9.7.18

Outro Homem





Para os novos avós: Neide e Guido, Sandra e Adelino

Foto do autor.


Não vou dizer flor. Tampouco água, ainda que potável. Os dias não estão nem para um nem para outro. Digo pedra, e imediatamente penso que as pedras são tão delicadas quanto a flor e a água. É a mão do Homem que a transforma em arma. É a mão do Homem.

Então digo Homem. Digo a mão do Homem e do que ela é capaz: atirar a pedra, esculpir na pedra uma arma perfurante, atirar a pedra impulsionada por um estilingue. E matar o pássaro. E matar o réptil. E matar seu semelhante, embora não o mate por fome nem o mate para comê-lo.

A flor, na mão do Homem, é apenas o perigo dos espinhos. E a água potável, um instrumento de tortura.

Não vejo saída. Mas...

Nasceu a Luísa, nasceu o Henrique, e o homem e a mulher não estão plenamente prontos em meus sobrinhos-netos, nos filhos de meus amigos. Cândido, penso que em breve direi flor, água, pedra e, com encanto, Homem. Outro Homem.

25.6.18

O Futebol

Nunca fui bom de bola, apesar de ter passado grande parte de minha infância chutando uma. Jogava futebol de salão na quadra do clube. Jogava em chão batido, no campo improvisado da casa do Silvinho, e raramente num gramado. Principalmente, jogava na rua. Na rua do Ouro, com seu asfalto bem feito. No Beco dos Aflitos, com seu calçamento de pedra e sua evidente inclinação. Chutei muito chão, meus dedões não se esquecem disso.

Na escola, passei a gostar mais de basquete e handebol. Tinha mais habilidade neles, embora, assim como no futebol, não fosse um cara de chegar junto, de disputar espaço com o corpo. Guardadas as devidas proporções, me assemelhava a um Neymar, ainda que, ao contrário dele, quase nunca caísse. Não caía porque tinha medo de me machucar. Vocês já devem ter visto que tipo de atleta eu fui. Por favor, não se manifestem nos comentários, me poupem.

Não sei bem se foi a cachaça, mas fui me afastando dos esportes. Virei um torcedor, assim mesmo sem muita fé. Morando em Minas, por influência da mãe, tornei-me botafoguense. Havia uma tradição na família materna, eu e vários primos torcemos pelo clube. Meu pai, por sua vez, nunca gostou de futebol e, quando pressionado, dizia-se torcedor do Bangu, time que não tinha grandes pretensões no final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970, e só fez encolher-se mais ainda daí em diante.

Quando nasceu meu primeiro filho, o Botafogo não ganhava um campeonato (estadual ou nacional) havia vinte anos. Foi para a final do Carioca de 1989 contra o Flamengo. Minha mulher disse que, se o meu time ganhasse, o filho torceria por ele. E seria flamenguista no outro caso. O Botafogo ganhou, e, apesar de eu não ter levado muito a sério o combinado, o João se tornou um botafoguense dos mais apaixonados. A Helena, a segunda filha, quando dizia alguma coisa sobre futebol, declarava-se flamenguista. E o Pedro, o caçula, é um flamenguista e tanto.

Meus dois filhos homens gostam muito de futebol. O mais velho teve um blog por um tempo, o mais novo, agora estudante de jornalismo, tem o dele (Futlândia), onde fala também sobre basquete, esporte que pratica e acompanha.

Enfim, tudo isso para dizer que acompanho o esporte bretão, mesmo sabendo o que acontece à sua volta. É fato que alguns de nossos dirigentes amargam prisão ou processo por corrupção. Por outro lado, a venda de jogadores, a relação entre empresários, jogadores e clubes, a atuação das empresas de marketing e a forma como as redes de televisão negociam as transmissões estão sempre sob suspeita, obscuras até o talo. O que é uma pena, pois o esporte é lindo. E, por ele ser lindo, eu, bobinho da silva xavier, o acompanho.

A Copa — inclusive esta em que o Brasil está deitando e rolando — é uma vitrine, e seu público é diferente do habitual. Está mais para uma festa, feita a cada quatro anos, nem sempre brindada por bons jogos. Pouco importa, a gente vê e se diverte. Nem que seja apenas com os memes, principalmente os que se voltam contra nós. Somos brasileiros, com muito gorgulho.


Foto do autor, Engenhão, 2011.

11.6.18

Minha colega e o pianista

No dia em que a Fatinha foi assassinada durante um assalto em Cascadura, eu fiquei com medo, com muito medo. Não de que eu pudesse ser também abatido, não por isso. Meu medo era de que, com a morte de minha colega de trabalho, o que eu pensava que houvesse de mais precioso nela — sua característica evidente — fosse, de fato, tudo que havia daquilo no mundo. Falo da doçura. Fatinha era doce. Mas não há mais doçura no mundo além daquela que seu olhar e sua voz carregavam?

Naquela noite, assisti a um programa gravado em 1985 com o pianista Horowitz, então com mais de 80 anos. Além de uma fala ou outra em ambiente familiar, no qual estavam a mulher, a filha do maestro Toscanini, Wanda Toscanini, e os amigos responsáveis pela gravação, o programa era praticamente o velho senhor tocando sem partitura várias músicas de compositores como Bach, Mozart, Chopin e Schubert. Horowitz parecia indiferente aos anos que decerto pesavam sobre suas costas arqueadas de pianista e deixava soar de seus dedos a própria doçura. A certa hora, o produtor do vídeo, aparentemente amigo íntimo do casal, pergunta a Horowitz se ele estava mais para deus ou para diabo. O concertista responde que, conforme a peça, ele deveria se ligar a um ou a outro. A despeito disso, nas peças diabólicas ou divinas, a doçura reverbera de suas mãos. A doçura que a morte de Fatinha subtraíra do mundo.


Não era um dia em que eu pudesse encontrar alguma alegria, longe disso, mas Horowitz resgatou minha esperança: nem mesmo o caos que nos arranca uma Fatinha pode acabar de vez com essa coisa miúda e tão humana. A doçura está entre nós. Em Fatinha era tudo, sua energia, sua presença, seu trabalho — tudo, repito. Estúpido mundo violento e ácido, é possível que nos arranquem as pessoas mais doces, mas a doçura continuará espalhada por aí. Na música, no poema torto, no diálogo de dois amantes, na travessura das crianças.

28.5.18

A matemática da escrita

Não tenho novidades, tenho, se for de seu interesse, uma frase que a Maria Valéria Rezende, a prima, falou numa palestra no Salão Carioca do Livro: “Eu escrevo para levar susto.” Em relação à escrita, não há postura mais radical, e eu, se um dia tiver consciência plena do ofício de escritor, ficarei feliz se disser o mesmo. Sei que me assusto com o que escrevo, talvez seja por isso que eu escreva. Maria Valéria lançou uma possibilidade, que apanho e passo a lidar com ela.



No mesmo salão, eu disse que gosto mais de ler do que de escrever porque o sofrimento de uma leitura pode ser atenuado no intervalo entre uma página e outra, por exemplo, quando deixo o livro para ir à sala fazer a refeição ou para beijar o filho que chega da rua. No caso da escrita, nunca que a gente se desvencilha da dor. Aquela história em gestação aos poucos ganha força suficiente para nos deixar à sua mercê. Não por acaso nossos olhos se perdem e nossa presença não passa de um corpo — um vulto? — na sala, no quarto. Nos tornamos um ser, por sorte, provisório. Uma hora voltamos à terra, às vezes por conta dos compromissos duros da vida, noutras por receber o beijo do filho, o carinho do companheiro, esses que convivem com nossas estranhezas.

O que disse no parágrafo anterior fez parte de uma resposta a outra questão. A mediadora da mesa sobre o livro “Nosotros – 20 contos latino-americanos” (lançado no ano passado pela editora Oito e Meio), Lucia Bettencourt, queria saber o que achávamos de escritores contemporâneos que não se mostram muito chegados à leitura, esses que escrevem, mas não leem. Hoje, não consigo entender tamanha aberração, mas meu impulso artístico veio antes da leitura. Menino ainda eu inventava versinhos; mais tarde, fazia música e letra; e escrevi meus primeiros contos sem ter lido quase nada. Portanto entendo o desejo de escrever, a vontade de se expressar, mas, caro escritor que não lê, suas braçadas não o levarão a lugar nenhum. Agora, atenção: ler não garante talento, ou seja, ler é condição necessária, mas não suficiente para ser um bom escritor. E o que é de fato suficiente, zilhões de novos escritores, os leitores ávidos desta crônica tão sábia, gostarão de saber. Ora, condição suficiente não há, mas entre as necessárias, descobri agora, está a de “escrever pra levar susto”.

14.5.18

Seu Tunico do café

Entrou na repartição como Antônio, seu nome de batismo. Virou Tunico depois de uns chopes com a turma, quando o apelido, filho sem pai nem mãe, grudou-se nele. À medida que envelhecia, os novos funcionários, de concursos cada vez mais distantes daquele no qual foi aprovado o rapaz sério e tímido, passaram a chamá-lo de seu Tunico, e seu Tunico ficou sendo para todos.


Num ambiente em que os colegas usavam roupas esportivas — com exceção do chefe, sempre de paletó e gravata, e daqueles que, em dia de reunião com gente de fora, se metiam numa calça social com camisa de manga comprida —, Antônio, desde jovem, trajava camisa de linho passada com um esmero de dar gosto, calça escura de microfibra, cinto combinando com o sapato de amarrar impecavelmente engraxado. Os mais atentos comentavam também das meias, pretas ou, quando muito, azuis. Seu Tunico era esse paradoxo: silencioso e, por conta da roupa, espalhafatoso.  


No trabalho, nunca fez nada, nadica de nada. Ouvia-se que era um crânio, mestre na matemática, ciência sem serventia aparente na repartição. Contavam inclusive que, por seu conhecimento de informática, certa vez fora chamado ao Aeroporto Tom Jobim para desfazer uma pane no sistema de controle de pouso e decolagem. Iam além: o fato teria sido narrado pelo próprio Tunico num dia em que bebeu um pouco mais. Verdade? Os fatos não ajudam: o funcionário jamais foi visto perto de um computador — nem para consultar um e-mail ou navegar na internet.

Apesar de tudo, seu Tunico logo se enturmou e passou a sair com os colegas no final do dia para tomar uma (no caso dele, só uma) cerveja e brindar os aniversários. Nunca se juntou aos boêmios, que de um bar pulavam para outro ou fugiam para um show ou baile ou escapavam para um lugar pouco familiar. 

Desconhecidos eram seus amores, e, no palpite de alguns, ele vivia com a mãe e, no de outros, sozinho. Não deveria morar longe, pois era o primeiro a chegar ao escritório e, não raro, o último a sair. Do ponto de vista do horário, era um funcionário exemplar, sem atraso ou falta. Tanto comprometimento para não fazer lhufas. Minto. Seu Tunico se encarregava do café. Nisso era insubstituível, tanto é que suas férias eram batizadas de tempos mal-bebidos. “Ai, os tempos mal-bebidos já vão chegar!” A tristeza institucional chegava antes.

Seu Tunico sabia dosar o café, que não saía forte, tampouco fraco. Para muitos, um milagre, pois não havia na cozinha nada que não fosse o próprio olho para medir o pó. Coisa trivial quando a tarefa caía nas mãos de um cara capaz de controlar o tráfego aéreo de um dos maiores aeroportos do país, maliciavam. A história da suposta chamada ao colega para debelar uma tragédia iminente era a grande ironia sobre ele, talvez a única. Quer dizer, muitos especulavam sobre sua sexualidade, mas, pasmem, não passava disso, de uma especulação inocente e sem eco.


Com a experiência, seu Tunico descobriu que em torno do café era possível saber a quantas andava o trabalho. Nos dias que antecediam a reunião importante, o estresse disparava e o consumo idem. Se coava um de manhã e outro à tarde, nos dias de tensão eram dois ou três por turno. O ambiente carregado não estava atrelado apenas aos assuntos internos. Nunca se bebeu tanto quanto depois de coxinhas e petralhas surgirem na crônica política. A partir daquele momento, todos procuravam levantar uma discussão, provocar quem defendia o lado oposto ao seu. Não havia melhor lugar para isso do que perto da cafeteira. No instante em que a radicalização ficou incontestável, as pessoas passaram a evitar o confronto e, com isso, fugiam da mesinha e do café. Tudo isso captado e guardado em segredo pelos olhos do moço bem-vestido e estranho, que, além de tudo, não era de jogar conversa fora, quanto mais se o assunto fosse política.


“Hum, delícia!” “Nem na Itália se faz um desses.” “Ai, seu Tunico, vai morar lá em casa, vai.” Quando as reações ao café fresquinho começavam a soar pelo salão, o tartamudo e antiquado concursado fechava os olhos, suspirava discretamente e pensava lá com seus botões que não havia nada melhor do que ser amado. Isso compensava tudo, inclusive o pouco tempo que lhe restava devido ao trabalho árduo na repartição.

10.5.18

Fresca melodia

O melhor de não ser poeta é não ter compromisso. Faço um poema como se fosse um samba que eu faria igualmente sem compromisso.


30.4.18

Estilingues 30

O Estilingues, formado há 30 anos por um grupo de amigos que se conheceu em uma oficina literária, talvez uma das primeiras do Rio de Janeiro, a OLAC (Afrânio Coutinho), pretende celebrar a data este ano. Desde 2012, Cristina Zarur, Marilena Moraes, Miriam Mambrini, Nilma Lacerda, Sonia Peçanha, Vânia Osório e eu, antecipando as comemorações dos 30 anos, lançamos dois livros de contos — Amores vagos (orelha de Luiz Ruffato) e Mapas de viagem (orelha de Maria Valéria Rezende), coletâneas que têm percorrido o circuito não comercial. Entregamos um livro a uma pessoa e pedimos a ela que, uma vez lido, ele seja passado adiante. Isso quando não “esquecemos” um exemplar por aí: num banco de praça, num ônibus, em qualquer lugar. Sonhamos que nossa estilingada literária, em vez de matar passarinho, ressuscite o prazer da leitura na mesma proporção com que, nestes anos todos, nós temos escrito e lido uns aos outros. Ah, meu leitor, você pode imaginar a força que um grupo ganha compartilhando vinho e texto e embates (que não são raros) por tanto tempo, com tanta persistência. Enfim, vem coisa por aí, vocês verão, ou melhor — e é o que espero —, lerão.


No último encontro, entre o barulho das folhas dos originais e o tinir dos copos, me dei conta de que faz dois anos que não escrevo um conto. Tudo que tenho levado são textos antigos, alguns muito antigos, talvez por isso o livro que organizo para a efeméride me faz pensar em um diálogo com o primeiro, Contos de homem (de 1995). Este é um livro duro, no qual corri riscos: com a escrita, com a organização dos contos, com tudo. Um querido amigo já falecido dizia que, depois que eu seguir para outras paragens, tudo que restará de mim será esse primeiro livro. Espero que ele tenha se enganado, mas o fato é que não me envergonho da obra imatura. Aliás, uma das poucas coisas que inflam minha vaidade é o prefácio escrito pelo mestre João Gilberto Noll.

Estilingues em várias fases


Ficar sem escrever um conto não me incomoda. Não sei quantos anos de escrita, um pouco mais do que os 30 do Estilingues, me calejaram. Aprendi que, se falta conto hoje, amanhã virá uma enxurrada deles (a maioria será jogada fora). Ultimamente, minha vidinha de escritor tem sido a desse cara que, de quinze em quinze dias, escreve com alegria suas crônicas para a Rubem e o No Osso. E que, sem planejamento, em jorro, escreve um poema aqui, outro ali. Não sei se um dia deixarei de escrever, mas que tenho sofrido pouco por não escrever o que sempre gostei tanto, os contos, isso sim, eu sei. 

Deixo minhas questões pessoais de lado. O que importa neste 2018 é a coroação de um encontro de 30 anos, um encontro que firmou uma sólida amizade entre sete artistas, pois é o que somos, e que foi facilitado pela Literatura, essa que não morre.

16.4.18

Nem céu nem inferno


O Papa boa gente disse que o inferno não existe, um passo além do que o anterior, homem um tanto quanto antipático, havia afirmado: o limbo, o escuro reservado às crianças que morrem pagãs, não passava de uma invenção. Me pergunto: seria possível existir o céu sem a existência do inferno? O princípio cristão não está atrelado ao bem e ao mal? O céu aguarda os bons; o inferno, os maus.

Se não estou enganado, ao negar o inferno, a Igreja dá indicativos de que o céu tampouco existe, quer dizer, não existiria o tal céu paradisíaco, nossa morada definitiva. (O céu sobre nossas cabeças meus olhos alcançam todos os dias, e com ele — suas cores, sua limpidez, sua escuridão, seus enfeites — me espanto com frequência.)



Estamos à porta de uma revolução, concluo. A Igreja, que tanta influência tem em nossas vidas, de repente diz: esqueçam essa falsa dicotomia e libertem-se do maniqueísmo a ela atrelado. Num momento em que os conservadores arregaçam as mangas e tentam levar o mundo para o ponto em que se sentem confortáveis, o fim do céu e do inferno alteraria a compreensão do que é liberdade. Não seria pouca coisa.

1.4.18

Está tudo nas prateleiras

Digamos que a loja se encontre numa rua no coração de um centro comercial, como é o Saara, no Rio de Janeiro; a Vinte e Cinco de Março, em São Paulo; o Beco da Poeira, em Fortaleza; o Ver o Peso, em Belém, enfim, um lugar movimentado a qualquer hora do dia.

Bem na entrada, soa de uma caixa de som o anúncio das mercadorias, todas com preços camaradas. Ofertas de cair o queixo. Alguns reclames saem de uma voz empostada, que dita um texto sóbrio: a lista do que há de melhor, os preços, as promoções do tipo “leve três, pague dois”. Outros, não, são excessivos, farsescos. O tom resvala para uma ironia agressiva, sexista. Sempre é assim, pouco importa.

A loja está lá. Seus anúncios reverberam pela rua ou pelos corredores do mercado.

Ouve-se de uma locutora comedida: “Senhoras e senhores, hoje aqui a oferta é ímpar. Em nossas estantes, você pode escolher uma execução impecável contra aquela vereadora negra, bissexual e favelada. Não se esqueça e inclua, sem taxa adicional, o assassinato do motorista que estará prestando serviços a ela.” E continua: “À senhora, que passa agora, aviso que podemos embrulhar tudo isso em papel de vilipêndio, a última moda no mundo civilizado.”

Mais adiante, encontra-se um bufão cheio de gestos teatrais, não se sabe se é gay ou se apenas finge. Um exagero só. “Gostosão, meu bofe, entra aí, por qualquer dois contos você garante um extermínio de índios, aquele povo sem pelos, pelo amor do santo Deus, pra que serve aquilo? Ou mesmo dá fim de vez a esses negrinhos que, se ficam por aí, acabarão por fazer aquelas malditas músicas pornográficas que ninguém gosta.” Ele sussurra a um interessado: “Eu gosto, mas sou empregado, obedeço.” Insinua, por fim, que o cliente — macho, faz questão de falar — que adquirir aquela verdadeira ajuda celestial ainda vai ganhar um presente dele, o “anunciante serelepe”, como se autodenomina. Faz gestos com o microfone, e logo fica evidente do que está falando.

Não, não acabou, o mercado está precisando fazer dinheiro, por isso ficará aberto até as dez ou onze horas da noite. Na esquina, quem comanda o microfone já tem certa idade, a voz está cansada, mas ainda é forte e grave. Na lojinha dele, sumiço de religiosos metidos a comunistas, morte de estudantes por bala perdida, ditadura exercida por milicianos ou traficantes na periferia. Tudo coisa fina, o homem fala sem ênfase alguma (contam que uma de suas netas foi vítima de bala perdida comprada bem ali, no seu nariz). “Lá no fundo da loja, tem a mercadoria mais vendida de todas: acobertamento de crime, álibis lindos, verdadeiras joias feitas por ourives renomados.” Ao anunciar esse atraente produto, parece sobrar energia ao velho (novamente contam que, no final do ano, ele pretende comprar um para vingar a neta).

Em outras lojas, a opção é usar cartazes coloridos, gigantes. “Temos feminicídios de vários tamanhos e cores”. “Se podemos ter um mundo com dois policiais corruptos, por que manter um, um só, honesto?” “Por que levar dez por cento se você poder levar cinco de algo com um valor oito vezes maior?”

Essas lojas ficam no Shopping dos Horrores. Onde? Ora, ao seu lado. Ao meu lado. Tão ao lado que qualquer movimento que a gente faça — leste, oeste, norte, sul, direita, esquerda — nos leva a ele.

As promoções estão irresistíveis. Mas, claro, você pode dizer não.

19.3.18

Quatro crônicas musicais (originalmente publicadas na revista InComunidade, de Portugal)


O que restou daquela compra antiga

Em 1990, logo depois do nascimento de meu filho mais velho, o João, Ollie Johnson trouxe dos Estados Unidos meu primeiro aparelho de reprodução de CD. Um dia antes da chegada de meu amigo americano, ao passar por uma loja em Copacabana, uma pequena, sem fama alguma, comprei dois “disquinhos” para estrear o som.

Um deles foi “Ballads”[1], do John Coltrane, gravado em 1962, ano em que eu, lá no interior de Minas Gerais, aprendia a dar os primeiros passos. Não foi logo nas primeiras audições, mas muito depois, recentemente até, que, ao ouvir a interpretação vertiginosa e sensual do saxofonista, me dei conta de que ele me soprava uma história. No dia dessa descoberta, com Coltrane no fone de ouvido, eu corria pelo Aterro e, ao voltar a minha casa, fiz o primeiro esboço de “A trilha sonora de Bebel”, conto do meu livro “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014). No enredo, Bebel fantasia que é amante de Coltrane e o vê, de longe, sentado à sala, injetar-se uma dose de heroína para, em seguida, tocar “Say it (over and over again)”.

O outro foi “Olívia Byington e João Carlos Assis Brasil”[2], disco no qual o piano dele e a voz dela passam, entre compositores estrangeiros, por Gershwin, Cole Porter, Debussy, Piaf e Kurt Weill e, entre nacionais, por Villa-Lobos e Dora Vasconcelos, Tom Jobim (com Chico, com Vinícius), Egberto Gismonti e Geraldo Carneiro, Vítor Assis Brasil, Cartola, Catulo da Paixão Cearense e Assis Valente. É um repertório e tanto, particularmente para um sujeito que, tropeçando na paternidade incipiente (e também insipiente), experimentava uma solidão diferente de tantas anteriores. Quem se torna pai talvez entenda o que estou tentando dizer e reconheça o lugar no qual eu entrava.

Esses dois discos rodaram no aparelho portátil até cansarem. E cansaram, ô, se cansaram, os CD eram caros, e a disputa com os mimos e necessidades do bebê colocavam a música em desvantagem. Eu ainda tinha vinis e os escutava bastante, mas o charme da nova tecnologia roubava-me para, hoje, Coltrane, amanhã, Assis Brasil e Byigton, depois de amanhã, novamente estes e, logo depois, aquele. A repetição dava-me segurança naquele momento em que meu mundo caía e minhas preocupações enfim voltavam-se para o futuro.

Paro, respiro e tento, contra a lógica que nos empurra a favor do tempo, voltar àqueles dias, não em busca da minha juventude, que já não era grande coisa, nem de outra materialidade. Gostaria apenas de encontrar-me com quem eu havia sido e que, embarcado na “Caravela”[3], de Gismonti e Carneiro, ia se dando conta de que não seria nenhum Cabral a desbravar mares à procura de novas terras, nem Ulisses pronto a enfrentar monstros e deuses para, vitorioso, voltar à espera de Penélope. Nada disso. Naqueles dias, o pai de primeira viagem descobria o “exílio no coração”. Às vezes, bem, obrigado, noutras, nem tanto, continuo habitando esse exílio, ainda que eu já não seja mais o mesmo.



O violão da mamãe

Minha mãe contava que nosso violão de muito tempo fora não uma compra, mas uma conquista. Quando meu avô estava na loja, a ponto de fechar o negócio, ninguém mais, ninguém menos que Silvio Caldas entrou, pediu para experimentar o instrumento, mostrou-se bastante interessado nele e disposto a recompensar financeiramente o seu quase dono. Meu avô aproveitou-se do inesperado atestado de qualidade dado à mercadoria, desculpou-se com Silvio Caldas e caiu fora feliz com a aquisição.

Não sei se por piedade ou por gosto, Silvio Caldas — o Caboclinho Querido — era o cantor preferido de minha mãe. Na verdade, o sucesso dele, num mundo em que havia um Orlando Silva e um Francisco Alves, não estava baseado apenas no fato de cantar músicas românticas. O cara era bom. Não por acaso, como afirma Cravo Albin, Custódio Mesquita e Ary Barroso faziam questão de que seus lançamentos ganhassem a voz do sujeito que vovô venceu numa contenda comercial.

Além do mais, o que seria suficiente para torná-lo um dos grandes, Silvio Caldas é coautor de “Chão de estrelas”[4], música que, na avaliação de Manuel Bandeira, teria o verso mais bonito da música brasileira: “tu pisavas nos astros, distraída”.

Com todo respeito ao grande músico, tomo uma expressão atual e informal e digo: perdeu, Silvio Caldas! O violão foi parar no Leme, à beira-mar, e, depois, mudou-se para o interior de Minas Gerais, onde foi intensa a vida social ao seu redor, com destaque para a época dos amigos de meus irmãos. A turma era formada por adolescentes que cantavam, a pleno pulmão, aquelas músicas italianas chorosas dos anos de 1960, mas também, na linha de João Gilberto — de forma contida —, a bossa-nova de Tom e os compositores que mudariam de vez a música brasileira: Chico, Caetano, Gil, Milton, Edu, Jorge Bem e mais alguns. A segunda maior glória (houve o Silvio Caldas, não se pode nem se consegue esquecer isso) daquele violão foi ter sido tocado pelo Eustáquio Grilo. Não me lembro em que ano estávamos, mas Eustáquio já era um grande músico, embora ainda não fosse, creio, catedrático e estivesse longe de ser reconhecido a tal ponto de ter um concurso de violão com seu nome. Bem, pouco importa, o fato é que eu, um moleque, sentei-me no chão da sala da casa de meus pais e ouvi o Grilo fazer soar lindamente — e apesar das cordas velhas — o instrumento que não passava de mero coadjuvante da rapaziada que queria mesmo soltar a voz.

Um dia o violão saiu de casa para fazer uma serenata. Todos sabem, violão não anda sozinho, logo alguém o levou na base do empréstimo, mas quem? Não esteve na casa de fulano, não passou pelas mãos de sicrano, enfim, como certa vez veio a cantar Paulinho da Viola, o violão (mítico) foi pro fundo do baú. De qual baú é que o busílis. Não escrevo uma crônica policial, portanto, fiquemos apenas com o fato de que um dia o seis cordas tão disputado sumiu na noite de Minas. Tampouco escrevo uma crônica de futrica ou de especulação, o que não me impede de ver, sentado num camarim, à espera do show que está por começar, o velho Silvio Caldas receber a notícia do destino do instrumento que certo dia um gerentezinho de banco recusou-se a ceder-lhe. Ele ergue os olhos, pega o violão — detalhe: o acaricia —, e então entoa uma de suas composições, “Voltaste”[5] , sucesso esquecido dos anos de 1950. O cantor que valoriza as palavras, como era chamado, faz valer este apelido, particularmente quando chega aos versos: “Voltaste, / teu passado pouco importa / vens bater a minha porta / que a ti nunca se fechou. Voltaste, / vens viver vida decente / vais mostrar a toda gente / nossa briga terminou.”



Que música é essa?

A primeira vez que ouvi Itamar Assumpção, eu estava chapado, bem chapado por sinal. Da segunda, não, mas, ao ouvir sua música, ao olhar para o palco e deparar-me com um negro esquálido, potente, chapei de novo. Nada a ver com o Milton Nascimento. Nada a ver com o Cartola, com o Simonal. Itamar entrou na sala, não pela cozinha, com consentimento branco. Ele meteu os pés na porta da frente, sentou-se no meio de todos e apresentou-se como “Benedito, nego dito, cascavel”[6]. E ai de quem lhe tenha virado o rosto.

Eu dirigia o Corcel do Gora, havia saído da avenida Getúlio Vargas, entrado na Contorno e parado no sinal do cruzamento com a rua da Bahia. O rádio começou a tocar “Por enquanto (Mudaram as estações)”, música do Legião Urbana, banda que nunca foi das minhas preferidas. Contudo a voz da cantora era de outra natureza, cheguei a pensar que fosse a Nana Caymmi, mas logo vi que não, era só meu ouvido buscando alguma familiaridade com o que soava tão novo. No final, a rádio anunciou o nome da Cássia Eller[7]. A música fez sucesso, tocou a torto e a direito, acho mesmo que a cantora nunca conseguiu se livrar dela. A mim, foi isso: um dia sem importância, no qual eu dirigia pelas ruas de Belo Horizonte, tornou-se inesquecível.

Nina Simone. A história começa antes de ouvi-la. Na noite anterior, eu e um amigo havíamos entrado numa confusão terrível em Copacabana. Acabamos na delegacia. Meu amigo, militar, ficou indignado. No outro dia, ainda bêbados, fomos aonde ele trabalhava registrar uma reclamação, algo assim, e um colega de farda do meu amigo nos aconselhou severamente a cair fora dali, não seria bom sermos vistos por um superior naquele estado. Fomos então a Niterói, na casa de uma família mineira que vivia lá, casa com muitas moças. Chegamos, tomamos cerveja (como foi possível?) e, de repente, Nina Simone saiu pela caixa de som à beira da piscina, provavelmente cantando “Feeling good”[8]. Na hora providenciei uma fita cassete com a clara intenção de presentear minha mãe. Nina Simone me fez lembrar-me dela, embora não saiba explicar o porquê. Perdi a fita na balsa que me levou de volta ao Rio de Janeiro, senão antes.

O Alejandro foi lá para casa naquela vez que seu apartamento foi inundado por uma dessas chuvas tropicais, que caem na cidade eternamente despreparada para elas. Eu não o conhecia nem o vi chegar. Com ele estavam sua companheira e outro casal, todos moradores do apartamento submerso. Na outra manhã, vi-os espalhados pela sala, mas apenas quando voltei da escola fomos apresentados uns aos outros. O Alejandro então, bom relações públicas, puxou uma fita cassete e botou para tocar. Era o disco “80/81”, do Pat Metheny. Pode ser que o primeiro impacto tenha passado despercebido, mas, ao longo dos meses que se seguiram, eu e Gonzalo, o amigo com quem eu dividia o apartamento e que abrira a porta aos desabrigados, ficamos praticamente reféns do disco, em particular da primeira música, “Two folk songs”[9]. Havia no apartamento um pequeno quarto, nem meu nem do Gonzalo, onde ouvíamos música, recebíamos os amigos. Na janela do quarto, uma grade. Não falo em vão as palavras refém e grade. Eu e Gonzy, ao som do Pat Metheny, vivíamos numa espécie de prisão, até que, enfim, recebi o sorriso de uma moça, e o Gonzy de outra. Veio então uma nova fase, mas, nem assim, “Two folk songs” deixou de embalar aqueles dias de estudantes.



Outras lições

Não vamos à escola para aprender a beijar, mas, quase sempre, é na escola que aprendemos. Não na sala de aula, pelo menos não durante a aula, mas, na hora do recreio, na saída do colégio, nos momentos de descuido das autoridades ou do próprio juízo, o primeiro beijo estala —  de imediato, torna-se um vício.

A marchinha de carnaval induz as pessoas ao beijo, outra lição sem livro ou professor. Não sem motivo, Zé Keti e Pereira Matos escreveram “Máscara negra”[10] , que diz: “Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval.” Quem já esteve num salão sabe que, quando a música toca, os casais deixam a dança de lado e cuidam da boca, e não só dela, o beijo exige muito das mãos. O importante é que a pista de dança sacode menos e suspira mais com a bandinha mandando o recado aos namorados. Pais ciosos da própria imagem chutam a aparência para longe e agarram a esposa com furor meio esquecido. Mães que não acham nada bonito ficar trocando bicotas em público mandam o pudor para as cucuias e se entregam.

O samba, primo meio erudito da marchinha, enquanto passa na avenida ou toca no rádio, na vitrola ou nas nuvens, joga copos de cerveja nas mãos de quem está por perto. Em seguida, tira homens e mulheres da cadeira e, do mais talentoso ao totalmente sem ritmo, põe todos para dançar. Efeito colateral, o racismo encoberto do Brasil cai por terra e, aí sim, nos tornamos por um lapso de tempo a maior democracia racial do mundo. Mal acaba o samba, em vez de refletir sobre o que se viveu, damos as costas à lição e saímos por aí bisando a nossa falsa igualdade. Ou seja, não se pode fiar apenas no que se aprende sem livros, mas cadê as escolas? Cadê as famílias? Ah, estão todas pensando nos limites do abc e na moral e nos bons costumes (que não praticam).

Apesar de o samba e a marchinha estarem associados a alegria, a tristeza tem seu lugar. Vinícius de Moraes, em “Samba da bênção”[11] , parceria com Baden Powell, canta: “pra fazer um samba com beleza / é preciso um bocado de tristeza”. A esse respeito, veio de Caetano Veloso, em “Desde que o samba é samba”[12] , o veredito definitivo: “a tristeza é senhora / desde que o samba é samba é assim”, que ele completa: “o samba é o pai do prazer / o samba é o filho da dor”. Não podemos perder de vista que o samba é, mas também não é, folia e contentamento.

Em “Feitio de oração”[13], Noel Rosa assegurou que “batuque é um privilégio / ninguém aprende samba no colégio”. Mas vá lá que, durante o recreio, na saída da escola, no descuido das autoridades, alguém puxe um cavaquinho e um pandeiro. Pronto, portas abertas para aprender samba no colégio.





[1] Para ouvir o disco, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=8rOMV0A5jd0
[3] Para ouvir a música, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=vIsEwkADio4
[4] Para ouvir a música, clique aqui:  https://www.youtube.com/watch?v=SON4_aiKGSk
[5] Para ouvir a música, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=yojRDz-r-ek
[6] Para ouvir a música, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=16QbOrvJJEU
[7] Para ouvir a música, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=IflD32ahaqs
[8] Para ouvir a música, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=D5Y11hwjMNs
[9] Não consegui link para esta música.

__________________________________


Para ler a fantástica InComunidade, clique aqui.
_________________________________

Comer água

Ao Andrezinho

Meu amigo me conta. Depois da consulta ao oftalmologista, tomou o elevador, já ocupado por duas mulheres. Uma delas reclamava de certa tonteira, reação a um medicamento tomado durante um exame, ele especulou em silêncio. Era chato ficar ouvindo aquilo, mas iam os três do décimo andar ao térreo e não havia alternativa. No oitavo andar, ganharam a companhia de uma senhora, uma senhora mais velha que todos juntos. A recém-examinada, mal o elevador se pôs em movimento, voltou a recitar sua ladainha de mal-estar. A velhinha não titubeou e disse: “Minha filha, você tá é gorda, obesa, precisa fazer exercícios, caminhar todos os dias e comer menos. Quando estiver com fome, distraia a fome com água.” As outras mulheres, por sorte, pelo menos foi assim que meu amigo nomeou o silêncio delas, não reagiram. Sem saber o que fazer, ele enfiou a cara no chão e torceu como nunca pela chegada ao térreo.

Essa coisa de beber água para tapear a fome me remete ao livro de um primo, o Dirceu Moreira Brandão. Claro, o Dirceu é pouco conhecido, alguns talvez tenham ouvido falar do pai dele, o poeta, escritor e deputado federal constituinte (estou falando da Constituição de 1946, aquela que tem, entre seus signatários, além de meu tio, Jorge Amado) Wellington Brandão. Mas o Dirceu também escrevia (sim, já não está entre nós) e escrevia bem — chegou a ganhar concurso literário, a escrever em jornais de Minas. Livros, no entanto, teve um, o saborosíssimo “Coisas de mascates” (edição própria). Suas histórias são as de boiadeiros, de gente que lida com a terra, que vive de fazer negócios, barganhas. Aliás, um dos melhores contos do livro, “Uma estranha vocação”, fala de um sujeito que troca — troca não, trama, um sinônimo muito particular usado nas Minas Gerais, beirada de São Paulo, cenário das histórias — tudo que cai em suas mãos. Um tipo assim não era raro na minha infância. Meu pai era um deles. Certa vez, no final da década de 1960, ele saiu para vender seu gado em Belém do Pará, longe, e bota longe nisso. Levou, salvo engano, uma semana na boleia de um caminhão, contando as paradas para descer o gado numa fazenda qualquer, onde batia e pedia pouso e pasto. Num mundo com precária telefonia, o velho sumiu, dois ou três meses sem dar notícias. Quando voltou, numa narrativa que realçava as mangueiras da cidade, a chuva diária, a rede para dormir, contou que trocou o gado por um carro. Mas onde estava o carro? Ah, em Goiás, no caminho de volta, já tinha se desfeito dele. Acho que trocou por gado, completando um ciclo que já dava a mão ao próximo. Ganhamos duas coisas de presente: uma vitrola portátil e guaraná em pó. Adoramos o primeiro e odiamos o segundo: um insulto às famosas caçulinhas (a garrafa pequena do refrigerante industrializado).

Voltas e voltas e não falo do conto do meu primo, razão pela qual puxei esse rosário. Em “Conversa de vaqueiros”, dois amigos conversam antes de dormir. Lembram-se, assim do nada, de algumas fomes por que passaram. Manuel Cabrito conta de uma vez em que ele e um amigo foram levar uma vaquinha a uma fazenda, mas a bicha era tão danada que eles, numa distância pequena, gastaram o dia todo. Quando chegaram lá, fome era significado miúdo para o que sentiam. Manuel comentou com seu parceiro de lida, e este, muito educadamente, perguntou ao dono da fazenda se não tinha jeito de comerem um requentado. O senhor, que já jantara, desculpou-se e encarregou a mulher de fazer a comida. Manuel tinha fome urgente, que promessa de comida não matava e o cheirinho do refogado só faria piorar. Para não perder a cabeça quando o alho queimasse no óleo, resolveu dar uma caminhada. Comeu uns matinhos, mas “não adiantou nada, porque insultou o estômago e ele pensou que eu estava jantando e aí ficou pior”. Manuel foi então para o riachinho e começou a comer água. “Comi água até encher. Mastiguei mesmo a água, que era para o estômago pensar que eu estava jantando uma sopa e dar tempo para esperar a janta do Zeca de Melo.”

Se a velhinha intrometida tivesse lido “Coisas de mascates”, poderia ter trocado a tagarelice pelo silêncio ou, pelo menos, por uma conversa sem importância, dessas necessárias quando o elevador desce e, se não parar, pode muito bem atracar no inferno. Inferno lembra morte, e é bom lembrar-se dela, pois o homem que trocava tudo por tudo, um dia, “entre uma conversa meio alterada e dois goles de pinga”, “barganhou dois tiros. E levou manta.” “Morreu tramando. Como nasceu e viveu.” Mas, prestem bem atenção, houve uma conversa meio alterada.

5.3.18

Uma ida à loteria

Às vezes faço uma fezinha. Os jogos de loteria são, a meu ver, o jeito difícil mais fácil de ganhar dinheiro. Sem derramar uma gota de suor, marca-se um número aqui e outro ali e, depois, entrega-se a sorte a Deus ou, acreditando-se na lisura dos homens, à máquina. Quem vai botar dificuldade nessa mecânica? Ninguém. Daí a ganhar, já é outra história.

Mas não era sobre o jogo que eu gostaria de falar, é sobre a experiência de hoje; que, esclareço, tampouco é sobre a experiência de jogar. O que tenho para contar tem a ver com o ambiente da loteria em que entrei. Primeiro, havia uma senhora que, revirando sua bolsa grande, descobriu-se sem a bolsa pequena, uma que ela havia mexido um pouco antes e onde guardava o dinheiro miúdo. Alardeou aos quatro ventos a perda, olhou para cada um de nós de cima a baixo, com desconfiança. Os menos vulneráveis a olhares acusatórios deram conselhos à senhora, que ligou para um lugar em que esteve, saiu e voltou para a fila até levantar a hipótese de ter sofrido um furto antes, talvez na rua. Mesmo assim, incontrolável e inocente, não escondeu de ninguém que ainda carregava na bolsa grande quatrocentos reais em notas de cem.

Isso não foi nada diante do sujeito que furou a fila e abordou a atendente de um modo que, segundo ele, quando passou a se defender, era leve, brincalhão. Não foi interpretado assim por ninguém, muito menos pela moça do caixa. O filho desse homem havia estado ali um pouco antes para pagar uma conta. Correu tudo bem no que diz respeito ao pagamento, mas o reclamante viu que, por erro próprio, a conta paga era outra, uma que não pretendia quitar. Cheio de empáfia, exigia um estorno. As moças da loteria, reagindo à antipatia com dose similar de antipatia, negaram que pudessem fazer alguma coisa, o sistema não permitia. Ele saiu de lá cuspindo ameaças.


Depois do dentista, fui comprar tinta para impressora e, na sequência, tomar um café. A loteria era bem em frente, não resisti. Fui jogar, tão somente isso, e saí impregnado daquela tremenda confusão. Só pensei numa maneira de me livrar do baixo astral: me meter no metrô e voltar para casa.

Entre o metrô e o prédio onde moro, um muro está pichado com a seguinte frase: “Por onde anda a empatia?”. Há um complemento, um gracejo que remete a favores sexuais, mas, no que pensei depois, não me importei com ele. Pelo caminho, fui martelando sobre a empatia em estado puro e concluí que ela foi sequestrada dos nossos dias. Restou-nos a repulsa, ou algo mais radical. Nada que fuja do que professamos ou gostamos nos atrai. Somos o avestruz da vez, com a cara enterrada no espelho.

Tenho uma vizinha de mais de 100 anos de idade. Não é raro encontrá-la sentada no pequeno jardim ou embaixo da marquise da portaria. Calada, olha tudo. Um dos seus gestos habituais é, certeira, pegar a mão de quem passa por perto e dar um, dois ou três beijos nela. Ganhei esses beijos ao chegar a minha casa e imediatamente desenhei uma utopia: as pessoas passariam a pegar as outras pela mão e, em seguida, depositariam ali um beijo. Não aquele de quem toma, por obrigação, a bênção dos pais, dos tios, dos avós, e sim aquele de quem agradece ao outro por ser justamente o outro.