3.10.14

A conjuntura do ponto de vista de um desencantado ainda esperançoso

O mendigo, dono de uma nova carência, bate à porta da casa e pede um copo d’água, “da pia mesmo, moça”. A casa – toca contra o frio, despensa com o básico e o supérfluo, colo de alvenaria – responde surpresa: “Água? Logo água?”
Aviões não caem para dentro do céu, puxados pela força do sol, pelo abismo de outros universos. Caem sempre no chão e deixam à mostra seu CNPJ forjado, seu pagamento na moeda não corrente dos favores. E espalha mortos, que a curiosidade retrata e compartilha nas redes sociais.
O jogo sujo é sujo e é jogo não é de hoje. Todavia os meios propiciam que o jogo sujo, na versão século XXI, seja feito em doses alopáticas, nas nossas fuças, sem que possamos dar-lhe as costas. O jogo sujo é o deus-onipresente de todos os matizes.
No Brasil sem fome há um monte de famintos. Assim como no Brasil menos desigual há desigualdades revoltantes.

De macaco não pode. De veado parece que pode. Um coro único vaiar aquele que foi chamado de macaco e cobrou respeito pode. Pode tudo nesse cantinho do mundo no qual floresce uma alma branca e gentil.
Depois de toda a engenharia, fazendo uso de todas as ferramentas e, claro, valendo-se também da sabedoria mais excelsa, o resultado está aí: o aeroporto deve ser (deve?) construído ali, ao lado da fazenda da família do mandatário.
Para que verdade se existe hipocrisia e marketing?
Morre-se mais pelo mundo em torno da droga do que pela droga em si.
Morre-se mais pela clandestinidade do aborto do que pelo aborto em si.
Errar é humano? Onde, amigo? Errar é inadmissível. Ou por outra, só o erro de quem apontou o seu erro é admissível. Ele ou ela são humanos, você não.
Senhor, diga-me com quem andas e direi quem és. Ando com safardanas e escroques. Portanto safardana e escroque tu és. Sendo assim, como a senhora anda com uns um-sete-uns e cinco dedos, um-sete-um e cinco dedos a senhora é. Calma lá, senhor, no meu caso é apenas pragmatismo visando ao bem.
A democracia, com todos os seus tropeços, nos trará um futuro menos sombrio. Espero. Acho que posso esperar.

30.9.14

Qual é, solidão - Informações

1) O livro chega a Belo Horizonte no dia 18/10, no Letras e Ponto (Rua Aimorés, 388, sala 501, Funcionários - telefone: 31-3273-2374).

2) No momento, é possível comprar o livro diretamente no site da Editora Oito e Meio, basta acessá-lo por esse caminho.

3) O lançamento de "Qual é, solidão?", no Rio de Janeiro, em um filmete muito bacana feito por Ricardo Birbeire Seffrin Ferreira. Basta clicar aqui.






15.9.14

Notícias do novo livro

"Qual é, solidão?", meu novo livro de contos, que sai pela Editora Oito e Meio, terá seu primeiro lançamento, no Rio de Janeiro, no dia 25/09/2014.

A reunião será na sede da empresa - das 19h às 21h30m, Travessa dos Tamoios, 32C, Flamengo. Essa rua é paralela à Paissandu, e a editora fica quase na esquina da Marquês de Abrantes. Um mapa pode ser consultado aqui.

Pessoal que trabalhou no livro:

Editora responsável: Flávia Iriarte
Capa: Paula Nestorov
Revisão: Marilena Moraes
              Teresa Cristina Pessoa Brandão
              Beatriz Werneck
Foto do autor: Beth Brandão. Tratamento da foto: Enderleila Conte
Orelha do livro: Miriam Mambrini



Além dessas pessoas, contamos com a colaboração fundamental de Tatiana Kely.


27.6.14

O Sol

Tenho cinquenta e dois anos e seis meses e uma única esposa e três filhos e alguns porres que me tornaram inconveniente e outros alegre e muitos cujos efeitos ainda ecoam na minha singularidade e cabelos brancos em todos os cantos, menos nas sobrancelhas, e alguns livros escritos e outros lidos e incontáveis nem lidos nem escritos. Com essa idade toda, digo “ontem” a tudo relacionado ao passado. Não é um ontem propriamente poético; é que o tempo, ao nos marcar com sua passagem, reduz-se a uma dimensão imprecisa. Ontem pode ser ontem, anteontem ou vinte, trinta anos atrás.
Portanto foi ontem que, morando em Passos, ouvi os versos de Caetano Veloso: “O sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça”. Na época, eu não sabia ter havido (quiçá ainda houvesse) um jornal, editado por poucos meses a partir de setembro de 1967, chamado “O Sol”. Talvez Caetano fale dele na sua “Alegria, alegria”, mas, no documentário “O Sol – caminhando contra o vento”, de Tetê Moraes e Martha Alencar, ele mesmo duvida disso. Para mim, a música cantava e canta o Sol, o astro — o astro-rei, como o nomeava Miss True, colega tratada pela orientadora de uma oficina literária como exemplo de quem se exprimia num estilo ultrapassado. É verdade, ninguém fala mais astro-rei, mas, apesar disso, Miss True — de quem nunca mais tive notícias, nos vinte e tantos anos passados desde aquela época — tinha jeito para a escrita e era uma senhora bem divertida. Miss True era o pseudônimo de Vera, ao qual se chegou a partir das associações entre “vera”, “verdade” e sua tradução para o inglês, true. Fugi do assunto. Eis o ponto: eu via, ou a música do Caetano me fazia ver, o sol entrando nas bancas de revistas que frequentava. E aquilo me aprazia e acalentava minha companheira, na doença e na saúde, desde menino: a preguiça.
Foto retirada do blog "Grande Fraternidade Branca". 

Falei em bancas, mas era uma banca só, a do Tavares. Ficava onde hoje funciona um destacamento da Polícia Militar, ao lado da Matriz, e onde funcionou a Justiça do Trabalho, na qual trabalhou por um tempo o forasteiro Adão Ventura, poeta dos bons, infelizmente já morto. Eu ia à banca por dois motivos. Pelos gibis, embora não tenha sido um fiel leitor deles. Pelas figurinhas (de cowboys e de jogadores de futebol), colecionadas com paixão, ainda que, no bafo, perdesse grande parte delas, mesmo aquelas que faltavam no álbum. Minha mãe, sempre chegada a um joguinho, ao saber que os álbuns davam prêmios, encontrou uma boa chance de simultaneamente jogar e investir seu modesto capital. Preenchendo determinada página, ganhava-se um brinquedo qualquer; conseguindo o quase impossível – tirar todas as figurinhas carimbadas e raras e assim completar o álbum –, o prêmio era mais vultoso. Eu e minha sócia-capitalista, dona Haydée, ganhamos um fogão Continental muito do chinfrim. Não sei se o vendemos ou demos, essa parte financeira era mesmo com ela.
A imagem da cortina de pó subindo pela luz do sol que entrava pela janela da casa de meus pais faz parte das minhas mais fortes lembranças. Devia acontecer logo depois de passarem a vassoura pela casa, não sei. Apreciar o desenho feito de poeira e luz me tirava do mundo por longos minutos, isso sim, sei muito bem. O sujeito afeito a esse tipo de distração não pode ser muito diferente do que fui, ou sou, ou estou sendo. Alguns me chamam de viajandão, mas, nomeado assim ou assado, adoro contemplar o por pouco invisível e acredito piamente na possibilidade de tirar leite das pedras. Certa vez, me expus assim, ó: “Gosto do movimento das montanhas. De assistir ao coito das pedras.”
Foco no sol, cronista.
Nossa infinita ânsia de consumir até o talo da terra reduziu a camada que a protegia dos raios maléficos do Sol, e agora somos obrigados a aguentar o tranco e as consequências de nossa boçalidade. No meu tempo de criança, eu vivia sob o sol, era moreno e não me preocupava com a agressividade da radiação ultravioleta. Em casa, me chamavam, e ainda chamam, de Nego. Esse apelido carrega uma característica bem brasileira: mistura um pingo de racismo — embalado em ironia — com outro de carinho excessivo.
Hoje, ô vida, por ficar pouco exposto ao sol, sou obrigado a tomar vitamina D.

29.5.14

Mulheres longe de um ataque de nervos

Recentemente um filme e um livro me chamaram a atenção por contarem histórias de mulheres, longe da juventude, que se “perdem no mundo”.
Em “Ela vai” (no original, “Elle s'en Va”, de Emmanuelle Bercot), Bettie, a personagem de Catherine Deneuve, é dona de um restaurante, divorciada e vive com a mãe. Com a velha desculpa de “vou ali comprar cigarros”, Bettie começa a dirigir a esmo pelo interior da França. Ela se depara com um velho que lhe arranja um cigarro, entra num bar de beira de estrada, frequentado por pessoas sem muitas opções numa cidadezinha daquelas. Desse bar, bêbada, ela sai para um motel com um homem mais jovem. As andanças poderiam levá-la a sabe-se lá onde, mas a filha, com quem vive uma relação conflituosa, pede socorro: por conta de um compromisso de trabalho longe de onde vive, não tem com quem deixar o filho. Avó e neto, distantes de início, aproximam-se, pouco a pouco, pelo afeto e passam a fazer com cumplicidade a viagem sem rumo iniciada por ela. Vivem contratempos (inclusive a falta de dinheiro e um piripaque da avó) que os levam à fazenda do avô do menino, ex-sogro de sua filha. Sim, haverá uma história de amor, que eu, longe de querer tirar o prazer de quem venha a ver o filme, não conto. Seja como for, se filmes dessa espécie estão muito associados a homens (no topo, “Easy Rider”, com Peter Fonda e Dennis Hopper), as mulheres, quando se metem em aventura desse tipo, são jovens (“Corra, Lola, corra”, “Thelma e Louise”). Assim, o mérito do filme é mostrar que, como se diz, a vida só termina quando acaba.
Na literatura, não consigo me lembrar nem mesmo de uma personagem jovem que, à moda dos “perambulantes” de João Gilberto Noll, se perde em ruas ou cidades. Minto, há a do livro da Stella Maris Rezende, “A mocinha do Mercado Central” (Globo Livros), mas é uma mocinha, não uma senhora. Por conta de seu ineditismo, “Quarenta dias”, livro de Maria Valéria Rezende (Alfaguara), é pura surpresa. Impelida a se mudar de João Pessoa para Porto Alegre para ficar próxima da filha com planos de ter filhos, a professora aposentada, ao chegar à nova cidade, se depara com a mudança da filha, que, por conta de um doutorado no exterior, deixa a mãe ao deus-dará. Assim, Alice — podem pensar na personagem de Lewis Carol — conhece Porto Alegre na marra. Quando digo conhece, tenho de dizer que, na verdade, ela se mete na parte menos esplendorosa da cidade, a do povo que vive nas vilas — palavra com a qual os gaúchos nomeiam as favelas. É nesse canto que a paraibana encontra outros “brasileirinhos”, como ela e seus conterrâneos são chamados por lá, inclusive ou principalmente, pelos próprios pobres.
A razão pela qual Alice deixa o apartamento e vai às ruas da cidade desconhecida é um pedido de ajuda, vindo de sua Paraíba, para localizar o filho de uma amiga. Com a história da dor da mãe que perdeu o filho, Alice vai abrindo as portas das vilas e, logo, vai se transformando — ela mesma — de uma tal maneira que já não encontra meios de voltar à vida solitária, mas confortável, estabelecida em Porto Alegre. A incumbência de encontrar o filho da amiga perde o sentido e passa a ser usada apenas quando Alice precisa se aproximar de alguém, conquistar a atenção da pessoa. Durante os tais quarenta dias, a ex-professora, retirada de sua terra natal, se torna uma sem-teto. É uma aventura que, enquanto se desenvolve, dá ao leitor a dimensão de como há solidariedade — quase invisível — entre aqueles que têm pouco ou já não têm nada. No último caso, os dois mendigos com quem Alice trava uma amizade de fato representam o humano sem deformação, sublime. Aliás, será com outro empurrão, dessa vez de sua amiga de rua — e, fora do esperado, uma com teto —, que Alice voltará ao apartamento e, com urgência, passará a contar sua história num caderno em cuja capa estará a gravura de Barbie, essa boneca que representa o oposto do que a ex-professora é, mas que passa a ser a outra com quem Alice dialoga.
Apenas como curiosidade: a religiosa Maria Valéria Rezende viveu quarenta dias zanzando por Porto Alegre, dizendo, como Alice, que procurava o filho de uma amiga. Chegou a dormir em bancos de hospitais e rodoviárias. Isso está relatado em matéria do Estado de São Paulo, do dia 3 de maio de 2014 . Mais uma curiosidade: Maria Valéria, que chama muitos passenses de primos, tem raízes na cidade, passava férias por aí e se lembra até hoje do pontilhão da Santa Casa, coisa que quem nasceu depois da construção do “Tobogã”, ladeira que liga a rua Santo Antônio à Santa Casa, nem sabe que existiu.

3.5.14

Modos de crescer

Na edição brasileira do El PaísLuiz Ruffato conta, em crônica de 1º/4/2014, “Voando pelos ares”, como se tornou adulto. Não dou detalhes, corram ao site e leiam vocês mesmos, mas adianto que o processo de amadurecimento do escritor esteve ligado a uma bicicleta. Sim, a uma bicicleta. Cada um com a sua história.
No primeiro final de semana de abril, li notícias de mais morte de jovens em Passos, todas por acidentes automobilísticos. Antes e depois, outras notícias também de Passos — corriqueiras nos dias atuais — deram conta de dois ou três assassinatos de meninos de alguma forma ligados ao tráfico de drogas e a todo o submundo que se forma em seu entorno.
A morte de alguns amigos meus ainda jovens foi, penso, parte importante do meu processo de amadurecimento. O maior baque foi a morte do Branco. Era um garoto cheio de vida e que, para a alegria de seus colegas, tinha um fusca equipado com um som da melhor qualidade. Metidos naquele carro, enquanto a fita cassete repetia, à exaustão, o Deep Purple, descíamos a rua do meio, subíamos ao trevo, contornávamos mil vezes a Praça da Matriz. A música era nossa praia. Um pouco depois, ele ganhou ou comprou uma moto de 50 cilindradas e, nela, perdeu a vida. A notícia da morte dele, depois de dias e mais dias hospitalizado, me pegou dormindo. O Glã passou lá em casa e pediu que me acordassem. É, ser despertado com uma bomba dessas não é bolinho.
Velamos nosso amigo a madrugada toda. (No corpo cercado de flores, não restou nenhum pingo da beleza que lhe havia garantido sucesso com as meninas.) Na volta para casa, pela Rua dos Brandões, em algazarra, pedimos pão na padaria que se preparava para abrir. A moçada, nos bafos de seus dezesseis anos, não sabia sofrer em silêncio. Na verdade, nessa idade não sabemos fazer nada sem certo estardalhaço.
A partir da perda do Branco, nunca mais fui o mesmo. (A vida, insatisfeita, ou a morte, faminta, ainda levaram outros tantos: Nuna, Diminhas, Caco, Boda, Serjão, Cunha... não foram poucos). Morremos, descobri. Para adiar a morte eu teria de aprender a cuidar de mim, me sugeriu a intuição. Dar-se conta de que é preciso cuidar de si mesmo, a meu ver, é amadurecer. Não deixei de fazer besteiras — opa, fiz poucas e boas — mas quem fez ou deixou de fazê-las não era o filho do pai, da mãe, nem de deus, e, sim, alguém que, no soco, havia perdido a inocência e tomado a vida nas próprias mãos.
Deixando a questão pessoal de lado, o fato é que jovens morrem aos montes e, na maioria das vezes, engrossam as estatísticas de morte violenta. No passado, em acidentes e por excesso de drogas. Hoje, ao lado disso, muitas mortes associam-se ao tráfico, o que mostra que, num intervalo de mais ou menos 30 anos, mesmo em cidades do porte de Passos, o tráfico se consolidou em uma estrutura empresarial. Armada. A liberação das drogas e a consequente legalização de um mercado que deve persistir fariam diminuir o número de mortes violentas entre os jovens (não só entre eles, é verdade). Antes que alguém levante a mão e questione, já respondo: não, não acredito que o consumo aumentará com isso, ao contrário, com uma campanha forte (vide a de cigarros) poderá mesmo diminuir.
Num mundo menos violento, crescem as chances de o amadurecimento resultar de uma experiência como a vivida pelo Ruffato. Mas, não se animem, tornar-se adulto por conta de uma bicicleta é tão intenso quanto por qualquer outra forma. Crescer dói.
Imagem captada no site "Ai, minha nossa senhora".

                                  

29.4.14

O ônibus

O ônibus está associado a algumas mazelas da cidade: o caos no trânsito, em parte por conta da indisciplina de motoristas, que têm de cumprir metas estabelecidas por seus patrões; o desconforto, evidente quando se sabe que a frota é quase toda sem ar-condicionado, numa cidade-inferno como a que vivemos; a suposta relação escusa entre os empresários que desfrutam da concessão de um serviço público e as autoridades. Apesar dos pesares, nem tudo é contratempo na vida dos que fazem uso das não sei quantas linhas que servem ao Rio e às cidades adjacentes.
Alterada a partir de foto do "Gatas do lotação"
Logo de manhã, com o ônibus em movimento, algumas moças tiram da bolsa o batom, o lápis e o espelhinho e, com eles, terminam de se arrumar. Acordaram tarde, ou perderam tempo com o jornal ou com o filho ou com as orientações passadas à diarista, à babá, quem sabe à pessoa com quem dividem a vida e que pode dormir até mais tarde. Seja por que motivo for, fazem do banco duro do ônibus uma extensão da própria casa e expõem, leves e soltas, um dedo de sua intimidade. Não é só a habilidade de passarem, enquanto o ônibus avança, nem sempre vagarosamente, o lápis no contorno dos olhos que chama a atenção, mas também o fato de adivinharem os solavancos — a freada brusca, a mudança repentina de faixa, qualquer outro — e, de, com isso, manterem longe dos olhos o lápis cuja ponta pode até cegar.
No trajeto de ida e volta entre a Baixada e Botafogo, há pelo menos vinte e cinco anos, e sempre de ônibus, Solange gasta, no barato, um quarto do seu dia — isso apesar do mais ou menos recente bilhete único, um avanço para o passageiro ao reduzir o custo e, em menor grau, o tempo de viagem. Quando há algum acidente, uma chuva daquelas, uma batida policial nas favelas (sempre nas favelas) que estão no caminho — e são muitas —, as três horas para chegar a Botafogo e as outras três para voltar à Baixada podem se transformar em quatro, em cinco, em horas sem fim. Tudo isso, vale registrar, num ônibus sem ar-condicionado e, na maioria das vezes, cheio ou mesmo lotado. Mesmo ultrajada, a turma que viaja rotineiramente no mesmo horário (madrugada ainda quando saem da Baixada) promove festas dentro do ônibus: o amigo oculto no Natal, um bolo no dia do amigo, salgadinhos nos aniversários.
Nos últimos anos, houve uma pequena renovação na frota do Rio de Janeiro. Os mais novos – minoritários — são rebaixados, ou seja, é mais fácil entrar neles, um alívio principalmente para os mais velhos. Mas, sabemos todos, a cidade responde sempre do mesmo jeito a qualquer chuvisco mais encorpado: as ruas ficam repletas de poças d’água, quando não inundadas. E o que acontece com os novos ônibus? Seus corredores, tomados pela água que adentra pela porta, viram uma piscina indesejada. Certa vez, não sei o que havia de (mais) errado naquele ônibus específico em que eu andava, a água da chuva esguichou nos passageiros próximos ao trocador. Muitos saímos molhados dos pés à cabeça.
Tanto em trajetos pequenos (toleráveis) quanto em grandes (insuportáveis), os ônibus desrespeitam seus usuários. Se o prefeito, corretamente, quer que as pessoas deixem seus carros em casa e se movimentem pela cidade de ônibus (falar em metrô é brincadeira, dado o alcance limitado das linhas cariocas; e falar de trem é pisar em ovos mais frágeis ainda), ele que trate de promover mudanças rápidas, caso contrário, vai ficar querendo, e o trânsito no Rio se tornará cada dia mais um caos. Um caos violento.
Pensei que a luta pelo não aumento de vinte centavos fosse o início das transformações necessárias e urgentes nas condições da frota e, em consequência, no trânsito do Rio e em seu entorno. Qual nada. Mudanças na estrutura viária da cidade têm causado um transtorno terrível — que, se espera, não se prolongará por muito tempo. Os ônibus não mudaram nada, nadinha. E as passagens subiram vinte e cinco centavos.

3.4.14

Primos, Prumos e Planos

Lembrança de primo quase sempre tem conotação sexual. Os primos estão associados à brincadeira de médico, forma de iniciação que, pelo menos no passado, era comum. Não, por favor, não esperem revelações de minha parte, mesmo porque minhas primas sempre foram moças muito distintas, e sua chegada ao mundo adulto se deu com uns caras que, se pudesse, eu trucidava.  Exagerei.
Exagerei bastante, ainda mais levando-se em conta que o que desejo falar não tem nada a ver com sexo. Tem a ver com primo. É isto: quando a crônica começa errado é difícil salvá-la. Portanto esse início claudicante fica de exemplo para futuros cronistas. Rapazes e moças, nunca comecem uma crônica desse modo troncho.
O fato é que perdi um primo, o Wanderley. Primo em primeiro grau, mais velho que eu. Somos de uma família enorme, meu pai e o pai dele eram apenas dois de vinte e um irmãos nascidos — dos quais quatorze cresceram e, quase todos, se multiplicaram. Meu pai era o mais novo dos homens, e tio Manuel, pai do Leley, um dos mais velhos, o que explica nossa diferença de idade. 

Eu e Leley num improvável encontro numa praia oceânica de Niterói, em jan/11.

Leley era um sujeito ligado à alegria. Como todos, tinha seus perrengues, mas não me lembro de ele fazer fé nos maus momentos. Pelo jeito, citando Noel, nem no frio ele cria muito. Era um tipo solar. Deu sorte por ter se casado com uma mulher bonita, aliás, linda. Eu me amarrava em pegar no pé dele, insinuar que ele era rico, pois bonito não era — eu dizia que ele era mesmo feio —, logo, não fosse a grana, não havia como explicar esse casamento. Ríamos dessas bobagens. Agora a bomba: o tempo me fez ficar parecido com o Leley. Não exatamente de rosto, muito menos de jeito, mas, feito ele, tenho os cabelos brancos e as sobrancelhas negras. E também me casei com uma mulher bonita. Não somos ricos, mas temos um tchã qualquer.  Quer dizer, ele tinha. Não, ele tem.
De primo a prumo. Uma cidade, qualquer delas, não vive sem verde. Os bulevares, os parques, as praças públicas são o fator de equilíbrio nos aglomerados urbanos. Tanto no espaço público como no privado, Passos não cuida com carinho de seu verde. Tenho visto pessoas que, comprando uma casa, tratam logo de derrubar as árvores do quintal, transformando-o numa área de cimento. Por outro lado, não tenho visto um compromisso público de esverdear a cidade, o que a tornaria mais bonita, mais fresca e mais segura contra as tormentas. É uma pena, e, mais que isso, é um desastre. A luta — com minha amiga Isabel Pereira na dianteira — que se vem travando pela preservação da árvore centenária que nasceu e ironicamente vive na praça do cemitério pode ser o início de uma mentalidade verde entre os conterrâneos. Que ela prospere.
Tenho poucos planos. Quase nenhum, para falar a verdade. Sou um sujeito de ambições limitadas. Nem mesmo em sonhos, conscientes ou não, já me ocorreu me ver como ministro, prêmio Nobel, um magnata montado na grana. Tudo que quero é ler mais e escrever mais. Exatamente nesta ordem: ler primeiro, escrever depois. Porém não sou um acomodado. Tenho um plano. Um. Acho que já no ano que vem vou colocá-lo em prática. Se tudo der certo, vou mentir mais. Por quê? Ano que vem eu conto.

24.3.14

Ano escaldante

Você começa a perder o otimismo com o ano novo quando dorme, em 2013, com o termômetro pra lá de trinta graus e acorda, em 2014, com o mesmo termômetro pra lá de quarenta. Pode escrever: o clima alinhava o que virá.
Então você, mal acordou, senta-se num cantinho da casa, o único preservado da bagunça, pega o jornal — e agradece que haja jornal, ainda que fininho, sem notícias e dispensável — e finge que o lê. Isso consome um pouco do seu tempo e o distrai a tal ponto que você quase não percebe que o calor está de lascar, que o ano vai ser daqueles.
Cai em si. O Botafogo vai jogar duas partidas — uma lá nas alturas de Quito — que podem abrir ao time as portas da Libertadores. Isso é bom e, frente aos acontecimentos de 2014, um detalhe menor, cujos efeitos não mudarão em nada a vida de ninguém, a não ser deixar alegre ou triste meia dúzia de torcedores como eu. Mas, no futebol, a coisa vai pegar é em junho, na Copa. E vai pegar não só no campo. O padrão Fifa, já provado, vai ser questionado, não tenho dúvida. E vai haver protestos. Ao mesmo tempo, os que talvez fujam desses protestos contestarão o resultado do campo. Roubou-se para o Brasil, se formos campeões. Roubou-se contra o Brasil, se não formos. Os quarenta graus, com sensação de cinquenta, expressam apenas os dias passionais pelos quais temos passado.
Foto de Alexandre Brandão.

Ora, fosse só isso, o termômetro ficava ali pertinho dos trinta, dava uns pinotes, mas não enlouquecia como tem se visto. É época de eleições. Prepare-se. A mentira, o conluio mal-intencionado, as amizades oportunistas desfilarão pelas redes de televisão, pelas ondas de rádio. Ah, sim, estarão de fraque, de longo, bem penteados, no esquema (e é essa a palavra) para fazer com que a gente acredite em suas boas intenções.
No Rio de Janeiro, ou é o Pezão, ou é o Garotinho, ou é o Bispo, ou é o Lindinho. E nós, ó... nem digo. No Brasil, tia Dilma vai tentar se manter ali onde está, e o Aécio irá com tudo pra cima dela. UFC em cadeia nacional. E as redes sociais vão, como se diz por aí e não me agrada a palavra, repercutir os golpes e contragolpes a torto e a direito. Em julho, terminada a Copa, mesmo que o termômetro lá no sul despenque para dez graus, a média no Brasil se manterá nos quarenta, vinte no termômetro, outros vinte no xingatório e no blá-blá-blá.
Se o brasileiro é forte e nunca desiste, em dezembro ele espera que a coisa amanse. Já teremos perdido a euforia da vitória na Copa ou nos acostumado com a derrota; as disputas eleitorais terão chegado ao termo que têm de chegar, uns achando um bom termo, outros não, mas, jogo jogado, será a hora de se preparar para lidar com o novo governo. Ou nem tão novo assim, se Dilminha continuar no Palácio da Alvorada.
Mas tudo isso todo mundo sabe, assim como sabe que esse calor é aviso para que nos mantenhamos atentos. O que ninguém sabe, e eu sei e digo, é que no ano que vem outro verão de mesma intensidade adiantará outras conjunturas de pelejas apaixonadas. Outros cenários políticos, outras disputas esportivas, muitos outros para a mesmice de nossos dias de aprendizes da democracia.

28.2.14

Da noite pro dia

Enquanto ouço o “Viralatas de Córdoba”, de Ademir Assunção & Banda Fracasso da Raça, reparo num sujeito que passa bem na minha frente. Eu o conheço embora não saiba seu nome. Nunca trocamos palavras um com o outro. Até aí, coisa nenhuma, mas acontece que ele envelheceu da noite para o dia. Ontem, bem, não era um jovem, mas não caminhava nem nas franjas da velhice na qual se meteu na última manhã.
Algo o levou a esse estado. Pode ter sido um golpe baixo da vida, um sofrimento que o tomou por dentro, de forma silenciosa, como quem não quer nada. Doença? Não parece — pelo menos não uma doença física. Sua velhice precoce anda envolta em sete véus. Está ali, não se esconde, tampouco se mostra às claras.
É uma velhice filosofal. 
Velhice filosofal? A que nível de cretinice cheguei. O cara acorda velho do nada, e eu nomeio filosóficas suas rugas. De certo pensando em uma velhice que sempre esteve ali, a ponto de explodir. Dia a dia, ambos negociavam, e ele conseguiu até recentemente mantê-la longe dos outros. Um dia, cansada do ostracismo, a velhice deu-lhe o golpe e saiu do armário.
Não, não pode ser assim. Essa velhice, exibindo-se com certa volúpia, é um calo provocado por arranhões e trombadas, nasceu de um soco — por dentro — no estômago. Efeito de enfrentamentos que minha vista, acostumada a contemplar sem mais um homem que de vez em quando cruzava meu caminho, não alcança.
Se não tenho qualquer espécie de intimidade com o envelhecido, nem mesmo aquela reduzida a uma troca de “oi”, tenho de ficar preso a especulações. Isso? Aquilo? Lembro-me de dona Rosa. Ela ficava à janela contemplando as pessoas que passavam defronte a sua casa e chutava o destino de cada uma delas: aquele ali está atrasado para o ônibus das quatro; aquele outro, sacola na mão, tem de passar no açougue e levar a carne a tempo do almoço. Assim, dona Rosa se distraía, sem nunca confirmar suas suspeitas. De meu lado, não me distraio, pois não foi um Zé Mané que passou aqui pela primeira e última vez. É praticamente um amigo, amigo de contato fortuito, não declarado, assim mesmo pessoa com quem me encontro com assiduidade, na esquina que nos juntou no mundo. E o amigo, caramba, o amigo ficou velho, velho.
Penso que ele me conhece também. Certa vez, eu e ele olhamos sem cerimônia, — de forma ostensiva, melhor dizendo —, uma moça que passou entre nós. Depois, quando ela se perdeu, eu e ele nos encaramos e rimos. Foi o máximo a que chegamos. É possível que tenha se esquecido de mim. Se não antes, agora que ficou velho. Que envelheceu e eu jamais saberei por quê — e, por não saber, eu também envelhecerei um tanto, assim, de uma vez.

14.2.14

Papai Mamãe [1]


                                                                      

— Cadê o menino?
— Saiu pra matar mendigo.
— De novo?
— De novo.
— Você não acha que isso está indo longe demais?
— Bem...
— Bem o quê?
— Ora, você...
— Eu?
— Sim, você.
— Que que eu tenho com isso?
— Você incentivou ele.
— Incentivei coisa nenhuma. Só dei minha opinião.
— Que é...
— Que esses mendigos são uns párias. Por mim, mandava matar todos eles.
— E isso não é incentivo?
— Isso é opinião.
— Filho não sabe diferenciar uma coisa da outra. O seu tomou sua opinião como ordem. Está lá obedecendo ao papai.
— Até agora quantos?
— E eu lá fico contando!
— Hoje vou conversar com ele. Vou dizer que está bem assim.
— Você acha mesmo?
— Não, não acho.
— Então deixa o menino fazer o serviço.
— Fico preocupado. Se a polícia pega, vai dar trabalho pra livrar a cara dele e a minha.
— Ele sabe fazer direito. Vi uma vez.
— Verdade, você foi logo no início. Ele engatinhava nisso.
— Mas já era bom. Ele tem precisão e sabe se esgueirar sem deixar vestígios.
— Um menino desses...
— ... enche a gente de orgulho.
— ...
— Você está chorando?
— Os filhos crescem tão depressa.

___________________________________________________________________ 
[1] Título provisório. Escrito em 2013, com o assassinato de índios por jovens e ricos adolescentes do Distrito Federal em mente. E era só um início.