lá pelas tantas, meu amigo comparou aquelas batalhas aos desafios de Américo Vespúcio, um dos grandes navegadores da passagem dos séculos XV para o XVI. Preferimos então rebatizá-lo de Américo Prepúcio. 

Alguns de meus amigos que foram maconheiros aos dezoito e ainda o são aos sessenta balançam bandeira pelo atual governo. Reflito cá com meus botões atualmente caretas e não consigo entender esse alinhamento. O que andam misturando na erva?

Aos quatorze anos, tornei-me crítico da televisão, uma máquina alienante, concluí. As novelas eram um pastiche, suas histórias, em títulos diferentes, se repetiam todas as noites, ontem, hoje e amanhã. Os telejornais mais confundiam que informavam. Os programas de auditório exploravam desafinados, humildes e toda sorte de desassistidos. Aos vinte e poucos, me dei conta de que não era bem assim, exagero meu, mas o estrago já estava feito, logo, a partir de então, vejo pouca televisão, inclusive a fechada e paga. Próximo dos sessenta, trancado em casa há mais de ano por conta da pandemia, acabo assistindo a alguma coisa e choro ouvindo crianças calouras num programa com grife americana.

Viemos ao mundo para fazer listas. Corolário imediato: viemos ao mundo para criar polêmicas com nossas listas. O Ruffato, por exemplo, elaborou recentemente uma lista dos melhores romances escritos no Brasil até a década de 1990 e recebeu aplausos e apupos. Aplausos tímidos, apupos ruidosos. Eu não faço listas, mas, se as fizesse, essa seria a primeira entre as coisas descartáveis deste mundo. Ora, mas se a razão de viver está em fazer listas, logo... Bem, logo a vida não tem sentido, o que é a pura verdade.

Não estamos entre a cruz e a espada, mas entre a graça e a desgraça. E toda graça que a gente acha, no fundo, alimenta a desgraça que nos achaca. Tudo assim em rimas espúrias, como espúrios têm sido nossos dias.

A dentista anunciou minha entrada na terceira dentição, quer dizer, daquele momento em diante, trocaria os dentes definitivos (uma ova) pelos postiços. A situação exige resignação e dinheiro. Este, mesmo não tendo, a gente arranja, já aquela não há banco que a empreste, mesmo a juros extorsivos.

Eu, meu pai e alguns de seus amigos estávamos sentados à sombra da “árvore dos enforcados” — sob a qual se reuniam ou se reúnem os negociantes lá de Passos, muitos deles na pendura, pedindo dinheiro a todo mundo —, quando o Canário soltou assim do nada que a exposição excessiva do corpo feminino acabaria com a libido masculina. Ele fazia loas ao tempo no qual visualizar um pedaço de uma canela, ali entre a barra da saia comprida e a renda que enfeitava o punho da meiinha curta, era um acontecimento e tanto. Se ele estivesse certo, agora que a máscara passou a ser, entre os sensatos, parte fundamental da indumentária, nossa vida sexual deveria estar a mil. No entanto muitos municípios têm apresentado estatísticas de um número maior de mortes do que de nascimentos. A máscara não estimula a sensualidade e a fertilidade, mas a recusa de seu uso assanha a morte.

Às vezes, como brinca o narrador de futebol Milton Leite, eu se acho, mas, fora esses lampejos de vaidade, eu me escondo e não sei onde me esqueci. Ah, sim, foi num país do futuro. Não aquele edulcorado pela ditadura, mas o real, duro e no qual a gente colheria ao menos uma flor de um dos muitos canteiros que plantamos e que o vento não se cansa de derrubar.

Entramos na vida como verdadeiros parvos e saímos dela não de todo instruídos, portanto a ignorância é, de fato, uma de nossas mais arraigadas características. O desconhecimento conquistado, se é certo dizer assim, pode ser por falta de curiosidade, de oportunidade ou até por não haver necessidade de saber certas coisas. Logo, há grandes, médias e pequenas ignorâncias. Eu, por exemplo, alimento uma que, na hierarquia, deve ser ínfima, mas assim mesmo me traz algum sofrimento. Por que entre tantas frutas, legumes, tubérculos, justo à abobrinha coube o significado de conversa informal, tola, recheada de bobeiras? Por que, meu Deus? Por quê? 




6.6.21

Vinte e uma dicas para deter o fim do mundo

 Na última segunda-feira, comecei o dia espalhando, em rede social, dicas para a semana que se iniciava. Repito-as aqui sem saber se são valiosas, ainda que, imodestamente, creia que, mil vezes repetidas, elas nos auxiliariam a deter este momento assemelhado ao fim do mundo, senão o próprio.

 

Divida as tarefas domésticas / Manifeste-se contra o governo / Beba, se for o caso, mas não deixe de orar / Ore, se for o caso, mas não deixe de beber / Troque uma ideia com amigos / Ouça música. Leia. Cante. Dance / Manifeste-se mais uma vez contra o governo / Tenha saudades / Procure se informar. Desconfie de tudo / Agradeça a vacina tomada / Se prepare para tomar a vacina / Não se conforme com tantas mortes / Olhe para o Jacarezinho. Cobre justiça / Olhe para as aldeias indígenas. Cobre justiça / Manifeste-se mais uma vez contra o governo / Mande uma gracinha pelo ZAP / Confronte fake news / Faça planos / Chore / Ria / Olhe bem para os lados, não esteja sozinho.

 

À beira da autoajuda, as dicas beliscam temas que me mobilizam e misturam aquelas claramente políticas com as apenas afetuosas. Sabendo-se que o afeto, e isso está tão claro hoje, é mais político que muito grito de guerra, minhas dicas — com destaque para “divida as tarefas domésticas” — são absolutamente políticas e absolutamente afetuosas.

Escrevi as vinte e uma ações instigado, de um lado, pelas derrotas quase diárias, representadas pelas chacinas do Jacarezinho e de muitas aldeias indígenas: dois exemplos tirados de uma lista que, no dia 29 de maio, quando os descontentes com o governo tomamos a rua (não fui, mas, como acumulo crédito em protestos e passeatas, é como tivesse ido), foi acrescida por um ataque covarde da polícia pernambucana contra a população. Daniel Campelo da Silva e Jonas Correia de França, que nem estavam no protesto, perderam parte da visão depois de levarem tiros de bala de borracha. De outro lado, o impulso veio do brilho saído das ruas cheias e inconformadas. Escrevi, portanto, a partir de um lamento e de uma esperança. Olhemos para os lados e não estejamos sozinhos — não estamos!

A extrema direita, essa cobra por muito tempo escondida e alimentada pela própria fome, voltou ao poder com o intuito único e claro de desinventar o Brasil, o Brasil cordial. Digo cordial não no sentido de ser habitado exclusiva ou majoritariamente por pessoas afáveis e sinceras, mas sim por abrigar o povo que inventou o drible e que, se não o inventou, aperfeiçoou a gambiarra. Povo que, do trauma da escravidão e agarrado à ancestralidade africana, fez surgir o samba, nossa trilha da alegria, da congratulação, “o pai do prazer” e “o filho da dor”, nas palavras de Gil e Caetano. Cordial porque age de coração.

A direita quer acabar com os atravessamentos entre o antigo (e até o conservador) e o moderno que marcam este país em permanente exercício de autoconhecimento. Vandré e sua Disparada. O Lamento Sertanejo, de Gil e Dominguinhos. Os Mutantes cantando Dois mil e um, de Rita Lee e Tom Zé. Os irmãos Pena Branca e Xavantinho, crias do Brasil Central, rural, boiadeiro, acaipirando Cio da Terra, de Milton e Chico. Bethânia levando Evidências para além do que é. Emicida absorvendo Belchior. Todas essas experiências são o resultado de diálogos entre o centro e a periferia, entre o rural e o urbano, entre o interior e as capitais, entre a costa oceânica e os sertões e as florestas, entre o negro e o branco, entre distintas gerações, portanto diálogos feitos também ou principalmente de embates. O Brasil, bem ou mal, foi se construindo a partir dessas contradições que agora querem dizer que não existem, querem proibi-las de dar norte ao país.

A direita no comando não tem um projeto neoliberal claro, nesse ponto ela enfrenta suas contendas internas, mas, não resta dúvida, tem um projeto coerente de, agarrado às batidas agendas conservadoras, impor um poder que não é civil, também não é militar, é miliciano. As milícias nasceram oferecendo, mediante pagamento e de forma chantagista, “segurança” aos desassistidos (no subúrbio carioca, na Baixada Fluminense). Aonde a lei não chegava, as milícias agiam como se zelassem por ela. Lorota. Na verdade, reescreviam as leis e encarceravam — expandindo os serviços já oferecidos, que passaram a contar com o gatonet, a venda monopólica do gás etc. — primeiro os seus protegidos e, depois, todos os moradores dos territórios sob sua influência.

É nessa esquina que estamos. Se não reagirmos, de 500 mil mortos por Covid-19, saltaremos para um milhão. A esse um milhão, acrescentaremos outro milhão de mortos por perseguição e balas perdidas. E mais não sei quantos milhões vitimados pela fome. É hora de trazer o poder para o campo civilizatório, tomá-lo de volta desse projeto de destruição. Depois, bem, depois a gente retoma as velhas questões. Uma retomada que, embora anteponha projetos distintos, quiçá incompatíveis, garanta a alternância no poder e o estabelecimento de um consenso duradouro, qual seja, o de que situação e oposição agirão sempre respeitando a democracia.

Bebendo sem deixar de orar e orando sem deixar de beber, nos concentremos na luta civilizatória e resgatemos o Brasil da mão dos facínoras. 

24.5.21

Realismo mágico em três versões

 






Com o realismo mágico, García Márquez reportou o mundo a sua volta, em particular o de sua juventude vivida no interior da Colômbia. Sim, era uma espécie de reportagem sobre o extraordinário embutido nas histórias narradas por seus avós e de modo algum criado por ele. Na minha infância, eram comuns os casos situados na fronteira entre o real e o imaginário, entre o visível e o invisível. Eu também — e muita gente de sessenta anos ou mais — poderia ter inventado, se me fosse dado talento, o realismo mágico, bastava registrar, ao lado de mulas sem cabeça e sacis, as peripécias de meus antepassados. O avô materno de minha mãe colocava maçãs na cabeça de suas filhas e, de uma certa distância, atirava na fruta. Verdade? É o que sei. Nas mãos de Gabo, suspeito, as maçãs seriam para lá de rubras e as meninas, apesar de pálidas, esperariam os tiros de olhos abertos.

O escritor colombiano não só registrou as histórias de seus ancestrais, falsas ou verdadeiras, o que ele não poderia atestar, como também espalhou, a seu gosto, ervas e pimenta sobre elas. Não fosse assim, não seria um escritor, mas um contador de causos. Nem contador de causos, já que esses, ao relatar o que viram ou ouviram, dão um jeito no inverossímil da realidade. Não sendo escritor nem contador de causo, García Márquez talvez pudesse ter sido um contabilista com talento para esconder do fisco parte da renda de seus clientes. Sempre projeto sobre o Nobel de 1982 a pecha de mentiroso. Creio que lhe cai bem.

O boom da literatura fantástica ficou para trás. Entretanto esses dias tão cheios de assombros parecem propícios à exploração do mágico. Sendo assim, sugiro três argumentos, que podem ser explorados em diferentes nichos de mercado, àqueles que nalgum canto do universo escrevem sob a bênção do velho Gabo. Corram à cozinha, separem os temperos mais picantes e mãos à obra.

Distopia:  no lugar dos coronéis déspotas, velhos e sozinhos, o personagem é o homem orgulhoso da própria ignorância e fiel à violência. Ele tem o olhar vidrado, não como o de um louco, mas como o de uma besta. Recusa o passado, encantado ou não, por ser um tempo morto. Seu foco são o presente, para desfrutar as benesses da fortuna, e o futuro, para garantir a boa vida dos descendentes e perpetuar o próprio nome como um herói da pátria. Ambicioso e gabola, apresenta-se numa versão mais que requentada do velho caudilho. O déspota atualizado percebe a passagem do real para o virtual, no qual age. As fake news, sua mão sobre o novo mundo, trocam o acaso e a riqueza do contraditório por algoritmos que escravizam, inicialmente, aqueles que o escolheram como libertador e, em seguida, os demais.


Humor: o olhar vidrado do poderoso expressa o assombro de quem não entende uma vírgula do que está se passando. Ele é o menino do “A vida é bela” que, ao crescer, continuou a enxergar o real como um jogo. Em vez de viver, joga, e tudo para ele — inclusive ou principalmente o horror — é encantamento e beleza. Envolvido em sucessivas situações vexatórias, como a de negar a ciência, bradar contra a democracia e babar de medo, vê-se transformado num palhaço sem graça e sem circo. Quando chega ao limite da tolerância, ao apontar o dedo contra seus detratores e ameaçá-los de morte, causa mais riso que medo. Não fosse, apesar de patético, perigoso, seu desatino seria comovente.


Terror: o novo Messias teria voltado à terra para acabar com a corrupção original, o passo em falso de Adão e Eva, e com a alimentada pela cobiça. Seu discurso enaltece um passado em nada similar ao fantasmagórico e recorrente de García Márquez, mas um que nunca existiu, aquele no qual, sob ditadura, homens e mulheres foram felizes. Encontra seguidores fanáticos, no entanto, quando o discurso messiânico se transforma em idiotice política, surgem os desiludidos, que, em número crescente, fogem para lugares distantes, se ajeitam em pequenos sítios e abandonam o mundo virtual, praça de guerra do líder. O até então ídolo se vê incapaz de manejar a tecnologia a seu favor, perdendo assim o poder de influir com suas mentiras na vida de todos, seus partidários ou não. Abandonado, meio milhão de almas penadas o visitam e o aniquilam. Enquanto isso, os fugitivos se agarram à única ideia do falso Messias com a qual ainda concordam, a de o passado ter sido o melhor momento não exatamente de suas vidas, mas da existência humana. Empenham-se, então, em reerguer montanhas, replantar florestas, desinventar a agricultura, sobreviver da caça, enfim, dedicam-se a arrastar suas vidas cada vez mais para trás. Até que chega a hora de enfrentar os dinossauros.

 

8.5.21

As palavras mortas

 

Para André Ricardo Aguiar


Palavras mortas, algumas indignadas, outras conformadas, não raro se reencarnam na crônica, escrita de reconhecido poder mediúnico, mas não por isso. O romance, o conto e a poesia são, menos por vontade própria e mais por cobrança estética, infensos a defuntos dessa natureza, cabendo à crônica, portanto, ocupar o espaço. Em um romance moderno não entra a palavra “fuá”. O romancista, dependendo do caso, preferirá os sinônimos intriga (dificilmente mexerico) ou valentão. Mas um cronista defenderá como não sendo puro fuá o que se fala acerca da origem ilícita dos seis milhões usados para comprar aquela façanhosa casa no Distrito Federal. Ou dirá que esses fuás arrotam muito e mordem pouco.

Em uma crônica de agosto de 1968, Carlinhos Oliveira escreveu “em pandarecos”; antes de continuar, cito o texto: “sabendo estar em pandarecos o seu próprio coração, ele acalentava uma única pergunta. / — Quem morrerá por mim?” (Sobre corações, no site Crônica Brasileira). Cinquenta e cinco anos atrás, aquela locução era de uso corriqueiro, mas não causaria estranheza caso não fosse e irrompesse na crônica. De lá para cá, e sabe-se lá por que motivo, pandarecos, catando cavacos, deu com os burros n’água e foi dividir o túmulo com circunfuso, adjetivo que, provavelmente nascido morto, foi exumado com a facilidade com que os numéricos filhos mimados não contarão para cremar a democracia. Deixemos de papo e vamos ao que interessa: quem, hoje em dia, empregaria os pandarecos e circunfusos da vida e da morte? Respondo: outro cronista.

A crônica trava uma luta particular para ressuscitar as palavras fenecidas por conta de um vírus estrangeiro — nunca chinês, é bom que se registre. O download em site made in USA destrói o “baixar”, e ninguém mais baixa coisa alguma de um sítio feito nos Estados Unidos. Por outro lado, continuamos baixando a cabeça para as atrocidades ditas por um brasileiro que estudou em Chicago e, no crepúsculo de seus dias, açoita os camumbembes, com certeza mais pobres do que ele foi, que galgam os primeiros degraus que os separam de um mundo mais justo. Resumindo: entre a recusa cabal e o aceite dócil dos estrangeirismos, a crônica ora é um médium raiz, que distribui pelos quatro cantos a palavra portuguesa já no purgatório e a um passo do céu ou do inferno, ora finge-se de morta e prefere estar in.

No final de semana passado — quando os trabalhadores memoraram seu dia e uma gente estranha gozou da democracia ladrando contra a democracia — entre leituras, faxinas e outros labores, tentei recuperar o nome de um colunista salvo engano d’O Globo. Ele escrevia — mais um salvo engano — no Segundo Caderno, na década de 1980. É possível que escrevesse desde antes, e pode ser que minha reminiscência seja de fato dos anos 1990. De qualquer modo, o traço do tal colunista era o uso intensivo de palavras mortas e inumadas. Fora os artigos e alguns pronomes, muitos mergulhados em ênclises e mesóclises, todo o texto era empachado por palavras que um bebê, vivesse quanto vivesse, jamais falaria, e um revelho, tendo vivido quanto viveu, nunca terá falado. Pelintra, fato, janota e cocote, olvidadas desde os primórdios do século passado, eram defuntos muito frescos, portanto estavam descartadas do repertório do tal colunista.

Talvez fosse um filólogo, um dicionarista, um reles diletante, mas, apesar de consultar jornalistas, no privado e em rede social, não descobri quem era aquele Chico Xavier das palavralmas. Muitos apostaram no Joaquim Ferreira dos Santos, que costuma usar gírias de décadas distantes e, em alguns casos, se expressa com antigualhas dos tempos do onça, mas Joaquim só espicaça uma coisa aqui e outra ali por puro deleite estético, para dar sabor ao texto. O outro, não. Ele montava um bloco hermético, que, para ser decifrado, primeiro exigia a consulta do significado de cada palavra — naquela época, em dicionários pesados e quase sempre velhos —, depois cobrava a compreensão do conjunto, ou seja, da sequência dada às palavras, algumas ornadas de aspas ou escritas em itálico e, quando necessário e até exageradamente, separadas por vírgula, ponto e vírgula, dois-pontos, reticências, travessão, parêntese, exclamações e interrogações. Não era fácil e, confesso, jamais avancei além de umas poucas orações, nunca chegando ao fim do primeiro parágrafo.

Seja como for, e, se não é um dislate o que vou dizer — não sei bem o que eu fazia nos anos de 1980 —, o jornalista cujo nome e existência me escapam é o exemplo fiel do poder mediúnico da crônica, sobre a qual palavras de antanho descem tanto para assombrar gregos e leitores quanto para distrair escritores e troianos. É um luxo essa função açambarcada pelo texto miúdo, criado, segundo Antônio Cândido, para falar da vida ao rés do chão. Como cronista, cioso de meu privilégio e menosprezando os que não gozam da mesma sorte, vasculho romancistas, contistas e poetas e rio dos que não violam, por puro medo, a lápide das palavras mortas, seja num comecinho de noite, seja à meia-noite, quando, mal o sol desponta no horizonte, um jovem de oitenta anos lê, de cabeça para baixo, seu jornal sem letras que diz: “é melhor morrer do que falecer, a terra é uma bola quadrada, que gira parada em torno do nada, sem sair do lugar”.

24.4.21

Adeus, otimismo

 Nasci otimista, e assim permaneci por muito tempo. Fui o típico garoto leve; leve de espírito, fique bem claro, pois sempre cultivei minhas gordurinhas. Pensando bem, acho que eu era, de fato, bobo, herança de meu pai. O círculo pelo qual o velho Joaquim transitava, e eu o acompanhava muitas vezes, era cheio de bobos, inclusive ele, donde concluo que a máxima feminina — os homens são bobos e infantis — está correta. É o que somos.

Otimista ou bobo, me tornei sociável e cercado de turmas que, dependendo da cidade em que morava, Passos, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, se renovavam. Meu papel em todas era o de fazer o comentário engraçado, rápido, tirando gargalhada dos chegados ao riso e pequeno riso dos sisudos. Esse meu comportamento transbordou até para o ambiente de trabalho. Mais uma vez encontro similaridade com meu pai, só que o ambiente de trabalho dele era a rua, o ponto de encontro dos negociantes, o curral onde estava o gado a ser comprado ou vendido, enquanto o meu, a sala de aula, como aluno ou professor, a repartição pública, algum evento literário.

Como posso dizer otimista ou bobo? Um se confunde com o outro? Não, mas o meu jeito bobo associou-se à certeza de que o futuro seria um tempo no qual todos os problemas estariam resolvidos — novamente tangenciando o velho. Apesar disso, não me tornei cego e conheço o lado obscuro ligado à vida privada — perder amigos, por exemplo — ou a nossa injusta e violenta vida comunitária. No campo do afeto particular, graças ao otimismo, chorei as perdas e segui adiante zelando pela memória dos ausentes. No que diz respeito à convivência em sociedade, acreditei que a política amputaria a injustiça, que, não esqueçamos, é uma característica inaugural de nosso país, estava lá desde a distribuição das sesmarias, cuja sobrevivência, enquanto negócio, como nos ensinou Celso Furtado, só foi possível com a escravidão.




O bobo e otimista — penso, por conta da rima, em “O bêbado e o equilibrista”, o hino do Brasil confiante, oposto ao de agora, feito no fim da ditadura por João Bosco e Aldir Blanc, um cara que não foi meu amigo, mas cuja morte recente me dói como se houvesse sido —, o bobo e otimista, repito, aguentou as perdas e acreditou na política, ainda que, com a experiência, tenha passado a ser mais parcimonioso em acolher um novo amigo e se tornado menos ingênuo e mais racional, menos o que diz isso passa ou chegaremos lá e mais o que acredita na justiça como uma conquista.

Então o Brasil do compromisso inaugural, masculino, violento e excludente, voltou à tona. Ao longo de nossa história, não fomos capazes de enquadrar a escravidão e a ditadura como crime e dívida coletiva a ser quitada pelas gerações futuras. O pagamento exigiria reduzir as regalias da elite e abrir as portas para uma vida digna, com comida à mesa, educação e saúde, no mínimo, aos historicamente marginalizados. O dono de escravos e o ditador, nunca punidos, saíram da toca a partir de 2013, ganharam o poder em 2018 e, desde então, têm ceifado o pouco que se fez para diminuir as brutais diferenças que marcam nossa sociedade.

O Brasil atual — no qual as mortes pela Covid-19 ilustram a incompetência de um governo que empobrece os pobres e promove retrocessos nas políticas ambiental, de segurança, dos direitos individuais etc. —, me transformou no mais pessimista entre os pessimistas, o que não vê saída. Não sou mais uma boa pessoa para, numa troca de ideia com os jovens, inclusive os meus filhos, fazê-los rir, dar-lhes um pouco de leveza, essa que foi tão minha, e, mais importante, de esperança.

10.4.21

O cronista na pandemia

A crônica, depois de pronta, pede pouco espaço, um cantinho de jornal, se muito um byte de um site, não mais que isso. Sua escrita, no entanto, requer amplidão.

O cronista bate pé pelas ruas e à tarde se senta num boteco fuleiro ou chique, na companhia de gente simples ou daquela meia dúzia de cabeças delirantes que tomam lugar nos círculos mais inteligentes da paróquia. Sai da Zona Sul para subir — ou dizer que subiu — de joelhos as escadas da Penha ou entra num avião no Santos Dumont e, depois de descer em Congonhas, se mete por cantos que não conhece à procura de vestígios do Geraldo Filme. Caminha cabisbaixo pelas ruas de Porto Alegre para ver se detecta os passos do Veríssimo. Leva para Salvador um bilhete para o Caetano Veloso sabendo que o baiano ainda não terminou de estacionar o carro no Leblon. Senta-se à margem do São Francisco, em Petrolina, abre um vinho local e espera por notícias do Zé Coco do Riachão que chegarão num vapor que talvez não mais trafegue pelo rio. Comanda um pingado no Maletta e, espantado, enxerga o Murilo Rubião na careca de um sujeito que anda com um guarda-chuva preso no sovaco, um livro de bolso enfiado no cós da calça e um cigarro apagado na boca. Oferece ivermectina para uma das emas do Palácio do Alvorada e, diante da recusa amedrontada, insiste: “Aceita, boba!”

Mais, eis que de repente, impossibilitado de saracotear por aí, não sabe o que fazer. Inventa de medir a distância entre o banheiro, o quarto, a sala e a cozinha. Encontra Hemingway na barata que o cachorro que se parece com Kafka abocanha. Dança ao som dos repiques da geladeira, de onde tira uma feijoada congelada desde os tempos em que a tia Surica não sabia cozinhar. Sopra a poeira da mesinha de cabeceira e depois corre atrás daquela bolinha voante que o atrai tanto quanto as pernas das musas atraíam Vinícius no início de sua conversão a cancioneiro. Dorme de conchinha com a saudade mais filha da rua do mundo.

Dá de acordar triste.

Chora pela hora do almoço.

Fala mal da primavera.

5.4.21

Horas Turvas (do livro Contos de homem, 1995)

 


Quando criança, acreditava neles; hoje tenho certeza de que existem. Atitude ambígua, às vezes os desejo por perto, mas, se chegam, fujo, não, por favor; tenho medo. Acendo a luz, o cigarro, água no gargalo, a madrugada vem, é maior que suas horas e cresce. Então, tento-me acalmar, já vai passar. Já vai passar, sempre a mesma ilusão. Espero que com os anos eles sumam; nada, na outra noite desperto suado, a respiração sôfrega, o coração batendo atravessado. Não adianta ficar escondido no armário e deixá-los ir embora ou torcer para que meu pai entre, "Ouvi barulhos, o que é isso? Ora esqueça, foi só um susto, não chore, homem, não”. Vou à sala, no banheiro ligo o chuveiro, poderia gritar, e o temor talvez sumisse. O grito de repente acorda a vizinha e suas minissaias, ou o vizinho e seus vícios e solidários talvez toquem a campainha oferecendo sexo e pó. Prefiro o soco na parede. A mão sangra, corro, mãe, alcanço o quintal, sento na sala, subo a escada, continuo na sala, mãe, passo pela cozinha, deito no sofá, vou ao quarto, no sofá fecho os olhos, mãe. “O que foi?” Caí da mangueira, estou tão sozinho. “Bobagem, já já é dia.” Vejo as horas: 3:09 h. Tento 222 e o resto do número de um amigo. Ninguém. A televisão ligada parece cuspi-los na sala. Perco a trama e choro, choro escondido e sou pego em flagrante e denunciado. “O que ele tem? Agora deu para isso, é excesso de mimo, coisas da mãe, coisas do pai, é fase.” Dou um gole numa bebida, coloco uma música qualquer, mas a repetição continuada de seus quatro acordes e do estribilho me deixam pior, tiro o disco, quebro o disco, viro a dose, tomo outra. No relógio: 3:10. Todas as noites nesta noite. Arranco a roupa, entro no chuveiro. Relaxo. No boxe, os dedos fingem desenhos nos ladrilhos. A mão toca o corpo, alisa os pés, fica por aí, entre massagens e cócegas, depois vai às coxas e repousa no pau. Demora-se. Sobe ao peito, dança na barriga, retorna ao pau, ele apruma. Esta é para as mulheres que me fugiram pelas mãos. Penteio os cabelos, escovo os dentes. Outro gole. No relógio: 3:09. Armadilha. O rádio anuncia um dia bonito para amanhã; não acredito. Sei rir sem querer e fingir ser o que não sou. Círculo. Círculo. Redemoinho. Na farmacinha não encontro o tranquilizante. Quarto, sala, cozinha, quarto. “Sossega, menino ansioso, parece que tem o diabo!” Diabo? “Um homem como você precisa de uma mulher endiabrada.” Diabo? Não. Apago as luzes. Olho o céu. Uma estrela cai e volta na trilha do ponteiro dos relógios. Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome. Acendo o abajur. Ajeito-me e corro de encontro à parede. Atravesso-a incólume. Sou eles.

29.3.21

Janelas


Uma voz que parece sair de meus sonhos me diz: escreva sobre janelas.

Ao fugir do castigo da casa baixa onde imagino ter nascido, descobri que as janelas podem ser um caminho para a liberdade. Alguns anos depois, num sobrado no Beco dos Aflitos, olhava a rua pela janela e ouvia minha mãe dizer para eu não me debruçar. Minha mãe tinha medo, e eu, anseio de ver o mundo. Feito essas namoradeiras esculpidas em madeira, eu esperava a Elaine, no seu uniforme de secundarista, passar a caminho de sua casa. Aquela janela me deu a dimensão de que a moça, por ser uns cinco anos mais velha que eu, era inalcançável, e o correr da vida, estivessem meus cotovelos apoiados numa janela ou num balcão de botequim, completaria a lição: muitas mulheres são inalcançáveis. Em compensação, ao pular a janela da sede do diretório acadêmico, despertei o interesse de uma garota por mim — nos alcançamos.  

Quando as janelas se fecham, os passarinhos, longe de nosso olhar de gaiola, voam plenos de liberdade.

Recém-chegado ao Rio de Janeiro, do nono andar de um prédio em frente ao consulado português, em Botafogo, eu observava a fúria dos que, presos no engarrafamento, voltavam para casa após o trabalho. Naquela época, ano de 1980, os motoristas não poupavam a buzina. Alguma coisa houve de lá para cá e, hoje, buzina-se menos, assim como se fuma menos — as janelas são o paraíso dos fumantes. No caso do cigarro, a proibição de fumar em ambientes públicos e fechados, auxiliada por uma competente campanha publicitária, explica a queda no número de fumantes, mas em relação à buzina não houve nada parecido. Talvez seja uma compreensão espontânea do mal que a poluição sonora faz. Sociologias à parte, lá da janela do nono andar, e, depois de uma mudança, da equivalente do décimo segundo andar do mesmo prédio, o recém-chegado descobria que, para viver no mundo escolhido, deveria descer à rua, tomar o ônibus, sentar-se, caso desse azar, ao lado de um fumante, enfrentar o engarrafamento e ouvir as buzinas soarem bem ao lado. As janelas estimulam a reflexão e nos chamam à vida.

Para muitos, elas não são a tela de cinema por meio da qual, além da imagem e do som, se transmite o cheiro; ao contrário, apresentam-se como passagem entre um andar alto e o chão, entre a vida e a morte. Não se culpam as janelas nem as moradias tornadas verticais para comportar tanta gente em espaços exíguos. Cúmplice dos arranha-céus, o salto obedece a comandos de uma alma ferida. As janelas não julgam.

A evolução humana se deu única e exclusivamente para tornar possível a construção de janelas e teve, como consequência inesperada, a invenção, agora esquecida, da serenata. A arquitetura moderna, com seus prédios de vidro, engana-se ao imaginar que nos contentamos tão somente em ver o lá fora. Nada disso, queremos janelas.

Minha avó paterna ficou cega por conta de uma enfermidade que hoje algumas gotas diárias de colírio e uma cirurgia curariam. Para ela, a janela era fonte de brisa, mas poderia ser de vento e chuva, logo, havia sempre alguém zelando para que prazer e frescor não se transformassem em tormento. Se, como Da Vinci afirmou, “o olho é a janela da alma, o espelho do mundo”, que espécie de janela é o olho decorativo dos cegos? É este paradoxo que João Jardim e Walter Carvalho, no documentário não sem motivo chamado de “Janela da alma”, lançam ao colherem depoimento de dezenove artistas (de José Saramago a Hanna Schygulla, de Hermeto Pascoal a Agnès Varda) com problemas que vão de limitações medianas de visão à cegueira, como é o caso do fotógrafo Evgen Bavcar. Chego a um momento delicado, e, sem saber esclarecer o paradoxo, afirmo apenas que as janelas são uma metáfora de fragilidade e potência.

Morei numa pequena vila, e a janela principal, bela peça de uma construção do início do século XX, me dava aos olhos a similar do vizinho da frente. Às vezes eu e ele, olho no olho e uma ruazinha no meio, travávamos ótimas conversas. Do mesmo lugar, soltando a voz, anunciava a hora da tarefa escolar ou da refeição e tirava as crianças do pique-pega.

Falam da existência de janelas capazes de aproximar o nosso mundo de uma quinta dimensão. Não duvido disso, porém, nem em viagens induzidas por néctares vulgares, que me trouxeram aos olhos o que não havia, entrevi qualquer pedacinho do que imagino ser a mais bela visão. As janelas descortinam a quimera.

Manter as janelas abertas é princípio básico de saúde e está em evidência por conta desse maldito vírus assassino. Além de muita gente viver em moradias sem janelas, no Brasil elas foram fechadas, estão fechadas — sim, as janelas estão fechadas. Nem por isso os pássaros têm usufruído de sua máxima liberdade. Por solidariedade a nós? Não creio, devem estar estupefatos por ver a mão visível e incerimoniosa fechar as janelas, à luz do dia, sem que nós façamos nada para detê-la.

13.3.21

O jumento e a vacina

Há uns dez dias, um pequeno avião do governo da Bahia foi decolar de um aeroporto em Salvador e atropelou um jumento. Nem o animal nem o piloto se machucaram seriamente, mas o avião sofreu avarias e sua função, transportar doses da vacina contra a Covid-19 para o interior do estado, teve de ser executada por outro.

Nada mais metafórico do Brasil de hoje: o símbolo da estultícia, o pobre jumento — não sei por que razão ganhou a fama de pouco inteligente, ignorante, incapaz, mas vou aceitá-la sem crítica —, de um lado, e o da sabedoria e diligência humanas, a vacina, de outro. Aquele retarda o voo deste, ou seja, o acidente revela a encruzilhada civilizatória em que estamos. A imagem de um abismo logo adiante não serve mais ao Brasil, pois já demos o passo adicional e agora voamos em queda. Ainda que demore, pousaremos não exatamente no território da morte, mas no Tártaro, lá onde os deuses gregos supliciavam incorrigíveis como Sísifo. Repetir diariamente tarefas pesadas e inúteis é o que nos espera.

Relacionar o atual governo à irracionalidade do jumento (ou do gado) pode nos confortar, mas, ao fazê-lo, deixamos de reconhecer a inteligência dos senhores no poder. Pois eles têm inteligência, grande até; perversa, de fato. São conluiados com a morte. Se depois das grandes guerras, um ideal de civilidade e respeito às diferenças parece ter se transformado em um valor universal e desejável — ainda que pesem todas as atrocidades e guerras praticadas depois —, sempre houve aqueles que, por uma razão ou outra, continuaram a entender que governar é matar. Inventam inimigos em países vizinhos ou distantes, senão no próprio, onde passam a perseguir os que incomodam pela ancestralidade (os índios), pela potência (os negros), pela luta por independência e igualdade (as mulheres), pela subversão dos valores tradicionais (a comunidade LGBTQIA+) ou pela inconformidade (os artistas).

Quem nos comanda atualmente cultiva uma mentalidade mórbida como a descrita. A morte de quase trezentas mil pessoas (número aproximado de habitantes de Petrópolis, a nonagésima cidade, em termos de população, do Brasil, que conta com 5570 municípios), numa pandemia, não aflige os que militam na necropolítica, decerto os contenta. Queimar florestas é um espetáculo bonito. Dar as costas para a cultura é um ato de preservação de valores. Não faltam exemplos de como se compadecem da destruição.

Tenho um amigo que é exemplo dos que acreditam piamente no diálogo como forma de superar diferenças. Coerente com isso, o diálogo tem sido seu instrumento de ação profissional e política, papel que, aliás, desempenha muito bem. Por isso, fiquei surpreso com uma de suas publicações no Twitter. Diante da ruína civilizatória pela qual passamos, ele disse ter compreendido — não como um estudioso de um período passado, mas como alguém que experimenta, adulto e crítico, a dureza e periculosidade de seus dias — a opção de parte da juventude dos anos de 1960 pela luta armada. Meu amigo em nenhum momento defende que peguemos em arma, mas, com a violência e o autoritarismo inconsequente à solta, ele conclui, a escolha pelo combate no campo do inimigo (a violência) não é destituída de racionalidade. Eu acrescentaria: é exatamente isso que o novo poder quer de nós, portanto, tratemos de decepcioná-lo. Mais Gandhis, menos — como são muitos os que ocupam o espaço oposto ao de um pacifista, não cito nomes, preferindo a imagem talvez distorcida de outro animal — abutres.


Imagem captada na Internet/sem crédito


27.2.21

Puxando assunto

Tendo um minutinho, perca-o comigo, porque estou perdido há mais de hora. Perder-se no tempo significa estar com o pensamento ciciando sem cantar e beliscar o braço da irrealidade só para ver se não estou morto. Então, se você se dispõe a perder um minutinho, pode ser que eu não desperdice os meus, que eu tome prumo, consulte o mapa do tempo e encontre uma praça para boa charla, a partir da qual o improdutivo de minhas especulações aporte num diálogo no mínimo agradável.



Como o diálogo se dará assim, eu escrevo, você lê, é imperioso que eu o inicie. Não é difícil concluir que o assunto virá justamente da pororoca de meus devaneios, mas não importa como começam as prosas, importa que evoluam. Depois de um longo tempo distantes uns dos outros, Nelson, Horácio e eu nos encontramos no Bar Luiz, e o princípio da conversa veio de uma proposta feita à queima roupa por Horácio. Que tal se assaltássemos um banco? Num mundo conectado, ele dizia, nada mais fácil. Temos sofrido assaltos virtuais constantes — o roubo de nossos dados, os golpes pelo zap —, assim, na atualidade, assaltar um banco parece fácil, pode-se fazer de casa, mas, naquela época, quinze anos atrás, o mundo ainda ensaiava a plena conexão. Seríamos pioneiros e acabaríamos de vez com os assaltantes de bancos, que são, entre os bandidos, não sei se vocês sabem, os mais respeitados. Pelo menos eram, quando, para assaltar um banco, bastavam revólver e coragem. Hoje assaltam com o uso de drones, bombas e metralhadoras, é um espetáculo que talvez não perdure. O que virá ou já veio é o assalto limpo, à distância.

Horácio não queria assaltar um banco, queria ligar a máquina do papo furado ali entre chopes e milanesa com salada de batata. Nelson e eu mordemos a isca, e a conversa se estendeu. Sobre assalto? Não, falamos sobre o mundo virtual, sobre mulheres, falta de grana, literatura, descalabros políticos, tudo bem temperado no humor, pois meus dois amigos são desses. Horácio era.

Se a coisa começa sempre de qualquer jeito, proponho falar como o envelhecimento, antes de se instalar no corpo, se insinua nos sentidos. No meu caso, por exemplo, fiquei, já na passagem dos meus vinte para trinta anos, menos propenso a acompanhar o que de novo aparecia na música. A velhice precoce ficou restrita à música, pois, para a literatura, continuei e continuo aberto aos lançamentos. Talvez seja uma coisa minha, pode ser. Lembro-me de um lugar comum segundo o qual devemos reservar a velhice para a releitura dos clássicos, sem nos arriscar com os contemporâneos. Se é verdade, nesse diapasão ainda não sou velho. No campo da música, envelheci conquanto permanecesse jovem. O pop, com sua bateria tatibitate entremeando a massa sonora amorfa de instrumentos indistinguíveis, me deixou enfezado ainda nos anos de 1980. Eu pensei, nunca mais ouço essas músicas, no entanto, há três ou quatro anos, viajava de Belo Horizonte para Passos e, no pedágio perto de Itaúna, prestei atenção ao som que tocava. Que lindo! O que era? Michael Jackson.

Estou tentando dizer que eu me fechei ao pop que surgiu no rastro do próprio Michael Jackson. Acho que depois que o pop que me deu nos nervos envelheceu, eu, impiedosa e musicalmente velho, o acolhi. É uma tese e requer tempo para que eu a explique. Exige um chope. Ou dois. Ou três.



Aproveito esse papo de estranhamento, ter envelhecido quando eu era novo, aceitar o novo quando ele envelheceu, e mudo de assunto. — (Estivesse no bar, o número de chopes na mesa possibilitaria empilhar os porta-copos de papelão e jogá-los para cima para tentar agarrá-los sem que nenhum se desprendesse da pilha e antes que todos caíssem no chão.) — Não gosto de armas, se dei dois ou três tiros com espingarda de chumbo foi muito, e foi frustrante. Não vi graça alguma. Nunca quis matar passarinhos, nem a tiros nem a estilingadas, no máximo quis aprisioná-los, e, para tal, armei alçapão e esperei, esperei. Juro, nunca capturei nenhum. Os que tive ganhei de presente, comprei ou barganhei — barganha na qual invariavelmente levava manta. Dos maus negócios não me arrependo, de ter aprisionado passarinhos, sim.

Armas espalhadas entre a população promovem a violência, basta ler as pesquisas para se certificar disso. Mas o que temos no catálogo do poder? Uma bandeja de armas no lugar de uma de alimentos, isso que anda custando o olho da cara num momento em que muita gente retrocedeu da pobreza para a miséria; uma saraivada de tiros no lugar de um pico de vacina. A infelicidade tomou o palco e faz o show. Na plateia, há os que deliram e rugem como se fossem felizes.

Chego àquele instante em que, se estivesse no bar e cansado de falar, beberia um gole longo, olharia para alguma coisa interessante que se passasse na rua, a beleza de uma mulher, a ternura de uma criança que, em vez de andar, saltitasse sem largar a mão de seu acompanhante adulto, o abandono da lata vazia de cerveja a ser amassada pela roda de um carro velho, a imobilidade do poste prestes a ser aceso; olharia para a vida, enfim, tão besta e maravilhosa.

Chego àquele instante em que sou todo ouvidos.

25.2.21

Urgência no céu

 Ao olhar para a Terra, como faz todas as manhãs, Deus sentiu um baque. Só agora?, pensou o arcanjo que ordena os pensamentos de Deus. Pensou, mas não ousou falar, afinal, um ano na Terra é um segundo no relógio divino, não deveria ser tão inflexível com Deus, logo com Ele. Mas Deus, e isso é que importa, sentiu o baque ao ver que um corpo invisível, tanto quanto Ele, mas sem a Sua significância, pregava uma derrota fragorosa em Seus filhos. Dessa vez, Suas crianças não promoviam a guerra para matarem umas às outros, embora as guerras persistissem, elas simplesmente caíam feridas ou mortas pelo tal vírus. Não só por ele, concluiu Deus, ao fixar melhor Seus óculos no rosto que nunca se cansa. Suas crianças lidavam mal com o bichinho, não teriam aprendido nada com as situações similares enfrentadas ao longo da História. Eram destituídos de inteligência? Deus sabia que não. Suas crianças guerreavam até quando não havia motivo, motivo lá deles, que Deus nunca compreendeu ao certo.

Deus foi olhando caso a caso. A Nova Zelândia e outros poucos lidaram bem com tudo desde o início, ali estava uma gente que aprendera alguma coisa. Israel cuidava bem dos seus, aplicando-lhes rapidamente a vacina, embora maltratasse seus vizinhos palestinos, dificultando-lhes o acesso ao elixir. Uma gota de alegria e outra de tristeza. A Europa ia aos trancos e barrancos, porém ricos como eram, dariam um jeito em tudo. O mesmo aconteceria nos EUA, no Canadá. A África é a lágrima de Deus, e ele preferiu olhar mais tarde e com cuidado aquele caso. Talvez tivesse de intervir, sabia-se lá se segurando a mão dos poderosos dos países ricos, fazendo-os transferir recursos e/ou vacinas, ou mandando uma tormenta onde abundasse a indiferença em relação às crianças que deram início à vida na Terra.

Quando bateu os olhos no Brasil, Deus caiu sentado. Os arcanjos deram-lhe de beber, molharam Seu rosto, afrouxaram Suas vestes. Seu arcanjo confessor pediu aos outros que saíssem. Deus nem esperou que o arcanjo se aproximasse depois de fechar a porta e foi logo dizendo: muitos mortos, uma sandice atrás da outra, políticos interessados em si mesmos e não em quem representam, a pobreza crescendo como flor no Éden, o amor sendo ceifado como praga. O confessor nunca havia visto Deus assim, quer dizer, já, mas havia, dessa vez, uma entrega, uma desistência. Deus retomou a voz. Disse ao arcanjo que precisaria pensar bem em como agiria, e ele agiria. (O arcanjo suspirou, ah, o velho Deus!) Uma primeira atitude seria talvez cosmética, não se importava, era necessária. Que lhe chamassem Aurélio e Houaiss.

— Senhores, o que é Brasil?

— Um país, Pai — adiantou-se Houaiss.

— Disso eu sei, embora no momento preferia não saber. Mas a palavra, o que é?

— Substantivo masculino, hoje nome do país, mas foi primeiro a árvore que ali abundava, o Pau-brasil. Por extensão, e ainda como substantivo, a cor dessa árvore, um avermelhado, uma tintura fabricada com sua madeira — explicou-lhe Aurélio.

— Um substantivo. Pois os senhores, sentem-se ali e tratem de transformá-lo em um adjetivo.

— Um adjetivo, Pai?

— Sim, Houaiss. Um adjetivo que ande ao lado dos piores, daqueles que existem para marcar os que andam longe de mim.

Os dois dicionaristas, um pouco acabrunhados, sentindo-se traidores da pátria, não tinham o que fazer, uma ordem de Deus não se questiona, cumpre-se. Além do mais, bem, além do mais, eles olhavam para o país e viam como tudo encaminhava para a destruição. Dia triste no infinito.

19.2.21

Movimentos (publicado em Contos de homem, de 1995)

Número Um

Mandararn? Eu fui. Está aqui a agulha perdida no palheiro.

 

Número Dois

Ir até lá. Eu queria, e pronto. Juntei as forças, abri as portas. Não brindei despedidas ou apertei mãos, prometendo espaço dentro de mim.

A estrada era um rascunho de deserto. Mas não sofri o sol nem tive sede. Deixei a poeira levantar-se e não virei o rosto para ter certeza de que ficava para trás o que ficava para trás.

Nenhum problema maior. Um ou outro carro na contramão, uma friagem na madrugada. E só. Cheguei.

Encontrei aquilo que eu queria. Comprei o que pude; o resto roubei. Montei meu reino. Construí os castelos, os porões, as estrebarias para os corcéis de guerra, raptei a virgem. Tudo pronto. Ordenei que descessem a ponte. E, estranho, tive medo de entrar.

 

Número Três

Na comunhão do pó, forjo alegria. A lâmina risca os trilhos, o corpo recebe a dádiva. Eu danço, ele dança, nós dançamos. Um carnaval simulado. O sorriso nos lábios é anúncio de pasta de dente. O aperto de mão, negócio fechado. Tenho o controle do leme, mas a sensação de que no barco sou caroneiro.

Amanhã, o último confete estará colado ao peito, ainda. Uma dor incorruptível. Não me devolverão sequer um níquel. Abro janelas, cadê luz? Remexo minhas gavetas, e é um lenço de Soraia, um cinto de Solange. Mas elas, elas mesmas, não estão aqui. Carregaram a lembrança do meu peso, regaram-se com meu jorro, na melhor das hipóteses.

Com que pernas vim dar nesse porto? Eu era moço, viril, e isto bastava. Mas se futuco mais, esgarçando o tecido do colchão, riscando a tinta da parede, abro caminhos. Sigo pelas frestas e molas, nos vazios possíveis. Pronto, tenho ao alcance das mãos. Pego. Aperto. Ai!

Uma minhoca veio viver na minha cabeça. Depois, uma outra, e outra, e outra. Na louça dos meus dentes, cáries. Nas pessoas de ouro, carne. Meus sonhos, imagens desfocadas na lente que é puro mofo.

 

Número quatro

Não restaram nem os ratos; estou só. Parece, assim mesmo, que é o início da festa. A madeira do chão range, pisoteada por passos que já fugiram de mim. No tanque, a roupa úmida cria bolores, meu retrato com cheiro. O som da gota que cai ininterruptamente convida para mais uma dança. Aceito. Apago as luzes, e me solto. Vou-me desfazendo, novelo. Meus fios não viram nada, casaco, colete ou luvas. A última convidada me recolhe, com vassoura e pá. Lança-me no Azul.

 

Número Cinco

Eu chovo.

13.2.21

Veja bem essa gente

 

Para o Matheusinho



Cansado do trabalho usual, o japonês Shoji Morimoto inventou de vender sua maior habilidade: "comer, beber (com responsabilidade, claro) e dar respostas simples". Ele, a uma diária de uns quinhentos mangos, livre das despesas de locomoção e alimentação, atende àqueles que querem companhia. Shoji fica lá quieto, comendo e bebendo, e, a pedido e não passando disso, pode dar um adeusinho numa estação ferroviária. Consta que tem faturado o suficiente para pagar as despesas de casa. Se pudesse, eu o contrataria para ouvir suas respostas simples, coisa rara neste mundo em que sobram respostas simplórias.

Há alguns anos, havia lido sobre serviço similar, oferecido no mesmo Japão. Na reportagem, enumeravam algumas demandas: alguém para se passar pelo pai num jantar com a família da namorada; homem ou mulher para chorar um morto (nossas velhas carpideiras); uma pessoa para, ao chegar a um bar, abordar o contratante assim meio por acaso, como se fosse um desgarrado à procura de um amigo. A solidão também vai ao mercado.

Alguns amigos de São Paulo me contaram que na firma na qual trabalhavam havia um sujeito bom de conversa, verdadeiro sedutor, característica que dava a ele certa desenvoltura no negócio. Descobriu-se com o tempo que era um mitômano. No dia de seu aniversário, ele contratava um serviço para espalhar, pela rua da empresa, faixas enaltecendo seu nome e deixar sobre a sua mesa de trabalho uma magnífica cesta recheada de guloseimas, além de balões e fitas enfeitando os quatro cantos. Havia até bilhete de quem enviava os mimos, alguém fictício. O espantoso para os meus amigos paulistanos é que a estranha figura casou-se com uma juíza. Se era sedutor, por que não haveria de se casar com juíza ou com quem quer seja? Difícil é manter o casamento, mas ninguém nunca soube me dizer se foi o caso, pois o colega pediu transferência, foi para o interior e não deixou nem endereço nem telefone.

Quando, no início dos anos 1980, eu e Carlos fomos à Bolívia, dentre as várias experiências interessantes, uma me marcou de modo especial. Não sei se estávamos em Totora, perto de Cochabamba, ou em Potosí. É provável que estivéssemos na primeira, pois ali convivíamos com as pessoas do local e éramos convidados para visitar suas casas. Numa cidade ou noutra, era um almoço, e eu, depois de me servir, não havendo mesa e cadeira suficientes, fui para um canto do cômodo e me agachei. Comecei a comer e em determinado momento percebi que todos me olhavam. Meu espanhol era (e é) sofrível, então recorri à ajuda de Carlos, chileno, e soube que todos estavam encantados com a minha posição. Não era comum uma pessoa ou um homem de cócoras, ou de cócoras comendo, ou um não boliviano acomodar-se daquele jeito na hora da refeição. Um montanhês de Minas não é um andino.

Na minha cidade, havia os irmãos Máximo e Mínimo. O Máximo se chamava Máximo, e Mínimo talvez fosse apelido. O primeiro, expansivo e mentiroso, conseguia, mal chegasse a qualquer lugar, ficar rodeado de gente interessada em sua conversa interminável. O segundo entrava mudo e saía calado, e entre uma coisa e outra, sentava-se na roda que tinha seu irmão como centro e o ouvia, atentamente o ouvia. Numa síntese rasteira, o Máximo era o máximo, e mínimo era o Mínimo. Um dia, eles sumiram da minha vida, e, desconhecendo o paradeiro e o destino dos dois, só me resta especular. Foram para Serra da Saudade, lá envelheceram e se esqueceram do passado. O Mínimo virou barbeiro e o Máximo, jogador de truco a dinheiro. Pode ser que hoje o Mínimo fale pelos cotovelos e o Máximo chore, inconformado com a velhice. Talvez sejam solitários e tristes, ou, ao contrário, são eles que garantem a alegria da menor — e de nome mais bonito — cidade do Brasil.

Em outubro de 1991, dois meses antes de minha filha nascer, por conta do trabalho, fui a Helsinque. Estava sozinho e gostava de caminhar à toa depois do compromisso. Meu olhar estrangeiro se espantava, por exemplo, com o fato de ninguém atravessar a avenida sem carros quando o sinal estava vermelho para os pedestres. Uma bobagem de espanto, principalmente diante de um outro que eu teria numa das andanças. Ao chegar a uma praça, como se por encanto, o sol apareceu, atravessou a copa das árvores e elevou a temperatura de dez graus para doze, não mais que isso. Uma mulher, que ia à minha frente, sentou-se num dos bancos, tirou a blusa, o sutiã e deu-se ao sol. O sol não ficou por muito tempo, e assim que ele se foi, a mulher se vestiu e tomou seu rumo.

Na república em que me hospedava em Freiburg, na Alemanha, o chuveiro ficava na cozinha e o vaso sanitário, na área comum do prédio. Quando os moradores iam ao vaso, andavam nus pelo prédio. Quando queriam tomar banho, despiam-se na cozinha, tivesse ou não outras pessoas por lá — e, em torno da mesa, sempre havia amigos e amigas. Eu tomava banho no descuido do sono de todos.

Esta crônica começou quando Matheusinho, ao ser questionado sobre por que havia feito uma coisa e não outra, respondeu assim: “Não tive tempo de fazer as duas ao mesmo tempo”. A frase pouco comum disparou meu circuito de associações e me levou às histórias recém-contadas. Sabe, gente, o cronista é, antes de tudo, um carro que só pega no tranco e, uma vez em funcionamento, tergiversa pelas ruas.

30.1.21

Um encontro com Stein e Lebowitz

Li “A autobiografia de todo mundo” (Everybody´s Autobiography), de Gertrude Stein, numa edição da CosacNaify. É um diário? Um ensaio? Uma crônica de viagem? É tudo isso. Se eu fosse Funes, o memorioso de Borges, decoraria as mais de trezentas páginas da autobiografia que, sendo de todo mundo, é minha e de quem passe os olhos por ela. Escrito com enorme liberdade sintática — me pareceu muito bem transcriada por Júlio Castañon Guimarães —, o livro conta o cotidiano dessa escritora americana que vivia em Paris, dando ênfase ao tempo em que ela, depois de estar trinta anos ausente, volta aos Estados Unidos para uma série de conferências. Destas não ficamos sabendo nada ou quase nada, mas das viagens de trem, de carro ou de avião (era a primeira vez que ela voava), dos hotéis, da comida, dos encontros, do encantamento com a paisagem, sim.

Stein confronta os estilos de vida americano e europeu, fala de artes plásticas, enumera personagens famosos que circulam à sua volta, Picasso, Chaplin, outros tantos. O permanente trânsito entre dentro e fora, entre pensar e viver, talvez seja o ponto central da obra. Tudo que Stein faz qualquer um de nós faria; e tudo que conta nós poderíamos contar. A diferença é que ela escreve, e escreve como se pensa, não como se fala ou até mesmo como se escreve. O livro é, enfim, uma reflexão sobre a escrita que quer dar conta do pensamento em sua amplitude, circularidade e imperfeição, ou seja, quando nasce.  

Registro uma passagem. No vaivém pelos Estados Unidos, Stein passa por Virgínia, um lugar muito vazio. Alguém comenta que o pai, vivendo naquele estado, acorda, senta-se em numa cadeira e observa os pinheiros crescerem. Isso é tudo e é assim todos os dias. Stein acha isso muito interessante — interessante é a palavra mais usada por ela.

Estando, ainda em Virgínia, com pessoas mais jovens, a escritora nota como são conservadoras e reflete sobre uma delas: “Ela também era virginiana quer dizer acreditava no que acreditavam quando os virginianos eram virginianos. Acreditavam que viam a árvore quando a árvore fora substituída por um edifício, ver a árvore poderia ser interessante se fosse possível tornar isso interessante mas para essa geração que ainda vê a árvore quando foi substituída por um edifício e como esse edifício não é feito de madeira pode não ser interessante.” Não me lembro de ter visto o entrechoque entre conservar e progredir — tomo conservar e progredir tanto no sentido econômico quanto no ideológico e afetivo, que a educação familiar procura perpetuar — escrito de forma tão original.

Vi “Faz de Conta que NY é uma Cidade” (Pretend It's a City), documentário de Scorsese sobre Fran Lebowitz. Ela é escritora? Sim, de duas ou três coletâneas de crônicas escritas na juventude e de um romance inédito que, segundo ela, vem sendo trabalhado. Apesar da produção escassa, é figura importante no ambiente cultural e político de Nova York, cidade à qual chegou, no final dos anos de 1960, com dezenove anos. Nos sete episódios disponíveis na Netflix, conhece-se uma mulher de humor refinado, sarcástica, bibliófila — mantém em seu apartamento dez mil livros —, dona de uma visão bem peculiar sobre a contemporaneidade.

Ela se irrita por ser atropelada por jovens e não jovens que, concentrados em seus celulares, andam distraídos pela rua — e isso não é interessante, diria Stein. Não é só desdém, Lebowitz dispensa computadores, celulares, micro-ondas; sequer máquina de datilografar ela usa. Dei um exemplo ao acaso, o mais trivial; Lebowitz vai além. O escritor César Cardoso leva em seu canal no Youtube o espetacular “Poesia prato do dia / Poesia para todo dia”, projeto no qual lê diariamente poesia, e dedicou um programa a Lebowitz, que não escreve poesia. De lá trago tiradas afiadas dessa francoatiradora. “A vida é algo que acontece quando você não consegue dormir.” “Pergunte ao seu filho o que ele quer comer apenas se ele for pagar.” Ah, sim, Fran aceitaria ser prefeita de Nova York desde que pudesse trabalhar depois das 19 horas. A cidade manteria um administrador diurno e deixaria a noite com ela.

Esteja certo ou não, Stein ecoa em Lebowitz. Para além da sagacidade, ambas refletem sobre o tempo, ainda que de forma distinta. Por estar entre as duas guerras e na ressaca da Grande Depressão, Stein parece obrigada a acreditar no futuro; Lebowitz, nascida depois da Segunda Guerra, mostra-se cética em relação ao que sucederá a um presente cheio de quinquilharias eletrônicas, com pouca interação humana e propenso a acabar com as livrarias de rua e com a própria leitura.

Stein antes, Lebowitz depois — quando a primeira morreu, a segunda ainda não havia nascido — têm em comum o fato de se ocuparem com qualquer assunto sem o menor pudor. Se aqui e ali demonstram ignorância, preconceito, nunca deixam de olhar o mundo com curiosidade e absoluta certeza de que elas podem e são fundamentais para compreendê-lo.

Stein se considerava gênio, não duvido de que Lebowitz também. Sendo ou não, o que posso dizer é que, flambadas no ego, as duas são deliciosamente instigantes.

18.1.21

Leitores reclamam de falta de limpeza no Terminal Rodoviário

Joca precisava chegar a Guaxupé no final do dia. Haviam dito para ele que não existia viagem direta, que deveria tomar um ônibus até Ribeirão Preto ou Alfenas e de lá ir para Guaxupé. Uma viagem que de carro levaria uma hora e meia, por aí, de ônibus se transformaria sabe-se lá em quanto tempo. Oito horas? Joca tocou na mochila para ter certeza de que o livro estava lá. O livro.
Renatinho, por sua vez, iria a Belo Horizonte. Comprara passagem para o meio-dia, seu compromisso era na próxima manhã. Viajaria com tempo. De todo modo, precavido, chegou à rodoviária bem cedo, com duas horas de antecedência. Renatinho tocou na mochila para ter certeza de que o livro estava lá. O livro.
O terminal rodoviário não é muito grande, e em um dia de movimento inesperado, Joca e Renatinho acabaram se sentando no mesmo banco.
Joca tirou o livro da mochila.
Renatinho tirou o livro da mochila.
O livro de Joca era de um autor europeu.
O livro de Renatinho era de uma autora nacional.
Procurando ser discreto, Joca esticou os olhos para ler o título do livro de Renatinho.
Como Renatinho fazia o mesmo, os olhares se encontraram. Ficaram um pouco encabulados. Um e outro ficaram bem encabulados.
Joca lia um livro de Ian McEwan, Na Praia.
Renatinho lia um livro de Raquel de Queiroz, O Quinze.
Joca não conseguiu ver que livro era que Renatinho lia.
Renatinho não conseguiu ver que livro era que Joca lia.
No entanto, o encontro do olhar de um com o outro não deixava margem para que não se dissesse alguma coisa. Era inevitável, era obrigatório até.
Foi Joca que se adiantou. Ele disse:
— Como está sujo o terminal. E Renatinho quase repetiu a frase:
— Sim, como tudo está tão sujo.
Joca levantou-se, foi ao banheiro. Renatinho levantou-se, foi à lanchonete.
Depois, sentaram-se em bancos diferentes e foram ler seus livros.

Joca não chegou a tempo a Guaxupé. Renatinho chegou com tempo de sobra a Belo Horizonte, mas, ao sair para o compromisso, desistiu dele.

Três meninos de Belfort Roxo

Acordei em mais um dia quente na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A cidade é um caos. O estado é um caos. O país, se não é, está um caos.

Reagi cantarolando “Fantasia”, de Chico Buarque. A música convida para uma pequena utopia ao dizer: “Se de repente / a gente distraísse / o ferro do suplício / ao som de uma canção”. Estribilha: “canta, canta uma esperança / canta, canta uma alegria / canta mais”. E completa: “Preparando a tinta / enfeitando a praça / canta, canta, canta, canta / canta a canção de glória / canta a santa melodia.” Ouvi muitas vezes, repetindo a dose como se fosse uma seringa de heroína, uma talagada de cachaça, um cigarro, de maconha ou não, tragado no limite dos pulmões.

Não que eu tivesse esperança de que o calor diminuísse, mas, como o viciado, gostaria de, por algum instante, me ver livre dessa sensação de que o caos irá nos cozinhar, nos estorricar, nos tornar inviáveis. Nós, os seres humanos. A nossa vidinha passageira.

Fora a ira que me acomete aqui e ali, o que sinto é equilibrado e político. O calor e o caos irão passar, o primeiro temporiamente, pelo menos por enquanto, antes da efetiva catástrofe ambiental; o segundo para sempre, custe o que custar — e custará muito.

Para os familiares, em particular as mães e avós de Lucas Matheus, de oito anos, Alexandre da Silva, de dez, e Fernando Henrique, de onze, — três meninos que saíram, no dia 27 de dezembro, para brincar na quadra perto de onde vivem em Belfort Roxo, no Castelar, e estão desaparecidos até hoje —, pode ser que o calor e o caos não passem. Na busca das crianças, três homens foram mortos pela polícia; um, levado pelas famílias dos garotos à delegacia, foi acusado de ser o responsável, o que não se confirmou; um ônibus foi incendiado; a avó dos primos Lucas e Alexandre, depois de correr atrás de uma pista do paradeiro deles, se envolveu em um acidente automobilístico de consequências leves. O caos, além do calor.

Não se descarta que essas famílias venham a vestir o luto absoluto, que já cobre inúmeras moradoras das áreas mais desassistidas, aquelas em que o tráfico e a milícia acham por bem coabitar, aquelas em que a polícia não vê problema algum em entrar atirando e matando inocentes em prol do combate ao crime.

A estatística da violência — e outras igualmente indignas — engorda no Brasil. Por aqui, o ferro do suplício não se distrai com nenhuma canção.


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Se quiser, ouça a música do Chico aqui.

4.1.21

2001: Uma odara no terraço

Caetano Veloso terminou sua segunda e última live de 2020 desejando ao público um excelente 2001.

Caetano está velho? Velho, com certeza; gagá, nem um pouco. Um homem de 78 anos tropeça física e mentalmente, ora essa! O velho cantou quase trinta canções sem titubear. Sua voz é ainda cristalina, e ele dá conta de um repertório de um compositor pleno e compromissado com o tempo em que está, e quem está por tanto tempo no tempo em que está, sem se tornar um nostálgico empedernido, é, como o tempo, atemporal. Caetano é.

Seu violão não é nenhuma maravilha, soa bonitinho e, em Terra — a música, que está no coração do documentário “Narciso em férias” (Renato Terra e Ricardo Calil), amarra as pontas do que o baiano tem falado recentemente — esteve abaixo de todo o resto. Caetano sempre disse que não é músico; músico é o Gil. O irmão de Bethânia é, segundo ele mesmo, um amador, o que não o impede de ter feito melodias extraordinárias (não falo do letrista, pois o assunto é o músico), de as ter cantado e tocado extraordinariamente. Caetano é um gênio.

Gênio controverso, que numa hora diz odiar o socialismo e noutra diz estar muito interessado em teóricos marxistas atuais. É um intelectual talvez igualmente amador, que transita pela avenida de suas paixões e, indiferente a nosso julgamento sobre ele e suas ideias, trabalha as inquietudes que o movem. Ser amador, no caso do pai dos três meninos, areja todo o seu trabalho, na música, na escrita, no cinema.

Por que esse velho, “rei dos animais” que deixou “a vida e a morte pra trás”, nos desejou um ano bom por nós já vivido e enterrado e que hoje não passa de uma mancha de alegria e tristeza na memória?

Em 2001, o país dava pinta de que assinara um documento de compromisso duradouro com a democracia e deixaria apenas no registro histórico as exceções autoritárias. A partir de então, traria à cena o enfrentamento das questões realmente prementes, entre elas e talvez as mais importantes, a disparidade e a concentração de renda. O PSDB, na época um partido de centro-direita, civilizado e com boas cabeças, conseguiu deter a inflação, esse desacerto da economia que atinge com mais força os pobres — para os economistas, a inflação é um imposto regressivo, portanto pesa mais sobre os pobres do que sobre os ricos. O PT — que, para ocupar o poder em seguida, teve de caminhar da esquerda para o centro —, apoiado também em boas cabeças, radicalizaria as políticas públicas visando a justamente reduzir as desigualdades. Enfim, os extremos eram ocupados por dois partidos próximos do centro (e, por conta do pragmatismo político, também do Centrão) e nem tão distantes um do outro. Esse “arranjo” da democracia durou pouco, e o impeachment de Dilma Rousseff, estimulado por um PSDB cada vez mais à direita, foi seu velório e cremação. Das cinzas a democracia não tem renascido.

Iniciado numa sexta-feira, 2001, com suas trezentas e cinquenta e cinco manhãs e noites, foi um ano de sufoco mundial, parecido com o atual, embora não estivéssemos acossados por um vírus, mas pelas mãos desumanas da cobiça — foi o ano do ataque às Torres Gêmeas e da eleição do little Bush, presidente que deu voz e arma para a diplomacia da vingança. Mas também, como todo e qualquer ano, 2001 foi cheio de acontecimentos da vida: nele morreram Jorge Amado, Cássia Eller e o titânico Marcelo Fromer; prenderam, na Colômbia, Fernandinho Beira-Mar; o Brasil entrou no mundo do racionamento de energia, um sinal do desequilíbrio ecológico. 

Em 1968, jogando-nos para a frente, Kubrick — o cineasta apontado por alguns como responsável pelo truque cinematográfico que nos faz acreditar na chegada do homem à lua — fez “2001 - uma odisseia no espaço”. No filme, em 2001, buscar-se-ia o monolito primordial, a pedra filosofal, navegando no espaço da mesma forma como os gregos navegavam no mar. Caetano, jogando-nos para trás, quer menos, quer, ao refazer o caminho dos últimos vinte anos, evitar os erros cometidos e nos dar um 2021 diferente deste que nos avizinha. Como o espaço é grande demais, Caetano talvez pense que no redivivo 2001 se possa ficar odara no terraço. E que o terraço entusiasme a praça; a praça, a cidade; a cidade, o estado; o estado, o país. Enfim, depois de recuar até 2001, 2021, um ano também com início numa sexta-feira, seria o momento de “ficar tudo joia rara, qualquer coisa que se sonhara”. 

Bem que merecíamos.


PS: Ouça Odara.