11.9.09

Brasil – il – il – il

                                        
                                 (bigode retirado de: http://justwrappedupinbooks.wordpress.com/2009/08/02/sob-o-dominio-do-bigode/)

             

 Se algum dia fizerem antologia do cronista sem assunto, verão que todas as crônicas escritas nesse dia são iguais. Falamos coisa do tipo: hoje não haverá crônica, ou: a de hoje, só amanhã.


Neste exato momento, não consigo dar um exemplo concreto, mas arrisco a dizer que, do cronista maior ao cronistinha de uma figa, todos, quando tropeçamos, tropeçamos da mesma forma.


Isso não quer dizer que o talento se iguale nesse instante de fracasso. Um tombo de um Drummond tem o estilo do poeta; o meu, por sua vez, é só a queda desse corpanzil que cresceu, apareceu e ficou feiinho, feiinho.


Porém, neste país, assunto é o que não falta. Podem jogar os parágrafos anteriores fora, não servem pra nada.


Giro minha câmera pro Senado. Não, aí é covardia, e tenho poucas linhas, espaço insuficiente pra dizer tudo que está borbulhando por lá. De todo jeito, só de relance, vi aquilo que meus olhos preferiam não ver.


Vamos pra outro lado. O pessoal da cultura tem trabalhado com nota fria? Oh, meu Deus, que novidade! Só na cultura, é? Será que somos chegados a um desvio ou o sistema é que joga todo mundo no limbo? Deixa isso pra lá, mal saiu a notícia no jornal, no outro dia já se dizia que as empresas tomaram juízo, está tudo resolvido, uma beleza. Sou a velhinha de Taubaté que, depois de ver tantas sarneiras, ficou cega — de nascença.


Meninas passam pra cá, passam pra lá. Passam pra lá, passam pra cá. São pêndulos de relógios? Marcam que espécie de tempo? Essa crônica bem poderia chafurdar no lirismo, ficar na cola da beleza, ou falar do Nadinho da Ilha, que morreu dia desses, mas... 


A gripe suína está tirando todo mundo do sério. A gente anda com tanto medo, que esconde espirro, quando não prende. Tente espirrar em público. Todos os rostos se voltam contra você. Aliás, meu conselho é que, ameaçou espirrar, ligue para esse 0800 do Estado e, primeiro, peça desculpe e, depois, aproveite para perguntar se o seu atchim está condenado.


Seria bom viver num país em que faltasse assunto pra crônica! Eu poderia fixar-me no pêndulo desenhado pela beleza das meninas, homenagear o Nadinho, com quem dividi alguma mesa de bar e de quem vi o talento em ação, ou falar da Serra da Canastra (veja a foto). Lá, o São Francisco nasce chiquito, chiquito. Ao contrário dos problemas do Brasil, que nascem grandes e ficam enormes.


Não tenho medo de cara feia, mas acho que o Pedro Simon fez bem em ter.






                                        (Foto de Alexandre Brandão)

29.8.09

A câmera e a pena está por aí

Amigos, o livrinho agora está à venda, pela internet, na Livraria Cultura, bem aqui.


No Rio, pode ser encontrado na Livraria Travessa, numa de suas lojas.


Aproveito para sugerir um site bacaninha, e não só porque já falou do meu livro, mas é legal mesmo, feito por uma moça antenada com a nova literatura. Clique aqui e chegue lá.


Lá no final do blog, tem uma ferramenta nova: um siga-me. Quem quiser botar a cara e dizer que acompanha as osseosidades aqui fique à vontade. Meu amigo, Udo, de Alemanha, vejam só, já está.


Por fim, agora resolvi botar umas frases no twitter. Roubo algumas de feras, invento algumas. Não são diálogos, falo sozinho. As frases transbordam pra cá, bem no canto superior esquerdo do blog.




Abraços,

11.8.09

Na Trave


Bem sei, leitor, você bate os olhos neste mensário, em particular nesta coluna mal vertebrada de nome “No Osso”, à procura de distração. Acho até que está preparado para encarar uma temática, digamos assim, menos solar, afinal de contas estamos no Brasil e refletimos sobre ele, sobre suas mazelas. Porém não sei se suportará minha conversinha mole de hoje.

Na realidade, escrevo para diminuir minha carência, para desabafar. Não tendo terapeuta, uso e abuso de sua boa vontade. Não me abandone, por favor. Não agora. Pode ser que daqui a pouco minha dor se mostre apenas uma indisposição, algo passageiro. Se for, pronto, oras, você terá me ouvido, e tudo terá passado. Uma boa ação sua. De meu lado, ao falar, vou me curando, é assim que funciona a coisa desde sempre, como bem sacou o velho e bom Freud.

Estou meio sem jeito. Para falar a verdade, sou caladão; não falo, tartamudeio. Já que você foi alçado ao posto de terapeuta ou confessor, uma de suas obrigações é ser paciente, embora seja eu o paciente. Esta frase, mesmo não sendo boa, me remete a Campos de Carvalho. Posso fazer uma digressão?

Sujeitinho competente o Campos de Carvalho. Quem o conhece não se surpreende com a afirmação. Quem não, não perca tempo com cronistas menores, vá a uma livraria (há tantas e boas na cidade) e adquira o livro com todos os seus romances que saiu pela José Olympio, ou compre-os um a um, pois a mesma editora os está lançando separadamente agora. Voltando à digressão, esse autor mistura de tal jeito os estados de loucura e de lucidez — qual a diferença entre um e outro mesmo? —, criando personagens que transitam entre esses mundos paralelos, que eu diria, sem medo nenhum: Campos de Carvalho descobriu não a origem da vida, mas, sim, o sentido dela. E a julgar por ele, a vida é realmente sem sentido nenhum, o que, aliás, aumenta nosso compromisso com ela, fazendo-nos aceitar seus caprichos.

Digressão? Estou fugindo. Vamos ao ponto. Leitor, o fato é que nunca fui bom de bola. Já me ocorreu de, num teste no infantil do Esportivo, jogando de ponta direita, driblar o lateral, entrar na diagonal, driblar o beque e, cara a cara com o goleiro, chutar para fora. Uma decepção. Para a torcida e para mim. Quando nos decepcionamos conosco mesmo o nome é frustração.

Segue daí... O quê? Como assim, acabou?

Tempo lógico? Era o que faltava. Você não é o Lacan, nem meu analista você é, oras!

Pena, logo agora que encontrei o elo perdido de tantas dores.

8.8.09

Resenha de "A câmera e a pena" no JB

Hoje no Jornal do Brasil, Duílio Gomes, escritor e jornalista mineiro, faz uma resenha de meu novo livro. Quem quiser conferir, clique aqui.

Se eu fosse carola. Ou seu fosse chegado em misticismo de qualquer tonalidade, eu diria que tem coisa aí. Sabe por quê?

No caderno Idéias e Livros do JB, onde está a matéria, estão também: Bernardo Ajzenberg, Ieda Magri, Didi e Armando Freitas Filho. E daí? Vamos por parte:

1) Sou botafoguense, Didi, nosso ídolo;

2) Duílio Gomes e Bernardo Ajzenberg foram as primeiras pessoas que fizeram resenhas de livros meus, no caso de Contos de homem, lançado em 1995. O Duílio no Estado de Minas, o Bernardo, na Folha de São Paulo. No JB de hoje, Duílio fala de mim, Bernardo dá entrevista sobre seu novo livro, Olhos Secos (Rocco);

3) Ieda Magri foi minha colega no jornal de bairro do Rio de Janeiro (Folha Carioca). Lá, antes de compromissos do doutorado inviabilizarem sua permanência, ela fazia resenhas de livros. Ela, numa só matéria, falou de meus dois primeiros livros, Contos de homem e Estão todos aqui; e, por fim,

4) Eu sempre gostei da poesia do Armando. No Conto de homem tem um texto que é dedicado a ele e ao Tom Jobim. O João Gilberto Noll, que escreveu o prefácio do meu livro, disse que o Armando iria gostar de ver o conto. Mandei o livro pra ele. O destino (ou Deus, ou Jesus que é o senhor, ou Buda, ou a sorte) fez com que minha filha fosse colega de sala de Carlos, filho do Armando. Passamos a nos relacionar, não com intimidade, mas com alguns bons encontros.

Para terminar... vocês acham que foi a mão de Deus?

14.7.09

Tudo num dia


Faltei à ginástica — o cansaço, amigo, o cansaço. Mas a vida é assim: aqui se perde, logo ali se ganha. Cheguei ao trabalho, por conta dessa preguiça matutina, numa hora diferente da habitual.

A última rua que teria de atravessar antes de acomodar-me à cadeira e pelejar com (ou contra) papéis, reuniões e gente — gente, sim — é dessas grandotas, com uma ilha entre as duas calçadas.

Eu estava num dos lados da rua. No outro, havia um casal cuja mulher levava um bebê deitado nos braços. Na ilha, um senhor. O sinal de trânsito, de três tempos, abriu de tal modo que o casal pôde ir para a ilha. O senhor, que poderia ter seguido para o outro lado, manteve-se onde estava. Especulo que esperasse a aproximação do casal, pois foi só ficarem mais próximos para o senhor depositar sobre a criança o olhar mais suave e sublime de que me recordo de ter visto nos últimos tempos. Enquanto admirarmos com encantamento a vida que é apenas potencial haverá esperança de dias melhores.

Veio a hora do almoço, e não vi nada de extraordinário. Isso, cá entre nós, é o comum da vida. Esbarramos com pessoas correndo de um lado pro outro, algumas defendendo seus trocados, outras atrasadas para um encontro amoroso, umas tantas tristonhas por alguma das muitas razões existentes para entristecer a gente, e não há nada nelas de especial, pois não dão na pinta o que faz mover seus passinhos da hora.

Em Copacabana, já à noite, precisava fazer hora antes de encontrar minha família num restaurante em que comemoraríamos o aniversário da Bia. Desci na Barata Ribeiro e, distraído, entrei na Figueiredo Magalhães. Não era o que planejara, queria mesmo ir à Modern Sound, aquele pedaço de mau caminho onde minhas finanças costumam sofrer abalos comparáveis a esse que anda rondando a GM, com uma pequena diferença: não tem Gordon, nem Lula, muito menos Obama que se proponham a me salvar. Bem, entrei na Figueiredo e ia matando o tempo com passadas de gente cansada quando minha audição alcançou o choro de uma mulher. Chorava e dizia, em alto e bom tom, alguma coisa como “aquele maldito, safado de uma figa”. Uma mulher que ama demais? Uma mulher desrespeitada? Doidinha? Não sei, não sou de palpites. O mundo ainda faz as pessoas sofrerem de amor, é tudo que posso dizer, e a partir dessa constatação afirmo: se os sofrimentos humanos fossem apenas amorosos, o mundo, esse bicho, seria tão melhor do que é. O mundo seria manso.

Encontramos a Polonesa ocupada por um grupo pra lá de ruidoso, que se esparramava por todo o ambiente. Bia quis ir embora. Mas apostamos em não desistir, a turma não demorou muito a cair fora, e ficamos com o restaurante todinho nosso. Comemos nababescamente, coroando a noite com aquele viciante suflê de chocolate.

E o Flamengo, tadinho, se desclassificou na Copa do Brasil.

O Fluminense também.

Caí na cama, capotei no sono, mas esse dia não saiu de mim. Nem sairá.


21.6.09

Não se deve dar as costas aos poetas


Escrevi a última crônica (No Jardim Botânico). Saiu na revista Folha Carioca, depois veio para a internet (neste blog e também no Opinativas). Recebi elogios, inclusive de dois poetas. Um lá do Pará, meu amigo Edson, sujeito que está prometendo aterrissar aqui no Rio em fevereiro — demora, mas é menos do que nunca, ou mesmo de um não sei quando. Outro foi o homem que orelhou meu último livro, o danado do Barreto (que tem tantos nomes quanto prêmios literários – ora é Barretúmero, ora é Barretim, ora Seu Barreto, ora Barrevento, ora, bem, leitor, já deu pra entender a idéia, não? Invente o nome que quiser para o grande poeta que ele é. Para quem não sabe, ele está ali na foto comigo).

A coisa com o Barreto foi diferente e é o motivo de eu voltar à crônica aqui “No Osso”. Foi assim: o poeta me escreveu logo pela manhã. Disse assim: “Xandão, li sua crônica e achei uma delícia!
Me senti lá dentro do Jardim Botânico! Como você consegue isso?” A partir disso, como o biscoito em Proust, a crônica parece que transportou meu amigo lá pras profundezas de suas recordações e o fez lembrar dele mesmo passeando com a filha (que já é médica) num parque de BH. Ótimo, fiquei envaidecido.

Passou o tempo, recebo novo e-mail do poeta. Agora dizia: “Xandão, relendo sua bela crônica, me ficou um pequeno ruído... algo que ficou me atazanando e aí fui tomar banho e fiquei pensando em te sugerir o seguinte: tirar essa parte ....”. (Daqui a pouco, leitor, você descobre o que foi cortado.)

Meu primeiro impulso foi o seguinte: por que será que os poetas tomam banho? A poesia já não os limpa suficientemente? Havia uma suspeita (despeitosa) de que, ao banhar-se, o poeta cuidava de coisas distintas de sua poesia e, entre uma passada de bucha e outra, tirava o cisco do texto alheio.

Quase caí num orgulhoso perigoso, mas de pronto me recuperei. Ora, ora, poeta calejado quando dá de dar pitaco na palavra alheia só pode ser porque gostou do que leu. Sendo assim, republico a crônica com o corte sugerido pelo poeta. Aproveito para aceitar sugestões de minha irmã atenta, Teresa Cristina.

O fato de ter escrito este post tem a pretensão de mostrar duas coisas. Uma: minha caminhada no Jardim Botânico fez bonito. Outra: escrever é reescrever, e feliz daquele que tem leitores sensíveis e atentos. Ando tendo.


No Jardim Botânico – versão corrigida

Uma caminhada no Jardim Botânico equivale a uma sessão de yôga, ou de yoga como se dizia no tempo em que eu não sabia exatamente que sexo poderia gerar filhos — sabia, mas não acreditava.

Uma caminhada no Jardim Botânico num dia não muito ensolarado, tampouco fechado, pode deixar na gente — na memória que teremos no futuro, quando nossos filhos forem eles mesmos senhores e senhoras com vidas próprias e, se Deus quiser, independentes e bem encaminhados — algum gostinho de felicidade tão carregado, que poderemos mesmo imaginar que fomos, dentro e fora do Jardim Botânico, felizes, completamente felizes.

Pisar descalço o chão do Jardim Botânico, como vi um jovem fazendo no último domingo em que estive por lá, deve ser o grito mais veemente que conseguimos dar contra a tendência do mundo em nos distanciar da terra, do fogo, da água e do ar. Aquele rapaz, garanto sem conhecê-lo, sabe ser feliz quando quer: basta tirar os sapatos e pisar a terra úmida do parque.

Sentar num banco do Jardim Botânico numa manhã de maio, em pleno domingo das mães, ao lado da irmã, pode apaziguar as dores que sozinhos, o irmão e a irmã, não suportariam mais ter. As árvores dali, estrangeiras e nacionais, entendem dessa coisa de despoluir até o espírito mais sombrio.

Depois de uma caminhada que levou o desempregado à estufa das plantas carnívoras e a debutante, um pouco cansada, à beira do lago das vitórias-régias, a bica, pequena e elegante peça de metal bem aducido e corretamente coado, dará água fresca a quem já tem, a sua volta, toda espécie de sombra. Não vai nesse gesto do bebedouro nenhuma intenção de iludir o desempregado ou a jovem pensando-se vítima do maior cansaço do mundo, mas, fresca e fluida, a água ensinará sem querer que a generosidade mata a sede quando não escorre pelas mãos.

Pais e filhos, concebidos ambos na brasa do desejo ou na assepsia dos laboratórios, jogam folhinhas no riacho e vão correndo ao lado acompanhando aquela corrida de Fórmula 1 vagarosa e vegetal. Há uma bateria, depois uma segunda, e haverá outras até que a criança saia dali campeã. No Jardim Botânico, a simplicidade é sempre verde e imatura.

Vez ou outra o chão ficará enlameado. Vez ou outra alguma árvore o vento derrubará. Vez ou outra os esquilos cairão viciados em pipocas. Vez ou outra um estudante de artes plásticas errará a mão e não tracejará nada que se assemelhe ao que está por todo o lado. Por fim, poucas fotografias tiradas ali, aos milhares ou milhões, em alguma contagem do tempo não muito dilatada, terão a qualidade que o parque merece.

Vez ou outra um cronista menor compreenderá o mundo dinâmico que, entre ramagens, águas, pessoas e aves, o silêncio do parque guarda.


18.6.09

No Jardim Botânico

Uma caminhada no Jardim Botânico equivale a uma sessão de yôga, ou de yoga como se dizia no tempo em que eu não sabia exatamente que sexo poderia gerar filhos — sabia, mas não acreditava.

Uma caminhada no Jardim Botânico num dia não muito ensolarado, tampouco fechado, pode deixar — na memória que teremos no futuro, quando nossos filhos, filhos de nossas relações sexuais ou não (pois hoje já não se faz filho apenas com relações sexuais), forem eles mesmos senhores e senhoras com vidas próprias e, se Deus quiser, independentes e bem encaminhados — algum gostinho de felicidade na gente tão carregado, que poderemos mesmo imaginar que fomos, dentro e fora do Jardim Botânico, felizes, completamente felizes.

Pisar descalço o chão do Jardim Botânico, como vi um jovem fazendo no último domingo em que estive por lá, deve ser o grito mais veemente que conseguimos dar contra a tendência do mundo em nos distanciar da terra, do fogo, da água e do ar. Aquele rapaz, garanto sem conhecê-lo, sabe ser feliz quando quer: basta tirar os sapatos e pisar a terra úmida do parque.

Sentar num banco do Jardim Botânico numa manhã de maio, em pleno domingo das mães, ao lado da irmã pode apaziguar as dores que sozinhos, o irmão e a irmã, não suportariam mais ter. As árvores dali, estrangeiras e nacionais, entendem dessa coisa de despoluir até o espírito mais sombrio.

Depois de uma caminhada que levou o desempregado à estufa das plantas carnívoras e a debutante, um pouco cansada, à beira do lago das vitórias-régias, pequena e elegante peça de metal bem aducido e corretamente coado, a bica dará água fresca a quem já tem, a sua volta, toda espécie de sombra. Não vai nesse gesto do bebedouro nenhuma intenção de iludir o desempregado ou a jovem pensando-se vítima do maior cansaço do mundo, mas, fresca e fluida, a água ensinará sem querer que a generosidade mata a sede quando não escorre pelas mãos.

Pais e filhos, concebidos ambos na brasa do desejo ou na assepsia dos laboratórios, jogam folhinhas no riacho e vão correndo ao lado acompanhando aquela corrida de Fórmula 1 vagarosa e vegetal. Há uma bateria, depois uma segunda, e haverá outras até que a criança saia dali campeã. No Jardim Botânico, a simplicidade é sempre verde e imatura.

Vez ou outra o chão ficará enlameado. Vez ou outra alguma árvore o vento derrubará. Vez ou outra os esquilos cairão viciados em pipocas. Vez ou outra um estudante de artes plásticas errará a mão e não tracejará nada que se assemelhe ao que está por todo o lado. Por fim, poucas fotografias tiradas ali, aos milhares ou milhões, em alguma contagem do tempo não muito dilatada, terão a qualidade que o parque merece.

Vez ou outra um cronista menor compreenderá o mundo dinâmico que, entre ramagens, águas, pessoas e aves, o silêncio do parque guarda.

12.6.09

"A câmera e a pena" em novas livrarias

Em Belo Horizonte, "A câmera e a pena" pode ser encontrado nas seguintes livrarias:

Quixote Livraria e Café


Rua Fernandes Tourinho, 274 - Savassi
Telefone: (31) 3264-2858

Café da Travessa

Rua Pernambuco, 1286 - Savassi
Telefone: (31) 3223-8092

Status Café Cultura e Arte

Rua Pernambuco, 1150 - Savassi
Telefone: (31) 3261-6045

No Rio de Janeiro, "A câmera e a pena" pode ser agora também encontrado na:

Literárea


Rua Marquês de Abrantes, 177 - Loja 107 - Flamengo
Telefone: (21) 3237-3947

19.5.09

Mais uma livraria no Rio de Janeiro tem "A câmera e a pena".


É a Arlequim (especialista em CD e DVD, mas agora investindo também em livros).

De segunda à sexta-feira das 9:00h às 20:00h, e aos sábados de 11:00 às 17:00 h.
Telefaxes: (21) 2220-8471 ou 2524-7242.
E-mail: musica@arlequim.com.br

Endereço:
Praça XV de novembro 48 Loja 1
Centro Rio de Janeiro RJ
22010-010 Brasil

15.5.09

Livrarias que já têm "A câmera e a pena" (Ed. Cais Pharoux)

Empório das Letras 

Rua do Catete, 311/sobreloja 
Galeria do Cinema São Luiz 
Lg. do Machado - Rio de Janeiro – RJ 
Tel./Fax: (21) 2205-5330 

Leonardo Da Vinci Livraria

Av. Rio Branco, 185 – Ed. Marquês do Herval - Subsolo - Lojas 2, 3, 4 e 9
20045-900 Centro Rio de Janeiro RJ
Tel.: (21) 2533-2237 - Fax: (21) 2533-1277

Livraria do Museu da República 

Rua do Catete, 153 – Museu da República 
22220-000 Catete Rio de Janeiro RJ 
Tel.: (21) 2556-5828 
Fax.: (21) 2233-6845 e Cel.: (21) 9379-0255 – Glaucio 
http://www.livrariamuseudarepublica.com.br/ 

Em breve o livro estará em outras livrarias, inclusive fora do Rio de Janeiro.

9.5.09

Onde Encontrar "A câmera e a pena"?

 "A câmera e a pena" pode ser encontrado no site da Cais Pharoux ou no site da Martins Fontes.

No Rio, por enquanto, está disponível na Blooks Livraria, Praia de Botafogo, 316 - no Unibanco Arteplex.

Enterrei uma crônica


(Crédito: EP - O Globo. TZ - divulgação de "Fabricando Tom Zé".)

, e o leitor lucrou com isso. Não era boa, ou melhor, poderia até ter sido, o assunto leve e carioca ajudava, mas o resultado foi pífio.

Ela sairia na Folha Carioca à época da última eleição municipal, entretanto meu senso crítico, quase nunca apurado, interrompeu o processo no momento exato em que a mão apertaria a tecla enter lançando como um foguete a crônica bem no colo do editor.

Na falecida, eu lançava uma candidatura alternativa. Uma chapa com a nata da música popular brasileira, tendo à frente Paulinho da Viola como candidato a prefeito e Chico Buarque na qualidade de postulante ao cargo de “secretário municipal do Vai dar Merda”. Além deles, estavam lá: Clementina de Jesus, Tom e Vinícius, Elis Regina, Lenine, Guinga, Gismonti, Cartola, Nelson Sargento, Joyce, Dorival Caymmi, Pixinguinha, Zélia Duncan etc. Enfim, velha e jovem guardas, mortos e vivos ocupando os postos monopolizados por políticos e por amigos de políticos.

Veio a eleição, “Dudu da Ordem” virou prefeito, esqueci a crônica, e o tempo não parou. Fui assistir a “Palavra (en)cantada”, filme de Heloisa Solberg, e sofri um abalo: em minha crônica enterrada, não havia reservado nenhum cantinho para o Tom Zé. Alguns dirão: ele não mora no Rio. Eu mesmo poderia tentar me salvar dizendo que Tom Zé é tão grande que prefeitura é pouco pro bico dele.

E de fato é. Tom Zé deveria ser presidente do Brasil; imperador até. Precisamos de um maluco lúcido do naipe dele. Além do mais, o tropicalista já está com bastante idade, o que, no meu ponto de vista, é condição sine qua non para a habilitação ao cargo maior da república ou da monarquia.

Passados mais de cem dias da vitória de “Dudu da Ordem”, temos visto o novo prefeito mandando ver ou, por outra, mandando para ser visto. Conhecido meu conta de uma amiga dele que vendia roupas ali no Catete havia bem uns vinte anos. A senhorinha de seus sessenta, setenta anos se viu, da noite para o dia, transformada em perigosa fora da lei. Antes, ela se pensava informal, soube que era bandida. Fecharam sua tenda.

Li que, na Gávea, um morador foi agredido pela Polícia Municipal, que “zelava” pela derrubada de um imóvel irregular e sentiu-se ameaçada por um homem caminhando com seu cachorro.

Estão propondo a construção de muros nos limites das favelas. (Discussão interessante a esse respeito Sérgio Besserman propõe em seu blog no Globo on line.) Fala-se em conter a expansão com o objetivo de não danificar o meio ambiente. Chama o urubu de meu louro, chama!

Poderia listar mais um monte de ações cujo objetivo é atacar a consequência sem melindrar a causa. Eu me pergunto: “Dudu da Ordem” está à ordem de quem?

Resta-me, nessa altura do campeonato, rezar para que o prefeito eleito erre, mas não peque. E enquanto vai flanando nos ares do poder, Tom Zé bem que poderia cantar pra ele assim:

“Dorme, dorme

Meu pecado

Minha culpa

Minha salvação.” (Mãe, Tom Zé e Elton Medeiros)

 

Ou então:

 

“Menina, amanhã de manhã

quando a gente acordar

quero te dizer que a felicidade vai

desabar sobre os homens, vai

desabar sobre os homens, vai

desabar sobre os homens.” (Vai, dos mesmos Tom e Elton)

26.4.09

Em torno de uma xícara de café

Bem, dando continuidade àquele papo todo em relação ao lançamento de "A câmera e a pena", hoje coloco disponível aqui em "No Osso" um trecho da segunda novela.
Digo antes: a primeira novela girava em torno do cinema, a segunda, da literatura. Acompanho cinco escritores em formação. Portanto, além de tudo que acontece a partir da reunião que fazem para discutir os textos, os escritores, lógico, escrevem. Sendo assim, o texto abaixo é de um desses escritores, o Teco Sanbra, e está dedicado a Clara Limpes, outro membro desse grupo.

Deixo com vocês. E relembro: o lançamento será no dia 7 de maio, às 19 horas, na livraria Blooks, que fica no mesmo endereço do Cine Arteplex (Praia de Botafogo, 316. Telefone: 2559-8776).

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Leocádia e o Amor                                         

a Clara Limpes

    Jabô, o noivo de Leocádia, levou um tiro. Como avisá-la, moça de vida tristonha, que só agora se abriu a alguma ilusão? Preferiram, antes de tudo, saber do estado de saúde do operário. Na conversa à beira do ferido, na iminência da chegada do socorro, decidiram que Xaveco e Brito, este primo da vítima, seguiriam para o hospital. Com as novidades, alguém iria lá na casa de Leocádia dar o recado. Mas quem? Os olhos se voltaram todos para Reizinho, não por alguma qualidade especial, mas era amigo do irmão da moça, e sua chegada à casa dela não despertaria maiores suspeitas.

    Entretanto Padreco, o mulato parrudo da boca de fumo, vira com os próprios olhos o tal Reizinho disparar a arma contra Jabô e, malandramente, se meter na multidão para ninguém suspeitar dele. E Padreco não gostava do sujeito. Situação mais apropriada para a esperteza morder a isca da oportunidade. Padreco entrou na conversa e achou por bem acompanhá-lo quando fosse o momento, até porque quem pregou aquele fogo gratuito deveria estar solto por aí, e Reizinho era homem de paz, talvez carecesse de ajuda para uma eventualidade. Sensata a intervenção de Padreco, concluíram todos, inclusive Reizinho.

A notícia do hospital era das piores. Na realidade, a pior: Jabô, ó... Reizinho deu pra trás: isso não contava para a Leocádia de maneira alguma. Padreco pressentia outro esquema na declinada do astuto: defunto em morro é obra de assassino; logo, logo, a lei apareceria na cola do malfeitor. Reizinho armava um “vou ao vento”. Nova intervenção do Padreco na assembléia interminável: dava ele a notícia, mas Reizinho ia de fiel, de guia, para ensinar onde morava a noiva viúva. O sensato em pessoa, esse mulato do bagulho. Não houve jeito, Reizinho foi no correio do anúncio fúnebre.

Quanto mais se afastavam da assembléia, mais ficava a certeza de que os dois homens não cumpririam o prometido. Padreco esperava chegar a um canto vazio para despachar a alma do outro para o fim do mundo. Reizinho, que nunca foi bobo, mas fingia-se de, tinha consciência plena de que o tal Padreco vira tudo, portanto bastava uma brecha para cair no pé.

Porém os becos, apinhados de gente, não ofereceram chance nem para outro crime nem para uma arriscada fuga. E, assim, assim, os homens chegaram à casa de Leocádia transferindo, lá dentro deles, todos os planos para a volta. Reizinho bateu à porta. Não se ouviu um “vai entrando, moço” nem um “quem é”. Veio em resposta, isso sim, uma seqüência de tiros sem pejo. A polícia matava dois coelhos com uma única disparada de balas, coisa cara para os cofres públicos.

Nesse dia, Jabô não amou Leocádia. Reizinho, livrando-se do noivo, não se apossou da viúva. Padreco não fez justiça com as próprias mãos. E Leocádia ficou a ver navios. A ver navios, não, porque dali do morro não se via o mar.

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18.4.09

Por que gosto de melodias simples?

Porque Deus não existe.

Porque sou limitado.

           Porque, certa vez, não tinha nem seis anos, disse à Denise que construíra sozinho, tijolo a tijolo, uma casa de vime.

           Porque passei a mão na Jane.

Ou por nada disso.

(Por ignorância, talvez.)

Quem sabe por preferir pão de queijo a ragu.

Por ter beijado de olhos abertos na minha primeira vez.

Por não conhecer nenhum Germinásio.

           Gosto de tudo que é simples, pois a simplicidade nada mais é do que a sabedoria despida de adereços.

Por não ser musical.

Porque posso cantá-las no banheiro.

Ou cantá-las à luz da lua, em serenata.

Pode-se perfeitamente pensar sobre elas em vez de cantá-las.

Para ouvi-las, não se requer muita atenção.

Melodias simples são a prova cabal da existência de Deus.

           Melodias simples não são assobiadas por pássaros.

Porque já tive um troço.

Porque já bebi demais e tive amores lunáticos.

Por meus amigos terem nomes como Sílvio, Marcus José, Pedro, Átila, Paulo, Nelson, Horácio e Jânio. E por outros amigos terem trocado seus nomes por apelidos.

           Se eu vivesse em Ipanema. Ou tivesse nascido em Januária.

Se alguém me esperasse em Oklahoma.

Se fosse outro, aumentariam as minhas chances de ter gosto refinado.

Porque Fernando Sabino humilha.

Porque Manuel Bandeira nem soube de minha existência.

Porque da janela do meu quarto eu via a mãe da Nádia tomar banho.

            O resto de inocência do mundo está guardado numa melodia simples.

            Toda (boa) relação sexual começa com uma carícia, que não passa de uma melodia simples, a mais simples entre as simples.

Porque Deus escreve certo por linhas tortas, mas, quando fala, não fala, canta melodias fáceis.

Por todos esses motivos. Por alguns deles: os que não se contradizem. Apenas pelos verdadeiros. Por nenhum deles.

 

 

Um instante, leitor:


Lanço meu novo livro — “A câmera e a pena”, Editora Cais Pharoux — no próximo dia 7 de maio de 2009, a partir das 19 horas, na Livraria Blooks, que fica junto do cinema Unibanco Arteplex, na Praia de Botafogo, número 316, Rio de Janeiro.

Já pensou se você aparece lá e a gente troca um dedo de prosa? Amarei se isso acontecer. Talvez eu até cante uma melodia simples, pois elas caem tão bem na voz de quem tem muito a agradecer.



5.4.09

A câmera e a pena

Amigos,

Em maio será lançado meu novo livro, A câmera e a pena, Editora Cais Pharoux (http://www.caispharoux.com.br/).

Neste livro usei e abusei daquilo que condenamos nos políticos, ou seja, ele é uma reunião de amigos. Os editores (Horácio e Glória) são meus amigos. O capista (Ricardo Tamm) é meu amigo. As revisoras (Glória e Teresa Cristina) são minhas amigas; Teresa, vejam que abuso, é minha irmã. A arte-finalista (Fernanda Garcia) é prima de minha mulher (Bia Werneck), que, por sua vez, nos ajudou na revisão. Para completar o time, e coroar esse verdadeiro nepotismo a serviço das letras, minha comadre Beth Brandão fez minha foto.

Além disso, planejei um livro com duas novelas (Um pouco mais que um diretor e Em torno de uma xícara de café). Convidei dois amigos escritores (Marco Túlio Costa e Alexandre Marino) para apresentar cada uma delas. Por fim, ainda "convoquei" meu outro amigo, o premiadíssimo Antonio Barreto para escrever a orelha. Aliás, que orelha! Na realidade, acho eu, uma inovação, pois a orelha é um e-mail. Vocês verão (espero que vejam).

Falo um pouco da primeira novela (Um pouco mais que um diretor). Comecei a escrevê-la em 1990 e só fui acabá-la em 2005. Não que tenha levado todo esse tempo na sua escrita, simplesmente havia abandonado-a quando ainda não passava de um conto de um escritor iniciante. Em 2005, quando fui levar meu livro "Estão todos aqui" (Editora Bom-Texto) ao editor, ele estranhou que fosse uma mistura de alguns contos com uma novela. Na dúvida de se aceitaria meu projeto, corri pra casa e pensei em uma novela para fazer par àquela outra. Lembrei do conto, voltei a ele, cheguei à novela. O livro saiu justamente como eu sugerira.

Esta novela se passa durante a filmagem de um primeiro longa metragem de um diretor. Conto os dias de filmagem, dias que operam mudanças em muita gente: nos atores, nos técnicos e, principalmente, no diretor. Ele tem uma espécie de surto. Com isso a filmagem não é concluída e o filme, óbvio, não se materializa.

O que estava pronto e acabado era o argumento do filme. Aliás, um argumento que dá a entender que o filme bem poderia ser uma espécie de Almodóvar, ou, quem sabe, um dramalhão mexicano. O que seria dependia do talento de todos, e ninguém soube e ninguém saberá a serviço do quê estava esse talento.

O argumento aparece na novela, e eu, em primeira mão, apresento-o a vocês, meus leitores. Que aguce a curiosidade de todos. Se tudo der certo, primeiro no Rio de Janeiro, dia 7 de maio, na Livraria Arteplex (que está para mudar de nome), à partir das 19 horas, estarei distribuindo autógrafos aos que aparecerem para tomar um vinho comigo.


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Argumento
                                                                                                  Grande penedo
                                                                                                  Este carrega;
                                                                                                  E apenas chega ao cume,
                                                                                                  O faz rolar.
                                                                                                  A pedra sempre
                                                                                                  Ao vale desce,
                                                                                                  Sem que ele cesse
                                                                                                  De a ir buscar.
                                                                                                 (Lira XIII, Marília de Dirceu,Tomás Antônio Gonzaga)


Anos depois de ter fugido da fazenda do pai acompanhando a mulher recém-conhecida na pequena cidade, Aldo regressa. Seu olhar, espiando a propriedade de longe, oscila entre o temor e a aflição.

A mãe, Eneida, no período de sua ausência, contraíra uma doença misteriosa e, segundo os médicos, poderia morrer subitamente. Diante disso, ela achou por bem ficar, na maior parte do tempo, na fazenda, onde o clima ameno, a tranquilidade e os cuidados dos empregados manteriam as condições ideais sugeridas pelos especialistas. França, pai de Aldo, acatou a vontade da esposa.

Eneida reencontra o filho depois de um fim de semana em que fora ao Rio de Janeiro fazer os exames e as consultas de praxe. Revêem-se, assim, de chofre, no instante em que ela desce do carro. Depois de uma recusa inicial, quando os olhos da mãe não se fixam em lugar algum, os dois têm um contato amoroso intenso, selado em forte abraço.

Mãe e filho passam a cuidar das coisas rotineiras: desfazer as malas, guardar as roupas nos armários, fazer a cama do filho no mesmo quarto de antes, mantido intocado nos mínimos detalhes da decoração. Preparam lanche, chegam a tomar um cálice de vinho. Falam pouco entre si, não há nenhuma explicação que se peça, de um lado, ou que se dê, de outro. Combinam percorrer a fazenda na manhã seguinte, voltando aos cantos de que sempre gostaram: a beira do lago, a sombra daquela velha árvore na colina, a casa abandonada à beira da bica em que ele adorava se banhar.

Pela manhã, saem em caminhada. Observam os rebanhos, as plantações, conversam com os empregados. Antes do almoço, sentam-se à sombra da árvore frondosa. Ali, enfim, o filho toca no assunto difícil, pede perdão, convida a mãe para uma festa de conciliação, antes mesmo da chegada do pai. Mas, o mal súbito, do qual ele não sabia, mata Eneida antes de ela responder ao filho.

Aldo, atônito, trêmulo, leva o corpo para o quarto e o deita na cama. Liga para o pai, que ainda não sabia de sua volta. França se assusta, primeiro, por ouvir a voz do filho, depois com a notícia: a morte de Eneida, morte anunciada, sempre mais perto. A tristeza não o impede de desancar sua dor culpando o filho. Do corpo de Eneida cuidariam os empregados e o médico. O culpado que voltasse lá para o mundo dele, verdadeiramente responsável pela morte da mãe e pelo envelhecimento do pai, que se viu dividido entre cuidados exigidos por uma doença misteriosa e a necessidade de continuar a trabalhar. Voltasse para o mundo daquela mulher à-toa.

Aldo senta-se no banco e larga o telefone caído fora do gancho. Com que direito o pai poderia acusá-lo de matar a própria mãe? Não consegue ficar ali, sai porta afora, porteira afora, some da fazenda.

Durante as próximas vinte e quatro horas, o rapaz se perde pelas estradas da região. Dirige-se à cidade e de lá retorna; pára nos lugares ermos onde, na infância, gostava de se esconder.

Em algum momento, bate à porta de uma casa antiga, parecida com a da fazenda de sua família, mas construção maltratada, onde o reboco cai aqui e, lá, as janelas não fecham, empenadas que estão. Um ancião abre a porta. O reconhecimento é imediato, mas há um tempo para que se aproximem por meio de um aperto de mão e de um convite para entrar. O chão de tábua corrida, Aldo repara, está esburacado e sem brilho.

Nessa construção cai-não-cai, o velho e Aldo travam um penoso diálogo. O rapaz contando da morte da mãe, da reação do pai; o velho narrando todos os fatos que se passaram entre a fuga do menino e a sua volta: o sem sentido da doença da mãe; o distanciamento do casal, cisão que, pelo jeito, veio a público quando ela ficou na fazenda e o pai na cidade, mas já um fato antigo entre os dois; o recolhimento absoluto da mãe vivendo enfurnada no quarto, deitada no mais das vezes; a notícia que se espalhou a respeito de um relacionamento extraconjugal do pai. Aldo tenta resistir a continuar ouvindo, mas o velho o toma pelos braços, olha bem no fundo dos seus olhos e arremata: o próprio Aldo era filho de uma aventura paterna, aceita por Eneida ao saber que a mãe biológica morrera no parto.

O moço deixa o velho e volta às suas andanças incertas. Sobe o Pico do Garrafão, volteia a serra, desce no vilarejo contíguo à cidade, onde, sentado no banco da praça, avoado e tristonho, depara-se com a algazarra das crianças vindas da escola. Ele se vê na mesma praça, anos atrás, sentado no mesmo banco. Ao seu lado, a mulher com quem fugira. Ela está nua. Ela se levanta e cruza toda a extensão da praça, passa muito perto da meninada, mas ninguém se dá conta dela. Aldo esfrega os olhos como se tentasse se livrar de um cisco. Sai do banco. Corre para a venda da esquina, onde compra a pequena faca que facilmente oculta em sua roupa de verão.

O homem do armazém pergunta se ele não é filho do seu França e da dona Eneida. E, sem esperar resposta, emenda pergunta sobre pergunta: “A mãe vai bem? O pai vem na sexta? O senhor chegou hoje?” Aldo responde qualquer coisa já com o pé na rua.

Se até então seu vaivém fora na cadência de um passeio, a partir desse momento é uma besta cortando as estradas de terra, estreitas estradas de terra, vazias quase sempre, mas com algumas surpresas inesperadas: caminhões de leite; ônibus com bóias-frias; carroças vagarosas com mulher de sombrinha e homem de cigarro de palha na boca. Livra-se de cada um desses transtornos sabe-se lá Deus como: joga o carro contra o barranco para fugir do caminhão; não desvia um tico de nada fazendo o ônibus frear bruscamente; espreme a carroça entre seu carro e o precipício.

A estradinha da fazenda parece estacionamento. Os empregados se espalharam pelo pátio defronte da casa, e seus garotos sujinhos brincam sem cerimônia por tudo quanto é lugar, ora descendo o corrimão da escada principal, ora subindo na goiabeira. Consolada por um par de amigos, sua tia Luana, irmã de Eneida, ao vê-lo, tem impulso de ir a seu encontro, mas o sobrinho toma outro caminho, contorna a casa para entrar pelos fundos.

Mafalda, a preta da cozinha, larga tudo, afasta-se do pessoal que cochicha ao pé do fogão e aproxima-se dele. Abraçam-se com ternura. Ela lhe diz alguma coisa como estarem todos nervosos, aquele tempo fora difícil, primeiro a ausência fulminante dele, logo depois a doença inexplicável de dona Eneida. Ele quer saber se a doença tinha a ver com sua fuga, mas a velha bota o dedo em sinal de silêncio, pede para não falarem disso agora. Lá na sala, as pessoas, seu França principalmente, esperavam por ele, para compartilhar esse momento, triste, sim, mas já esperado. Aconteceu, aconteceria de uma forma ou de outra.

Os rostos vão em direção ao rapaz que adentra a sala. São vizinhos antigos, pessoas da cidadezinha, um ou outro vindo da capital: parentes, o sócio do pai na ferraria, o padre Afonso. Cumprimentam-no com educados pêsames, a prima Ceila abraça-o chorando convulsivamente. Aldo se desvencilha dela para se aproximar do caixão. De um lado está seu pai. De outro, o velho.

França caminha na direção do filho, mas Aldo grita, descontrolado, para o pai se afastar. Nada detém o pai, nem o murmúrio das pessoas. Pelo jeito, vai agarrar o moleque atrevido e aplicar-lhe uma sova. Aldo, contudo, não se intimida e esbraveja, sem meias palavras: da boca do pai, a vida toda, ouvira apenas um punhado de mentira; a maior delas: ter ocultado o fato de aquela senhora morta ali, a quem aprendera a chamar de mãe, não ser realmente sua mãe.

Aldo tem a faca aberta, empunhada. França, no entanto, já não avança mais, está estarrecido, petrificado. Consegue, sim, afirmar que nunca escutara tamanha sandice, onde já se viu isso. Aldo jocosamente afirma não ter visto coisa nenhuma, mas ouvido dele, aponta para o velho, a verdade mais doída do mundo. França parece tocado por uma nova força, descongela-se e ri absolutamente alto, nervoso até. “Então”, diz, “ele é o dono dessa verdade.” O velho, até então atento e silencioso, dá dois passos em direção a Aldo (como aliado perfilando-se ao batalhão de tropa). Estão arranjados os exércitos, e é França quem ataca, quem aponta o dedo para o velho e o chama de mentiroso. “Se querem verdade”, grita, “a verdade é que o velho, sim, ele, sim, é o seu verdadeiro pai. Você, garoto, é filho de Eneida e desse traste aí.”

A troca de olhares entre aqueles que vieram apenas para velar um corpo é intensa. Espantados alguns, enquanto outros, vê-se no rosto, estão aliviados por não ter mais de guardar tamanho segredo.

A arma, a ridícula arma, não lhe vai servir para aquela guerra. Aldo atira-a ao chão e chega a esboçar um sorriso ao vê-la cair de ponta e espetar a madeira. As vozes sussurradas continuam produzindo o seu zunido de abelha, crescendo e diminuindo de intensidade continuamente.

O velho, França e Aldo não se enfrentam mais como ainda há pouco. A expectativa é de que, não demora muito, um deles, provavelmente o velho, reaja ao último ataque. Mas não, o velho, ao contrário, enfia as mãos nos bolsos, deita o olhar no chão tão bem conservado dessa casa e movimenta-se para sair. França, do mesmo modo, sobe as escadas e segue para seu quarto, onde vai descansar.

Aldo fica. Sentado na cadeira ao lado do caixão, alisa as mãos de Eneida.

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Noutra hora irei colocar trecho da outra novela.

21.3.09

Rio de Janeiro, final de 2008


Em dezembro, como na música, Ipanema era só felicidade. Havia uma profusão de turistas, e todos, inclusive nós, os não-turistas, vestíamos roupas coloridas. Compensávamos o pouco sol do atípico dezembro que foi o de 2008 com muitos amarelos, laranjas, brancos e não sei mais que cores.


Eu e Átila fomos parar ali meio por acaso. E depois de cumprirmos nossa missão, tomamos um café. O dia era quente, não sei que idéia foi a minha de tomar café. Bem fez o Átila em pedir um mate.


(Desculpem-me se melindro alguns leitores, inclusive você, Átila, mas a verdade é que odeio mate. Não descartaria a hipótese de as substâncias contidas nele estarem fraquejando as pessoas, logo, todo esse excesso — como droga, violência, consumismo, narcisismo, egoísmo e por aí afora — seria consequência imediata da dependência criada pela bebida. O que acabo de dizer pode parecer um disparate, mas não vi pesquisa nenhuma que rejeitasse essa minha hipótese.)


Voltando para a vida fora do parêntesis: tomamos, eu meu café e Átila, coitado, seu mate. Fazia calor do pior tipo, sem sol o dia era abafado e úmido em qualquer lugar da rua. É verdade que a parada naquela livraria para compartilhar essas bebidinhas — e, quase me esqueço, um pedaço bem pequeno, pero caro, de bolo de laranja — nos permitiu conversar um pouco e com isso o mundo apertado de nossas tristezinhas ficou mais ancho e quase alegre. Amigos servem para promover reviravoltas no ânimo uns dos outros, nem precisa ser em véspera de Natal e de Révellion.


Aliviados, corremos à rua com o firme propósito de subir num ônibus e despencar em Botafogo, eu na Voluntários, ele na vizinhança da Santa Úrsula. Dois minutos sob aquele calor entorpecente, não agüentamos e acenamos, não para o primeiro, que nos pareceu velho demais, e sim para o terceiro ou quarto táxi. Já que o carro era rubro-negro, ou, para ser mais exato, o estofado alternava faixas pretas com outras vermelhas, mal entramos nele tive um pressentimento desanimador: um flamenguista levando dois botafoguenses pode não dar em boa coisa. Entreguei-nos a Deus.




(Mais uma ilustração bizarra deste que vos escreve)



O piloto era boa-praça. Fez logo umas brincadeiras e avisou-nos de um congestionamento em Copacabana por conta de ser o dia em que o pessoal “expulso” do dia 31 adiantava suas oferendas a Iemanjá. Seguimos os caminhos que ele sugeriu e íamos, protegidos pelo ar-condicionado, prontos para chegar em casa e levar a vida possível: boa hoje, não muito boa amanhã, bem ruizinha nalguma manhã incerta, porém nunca completamente má: sabíamo-nos e sabemo-nos privilegiados.



Eis que tocou o celular. Não era o do Átila. Não era o meu. O chofer, pouco se lixando para lei ou mesmo para segurança, atendeu seu aparelho. Falou “alô” e imediatamente passou a se comunicar em “portunhês”. Dava expediente sobre algum programa que preparara para um gringo, amigo do gringo pendurado do outro lado da linha. Vale registrar que nosso condutor falava bem nas barbas da polícia e esta pouco se importava com o fato de um motorista levar o carro atendendo a uma chamada telefônica.





Ao encerrar a ligação, o motorista nos contou algumas de suas peripécias. Agenciava prostitutas para turistas (não só para eles, como se verá), bem como aproveitava a cumplicidade de gringos e esquentava muambas, vendidas depois a um seleto grupo de clientes. (Uma freguesa, ansiosa por um perfume de morango não sei das quantas, contatou-o durante nossa viagem.) Gabou-se, a determinada hora, de manter em seu “cardápio” uma formosura (não falou nesses termos, mas poupo-os, leitores) do centro universitário em que leciono. Quando especulei a possibilidade de ela ser minha aluna, ele desconversou, disse que não, não era aluna de economia, já nem sabia se a jóia rara estudava mesmo naquele estabelecimento. Malandro dos bons.





Enquanto atendia a uma nova chamanda, ele nos pediu que o ajudássemos com o gringo, pois apenas “improvisava o inglês”. O meu não vai além de “the book is on the table”, mas Átila fala melhor do que o Bush — não é muito difícil, segundo dizem — e tão bem quanto o Obama. Nosso não foi dado em forma de silêncio. Entreolhamo-nos sem deixar o motorista perceber nossa cumplicidade. Ocupado como estava, ouso dizer, não ia prestar muita atenção em dois insignificantes passageiros. Até se gritássemos continuaria falando seu portunhês ruim, não ligando para o fato de não contestarmos seu pedido. Perguntou-nos por perguntar, por ser do tipo falastrão..





Desci em minha casa, Átila seguiu um pouco mais. Depois eu soube, o motorista perguntou-lhe, com segundas intenções, se estava sozinho na cidade. Meu amigo estava com mulher e filho. Enfático, o motorista proferiu: “não há nada mais sublime na vida do que a família”..






Nada de novo nesta crônica. O Rio de Janeiro é essa salada onde cabem Deus, Iemanjá, malandragem, algumas que furam a fronteira da contravenção, calor e amizade. Salada que se tempera com a velha e boa ironia, graças a qual, e apesar de tudo, vamos levando a vida. Porém, não sejamos inocentes: ironia também que, aqui e ali, resvala para a cafajestice pura e simples.

14.2.09

Pro ano

“Eu sempre quis muito.”
(Caetano Veloso)


Eu gostaria de começar 2009 entendendo por que cargas d’água a gente compra um cartão de viagem única do Metrô e só pode usá-lo no máximo em 48 horas. De onde foi que tiraram essa idéia de que o direito de usufruir de um serviço pré-pago tem prazo de validade? Cadê a defesa do consumidor, alguém viu?


O atual prefeito terá de dar jeito num vazamento lá na Voluntários da Pátria. O Maia passou por lá, refez o asfalto, e refez de novo, e mais uma vez refez (não estou exagerando), e o tal vazamento, ali entre a São João Batista e a Sorocaba, desdenhou de máquinas e braços e continuou intacto. É verdade que o prefeito terá de tratar de outro vazamento, este na sua rua, leitor. E terá de cuidar das escolas municipais. E terá de dar um basta na confusão do comércio ilegal. Que tudo se resolva, sem que se esqueça o problema da minha rua.

Acalento um sonho: que a cidade não tenha mais moradores de rua e crianças abandonadas. E esse sonho vai além: nele essas pessoas não são tiradas da rua; ao contrário, são elas que saem, pois reencontram suas casas e nelas um modo novo de viver e de reatar os elos rompidos de suas existências. Saúde psíquica e social de uma só vez.

O Botafogo não contratará nenhum Ronaldinho ou Ronaldão. Nenhum Kaká ou Cristiano Ronaldo ou mesmo Rooney. O Botafogo revelará outro Garrincha.

O Lula, numa passagem pelo Havaí, poderá aprender, e é bom que aprenda, a surfar em marolinha.

Lá pra março, o Chico Buarque termina o novo romance que parece estar escrevendo, entrega-o a seu editor e, de enfiada, corre pro estúdio e grava com o Zeca Baleiro.

As mulheres cheias de pudor andarão nuas como queria Vinícius de Moraes. Com isso, a polêmica de nudez no cinema perderá o sentido.

Não formamos um país angustiado ou de angustiados. Todavia, 2009 poderia resolver uma pendenga asfixiante: a tal Capitu pulava ou pulou a cerca? Meus pais passaram por essa dúvida, meus irmãos também. Não fui poupado e vejo agora minha filha indo pelo mesmo caminho, ainda que, para ela, Capitu não passe de uma sem-vergonha. Como um país pode perder tanta energia com uma questão dessa? Se não houver consenso, decreto-lei para definir se houve ou não houve a derrapada da moça e ponto final (muito cuidado na revisão para que não batam em lugar do ponto uma interrogação, uma exclamação ou mesmo um ponto e vírgula).

Dou agora um palpite com a intenção de resolver um problema municipal pequeno assim e, no entanto, muito simbólico: que tal operar de miopia a estátua do Drummond?





Pro ano está bom. O resto fica para 2010. E enquanto isso, que todos queiram muito e tenham uma boa vida neste 2009 que se inicia.

13.12.08

Circunlóquio em torno do vazio

Para pneu ou bola vazios, bomba de ar.


O som de Tim Maia reduz a pó vazios salões de festa.


Saco vazio não pára em pé, mas de saco cheio igualmente se vai ao chão.


Com trabalho, é possível nutrir o bolso. Infelizmente, com roubo também.

Deixar vazia uma rua vazia ajuda o sono dos moradores, portanto, os seus sonhos; e sonhos são como o aroma da flor: mesmo sem ocupar espaço, não passam despercebidos.

Canja bem leve serve como primeiro socorro a estômago vazio, no caso de fome verdadeira. Numa simples vontade de comer, bolacha Maria com manteiga resolve e, na falta dessa iguaria, barrinha de cereais.


Não há agenda vazia enquanto existirem cinema e chope.

Consultar a caderneta de telefone é o primeiro passo para ocupar o meio-vazio da cama de casal.

Falta de voto cura discurso vazio.

Não hesite em virar-se em direção à mesa vizinha quando estiver sozinho.

Beijo de língua em pessoa vazia é o melhor antídoto contra o vazio dessa pessoa.

É bom lembrar que uma mente vazia pode estar espiritualmente cheia. Quando não for o caso, aconselha-se ocupá-la com um par de bobagens.





Contra tardes vazias, noites intensas.

A bebida adequada cai como luva em copo vazio. Adequado é, quase sempre, o suco de laranja. Entre quase sempre e sempre, o vinho. E água o tempo todo, ou quando for preciso.

Vigilância é uma espécie de bomba de ar contra vazios de poder.

A memória é capaz de ocupar a casa desabitada da família.

Carrinho de mercado é ameaça à despensa vazia.

No inverno compreende-se piscina sem água.

Folha ou tela em branco são suplício certo para escritores. Também para pintores.

No primeiro pingo, a chuva lota todos os táxis da cidade.


Não sei o que dizer do vazio existencial.