8.7.19

Um assunto menor


A maçã matinal e o fim do mundo




Acordar, passar pelo banheiro para se aliviar das necessidades mais prementes da manhã, coar o café, sentar-se à mesa e então ingerir os venenos produzidos a um custo altíssimo de pesquisa, acrescido de outros que garantem a comercialização e o acesso do produto ao consumidor, no caso, o produtor rural.

Olhar a maçã, conferir se a lavou direitinho e decidir por comê-la sem a casca, os riscos devem ser menores. Mordê-la e, ao contrário do escritor francês que tinha delírios nostálgicos ao comer uns biscoitinhos, não lhe chegar à boca ou ao nariz qualquer lembrança da infância. A maçã mata, não com brevidade, aos poucos. E não sozinha, mas com a ajuda de outras frutas, dos legumes, das verduras, dos cereais e das carnes. Morre-se por comer. Como Deus é irônico!

A maçã é mais letal na outra ponta, não naquela em que está o dono do negócio — por favor, isso nunca —, mas, sim, do lado do sujeito que pulveriza as árvores com o agrotóxico que não deixa nenhum bichinho de maçã, o Cydia pomonella, se engraçar com a fruta responsável por nossa expulsão do paraíso — que, agora, nos dará ao céu, se ao céu formos dados. Aquele homem é, de fato, um esteta e garante a maçã grande, esfera quase perfeita, encontrada nos mercados. Não é raro que os trabalhadores rurais, atingidos diretamente pelo veneno, tenham vida curta, apesar das roupas protetoras; são, portanto, estetas e vítimas.

Come-se para morrer, para morrer lentamente. Ora, ora, não é a vida uma morte lenta? Verdade, mas, não fossem os venenos, morrer-se-ia de coisa menos corrosiva e, mais importante, sem que o mundo morresse junto, ferido pelo desastre ambiental que produzimos.

Como viver sem o aumento de produtividade, já que a terra é pouca para os seus sete bilhões de habitantes? Não está aqui o romântico das hortaliças, longe disso, a revolução verde, que chegou tarde ao Brasil, tem méritos. Mas não raro erra a mão, e é aí que nosso país tem se excedido, aprovando qualquer veneno, mesmo alguns já descartados em outros países.

Morde-se a maçã meio aguadinha. Lê-se o jornal e depara-se com o projeto político de ignorância aviltante, no qual o agrotóxico em uso desmedido é uma parte menor diante do ódio à Floresta Amazônica (responsável, entre outras coisas, pela chuva nas demais regiões do país), do ódio à ideia de um Brasil como peça fundamental no controle ambiental, do ódio à ciência. Odeia-se muito e ama-se um quase nada.

Come-se a maçã e imagina-se uma cena: um assistente aterrorizado (e com razão) entra na sala de um desses magnânimos da ignorância e diz: “Estamos com dificuldade de exportar nossos produtos depois que abrimos a porteira para não sei quantos novos agrotóxicos”. O chefe, que crê no mundo plano, lhe responde: “Ora, nem me venha com primavera”.

As flores murcham.

E nós também.

24.6.19

Burocratas contra o encanto


Começo com uma história. Eu estudava na USP e tinha um colega de Pernambuco, um funcionário público licenciado que viveria em São Paulo enquanto durasse o mestrado. Ao tomar uma carona com ele, vi que seu carro tinha placa de Recife. Imaginei sua viagem para São Paulo. Saíra numa manhã de sábado, dirigira uns 800 quilômetros, parara para descansar em Feira de Santana, na Bahia, e seguira viagem no domingo ainda de madrugada, quando, lutando contra o cansaço, percorrera os quase 1.900 quilômetros restantes até São Paulo. Ou, o que parecia mais sensato, fizera outra parada em Belo Horizonte, 1.300 e tantos quilômetros de Feira de Santana. Ou viajara sem tanta pressa pelo litoral, curtindo praia, conquistando amores.

Quando perguntei ao colega sobre a viagem, constatei que minhas especulações passaram longe da verdade, ele despachara o carro num navio. Sim, embarcara o carro no bem-bom de um navio em Recife para resgatá-lo em Santos. É uma história menor? Não, não é, só é um pouco mais fria, um carro no navio, seu dono no avião.

Na época dessa história, o padrão das placas dos automóveis era o de duas letras e quatro algarismos. (Meu pai tinha um KT 0108, que eu chamava de “Catoio 8” — mas isso não tem importância.) Pouco depois, as placas passaram a ter três letras seguidas de quatro algarismos. No mais antigo e no que o substituiu, deveriam estar impressos o estado e o município.

No momento, está em processo a implementação de um novo padrão, agora com três letras seguidas por um algarismo, outra letra e mais dois algarismos. Não há mais a indicação do estado ou do município, somente a do país. Assim, atende-se ao propósito de dar unidade aos países que formam o Mercosul, já que segue as diretrizes indicadas por ele. Nada contra.

Nada contra, mas há um problema: ao abandonar o modelo ainda em vigor, perdemos uma fonte primorosa de devaneios e inspiração. Coloquem-se na Praça JK de Cássia, Minas Gerais, por onde passa um carro de Desterro, Paraíba, com a placa GKL 0229. Não captou a questão?




Serei didático. Nas placas que estão sendo deixadas de lado, as letras iniciais indicam o estado do primeiro emplacamento. Quando esse modelo entrou em vigor, o Paraná serviu como teste. Por isso, carro com placa que se inicia com a letra “A” foi necessariamente registrado lá. Pavimentei a estrada aonde quero chegar. Continuo.

Uma placa GKL teve origem em Minas Gerais. Na do carro que passou por Cássia, terra de tantos parentes e onde Antonio Candido passou a infância, a cidade indicada é da Paraíba. Um cassiense, morador da Paraíba, terá comprado o carro na cidade natal e, como vivia na outra cidade, fez o certo e o transferiu para o local de moradia? Ou o carro teve origem em outro ponto de Minas e o sujeito da Paraíba passava ali por Cássia por acaso, talvez com o objetivo de, tomando a estrada para Delfinópolis, chegar à Serra da Canastra para curtir uns dias com seu novo amor?

Perguntas sem resposta. Pergunta sem resposta se parece com poesia: ambas alimentam os sentidos, e só (só?). A mudança ora em processo nos tira essa desciência tão cara à imaginação. Os burocratas agem contra o encanto; é birra deles.

As novas placas nos impedem de devanear, de imaginar a possível história de amor que carrega um carro emplacado no Rio Grande do Sul e transferido para Roraima estar circulando por Maceió. Alguns dirão, ora, amplia o foco, pense num carro do Brasil nas ruas da Bolívia ou do Chile. O que não esconderá? É verdade, mas, nesse caso, o certo é pensar em viagens turísticas — a família ou os amigos realizando um sonho antigo —, ou, desculpem-me a dureza e o possível preconceito, em roubo. Podem até ser histórias bonitas ou aventureiras, mas previsíveis e menos românticas do que aquelas insinuadas pelas placas gravadas com estado e município.

15.6.19

Reaparece o professor

Escrito em junho de 2019 para a 19a. Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que homenageou Gilberto Abreu, escritor, professor e político de Passos que vive em Ribeirão Preto.

Uma pequena confissão: estar aqui entre estes quatro é uma alegria sem tamanho. Quando comecei a escrever, jamais imaginei que um dia estaria na condição de colega desses escritores, sentado à mesma mesa. É muito para o Xandão da dona Haydée e do seu Joaquim.

A satisfação pessoal não termina aí, ao contrário, aí é o seu início. Estou aqui porque o homenageado de evento tão importante apontou a mim e aos demais passenses como parceiros de sua trajetória. Estou aqui pelo nosso Gilberto. Nosso, digo, de seus familiares, de seus leitores, de seus alunos, de seus amigos, de seus conterrâneos. Agradeço ao Gilberto e à Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto pela oportunidade de participar dessa comunhão.

Devo esclarecer que as minhas lembranças do homenageado estão embaladas em névoa. Um pouco porque sou desmemoriado, outro pouco porque há vazios e rupturas em nosso convívio. Portanto tudo que será dito aqui pode ser um delírio meu.

Nosso convívio começou em sala de aula. Gilberto foi meu professor de História no Colégio Polivalente, em Passos. Essa afirmação é incontestável. A que deveria vir colada a ela, se foi um bom professor, já me remete à zona cinzenta. Será que não me lembro, simplesmente não me lembro? Isso não é possível, pois me recordo de tantos outros professores. Cito alguns: Carabolante, Zé Leite, Leonor, Osvaldo, Marlene, Teresa, Faria, Martinha, Piruá, Marcão, Reinaldo. De cada um deles posso contar uma história, duas, falar de nossas rotinas. Do Gilberto, não. Por quê? Porque ele sumiu. Simplesmente sumiu. Um dia estava, no outro dia não estava. Sabendo-se que estávamos na década de 1970, em pleno governo Médici, é possível supor, sem grande esforço, o que teria ocorrido. Não posso afirmar nada categoricamente, nem mesmo com o querido Gilberto conversei sobre aqueles dias, mas, ora, ora... A época em que o professor que estava deixou de estar coincide com a mudança dele para Ribeirão Preto, aqui onde, não sei se na flauta, e imagino que não, ele foi abraçado, tornou-se um professor de prestígio, um político de prestígio e, por fim, consolidou-se como um escritor do andar de cima da literatura brasileira.

Bem, mas, do meu ponto de vista, nosso convívio tem outras incertezas. Um dia eu estava na porta de minha casa em Passos, ao lado de onde um pouco depois iriam morar os pais do Gilberto e seus 832 irmãos, e não sei se ele, se minha mãe — não sei, efetivamente não sei —, alguém fez com que seu primeiro livro caísse em minhas mãos de menino desinteressado por literatura. Aposto que era aquele livro. Aqui nem mesmo o contexto histórico me ajuda. Sou eu, eu mesmo e um livro — e é tudo. O primeiro livro do Gilberto, bem sei, é “Feto Outonal”, e foi ele que minha desmemória colocou em minhas mãos lá em 1975, 1976. Se me lembro do livro? Não. Apenas — e agora é a hora da verdade, pois o querido Gilberto poderá dizer, “Xandão, o que você fumava na sua adolescência? Nada disso é real, você misturou histórias, se é que não fez coisa pior” — que ele era ilustrado por outro artista passense, o multitalentoso Gustavo Lemos (já falecido). Ao lado de uma das ilustrações — da qual não me recordo, claro —, havia um versinho, desses que são anteriores a nossa existência: “Zé prequeté tira bicho do pé pra bebê com café”*. Do versinho nunca me esqueci. Do livro não lido nunca me esqueci. A literatura entra na vida da gente até quando não entra.

O que há de mais forte na figura do mestre, uma das vigas que sustentam esta festa do livro, é a imagem borrada, espectral, enfim, poética que mantenho dele.

Mas eu, homem de quase 60 anos, não poderia ficar apenas nisso. Então, ao me preparar para esta participação, corri atrás de alguns de seus livros. Não encontrei em minha casa o “Feto Outonal”, ainda que seja provável que esteja lá, que o tenha ganhado de minha mãe. Mas estavam lá “Lorca Balada Louca” e “Beijos a Gardel”.

Na leitura recente, o Xandão quase maduro poderia ter sepultado o outro que guarda apenas brumas e devaneios de um poeta que admira. Não, isso não aconteceu. Ao ler esses livros, vieram outras tantas especulações. Como é que esse cara conjuga Borges com Lorca ou Passos com o mundo? Qual é o alfabeto que só ele domina?

É um homem da utopia de uma América grande e integrada. É um homem que cultua Maiakóvski. É um homem que agregou ao vermelho o verde, arrisco a dizer que de forma pioneira.

Muitas dessas coisas estão presentes nos livros citados. O romance, uma escrito-leitura de “A morte e a bússola”, de Borges, mereceu o prêmio Guimarães Rosa, de 1990, e merece reedição. Os poemas são uma mistura de nostalgia com semeadura do futuro, o que se vê no seguinte verso de “Pelas ruas do mundo”: “Findos os meus ócios, deixe / em Passos os meus ossos. // Lá me tornarei adubo fecundo: / onde passam as ruas do Mundo.”

Por intermédio da literatura, o mistério, se não se resolve, se insinua: aquele professor que estava e deixou de estar da noite (e que noite!) para o dia (nublado por muitos anos e, agora, novamente nublado, se é que não voltamos à noite) é uma usina de humanismo. Isso me consola, me anima, me faz ter certeza de que Gilberto foi um dos meus melhores professores e, com certeza, aquele cujos distraídos e pouco estruturados ensinamentos continuam a fazer eco neste meu coração de poeta.
Como eu suspeitava, o livro existe e eu o ganhei.


* Texto adicionado depois do encontro em Ribeirão Preto: Gilberto Abreu me deu um exemplar do livro. Confirmei a autoria das ilustrações e que existe mesmo a página citada. Fiquei sabendo que Antonio Barreto é o autor do prefácio do livro, uma novidade e tanto para mim.

10.6.19

O que é então, moço?

Sonhava com uma fazenda, um pedaço de terra onde pudesse plantar umas poucas frutas e legumes. Para comer de quando em quando pamonha e curau, uma plantação igualmente modesta de milho. A felicidade, que nunca é plena e permanente, pousa de leve num mundo assim, ou assim com o acréscimo de um cavalo cujo nome poderia ser Equinócio, uma graça tola, mas, ora, as graças tolas eram a própria razão de seus devaneios.

Uma queda d’água. Árvores generosas em sombra. Galinhas poedeiras e um galo bom de bico. Um rádio de pilha e seus programas da hora da alvorada. Botinas e sela penduradas numa parede escanteada. Durante as noites, um gambá e um morcego disputando o forro da casa. Isso tudo já como excesso.

O futuro imaginado é um passado já vivido nas terras da avó, onde cavalgava um tal Segredo. Só falta ser sem luz, sem água quente, com mugido de vacas leiteiras antes mesmo do bom-dia do rádio.

Algo está errado. Esse sonhador preza a multiplicidade urbana, caótica e perigosa. De onde veio essa maldita nostalgia? (Nostalgia não; outra coisa: ilusão.) Melhor perguntar a ele.

O que há contigo, moço?

Um amor que chega ao fim? Sim, um amor nesse ponto.

Um retrocesso político? Sim, esse que se vê.

Pessimismo com o futuro do universo? Sim, a natureza não vai dar conta.

Nós, leitores de Paulo Mendes Campos, não sabemos que o amor sempre está a ponto de acabar? Quando é que a política não nos cobra atenção? Quando é que não destruímos a natureza?

Hein, moço?

Os quase sessenta anos já pesam? Sim, esse peso.

Os filhos feitos? Sim, a independência deles.

A falta de grana? Nem me diga.

Ora, antes chegar aos sessenta do que não. Que bom que os filhos vão à luta. A grana vem e vai, pense nos seus pais, pense nos amigos.

O que é então, moço? Vamos, me responda, pois eu também ando fugindo da realidade, se não sonho com a vida rural, sonho com Marte, com outra galáxia. O que está acontecendo? Não pensamos mais em mudar o mundo?


Bansky.

27.5.19

Minicrônicas para os nossos dias


Do diabo: “Há um lúcifer no fim do túnel”, me disse meu anjo da retaguarda. Fiquei aterrorizado e reagi com firmeza: “Não se brinca com esse tipo de coisa”. Lustrando suas asas, o anjo argumentou que sua função celestial o impedia de fazer brincadeiras.

A bala perdida: Os times estavam muito bem armados, razão pela qual não sobrou um zagueiro em pé. Os tiros saíram de todos os lados, e as vítimas caíram à direita, à esquerda, também pelo meio, onde, aliás, um bom centroavante poderia fazer uma graça. Pelo VAR, confirmou-se tardiamente, o único impedido era o juiz.

A nova sintaxe: O direito é um dever de todos, dos que devem e negam, dos que devem e não negam e, por fim, dos que não negam, não devem, não se endireitam e, assim mesmo, devedores ou diretores são. Que fique claro.

Pastor posto como chefe: Os buracos na rua com o tempo não serão mais buracos, serão ruas. Esta é a palavra sagrada. O resto é tormenta.

Willie Nelson: Eu disse ao Negão para nos sentarmos na mesa embaixo da foto do senhorzinho simpático, com certeza um texano valente. Pedimos nosso hambúrguer e, enquanto esperávamos, viramos memes.

Dois pesos e duas medidas: Para dar fim ao Supremo, basta um cabo, pode ser até de vassoura. Para matar um negro pobre, o exército e uma falsa guerra.

De volta ao paraíso: A lógica em torno do que está sendo feito com a educação é muito simples. Com um esforço mínimo, qualquer um entende. Vamos lá. Tudo começa lá atrás, quando não havia nem filosofia nem sociologia e o mundo era um paraíso, embora ninguém soubesse, pois o saber também não existia. Sendo assim, para voltar ao paraíso, nosso destino desde sempre, urge desaprender.

13.5.19

Lista de desejos

Escrever como se lesse.

Chorar para lavar os olhos, lavar os olhos para não cair de vez.

Não aceitar a maçã, voltar ao Paraíso, comer a maçã e ser expulso de lá.

Vender a mãe, entregar a sósia.

Apartar o sujeito de um verbo encrenqueiro com uma corajosa vírgula.

Piar para os passarinhos, miar para os passarinhos, latir para os passarinhos, viver entre eles.

Contar quantas vezes falei com carinho a palavra pai.

Financiar um miliciano que me proteja de mim.

Jogar amanhã na loteria de hoje. Não só acertar como ganhar a grana.

Dormir um pouco ressacado e acordar absolutamente bêbado.

Cortar os cabelos de Rapunzel enquanto, agarrado a eles, subo ao seu quarto.

Pedir exílio ao meu lado solar.

Conversar com estranhos coisas estranhas.

Cantar no chuveiro, ser aplaudido no Municipal.

Andar dez quilômetros, emagrecer cem.

Gerenciar o silêncio no grito.

Reatar a amizade do cravo com a rosa.

Rir daquele dia triste que começou com um riso.

Dirimir a dúvida dos sapos.

Voltar à civilidade.

Ler como se escrevesse.

29.4.19

Roupas e ideias: o eterno retorno

Certa vez, li um comentário do Verissimo sobre moda. Segundo ele, desde sua primeira calça comprida sempre usou o mesmo modelo, e, assim, de vez em quando, estava na moda e, de vez em quando, fora.

O que está por trás da percepção do cronista é que não somos tão criativos, de modo que a novidade de hoje já foi novidade ontem. Nessa passada, não demorará muito e teremos mulheres com perucas de cabelos bem lisos ou com coques esculturais (Winehouse bem que tentou), uma febre dos anos de 1960. Estamos vendo o black power de volta, o que comemoro, pois não é um simples modo de os negros se verem ou se mostrarem bonitos, também é um jeito de serem potentes.

Esta crônica não é um ensaio sobre moda, suas idas e vindas, seus altos e baixos. Quem sou para saber disso? Não saio do jeans com camisa, em dias de trabalho, ou com camiseta, nos fins de semana. Ou seja, tornei-me um conservador à maneira de Verissimo. Se não é isso, o que é então? É essa história de vai e vem.

Se acontece com as roupas, com as ideias não é muito diferente. Quem diria que a castidade resistiria à revolução sexual da segunda metade do século XX? E ela está aí, meio na moita, mas não tanto. Tudo bem, é um exemplo besta, dou outro: a incivilidade. Ao longo da história, nosso país fez um quase completo genocídio dos índios, fez da escravidão, com crueldade, a forma de viabilizar a economia colonial e torturou sem cerimônia em suas ditaduras recorrentes, então nada mais natural que houvéssemos evoluído, entendido nossos erros e, a partir deles, estabelecêssemos novos limites de ação política. Visões de mundo distintas, tudo bem, mas, incensar torturadores, reciclar ideias caducas (por exemplo a de que a homossexualidade é uma doença ou um desvio de caráter ou de que não há o aquecimento global), inverter o sentido de nossa dívida histórica (quem deve é o índio, “com terra demais”, e os negros, “com a mamata das cotas”) já é um descalabro.


Vovô, aquele saudosista, abre o sorriso e balbucia na sala: “Até que enfim”. Quer dizer, balbucia num dia, fala alto e com as paredes no outro, no fim está discursando na mesa do almoço de domingo. Trágico: o neto aplaude e reproduz.

A boçalidade voltou à moda.

15.4.19

Verissimo, nem te conto


Na rua Barão de São Borja, quase esquina da Dias da Cruz, no Méier, vive meu traficante. Calma, meu traficante de títulos. Penso assim: não fosse por um título como “História Universal da Infâmia”, quem leria Borges, o cego? E Ramos, o preciso, sem a força de um sonoro “Vidas Secas”? No início da minha vida literária, por não ser bom de título e imbuído de boas intenções, recorri ao tráfico. Acabei viciado. Acontece.

O importante no parágrafo anterior, verdadeiro nariz de cera, é o Méier, pois, ao sair do encontro com o traficante, vi uma placa anunciando que Doroteia P., médium recém-instalada no bairro, abria as portas para promover o diálogo entre os que aqui estão e os que estão num plano superior. Sempre tenho um probleminha amoroso ou financeiro ou uma pedrinha nos rins, uma insônia, então pensei que um contato dessa dimensão poderia jogar luz sobre o meu futuro, aguçar a minha esperança, ou simplesmente permitir que eu falasse com papai ou mamãe.

Meire, a assistente, me deixou numa saleta com mais duas pessoas. Não tardou muito, ela voltou, pediu um minuto de nossa atenção e contou como fora o processo de desenvolvimento mediúnico de sua mestra. Doroteia P. gostava de fotonovelas e, não raro, passava pelos sebos do Centro à procura de velhas revistas. Sentia-se feliz ao comprar uma Sétimo Céu, uma Capricho, uma Grande Hotel que faltasse a sua coleção. Certa vez, encontrou uma correspondência do Instituto Universal Brasileiro endereçada a um tal Rolando Hole Medonho, que, por algum motivo, não chegou a abri-la. O Instituto era conhecido por promover, no mundo anterior à internet, cursos por correspondência. Como não houvesse nada que lhe interessasse, a fã de fotonovelas levou o pacote. Sem saber, adquirira um curso de mediunidade. Ao descobrir o que era, em vez de se desfazer do material, folheou o primeiro exemplar; em seguida, estudou a coleção. Em linhas tortas, Deus lhe indicara um caminho, na realidade, o caminho.

Meire nos contava aquilo, esclareceu, para mostrar como o acaso interfere magnificamente em nossas vidas. Foi além: naquele exato instante, o mesmo acaso lançava de novo seus dados. Fiquei boquiaberto, a ponto de me esquecer da novela que escrevia, do título comprado, do sofrimento da criação; da vidinha miserável, enfim.

Doroteia P. nos esperava em um cômodo pouco iluminado. Magra e com um longo cabelo solto, fez sinal para que sentássemos e disse que usaria a tábua de Ouija, o jogo do copo, como era conhecido. Justificou a escolha por seu aspecto coletivo, que nos permitiria, sem que um largasse a mão do outro, papear com os do lado de lá. Oramos o pai-nosso. Em seguida, a médium fez a pergunta inicial: “Tem alguém aí?” O copo deslizou para o “sim”. Era o momento de nossas perguntas, mas o espírito quebrou a regra e se adiantou: “Como está o Brasil? Vocês têm cuidado bem das estrebarias e da memória do venerável presidente Figueiredo?” O ambiente ficou tenso, e a voz insistiu: “Não vão me responder?” Doroteia P., tentando manter o controle da sessão, quis saber quem falava conosco. Eu sabia quem era: “É a Velhinha de Taubaté”. “Espertinho”, a alma disse com ironia. A médium, que nunca lera uma linha de como enfrentar uma situação semelhante, ordenou que eu continuasse a conversa. “Depois que a senhora morreu, em 2005, vítima do desencanto com o mensalão, o Brasil foi pra frente, foi pro lado e agora, justo agora, resolveu ir pra trás. Sendo assim, temos um vice que monta cavalos e um presidente que ressuscitou não só seu venerável Figueiredo, mas também Geisel, Médici, Costa e Silva e Castello Branco.” O copo correu pela mesa e indicou que a Velhinha suspirava. Que suspirava, não, que suspirou — “Ufa” — e fechou o bico.

Doroteia P. voltou à cena: “Alguém aí?” Outro espírito nos disse que acabávamos de fazer o bem a uma alma penada. A Velhinha cumpriu sua passagem, feliz da vida por saber que o Brasil resgatou o passado, aquele tempo “imaculado e grandioso”. Ouvi um tímido “mito” sair da boca de um dos que estavam ao redor da mesa e vi o outro fazer uma arminha com os dedos. A médium, aliviada, deu por encerrada a sessão. Cobrou cinquenta mangos de cada um, abusivo no meu modo de entender, mas nem reclamei. Ninguém reclamou.

Fui pro bar e, entre uma cerveja e outra, li o título comprado ao homem do Méier. Me pareceu meio malhado, mas, ainda mexido com a recente experiência sobrenatural, não dei bola para as questões literárias. Tive, isso sim, vontade de ligar pro Veríssimo e açodar sua curiosidade com um “nem te conto”. Não e não, seria uma baita indelicadeza, afinal se os autores não controlam a vida dos personagens — uma verdade inquestionável —, o que dizer da morte. Preferi abandonar a ideia, o cronista do Rio Grande não merecia saber que os personagens também mergulham na vida eterna — alguns acabam presos ao purgatório. Melhor que mantivesse a crença de que, uma vez que não é mais escrito, o personagem deixa de existir. Melhor que não soubesse no que deu sua crédula e inocente Velhinha de Taubaté.

1.4.19

Homens nas ruas do Rio

Com uma das mãos no bolso, coça a perna e respira fundo. A tristeza não mede esforços para se apoderar de seus sentimentos, homem. Ela é assim, sempre assim: dona da festa escura, da face incolor, do sono tolo. Mas o mar está bem ali — o sol também. Crianças correm no pátio das escolas, e gritam, e riem, e não sabem de nada. Respire, a tristeza não passa de uma coceira passageira.


Foto do autor.


Você, com essa pressa toda, já pensou se o pior for justamente chegar a tempo? Digo isso porque, das poucas coisas que me ficaram das lições de escola, uma pode não ter sido uma lição, pelo menos não uma formal. A professora do quarto ano primário (hoje, acho, quinto do ensino básico) disse para a classe que “mais vale perder um minuto na vida do que a vida em um minuto”. Autoajuda fajuta, mas... e se ela estiver certa? Contenha-se, homem, desacelere, o relógio não passa de uma frágil prisão para o tempo.

Passo por um homem que ri desbragadamente. Contagiado, sigo em frente rindo desbragadamente. Esbarro num jovem que me olha e, em vez de rir, veste a cara do espanto.

Encostado no poste, o rapaz de camisa estampada e cabelo grande preso num lenço observa os meninos que correm pelas ruas, todos com uma garrafa de plástico cujo conteúdo aspiram. O jovem — não parece rico, talvez goste de samba e toque bem tocado o tamborim, pode estar no centro para encontrar o pai, a mãe, quem sabe para comprar o material escolar —, bem, ele ao olhar os meninos loucos de solvente, começa a pensar em como tudo isso é triste. O que ele vai fazer com essa constatação ninguém sabe, é possível que se torne indiferente ao nosso fracasso. Mas talvez não.

 O senhor e a senhora conversam à espera da condução. Quer dizer, ele fala, fala muito, conta de fulano que foi traído, de sicrana que está endividada, da vizinhança que já foi sossegada e não é mais. A mulher balança a cabeça, muito raramente deixa que lhe escape um “sim”, um “não”, um “é mesmo?”. Ele acena para o 409 e, antes de entrar no ônibus, diz que foi um prazer conhecê-la. Ela dá um tchauzinho contido, e ele entende que o prazer foi todo dela.

Na rua Voluntários da Pátria, há uma leva de abandonados; são mendigos, muitos com problemas mentais. O senhor que vive na esquina da 19 de Fevereiro varre a calçada o tempo todo. Um rapaz sobe e desce a rua entre os carros e não se abala com buzinas, bicicletas ou freadas. Sentado na calçada estreita e tumultuada, um terceiro pede esmola às mesmas pessoas que obriga a andar pela rua. O que encontro aos sábados desistiu de me pedir dinheiro, mas, educado, não deixa de me cumprimentar. Além desses, a crise despejou pela rua viva e caótica uma verdadeira chuva de desesperados.

O catador de latinhas para diante da sede da Maçonaria da rua do Lavradio. Contempla sem pressa a esfinge metálica que adorna o edifício histórico. Não sei se, como é o senso comum, tenta decifrá-la, se imagina quanto ganharia com a venda da imagem derretida ou se espera por um inaudível grito de ferro que o console.

O senhor nem é tão velho, mas tem jeitão de velho. Ele anda devagar e chupa um picolé. Quando leva a boca ao picolé — e não o picolé à boca, fica vesgo.

O menino com o uniforme de escola pública e seu responsável (não arrisco a dizer que é o pai, parece tão novo) descem do ônibus. O menino diz alguma coisa, parece que externa um medo, mas pode ser que revele a incompreensão sobre um fato qualquer. O responsável larga a mão do garoto, se ajoelha diante dele e o abraça.

O policial bate o cassetete contra a palma da mão, em seguida, fecha e abre os dedos sobre o bastão. Faz isso mais uma vez. Outra. Outras tantas. O tédio usa farda.

Dois bêbados ziguezagueiam pela rua. Dois passos pra frente, dois pro lado, pro lado de cá, pro lado de lá. Pra cá quando é pra lá, pra lá quando é pra cá. Pra frente de novo. Pra trás. Opa, pra frente. Opa, pro lado. De cá? De lá? Por um triz, não caem. O mais alto para e, quase empertigado, brada: “Não disse? A terra é plana”. 

18.3.19

O que tenho para contar


Passeava pelo jardim quando fui fisgado pelo cheiro de uma flor. Olhei atentamente para ela. A flor, rubra, exuberante, no ápice de sua existência, era minha mãe. Minha mãe, intensa e breve! (Para meus irmãos)

Eu o via, aqui e ali, de quando em quando. Ontem, no parque, ele estava visivelmente distraído, mexia os dedos e esfregava as mãos. Parecia não ter se dado conta da minha presença, mas, do nada, olhou para mim e perguntou: "Afinal, tio, o que veio primeiro, a cadeira ou a mesa?" (Para Marco Ajeje)

Se há uma criança peralta no mundo, é ela. E fui eu quem a viu escalando esse prédio altão ali, ó. Sem proteção, subia de gatinhas pela fachada. Quando chegou ao último andar, olhou para a sala daquele apartamento, isso, o da direita. Não sei o que se passou, mas dali levantou voo. Sim, ela tem asas. (Para Vitail Brandão)

"Tião, o que me conforta é que todos nós daquela velha turma de certa forma nos demos bem." Sebastião, homem mais de gesto que de palavra, dessa vez não respondeu apenas com um menear de cabeça ou um sobe e desce de ombros. Estendeu os braços, virou as palmas das mãos para cima e, quase sorridente, disse: "Menos os que continuamos vivos". (Para Atila Roque)

Vamos, vamos, telefone logo, conte a eles a novidade, já não me aguento. (Alô... sou eu... sim... o quê?... pera... fale devagar... melhor mais tarde?...) Ué, você mal abriu a boca, o que foi? (Eles têm novidade também.) Qual? (Não conseguiram contar, estavam muito eufóricos.) (Para Tereza Portugal)

Certa vez deitei-me com uma mulher tão farta que tanto eu quanto ela lamentamos o fato de eu não ter um terceiro braço e outras dezessete mãos. (Para a mulher que, nos meus treze anos, era dona das minhas fantasias)

A luta durava horas senão dias senão anos senão séculos. O soldado do exército inimigo, espada cruzada com a minha, me perguntou: "O que você tem contra mim ou eu contra você?" Sem respostas, baixamos as armas. Os exércitos que nos resguardavam, zelosos de suas responsabilidades, abriram fogo em nossa direção. Tudo leva a crer que estamos mortos. (Para Marielle Franco e Anderson Gomes)

Querem saber sobre a longevidade da esperança. Pois bem, eis a verdade: ela é a primeira que corre. (Para Eduardo Lacerda)

Os dois homens no filme relembravam uma história que, no detalhe do detalhe, era a vida dela, que fazia da ida cotidiana ao cinema seu único luxo — na sala, chorava sem censura de ninguém. Até então e depois de tantos anos, nunca tinha visto na tela alguma coisa que se parecesse com sua vida, com sua vidinha. Prestou ainda mais atenção nos homens. Olha só, acabavam de contar sobre as travessuras de seu pai alcóolatra. Aí já era demais, uma intromissão sem tamanho. Não, ali não ficaria, encontraria outro lugar para chorar em paz. (Para Shirley Villela)