29.9.11

Uma viagem sob o sol, outra sob a lua


Depois de dias de muita chuva, vieram outros de plena estiagem. O calor voltou a pino, e a estrada levantava poeira à toa. Uma poeira fina, é verdade, mas, como eu suava, a camada de pó grudava na pele sem piedade. Meu cabelo ia pouco a pouco ficando nojento, duro. Quando voltasse para casa, mesmo tendo passado dias fora e tendo tomado regularmente o banho, minha mãe, sempre ambígua, murmuraria: — Nossa!
Lá ia eu pensando na volta mal a jardineira apontava para a subida que desemboca no seu Tuca. A estrada da Julieira terá uns 40 quilômetros de cabo a rabo, não sei, e não cortáramos mais do que um décimo de toda a distância, muito pouco até mesmo para o meu destino e o de meu padrinho, a Fazenda do Gordurinha, a 20 quilômetros de Passos. Pensava na volta porque sempre pensamos na volta — como uma espécie de lembrança de segurança, que não nos deixa perder do mundo e pelo mundo. Mas eu tinha, meu Deus, alguma coisa entre oito e dez anos e nenhuma noção de que somos cheios de escapes, subterfúgios. Eu pensava na volta e daí a pouco não pensava mais — só isso. Sonhava então com pomar, com bica de água fria, com a aventura de ter de ir cagar no mato. Planejava andar no Segredo, cavalo grande e manso. E tinha certeza de que meu padrinho, ali do meu lado, batendo seus dedos no apoio de braço do banco, olhando tudo e todos, me deixaria fazer aquilo que me desse na veneta: comer pão de queijo antes do almoço, não almoçar, chupar a fruta que estivesse no galho mais alto da árvore.
Jardineira fashion. Foto própria.
Dentro do ônibus, eu viajava no espaço, rumo à fazenda. E, de pensamento em pensamento, roçava distraído o beco inominável. Insisto: tendo aqueles oito, dez anos, não podia imaginar que existisse, dentro da gente, um oco, buraco negro que engole nossas brandas certezas.
Tendo passado outros dez anos, ia eu de novo dentro de um ônibus velho. Agora a estrada, embora poeirenta, era outra, e a distância, maior. Cruzava a Bolívia, desde Santa Cruz de La Sierra até Cochabamba e de Cochabamba até nem sei onde e de aí, por fim, até La Paz. Meu padrinho não ia comigo, dessa vez minha companhia era o Carlos, amigo chileno que cometeria o desplante de morrer com pouco mais de 40 anos. Apesar de meus 20 anos de então e de viver sempre um pouco bêbado e de mascar as folhas de coca que me ofereciam e de ter deixado um amor no Brasil e de estar lendo com indomada fúria (Cem anos de solidão – Gabriel Garcia Marques, Editora Record) e de ter medo do desconhecido que estava por vir e de ouvir música em um toca-fitas que era uma verdadeira geringonça; apesar de tudo, já tocara com as próprias mãos aquele oco imponderável. Aprendera que ele é feito de pau e luz, de ferro e brasa, de barro e sombra.
Uma jardineira na Guatemala. Foto própria.
Os motoristas desses ônibus são gente muito qualificada. O menino que tinha o cabelo cortado a mando da dona França (nuca quadrada) via, com encantamento, o homem que vinha muito sério lá na frente de repente subir na capota da jardineira e ir direto e reto na mala da senhora que desceria ali nos Meireles.
O universitário em férias sentia frio quando, no meio da madrugada, o motorista viu-se obrigado a parar o ônibus, que rateava havia algum tempo. Tendo pegado uma lanterna muito mixuruca e enchido a mão de ferramentas, ele desceu à estrada, esticou um forro de papelão no chão frio, deitou-se sob o chassi e começou a fuçar para ajeitar aquilo e poder dar prosseguimento à viagem. Havia crianças espalhadas pelo corredor do carro; Carlos dormia, tombado pelo excesso de chicha; o velho ao meu lado, meu fornecedor de folhas de coca que me caíam bem pra diabo, tinha uma única preocupação: manter viva a galinha sob sua jaqueta esfarrapada. 
Foi na noite boliviana, onde brinca o sono dos lhamas, que escrevi, sem lápis e sem papel, um livro esquecido logo depois.


(Esta crônica foi publicada, aqui mesmo, em 10/09/2005, sob o título de Dentro das Viagens.)

23.9.11

A casa do Beco dos Aflitos

Por volta de 1955, chegando a Passos, depois de viverem o início da vida de casados no Rio de Janeiro, meus pais compraram o sobrado no qual eu só entraria tempos depois, quando tinha meus cinco anos. Explico: de fato, logo após a aquisição, eles foram morar no seu novo ninho, mas dele se mudaram, não tardou muito, por um capricho de minha mãe. Segundo soube, a inquilina da casa de baixo era tão ranheta que mamãe preferiu deixar a própria casa e pagar aluguel em outra. Assim, nasci no endereço alugado, na Rua do Ouro, perto do doutor Breno, do Quinca Meu Genro, do Antônio Soares e do dentista Joaquim Getúlio — destruidor das bolas que craques ou pernas de pau faziam cair em sua propriedade. 
Não posso me esquecer de listar entre os vizinhos a família do Cícero Parenti, mais conhecido por Caolho ou, para ser rigoroso, Caôio, pai do Cunha. Pois o Cunha foi um menino levado da breca. Uma das travessuras do meu futuro amigo foi a de soltar o freio do caminhão de seu tio Tatão Lemos, pondo-o em disparada Rua do Ouro abaixo. Não fosse o muque da parede do quarto onde eu dormia, feita de matéria bruta e bom cimento, eu poderia ter partido desta pra melhor.
Conto isso para mostrar que, quando passei a morar no sobrado do Beco dos Aflitos, eu já era um sobrevivente. E acrescento: na mudança, com preguiça de fazer a pé o curto trajeto entre a morada nova e a velha, pulei na rabeira da carroça, meio usado à época para o transporte da mobília, e, pumba, levei um tombo. Meus pés ficaram presos a um estribo pendurado na traseira da carroça, e, com isso, fui arrastado pelos paralelepípedos, como, no passado, no chão de terra com cascalho, arrastavam-se os inconfidentes. Enfim, quem subiu as escadas e cruzou o batente da porta da nossa propriedade era um menino que havia resistido a um ataque e a um acidente que o deixara bastante esfolado.
A nova casa, aos poucos, tratou de curar meus traumas, fazendo questão de me ensinar que a vida não era tão ruim como minha experiência até então indicava. De fato, não sofri mais atentados, e as esfoladelas, aquelas e outras, foram sempre bem curadas com arnica ou mercurocromo ou merthiolate. (Soube-se depois que este antisséptico não passava de uma trapaça da indústria farmacêutica, o que não o impediu de curar minhas feridas.)
Fecho a tese: a casa do Beco dos Aflitos me transformou no que sou. Tudo começou quando fiz de uma das mangueiras — a da manga Carlota, trazida de outras terras por meu avô materno e sem igual na cidade — meu pouso de garoto em busca de privacidade. Passava a novela Meu pé de laranja lima, baseada no romance de José Mauro de Vasconcellos, e aprendi com seu personagem a dialogar com arbustos e outros vegetais. Hoje, depois de ter tido um breve romance com uma bananeira, falo abobrinhas apenas com repolhos e manjericões; logo, não posso me dizer íntimo nem dos nobres nem dos vassalos do reino vegetal. De toda forma, bom brasileiro, bato no peito e declaro-me amicíssimo do rei.
(Ah, como me perco!)
Tentava dizer e agora digo: no sobrado, descobri o encanto da solidão. Quando me meto comigo mesmo, invento, desinvento, acalento-me e, não raro, esqueço-me da vida cachorra, sempre pronta para, lá fora de mim, abocanhar meus calcanhares. Não me tenham como um retraído empedernido, pois não alimento casmurrice. A casa me enfeitiçou de outro modo com sua mania de festa, tornando-me sociável, às vezes até engraçado, pronto aos amigos.
Sejamos honestos, uma casa é feita de seus tijolos, de suas árvores, de suas cores, de seu telhado com goteiras — e do balde embaixo retendo as gotas da água mais pura, xixi de Deus —, mas também e, principalmente, é feita de sua gente. Na casa do Beco, essa gente começava por Joaquim e Haydée, meus pais. Passava pela Célia, minha segunda mãe. Ampliava-se com Dita, Sá Tereza, Sá Inês, Ana Germana e Nilzinha. Crescia mais um pouco com a visita dos tios Lozo, Goy, Vera, Expedita, Yole e Elin, e de muitos primos, em particular a Viveca e a Boinha, que passavam as férias na casa. Abria-se à presença constante da Celina, do Zé Luís, da tia Lurdinha, do Marquinho e dos vizinhos chegados. Embriagava-se dos jovens, que gostavam de rodear minha mãe. Alguma gente latia: o Zorro, o Tilo e o Nicolau. Outra, por viver no meio desse povaréu, aprendia com ele: eu e meus irmãos, Salazar, Teresa Cristina e Patrícia. Os sinais que recebemos foram positivos, com o que, na outra volta do relógio, otimistas e na comunhão com nossos maridos e esposas, povoamos sem exagero o sobrado com filhos.
A casa não existe mais. Minto: está lá; talvez permaneça como é hoje, não sei. Só deixou de ser nossa. Entregamos ao novo dono as chaves, mas não se abandona esquecida no silêncio das paredes uma história. Vendemos uma casa pela metade, conquanto o comprador tenha adquirido uma inteira.
Apartado agora do sobrado, ando na contramão do tempo até me ver de novo com as marcas de antigos arranhões, que ardem como nunca. Em vez de procurar livrar-me da dor, dou de ombro, ao mesmo tempo que sou tomado por uma sapituca de cantar; de cantarolar para ser exato. Hum, humhumhumhum, humhum, hum, humhumhumhum... Villa-Lobos, sim, Villa-Lobos. A arnica para curar os dodóis da minha alma é Villa-Lobos. E, quando ouço sua 5ª Bachiana, sou reposto na mangueira das mangas Carlota, onde sou amigo do rei, ainda que não o seja.





7.9.11

Caricaturas


Ponho os pés na calçada de Ipanema e, lá do Leblon, vem o homem que já foi bonito. Na realidade, ele não perdeu a beleza, mas, depois de longo debate com seus botões e travesseiros, concluiu que a beleza foi coisa de antigamente. Da juventude, de quando pegava geral. É um senhor bonito e, se ainda se entrega à conquista, continua pegando geral, mas não mais as garotinhas. Isso é que o incomoda e que, à própria vista, o torna feio.
O alemão passa com uma de nossas negras. Nem é a mais bonita, mas, para ele, basta que seja negra. Conjecturo: o mundo ficará melhor à medida que arianos se acasalarem e procriarem com negros. Um passo a mais, deparo-me com a francesinha de mão dada com um de nossos negros. Rogo para que sejam histórias de amor — ou uma aventura apenas — e não turismo sexual.
Jovens hoje são espertos e preparam-se desde cedo para a velhice. Ao colocar nos ouvidos um som bem alto e travar conversa, aos berros, com o colega do lado, aprendem a conviver com a surdez. Dizem que, precavidos, tomam Viagra.
A mulher fala ao celular. Ao terminar a conversa — em atitude correta, pois não há motivo para manter as mãos ocupadas —, enfia a engenhoca na bolsa. Entretanto, feito isso, ela se espanta, se contorce, tenta se esconder. Sem o celular agarrado à mão, passou a se sentir nua, embora, claro, não esteja. Outra pede que o parceiro ligue para o celular dela, é o único jeito de encontrá-lo na sua maldita bolsa. Rápido, ela diz, estou à beira de um ataque. Não estamos mais falando de um simples aparelho de comunicação, compreende?
O casal não se suporta, quarenta anos de um casamento terrível. Mas toda manhã caminha na praia. Conversam muito.
Um ex-prefeito passa de mãos dadas com a esposa. Estão bem velhinhos. Ele, agora, é escritor e, pelo jeito, enquanto caminha, maquina um conto.
Ainda existem as bichas exaltadas, vendendo alegria. E também a menina que passeia com o amigo gay, o único cara que realmente a entende. Porém amizades desse tipo vêm sumindo do mapa da afetividade. Os gays andam em crise com as mulheres, com o jeito de ser delas. É uma hipótese caricatural.
Dez horas da manhã, e é possível encontrar, nos quiosques, pessoas que são restos da noite anterior. Uma delas, o cara com calça arregaçada e sem camisa, com olhos vermelhos e consciência limpa... Por enquanto.
Ando ao lado de um sujeito que nada desse mundo tira-lhe a gravata. Com bermuda, camiseta e tênis, ele caminha com passo firme na companhia de um amigo. Conta toda sua semana, os negócios que fechou, os que vai fechar. A gravata está pendurada no córtex do seu cérebro. Talvez ele nem saiba que, à esquerda, quando se vai para o Leblon, e, à direita, quando se vem, vaivém o mar.
Passa a mãe, desesperada porque a babá pediu-lhe que segurasse a criança por dois minutinhos, o tempo de amarrar o tênis. É a primeira vez que mãe e filho se tocam desde a cesariana asséptica feita num hospital com cara de hotel. (Não, não é verdade que o pimpolho beire os 35 anos. Maldade!)
Tem uma turma que joga futevôlei bem demais. Há partidas de homens contra homens, de mulheres contra mulheres e de times mistos. Nestes, é cada mulher forte, benza deus, Deus, DEus, DEUs e DEUS.
A tatuagem deixa ver um pedacinho da pele original da garota que, com certeza, era linda na sua versão sem tinta. Noutra jovem, a tatuagem, discreta, faz assim na minha cara: slapt, slapt, vê se aprende. Aprendi: quando bem-feitas, as tatoos têm lá seu borogodó.
Certas pessoas foram engolidas por seus óculos, inclusive a guria de nove anos, se tanto.
Um economista famoso, que as más línguas dizem ter ficado rico com a herança do sogro, passeia muito mal vestido. Quer dizer, não mal vestido, mas as meias sintéticas quase alcançam os seus joelhos. Provavelmente viveu nos Estados Unidos da América.
Paulo Caruso por ele mesmo
(http://vilamundo.org.br/2011/03/paulo-caruso-uma -trajetoria-de-vida-desenhada-pela-vila/)


Quem sou eu? Um mineirinho na praia, prato cheio para todo tipo de ironia: rabiscada, gargalhada, escrita, cochichada ou só pensada. Além de tudo, metido a besta, crente que abafa com essa caricatura de crônica. Se eu ainda fosse o Paulo Caruso. Ah!, se fosse ele, economizaria esse montão de palavras, trocando-as por dois traços assim e assado. E estava dito.





Agradeço ao Paulo Caruso por permitir ilustrar minha crônica com suas autocaricaturas. 

29.8.11

Os Doces Bárbaros e alguma gente de Passos

Conversando com a rapaziada, alguém comentou que a Tininha se mudara para a casa nova, na Mamata. Era obra de vulto, pepita sem igual.
Fomos conferir. Tininha mostrou-nos cada um dos cômodos. O tour habitual. A surpresa veio depois, quando sentamos na sala e, de supetão, “Esotérico”, cantada pelos Doces Bárbaros, soou de dentro das paredes. Todos os alto-falantes eram embutidos, e o som brotava do nada.
Por que relembrei esse dia agora? Porque ouço os Doces Bárbaros. Reunião de Caetano, Gil, Bethânia e Gal, esse foi mais que um simples disco. A turnê ficou famosa porque pegaram o Gil fumando um desses cigarrinhos que papagaio não pita. Fecho com Fernando Henrique Cardoso: bobagem prender quem fuma baseado. Vamos cuidar de outra coisa?
Quem vê a Gal Costa agora talvez não saiba que, além da ótima cantora que foi e continua sendo, ela era uma gata de forçar gregos e troianos a tirar o chapéu. Lembro-me bem que o velho e bom seu Bacil — um desses comerciantes cuja venda garantia nosso arroz com feijão antes da chegada dos supermercados à cidade — era doido pela boca da Gal. Sábio homem.

(Encarte de Plural/Gal Costa - http://galcostafatal.blogspot.com)

Sábio e curioso. Certa vez, ele me mostrou um caderninho no qual anotava todos os seus gastos com gasolina. Estávamos no final da década de 1970 e havia anotações de pelo menos dez anos. Muito economista se regalaria com aquilo. Lembro também que ele colocou um prego na ponta de um cabo de vassoura, objeto com o qual espetava os papéis caídos no chão, o que deixava seu escritório, quase um santuário, impecável.
Adoro pessoas capazes de criar utensílios que facilitam a própria vida. São inventores informais, estimulados pela intuição e pela necessidade. Kaká, casado com minha prima Boinha, me contou que seu irmão Flavinho conserta as máquinas da fábrica deles sem nunca ter estudado mecânica ou coisa parecida. Que inveja! Eu não troco nem lâmpada, juro. Exagero, lâmpada, depois de superar um trauma, passei a trocar.
Era criança quando a Rita se casou. Na preparação da festa, meu irmão e meus primos furaram a terra do quintal lá de casa para colocar cerveja para gelar (cerveja, gelo e serragem). Em certa hora, levantei a lâmpada para fazer a luz chegar diretamente neles, mas, como chovia e eu estava descalço, levei um tremendo choque. Fui parar no hospital. Não sei se posso me apoiar nesse fato, mas é uma boa desculpa para explicar por que sou esse inútil nas tarefas antes reservadas aos homens: bater prego, consertar ferro elétrico, limpar a calha. Fui para a outra ponta: faço um sofrível macarrão, lavo louças e limpo bunda de criança. Tento também limpar a bunda das palavras. Ah, troco lâmpadas. 

(Ritual - David Manje - http://www.posterpal.com)

Vou aqui me perdendo, e a Bethânia acabou de cantar “Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante / De uma estrela que virá numa velocidade estonteante / E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante”. Já pensei bastante em como é que um índio desceria do céu. Logo um índio? Depois deixei de pensar nisso — mesmo porque a palavra índio é muito erudita, tem história — e fiquei atento à mensagem que esse índio traria. Segundo Caetano, o autor da música, o índio revelaria alguma coisa que está oculta e, uma vez descoberta, será óbvia. O que será? 



7.8.11

Pão Cântabro

Importante empresa brasileira varejista tem merecido destaque no noticiário por pretender associar-se a grupo multinacional atuante há anos aqui nos trópicos. A coisa até parece novela, haja vista que uma terceira empresa, também multinacional, noiva ou ex-noiva do grupo brasileiro, digamos assim, está se sentindo traída.
É briga de cachorro grande, quiabroquó que envolve dinheiro público, concentração econômica, portanto, potencial penalização do consumidor, além da decantada criação de uma forte empresa, capaz de concorrer não só no Brasil, mas mundo afora.
Se posso dizer alguma coisa a respeito do grupo brasileiro, e espero que não interfira em negociações cuja consequência soa tão importante para a economia planetária, é que ele, apesar de carregar doçura no nome, trata mal seus vizinhos. Afirmo isso a partir de experiência recente, ocorrida ali na Voluntários da Pátria, uma das artérias principais de Botafogo, bairro do Rio, cidade do Brasil, país da América do Sul.
Pois bem, resolveram, a partir da estratégia de mudar o selo (muda-se de nome, de roupa, mas não de jeito, coisa assim), fazer uma reforma na referida instalação — merecia, a loja estava uma caca. Só que a obra foi feita com o negócio funcionando (como uma empresa desse porte pode deixar de ganhar seus trocados, não é?). Isso acarretou o seguinte fato: os operários trabalhavam noite adentro. Claro, tirando o sono dos vizinhos.
Cheguei a escrever num “Fale conosco” disponível no site da empresa.  Não é que o gerente da loja — vendendo experiência (na matriz em São Paulo, na loja de Copacabana), dez anos no grupo — me ligou? Deitou promessas. Nenhuma delas se concretizou. Concluo que as mentiras dele, de fato, traduzem as mentiras da empresa. Não à toa o homem é gerente.
Reclamei na Defesa Civil (não havia, em lugar visível, uma placa dizendo qual empresa de engenharia respondia pela reforma), que foi lá, mas chegou à conclusão de que não era assunto de sua alçada. Faço uma confidência: não liguei direto para a Defesa Civil, foi direcionamento dado pelo atendente da Prefeitura (telefone 1746), alguém que deveria entender do riscado.
Um dia chamei a polícia. Era meia-noite e a turma mandava ver na serra elétrica e na furadeira. De casa, pude ouvir a PM chegar uma hora depois da denúncia (muito bom o atendimento do 190). Durante a próxima hora, reinou o silêncio, graças ao qual, dormi, exausto. Todavia, em seguida, quem acordou foi minha mulher. Os caras deram uma meia-trava, mas retomaram os trabalhos, certos de que a polícia não voltaria ou, se voltasse, tudo ficaria na mesma. Noutra noite, quem fez a denúncia foi minha filha. A história se repetiu.
Desdém e incompetência não estão reservados ao setor varejista. Veja este meu caso com um banco de origem espanhola que faz pouco tempo adquiriu outro do qual fui cliente até abril de 2010. A conta foi encerrada na mais absoluta normalidade, com assinaturas minha e do gerente da agência à qual estava ligado. Todavia, no mesmo período em que ocorriam as batidas de martelo e o escândalo da serra elétrica — sob o patrocínio do mercado brasileiro enrolado com dois franceses —, os correios me entregaram carta, enviada por esse banco, com cobrança de não sei que débito. Eu não honrava a dívida havia 12 meses; assim, graças ao passo alto de nossos juros trôpegos, a mesma eneplicara de valor. O que você faria numa situação dessas? Eu liguei pro banco.
Fui atendido por um sujeito bem treinado (nem fez uso do gerundismo da moda nos atendimentos corporativos). Confesso que perdi a paciência muito rápido, deixei-o no meio de uma frase pronta e liguei direto para a Ouvidoria. Qual o quê! A Ouvidoria só atende se o reclamante tiver um número de protocolo. Enfiei o rabo entre as pernas e dei um redial para o primeiro número. Surpresa: eles não dão número de protocolo, as conversas são gravadas, logo, antes de falar com a Ouvidoria, bastava ligar para o SAC e pedir a gravação. Gozavam da minha cara ou o tratamento dispensado expressa a legítima cultura do norte da Espanha?
Escrevi para um e-mail corporativo contando meu drama. Em resposta, mandaram-me – como, aliás, já o tinha feito o bom funcionário que não tem estado recorrendo ao gerundismo — ir... (ufa! Nessa hora pensei no pior.) à agência. Será que acham que estou desempregado (pensando a partir da conjuntura da Espanha) ou que sou vagabundo (pensando como brasileiro esnobe)? Vai saber. Respondi que não iria, não tinha tempo para isso. Anexei à mensagem cópia de parte da documentação de encerramento da minha relação com a instituição adquirida pelo banco das cantábrias. Disse-lhes que seria minha última cartada amistosa. Alguns e-mails depois e outra carta de cobrança enviada pela instituição financeira, pulei nos braços da justiça — antes gritei no “Reclame aqui”. O que será que vai dar? Na dúvida, rezo.
Santo André do Pão Docinho, que estais no varejo e no setor financeiro, espero a glória do bom funcionamento do capitalismo e não a farsa do caipiritalismo, isso que apela mais pro jeito do que pro direito. Não santifico teu nome, muito pelo contrário, ao passar em frente a teus estabelecimentos, faço figa e esconjuro, satanás. Não acredito apenas em teus concorrentes, por isso torço para que, como efeito colesterol, teu negócio afunde na gordura de tua abundância. Amém!




29.7.11

Um vagabundo debruçado sobre livros

Grã, estou no meu quinquagésimo ano de vida e não sei com quantos paus se faz uma canoa ou a cor breve do cavalo branco de Napoleão. Não posso ser catalogado entre aqueles que têm problema cognitivo sério, uma demência de fato. Sou um bocoió com algum grau de periculosidade e outro tanto, maior que o primeiro, se não minto, de inocência e bonomia.
Não saber o sabido por todos me deixa triste, um tom mais triste. Resta-me fugir, não enfrentar na lata a questão. É o que faço — lendo.
Não é loucura? Nesse mundo em que se precisa de tanto suor e trabalho, um chulo como eu lê. Passa horas debruçado sobre livros e, assim mesmo, não é capaz de encontrar neles receitas de canoa ou segredos cromáticos de um cavalo.
A questão, exatamente como dizem os cardeais da objetividade, está no foco. Mas o meu foco não é o mesmo desses caras. Gosto mais de impressões do que de assertivas, de improvisos do que de partituras. Hesitante, acompanho em “Diário de um ladrão”, de Jean Genet (Nova Fronteira), a perambulação de um ladrão, traidor e homossexual não para condená-lo ou absolvê-lo. Não para rir de alguma possível anedota. Ao atravessar o relato de Genet, que se encanta, se apaixona, venera e inveja o marginal, entrego-me amorosamente ao humano — pouco me importa se sublime ou não.

Sou da laia dos que duelam com moinhos de vento (Dom Quixote de la Mancha, Cervantes), ou dos que veem num bigode postiço (Tolo, morto, bastardo e invisível, Juan José Millás, Nova Fronteira) a chance de dar o próprio grito do Ipiranga, libertando-se assim do incômodo de certa existência. Levo na cara como Quixote e o tolo porque tergiverso quando deveria agarrar-me à retidão dos sentidos. Sou o da contramão, vagabundo meu nome.
Deitando os olhos nos livros cuja leitura me dá à mancheia lição sem pedagogia, o que aprendo, ou, com sorte, apreendo — com quantos paus se faz um breve napoleão — vale no máximo o pio de um entre mil pardais que algazarram pousados em fios elétrico de uma cidade qualquer — a minha, por exemplo. 
Abraçado ao que ora descrevo, pergunto ao deus dos idiotas: onde isso vai parar? Ele, sábia divindade herege, dá de ombros e aponta um livro como se dissesse "é lá". O ciclo reinicia. Cavucoleio tal livro para não encontrar resposta. Minha sina é o movimento, faço par com a procura.

9.7.11

Teje preso

Certa vez, vi meu primo Brandão (o sobrenome de uma família inteira foi monopolizado por ele) entrar num camburão em solidariedade ao colega que, por furtar um toca-fitas ou coisa parecida, era pego pela polícia. Houve um tempo em que minha cidade era dada a gírias locais, assim radiopatrulha, RP, era apelidada de Rita Pavone, cantora de sucesso nos anos 1960. A televisão comeu esse tempo numa bocada só — nostálgico, grito essa tese isolada e de pronto volto ao caso da prisão de meu primo: ele entrou na Rita Pavone, mas logo depois estava na rua, não gastou nem um cadinho do cimento da cela. O amigo lalau igualmente curtiu pouco o tal “lar, amargo lar”.
Outra vez, eu e um parceiro, ele da Marinha, parados defronte de uma boate, tomamos uns drinques a mais e, caindo na provocação de duas moças que trabalhavam na noite de Copacabana, fomos um pouco abusados com elas. Dois leões de chácara responsáveis pela segurança local abandonaram o posto de trabalho e enfiaram socos e pontapés no coitado do meu amigo e no coitado de mim. Quando a polícia deu o ar da graça tivemos um segundo de alívio. Na nossa cabeça, não cometêramos crime algum e ainda havíamos sido agredidos. Só que... Meu amigo foi parar na delegacia da Hilário de Gouveia. Quando cheguei lá, pedindo que o táxi seguisse de perto “aquela joaninha”, o delegado já sabia da patente do “preso” e dava dois passos atrás. Ensaiou um tímido pedido de desculpas e sugeriu que ele (e eu, que entrava porta adentro) fosse para casa e descansasse.
Contam que outro primo meu — não julguem minha família por conta de dois casos isolados, mesmo porque os personagens que ilustram essa crônica são de famílias diferentes, um da parte do meu pai, outro, da minha mãe — certa vez passou a noite no xilindró. Teria ficado agarrado à grade da janela, por onde a lua ousa passar quadrada pra dentro da cela, gritando sua mãe. A noite toda assim. A mãe, longe da cadeia, sem poder ouvi-lo, sofreu sem pregar os olhos pelo sumiço do filho. Era infundado seu sofrimento: o rapaz estava seguro, longe do perigo das ruas.

A elite, no Brasil, é presa nos momentos de exceção política. Graciliano Ramos e outros passaram um perrengue quando veio o Estado Novo. Aliás, Graciliano fez de seu diário de prisão uma das peças literárias mais contundentes do século XX. Fujo um pouco do assunto ao me lembrar —  confio na memória, o que é temerário —  que no “Memórias do cárcere” o escritor alagoano deixa clara sua aversão aos homossexuais. Se lhe diziam que o cozinheiro era gay, ele simplesmente deixava a comida de lado. Não tardará muito, Graciliano fará par com Monteiro Lobato. Este caçado por seu racismo (discutível), aquele por sua homofobia (explícita). Quando o sujeito é talentoso, suas imperfeições e até suas monstruosidades mostram apenas quão humano ele é. Ninguém é a bailarina do Chico Buarque e do Edu Lobo.
Na época da ditadura militar recente, a lista dos que dormiram no chão duro é grande. Persio Arida, que foi professor da PUC quando eu ali estudava economia, acaba de fazer, na revista Piauí, um relato sobre sua prisão. Parece que vai virar livro. A minha leitura do artigo me leva a crer que o que tem prendido Arida ao longo da vida são as grades do afeto por seu pai. Todos temos uma prisão assim só nossa, boas e confortáveis prisões.
Por falar na ditadura de 1964, conheço um projeto interessante, coordenado por Carlos Fico, historiador da UFRJ. Ele, que é estudioso do período em que os militares mandaram e desmandaram em nosso país, mantém um blog voltado para a análise do Brasil de agora (a partir do golpe), este que está vivo e pululante. Suas anotações começaram no dia da posse da presidente Dilma. O blog, espaço de reflexão e debate, também prende, no caso a nossa atenção.
Fora os momentos de exceção, que não quero de volta, a elite dorme hoje na prisão e acorda amanhã em casa, quando muito. Há casos de criminosos, larápios e prevaricadores, como o jornalista Pimenta Neves, assassino confesso, que nunca são apresentados à danada da cela.
A democracia precisa aprender a encarcerar, no momento certo e apenas nele, ricos e pobres, pretos e brancos e, usando outra expressão saudosista, geraldinos e arquibaldos. Dessa maneira, pensando num caso hipotético, sei lá onde fui tirar tal ideia, a democracia precisa prender economistas que vendem consultoria em medicina e vice-versa. Sem esquecer os que compram essas benditas consultorias.


(Teresa Cristina Pessoa Brandão é revisora das crônicas deste blog. A foto utilizada é de Doug Berry, e está em Getty Imagines.)

29.6.11

Na mais alta esfera

(com saudades do Piccirilo,  do Gustavo,  da Silvane e da Sonia)

     Por favor, Deus está?
     Como assim? Deus sempre está.
     Ele pode me atender? Tenho assunto urgente a tratar.
     Ele já o atendeu.
Nos casos em que ouvidoria, ombusdman ou Procon não funcionam, com quem se deve falar senão com Deus?
Quero denunciar um roubo. Sim, roubaram-me dois amigos numa única semana. O Luciano Piccirillo, um dos sujeitos mais alegres e festivos colocados na face da terra, e o Gustavo, outro parceiro do riso e do escárnio.
O Piccirillo foi da minha turma. Não fomos fáceis: alguns mais, outros menos, éramos amantes do rock, da velocidade e de outras atitudes de risco. Graças a isso, minha turma contribuiu, ao longo do tempo, com as estatísticas de violência que recaem ainda hoje sobre os jovens: morremos por tiro, em acidente e mesmo por overdose. Mais recentemente, começamos a pagar o preço do exagero anterior acometidos pelas consequências da Aids e da hepatite C. Piccirillo, sobrevivente dessas armadilhas tanto quanto eu, nos trouxe o primeiro infarto.
Deveríamos estar vacinados contra o sofrimento causado pela morte. Mas não é assim, sofro agora como um pai que vê outro sair de cena deixando esposa e filhas à própria sorte. Sofro porque este meu amigo não verá o sucesso de suas meninas e não poderá ajudá-las em algum momento de fracasso.
Com o Piccirillo foi-se um pouco da alegria, uma parte grande dela, mas não toda. Nós, seus amigos e em seu nome, trataremos de mantê-la viva. “Um por todos, todos por um” — a máxima dos três mosqueteiros, personagens de que nos fantasiamos num carnaval longíquo (em desenho do Gustavo) — é o nosso grito de ontem, de hoje e de sempre.
 Imagino que, a essa altura dos acontecimentos, foram feitas muitas homenagens ao Gustavo. Ele merece, pois, competente como era, poderia ser um ator nacionalmente louvado, caso vivesse em São Paulo ou no Rio. No entanto, preferiu ficar em Passos e dedicar seu talento ao povo de nossa cidade.

Deixando de lado sua importância óbvia para as artes e passando a tratar de assunto menos nobre, pergunto se foram lembradas as excentricidades do gordo. Eram muitas. Minha mãe ficava louca quando ele ia almoçar lá em casa, pois isso significava que o pé do frango deveria ir para a mesa. Ela, que odiava pé, coração, moela, sangue, fazia exceção para seu amado amigo. (Como eram amigos!) Claro, Gugu tinha outras e maiores maluquices, sendo um dos poucos casos, se não o único, de um boca-suja que vivia em harmonia com as irmãs do colégio.
A última vez em que estive com o Gustavo foi no lançamento de meu “A câmera e a pena”. O grupo Vastafala fez uma performance antes de eu começar a autografar os livros. Com sua voz sem igual, Gustavo fez ecoar pela Casa de Cultura trechos da crônica que ele mesmo escrevera quando morreu minha mãe. Minha filha diz que foi a única vez que me viu chorar.
 Nem a polícia dará solução a esse roubo. Assim, termino esse papo exatamente como comecei.
— Claro que Ele me atendeu. Assim mesmo preciso de dois minutos de Sua atenção. Vou ser breve... E um pouco crítico.
(Mal acabo de escrever esta crônica, Silvane Barbosa, amiga recente, querida e igualmente compromissada com a alegria, da turma da UPES de 1972, também nos foi roubada. Na conversa com a alta esfera, terei de ser mais do que um pouco crítico.)
— Estou esperando, não tenho pressa.


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Quando comecei a escrever esta crônica eu queria arranjar um jeito de aliviar um pouco a dor de tantas perdas. Naquele momento, eram as de Piccirillo e Gustavo. Depois foi a vez da Silvane. Desgraçadamente, no dia 25 de junho, a irmã de Silvane, Sonia, foi cruelmente assassinada na minha Passos, cidade que tem registrado níveis altíssimos de violência. Essa "brincadeirinha" de querer falar com Deus para dar-Lhe um puxão de orelha, na realidade, não faz (se é que alguma hora fez) o menor sentido. Publico a crônica porque eu a tinha escrito e penso que deveria compartilhá-la. Mas eu, eu mesmo, estou recolhido em luto.
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6.6.11

O chico do Chico

Para Maria Balé, Denise Ribeiro, Carlos (in memoriam),
Alejandro e Gonzalo. Também para o Chico, claro.
Ah, como não sou maluco, para minha
irmã Teresa Cristina.



Conversando com amigas, conto-lhes que em 1984, em companhia de chilenos que viviam no Brasil fugindo da ditadura, fui jogar contra o time do Chico Buarque de Holanda, o Polytheama.  Falar do Chico é conquistar de forma instantânea a cumplicidade feminina — não só delas, para ser sincero. As duas mulheres com quem eu dividiria em breve uma pizza grudaram os olhos em mim, esperando a história.
Formávamos eu, don Alejandro Tumayán e Carlito Bravo o meio de campo de um time bom de gole. Tanto era assim que adentramos as quatro linhas numa ressaca das canjebrinas, resultado de uma concentração rigorosíssima. Talvez por isso, Gonzy, meu irmão boliviano, tivesse tanta dificuldade em saber o lado que deveríamos atacar. No time ainda havia outros chilenos, brasileiros e bolivianos, além de argentinos. Em síntese, o sonho de Bolívar feito realidade em short e tênis bamba (não tínhamos chuteiras). O time adversário nem se importou com o significado político do nosso catado e nos deu uma sova daquelas.
Mal terminada a pelada, o Chico já estava numa segunda, driblando toda espécie de joões que surgia a sua frente. Ele é daqueles poucos seres de inúmeras aptidões, e nisso se parece com o querido Nelson (craque na escrita, na viola, na fotografia e no desenho) e com meu amigo de infância, o Tista (brilhante nos esportes). O Chico ainda tem aqueles olhos... Volto à história, que é o que interessa e de onde não deveria ter arredado pé.

O sol estava de lascar. Me ajeitei numa sombra. Não havia cerveja gelada, logo ficar longe do sol era uma espécie de consolo. Carlito se aproximou, estava exausto. Estudante de psicologia e trotskista, via no exercício físico um desperdício de energia. Guardássemo-nos para entender Freud e derrubar ditaduras, defendeu ofegante. Roubando-me meia sombra, acrescentou que se decepcionara um pouco com o dono da bola: era muito preparo físico para alguém que chacoalhara e chacoalhava ainda a ditadura brasileira.
Vi o Chico sair do campo, passar no meio do pessoal e seguir para o banheiro. Não pensei duas vezes e fui atrás dele, deixando sozinho meu velho e bom Carlito, que, àquela altura, cofiava a barba e acendia um cigarro. Fui de caso pensado: precisava conhecer o “instrumento de trabalho” daquele endiabrado centroavante. Minha irmã, por exemplo, pagaria uma boa grana por qualquer informação relacionada à parte não pública de seu mais que ídolo.
Chegou a pizza. Como é boa a pizza paulista. Olha o absurdo, a crônica já alcança sua metade final e ainda não contei que estava em São Paulo, compartilhando a mesa com duas escritoras que conheci por intermédio de outros amigos. Duas joias raras que pela primeira vez eu via, pois até então havia tido apenas contatos por correio eletrônico. Com a chegada da pizza, a prosa deu uma meia trava. O garçom nos serviu, cortamos os primeiros pedaços, que, comidos, levaram-nos a suspiros e estalos de línguas, essas reações típicas de quem celebra o prazer do paladar.
Enquanto degustavam a pizza, teriam pensado em como seria o chico do Chico? Vou saber! Minha ida ao banheiro atrás do craque tinha como pressuposto que todas as mulheres se interessariam por tamanha informação. A começar por minha irmã.
Quando entrei no banheiro, Chico não usava o mictório, estava fechado no compartimento do vaso sanitário. Por isso, não vi nada do extraordinário ou do não extraordinário. Havia visto, em campo, suas canelas finas e avermelhadas, marcadas por algum joão truculento e pouco habilidoso com a bola. Era tudo.
Sei que a história é decepcionante. Mas não posso contá-la de outra forma, mentir, dizer que vi o que não vi. Não sei o que você, leitor, sente ao lê-la, mas minhas amigas —  em nome de uma relação que queremos perene — foram educadas, extremamente educadas: não reclamaram, não me deram vaia, pediram até para eu escrever sobre aquela manhã futebolística.

Obediente, fiz o que me pediram, contando tudo, tintim por tintim, com um grau bem razoável de verdade.






(Montagem da foto feita a partir de um "flagra" de Luciana Avellar da Revista Contigo)
(Na concentração: Paulinho, Átila, eu, Gonzalo e Carlos)


29.5.11

Guerra de mamona, filme francês

Quando em Passos não havia a Avenida da Moda, o córrego passava aberto bem atrás de minha casa, criando, dessa maneira, uma divisão e, portanto, uma fronteira imaginária. Éramos a turma da banda de cá contra a turma da banda de lá. Se falo contra é porque havia conflito, como é comum a zonas de fronteira, seja a que separa Israel da Cisjordânia, seja essa miúda que dividia a turma da Jaime Gomes da turma da Bonsucesso.
O diabo de estar numa guerra sem razão muito clara é que o contato mais próximo com o rival entorna o caldo, no caso, fazendo amigo o inimigo. Foi depois de atravessar o “corgo” voando em vara de bambu (eu acho, mas também invento um pouco) que conheci os filhos do Pixuxa: o Ronaldo, o Reginaldo e o Branco — os dois últimos com passagem relâmpago sobre a face da terra —, o João Pagliuso e o Rick Bell. Viramos amigos, mas antes deixei a pele dos caras muito bem marcada por umas boas estilingadas.
Mamoneira em foto de Maria Lídia Gonçalves Bueno, minha vizinha 
lá de Passos, da turma da Jaime Gomes, claro
Essa crônica não é um acerto de contas com o passado, sentei aqui para escrever sobre um filme: “O pequeno Nicolau” (“Le Petit Nicolas”), de Laurent Tirard, baseado nos livros de René Goscinny (autor de Asterix) e Sempé. Que filme, amigos, que filme.
É a história de uma garotada na França  de 1950/1960. O tal Nicolau está por ganhar um irmão, e seus colegas passam a alertá-lo sobre a tragédia iminente: ele será jogado às moscas, e não em sentido figurado. Tudo isso dá pano pra manga. Histórias, hilárias, vão se acumulando.
As crianças entram em confusões típicas da idade: criam poções mágicas, organizam gangues (daí ter me lembrado da guerra com mamona), bagunçam a casa em que os pais estão ausentes. Os adultos também são risíveis, particularmente quando se esbarram o mundo da família e o do trabalho. Há um jantar na casa de Nicolau, organizado pela mãe para ajudar o pai em suas pretensões na empresa, que não há quem não se contorça de tanto rir.
O filme não é politicamente correto, essa praga da atualidade. As crianças roubam carro, planejam sequestro, são mesmo da pá virada. Voltado (em tese) para os bem jovens, “O pequeno Nicolau” não sopra na direção deles nenhuma moral estruturante ou condena a infância por seus excessos. Tampouco estimula a transgressão. Em meio a inocente algazarra, a trama acaba por fixar o encontro entre um menino e o futuro homem que irá ser. Esse encontro, verdadeiro pulo do gato, é feito de forma poeticamente espantosa e dá grandeza ao filme.
Volto ao tempo da guerra de mamona. Ali por acaso me encontrei com o futuro homem que eu viria a ser? Nada disso. Para dizer a verdade, ali ficou aberta uma ferida daquelas: eu deveria ter acabado com aqueles caras da Bonsucesso. Rio dessa minha bobagen? Rio e, por outro lado, não rio. Falar da infância sempre me dá a medida exata da rapidez com que a vida passa, o que não é um fato que eu enfrente com gargalhadas.

4.5.11

O erro que nunca cometi

Brinco dizendo que meu único erro na vida foi ter nascido — alguns acreditam que digo a verdade e muitos concordam com a tese da minha brincadeira. Francamente, não passa de um exagero.
Exageros de certo modo garantiram nossa vida tal e qual a temos hoje. Não fossem eles, não passaríamos de uns 10 ou 12 Adões e Evas, filhos pingados à terra em momentos de tédio de Deus.
Exagero foi ter dado ouvido (asas ainda não demos) à cobra e comido a maçã que o diabo lustrou com o bafo. E ainda: guerrear por Helena; erguer a Muralha da China; pintar a Monalisa; revelar os sentidos dos sonhos... Não à toa cantamos: “Exagerado, eu sou mesmo exagerado, adoro um amor inventado” (Cazuza, Ezequiel Neves e Leoni).
Na verdade, e sem exagero, cometo erros de toda espécie. Chego mesmo à borda do pecado, mas parece que não passo daí. Veja se concorda.
Os dois primeiros mandamentos pregam que devemos amar a Deus sobre todas as coisas e não usar Seu nome em vão. Talvez eu queira discutir um pouco o que seja Deus, mas, pondo-nos de acordo sobre isso, respeito o divino sem outra discussão.
Sempre honrei pai, mãe e os outros legítimos superiores. Nunca matei. Nem roubei. Jamais levantei falsos testemunhos (tudo bem, uma ou outra vez para ver um dos meus irmãos em apuros com mamãe, mas já fui perdoado, era uma criança!).
Quanto a guardar domingos e festas de guarda, convenhamos, o mundo mudou, e eu mudei com o mundo.
Não entendo bem o que seria guardar castidade nos pensamentos e nos desejos. Temo ter ferido e ainda ferir tal preceito, não apenas no nível do pensamento e do desejo. Não sou mesmo um santo.
Mal redigido (ou mal traduzido), o último mandamento — não cobiçar as coisas do outro — se fia numa palavra ambígua: coisa. Se por ela devo entender os bens materiais das outras pessoas, não os cobiço, mas, aqui e ali, invejo-os. Nada muito grave, de fato são lampejos de inveja, que vêm e vão. Porém, se, como afirmam alguns, a mulher do outro está entre essas coisas, ô, dó de mim.
Leitor, acabo de me expor ao ferro e fogo do seu julgamento. Espero que olhe para si antes de dizer que, de fato, era melhor eu não ter nascido, que meu erro foi esse.
Nas vezes em que me vejo nervoso, quando não coço os olhos, assobio. Um gesto ou outro me confortam, com eles ganho tempo; e o tempo — recorro ao banal — opera milagre, com seu beneplácito pode-se reverter a mais desfavorável das situações.
Assobio enquanto escrevo e espero seu veredicto.
Fiat lux: assobiando encontro o erro que jamais cometi: nunca votei no Bolsonaro.
Isso compensa meus quase pecados?




28.4.11

A cidade cá dentro

Eu estava na casa dos Piassi arrastado por minhas irmãs e primas. Era menino, não tinha 15 anos.
Na roda que se formou, o violão pulava das mãos do Thales para as do Ita, das dele para as do Serginho do Dulce. Do Serginho, o violão passava para o João Eudes e, por fim, ficava com o Paulinho. Que sortudo fui! Viva eu, viva tudo, viva o Chico Barrigudo.
Cantavam canções românticas italianas, coisa do Thales. Em seguida, cantavam o que de melhor se fazia no Brasil. Em plena década de 1970, as composições tinham um pé na política e na contestação. Houve uma vez que Paulinho (o violão mais talentoso de todos, disso não resta dúvida) cantou a provavelmente censurada “Mordaça”, de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro. (Em 2001, Fátima Guedes e Eduardo Gudin gravaram a música no álbum “Luzes da mesma luz”; da Dabliú Discos.) Nosso Paulinho morreu sem saber: na sala de sua casa, ele deu ao menino que nasceu e cresceu no Beco dos Aflitos as primeiras lições de estética.

Nosso poeta Barreto tem uma frase boa de usar aqui: “Sou o que sou porque vocês me o foram.” De fato, tornamo-nos isso ou aquilo por contingência. Um molecote começa a formar sua identidade estética e política, assim, por acaso.
 A minha escola, portanto, foram as rodas de música, nas quais eu só fazia escutar, pois, menino, pouco seria ouvido. O silêncio, vai saber, era meu parceiro e me ensinava, na moita, a escrever. Ou não ensinava a escrever coisa nenhuma, mas aguçava o meu desejo de traduzi-lo aos outros (o silêncio é uma língua). Só hoje, um pouco calejado, posso aventar essa hipótese.
Calejado! Estou naquela fase da vida em que me apego ao que já tenho. Novidades deixam-me um pouco atrapalhado. Parece que a isso chamam velhice. Não sei, mas deve ser, um dia ela chega. Ou melhor: é bom que chegue, caso contrário teremos passado muito brevemente nesse mistério que é a vida. Paulinho passou. Quero mais; ele também queria.
Há um perigo em apegar-se ao conhecido: tornar-me nostálgico. Fechar os olhos para o aqui e agora, mais ainda para o daqui a pouco e depois, e ficar na rabeira daquele velho e bom tempo que não volta mais; ê, lasqueira! Isso, sim, seria uma prisão — domiciliar, pela qual se pagaria a comida. Não, não falo em imobilidade, afirmo e firmo a base, o chão. Esqueço a nostalgia. Até aconselho uma nova cantora: Tulipa Ruiz. Um clique no Youtube e ela estará ao alcance de seus olhos e de seus ouvidos.
Ficar preso ao passado não seria honesto comigo nem com aqueles mestres desavisados, os tais que ensinavam como efeito colateral, não por obrigação catedrática. Falo da rapaziada da viola. Acrescento alguns professores, cujo tiro saiu pela culatra. A lição que guardo de gente como o Zé Leite, o Reinaldo Barbosa ou o Marcão não tem nada a ver com história, inglês e ciências, disciplinas que respectivamente ministravam no Polivalente. Foram meus mestres e me deram algumas dicas de como fugir do perigo. Às vezes, fujo cantando um bom repertório, ainda que desafinado.
Não me apresento apenas para anunciar minha velhice ou soprar as cinzas do Paulinho. Venho afirmar que Passos, despretensiosa, me deu régua e compasso para eu traçar minhas linhas nada retas, sem paralelos e, muitas, invisíveis por aí, por aqui, onde estou e aonde vou. Leio e pretendo escrever o mundo a partir da cidade que está dentro de mim.