29.10.17

Aprendido, reaprendido, por aprender


Nos últimos dias, aprendi que as estrelas se formam por meio de gases, o que não é novidade para ninguém, mas para mim era até bater os olhos naquela tela de TV existente no elevador do prédio no qual trabalho. Nem bem li o enunciado, e o texto em si era apenas o enunciado, pensei: meu deus, nossos puns de hoje serão as estrelas de amanhã. Ao mesmo tempo, me lembrei de que o metano é um dos maiores responsáveis pelo efeito estufa. Qual o balanço afinal: mais estrelas ou mais buraco na camada de ozônio? Incapaz de responder, resta-me rogar aos céus para que caiba na cozinha do universo algum espaço para o delírio dos incautos.

Não que eu não soubesse, sabia e sei faz tempo, mas nos últimos dias reaprendi, a duras penas, sempre é a duras penas, que uma ideia se esvai facilmente. Havia fechado o livro que estava lendo ("Tirza", de Arnon Grunberg, publicado pela Rádio Londres) e me ajeitava para dormir quando uma insinuação de verso me tirou o sono. Poderia ser o início de um poema. O verso ligava o silêncio à imagem de um cão sem lua. A questão é que, sem ter me levantado e anotado a ideia, do possível verso só guardei essa ligação tênue entre o silêncio e um cão sem lua. O verso em si, se houve, foi perdido, um poema que poderia ter sido escrito foi abortado, ou melhor, nem foi concebido — ah, Onã, deus da infertilidade! Se minha ignorância permite até fazer piada com essa evidência de os gases formarem as estrelas, no caso da perda de um verso, eu — esse escritor calejado (ah, Onã!) e preguiçoso, colecionador de versos perdidos — transito além da lamentação e me puno. De que maneira? Não conto, não quero que alguns leitores sintam alegria por isso.

Dados o aprendido e o reaprendido, o que ainda pode aprender um burro velho feito eu? Ganhar dinheiro. Vestir-me bem. Arrumar o cabelo. Cortejar uma dama. Rir sem motivo. Engraxar os sapatos. Falar inglês e/ou javanês. De todo modo, falar pouco e na hora certa. Pescar. Ter espírito crítico. Aderir a uma causa. Cantar no tom e sem errar a letra. Piscar um olho só. Chutar de canhota. Chutar no gol. Dançar de olhos fechados. Beijar de olhos abertos. Ler Ulysses.

Caramba, faltam muitas coisas, vou precisar de mais umas três vidas. Filho de mascate, mascatinho, portanto, proponho uma barganha: aceito morrer no espaço desta vidinha mesmo, mas, em troca, exijo que os ratos que roem os nossos queijos, sapatos, calcanhares, calças, que roem as nossas vergonhas, cuecas, barrigas, camisetas, que roem os nossos queixos, brincos, cabelos, chapéus, que roem nossa decência, enfim, roam uns aos outros até se consumirem. Como isso não acontece assim, de graça, cada um que arme sua ratoeira, recolha seus ratos e os envie para aquela gaiola, o xilindró. O voto (ou o não voto) bem pode fazer esse papel de armadilha 



16.10.17

Tomates e liberdade

É metafórico: um grupo que defende a devolução do poder aos militares jogou tomates num senhor que parece determinado a não deixar o presente cumprir sua sina de vir a ser futuro. Em permanente embate, o Brasil lançou ao ringue dois adversários que carregam em si o pior deste país cheio de piores. Vendo-me obrigado a torcer nas várias porrinhas do nosso dia a dia, dou de ombros, mas não lavo as mãos, e saio para caçar alguma esperança.

Encontro na Maré um pouco dela. Um pouco, eu disse. A solução não está inteiramente ali, claro que não, mas na Maré (nas favelas) há uma juventude que resiste sem fuzis e lamentações a isso que temos chamado de guerra às drogas. Essa juventude busca, por meio da palavra, da música, das artes plásticas, se meter entre o tráfico e o Estado para dizer que não aceita o papel que reservam a ela. Há ali uma força descomunal que, por sorte, encontra espaços de acolhida, como o Observatório das Favelas e o Centro de Artes da Maré (para ficar restrito à Maré). Aquela turma não vai se calar e vai cobrar seu espaço. Os passadistas e os que não querem perder o status quo serão engolidos por movimentos desse tipo, pois há um país novo brotando deles. Um país que é jovem, negro, feminino e elegante. O “Poetas Favelados” é a síntese disso tudo.
Silvana Mezenes, do site do Mulherio.


O Mulherio das Letras, cujo primeiro encontro se deu nesta semana em João Pessoa, é mais que um grupo de escritoras que busca chamar a atenção para o fato de que a presença das mulheres na literatura — e não só nela — tem relevância diminuída. Ao acontecer num estado do Nordeste e ao adotar um modelo no qual não há exatamente palestras, o encontro questiona várias coisas ao mesmo tempo, entre elas, a centralidade Rio-São Paulo e a verticalização num mundo — o da literatura e das artes de modo geral — no qual os artistas devem se posicionar a favor da igualdade e da proximidade.

Perspectiva da exposição "Faça você mesmo sua Capela Sistina"
A reação que os artistas — e não só eles — têm tido aos ensaios (em alguns casos, bem mais que ensaio) de censura é outro canto de esperança. Ouvi relato de uma mulher que, diante da manifestação ruidosa de alguns religiosos inconformados com a exposição “Faça você mesmo sua Capela Sistina” — de Pedro Moraleida, um artista plástico que morreu muito jovem —, resistiu à presença ameaçadora percorrendo, ainda que assustada, a sala do Palácio das Artes de Belo Horizonte de cabo a rabo. Logo depois, grupos faziam ato de protesto em defesa da exposição e, claro, da própria liberdade. Outros movimentos, com adesão de artistas conhecidos, têm se organizado para fazer frente aos censores.

Termino contando o que li em Frei Beto — num artigo n’O Globo, em 9 de outubro. O religioso diz que no século XVI a inquisição obrigou Daniele de Volterra a cobrir todos os nus que Michelangelo, seu mestre, havia pintado na Capela Sistina. João Paulo II mandou restaurar os originais uns quinhentos anos depois. Não sejamos os novos inquisidores. Não precisamos concordar com tudo, é até bom que não, mas vamos exigir que uma coisa só seja respeitada: a liberdade. 

2.10.17

Nem para o passar do sol

Meu tio Wellington, o tio Elin, costumava dizer: “hoje não estou para nada, estou apenas para o passar do sol”. Falava como troça, zombeteiro que era. Não sei se a frase é de outra pessoa, mas que meu tio poderia ser seu autor não resta dúvida. Ele era desses sujeitos inteligentes, que desprezam a inteligência sisuda, preferindo levar a vida ao rés do humor. Foi uma das figuras mais marcantes na minha vida, e morreu cedo, muito cedo, mais ou menos com a minha idade hoje.

Não vou falar de meu tio, mas aproveitar o gancho da fala dele para dizer: amigos, hoje não estou para nada. Não estou para as minhas queixas. Não estou para as minhas limitações. Não estou nem mesmo para a tragédia que desaba sobre todos nós, neste Brasil que, apesar de não sei quanto em reservas cambiais, está falido. Falido de caráter. Falido de futuro. Não estou para nada disso.

Se um pássaro canta, meus ouvidos se fecharam antes. Se uma luz brilha, meus olhos se fecharam antes. Se um abraço me alcança, meu corpo se petrificou antes. Não estou para nada.

Não estou para o sorriso da moça. Não estou para a cerveja com o amigo. Não estou para o pôr do sol. Não estou para a lua.

Guerras não me interessam. O drama humano não me interessa. A festa não me interessa.

Não estou para o gol, nem para a grande defesa ou o erro do juiz. Não estou para a desfaçatez dos políticos. Não estou para a escrita. Hoje. Tudo isso hoje.

Mas eu sei, sei bem, sou um galo sozinho, todos vocês estão atentos e potentes. E como dizia João Cabral de Melo Neto: “Um galo sozinho não tece a manhã: / ele precisará sempre de outros galos.” Acrescento: não tece a manhã, tampouco a noite. Melhor assim.

18.9.17

Aquela moça daquele dia

O que transformou aquele dia comunzinho foi o fato de ter ido ao cinema com um casal de amigos ou mais que amigos — somos benditos pelos astros e nascidos os três num 17 de novembro, ele o mais velho, ela a mais nova. Fomos ver “Como nossos pais”, dirigido por Laís Bodanzky, filme que está dando o que falar.
Entre os mais próximos, só ouvi elogios: amigas mostrando-se identificadas com as mulheres do filme, quase todos elogiando a atuação esplendorosa de Clarice Abujamra e Maria Ribeiro, atrizes que interpretam mãe (Clarice) e filha (Rosa). De pessoas distantes escutei alguns senões. No site do Instituto Moreira Sales, José Geraldo Couto pontua que o filme tem muito de defesa de uma tese, no caso o papel da mulher nos dias de hoje, dando pouco espaço a enquadramentos e outras sutilezas da arte cinematográfica. Uma escritora que acompanho no Facebook achou que as questões diziam respeito à mulher do século XIX, um tanto quanto ultrapassadas, portanto. Bial, em seu programa de televisão, tachou o personagem do marido de Rosa (Paulo Vilhena) como meio banana. Na reação irônica da Maria Ribeiro, os homens são sempre e de fato uns bananas.
O argumento do crítico me parece interessante, o da escritora, nem tanto, uma vez que as mulheres com quem tenho conversado se identificam profundamente com as dores de Rosa e/ou com as de Clarice. De minha parte, acho — com o que meu companheiro de sessão concordou — o personagem masculino, além de banana, bem caricato. Para minha mulher, na realidade, os homens não estão acostumados a desempenhar um papel secundário, por isso o incômodo. Faz sentido.
Terminada a sessão, lá fomos eu e o casal tomar um chope. Não sei se senti falta da minha mulher naquela hora ou se agradeci o fato de ela ter visto o filme antes e não estar ali conosco. Não há como casais saírem do filme e não promoverem uma pequena DR. Pois bem, eu estive ali entre o casal e, sim, as diferenças entre homens e mulheres sobre os papéis de cada um no dia a dia da família vieram à tona. Claro, nada foi desestabilizador, meus amigos se amam, e nós três temos intimidade até para alguma confissão. De todo modo, os três litros de chope transformaram tudo num momento de confraternização e, por que não?, de troça contra a vida muito séria. Certa hora, ao voltar do banheiro, escutei o resto de frase que ele dirigia a ela: “vocês são impenetráveis.” Sem saber o contexto, me espantei e reagi: “como assim?” O garçom, ali na lida de encher os copos, talvez testemunha de uma conversa maior, não se aguentou e riu. Rimos. Rir fora de hora não tem preço, assegura nosso cartão de afeto.

Encaminhávamos para o final da noite quando aquela jovem apareceu. Veio pelo meio do bar já falando conosco, que não a conhecíamos. Ela nos disse que estava usando uma calça difícil de tirar, feita para dificultar a vida de um possível estuprador e, naquele momento de ir ao banheiro, pagava o preço. Depois de alguma troca de palavras engraçadas entre nós e ela, a moça foi e voltou do banheiro. A calça era mesmo tão complicada que minha amiga teve de ajudá-la a dar o nó naquela espécie de cinto que passava aqui, ali e lá. Não sei o que meus amigos pensam a respeito, mas a jovem era dona de uma nova palavra. Seus dramas podem ou não ser os de Rosa e Clarice, mas ela parecia querer nos dar conta de que há outras mulheres no caldeirão dos dias atuais, aquelas que, apesar das dificuldades — como a de lidar com a realidade ameaçadora de um estupro —, vivem com pés e mãos no futuro.

4.9.17

Meia dúzia e gordura

Para o Raul Drewnick, à sua moda e com menos brilho 


Um
Morreu meu amigo que dizia “ô, maluco!” e, logo depois, o Wilson das Neves, que repetia “ô, sorte!”. Sei lá se com eles está findando nossa capacidade de exclamar, que é a mesma de espantar-se. Seria o fim.

Dois
Esse chope mal tirado, esse silêncio do qual não me desgrudo, aquelas contas por pagar botam a gente petrificado como o diabo.

Três
No meu jardim de inveja, as flores do vizinho não fedem nem cheiram.

Quatro
Com o tempo, a saudade — sem motivo — vinga feito doença crônica.

Cinco
Li há pouco numa tabuleta de rua: “Fé nas cria”. Achei minha igreja.

Seis
Naquela noite de inverno, sem ninguém que pudesse me aquecer, descobri do vinho o fogo e o mistério e, imodesto, nem no frio ousei crer.

Gordura
O problema é o regime.

20.8.17

A ciência cansada




A moça que vai descer do ônibus antes de mim leva o celular no bolso de trás da calça. Eu me pergunto a razão disso, não me parece natural, muito menos seguro, haja vista que o aparelho fica metade para fora. No bolso de trás, totalmente protegida, os homens, principalmente eles, levam a carteira, sempre foi assim. Não, não e não. Meu pai, agora me lembrei nitidamente, levava a carteira no bolso da frente, no da direita. Ele usava daquelas calças cujos bolsos frontais são fundos, bem fundos, logo uma carteira solta ali está seguríssima. Esse modelo é o mesmo que o Veríssimo disse em crônica usar a vida toda e, por conta dessa fidelidade ter estado, em determinados períodos, na moda e noutros fora. Veríssimo, mestre, você não passa de um démodé, a calça com bolsos mais rasos está na crista da onda pelo menos desde os anos de 1980. O Whatsapp demanda ter rapidamente à mão o celular, por isso a vitória da calça atual. De novo cometo uma inverdade, o bolso curto existe, acabei de dizer, antes das redes sociais, logo a causalidade é outra: não fosse o bolso raso, não haveria a rede social, em particular o Whatsapp.

Todo casamento é um equilíbrio precário, seja o casal de que espécie for: negro casado com negro, negro casado com branco, branco com branco, europeu com asiático, velho com novo, homem com homem e mulher com mulher — sem esquecer os poliamorosos e os transgêneros. Enfim, é da natureza dos casais conviver com um perigo à espreita, não percebido, capaz de fazer com que todos se equilibrem na corda bamba; sem sombrinha, acrescento. Sendo assim, os casais vão, ao longo do tempo, criando suas defesas, quer dizer, aqueles que não chutam o balde e voltam à doce vida de solteiro, essa falácia que inventamos, uma vez que estar solteiro é um equilíbrio igualmente precário estabelecido numa casa quase sempre suja, com a cama desfeita e a geladeira vazia. Deixo as tergiversações de lado e vou ao que interessa, no caso o que os números dizem sobre o casamento. A evidência, todos sabem, é que o curso de dança é a última etapa do casamento. É tiro e queda: o casal se matriculou na dança, o casamento chegou ao fim. Nada mais lógico: dançar na corda bamba, e aí com ou sem sombrinha, é impossível, não se vê nem em circo.

O pão cai sempre com a manteiga virada para baixo. Assertivas como essa vieram importadas de países que não sabem o que é pobreza, digo baseado em uma razão muito simples: o pão cai não só da mão daqueles que têm dinheiro para comprar manteiga, cai também de quem come pão com pão.

É dando que se recebe. Esqueçam, essa frase faz parte da oração de São Francisco, este homem bom, mas ruim de prognóstico. O que mais se vê é muita gente dando (ou sendo roubada) sem receber nada em troca. Descarto a frase não por suas questões intrínsecas, simplesmente não serve ao meu propósito. Busco outra então. O preguiçoso fica pobre, mas quem se esforça no trabalho enriquece. Veja que esta é parecida com a outra, mas não escorre de boca de santo, tem mais a ver com os senhores do mercado, esses que nos fazem crer nisso e, por isso, nos fazem perder nossas vidas. Ó, céus, aponte aquele que ficou rico trabalhando.

Apresentei, amigos, quatro teorias. As duas primeiras científicas até a raiz, as outras, como demonstrado, pura balela, coisa de ciência cansada. Em tempos de falsas notícias, tenhamos cuidado, principalmente quando falamos de verdade científica, que se estabelece depois de cumpridas várias etapas, que vão da hipótese ao teste e, em seguida, à crítica. Enfim, ciência exige protocolos. Então, amigos, agarrados à ciência ou desagarrados da ciência cansada me ajudem a responder à questão inicial: como justificar o celular no bolso de trás?





13.8.17

E tome palavra com Kátia Bandeira de Mello-Gerlach




E tome palavra




Kátia Bandeira de Mello-Gerlach                               Despejo                               


Ojepsed não passava do gênero escritor ocioso e insolente. Recusava os cumprimentos exigidos pela civilidade a qualquer um que descesse no elevador em sua companhia. Com um bafo de café amargo e carranca, o sujeito irritava. Síndico, sub-síndico e membros do conselho conspiravam o seu despejo em reuniões regadas a garrafas de Malbec despejadas até a última gota. Polarizados na política, os vizinhos gozavam de unanimidade no que dizia respeito ao escriba herdeiro do imóvel após o falecimento de sua mãe no chuveiro a gás, morte que chocara a todos e lançara suspeição no ar. Descarado ágil, Ojepsed usava de charme e sorrisos quando algo lhe interessava, inclusive o desfecho de uma vida. Convencera a vizinha idosa a suspender a queixa crime por conta dos tangos que ele ouvia a cento e setenta decibéis madrugada afora. Cinco dias depois, mais um homicídio no edifício. Nas reuniões de condôminos, Ojepsed chegava carregado de livros embalados em plástico. Poemas auto-publicados. Em casa, os compradores descobriam haver levado gato por lebre: tinham em mãos cadernos em branco com um único verso na capa. Et voilá, os que reclamavam, desapareceriam um por um dos andares a meio lume. Para completar o quadro de indignação geral, Ojepsed começou a abandonar os dejetos do gato gonzalo espanhol em um canto do elevador. Disfarçava esquecimento enquanto a maioria dos vizinhos chamava aquilo de provocação. Um ou outro que ousasse argumentar com Ojepsed tombava na lista dos desaparecidos, sendo que o síndico sequer se despedira de dona Ercília antes de ser encontrado flutuando no mar do Arpoador com as mãos cruzadas sobre o ventre. No fundo, no fundo Ojepsed almejava suceder Rimbaud no papel de poète maudit. O seu nome, no entanto, causava-lhe pejo quando ouvia os sussurros do resto dos moradores que se referiam a ele como Ojépissédi, alcunha para cordelistas pau-de-arara, inadequada para alguém que se intoxicava de incenso e exigia que lhe pedissem autógrafo no ponto do ônibus quando saía para flanar e se abrigava da chuva, sem temer despejos.


(texto em conformidade com as regras do método de Raymond Roussel levemente alterado)



6.8.17

Sob os meus cuidados

Para Vanessa e Pedro

No segundo dia da Flip de 2017, longe da festa, acordei, vesti o short, a camiseta, o boné, o tênis e, disposto, caminhei de Botafogo à Gávea, uma boa distância. Fui ao Instituto Moreira Sales ver a exposição com as fotografias tiradas por Chichico Alkmim em seu estúdio em Diamantina, mantido entre 1920 e 1950 mais ou menos. Suas fotos captam a emoção humana de forma impressionante. Uma menina acompanhava a exposição com familiares e fez um comentário pertinente: não há um único sorriso em todos aqueles rostos. É verdade, as expressões são graves, em grande parte porque deveriam ser instantâneos para documento, mas também, especulo, porque são pessoas humildes, quem sabe um pouco assustadas com o aparato tecnológico, as luzes, tudo isso que uma foto então demandava. Há mulheres bebendo cerveja, há um bar repleto de homens que leem jornal, há estudantes uniformizados, há religiosos. Muitos negros, inclusive entre os estudantes. Muitas mulheres, algumas em sessões eleitorais. Lamentei o fato de, por intermédio daqueles registros, constatar mais uma vez que o Brasil subaproveitou a oportunidade do fim da escravidão e a de ter dado às mulheres direito ao voto relativamente cedo.



Foto do acervo do Instituto Moreira Sales


Na manhã seguinte, eu veria o vídeo no qual a senhora Diva Guimarães — uma negra paranaense, professora por quarenta anos — levanta-se durante a palestra em que o ator Lázaro Ramos participava lá em Paraty e faz um dos depoimentos mais lúcidos e duros que já ouvi. Dona Diva bem poderia ter saído de uma foto de Chichiko para nos dizer que falhamos. São palavras dela a respeito da escravidão: “Aparentemente a gente teve uma libertação, que não existe até hoje”. A senhora, na sua argumentação, faz um discurso veemente sobre a importância da educação, ecoando aquelas fotos com negros e negras trajando uniformes.

Depois da ida ao instituto, depois do almoço, depois do cinema, mas antes de saber de dona Diva e de ter a companhia da querida Vanessa e do querido Pedro, amigos de meus filhos que tomo como meus também, ao sentar-me num quiosque que vende cerveja artesanal e de onde se podia ouvir um trio mandar ver o velho e bom rock’n’roll, me dei conta de que todos os escritores da cidade haviam se debandado para Paraty e por lá ficariam alguns dias.

Senti então que eu tinha uma imensa responsabilidade, a cidade estava sob os meus cuidados. Não que tivesse de dar conta da violência, do desemprego, das mazelas que de alguma maneira apareciam nas fotos de Chichico e que viriam a ser denunciadas — sem que eu ainda soubesse, repito — por dona Diva, portanto, antigas, duradouras e não exclusivas do Rio de Janeiro. A cidade estava sob minha responsabilidade poética, e só eu poderia contemplá-la com a ternura que merece e exige. Quando meus jovens amigos chegaram, lancei sobre eles meu primeiro olhar de curador da ternura. Depois direcionei-o a duas crianças que dançavam. Não me esqueci dos músicos, da moça bonita na mesa ao lado, do vendedor da boa cerveja, do casal de gringo que filmava tudo. Eu era o Poeta Terno, o único nos mais de um mil e duzentos quilômetros quadrados ocupados pela cidade. 

Assim eu estava quando cruzou à minha frente, abraçado a uma moça e esbanjando sem pudor uma alegria quase tátil, o poeta Carlito Azevedo. Não, eu não era o único escritor na cidade, e isso tirou um tremendo peso de minhas costas. Lembrei-me então de um haicai do Bashô compartilhado no Facebook pelo próprio Carlito.


              “quando a lua vai embora
               descobre-se que a mesa
               tem quatro quinas.”


Não sei bem como terminar essa crônica de peças soltas e desconexas. Talvez contando que só fui uma vez a Paraty, quando nem existia a Flip, e lá comprei uma camiseta estampada com o rosto do Chaplin.

23.7.17

Ali onde Getúlio entrou para a história

Este Brasil não tem jeito. Em mesa de bar com amigos, encasquetamos com tal afirmação. Todos somos desses que acreditam, pelo menos em tese, que a política é a única forma de superarmos os entraves que estão aí, à vista de todos. Porém, com a lambança feita pelos políticos, fomos parar na sarjeta da desesperança. O Brasil não tem jeito.

Numa tentativa de nos agarrar a alguma coisa positiva, uma das mulheres falou do movimento feminino, da potência que há nele. Rimos um pouco com a história da namorada de um desses reacionários que veio a público dar uma banana pro cara. Por sua vez, o outro homem sentado à mesa se sentia esperançoso ao acompanhar o crescimento de seus netos. Buscávamos algo que estivesse à margem da política de terno, gravata e tailleur e concordamos que o que vier virá das mulheres, dos negros, dos gays ou dos marginalizados de modo geral e comerá pelas bordas a desfaçatez da elite.

Contei-lhes então uma história que me ocorreu dia desses, que reproduzo aqui com a intenção de compartilhar um pouco do meu vacilante otimismo.

Eu e minha mulher fomos andar no Aterro, longe de casa. Para nossa surpresa, no calçadão encontramos alguns amigos, depois, no Museu da República, outro amigo e, em seguida, no Largo do Machado, mais uma amiga, e outras duas, na Marquês de Abrantes. Até parecia uma caminhada pelas ruas da minha pequena Passos, não a de agora com seus mais de cento e dez mil habitantes, mas aquela na qual eu vivia e era ocupada por um quarto da população atual.

No Museu, meu colega de trabalho estava acompanhado de sua esposa e da netinha de uns três ou quatro anos. Antes da história, devo dizer da alegria de ver avós agindo como avós, pois a criança ganhara um picolé, coisa que a mãe não gosta que ela coma. O casal desobedecia a filha. Viva a desobediência dos avós! Minha avó, diabética, me levava ao seu quarto, fechava a porta e, desde que eu jurasse guardar em segredo, me dava doce de caju, os melhores que já comi. Enquanto ela esteve viva, o segredo não saiu da minha boca.

A menina não gostou do picolé de morango, sabor que os avós escolheram na esperança de cometerem uma desobediência menor, afinal morango é fruta, é saudável. A garotinha, três mordidas depois, disse que não queria aquele e, na mesma hora, roubou o do avô, um de chocolate — aquilo que longe muito longe tem parentesco distante com o cacau —, e com ele se distraiu até o fim.

Ao nos despedirmos, eu disse para a menina: “Você é muito gatinha”. Ela olhou bem nos meus olhos e retrucou: “Eu não sou gatinha, sou...” (disse então, com muito orgulho, o nome e o sobrenome.) Ali onde, com um gesto radical, Getúlio entrou para a história, com uma troca de frases simplórias, eu e a neta de meus amigos ficamos assim: eu, quase sessenta anos, um sujeito que tem procurado não ser machista, mas que fracassa, e naquele momento acabara de fracassar; ela, quatro anos, sem a menor ideia dessa discussão toda em torno do feminismo, feminista pronta.

10.7.17

O dia da chegada de Guineto ao céu

Ao Sílvio Sales, que é fã do sambista

Em maio deste inominável 2017, Almir Guineto bateu à porta do céu. Durante a triagem habitual, São Pedro comunicou-lhe que um pouco mais tarde Deus o receberia para tratar de um assunto. Guineto, que já deixara o corpo frio para trás, viu a alma gelar. Medo. Medo de Deus. Estranho medo, mas justificável, ninguém chega ao céu com o escore de pecados zerado. Ciente de seus pecadilhos, o sambista do Salgueiro cismou que seria despachado para o inferno. Melhor seria se São Pedro não houvesse cochichado ao pé do seu ouvido, ainda que, por não ter tido som algum, não se escutara exatamente um cochicho, e, além do mais, alma não tem ouvido nem nada que se assemelhe ao corpo.




O sambista foi instalado em seu aposento, uma nuvem imensa, de onde ele conseguia ver a vida, a sua e a de quem quisesse, desde a infância até o derradeiro dia. Depois de matar a saudade de seus dias de criança no morro, riu do futuro do Brasil. Riu de nervoso. Pensou em fazer um samba, mas o som, no céu, não passava de uma sugestão e um samba insonoro não era samba. Será que Deus justificaria sua transferência para o inferno baseado na premissa de que a turma do samba não vive onde não há som? Cartola estaria no inferno? Clementina? Noel? Ou será que Deus, na ditadura do céu, desprezava os negros? Acostumado com o preconceito sofrido ao longo de seus setenta anos, preferia manter um pé atrás, mesmo estando no paraíso. Quis olhar-se no espelho — alma não tem cor? —, mas não havia espelho, havia somente a sombra projetada pelo sol sobre a nuvem, e, na terra ou no céu, do corpo ou da alma, toda sombra é negra. Melhor não se agarrar a teorias espúrias, impossíveis de testar e — melhor ainda, prudente até —, pedir uma força para Iemanjá, Iansã, Xangô. Quer dizer, Nossa Senhora da Conceição, Santa Bárbara, São João. Não era fácil livrar-se dos costumes terrenos, que Deus relevasse a heresia de um recém-chegado.

Visto do céu, o momento de sua morte foi apenas um olho franzido no rosto de um homem alto — um negão que fez sucesso com as mulheres, ah, isso sim —, nem uma expressão a mais. Mais um motivo para um samba. Mais um motivo para se lembrar de como seria duro viver eternamente sem batuques. Quem sabe o inferno? Esticou a alma no macio da nuvem. Já não sentia tanto medo ou, por outra, já não via sentido em ter tanto medo. Era uma alma sob controle.

“Deus te espera”, avisou-lhe o anjo, e, no mesmo instante, o sambista estava diante de Deus. “Guineto! Venha aqui, rapaz.” Almir rasgou o sorrisão de sempre e jogou-se nos braços naquele instante abertos, esperando por ele. “Uma das minhas alegrias, meu filho, foi quando ouvi, ecoando pela imensidão, a voz da Beth cantando ‘Coisinha do pai’. Nesse mundo silencioso aqui do céu, aquela música abrandou um pouco minha solidão.” O compositor não conseguiu segurar a emoção e chorou copiosamente, o que não o impediu de ficar intrigado: se não havia som por ali, como é que Deus ouviu a música? Almir, envergonhado, constatou o óbvio: Ele era Deus.

Deus confessou que o motivo daquele encontro era outro. Guineto suou frio. O Senhor tomou-lhe a mão e pediu-lhe que se acalmasse. Gostaria apenas de agradecer ao moleque do Salgueiro por ter cantado “Saco cheio”. Almir encarou-o com espanto e curiosidade. “Sim, estou cansado, muito cansado e é isso que se diz na música: ‘Deus já deve estar de saco cheio’. Ô, como estou!” O sambista ensaiou um movimento na direção do Pai, mas foi contido. “Não, querido, não se preocupe, é meu fardo”, e continuou: “Você bem tentou dizer aos homens, mas eles, mesmo tendo a faculdade de dialogar, são incapazes de alcançar a verdade. Você não vê? Olhe ali para o futuro: não demora muito, aquele energúmeno lá em Brasília dirá que fui eu quem o colocou num lugar no qual nunca deveria estar. Eu, meu Almir? Eu?” Deus suspirou, passou a mão sobre o corpo imaterial do sambista e aconselhou-o a passear pelo céu. “Logo você encontrará a sua turma: um tal Geraldo Pereira, outro tal Luiz Carlos da Vila, a forte Jovelina Pérola Negra, os seus, você sabe quem são, eu os chamo de as almas levadas do céu. Acredita que, mesmo não sendo possível produzir som nesse cantinho do infinito, continuam a se reunir em rodas de samba e a beber umas cachacinhas que — sabe-se lá outro Deus como — chegam a eles? Faço vista grossa. São os meus mais queridos inquilinos. Vá, vá, eles preparam uma festa para recebê-lo.”

25.6.17

Três leituras

Meu amigo Ricardo me deu “Águas-fortes cariocas” (Rocco), livro de Roberto Arlt, escritor argentino, contemporâneo de Borges, o cego. Águas-fortes era o nome da coluna que o escritor mantinha em um jornal de seu país, na qual escrevia o que se pode chamar de crônicas. Pois bem, em 1930, Arlt veio ao Rio de Janeiro, ficou por aqui uns dois ou três meses, e escreveu bastante sobre sua estadia  a Rocco, muitos anos depois, organizou o livro. Sua visão da cidade é, na perspectiva de hoje, no mínimo chocante. Primeiro, associa o carioca a um povo que não se dedica à alegria, trabalhador obstinado, que dorme cedo — várias vezes, o portenho despeja sua ira contra a cidade que, ao contrário de Buenos Aires, não tem vida depois das vinte e três horas. Mais: se surpreende com o grau de honestidade de nossa gente, incapaz de furtar o leite e o pão que, logo de manhã, são deixados à porta das casas. Nessa linha, sente falta dos malandros de sua terra, gente que lhe era próxima e que estava preocupada em achar formas seguras de assaltar uma casa. No entanto, seu maior espanto se dá quando descobre que muitos daqueles negros com quem eventualmente mantinha contato eram escravos havia menos de cinquenta anos. Escravos trabalhadores e operários incultos – novamente um contraponto com a Argentina, que, bem ou mal, tinha sindicatos e clubes que estimulavam a leitura — faziam do Brasil, na sua opinião, um país submisso. Perdemos nossa honestidade — aquela para argentino ver — nalgum momento, porém, e é aí que o olhar estrangeiro nos ajuda, temos sido um povo manso, excessivamente manso.

Sou velho, constato ao ler Eduardo Sabino, escritor mineiro de uma geração recente, que, se não vive, pelo menos é de Nova Lima. No seu livro de estreia, “Naufrágio entre amigos” (Patuá), ele faz uma espécie de coleção de contos de formação, expurgando a juventude. Minha tenra idade foi tão diferente daquela que escorre pelo livro, apesar de também ter tomado meus porres, ter enfrentado contratempos na escola. A diferença aparece no nome das bandas que os personagens ouvem, na forma como lidam com a internet e, principalmente, com a cultura dos jogos eletrônicos. Por conta dos jogos, aliás, boiei ao ler “Jogo de três”. De todo jeito, há contos menos datados, digamos assim, e um deles se tornou o meu preferido, “Strawberry fields forever”. A história se passa no dia em que morre a avó do narrador, cujo pai é o prefeito da cidade. Eduardo mostra, de um lado, o comportamento estudado e comedido do homem público, em torno do qual desconhecidos se debruçam com uma falsa solidariedade, e, de outro, já longe do teatro, em um ambiente íntimo ainda que inusitado, o seu desmoronamento.

Sou frequentador da livraria Travessa de Botafogo e tenho dois queridos lá: o Bruno e o Leonardo. Ambos são ótimos livreiros, mas, além disso e razão pela qual são tão bons no que fazem, estudam e escrevem. Pois bem, dia desses encontrei-me com eles e, durante o papo, me indicaram a Stela do Patrocínio (“Reino dos bichos e dos animais é o meu nome”, Azougue). Stela foi, assim como Bispo do Rosário, interna da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Se não entendi errado, alguma pesquisadora viu que a fala de Stela era poética e a gravou; Viviane Mosé, em contato com a gravação, transformou a fala em poema escrito. Não vou andar na corda bamba na qual Ivan Cavalcanti Proença se meteu ao dizer que Carolina Maria de Jesus — a escritora pobre e favelada autora do clássico “Quarto de despejo” — não fazia exatamente literatura, nem vou sair em defesa de ninguém, como o fez muito bem, neste caso, a Elisa Lucinda; simplesmente agradecerei a meus amigos livreiros e literatos terem me apresentado à Stela. Ela é capaz de dizer uma coisa assim: “Não deu tempo / Eu estava tomando claridade e luz / Quando a luz apagou / A claridade apagou / Tudo ficou nas trevas / Na madrugada mundial / Sem luz”. Pode ser apenas uma frase proferida por um doido, mas que frase, Deus da Poesia! Salve, Nise da Silveira, a psiquiatra que esteve na gênese de artistas tão fortes como a Stela e o Bispo.