12.10.20

A pergunta de Alice

 

Para Stella Maris Rezende, fã das palavras desenganadas


Alice levanta a mão e pergunta qual a diferença entre Política e política. O professor, que está ouvindo, mas não está lendo, não entende a qual diferença ela se refere e pede que se explique. A aluna carrega em Política, fazendo um som grave no “Po”, e abranda em política, que sai quase como “pulítica”. Os demais alunos fazem coro ao professor, ninguém pesca nada. Ela é dessas que, vira e mexe, levam uma anotação na caderneta: “atrapalha os colegas”, “conversa demais”, “ri alto”, mas, quando chegam as provas, acumula seus oito, poucos, nove, alguns, e dez, em enxurrada.

O professor é seu fã. Sabe que ela capta as coisas no ar, que fará provas espetaculares e que, além de tudo e por sorte, é bem-humorada, sociável, tem o que chamam de inteligência emocional. Ele acredita que, depois de cumprida a vida escolar, Alice será uma mulher pronta a ajudar o país a sepultar, sem o esquecer, o passado escravocrata e misógino.

Não lhe sai da cabeça uma história que passou a contar em reunião de professores e, no entusiasmo, também em mesa de bar. Certa vez perguntou aos alunos se algum sabia o significado da palavra “jucundo”. Era uma preparação para a leitura de um texto no qual a palavra apareceria; um texto antigo, é certo. A sala ficou em polvorosa. Logo, grupinhos aqui e ali cochichavam entre si e riam. O professor com quem todos se abriam perguntou qual o motivo da risada. O garoto levado do fundo da sala, sempre ele, inteligente, mas desinteressado dos estudos, falou que devia ter a ver com “cu fundo” ou “cu junto”. A risada foi tremenda, até o professor riu, e não foi diferente com Alice.

Serenada a algazarra, o professor pediu que o arruaceiro lesse a definição no Houaiss. O menino puxou o ar como se inspirasse a contrariedade e leu sem gaguejar: “que manifesta, que denota alegria; feliz, jovial, vivo; que se apresenta ou transcorre de modo agradável, suave, aprazível”. Os alunos se olharam, e Alice não se conteve: “Professor, me desculpe, mas nunca ouvi uma palavra tão triste quanto essa, ela não pode significar alegria, deve ser por isso que deixou de ser usada.” Na visão do professor, essa história mostrava uma Alice perspicaz e sensível, algo além da inteligência celebrada nas avaliações escolares. Os demais professores concordavam com o colega, não por conta da história, e os amigos do bar não entendiam o que uma coisa tinha a ver com a outra.

Mas agora ela fazia uma pergunta estranha. O professor insistiu no pedido de uma explicação adicional. Alice disse então que a diferença estava em que a primeira era com P maiúsculo e a segunda com minúsculo. A sala em peso soltou um ai, um ai jucundo e um pouco irônico, até aborrecido. Era como se dissessem: “Ora, Alice, por que você não passou logo a visão?”

O professor contornou o zunzum dos jovens, elogiou a pergunta e começou a falar sobre substantivos até levar a conversa para os negócios do Estado, da Polis grega, de onde se origina a palavra política. Tendo chegado ao campo da história, mostrou como era importante e nobre a política, e aí não sabemos se ele queria dizer Política ou política, pois não enfrentou a questão. Terminada a explanação, os alunos estavam com seus olhares perdidos, pareciam mais ignorantes do que quando nem passava por suas cabeças esse assunto.

Mapa encontrado em O Globo.

Alice pensou, pensou, coçou o queixo, enrolou os cabelos com o indicador e, então, abriu uma folha grande em que sopas de letrinhas se espalhavam. Setas mostravam que o partido A, inimigo do B num estado, era coligado a ele em outro estado. Em alguns lugares longe dos grandes centros — por exemplo, ali, onde, no passado, Graciliano Ramos atuou como prefeito, — o partido à direita da direita fazia acordos com o da esquerda sem exageros.

O professor sentiu-se acuado, não que a aluna apontasse alguma bobagem no que ele dissera, mas, mesmo assim, sentia-se prensado contra a parede — contra o muro foi a imagem que se formou em sua cabeça. Aproximou-se de Alice, pediu a atenção de todos e foi muito categórico, ainda que falasse suavemente, quase sussurrando: “Não deu certo, moçada, até aqui não deu certo. Mas é preciso insistir, a gente aprenderá que o importante é a política com P maiúsculo. A tarefa é de vocês, a quem peço desculpas”.

Saiu da sala de aula com as mãos no bolso e, pesando sobre as costas, uma tristeza grande e barulhenta, cujo significado, ele tinha certeza, não constava dos dicionários. Estava triste feito a palavra jucundo nos ouvidos de Alice.








26.9.20

Vênus

 Enquanto a tragicomédia de erros, crueldades e mentiras se repete diariamente a partir de um Brasil que dá de ombros para as mortes pela Covid e para o misto de crime e desastre ambiental que abate com força a Amazônia e o Pantanal, cientistas descobriram a existência de gás fosfina em Vênus. Formado pela combinação de fósforo com três átomos de hidrogênio, esse gás, dizem — não conheço, nunca cheirei, só ouço falar —, é fedorento e sobrevive onde há pouco oxigênio, o que é o caso da atmosfera do planeta cujo nome é o mesmo da deusa do amor e lhe foi atribuído por ser, depois da lua, o objeto celeste mais brilhante. Estudos minuciosos analisarão a chance de haver alguma espécie de vida no planeta. Na época em que eu fazia o ensino fundamental e o médio, Vênus era tido como o nosso mais próximo vizinho, mas, de lá para cá, descobriu-se que essa distância depende do ritmo com que os planetas cumprem sua jornada em torno do Sol, ou seja, ora é ele que está coladinho na Terra, ora é Mercúrio. Não importa essa filigrana, o importante é, como eu sempre soube e está por ser confirmado, não somos as únicas vidas na imensidão.




Para mim, apenas um cronista sem dinheiro no banco, mas com um parente importante, já morto, nenhum efeito prático terá a existência de outras vidas em nossa galáxia. Gostaria de acreditar que a humanidade, diante da descoberta, compreendesse a nossa pequeneza e deixasse de lado, da noite para o dia, o egoísmo, a maldade e a ganância, dando adeus à mentira e a todas as formas de obter o poder para fins exclusivamente opressores. Mas não acredito. Não só sou um macaco evoluído (evoluído?) como também sou um macaco velho evoluído. Os homens, derrotem vírus, controlem o aquecimento global, encontrem vidas extraterrestres, não mudarão. Somos o erro dos deuses, o que é uma pena, pois, na minha ignorância, imagino estar ocorrendo em Vênus o que ocorreu na Terra no início de tudo. Deve ser uma “cena” exuberante e intensa, fertilidade em estado bruto.

Debruçados na janela do universo, cientistas acompanharão a evolução desde o zero. Eu, com um pouco de inveja, sugiro a eles e a elas, inclusive a Clara Sousa-Silva, a portuguesa que faz parte da equipa (como dizem os de Portugal), que, nas horas tensas, deem um jeito de avisar aos venusianos para não se meterem por determinados caminhos. Nós os conhecemos muito bem, é uma fria. 

12.9.20

Seis meses

 

Tempo é templo (Sônia Peçanha)


São 19h54m, e um vizinho grita Vasco. No fone de ouvido, Antologia do Violão, de Paulinho Nogueira, um dos primeiros discos instrumentais que curti na vida e que encontrei bem agora numa plataforma de música. Acabei de ver dois filmes em sequência: “A sociedade literária e a torta de casca de batata” (de Mary Ann Shaffer) e “Intriga de estado” (de Kevin Macdonald). O primeiro tem boas sacadas de roteiro — que, contudo, descamba para uma história de amor com final clichê — e uma péssima atriz no papel principal. O segundo, um thriller envolvendo matéria investigativa de um jornal, políticos americanos e interesses privados sobre funções típicas de estado, no caso a segurança, é bem dirigido e bem interpretado, bom divertimento.


Não vejo as séries de que tanto se fala por aí, sou impaciente para acompanhar histórias a serem lançadas em gotas, episódio a episódio, temporada a temporada. (Como eu faria na época em que Dom Quixote ia a público desse modo, folhetim a folhetim?) Ficar na mão de produtores e seus interesses é demais para o caipirinha aqui. Prefiro os livros, os filmes, as músicas e as finais do basquete, que, muito por conta do engajamento dos atletas em relação aos conflitos raciais nos Estados Unidos, assisto com meu caçula.


A vida nesses quase seis meses de confinamento poderia estar restrita a isso ou também a isso, já que não podem ser esquecidas a faxina, a organização das refeições, a disciplina nos pagamentos dos boletos, as conversas do Whatsapp. Não se consegue perder de vista a pandemia e suas vítimas e as vítimas de sempre, haja ou não pandemia, os negros, as mulheres, os pobres. Enfim, os desgovernos (federal, estadual e municipal) nos beliscam segundo a segundo, impedindo qualquer escapismo de nossa parte.


Acontece que o infortúnio é um cão insaciável, pronto a morder as pessoas que amamos. Mesmo consolado pelo violão de Paulinho Nogueira ou maravilhado pelas enterradas de LeBron James, não abandonamos a preocupação com os filhos e os amigos. E não é para menos.


Esse equilíbrio do confinamento, entretanto, foi ferido pela notícia vinda de uma amiga: Sônia Peçanha, dona de uma escrita refinada e contundente, mulher cujo sorriso e cujas poucas palavras dão fôlego para uma vida, não está mais aqui. Em trinta e três anos de convívio em torno de nosso Estilingues, aprendi com Sônia sobre a delicadeza, acompanhei a evolução de seu talento — o texto preciso e poético — e compreendi, a partir dela, o que é uma postura ética frente à criação.


Soninha não foi vítima da Covid-19. Não posso dizer que tenha sido vencida pela estupidez reinante no país, apesar de conhecer seu posicionamento crítico, indignado. De todo jeito, ela se vai quando atravessamos um dos piores seis meses de nossa vida coletiva, seis meses intermináveis, durante os quais envelhecemos duas, três, quatro, ene vezes além do tempo cronometrado.

30.8.20

Outro tipo de cronista

 Na zoologia dos escribas, há o cronista cansado, que, ao contrário do sem assunto, tem muito a dizer, mas não tem fôlego. Sendo assim, desconversa, cochila entre vírgulas e economiza diálogos.

— Não!

— Sim.

— No duro?

— Da cebola.

E o leitor que se esforce para saber se falavam mal do presidente, do ponta-esquerda do Bangu ou se viajavam de um ácido ingerido no verão de 1968 e que, do nada, bateu de novo. Ele que se levante da cadeira e, pela janela, veja o que acontece na rua e descubra a crônica não escrita, sequer rascunhada.

O cansaço não é como a manga, que tem qualidade, ou como o automóvel, que tem marca. Assim mesmo, é fibroso, pode fundir e, quando baixa no lombo do cronista, faz do pobre coitado um procrastinador contumaz, encurtador de frase e espichador de silêncio. Daí, o cronista cansado, só de pensar, sua e, para não piorar, deita-se de conchinha com o vento do ventilador e conta no máximo até dois para não ficar esgotado.

Sou desse espécime, ainda que tenha de esclarecer que... ah, outro dia me explico. Outro dia, mas não fujo de cumprir a função social do cronista, qual seja, preencher um pouco mais a folha em branco. Saio de mansinho deixando um poema um tanto quanto melancólico.


O peixe e o nada



O que do rio se pesca,
o peixe e o nada,
nada por nada,
nada por nadar.

Cumprindo a vida, o peixe
ocupando espaço, o nada.
Jantamos o peixe
depois de almoçados pelo nada,

com quem vamos deitar.





17.8.20

A luta de Emilinho

Se tem alguma coisa que o irrite é ser chamado de Emilinho, tratamento carinhoso que lhe grudou logo na infância e, deixando de ser carinhoso, continuou até depois de ele se tornar um respeitado jovem senhor. Onde já se viu? Tudo bem que o chamassem assim quando era pequeno, afinal de contas Emílio é praticamente sinônimo de circunspecção, qualidade que não se pode cobrar de uma criança, muito menos de uma espevitada feito ele.

Mas, chegado aos 12 anos, isso deveria ter tido um fim. Não teve no seio da família e, pior, contagiou a roda de amigos. Os que frequentavam sua casa ouviram e levaram para a escola, para o futebol. Ainda calhou de ter outro Emílio, bem mais forte e alto, na mesma sala de aula. Emílio era o forte; ele, Emilinho.

E aos 15? Mudança nenhuma, a coisa tinha criado raiz. Ah, Emilinho, me faz companhia. Pô, Emilinho, deixa de ser fominha, passa essa bola. Só faltou alterarem o nome no registro civil. Emilinho GM. Quanta crueldade.

Aos 18, começou a cobrar a mudança. Ao entrar na faculdade, apresentava-se como Emílio e Emílio ficou sendo até que reencontrou, na cantina, a antiga colega de ginásio, Célia; cursariam, naquele semestre, uma matéria eletiva para ambos. Passaram a ir juntos ao cinema, e um levou o outro para conhecer os amigos e, bem, Emilinho saiu da boca de Célia, entrou pelo ouvido de todos e ecoou na faculdade. Emilinho do Direito, isso, aquele crânio. Pois, diga-se a verdade, Emilinho era mesmo um crânio, estudioso e perspicaz. Só não queria ser esse “inho”, mas era “inho” que ele era.  

No estágio, foi Emilinho de cara, veja se um fedelho daquele seria outra coisa. E, se isso é possível, mais Emilinho ficou sendo à medida que todos reconheciam suas habilidades, seu potencial. Nossa, tão novo e tão capaz, eita, Emilinho. Contentava-se com o fato de, na formalidade dos tratamentos no Fórum, chamarem-no de Emílio GM.

A primeira namorada, que não foi a Célia, mas uma amiga dela, vejam só, Tininha, foi responsável pelo pior momento de todo esse imbróglio. Quando os dois chegavam para o chope ou à porta do cinema ou do clube, os amigos logo diziam que os “inhos” haviam chegado, que poderiam então dar início aos festejos, ou entrar na sala, ou mergulhar na piscina. O namoro não durou muito, e Emilinho se distanciou dos amigos para ser Emílio na vida.

Foi, de fato foi, mas não por muito tempo. Passou a ser chamado de doutor Emílio GM por clientes, juízes e advogados em tribunais, acrescido ainda de um vossa senhoria. Fora dali, Emilinho. Até mesmo a secretária — que, no início, cumpria todas as formalidades dispensadas ao chefe — não resistiu quando passou a ter uma segunda função na vida dele, a de namorada e, depois, de esposa. Primeiro nas saidinhas de final de tarde, depois nos primeiros beijos e nos folguedos com que brindavam os corpos, por fim, no próprio escritório, só o chamava de Emilinho. Às vezes, meu Emilinho, noutras doutor Emilinho. Há de se dizer que, apaixonado como nunca havia sido nem jamais seria, esse Emilinho saído da boca de Maria Adelaide soava diferente, nem lhe feria o brio.

Eis que chegou a paternidade, e era hora de dar um basta naquilo. Ninguém é filho de Emilinho. Bilu, bilu, teteia, minha princesa Odalea, este aqui sou eu, seu papai, Emílio GM. A neném deu aquela babadinha típica dos bebês, apertou o dedo do pai e, no que não foi percebido, piscou com ironia os lindos olhinhos. Aos dois anos, chamava o pai de Linho; aos quatro, de Lilinho; aos 15, de monsieur Milinho. O pai morria pela filha, única, soberana, e só via amor em tudo.

A última de Emílio, façamos seu gosto e o chamemos assim, foi pensar que, se na vida comum a coisa fugira de seu controle, no mundo virtual, relativamente novo, em construção, ele poderia fazer-se Emílio GM como de fato era. Criou perfil em todas as redes com um maiusculíssimo EMÍLIO GM. Inteligente, planejou uma estratégia para aparecer. Nadando numa onda que surgia, fez de seu perfil um destilador de falsas acusações a políticos que insinuavam alguma preocupação social. Eram todos comunistas, ateus, inimigos da família.

Sucesso. Sucesso absoluto. Sucesso tão estonteante que em pouco tempo lá estava ele em manifestações conservadoras, às quais ia sempre com uma camiseta verde e amarela com um imenso EMÍLIO GM no meio do peito. O nome — mais que nome, marca — passou a ser gritado por todos e pintado em camisetas, que apareciam, manifestação a manifestação, aos montes. A glória. Mais que glória, milagre. Antigos amigos do então Emilinho, ao se reencontrarem com esse arauto do conservadorismo, passaram automaticamente a chamá-lo de Emílio. EMÍLIO GM. A glória.

Hoje, ao voltar de uma dessas aglomerações, EMÍLIO GM encontrou um bilhete assinado a quatro mãos, as duas de Maria Adelaide e as duas de Odalea. Nele estava escrito: “Emilinho, não gostamos disso em que você se transformou. Passar bem.” 

1.8.20

Augustinho Sentinela

Augustinho era quase adolescente quando ouviu de um amigo do pai que bom, bom mesmo, era a ditadura, tempo de foco e retidão, quando ninguém ficava se perdendo em devaneio, pensando em coisa ruim, aberto ao pecado.

O rapazola gostou de saber que na ditadura havia foco. Foi um bálsamo para suas angústias — que ele, crendo-se muito criativo e até irônico, tratava como angústias augustinas —, pois não conseguia mais viver sempre questionando tudo, inclusive determinados assuntos delicados. Delicados, sim, pois, de vez em quando, ele olhava os moços da mesma idade e até os mais velhos com um olhar carregado de suspiros. Ah, isso não, não macularia o nome da família. Que viesse a ditadura e arrastasse o mal e o pecado para longe, implorava aos céus.

Nessa época, aproximou-se de Deus, quer dizer, na sua visão, aproximar-se de Deus era primeiro fazer a catequese e depois frequentar com assiduidade a igreja. Ajudava na missa e, fora dela, cuidava para que tudo estivesse certo quando o pastor falasse a seu rebanho. Tornou-se um auxiliar do sacristão, um homem com seus 30 anos de muita energia e olhos pretos e magnéticos. Augustinho teve de combater o diabo na casa do Pai. Pelas barbas do profeta, de todos os profetas, dos apóstolos e santos, amém!

Deus era bom e clemente, mas a ditadura, pensava Augustinho, é que acabaria com os seus tormentos, terrenos todos eles. Assim, começou a pesquisar como poderia seguir a carreira militar, pois os militares é que, tendo implementado a ditadura uma vez, implementariam uma segunda. Quando ela chegasse, Augustinho, que já seria Augustão, estaria entre eles, talvez os liderasse. Abraçar a profissão, no entanto, só depois dos 18 anos; havia uma adolescência inteira pela frente.

Agarrou-se mais e mais às orações, o que não o impediu de cometer uns pequenos pecados no isolamento do banheiro e de espichar olhos para o sacristão, para o Merval, aquele bronco do sexto ano, do sétimo, do oitavo... Apesar disso, chegou aos 18 incólume, Deus misericordioso o conservou assim.

A mãe se derretia pela candura do filho. Nem se tivesse feito promessa, Deus a presentearia tão bem. O pai via no menino sinais de novos tempos, estranhos para ele, estranhos até demais, mas certamente melhores, com homens dedicados à família e menos truculentos. Enfim, tudo soava bem e melhorou ainda mais quando o casto anunciou que, servindo ao exército por conta da idade, depois seguiria carreira. Seria general e promoveria a ditadura. A mãe chorou de doce emoção. O pai aplaudiu e, não contendo a alegria, escarrou pela janela.

O exército não era muito diferente da escola, havia jovens de ambos os sexos, aulas e momentos de recreação. A diferença era o empenho físico cobrado. Augustinho, um menino franzino, aparentemente frágil, se revelou, tomou gosto pelos esportes, se destacou nos treinamentos de campo, tornou-se um atleta.

Se as tentações do pecado não lhe deixavam em paz, descobriu que sua força de vontade era maior. Via-se, no futuro, solteiro. Com mulher não se casaria e com... do resto Deus cuidaria como cuidara até então. Seu projeto de vida era acelerar a chegada da ditadura para livrar outros jovens do sofrimento por que ele passava. O mundo deixaria de produzir Augustinhos, quer dizer, não aflorariam angústias augustinas em mais ninguém.

Mas como se tornar um ditador?

Descobriu que ditador torturava. Estudou todas as torturas possíveis e achou por bem experimentar algumas no próprio corpo. De vez em quando, dava um choque embaixo da unha, ficava de cabeça para baixo dez, quinze minutos. Aprendia na pele o que aplicaria como corretivo aos inimigos e, verdade seja dita, se a intensidade do choque fosse maior ou se fosse amarrado em pau de arara, ele responderia a qualquer pergunta, até as de cunho íntimo, nomeando inclusive o que escondia de si. Nessas horas, a lembrança do amigo do pai surgia do nada só para lhe soprar novamente que bons tempos eram os da ditadura, de foco e retidão.

Augustinho virou sentinela. Muito atento aos arredores do quartel, o futuro ditador, moço inexperiente, deixou desguarnecida a retaguarda, que, sem que fosse convidado, passou a ser visitada pelo temido Capitão Expedito, apelidado em cochichos de caserna por Dito Duro. Os mesmos que apelidaram o capitão passaram a debochar de Augustinho, aquele que teria trocado, na marra, a dita pelo dito, a dura pelo duro.

Augustinho estacionou no posto de soldado raso e, não tardou muito, foi desligado do exército. Quando a mãe soube de tudo e mais um pouco, chorou de uma emoção amarga toda vida. O pai, tomado pela ira, escarrou no chão da sala e proibiu o filho de botar os pés naquela casa.

Sem família, sem Deus — que a seu ver lhe virou as costas — e tendo experimentado, do pecado, apenas a dor, Augustinho vive por aí, anda pelas ruas e planeja com seus botões, e só com eles, tornar-se mais cedo ou mais tarde um ditador.


17.7.20

Adolfinho em faxina



Como há males que vêm para o bem, Adolfinho viu na quarentena uma oportunidade de assumir tarefas e zerar dívidas afetivas. Cuidaria da própria refeição, que seria leve, lavaria a roupa, limparia a casa. Leria, ouviria seus bolachões esquecidos no alto do armário, assistiria aos caubóis de que tanto gostava e a outros filmes. Folhearia os álbuns de família e os que mantinha com fotos de seus namoros. Uma parada para reposicionamento. Há males que vêm para o bem. 

Ao tirar os primeiros tufos de poeira do chão da sala, no início da quarentena, Adolfinho ficou espantado. Como era possível que tudo aquilo estivesse ali e ele não visse? Pensou então em Gerusa, a arrumadeira, e foi um pensamento fugaz e indefinido. Quando, em seguida à faxina, a dor nas costas obrigou-o a fazer compressas e tomar um analgésico, voltou a pensar em Gerusa, dessa vez com... saudade foi a palavra que encontrou, mas não era bem o que sentia. 

Quando viu umas lagartinhas entre as folhas de alface, teve ímpeto de jogar tudo no lixo. Suspirou, fez uso da razão, óbvio que algo vindo da terra traria alguns bichinhos estranhos. Correu à internet em busca de uma dica de como lidar com a situação. Paciência, muita água em cada uma das folhinhas, que depois deveriam repousar numa mistura de água com água sanitária. Na dúvida, fez o mesmo com o tomate. Quando viu as mãos ressecadas, pensou em Gerusa com... saudade foi a palavra que encontrou, mas não era bem o que sentia. 

Quando ajoelhou para limpar o vaso sanitário, preparou-se para vomitar, pois, naquela posição, naquele lugar, o corpo só se lembrava de ter estado para vomitar depois de uma bebedeira. Adolfinho controlou-se. Olhou para o que tinha à mão: desinfetante, antibactericida, saponáceo. Fazer uso de tudo, com moderação, deixaria o vaso limpo e asséptico. Poderia passar a esponja do lado de fora e do lado de dentro? E depois poderia utilizá-la na pia? E para a pia bastavam essas coisas? O que usar nas torneiras? Quando sentiu uma fisgada nas costas e percebeu que umas manchas marrons no interior do vaso não saiam de jeito nenhum, Adolfinho pensou em Gerusa com... saudade foi a palavra que encontrou, mas não era bem o que sentia. 

Não demorou muito, ligou para Gerusa. 

— Seu Adolfo, tudo bem? Aconteceu alguma coisa? 

— Não, Gerusa. É que... — percebeu que não sabia por que ligara. Saudade? Vê lá se sentiria uma coisa dessas por ela. Nutria um desejo de convencê-la a voltar ao trabalho, nada de ruim aconteceria. Algum pudor o impediu de ir adiante. 

— Seu Adolfo? 

— Gerusa, liguei para saber se está tudo bem, só isso. Se cuide. 

Quando Adolfinho sentou-se na sala, depois de uma manhã de limpeza e reuniões virtuais, soube pela televisão de Miguel, o menino de cinco anos que morreu por negligência da patroa de sua mãe. Adolfinho pensou em Gerusa com... dessa vez, nem lhe passou pela cabeça o sentimento de saudade; sentiu vergonha. 

Foi fazer a sesta. A palavra vergonha ecoava no ritmo dos pés, que se deslocavam da sala para o quarto. O que fazer com a vergonha? Não soube responder àquela hora, e a dúvida sumiu no sono. Ao acordar, café tomado, ligou e pediu a Gerusa que voltasse, não lhe aconteceria nada e a saudade estava grande, muito grande.

6.7.20

Para nada

Hoje estou apenas para cantorinhar. Ou para catar piolho em cabeça fresca de criança, mas não há criança por aqui, muito menos com piolho.

Não estou é para nada, estou apenas para o passar do sol, como dizia meu tio Ellin. Mas, devo confessar, hoje não há sol. E, vira e mexe, venta. Não é o tal ciclone-bomba que varreu Santa Catarina e Paraná, mas, preveem, não será uma brisa nordestina, uma daquelas deliciosas que serviam de argumento para Bandeira, disposto a abandonar amigos, livros, riqueza e vergonha, convencer sua amada, Anarina, a — deixando para trás filha, avó, marido e amante — mudar-se com ele para Pernambuco, Paraíba, um desses paraísos lá de cima do mapa onde se pode viver de brisa. O ventinho, nem ciclone nem brisa, vai atiçar o mar, levá-lo à ressaca.

Estou para rever filmes, mas, admito, a experiência na sala de casa não me agrada. Gosto do processo de ir ao cinema, principalmente o de rua. Sair do apartamento um pouco antes, comprar ingresso, correr à livraria, folhear as novidades, beber um café, quem sabe comer um pedacinho de bolo e comprar uma garrafa de água na farmácia ou na banca de jornal, onde, aprendi, é mais barato. Ver ou rever filmes agora é na sala e ponto. Se der sorte, os demais confinados fazem companhia; se não, enquanto na tela a moça e o moço trocam olhares, ou um malvado planeja “o” crime, ou uma mulher anda sozinha por um jardim de uma cidade a que nunca fui ou irei, os colegas de infortúnio passarão na frente da tela ou conversarão qualquer assunto sem se importarem com o atento telespectador de filmes que já viu.

Cenário de Dogville
Um problema adicional: onde encontrar os filmes para rever? Não sou bom explorador do submundo da internet e, mais, de alguns filmes guardo uma leve recordação da história, e é tudo. Como aquele francês, uma crônica linda, em que uma moça cuidava do gato de um vizinho que precisou viajar. Com essa exígua informação, como vou achar o filme, me expliquem. Emendo um outro assunto. Vocês concordam que certos filmes se assemelham a uma crônica, outros a um conto — dou como exemplo “A noiva do deserto”, de Cecilia Atán e Valeria Pivato, ou “A janela”, de Carlos Sorín, ambos de nossos vizinhos chilenos e argentinos — e outros a um romance — um tantão deles? E há também os que são teatro. Aliás, o aparentemente mais teatral de todos, Dogville, do dinamarquês Lars von Trier, que se passa num palco, com os cenários desenhados a giz no chão, é, a meu ver, o menos teatral. Ali o cinema mostrou todos os seus truques. Eu deveria rever o filme, mas, repito, onde encontrá-lo? Meus companheiros de confinamento gostarão de ver?

Ah, hoje não estou para nada, estou apenas para regar minhas dúvidas e, aqui e ali, cantarolar músicas que não sei a letra nem de quem são.

21.6.20

Boi

Para Joaquim, Antonio e João



Gado virou sinônimo de quem, regurgitando a escuridão, pasta a incivilidade espalhada pelo governo federal. Na famosa reunião do dia 22 de abril, aquela que escancarou o lado avesso do nosso país e mostrou que palavrões ainda são palavrões se ditos em discurso odiento, o ministro dos olhos verdes, comandante da pasta verde e inimigo do verde usou a metáfora “deixar a boiada passar” para alertar seus pares de que o momento de “distração” do povo com a pandemia deveria ser usado, ali, na moita, para acelerar as reformas polêmicas, como as que facilitam o desmatamento.


Eu, que não tenho gostado nada desse governo, que não gostei em nenhum momento e que agora — vendo a forma como não enfrenta o vírus — gosto menos ainda, sinto-me particularmente atingido pelo uso da imagem dos bois. Boi, vaca, touro, rês, bezerro, gir, guzerá, holandês, nelore, ¾, mestiço, enfim, a era, as raças, os cruzamentos e a aparência desses animais estão no substrato do meu afeto. Nasci num mundo bovino.


Meu pai era um vendedor de reses. Na juventude, isso é, nas décadas de 1930, 1940, ele organizava comitivas para a cavalo levar bois de Passos, onde vivia, até Uberaba, centro pecuário, cidades bem distantes uma da outra. Participava de uma realidade agora caduca, mas que, por exemplo, está nos romances de Mário Palmério e lindamente registrado e ilustrado em No longe dos Gerais (Cosac Naify), livro no qual Nelson Cruz conta da participação de Guimarães Rosa, durante o processo de escrita de Grande Sertão: Veredas, numa comitiva que tocava pelas bandas de Cordisburgo um rebanho de uma fazenda para outra.


Eu gostava de ouvir as histórias de papai. Na comitiva, eclética, cada um tinha sua função, e, ao longo do caminho, era preciso descansar e dar de comer à boiada. Arranchavam numa fazenda de conhecidos e, por conta disso, movimentavam o local, o que acabava em festa, com dança e namoros. Logo depois veio a fase de embarcar os animais num caminhão e não precisar mais fazer viagens desgastantes, montado em cavalo. Meu pai, em vez de se acomodar, inventou de, tendo a seu dispor rodas e velocidade, ir mais longe. Na década de 1960, levou uns boizinhos para o Pará. Não tenho ideia de quanto tempo levou a viagem, o que sei é de seu sumiço — por uns dois ou três meses pouco soubemos dele, nem por telefone era fácil de Minas contactar alguém tão longe. Na volta, nos trouxe guaraná em pó (ninguém gostou) e uma vitrolinha portátil; nos contou que tinha trocado bois por um carro e, em Goiás, vendido o carro. Por fim, falou que lá no Norte dormia-se em rede e que Belém era uma cidade cheia de mangueiras.


As viagens de papai movimentavam a casa. Ao longo do tempo, descobrimos que ele sempre saía numa quarta-feira. Era quinta-feira, ele anunciava a viagem para sexta, mas, era batata, ela não acontecia nem na sexta nem no sábado, só na outra quarta. Sempre às quartas. Imagino que isso tinha a ver com todo o preparo exigido: os relacionados ao embarque do gado (contratar o caminhão, acertar com o dono do gado o dia e a hora) e os da alçada da burocracia (as guias disso e daquilo). Cada uma das reses tinha de ter um nome registrado, então, nalgum dia, ele, mamãe, eu e meus irmãos sentávamos à mesa e passávamos horas inventando nome de reses. Ventania, Chalana, Enfezada, Fumaça...


Minha mãe, a bem da verdade, fez de tudo para que os quatro filhos não nos tornássemos negociantes. Em termos financeiros, nunca foi um empreendimento rentável, além de cobrar o sacrifício de se ausentar por períodos longos. Ela conseguiu, e todos fomos cursar a universidade.


Foi justamente Antônio — o filho mais velho e que, por ter se tornado um acadêmico com formação nos Estados Unidos, parecia o mais distante da vida rural — quem, quando pôde, comprou um pedacinho de terra e, durante anos, tratou de ter seu gado leiteiro. A existência da fazenda foi uma forma de todos nós nos aninharmos mais uma vez na roça. Apesar das diretrizes de mamãe, todos havíamos, desde muito cedo, desfrutado do Gordurinha, a fazenda da vovó Thomazia, e tínhamos intimidade com a pecuária.


Da fazenda de meu irmão, meus dois filhos mais velhos, em especial o primogênito, aproveitaram bastante. João cresceu ali e fez daquele mundo, estranho para um garoto de cidade grande, o seu mundo. Suas férias eram lá. Com menos de dez anos, ele acordava por volta das cinco da manhã e, sem pai nem mãe, sem tio nem avô, entrava no carro do retireiro e ia para a lida diária: ordenhar vacas, limpar estábulo, ajudar na inseminação artificial. Foi, e imagino que, se tiver oportunidade, voltará a ser, o mais vaqueiro dos descendentes do Joaquim. Não por acaso, ele e meu irmão mantêm até hoje uma cumplicidade de gente roceira; pena que papai acompanhou pouco a camaradagem dos dois.


Enfim, acho que me sobram motivos para salvar o gado, quer dizer, para dar às palavras gado, boi, vaca, rês, bezerro significado oxigenado, positivo e democrático. Chamemos ao séquito do senhor da escuridão de obtuso, lorpa, ignorante, tapado...  





























7.6.20

Na ponta da língua

(para Dias Gomes)

O problema do Brasil é que o problema do Brasil é o problema do Brasil.

 

(para Rubem Penz)

Lugar longe, distante mesmo, é ali, ó, logo depois de desistir.

 

(para Graça Sette, professora em tempo integral)

Antes do "b" e do "p", o "m", mas depois vale tudo.

 

(para Sônia Peçanha)

Os bumerangues seriam ótimos pombos-correio, mas não nasceram pra isso.

 

(para quem estiver por aqui no futuro)

Amor artificial, inteligência artificial, relações artificiais: ô saudade!

 

(para Luís Antônio P. de Oliveira)

Os políticos mentem apenas para subsistir.

 

(para Mariana Ianelli)

Todo olhar carrega um assobio.

 

(para Cristiano Santos)

O antônimo do antônimo é sinônimo de terceiro grau de um número primo.

 

(para quem acha que é fácil)

Falar é fácil, falar fácil é difícil e falar difícil é o novo fácil, trapaça.

 

(para João Mattos)

Nem tudo somado a si mesmo dobra.

 

(para Nilma Lacerda)

O relógio não é o oásis das horas secas.

 

(para Caio J. Maciel, com medo de estar plagiando)

Ir e voltar num pé só deixa muito Saci de quatro.

 

(para Manoel Lobato)

Um país é feito de insones e lixo.

 

(para Marlene de Lima)

Entrou na fila quando Deus meteu um atestado.

 

(para Carmen Molinari)

Ver não viu, mas viu de ouvir falar.

 

(para Eustáquio Grilo)

Só os bobos desconfiam.

 

(para Patrícia, minha irmã)

Cachorro quando dá de latir dormindo andou comendo ração de gente.

 

(para Maria Jabace)

As pedras não falam por pura timidez.

 

(para Gilberto Abreu)

Valhacouto para velhaco, velho, é o que por aqui não falta.

 

(para Wasmália Bivar)

O problema do Brasil é estar o Brasil no Brasil, um país com problema à beça.

23.5.20

Viveremos em Marte

Em quarentena, a noção de espaço muda, se é que o próprio espaço não mude. Vamos com calma: a noção de espaço muda. Acostumado a caminhar — às vezes sozinho, noutras com os amigos Marco Antonio e Fernando — dez quilômetros pelo Aterro, nesta época de confinamento, às 16h, vou do quarto ao banheiro, do banheiro, passando pela sala e pela cozinha, à área de serviço e, de lá, volto ao quarto e recomeço. É uma caminhada bem menor que aquela sob o sol, margeando, como disse Lévi-Strauss, segundo Caetano Veloso, a boca banguela da praia de Botafogo — ando dez minutos e não dez quilômetros. De manhã, tomo quinze minutos de sol.

Rotina. Rotina e disciplina. Resignação com um tempero de desobediência. Se o presindecente nos quer em vida normal, estar confinado é desobediência civil. Portanto desobedeço. Mas, neste instante, quero escrever sobre o confinamento, a política em nazi menor sustenido deixo um pouco de lado, na entrelinha, sob o tapete.

Se não me organizo, nem sei o que pode acontecer. Chutar o medo, descer à rua, dançar pela calçada, entrar no mercado apenas para ver o preço do óleo da soja colhida no oeste do oeste do Centro-Oeste? Seria lindo, não fosse estúpido. Fico em casa e, à distância, participo de reuniões de trabalho em plataformas impressionantes, mas incapazes de fazer da reunião uma reunião de fato. Quando vejo, em miniaturas, todos os colegas, deparo-me com pessoas pouco preocupadas em olhar o outro ou para o outro. Ao contratempo, a solução possível. O virtual é o novo aqui, um menos aqui que o aqui de sempre, pois falta-lhe sutileza.

Estranho mundo. Criticávamos as redes sociais por nos darem a falsa sensação de proximidade, e agora é tudo que temos. Então, reescrevo a frase anterior: as redes sociais são a única forma de encontro. Me dê um emoticon ou um like e, de curtida em curtida, superemos a morte diária. De curtida em curtida, cantemos. De curtida em curtida, falemos daquele meme, daquele vídeo, daquele verso.

Depois que o espaço desmilinguiu-se e perdeu o sentido, construímos a vizinhança afetiva. Nela, o Whatsapp, o Facebook e o Instagran são as janelas abertas de onde bate-se papo com primos na Suíça, com a quase irmã na cidade natal, com um ex-colega de trabalho. Trocam-se receitas, poemas, chistes. Treta-se. Alguns vizinhos trocam de roupa sem se preocupar com o olhar curioso lançado de outra janela. Muitos, frágeis, desmoronam sem se preocupar com a própria vaidade. Por precisão, por sufocamento, escancaram-se as janelas e as portas. Os homens são ou estão ou parecem bons.

Sem querer quebrar o encanto, não continuaremos bons depois de tudo. Crucificamos Cristo, beijamos a mão de Torquemada, dizimamos autóctones em todos os hemisférios, passamos por inúmeras guerras, duas chamadas de mundiais, e, até hoje e diariamente, matamos crianças na Síria e nas favelas brasileiras. Então, me desculpem, sairemos os mesmos da quarentena, usando máscaras, é verdade e igualmente simbólico. E não apertando a mão dos amigos. E não beijando a torto e a direito. E temendo dar ao corpo o alimento do corpo alheio.


Retirado do site.


É possível salvar-se do pessimismo pensando que em breve viveremos em Marte, em breve não contaremos mais a idade em anos, mas em séculos: veja aquela criatura, um século e já está pensando em deixar a casa dos pais. Em breve, a inteligência artificial nos livrará do mal, amém. Fiquem tranquilos, eis a gota de otimismo, a espécie humana estará salva a despeito dos muitos que não têm resistido à atual ação ostensiva da morte.

Os dias são, mas não sabermos como são de fato. Esta crônica é, mas não sabemos quão crônica é. Eu, o último fio desse novelo, dessa novela, acordo e durmo varado de interrogações. Só me resta então, de minha janela pan-óptica, recitar, em tom de até logo, um verso meio de improviso e sarcástico até sob chuva de canivírus.

 

Se pedir o seu amor, meu amor,

manda-me-lô, criptografado

e higienizado em álcool em gel, safra 2020,

pela deep web,

mas não envie nudes, meu amor,

já me esqueci como ser happy.


10.5.20

Os menores

“há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis” (Bertolt Brecht)


Não sei se Voltaire, se Pascal ou se um terceiro, em carta, se desculpou com o amigo por escrever um texto longo, pois estava sem tempo para um curto.

Nos anos de 1970, fez sucesso o livro Smal is beatiful (O negócio é ser pequeno), de Ernst Friedrich Schumacher, economista que incentivava o consumo de bens e serviços oferecidos pelos pequenos estabelecimentos, aqueles situados em nossas vizinhanças. Não é uma ideia sepultada, está aí até hoje.

O que pretendo com esses exemplos colhidos aleatoriamente?

Primeiro apontar que o pequeno, ao contrário do que se possa pensar, é um trabalho de extremo cuidado estético, típico de ourives. Segundo chamar a atenção para o fato de que o grande pode destruir a diversidade. Em síntese, sublinhar o pequeno, sua pluralidade e potência.

Sou um artista menor, não no sentido da qualidade do meu trabalho, não é isso que está em jogo, sou menor porque ando por uma faixa menos exposta, quer se pense em termos de mídia quer se pense em termos de acesso a outros escritores.

Como eu, há muitos. Não sou um escritor profissional no sentido de viver do que escrevo, trabalho com o diploma de economista. Porém, na faixa dos miúdos, está uma variedade de artistas que fazem da literatura — ou da música, ou do cinema, ou da fotografia, ou das artes plásticas, ou do teatro, ou do artesanato, enfim, de qualquer uma das artes e de suas manifestações — seu ganha-pão.

Como fazem para sobreviver? De mil maneiras. Há artistas que se apresentam em sinais, no transporte público. Outros enfiam seus livros embaixo do braço e desbravam este país para vendê-los. Existem alguns mais estruturados, com biografia estabelecida ou prêmio incensado, que são convidados para festas literárias, festivais de música, de teatro. Muitos conseguem participar de leis de incentivo patrocinadas por alguma das instâncias de governo. Há uma lista grande de escritores que, para viverem da escrita, trabalham com livros didáticos, revisão, tradução etc. Estou sendo genérico, sem pretensão de esgotar todos os casos. A ideia é focar essa miríade de artistas que, digamos, correm por fora.

A crise econômica, entre nós não é de hoje, foi elevada a uma potência máxima a partir da atual pandemia. Os artistas menores, se vivem com dificuldade quando a maré é boa, desmoronam na situação atual. O que viaja para vender livros, não pode — e, se for responsável, não quer — viajar. O que tem um grupo de teatro não pode (e certamente não quer) nem ensaiar nem se exibir. O músico não tem plateia. O cineasta não tem onde passar seus filmes. É o caos.

Em torno desses artistas, há um emaranhado de editoras, produtoras, locadoras de material e outros tantos serviços, que, do mesmo modo, ruem. Sigo com o exemplo de um setor que conheço mais.

Várias editoras pequenas, chamadas de independentes, trabalham com poucos autores e adotam um modelo de negócio baseado na impressão em pequena escala. A sobrevivência delas está na venda miúda, muitas vezes fora de livrarias. Ao contrário de uma grande, em alguns casos ramificada em outros países — portanto capaz de segurar o tranco por uns bons meses —, a redução da receita da pequena editora é o seu fim.

Escritores menores vendem poucos livros, mas cem livros vendidos de cada um de seus autores, em um ou dois lançamentos, garantem o fluxo necessário à pequena editora. Os lançamentos, todos sabem, estão descartados. A consequência é imediata: cofres vazios e a diminuição imediata desse “nicho” de mercado.

Pouco podemos fazer a não ser, aqui e ali, comprar livros que não seriam comprados agora, contribuir para uma caixinha virtual com vistas a garantir um produto futuro, mas nosso limite é pequeno — há outras demandas: contribuir para instituições que levam alimentos e produtos de limpeza a milhões de desassistidos, por exemplo — e, verdade seja dita, muitos de nós estão sendo jogados ao desemprego ou à redução de salários (os ainda assalariados). Os governos, bem, ou estão perdidos ou, como é o caso do Federal e seu “edaiísmo”, estão se lixando para a cultura, produzida por artistas tanto pequenos quanto grandes.

Não tenho solução para nada. Este meu texto, com ares distintos de uma crônica domingueira, foi a forma encontrada para compartilhar minha angústia. Foi escrito pensando em vários artistas e empresários menores. Cito, em nome deles, Eduardo Lacerda (poeta e editor em São Paulo. Editora Patuá), Marco Ajeje (artista plástico e moveleiro em Tiradentes. Divinas Gerais), Maurílio Romão (ator, diretor e administrador de teatro em Passos. Trupe Ventania). Os três representam trinta, que representam trezentos, que representam três mil, trinta mil, trezentos mil.

Os menores produzem uma beleza vasta, heterogênea, combativa, amorosa, engraçada, inovadora... Pensemos neles. Façamos uma ação por eles.

27.4.20

O pesadelo


Para Manu e Tiê





Quem não acha bom receber de um amigo um telefonema para dizer que fez parte do seu sonho? E se não foi sonho, mas pesadelo? Pois é, foi o que me ocorreu no domingo passado, aniversário de mês de meu confinamento e mais um dia de desatino daquele lá, taokey?


Não vou contar todo o pesadelo, não me pertence, é de amigo, não de um qualquer, mas um daqueles que, em momentos egoísticos, digo: veio ao mundo só para ser meu amigo. E isso tanto é verdade — me perdoe sua família, aqui relegada à coadjuvante — que, certa vez, quando ele havia voltado a viver com a mãe, fui visitá-lo, e dona Guida serviu café num jogo de xícaras que o próprio filho não sabia da existência. As mães, chovo no molhado, reconhecem os irmãos de seus filhos à distância, em particular os que não nasceram de seu ventre. Não posso revelar o pesadelo do camarada, espero ter deixado clara a razão.

Posso dizer sim que o que foi um pesadelo para ele para mim soou como uma história estranha, engraçada até. Mas ele, opa, ele sentiu tudo aquilo no corpo. Meu amigo tomara vinho durante o almoço e, sozinho em casa, cochilara. Acordou suado, um pouco ofegante. Ligou para a filha, precisava falar. Ela disse, ligue para o Xandão, conte-lhe tudo.

Alguns grupos de pesquisa têm recolhido sonhos ocorridos durante a treva pela qual passamos. O do meu amigo valeria fazer parte do estudo, pois envolve o ambiente de trabalho (onde nos conhecemos há mais de trinta anos), troca de socos, transformação de um prédio no pé do morro da Mangueira em uma caravela e uma figura misteriosa, o vilão, de nome Malaquias. Busco por alguma referência a esse nome. Na minha infância, quando alguém tentava enganar o outro era chamado de Malaquias ou malaca. Não sei se teria alguma ligação com um dos profetas menores, Malaquias, é claro, que em quatro breves capítulos do Antigo Testamento mostrou toda a ira de Deus com os homens e anunciou a vinda do Messias. A profecia precedeu em quatro séculos o nascimento de Cristo.

O Malaquias do pesadelo está mais para o da minha infância, pois empenhava-se em desfazer nosso trabalho e, enigmático em nível máximo, transformava um símbolo redondo e verde — semelhante ao vírus do momento —, carimbado nos papéis como atestado de que a tarefa havia sido bem-feita, em prateado. Dentro da realidade onírica, a mudança de cor indicava um passo na direção de uma situação indesejada, limite. Não anunciava a salvação; não há salvação em pesadelos.

Meu amigo não cogitou mandar o pesadelo para um dos grupos de estudo, ele só queria se livrar daquela angústia, em grande parte causada ao me ver pendurado na mais alta gávea da caravela à deriva. De lá eu bradava, talvez em delírio, que comia raios — e, de fato, eu os comia. Minha boca cintilava. O ditado agora é comer raios e arrotar trovões. Por que achei graça na história num primeiro momento? Não sei se passada uma semana ainda posso apaziguar meu amigo, mas gostaria que ele pensasse se alguém sonha em dias noturnos como são os atuais.

Que minha mãe não venha a saber disso de eu comer raios, seria sua segunda morte. Digo isso porque dona Haydée temia a chuva de forma incontrolável e, quando os raios iluminavam o céu e os trovões gritavam, ela cobria a cabeça, se armava de um terço e desfalecia por um tempo. 

Penso nela não só pela associação com os raios, mas porque terei de fazer-lhe um pedido: que se encontre com a dona Guida, tomem juntas um chá celestial e em seguida procurem o profeta Malaquias. Perguntem a ele por que demorou quatro séculos entre sua profecia e a vinda de Cristo. Ouçam atentas a autocrítica, aprendam com ela e, então, tratem de descolar com urgência não um Messias — temos um que não honra o nome, melhor deixar essa empreitada de lado —, mas um raio de sabedoria. Não irei comê-lo; do alto da gávea de onde não se tem à vista terra nova ou velha, o pegarei e lançarei sua luz sobre os homens. 

13.4.20

Pandemia, modos de rir e de se desesperar

Chovem memes, chovem histórias aterrorizantes. Chove sufoco, chovem gestos de solidariedade. Chove paranoia, chovem motivos para a paranoia. Narrativas contrastantes chovem igualmente e chovem hipocrisia e má-fé ou “dá cá meu pinhão primeiro”. Bem, nós que aqui estamos vamos rindo e chorando, e nesta crônica rio um cadinho para chorar outro tanto.



Depois da quarentena
Sou moço bom, recatado e do lar, com alguns episódios de fuga para o boteco. Pois bem, então, não se escandalizem com o que vou dizer, é só que esse confinamento deixa a gente carente como o quê.
Passado tudo isso, um abracinho nos amigos vai ser pouco, melhor pensarmos desde já numa alternativa forte e acolhedora. Acho que vai ter de ser uma suruba mesmo, respeitosa e sem pecado, mas suruba.

Discussão, discussão, mas virar as costas para a unanimidade provisória...
Discutir se o confinamento deve ser radical ou não, tudo bem. Dizer que, se confinados, a economia esfarela, tudo bem. Agora, quando se forma um entendimento, que pode ser conservador, excessivo — ninguém sabe por enquanto —, ouvir de uns e outros, em particular de médicos, “esqueça isso, a crise é maior que a doença”, dá uma leseira, um “ai, ai, mundo”.

Abrir o negócio
Resolvi, amanhã vou abrir meu negócio.
Mas, Xandão!
É, chega. Já deu, é mimimi e mumuuuuu demais. Tô no preju.
Então tá, se é assim, que assim seja. Mas, a propósito, Xandão, que negócio é esse que você vai abrir?
Ah, meu caderninho de poemas. Ele tá bem ali, na escrivaninha, fechado nem sei desde quando.

O nome dos mortos
Há um momento em que são números. Muitos contaminados na China; taxa de letalidade de tantos por cento. A Itália, apesar das óperas cantadas em suas varandas, apesar do gesto espetacular do Papa, na praça vazia, tem números ainda mais alarmantes. A Espanha perde para o touro da doença. Ninguém vela seus mortos, meras estatísticas. Um dia, no entanto, a morte passa a se chamar Daniel, dona Maria, Godofredinho do Posto, filho da Zuleide. Aí é tormento, abismo e queda.

Bate-papo à distância
Que tal uma conversa (a)fiada?
À distância sanitária aconselhável
por vídeo, áudio, chamada telefônica ou sinais de fumaça
a gente desenrola uma prosa, fala mal de Maria
bem de Jandira
de nós a gente só fala que vai levando.

Você pensa em como seria sem internet e rede social
eu especulo como foi na gripe espanhola
você exclama: nó!
e eu rio. Rio de nervoso, explico. E você ri, ri de mim.
Acabamos numa gargalhada besta. Para, você pede.
Não consigo, gaguejo. Mas a gente para.

Você comenta sobre o moço que se despediu da família pelo  celular
reclamo que durmo mal. Você fala das pílulas, do coquetel de vitaminas
confesso que senti um desejo doido um dia desses,
você chora, sem vergonha nenhuma, chora.
Você precisa de um abraço. É, você concorda lacônico.
Assobiamos músicas diferentes, as duas sobre amigos.

Sugiro que a gente conte uma piada. Nem pensar, você reage.
É piada demais, o dia inteiro, você se encheu delas.
Mas eu queria contar uma. Uma só.
Conte, você ordena.
Vai passar.
É uma piada? Você acha uma pena que eu continue o cínico de sempre.

Depois do silêncio
você pergunta como estou
vou levando, eu digo. E você?
Vou levando.
Não foi sempre assim?
Quem pergunta? Eu ou você, não sei.
Mas foi, foi sempre assim. Era Maria quem dizia isso. Ou era Jandira.

Barrichello
O presindecente chegou tarde à retidão, e a plateia que ainda o incensava, naquele momento aplaudia, com o perdão da rima, o bufão.