9.6.13

Hablan Español

         Na década de 80, éramos comunistas, pero no mucho. Na realidade, alguns mais, outros menos, e nenhum metido em lutas armadas. Ficávamos no nível dos comitês de solidariedade. Na PUC, fizemos um pró-Nicarágua. Muitos latinos metidos aí, e entre eles, sim, uns exilados argentinos e chilenos com maior comprometimento político. Líamos Cardenal, o poeta e padre da Nicarágua, país do qual ouvíamos as músicas de resistência. Uma delas nos levava a dançar como só a música de um Tim Maia ou de uma Madona ousam fazer. O refrão desse verdadeiro hit era mais ou menos assim: “los oligarcas de ayer, los verdes claro de hoy”.

       Bem, daí a Borges foi um pulo. Daí aos Parras outro pulo. E tome Cortázar, Garcia  Marques, Sábato, Neruda, Inti Illimani e não sei mais quem.

          Pouco a pouco, foi-se construindo uma geografia inexistente, que definia um país que tinha início no sul do Uruguai e terminava no sul dos Estados Unidos. Tudo isso teoricamente, friso, ainda que não pareça necessário, porque, vocês sabem, ninguém se livra de pequenos rancores. Nem sempre o abraço de um argentino caiu bem num chileno, nem o desse num boliviano ou peruano. Porém, era no mundo das ideias que transitávamos, e nele, uma América só.

         Não sou dos saudosistas de plantão, no máximo sinto falta de quando não tinha barriga e o cabelo era pretinho — bem, mas isso não vem ao caso. O que interessa é que essa nostalgia me veio durante a viagem que fiz a Lima, no Peru.

          Encontrei a cidade em obras, o que aumenta o seu contraste explícito: uma cidade moderna, transitada por veículos — em especial os do transporte público — velhos; uma cidade cosmopolita, habitada por Incas ancestrais.

        Povo hospitaleiro, boa comida, trânsito caótico em ruas de poucos sinais, em suma, várias camadas do tempo num mesmo lugar. Susana Baca, cantora do país, retrata bem essa síntese. Canta seus folclores, canta também a música negra americana e ainda Milton Nascimento. Se não estou enganado, foi, como nosso Tom Zé, uma das pérolas (re)descobertas e lançadas nos Estados Unidos pelo bom líder do Talking Head.

        Minhas visitas a países de língua espanhola sempre se transformam em uma oportunidade para conhecer novos artistas, particularmente os ligados à música. No Peru, foi, graças a uma dica de meu primo Lucas, essa Baca, de voz doce e interpretação contundente. Na Argentina, conheci uma moçada nova, que anda sacudindo o velho e bom tango. O senhor Joaquín Sabina é da Espanha.

          Acho estranhíssimo que se conheça tão pouco a música dessa turma. Sabina, por exemplo, é um espetáculo moderno e antenado com o mundo em que estamos vivendo assoberbados. No Brasil, o único disco dele que encontrei nas lojas foi um gravado com Fito Paez, o argentino que o pessoal do Paralamas nos apresentou. Uma pena! Sabina transita pelo mundo de Almodóvar, artista que conhecemos tão bem, ainda que o cineasta seja mais novo que o músico. Não por acaso, uma de suas músicas é intitulada “Yo quiero ser una chica Almodóvar”. Sabina é engraçado, maldito e, como soam às vezes os hispânicos, um pouco brega — um produto com açúcares de Lobão, farinhas de Chico e baunilhas do Rei.

         Enfim, minha viagem a Lima trouxe de volta a sensação de que estamos longe daqueles que estão aqui mesmo, ao nosso lado, grudados até. Não deveria ser assim.

29.5.13

Tá limpo

Do site Bolsa de Mulher.

Gosto de sabão de coco. Sei lá por que razão, mas gosto. Fico chateado quando vou às compras do mês e falta esse item na lista.
É um sabão de múltiplas funções. Com ele, eu lavo o material usado na ginástica. Quando digo eu, sou eu mesmo. Volto da piscina e esfrego a sunga e a touca. E, para isso, sabão de coco, o mesmo com que se pode lavar a louça, embora lá em casa ao detergente líquido de maçã esteja reservada essa função.
Meu barbeiro conta que certa vez recomendou a um cliente usar sabão de coco no cabelo. O cliente chamou-o a um canto e disse-lhe que tinha uma condição financeira razoável, poderia comprar algo melhor. Sujo preconceito.
Nicolau, um colega de meus tempos de Belo Horizonte, lá pelos anos de 1977 ou 1978, só usava sabão de coco em seus longos cabelos. Nicolau, nunca mais o vi. Uma vez levei-o a Passos. Chegamos bêbados e saímos trêbados. Numa reunião na casa de um rolo meu, o Nicolau, em certo momento, se meteu na cozinha para preparar mais um drinque. Que drinque! Nunca vi nada igual antes ou depois daquele dia. Como haviam acabado o limão, a laranja e outras frutas (o próprio coco ou sua água cairiam bem) com as quais se faz uma boa batida, ele misturou a cachaça com leite e Nescau. A combinação não ficou boa, aliás, ficou péssima, mas bebemos tudo até o fim (dela e nosso). Reforço que o sabão de coco aplicado ao cabelo de meu amigo não explica a experimentação insana que fez. Foi a contingência, momento de uma sede transviada.
Na avenida Brasil, um dos principais acessos ao Rio de Janeiro, na altura de São Cristóvão, havia uma fábrica de sabão; de sabão de coco, inclusive. Era algo repulsivo, fedorento. A desindustrialização do Rio poderia ter melhorado a qualidade do ar, mas a avenida continua com cheiro ruim, agora por outra razão: há por ali uma usina de reciclagem de lixo. Atividade louvável a reciclagem, mas o odor...
A empresa de sabão foi desativada faz tempo e o prédio da fábrica sofreu um incêndio no ano passado. Dizem que a prefeitura pretende construir no local uma segunda cidade do samba, ou seja, um espaço para as escolas montarem seus barracões e, neles, prepararem o carnaval. Assim, concluo, o sabão cede espaço ao samba; ou a indústria, à cultura, coisa rara. Resta torcer para que os envolvidos nesse projeto mantenham suas mãos limpas, lavadas ou não com sabão de coco.
O sabão de coco é apenas umas das maravilhas produzidas a partir do coco. Fruto moderno, muito antes de os dias atuais demandarem trabalhadores capazes de desempenhar mais de uma função, já era usado tanto como alimento (doce ou salgado) e óleo quanto como matéria-prima para bijuterias, enfeites e instrumentos musicais. Não é pouco, e só mesmo um desalmado compositor se atreveu a dizer que havia enjoado de um amor, que nem era doce de coco. Iê-iê-iê mais bobo, sô!
Não, nunca lambi sabão, nem de coco. Quando me mandam, e mandam com frequência, desobedeço de cara limpa. Sou dissimulado; assim mesmo, ou justamente por isso, invejo um amigo por afirmar orgulhoso que na casa dele quem manda é a mulher, mas quem desobedece é ele.

6.5.13

Decisões de um fim de domingo


Amanhã, logo cedo, vou escrever uma carta nos moldes antigos — colocarei no envelope e, depois de selada, levarei aos correios — para a Perpétua, antiga auxiliar de minha mãe no Lactário. Direi a ela que sempre gostei do seu jeito calmo e, do mesmo modo, do seu nome. Se eu me chamasse Perpétuo seria um fiasco paternal sem rima alguma, mas nela o nome tomou feições de sublime, artístico.

A Pair of Shoes, Van Gogh

Fugindo de um dos meus princípios, o de não engraxar sapatos para não tirar deles sua história, é provável que, depois dos Correios, eu entre na engraxataria da Rua da Assembleia e encomende o básico: graxa, sem tinta. O sapato é velho, não nego, mas nada de apuro exagerado. Lá — sei porque já fui outras vezes — o engraxate nos convida a subir numa banqueta alta, da qual se vê o mundo de cima. Confesso que fico um pouco constrangido, tanto por me ver em destaque, mas principalmente por ter alguém a meu serviço em posição tão subalterna. Mais uma razão para odiar engraxar sapatos. Mas, é fim de domingo, bom momento para quebrar ao meio certezas arraigadas.
Com os sapatos limpos — ou seja: sem as digitais de minha história recente (os sapatos duram pouco e guardam, quando muito, um cisco de nada de nossas vidas) —, sentarei numa praça. Uma mulher bonita há de passar por ali, então, planejo de antemão, olharei para ela com todo o respeito possível. Nas suas formas caberão tão bem as minhas! Mas evitarei esse caminho do desejo e trilharei outros. Se ela tiver pedigree de moça bem-sucedida, cujos estudos em boas escolas deram-lhe o emprego cobiçado por um a cada dez jovens no mundo, pedirei a Deus na sua infinita bondade que a poupe de despautérios, que não a faça viver momentos de decisões amargas, muitas vezes cruéis. Que não se coloque em sua vida, por exemplo, financiamento de guerras, maracutaias empresariais, canalhices dessa ordem.
Posso evitar a praça. Sair do engraxate, tomar o rumo do antigo Cais Pharoux, ali embarcar numa balsa para Niterói e, lá, encostar-me a um balcão de um bar qualquer. Provocarei o atendente, dizendo-lhe que consigo lamber o cotovelo enquanto pulo num pé só. Decerto ele estará cansado de fregueses tão sem-noção e, automaticamente, se debruçará sobre o balcão a fim de ver o espetáculo. Eu, que desconheço quem tenha essa dupla habilidade, recorrerei a um escancarado blefe para forçar uma simulação. Quando terminar, raciocinarei que cometi um ato vil, desrespeitoso, mas será tarde, restando apenas o consolo de culpar o domingo por decisão tão disparatada. Como forma de compensar o rapaz, disposto a pagar o dobro do preço registrado no cardápio, pedirei um caldo de cana e um joelho. O joelho fará com que me lembre do cotovelo e acabarei rindo, o que poderá deixar o balconista severamente chateado.
Se sair ileso de Niterói, terá chegado o momento de trabalhar. Ou já até terá passado. Neste caso, farei uso do banco de horas, essa invenção das empresas para cobrar nossos atrasos e não pagar nosso excesso de horas trabalhadas. No escritório, não sei se notarão o lustre de meus sapatos. É possível que um ou outro brinque com o fato, insinue que estou de olho em alguma moça nova, coisa ridícula e corriqueira que acomete homens de meia-idade. Darei de ombros, mais interessado em contar da Perpétua à turma. “Foi uma paixão?”, perguntarão curiosos. Quando lhes disser que não, Perpétua é apenas um nome bonito para identificar uma moça amável que trabalhou com minha mãe há uns quarenta anos, ficarão decepcionados. Não me restará alternativa a não ser a de confessar-lhes que, não faz muito tempo, assisti a um milagre. “Verdade?”
Sim, vi uma senhora na casa dos oitenta anos cair de uma altura de dois metros, dar uma cambalhota no ar e pousar no chão sem sofrer nada além de uns pequenos arranhões. Não é um milagre? Na segunda-feira, contarei isso aos que não creem nas leis da física.

3.5.13

De volta ao miojo


Numa prova do Enem, um rapaz, não de todo bobo, ao escrever sua redação sobre a questão da imigração tascou, entre raciocínios que capengavam com sujeitos separados de verbos por minúsculas vírgulas, uma receita de miojo. Ferva a água, jogue a massa e o tempero, espere três minutos e pronto! Assim mesmo. O encarregado de corrigir a redação não achou nada de outro mundo e deu ao rapaz uma nota razoável.
Mal começou a circular a notícia, os batalhões dos apaixonados por todas as causas começaram a duelar. De um lado, os que viram no fato o fim do mundo. De outro, os que contemporizaram e disseram que, numa perspectiva menos rígida, a coisa não seria tão terrível assim. Poetas, como o meu xará Alexandre Marino, consideraram poética a atitude do rapaz — de fato, é.
Alphabet Soup Talk

Parei de acompanhar o bafafá quando os linguístas saíram da toca e entraram na luta. Ao prender-me a questões eruditas, perco horas que podem ser gastas na vagabundagem, tempo suficiente, por exemplo, para fazer uns quinze miojos e umas três redações sem grandes erros. A gula e a pretensão são meus pecados interioranos.
Bem, não posso ficar aqui dourando a pílula, que, aliás, nem sei se teria uma receita própria para ser dourada. Sou A? Sou B? Sou da laia dos poetas? Respondo assim: grã, foi engraçado, mas é triste.
Foi engraçado o bafafá todo, a inteligência daqueles que, diante da jogada arriscada do candidato, saíram em defesa da lógica menos cartesiana, a mesma que rege o texto literário. No limite, seguindo esse raciocínio, o garoto tirou uma nota baixa.  
É triste, e cozinha meus miolos, o fato de o Enem, que está sob a supervisão do MEC, colecionar mais um desacerto. Não bastou o vazamento das provas na época em que Haddad era o ministro. Agora não é a redação do rapaz, nem seus erros, muito menos sua nota, mas o fato de o MEC não sair em defesa dos critérios das provas que aplica, preferindo acenar para a mudança deles, que passariam a não permitir brincadeiras como as do miojo ou a do hino do Palmeiras, incluído em outra redação.
Ou seja, se o rapaz não é um alienado e ignorante, mas um cáustico humorista, a vida para ingressar na faculdade não será fácil. O governo decidiu, numa canetada e atônito diante da pressão da mídia e das redes sociais — e sem ouvir os poetas, aliados do momento—, sangrar o bom humor. Não adianta ter simpatia pelo Haddad e pelo Mercadante, os fatos jogam contra eles.
O jovem no futuro chorará no ombro da história, nostálgico do tempo em que quem sabia uma receita de miojo era douto. E como de douto pra doutor falta um errezinho de nada, coisa que sempre se acha nessa sopa de letrinhas que é viver no país da bagunça cotidiana, ele, coitado, terá chegado atrasado à festa. Aí não adianta bom humor. Nem chorar sobre o leite derramado.

12.4.13

Que fevereiro foi esse?


Do ponto de vista do universo, dos universos, melhor dizendo, caiu um pedregulho na Terra, logo ali na Rússia. Um pedregulho, e todo aquele estrago. Como somos pequenos!
Duas estagiárias do Senado Federal foram demitidas por terem postado no Facebook a foto de uma ratazana encontrada na gráfica do próprio Senado ao lado de um comentário do tipo: “Renan Calheiros não é o único problema.” Abandono a discussão importante a propósito de se as meninas deveriam ou não ser demitidas, se as empresas deveriam ou não bisbilhotar a vida virtual de seus funcionários etc. e tal. Prefiro dizer que essa história mostra bem como o Renan está “pedindo”. Não só ele, claro, todos os senadores que o recolocaram como presidente da casa em que nem deveria entrar.
Há uns vinte anos, o médico que trouxe à luz meus filhos mais velhos mudou-se do Rio para Santa Catarina. Fugia da violência. O mundo dá voltas, camará.
Não entendo dos meandros do poder do Vaticano, sei avaliar, quando muito, como Bento XVI tem-se mostrado conservador em muitos assuntos. Logo, não reajo nem com alívio nem com apreensão a sua renúncia. Por outro lado, ri com algumas tiradas em torno desse assunto. No Facebook, além de lançarem Sarney, Lula e Malafaia como candidatos à sucessão, fizeram uma charge na qual o Papa incentiva a renúncia do Renan, pois, se ele, que é Papa, renunciou, o que impediria o senador de fazer o mesmo? Tenho amigos sérios e que entendem de política de modo geral, a do Vaticano em particular. Eles me disseram que alguns possíveis substitutos do Papa podem fazer com que consideremos light o conservadorismo do que se despediu em fevereiro.
Um acidente na Avenida Brasil envolvendo um ônibus não é raro, mas acidente provocado por conta de um passageiro indignado ter agredido o motorista que não quis parar fora do ponto já não é assim tão comum. O passageiro é um desequilibrado, não resta dúvida, e, se hoje ele agride por motivo tão banal, amanhã poderá fazer coisa pior por outros vãos motivos. Não conheço o desfecho da história, mas aproveito o incidente para refletir sobre o seguinte: ponto de ônibus no Rio de Janeiro é mais uma ideia do que um lugar onde as linhas A e B param e a C não. Sim, os motoristas fazem o que querem. Não só eles, nós, os passageiros, igualmente. É um tal de pedir ao “motô” — somos sempre transgressores gente boa — para abrir a porta um minutinho. Além disso, acho incrível uma coisa: em frente a minha casa, há um recuo para os ônibus pararem para embarque e desembarque. Com isso, saem um pouco da rua, e o trânsito flui normalmente. O que acontece? Os passageiros ocupam esse lugar, e os ônibus param no meio da rua, e a rua vira o caos. Somos miúdos, mas nossa estupidez não.
Vaticinei há um tempo: Yoani Sánchez não viria ao Brasil. Naquela época, não viria por não conseguir o visto para deixar Cuba. Pois bem, minha “profecia” se concretizou, só que agora, apesar de ter estado por aqui, ela continuou não vindo, pois não a deixamos circular livremente, lançar seu livro, participar do debate sobre um filme no qual dera um depoimento. Cerceamos a moça que, se não tivesse sido constrangida, poderia ter respondido a muitas perguntas que esclarecessem exatamente quem ela é. Qualifico essa passagem da blogueira por aqui como um vexame nacional. 

Fevereiro não foi um mês como outro qualquer. Nunca é, por causa do carnaval, essa coisa toda. Mas a renúncia do Papa, a queda de um meteoro e a vinda/não vinda da Yoani Sánchez ao Brasil tornaram o esquisitão fevereiro mais esquisitão ainda. Que doideira! 

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E veio março. Um Papa Argentino: de um lado, mais piadas e, de outro, uma esperança política na sua figura controversa. E outra briga num ônibus municipal no Rio de Janeiro vitimou 7 pessoas. E três homens, enlouquecidos e reincidentes, estupraram na van (deveria ser apenas mais uma possibilidade de transporte público) uma turista francesa. Esperamos por abril ou já jogamos a toalha e ficamos na expectativa de 2014?

30.3.13

O passado é azul coisa nenhuma


Mamãe ralhava comigo só de pensar nos possíveis amigos mais velhos que eu pudesse ter. Tinha medo de que, inocente, eu aceitasse uma proposta para fazer bobagem com eles. Fazer bobagem era alusão ao sexo, portanto mamãe tinha medo de que os meninos mais velhos (nunca as meninas) abusassem de mim, seu caçula. Naquela época não vinham à tona os casos de pedofilia, mas Dona Haydée era ciosa de sua prole e temerosa de que algo de ruim atingisse os filhos. Nada diferente de outras mães, a não ser o fato de a minha ter sido um pouco mais medrosa que a maioria delas.
Os meninos “grandes” não me fizeram nenhum mal, e pela vida afora, sem trauma, sempre tive amigos mais velhos. Ainda os tenho, apesar de um ou outro já não estarem entre nós. Fazem-me falta, mas morrer é desígnio da vida e conformar-se é imperativo.
O convívio com os mais velhos — não na infância e adolescência, quando, de fato, a diferença de idade não passava de dois, três anos, mas agora, na aurora dos meus cinquenta anos — coloca dois mundos em confronto. O meu, de rapaz do interior de Minas, da década de 1960; o deles, de nascidos em torno de 1940, vindos ou não do interior. No espaço de vinte anos, menos até, o Brasil sofreu uma tremenda mudança, e isso fica patente se me comparo àqueles que vieram à luz durante a II Guerra Mundial, por exemplo. Eles estudaram latim no primário, viveram na pele a ditadura militar e, para não ser exaustivo, sofreram um bocado para transar com a namorada. Nunca estudei latim; a ditadura estava dada quando “virei gente”, portanto sofri suas consequências — uma delas a de ter uma escola menos crítica, mais tecnicista —, mas não fui submetido aos constrangimentos físicos pelos quais passaram aqueles que se voltaram contra ela; e as namoradas da minha geração, nem todas, claro, mas uma grande parte delas, foram mais liberais.
Matuto a respeito de manter amizades como essas. Acho que perduram em grande parte pelo fato de nenhum dos meus amigos “velhos” serem nostálgicos. Deles não ouço nunca, ou quase nunca, a afirmação de que o passado era melhor que o presente. O presente tem o rabo preso com o passado, e eles sabem disso. Acertos e erros atuais foram semeados ontem.

Otto Lara Resende dizia que tudo visto de longe — seja em termos de distância (a terra, pelos astronautas), seja em termos de tempo (o passado longínquo) — é azul. Bela imagem do escritor mineiro, mas, na realidade, o passado é bom porque nele fomos jovens. E, quando se é jovem, tudo é fulgurante. Amamos com intensidade. Não somos moderados ao comer e principalmente ao beber. Como dizia o Renato Russo, vivemos como se não houvesse amanhã.
Os medos de minha mãe foram infundados, e hoje ela se espantaria ao saber que seu caçula passou a ser o amigo mais velho de muita gente por aí. Nessa condição, espero não perder de vista que o azul do passado é apenas o reflexo dos tempos em que fui senhor do mundo.

1.3.13

Rir e chorar


Meu caçula diz que pela primeira vez me viu rindo, rindo pra valer, agora à porta de seus treze anos. O riso fora provocado por uma matéria de Felipe Marra, publicada na Piauí de dezembro de 2012, sobre o comportamento das torcidas de futebol no Reino Unido. Bem, o grave disso tudo foi eu não ter rido durante treze anos. Como pode? Como pude?
Devo explicar a meu Pedro que não comungo de extremos. Quase nada me mata de rir. Tampouco me leva às lágrimas. Coisa de homem desconfiado, cético, sempre com um pé atrás. Homem também (principalmente) ignorante. Sim, sou um ignorante incapaz de rir a rodo. Ou de chorar baldes de lágrimas.
Aqui levo tudo ao pé da letra. Rir é gargalhar, abrir a boca, fechar os olhos, tremer-se todo. Chorar, contorcer-se, fungar, desidratar-se até. Nos dois casos, sair de si. Difícil que eu chegue ali ou lá. Falei em ceticismo, mas talvez seja insensibilidade, incapacidade de me matar (de rir) na piada e/ou de morrer (de chorar) numa possibilidade de tragédia. Burrice emocional.
Preciso dizer a meu filho que não veja em mim um homem duro e pessimista. Ao contrário, acho a vida boa, apesar de tantas coisas estranhas que acontecem por conta de nossa irresponsabilidade. Por exemplo, a morte dos jovens que dançavam na boate em Santa Maria.
A maldição é como me apego com unhas e dentes à razão, ancorado no mar sem eira nem beira da minha ignorância. É grave, gravíssimo. Mas é assim, sou refém desse meu traço.
Dou um cavalo de pau nesta crônica e, à procura de um exemplo que me ajude na explicação ao meu filho, falo do livro do Keith Richards (“Vida”, Editora Globo). O cara é um doidão, todo mundo sabe. Ao longo do livro, ele descreve coisas do arco da velha, algumas devem ser hilárias. São, de fato são, eu que não consigo me entregar simplesmente ao riso. Todos os excessos do cara me deixam um pingo e meio amargo.
E Amor (“Amour”, de Michael Haneke)? Uma amiga, escorpiana como eu, afirmou que somos dos poucos que conseguem ver um filme desses sem abandonar o barco. Ele é duro. A linguagem é dura. Não há, aparentemente, uma linha de escape, os velhinhos estão mais pra lá do que pra cá. (Mas com que elegância percorrem o último caminho!) A atuação dos atores, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, não deixa meia-brecha para pensarmos que estão apenas encenando. Está ali a verdade. (Mas é arte, não é vida; é imitação da vida, como se diz por aí.) Não sucumbi à decadência. Vi todo o esplendor do amor semeado naquele casal de velhos, vi, por exemplo, que eles tiveram uma vida sexual boa e saudável. Não me perguntem como vi, mas eu vi. Não dei banana para a tristeza que há na história contada pelo diretor austríaco, mas encontrei motivos para não chorar.




29.1.13

Coisas da prima


Filha da tia Expedita e do tio Tonico, Rita é a prima que inspira esta crônica. Morava na Primeira Chapada antes de sair de Passos, há tempos. Casou-se em Ribeirão Preto com um bom Edson e, mesmo naquele calor medonho, ela e ele trouxeram à luz André e Thiago.
Rita é a maior contadora de casos do mundo. Ela memoriza as histórias, sabe encontrar o lado jocoso de cada uma delas e, quando se dispõe a contá-las, tem a manha de como segurar a plateia. Quem a conhece talvez concorde comigo; os outros, principalmente os muito jovens, terão de botar fé na minha afirmação — ou acompanhar esta crônica e tirar as próprias conclusões.
Sem o charme da prima, conto uma das inúmeras que ouvi dela. Eu a conto porque, neste mundo de urgências e importâncias superlativas, essa história é, como a maioria do repertório da Rita, sem importância alguma. É apenas caseira... e deliciosa. Com ela, o mundo fica assim também: caseiro e delicioso. Por alguns momentos. Que seja!
Ocorreu em Passos entre os anos de 1950 e 1960. Época festiva, de muitos bailes, acabou, sem querer, fissurando a felicidade de um casal bom de dança. Quem olha de fora os dramas alheios tende a achá-los miúdos, coisa de somenos. Não sejamos assim, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” (Caetano Veloso). O casal com problema dançava o fino, poucos chegavam a seus pés, mas, e aí estava o busílis, entrava mudo e saía calado da pista.
Certa vez, por exemplo, bem ao lado do casal, uma dupla desengonçada, tropeçando nos próprios pés, vagava alegre e falante música adentro. A moça ria, o rapaz falava. O rapaz ria, a moça falava. Outro casal mais adiante nem sequer dançava, isso mesmo, nem sequer dançava. Ficava parado no salão, jogando os ombros para um lado e para o outro sem sair do lugar. Em compensação, quanto assunto! Ela se afastava, tirava uma das mãos do rapaz e acrescentava gestos a um assunto infindável. Ele franzia a testa, muito concentrado naquelas palavras. Educado, quando encontrava uma brecha, falava baixinho, olhando bem nos olhos da parceira. E balanga pra cá, balanga pra lá. E tititi, tititi, blablablá, blablablá. O casal com problemas saiu da pista arrasado, apesar de ter dado, como de costume, um show no foxtrote, na valsa, em tudo que a orquestra soprou.
Baile na Roça - Di Cavalcanti.

Outro dia, antes do baile, a mulher chamou o companheiro a um canto e espetou-o com o tridente de sua diabólica inveja.
Ele não reagiu com menosprezo, ao contrário, concordou com ela, pois sentia-se desmoralizado socialmente. Onde já se viu aquele silêncio? O que achariam deles? Um casal com problemas de relacionamento? Casamento de fachada? Tomassem uma decisão.
Decisão... Essa estava dada, bastava falar um com o outro. Mas o quê? Falar, a bem da verdade, poderia atrapalhar o casal, perturbar o entrosamento rítmico cobrado pela dança. Diante da possibilidade de dançar mal, abateu sobre cada um o silêncio dos silêncios. Nem música, nem nada ali entre eles. A solução acabou assaltando, de estalo, a cabecinha inteligente da mulher.
No baile daquela noite, o casal dançou e falou exultante. Para ser sincero, não foi exatamente uma fala. Eu conto.
Mal colocaram os pés no salão, ela disse: “1, 2, 3”, e ele emendou: “4, 5, 6”. Daí, ela: “7, 8, 9”.
Numa animação de dar inveja, contando de três em três, vararam a noite sem arredar os pés do salão.

11.1.13

Outra pedra no caminho


“Nunca me esquecerei desse acontecimento/na vida de minhas retinas tão fatigadas./Nunca me esquecerei que no meio do caminho/tinha uma pedra...”


No início pedra era uma parte solta ou o todo de matéria rochosa. Ou coisa correlata; o granizo, por exemplo, ainda que este dure pouco na condição de pedra. Pedro, homem pétreo, por associação. Não faz muito tempo, chegou Drummond com o enigma da pedra no caminho. Era ainda a pedra, e não era mais a pedra. Não mais a dura expressão da natureza, mas a síntese do que, na vida, nos leva ao tropeço. Os problemas, as dúvidas; por aí.
É recente a pedra entorpecente, aquela para a qual se corre na esperança de dar um cala a boca na dor. A pedra que, ao contrário da pedra, se transforma em fumaça com um pouco de fogo nos seus fundilhos. A pedra que amealha destruição em doses alopáticas.
O poema de Drummond ganhou nova leitura. A pedra agora é essa sem vínculo direto com a natureza. A pedra química. Joãozinho, o eterno personagem das piadas, analisaria o poema dizendo que a pedra no caminho do poeta é o crack. No caminho de Drummond! A piada fincando o dedo na ilibada poesia, na pretensão filosófica do homem de Itabira, cidade cujas flores são pedras e das pedras vive. A rua invade o santuário da literatura.
(Não consegui descobrir de quem é a imagem. Tirei deste site)

Tudo muda. As palavras ganham novos sentidos. Não poderia ser diferente com a poesia, soma de palavras. A piada sopra aos nossos ouvidos uma leitura contemporânea possível ao poema-enigma de Drummond. Correta até. Presa às suas linhas.
Podemos reclamar de que subtraímos de Drummond sua magia, o seu alcance. É que os dias de hoje são assim. São? Não são? Muita calma nessa hora. É uma leitura de muitas à mesa. Aquelas enraizadas, clássicas por assim dizer; também outras que se apegam à imensidão de significados possíveis da pedra no poema. E esta, piada ou não.
Poema inclusivo, “No meio do caminho” é aberto de tal maneira que traduz o presente tanto do século XX, morto e sepultado, quanto o de agora, em fraldas, aprendendo a engatinhar. Se o mundo não se acabar, dirá alguma coisa para o XXII.
Logo, a pedra bem pode ser um tijolinho de crack. Encontrá-la nunca mais saiu das retinas do viciado, ainda que a lembrança, esta e qualquer outra, não passe, no caso dos noias, de um lampejo de uma efêmera e fantasmagórica lucidez.


31.12.12

Duas faces da honra


Não fui adolescente de briga. Meus amigos eram e, até hoje, se orgulham disso, defendem que nossa turma era a melhor de todas no quesito tapas e pontapés. Não era um deles nesse aspecto, briguei uma única vez, assim mesmo o que houve, no escuro da boate, foram duas tentativas de socos de ambos os lados. Eu estava certamente embriagado, devo desculpas ao meu oponente, que, aliás, não sei quem era, apesar de saber por quem eu armara toda aquela confusão.
Antes de entrar na adolescência, aí sim, tive uns ataques de valentia. Certa vez, lá no Beco, mandei enfileirar os meninos e enfrentei um de cada vez. Noutra ocasião, num arranca-rabo com um dos meus melhores amigos, fui dar-lhe um chute, ele segurou meu pé e me derrubou no chão. (Com esse tombo, ruiu meu pendor de lutador de rua.)
Depois da queda, certo de que era um homem, ainda que não passasse de um projeto de homem, exigi, do alto da minha honra, que meu amigo que me aplicara aquele maldito golpe nunca mais dissesse meu nome; eu não diria mais o dele. No outro dia, continuamos com a nossa velha camaradagem, apesar de adotarmos um genérico Zé para nomear um ao outro. Há muito tempo não o vejo, mas ainda hoje penso nele como Zé.
A honra. Que estupidez! Por ela, criam-se segredos absurdos e fica-se preso a uma desavença de infância. Há aqueles que vão além: matam a mulher que não admitiu ficar presa à insatisfação ou o vizinho abusado que fez fiufiu para a filha adolescente do assassino.
Alguns dos Chicos

Além do amigo que virou Zé, a vida me ofereceu outros Franciscos. De cara, nasci ao lado de alguns deles. Meu tio Chico. O primo Chiquinho. Depois, noutros paralelos, Chicos artistas, curtidos de longe. Recentemente, o Francisco Mendes, escritor lá de Belo Horizonte. Houve outro Mendes, o seringueiro símbolo da luta a favor do meio ambiente. Ah, sim, e o Chico Lopes, fazendeiro amigo de meu pai e pai do Armandinho. Não me esqueço do meu melhor professor de economia, Chico Lopes também. Sim, ele mesmo, o ex-presidente do Banco Central que se meteu num escândalo de tráfico de interesse, isso que sói acontecer com alguma frequência em nossa terra tropical. A lembrança do mestre me faz pensar num outro sentido da honra.
Quando falo honra, também estou dizendo lisura ou, mais diretamente, idoneidade. O mundo do dinheiro não raramente é comparado à vida selvagem. Uns devoram outros. Devoram-se porque têm fome de grana, de mais grana, de grana até não poder mais. Nessa luta, se falta lisura, se falta honra, os golpes baixos são a regra; e a barriga dos famintos por dinheiro não enche nunca. Falo dos esfomeados que são uma espécie de tigre de pança sem fundo, obrigados, por isso, a caçar sem trégua. Num mundo assim, o golpe baixo é a regra. Nós, os que nos saciamos com pouco, ficamos espantados. Eles, os tigres insaciáveis, não estão nem aí para o nosso espanto.
A honra, lei sem letra, mantém um compromisso apenas apalavrado. É esse sentido de honra, não aquele fútil do homem que não esquece a briguinha de infância, que falta na selva onde se comem os que almejam a riqueza a qualquer custo. E isso tem feito um estrago tremendo no Brasil que engatinha na democracia.

10.12.12

Olhando para dois lados


O de dentro

Como dar nó numa onda ruim? Nunca surfei, não tenho nem resposta nem metáfora para usar aqui. Assim, o que posso dizer é que o acaso faz das suas.
Situo-os. Dois amigos meus estão passando por problemas de saúde. Estão melhorando, graças à medicina que, realmente, é fantástica, apesar de nos assustar com seus métodos às vezes bárbaros. Não vou falar de medicina, foi só um comentário. O fato é que dor de amigo nos deixa prostrados. Meus amigos hoje são avós, são pais, logo, ao redor deles, há toda uma rede de dependências, no mínimo afetivas, e a doença seciona-a, pelo menos enquanto tudo fica em suspenso, à espera.
Nesse contexto, dia desses, tomei o ônibus de todos os dias. Nele, cumpri meu ritual: sentar, de prefência à janela, colocar a mochila sobre as pernas, abri-la e tirar lá de dentro a leitura do dia; depois, claro, ler até a hora de descer na Lapa, a dois quarteirões do trabalho. Enquanto me acomodava, meus olhos foram espiar a rua. Lá estava ele. Reconheci-o de longe, enquanto caminhava em direção ao sinal em que meu ônibus estava retido. Usava sua touca branca. Quando se aproximou bastante do ônibus, confirmei, era o Egberto Gismonti. Numa rua de Botafogo, transeunte comum, um de nós. No entanto, era Egberto, o Gismonti. Moço do Carmo, que desceu a serra e, graças à música, é do mundo.
Esse foi o acaso que me confortou. Alguém achará estranho a imagem distante de uma pessoa poder confortar outra. No meu caso, confortou. Quer dizer, o que me confortou, de fato, não foi a imagem, apesar de a figura de Gismonti inspirar certa tranquilidade. Há algo de magia nele. O que me deu alento foi a música que minha memória resgatou e, mais do que isso, foi a lembrança de algumas situações ao longo da vida em que duas gotas da música gismontiana deram-me tranquilidade e discernimento para suportar os maus momentos. Gismonti, a música dele, me põe nos eixos. Vê-lo, lembrar-me de sua música e, ao chegar ao trabalho, ouvi-la deixou-me mais tranquilo, esperançoso. Meus amigos ficarão bem, mesmo que isso leve um tempo.

O de fora


Em 2008, o Cordão da Bola Preta, bloco mais que tradicional do carnaval do Rio de Janeiro, foi despejado de sua sede na Cinelândia. Passou um tempo, o governador cedeu ao bloco um prédio na esquina das ruas Lavradio e da Relação. Não tardou muito, o Bola organizou o espaço e, até onde sei, funciona bem. Porém este ano, parte do imóvel recebido desabou e, por sorte, não feriu ninguém.
Circulo por ali todos os dias, pois trabalho na esquina da Lavradio com a avenida Chile, esta uma extensão da rua da Relação. Então sei o que ocorreu depois do desabamento. Sei o quê? Nada. Nadinha. Necas. Nem a Prefeitura. Nem o Governo do Estado. Nem a Defesa Civil. Nem o Bola Preta. Ninguém moveu uma palha para dar um jeito na construção-destroço. A foto a seguir foi tirada por mim mesmo, não faz muito tempo. A situação é esta. Acho que a ideia é que, com a chegada das chuvas, finalmente se produzam as vítimas que o desabamento por si só não foi capaz.
Quero estar errado.
Foto de Alexandre Brandão.

29.11.12

Alô, é o novo prefeito?


Novo prefeito, velhos problemas.
Novo prefeito, novos problemas.
O homem que se candidatou a prefeito sabe e, é o que se espera, prepara-se para enfrentar toda gama de problemas. (Ninguém entra de gaiato no navio.) Sabe que não basta sair por aí asfaltando ruas, melhorando o sistema de esgoto, disciplinando o trânsito. O bom prefeito vai às calçadas ouvir os habitantes, inclusive os que não votaram nele, e — sem golpe baixo ou interesse espúrio— costurar alianças. A população demandará obras, é fato, mas também matéria de outra natureza. Alguém vai querer saber quem matou a Soninha ou o Pelé dos Queijos. Não é da alçada do prefeito, mas um pinguinho de responsabilidade sobre a questão da violência recai sobre ele. Além disso, somos carne e alma, e esta quer aquilo que, como a própria, seja intangível.  A cultura, por exemplo.
Arco amplo, que vai da culinária à poesia, do modo de falar ou da moda à música, da preservação do patrimônio histórico às festas populares (carnaval, folia de reis, exposição agropecuária etc.), a cultura é manifestação espontânea, mas, para ganhar terreno e tornar-se bem comum, precisa, quase sempre, da intermediação do governo.
No campo das artes, tenho a impressão de que Passos avançou nos últimos anos. Cito alguns exemplos que me vêm à mente. Alguns músicos tocam em locais adequados (Magrão e família, por exemplo). Há grupos de teatro em plena atividade (muitos se beneficiam da reforma do Teatro do Rotary). Há avanços no campo audiovisual, como é o caso do Festival Selton Mello (ligado à FESP), sem contar a incansável determinação do Itamar Bonfim. É possível detectar alguma resistência no campo do folclore. Acompanho no Facebook a mobilização do grupo “Memória de Passos”, administrado por Jesuína Faria, Heliza Faria, Leila Andrade, Sílvia Mendonça, José de Paula Silva e Welfare Joele. Preocupado com a preservação do patrimônio histórico, esse grupo será, ou poderá ser, ou mesmo deverá ser, uma voz política importante nas discussões em torno da municipalidade.
Nas comemorações do aniversário da cidade, foi dado um passo e tanto na incorporação da literatura como evento que transcende as salas de aula ou os encontros de escritores como o Intercâmbio Literário (Hilda Mendonça à frente). A Festa Literária de Passos, a FLIPassos, foi executada com sucesso pela administração derrotada no último pleito. Se a política for levada como disputa de rua, briga de vândalos, o atual prefeito dará as costas ao evento, se prenderá a críticas irônicas e rasteiras e a vida continuará, com perda clara para todos os munícipes. Se fizer política com pê maiúsculo, a FLIPassos será analisada, reformulada (se preciso) e repetida nos próximos anos.

Como acredito na força libertadora (e transgressora, vá lá) da literatura, não sento e espero, trato de pressionar o novo prefeito, o que, do ponto de vista da democracia, é legítimo. Assim, senhor Ataíde, descontinuar a FLIPassos será pisar na bola, pois estamos falando de um evento-investimento, cujos frutos serão colhidos no futuro — futuro próximo. Dando prosseguimento à festa literária (o Governo Federal tem verba para destinar a municípios interessados em eventos desse naipe), todos nós, em breve, nos regalaremos com suas consequências. Pense nisso enquanto cuida das inúmeras outras questões que o aguardam a partir de janeiro. Desejo-lhe sucesso, pois indo bem sua administração Passos poderá vir a ser uma cidade melhor.

7.11.12

Minhas outras vidas



Antes de ser animal, fui coisa. Não na acepção que mãe ou mulher vez ou outra costumam dizer: Esse é uma coisa! Não nesse sentido: fui, de fato, um abajur. Deixei à meia-luz a solidão rotineira das famílias de classe média, enquanto na TV, coisa que nunca fui, exibiam-se, em novelas, as mentiras de um país idealizado. Não posso me queixar, também alumiei pegas de um casal beirando os cinquenta e de guris aproveitando-se da ausência dos pais.
Quebrado durante a mudança de Brás de Pina para Pirenópolis, meus caquinhos juntaram-se noutra coisa. Não fui mais de cerâmica, perdi as funções, o lugar na sala e passei a ser um enxadão. Arei o deserto, cavei terra em fundo de rio, assassinei um infiel. O sangue ficou sempre ali, nunca me lavaram nem voltaram comigo ao batente. Enferrujei ao lado de um catre de palha de um joão-ninguém.
O vigor de enxada levei para meu período de caminhão. Transportei boi, transportei boiada, transportei mercancias de todos os tipos e melancias de um tipo só, podres, desprezadas até por porcos. Fui e voltei. Rateei em ladeiras tímidas, perdi o freio quando o motorista perdeu o medo e acelerou onde não devia. Passei a beber muito óleo e a esfumaçar o mundo com ganas de furar a camada de ozônio. Pum de caminhão faz frente ao de caprino.
Divertido meu tempo de objeto erótico. Ficava esquecido numa gaveta, sufocado por calcinhas e peças indelicadas jogadas ali sem motivo algum: canivete de um tio distante, anel de latão com que o primeiro namoradinho presenteou a menina romântica, cotonete, isso mesmo, até cotonete, vez ou outra usado. Isso era nada perto do momento em que eu saía do armário. Para dizer a verdade, era arrancado de lá e era... e era mais uma vez... e assim tantas e muitas. Uma diversão só. Mimi um dia se cansou de minha virilidade sem fracasso. Como não se dá consolo usado de presente, fui parar no lixão.
Graças à reciclagem, voltei ao mercado ora como enfeite barato, feito à máquina, ora como lantejoula usada no carnaval gaúcho. E ainda como isqueiro que nunca funcionou muito bem. Do antigo vibrador, apenas a parte na qual se coloca a pilha ficou no lixão. E ali ficará, pois não há natureza que absorva esse trocinho de metal.
Quis ser a nave que foi a Marte, porque assim me isolaria desse mundo de coisa ao redor das coisas. Não fui, sobrou o trabalho duro de triturador. Não gostei de liquidificar cenouras e cebolas. Tampouco de ser, depois, carro de fórmula um. Guardo boa lembrança do verão em que fui um ventilador pequeno, que refrescava pouco. Eu me lixava para o calor alheio, gostava mesmo de girar daqui pra lá e de lá pra cá e acho que nunca estive tão próximo da condição de não-coisa: balançava sem estardalhaço, como, no tango, o melhor dos dançarinos. Tive chance de ser abridor de lata dos mais vagabundos. Eu aposto que só esses instrumentos sabem exatamente o que se passa na cabeça de uma pessoa que tenta, cheia de caretas e, por causa disso, cheia de expressões reveladoras, abrir uma lata de ervilha (e quem é que nunca abriu uma lata de ervilha?). Se um dia quiserem conhecer os segredos do mundo, torturem (talvez não seja preciso) um abridor de latas vagabundo. Corram, eles estão em extinção.
O urinol de Duchamp não era outro senão eu. No cotidiano, fui catraca de ônibus. Bola de gude lascada. Forte apache de plástico. Bilboquê. Certa vez, no Afeganistão, fui bola de golfe que um soldado americano mantinha na mochila, segundo ele, para uma eventualidade — que, por sorte, eu acho que por sorte, nunca soube qual era. Como na natureza nada se cria e tudo se transtorna, pelas vias normais de dona Haydée e com a ajuda das mãos do doutor Antônio Carlos Piantino, vim à luz com cinco quilos e seiscentos na Santa Casa de Passos. A partir daí, primeiro minha mãe e depois ficantes, rolos, namoradas e moças de patentes mais altas sempre encontraram motivo para se virar contra mim — “sujeito sem o apetrecho do juízo ou metido a engraçadinho” — e, sem dúvida, afirmar: você é uma coisa. Uma coisa... Finalmente voltei a ser uma coisa, e continuo sendo.

Uma coisinha!

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Na Estante Afetiva de Alexandre Marino, uma leitura de meu "No Osso: Crônicas Selecionadas".
Meus dois últimos livros ("A câmera e a pena" e "No Osso: Crônicas Selecionadas") são encontrados agora na Vitrine de Livros, livraria virtual voltada para a literatura brasileira contemporânea.

7.10.12

Esfinge Voraz


Estamos na época de digitar o voto na urna eletrônica — orgulho tecnológico que deixa muita gente com a pulga atrás da orelha — e apontar nossos futuros prefeitos e vereadores.
Elegemos no plural, mas o meu ou o seu candidato podem muito bem passar longe, bola chutada pra fora do estádio. Ele ou ela terão ideias próprias e, por essa razão, serão derrotados? Ou ela ou ele não passarão de fanfarrões corretamente sepultados pelo voto, ou melhor, pela falta de voto?
Democracia: esfinge que, quanto mais deciframos, mais nos devora. Sem democracia não viria à tona a voz das minorias, dos marginalizados ou dos que, persuasivos, opõem-se à situação. Mas, na democracia, elegem-se os que têm tutu à beça ou os que, mesmo não o tendo, acercam-se dos que têm. A aliança circunstancial serve bem no dedo de quem não se presta a casamento duradouro, de quem gosta das festas do matrimônio e, mais ainda, dos divórcios, porta que se abre para nova conquista.
Não é jabuticaba, fruta que viceja apenas em nosso solo gentil. Vejam a eleição americana (se aproximando) ou a francesa (recém-acontecida): nelas também o dindim é o diapasão que orienta a orquestra. Lá e cá, orquestra na qual tocam célebres artistas ao lado de burocráticos leitores de pauta. Péssima metáfora, os burocráticos leitores de pauta fazem mal ao ouvido e sensibilidade alheios; por sua vez, os maus políticos subtraem os instrumentos da orquestra e deixam o verdadeiro artista preso à pantomima. Por isso encontramos muitos spalle pelas ruas passando o arco invisível no violino igualmente invisível.
Democracia não é apenas o espetáculo do sufrágio universal. Esse é o momento de sua celebração. Democracia é também o ciscar da galinha, quero dizer, a coisa simples da vida comezinha. É minha relação com meus filhos, e a deles com seus professores. E a dos professores com seus superiores. É o respeito aos mais velhos, aos mais pobres. É a convivência com a diferença. É a discussão de ideias. É, ainda, a possibilidade de termos todos as mesmas oportunidades.
Como a democracia se fixa também na dinâmica do corriqueiro, podemos atuar com mais desembaraço em sua consolidação. Contraditoriamente, maldita esfinge, é justamente esse o espaço de maior dificuldade, pois temos de brigar com nossos preconceitos mais arraigados.
Meter o dedo na máquina é fácil, viver democraticamente é que são elas. 

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Luís Giffoni, escritor mineiro que faz o programa "Livro no Ar" pela Bandnews de BH, falou de meu "No Osso: Crônicas Selecionadas". Quem quiser ouvir seu comentário certeiro, de menos de 2 minutos, clique aqui.

28.9.12

Ruim por ruim, não vote nimim


Amigos, venho pedir que não votem  nimim. Não sou homem sério. Não roubo, mas também não faço. Vivo metido com livros, achando chato o que está fora deles; a vida, afinal de contas.
Sou cheio de verdades e não aceito trocar minha opinião por cargo. Aos olhos de uma classe de políticos, sou intransigente. Gosto de ser convencido na lábia, quando então dou o braço a torcer sem nenhuma vergonha e também sem ônus para o vencedor.
Dou mais uma razão. Não engulo sapo. Rã, se bem temperadinha, ainda vá lá, mas sapo nem se o dito-cujo tiver porte de príncipe. Assim, o prefeito, meu chapa e correligionário, não vai ter garantida minha fidelidade na saúde e na doença. Pois, entre a doença financeira dele ou do partido e a saúde de quem votou em mim, fico contra o mandatário máximo. Posso parecer traidor, mas sou mesmo da laia do Grouxo Marx: não entro em clube que me aceita como sócio. Trocando em miúdos: tenho simpatias partidárias, mas não me filio a partido nenhum. Para quem ficou curioso: minhas simpatias se dividem entre partidos que, no quadro atual, se colocam como arqui-inimigos. Ou eu ou eles estamos doidões.
Pensando bem, nem se você quiser pode votar nimim. Como na música do João Bosco, não sou candidato a nada, meu negócio é madrugada com batuque na cozinha. Meu negócio é feito mais às claras que umbigo de vedete. (Expressão velha, em desuso. Qual o problema de umbigo à mostra? O que são vedetes?) Enfim, deixando as corcovas da língua de lado, não vote nimim porque sou boêmio, honesto e preguiçoso. Cruz, credo. (Esta expressão, eu acho, ainda se usa.)
Como não serei eleito, prometo continuar atento às meninas de minissaias, aos bêbados e suas filosofias, à velhinha com fogo nas ventas e, além de outros tantos, ao ex-pastor que se encontrou no álcool, nas drogas e no rock’n’roll. Prometo rir da própria desgraça e morrer de rir da alheia. Continuarei escrevendo minhas canalhices, se possível adornadas com as mais belas palavras, sejam elas as da moda sejam as semimortas, esquecidas nos dicionários. Enfim, serei fiel a mim, único jeito que meus amigos e inimigos gostam. Os amigos, por acharem divertido encontrar no mundo um sujeito confiável, apesar de vagabundo. Os inimigos, por acharem intolerável um vagabundo a quem não se pode confiar o segredo de uma tramoia.

Para acrescentar alguma informação relevante a esta crônica até aqui tão bobinha, farei uma revelação. Por favor, ajeite-se na cadeira. Pare um pouco e respire fundo. Tome uma água. Lá vai...
Fui cabo eleitoral do “Muito Bem” (1).
(Putz, sou mais antigo que Simca Chambord.)

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(1) Para quem não é de Passos, ou é, mas não conhece a figura, Muito Bem foi uma personagem folclórica da cidade. Vivia meio de porre e a tudo que lhe perguntavam respondia: muito bem. Não sei quando, foi candidato a vereador. Eu era jovem e torci e trabalhei (pelo menos no círculo familiar) por ele. Não lembro se ganhou (é provável que sim), nem sei que fim levou.

10.9.12

Todo mundo isso, todo mundo aquilo


Nunca saio de mim/Por isso sou só//Tenho uma camada de pó/Tomo remédios coloridos//Escuto com três ouvidos/E vejo com um olho só//Agora me olha e me diz/Se estou certo//Se sou mesmo este céu deserto (“Certeza sem nuvens e estrelas”, Rodrigo de Souza Leão)




Todo mundo arrasta uma simpatia por alguém que perdeu o prumo, saiu de órbita, bateu as asas para nunca mais pisar na terra — os lunáticos ou nefelibatas, os que mendigam o impalpável, os que se alimentam de luz. Todo mundo não se furta de bater papo com o doidivanas da praça, com a tresloucada que recolhe quinquilharias nas ruas do bairro. Todo mundo conta com sarcasmo as peripécias de um avô meio zureta. Todos estimamos, de fato, os que não saem de si.
Todo mundo comenta, com maldade e uma ponta de inveja, o nível de liberdade com que guia a própria vida a jovem atriz ou o marrento jogador de futebol. Liberdade uma ova, inveja-se o fato de um ou outro passar sem cerimônia por cima do que está longe de ser um reles cadáver. Todo mundo suspira pelo vilão charmoso da novela das nove. No fundo, todo mundo anseia uma aventura como a de disparar com o carro por avenidas impróprias à velocidade ou a de beber até dizer chega e enfrentar com ironia uma autoridade.
Todo mundo quer comer sem pagar. E quer cagar e andar pros problemas, pras dívidas, pro compromisso amoroso. Todo mundo deseja comprar uma passagem só de ida. Todo mundo preferiria agir antes de pensar. Em segredo, rimos do tombo alheio.
Não para aí, então continuo: todo mundo (eu, você e eles) gosta mesmo do politicamente incorreto, das piadas que caçoam das minorias, da cutucada dada nos que olham o mundo com inocência: os bem limpinhos e corteses. Todo mundo só pensa em sexo, nada disso de amor. Todo mundo acha que dinheiro roubado é dinheiro achado, logo, emite nota fria e lava dinheiro.
Todo mundo come de boca aberta. E prefere espancar a educar. Todo mundo gostaria que os outros morressem antes de chegar à velhice, que significa apenas despesa e demência. Todo mundo acha que os recados de seu intestino cheiram à flor. Todos, sem exceção.
No andar da carruagem, o império do eu-sozinho acabará triunfando. Os efeitos serão danosos, estou certo disso. E, preocupado — preocupado na mesma extensão com que me preocupo com o provável desastre ambiental que nos ronda —, lanço esse canto muitas vezes já cantado, inclusive por sábios. Canto que realça a importância do outro nas nossas vidas.

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Nisso de falar “todo mundo isso, todo mundo aquilo”, vem à minha memória nada tranchã certa história contada pelo cineasta Bigode (Luís Carlos Lacerda) sobre sua amiga Leila Diniz. Depois de uma apresentação — naqueles anos de chumbo da década de 1960 —, um militar adentra o camarim da atriz, leva-lhe flores. Ela, educada, agradece. O senhor então, em tom de ordem do dia, intima-a a jantar com ele. Leila recusa o convite — ou desobedece à ordenança. Ele, furioso: “Eu sei que você dá pra todo mundo.” Ela então: “Sim, dou pra todo mundo, mas não pra qualquer um.” 
Leila Diniz por Antonio Guerreiro (sem autorização do autor)


Leila Diniz, de fato, estava à frente do seu tempo. Quando vejo as manifestações recentes das mulheres lutando pelo direito de tomar posse política do próprio corpo, lembro-me dela. As “vadias” têm o espírito de Leila. Elas são a voz do outro, aquela que todo mundo deveria ouvir antes de falar ou de agir. Eu presto atenção nessa voz e me sinto feliz por estar vivo para isso.

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Amigos, saiu uma resenha de meu livro de crônicas (No Osso: Crônicas Selecionadas), escrita por Haron Gamal, na Folha Carioca. Para lê-la basta clicar aqui.
Aliás, a Folha Carioca passou a ser também um site. Venham visitá-lo, vale a pena. Entrem.

30.8.12

Sem pressa




Manoel de Barros, no poema “Andarilho”, do “Livro sobre nada” (Poesia Completa, Editora Leya), afirma categórico: “andando devagar eu atraso o final do dia”. Para quem não sabe o que é poesia, poesia é essa rasteira no senso comum, é esse dano irreparável na lógica que comanda nossa vidinha miserável.




Certa vez batia perna com meu primo Bosco pelas ruas da Vila Madalena, em São Paulo. Ele pediu para eu andar mais devagar; com pernas menores que as minhas, não conseguia me acompanhar. A partir de então, meu ritmo é ditado por passos miúdos, com o que desperdiço minha altura e o tamanho potencial de minhas passadas. Devagar, passei a contemplar o mundo. Eu contemplo o mundo.
Já vai um tempo, caminhei por alguns quarteirões atrás de um sujeito que olhou todas as bundas que cruzaram seu caminho. Não desprezou nenhuma. Olhou a de uma moça mignon. A de uma rechonchuda. Torceu o pescoço para contemplar a da jovem. E, igualmente, a da velha, a da negra, a da branca, a da moça manufaturada — a Glória, bairro onde estávamos, é um ponto de travestis. Se eu tivesse pressa, não teria apreciado um tipo desses, feito à medida para ficcionista do meu quilate — meio vagabundo, quero dizer.
Andar devagar, nos dias de hoje, tem muitos inconvenientes. O mundo está acelerado. Uns ultrapassam outros — sejamos sinceros: o objetivo é ultrapassar os outros. Aos que não estamos totalmente isentos do espírito competitivo resta lastimar ficar pra trás. (Lastimar, lastimamos, acelerar o passo, nem pensar.) Em meu primeiro livro, lançado em 1995, há um conto (“A quarta queda”) que esbarra nessa questão, mas, no caso, a competição se dá entre pessoas que se arrastam. A metáfora, arrisco dizer, é esta: mesmo quem perdeu, quem, portanto, se arrasta, ainda guarda uma ilusão de não ser o último, de não ficar na rabeira do mundo. Ser o último seria a derrota definitiva. Não é de hoje que estou olhando o mundo de esguelha. Devagar, e sempre desconfiado.
Foto de Andre Penner, publicada sem autorização do autor.

Outro Manuel (Manuel igual a Manoel, certo?), um amigo, reage do seguinte jeito ao verso de seu xará: os velhos andam devagar para atrasar o final da vida. Matou a pau. A decadência física é menos importante que a mumunha urdida para atrasar o fim absoluto. Manoel de Barros está velho. Adiou, com seu passo de cágado pantaneiro, o fim de muitos dias — dias que engoliram alguns de seus filhos. E, arrastando seu chinelo pela fazenda, estará, agora, postergando a chegada do “seu dia”. Um palpite, não passa de um palpite isso que acabo de dizer. Desconheço Manoel de Barros, e desconhecê-lo não deixa de ser uma forma íntima de chegar a ele. Quem já o leu sabe que não estou lançando mão de uma frase de efeito. Com o poeta é assim mesmo. 

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Amigos, saiu uma resenha de meu livro de crônicas (No Osso: Crônicas Selecionadas), escrita por Haron Gamal, na Folha Carioca. Para lê-la basta clicar aqui.
Dia 15 de setembro, a caravana No Osso voa pra BH. Lá, no Letras e Ponto (Rua Aimorés, 388, sl. 501/502, Funcionários), a partir das 11 horas, lanço o livro.