18.10.15

Outubro


Não consigo pegar o pulso da crônica que começo a escrever, o que não quer dizer que eu não tenha assunto. É tão somente uma advertência que faço levando em conta que a crônica da falta de assunto, em algum momento, foi, é ou será escrita por todo cronista, bom ou não. Eu diria até que, feito os temas clássicos do jazz, valorizados pelos improvisos dos músicos, a crônica da falta de assunto é um clássico que se apresenta ora num improviso de Rubem Braga, ora noutro de Clarice Lispector e até mesmo no improviso “preso à pauta” de um AB qualquer.

O que não falta a minha crônica é assunto — triste, de uma tristeza mais triste que a tristeza comezinha presente em alguma outra, por exemplo, a de quando minha mãe morreu, na qual eu comentava o abandono de seus cachorros e a coincidência de sua morte com a tragédia do voo da TAM ao pousar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

É difícil dosar a tristeza e, de resto, qualquer estado de espírito. O lado de lá da tristeza, a alegria e suas imediações, também não se dá à crônica com mansidão. Se em torno do arco da tristeza estão, doces, o recolhimento e a introspecção e, ásperos, o melodrama e o sentimentalismo rasteiro, na beira do arco da alegria cabem a parcimônia da ironia e a devassidão da comicidade. É árduo equacionar os sentimentos, o que beira ao tormento quando está se falando de um lá depois da tristeza. E o que pode haver nesse tão longe? Uma dor não exatamente nossa, do nosso íntimo, mas que reverbera nele de forma aguda, impiedosa.

Tomo as rédeas da crônica e, com ou sem pulso, digo logo o que tenho (e não gostaria) de dizer.

Outubro, no Brasil, é o mês das crianças. Essa data não surgiu de uma ação do comércio — ainda que bem aproveitada por ele. Foi, ao contrário, uma recomendação, no âmbito da ONU, de 1954 — esforço que culminou, em 1959, na “Declaração Universal dos Direitos da Criança” e, em 1989, na “Convenção sobre os Direitos da Criança”. A intenção de todos esses documentos está, a meu ver, sintetizada no de 1959. Nele são listados dez princípios que deveriam ser seguidos em qualquer lugar. O primeiro é a igualdade, o que significa não haver discriminação por raça, religião ou nacionalidade, e o último o de “crescer dentro de um espírito de solidariedade, compreensão, amizade e justiça entre os povos”. Entre os dois, o direito ao amor, à educação gratuita, ao socorro prioritário em caso de catástrofe.

Tudo faria crer que uma preocupação política dessas, sexagenária, já deveria ter revertido o quadro de sofrimento de nossos meninos, mas sabemos que isso não aconteceu. As crianças morrem vítimas da violência policial (veja o recente relatório da Anistia Internacional, com foco no Brasil), morrem de doenças insignificantes, têm dificuldade de entrar na escola e, quando entram, de permanecer nela. Em nosso país, segundo a Unicef, 25% das crianças de 4 a 6 anos não frequentam a escola e 64% das pobres não o fazem durante a primeira infância. E mais: o Brasil ainda tem 535 mil crianças de 7 a 14 anos — faixa na qual 98% delas estão matriculadas — longe da sala de aula, das quais 60% são negras. Sobre os jovens negros e pobres, no Brasil ou não, o relho da inação bate mais forte.

Não bastasse esse quadro de desamparo, as guerras que não cessam tornam o grave um ponto alocado no meio de uma escala que alcança o trágico. Debruce sobre as notícias da Síria, de onde a família de Aylan Kurdi, o garoto encontrado emborcado numa praia turca, tentava fugir. Imagine a situação do Afeganistão. Se o leitor não tem uma referência sobre o país, sugiro a leitura de “Terra e cinzas” (Estação Liberdade), de Atiq Rahimi, romance no qual é contada a história de uma longa jornada em que avô e neto buscam avisar ao filho do primeiro e pai do segundo que a vila em que viviam foi destruída por um bombardeio e, da família, apenas os dois sobreviveram. O menino é surdo, melhor, ficou surdo pelos bombardeios. A guerra era a dos anos 1980, e pelo Afeganistão de hoje passa outra guerra no lugar daquela. Como estarão as crianças, que insistem em nascer? A mesma preocupação se aplica às palestinas e, de outra maneira, às israelenses.


Se a África, em regiões conflagradas ou não, fez alguma coisa para suas crianças tendo em vista a lista da ONU, baseou-se apenas no rascunho do que ali era intenção. Sabemos da penúria de povos que sofrem, ao lado da pobreza, a violência de estados corruptos e a insanidade de grupos radicais como o Boko Haram, que, não por acaso, elegem como alvo preferencial de ataque as crianças, em especial as meninas. Ferir a inocência e apressar seu fim é uma orquestração bem pensada, cujo intuito é melhor não compreender.

Eu erraria a mão ao escrever a crônica, sabia disso desde a primeira frase. Todavia, neste ano da graça de nosso Senhor, ano que faz questão de não jogar o pó da maldade para baixo do tapete, não posso me dar ao luxo de cantarolar por aí o leve refrão de Michael Sullivan e Paulo Massadas: “Hoje é o seu dia / que dia mais feliz”.  A felicidade tem passado longe.

4.10.15

Boa Nova


Fui agraciado com uma boa nova. Neste mundo de tantas precariedades, de angústias em doses pra lá de tantas, regozijo-me e dou publicidade a uma titica de nada, mas o que fazer, não é? Ao cronista é reservada a tarefa de lidar com o desimportante, com as miudezas, não raro com as coisas do próprio umbigo. Pois lá vou eu compartilhar um deleite pessoal. Digo compartilhar na esperança de não ir só, isso é, de levá-los comigo.

Antes de contar a razão de tanto contentamento, dou um passo atrás para falar de Philip Roth.

Foi meu amigo Átila, ao me presentear com “A marca humana” (Companhia das Letras), quem me aplicou o escritor americano. Uma das leituras mais instigantes que já fiz, o livro é daqueles que a gente vê passar por suas páginas a vida quase sempre mal resolvida de um país, no caso, os Estados Unidos. O personagem é um negro que não se aceita como tal. Abandonando os pais, passa a se apresentar como judeu, e é como judeu que se casa, cria os filhos, torna-se professor universitário e sofre um processo por racismo (contra um negro) em sala de aula. A história trata com pesos iguais o drama de um homem e o de um país, e um espelha e influencia o outro.

Philip Roth virou um escritor de cabeceira. Ao longo do último agosto, incerto entre o calor e o frio, me debrucei sobre “O professor do desejo” (Companhia das Letras). Essa leitura abriu o caminho para a boa nova que em breve anuncio. O personagem principal, primeiro estudante de letras e, depois, professor, lida em suas pesquisas com Tchekhov. (Também com Kafka, o que o leva a Praga e, por conta disso, Roth escreve uma meia dúzia de páginas de beleza irretocável.) Roth, para dar solidez ao personagem, discute em vários momentos a obra de Tchekhov e, com isso, me jogou nos braços do médico e escritor russo.

Corri atrás de uma antologia que tenho, uma edição (ou reedição) do início dos anos de 1990, da Cultrix. Comecei a folheá-la e encontrei no prefácio, escrito pela tradutora Tatiana Belinky, a seguinte citação de Tchekhov: "Sei falar curto de coisas longas". O conto é isto: falar curto de coisas longas. Vencido o prefácio, li um conto, depois outro. O livro está ordenado cronologicamente, assim, é possível perceber que a pegada de humor de Tchekhov se impôs nos seus primeiros textos. Um humor duro, que surge constantemente a partir de uma situação na qual está em jogo uma questão delicada, até mesmo moral.




Avançando pelos contos cheguei a “Brincadeira”. Não, não pude acreditar. Esse conto, amigos, eu o havia lido na década de 1990, não sei bem, e sua história martelava imprecisa em minha cabeça. Eu o considerava uma obra linda, mas, que conto era esse? Ah, agora sei, é “Brincadeira”. Apesar do título e do bom humor habitual, o conto é triste até mandar parar — o que não macula sua beleza. Quanta alegria em reencontrá-lo! Sem me aguentar em mim, corri aqui para dividir minha felicidade.

Coisa miúda e desproporcional ao contentamento despertado? Quem gosta de ler sabe que não é. Um achado dessa magnitude equivale a um reencontro com alguém querido, que andava perdido no mundo. No caso da minha leitura, o amigo ausente trouxe com ele dois caras, que, num instante, tornaram-se íntimos, irmãos mesmo — como é o caso do próprio Átila, que chegou pelas mãos da Wânia. Na nova leitura de Tchekhov, “Inimigos” e “Angústia” (“novos amigos” colhidos entre inúmeros contos estupendos) subiram para a estante virtual em que guardo os marcantes.

Em nome da alegria, juro lutar contra minha memória frouxa e nunca mais esquecer nenhuma das histórias desse monstro, o russo Tchekhov.

Celebremos!















17.9.15

Quatro

Silêncio

É de dentro do silêncio — caverna sem sombra, colo extemporâneo para um homão feito eu — que escrevo agora e de onde imagino não sair tão cedo. Silêncio, com medo de se quebrar, não dá margem nem a pensamento, pequeno que seja.


O canto das cigarras faz parte do silêncio. E, no extremo silêncio, ouve-se o formigar das trabalhadeiras. Logo, concluo, o silêncio silencioso é uma invenção, mas o meu, agora, este —  ah, este silêncio! — fechou as portas para o mundo, e o mundo foi fazer barulho lá longe, na p que o pariu ruidoso. 


Preto e branco

Leio o livro duplo de Nilma Lacerda. De um lado “Viver é feito à mão”, de outro, “Viver é risco em vermelho” (bela edição da Editora Positivo). Duas histórias muito parecidas e, assim mesmo, inconfundíveis. Parecidas porque as duas personagens se envolvem com a escrita, porto ao qual chegam como forma de lidar com suas dores. Distintas porque a menina da primeira história é de classe média, branca provavelmente. A da segunda, negra, vive sem pai nem mãe na favela da Maré. Os problemas da primeira estão associados à família e a toda aquela engrenagem que roda a partir da intriga de um contra o outro, do amor de um pelo outro. Os da segunda advêm da penúria — ponto além da pobreza. O arranjo gráfico do livro é tal que “Viver é feito à mão” se lê da forma habitual: à esquerda, as páginas lidas; à direita, as que devem ser lidas. Já em “Viver é risco em vermelho” ocorre o contrário, à esquerda ficam as páginas ainda não lidas. Simplificando: o primeiro se lê de frente para trás e o segundo de trás para a frente (do objeto livro, não da história). As duas narrativas confluem para as páginas centrais, nas quais o livro acaba, mas — uma vez que aquelas personagens ganham, a partir de contornos tão claros, existência —, as histórias não. Maurício Negro, responsável pelas ilustrações, talvez para evitar a dicotomia cromática sugerida pela pele das meninas — ponto importante no que se conta —, opta pelo vermelho como a cor dominante. Um acerto e tanto, pois o livro é, para resumi-lo em uma só palavra, ardente.
Música




Para me acompanhar vida afora, se tivesse de escolher uma música, uma única, eu estava frito — à milanesa. Uma só? Isso não existe. Por natureza, gosto das que chamam ao repouso ou à reflexão e, se a hipotética escolhida convidasse à dança, seria um acaso, uma interferência no destino da música que não foi feita para dançar.

Dito isso, elejo “Clube da esquina”, parceria do Milton com os irmãos Márcio e Lô Borges, como a música que tenho levado pela vida. Ouvi-la me remete ao período no qual fui deixando de ser menino para me tornar esse homão capenga que sou. Sua letra é noturna e esperançosa, duas grandezas que não se somam, dois touros bravos mantidos apartados em seus domínios. 
A lua


Foto do autor. Lua na Praia Vermelha, Urca, RJ.
Eu e Bia fomos ver a lua na Praia Vermelha. Lá encontramos o poeta e sua Cristina. Ficamos os quatro conversando amenidades, vendo e fotografando a lua — aqui e ali nos espantávamos mais uma vez com a sua beleza e então, como se quiséssemos não cair no golpe de seu encanto, voltávamos à conversa miúda, a um comentário sobre o frio ou a vida de nossos filhos. Se havia poesia ali, éramos nós essa poesia — não estávamos na condição de escritores, mas de escriaturas.

Não sei se, de volta a casa, o poeta escreveu para aquela lua. Eu não, a lua não é para o meu bico de escritor, além do mais, já existe o “Moon do cão”, poema de meu amigo Antonio Barreto (no livro Vastafala), vindo ao mundo sabe-se lá sob qual feitiço. Fiquem com ele, enquanto eu caço por aí alguma musa menos luminosa.


                Lua, deixa de ser assim tão branca
                  e egoísta!


           Que vida besta esta tua:
           aí parada entre tantas coisas
                  inúteis

           satélites, estrelas, naves noturnas:
                  tanajuras de verão!

           Lua capitalista! Uivo branco de Deus!

                 Urubu do Além!

           Desça daí... Vem morar comigo, vem,
           que te dou um Sonrisal e um Cadillac
           em troca de um soneto de Olavo Bilac!


7.9.15

No lombo do Brasil


Acomodo-me no vagão nem luxuoso nem simples do trem que me levará do interior de Minas a Florianópolis ou, via Pantanal, de Quixeramobim ao último povoado ocidental do extremo sul. Mas não existe essa possibilidade. Poderia existir, não fosse a falsa modernidade à qual nos agarramos ao longo do século XX e que sepultou os trens, sem que ninguém soubesse ou saiba quem garfou os trilhos.
Estou bem instalado no trem inexistente, e de sua janela num instante passo a contemplar o sertão árido, o resto de mata atlântica, o cerrado. (O Pantanal, preso num poema de Manoel de Barros, não pode ser mais visto, apenas lido, mas lemos pouco.) E sobe montanha e desce montanha. E margeia rio e se afasta de rio. Café com pão, café com pão. Bandeira, sedento de Brasil, invade o vagão e me sequestra.
No Brasil ninguém diz “eu digo”, ninguém diz “eu roubo”. (Tampouco eu.) Aqui, a esquerda benze meia dúzia de empresários: mais-valia pura pra quê se cinco letras em forma de banco abastecem os ungidos com dinheiro barato e pedalado? Aqui, a direita tem nostalgia da palmatória, mas investe mesmo é em arma pesada e sonha com um sistema prisional lucrativo: menino preso é capital sadio e, por isso, bom reprodutor.
O trem parece andar fora dos trilhos. Virge Maria, que foi isso, maquinista? Nada de susto, ele avisa pelo sistema de alto-falante, estamos apenas passando por cima de um rol de Adílios. No trem da Central, continua em tom muito formal, a operação de passar sobre o corpo de Adílio Cabral dos Santos ocorreu por necessidade: Quem seria o doido de tumultuar a vida daquele que precisa chegar ao trabalho na hora? Apesar do improviso, a profanação foi um ato de humanismo, ápice da consciência coletiva. Agora — a voz soa bonita e cheia de si —, produzimos Adílios em prostibolatórios de última geração e os jogamos já mortos sobre os dormentes. O trem que conseguir esbarrar no menor número deles ganha um prêmio. Qual? Dizer que foi ideia do outro. No Brasil gostamos de apontar o dedo e dizer “foi ele”, “foi ela”. Precavidos, não afirmamos coisa alguma defronte do espelho. Quanta sabedoria a desse homem!
O trem-bala já contornou o Chuí e, não tarda muito, desceremos em Manaus para, de acordo com o cardápio, comer carne de índio tucunaré. Sou repreendido pelo vizinho de assento: Não seja inocente, o índio é haitiano ou guianense, ninguém sabe ao certo. E não vem ao caso. Nunca vem ao caso, e ninguém jamais sabe ao certo. O tempero vai ser nativo, corre de boca em boca, para dar sabor à nossa eterna vingança pelo que fizeram ao bispo Sardinha.
Há pela frente o Pico da Neblina. O trem não está preparado para tamanha escalada, mas uma voz prática convoca homens de fome eterna para empurrá-lo até o cume. Lembro-me de Fitzcarraldo, o lunático filmado por Herzog, cineasta idealista que fez subir um navio pela montanha, uma linda imagem à custa da vida de outros famintos nativos dessas mesmas bandas amazônicas. Agora, são índios e negros — outra vez escravos, se é que algum dia deixaram de sê-lo — os que, tropeçando em Adílios, cumprem a missão. Ninguém poderia imaginar que ainda houvesse relho, chibata e cipó de aroeira, mas eles estão lá, troando no lombo de quem nunca mandou dar — tamanha violência cujo efeito colateral inesperado é deixar cada um de nós nu e, com isso, nu e transparente o próprio Brasil. Um rápido olhar para os lados é suficiente para se perguntar: onde foi parar a África nos machos, a Europa nas fêmeas? Quem lavou nossa miscigenação com água oxigenada e óleo de peroba?
Para cruzar o pico e depois descer, o governo empenhou no orçamento do ano que não vem dinheiro insuficiente e desnecessário, diz uma voz que não é a do maquinista, sabe-se lá se de um Adílio, de um Herzog, de um Deus dessas tantas butiques da fé espalhadas pelo Brasil. Outra frase brota no ar: No alto do morro, passa boi, passa boiada, só não passa solução já pronta para tormenta encomendada. Quem diz é ele, o do lado ou aquele mais adiante, mas, segundo ele, fui eu quem disse.
Em terras tropicais, odiamos o outro.















23.8.15

A primeira vez

A primeira vez que eu vi o mar, não o vi de cara. Mal pisei na areia, corri feito um louco e me atirei na água para, depois de um caldo, beber a espuma da onda recém-quebrada. Eu esperava uma água salgada, mas não tão salgada quanto aquela que provava a contragosto.

Desenho do autor, feito a partir de gotas de café.
Houve quem caçoasse do mineiro que tossia engasgado depois de levar um caixote. Saí humilhado ali da beirada, me sentei na areia e, aí sim, mirei o mar. Lancei sobre ele já então um olhar perspicaz, de quem o sabia cruel.

***
As mulheres de Argel, Picasso.
Numa casa em construção, talvez no espaço que viria a ser a sala, vi pela primeira vez uma mulher nua. Noutro futuro cômodo, dois amigos esperavam a vez de vê-la — o combinado, seguido à risca, era apenas vê-la. Ansioso e sentindo-me vigiado, eu não poderia estar inteiro na cena, e não estava. Vi os seios de maneira muito clara, rijos ali onde de fato os seios crescem e ficam, mas todo o resto do corpo — não só o que eu buscava, desconhecia e até aquele momento estivera sempre encoberto, como também a cabeça, os braços, enfim, as partes públicas — não estava no lugar. A primeira vez que vi uma mulher nua, ela parecia um desenho de Picasso.

***
A mãe da dona Antonieta, minha professora do terceiro ano do ensino fundamental, foi a primeira pessoa que vi morta. A diretora da escola nos levou ao velório e nós nos comportamos muito bem: não demonstramos medo, não evitamos estender a mão para a professora, alguns até mesmo deram-lhe um abraço. Em fila passamos ao lado do corpo, baixamos a cabeça com resignação, fizemos o sinal da cruz e saímos para a varanda. Não sei se tive dimensão do que aconteceria a partir dali, mas creio que, ao olhar aquela velha tão velha, decidi que não tocaria jamais num morto. E assim tem sido.

***
Foto do Globo, Brasil X Iugoslávia, 1971.
A primeira vez que fui ao Maracanã, em 1971, foi a última que Pelé jogou pela seleção brasileira no Rio de Janeiro: era um amistoso contra a Iugoslávia, país que não existe mais. Eu não tinha dez anos, e o estádio lotado com mais de cento e trinta mil pessoas, um número inconcebível para quem, feito eu, vinha de uma cidade com menos de sessenta mil habitantes, chamou mais minha atenção do que o jogo em si, ainda que fosse também a primeira e a última vez que via Pelé. Os quatro gols do jogo, que terminou em dois a dois, só fui ver à noite, pela televisão.

***
O primeiro poema que fiz era para uma canção, que eu e o Carlinhos, do alto de nossos oito anos, fizemos à beira do tanque da casa de meus pais. A letra dizia: “Vem, meu pedaço de papel, um papel não muito comum, mas uma folha de amor, uma folha de amizade”. Dois pirralhos, nos anos de 1960, deveriam falar de mocinho e bandido ou de corrida de carrinho de rolimã, nada a ver com folha de amor ou de amizade, a meus olhos de hoje, pouco condizente com o mundo infantil, coisa de gente mais velha. Não sei explicar o meu espanto, contudo, fosse eu meu pai ou minha mãe, temeria pelo futuro de seu filho, que dava mostras de que envelhecia bem antes da hora.

***
 Viejo desnudo al sol, de Mariano Fortuny.
Rola por aí que a velhice chega quando você se dá conta de que não faz, há algum tempo, algo pela primeira vez. Mentira. Velhos fazem várias coisas pela primeira vez, muitas, é verdade, como um sinal da decadência física (é a primeira vez que não se enxerga nem com óculos, é a primeira vez que não se ouve bem, é a primeira vez... a lista é grande) e outras, ainda que não sejam novidade na vida de ninguém, como a oportunidade de fazer pela primeira vez sem tanta ansiedade, sem tanta ignorância.

Além do mais, no meu caso pelo menos, será na velhice que vou morrer pela primeira vez.

6.8.15

Dez ideias soltas para uso futuro

I
O pássaro é um diletante e canta ao léu suas mazurcas do instante.

II
Eu e minha mulher andando de mãos dadas pela rua movimentada do bairro, depois de assistir à sessão de cinema, é uma crônica pronta e inacabada.

III
O suicídio, a possibilidade do suicídio, é a questão filosófica, na visão de Camus. Todavia estar dentro ou fora da indústria do sucesso e vê-la ou como o espaço ocupado pelos inescrupulosos ou como o altar sagrado merecido por quem fez inúmeros sacrifícios pessoais são duas formas de dar valor absoluto a essa indústria. E a morte, o suicídio, inclusive, adora o sabor forte dos valores absolutos.

IV
Eu e meus amigos de adolescência não éramos exatamente flor que se cheirasse. Hoje, depois de a maioria de nós ter ultrapassado a barreira dos cinquenta anos, somos atuais, não envelhecemos antes da hora nem nos agarramos a uma falsa juventude. Agora, não sei se é uma coisa minha, mas sinto em nossos encontros esporádicos um cheiro de flor em plena intumescência.

V
Planos? Troco plano por sonho e imagino um mundo, o Brasil em particular, menos violento. Até que isso aconteça, quantas crônicas — ou textos, ensaios, o que for — encarniçadas teremos de escrever? Todos eles, provavelmente, nascidos de mais um episódio cruel. 


VI
Desfrutar um longo silêncio na companhia de meu pai é a maior saudade que tenho dele.

VII
O lugar do cachorro em nossas vidas está muito bem estabelecido. E o cachorro já achou seu canto na literatura há muito tempo. Baleia, a cachorra faminta de Graciliano Ramos, talvez seja o momento mais sublime desse encontro entre o cão e as letras. Eu li, já nem sei quando, Tantubá (Global Editora), de Luiz P. Cardoso (escritor de quem pouco ouço falar), livro que me marcou bastante. Não me lembro tanto dos detalhes, mas a história — um diálogo entre um morto e seu cachorro — explora a ideia de que os mortos continuam falando, sendo, entretanto, entendidos apenas pelos cachorros.Dia desses, Tiago Germano, escritor paraibano, me mandou um conto cujo protagonista é um cachorro, e eu mesmo escrevi outro que um escritor em crise chuta um cachorro na rua. Afinal, o que querem os cachorros?

VIII
Eu e meu amigo Leninho, também conhecido como Pombo, sempre ancoramos nossa amizade em um cais inalcançável. Ouvir música juntos foi — e é quando nos vemos, o que não tem sido frequente — o nosso jeito de dialogar. Ouve isso, e eu apurava os sentidos e ouvia. Sua vez, e ele, atento, ouvia. Certo dia, numa festa que durou sei lá quantos dias, a turma foi caindo pelos cantos, e eu e o Pombo vimos, sentados na varanda da chácara do Raul e do Chico, lá no horizonte, a lua se meter dentro de uma árvore. Foi nosso diálogo mais profundo.

IX
Fico mexido quando alguém lá da minha cidade diz uma coisa assim: eu vou de a pé. Ou outro em fala admirada: esse trem não avua.

X
O pássaro, esse diletante, borra o céu de tudo que é cor. E o céu se refaz em azul sem ofender o pássaro.

26.7.15

A segunda mãe


Não fui gerado metade num útero, metade noutro, não tendo sido, no início da década de 1960, quando nasci, nem uma aberração da natureza nem fruto de alguma experiência científica antecipatória do futuro. Assim mesmo, tive duas mães, o que me faz uma criatura um quase nada rara. A segunda, mãe afetiva. Afetiva, não adotiva. Sempre desfrutei da companhia de minha mãe biológica e, de certo modo, ainda desfruto, apesar de ela não transitar mais pela vida — por esta vida, dirão os crédulos.

Célia chegou a minha casa antes de eu nascer. Foi costurar para minhas irmãs, uma com quase dez anos, a outra beirando os cinco. Naquela época, as famílias confeccionavam suas roupas. Qualquer mãe prendada cosia para os filhos e, se não fosse talentosa ou carecesse de tempo, contratava uma ajudante. Foi o caso. Mamãe, boa de costura, mas atarefada com o trabalho de diretora de uma escola de economia doméstica, ao ver suas meninas crescendo, não pensou duas vezes e chamou a Célia para fazer-lhes uns vestidos. Seria trabalho para uma semana, Célia ficou conosco quarenta anos. Morreu em nossa companhia.

Solteira, Célia teve um fortuito namorico, um flerte com um radialista que lhe ofereceu música num programa vespertino: “Essa vai para a Rosa da Bonsucesso”. Célia Rosa, moradora da rua Bonsucesso. Sem talento para o matrimônio, dedicou-se a meus pais, a mim e a meus três irmãos — com o tempo ainda teve fôlego para os netos de meus pais e para o seu sobrinho. Foi costurando roupas novas e reformando as velhas enquanto minhas irmãs completavam onze, doze, os emblemáticos quinze anos, até que a indústria tornou inútil uma costureira no domicílio, pondo tudo pronto e à venda na butique da esquina. Nesse momento, Célia deixou a figura de costureira para ocupar um espaço indeterminado. Uma vizinha, Celina, gracejava: em Passos, éramos a única família com uma governanta. Célia nunca foi governanta. Intuo o que pode ter significado para meus pais e irmãos, mas não posso afirmar com certeza, não com a mesma com que afirmo que para mim ela foi uma segunda mãe.

Uma segunda mãe, por definição, entra em confronto com a primeira. Haydée, apesar de todos os seus medos, me jogava para a rua, apostava na minha independência, sempre com o olho em meu futuro. Célia, sem a preocupação de me educar, oferecia o colo. Minha mãe biológica me colocava de castigo, a outra me tirava ou entrava nele e o transformava num tempo amistoso, bom de ser vivido. Nas viagens sem fim de meu pai, nas tormentas barulhentas caídas do céu, nos dias de crime na cidade, Haydée pedia minha mão, meu conforto, alterava, desse modo, nossos papéis e passava a ocupar o lugar de filha. Célia parecia não temer nada, nenhuma tristeza a atingia: doação em estado de absurda pureza.

Vivendo assim entre dois modelos tão distintos, eu poderia ter enlouquecido de vez, mas não, acho que não atolei na lama da sandice, sequer tornei-me um inseguro em grau doentio. As duas mães me deram a chance de conviver, desde cedo, com carinhos de forças opostas, que, ao puxarem a brasa cada uma para o seu lado, abriram uma pequena greta no terreno de minhas emoções. A fenda é um bom lugar a partir do qual um escritor pode vir à luz — especulo, aqui, fora de contexto e insinuando um tímido segundo sentido à frase. 

A outra figura feminina acomodada em meu altar da maternidade me transformou de que em que, não sei, mas eu seria outro caso fosse filho de mãe única. Digo isso ou só isso. Não é pouco. Na realidade é muito. 


13.7.15

Antes de eu ir pra Nauru

Ao Belmiro, amigo que costuma transver o mundo.

No trem, um pregador diz que já havia sido traficante e assassino. Escrevendo certo por linhas tortas, Deus e Cristo o salvaram. Até aí uma conversa conhecida, mas ele acrescenta que fugiu do tráfico, da favela, foi viver longe de onde nasceu e, ao voltar, foi pego e levado para o alto do morro. Quando iam despachá-lo para o nunca mais, resolveu dizer que ninguém morre duas vezes, que eles já haviam matado seu corpo antes e, naquele momento, não conseguiriam matar seu espírito. O fato de ele estar no trem, expondo sua vida, era a prova cabal de um milagre. Imagino que, na viagem entre a Central e o subúrbio carioca, naquele dia e noutros, o pregador conquiste muitos devotos. Como estamos todos à deriva, uma salvação a módicos —  quase nunca tão módicos — dízimos nos cai bem.

Bel, que me contou tal história, emenda mais outra, essa similar a uma vivida por mim. Ele andava pelas imediações da praça Tiradentes quando um sujeito, assim do nada, lhe perguntou se ele já havia saído de lá. De lá? É tudo obscuro, mas a intimidade da abordagem fez Belmiro pensar que a memória o estava traindo, que estava diante de alguém com quem já convivera. Ao fim e ao cabo, o “parceiro” deu um perfume a meu amigo, disse que era para a esposa e que não lhe cobraria um centavo. Depois pediu uma ajuda. O perfume — apenas uma essência adquirida numa das lojas da Saara, a Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega — saiu por um preço muito acima da sua qualidade. Na minha história, em vez de perguntar se eu havia saído de lá, o trambiqueiro perguntou se eu ainda ensinava lá. Como dei aulas alguns anos na Zona Norte, numa faculdade frequentada por muitos alunos que viviam da informalidade e outros, segundo corria a boca pequena, da ilegalidade, o perfumista bem poderia ter sido meu aluno. Na lábia pura, vinte contos meus, vinte do Bel, grande malandro.


1752, galo na cabeça. (Foto do autor.)



Em Homenagem ao Malandro, imortalizado por Moreira da Silva, Chico Buarque dizia que o malandro havia acabado, substituído pelo engravatado com emprego, retrato na coluna social e tralha e tal. Vê-se, no perfumista da praça Tiradentes, um resquício desse tipo em extinção. Num mundo em que se tira o tênis do outro com revólver ou faca — não raro usados para dar cabo da vida do dono do tênis a troco de nada —, afanar vinte pilas do inocente na conversa mole é uma dádiva. E, melhor ainda, sem que a polícia perceba, o que seria um problema e tanto, pois sabemos como é a mira dessa polícia. Não só a mira, mas também o dedo podre, que não perde a chance de transformar uma pequena contravenção num grande negócio. (Nem preciso dizer para quem é bom o negócio.)

Na minha utopia pessoal, iriam por terra todas as proibições. Tudo que não fosse roubar, violentar, sequestrar, discriminar e matar (mais alguma atrocidade que me escape agora) seria permitido, e a justiça cuidaria de condenar os malfeitores, baseada no fato de que sempre há os que vivem de passar a perna nos outros. Os médicos atuariam orgulhosamente com seu diploma para interromper uma gravidez não desejada, uma vez que, com orgulho, devem atuar em tudo que é da medicina. Em contrapartida, a igreja trataria de convencer seus fiéis de que, independente de a lei permitir, eles deveriam agir sob o preceito da religião. Cada um no seu quadrado. Os pais, quando seus filhos saíssem à noite, teriam a tranquilidade de saber que os excessos dos meninos não lhe custariam a vida numa guerra entre gangues de traficantes ou entre polícia e traficantes. Por que estou falando tudo isso? Uma especulação firmada na minha crença de que muitas proibições acabam por substituir o malandro folclórico por um bandido de fato perigoso. Um delírio a partir da nostalgia de dias menos violentos, o que deve coincidir com o tempo em que Don Don jogava no Andaraí (música de Nei Lopes cantada com aquele jeitão de malandro das antigas do Zeca Pagodinho).

Não posso me alongar e ainda não disse o que tenho a dizer. A oferecer, na verdade. Preste atenção, é uma oportunidade única. Viajarei para Nauru, de onde importarei guano, um fosfato de cálcio composto pelo cocô de morcegos e aves — pré-históricos, segundo alguns. Pois bem, tenho um bilhete premiado da loteria federal no valor de um milhão de reais e estou sem tempo de buscar a grana. Sendo assim, vendo o bilhete — 1752, galo na cabeça — por reles cem mil. O interessado pode fazer um depósito em minha conta do Banco do Brasil e aguardar o talão, que enviarei em carta comum, com fé cândida no funcionamento de nossos correios. Pegar ou largar. 

29.6.15

E o poeta no meio

Cada poeta tem seu mundo próprio, e o que atinge um não atinge outro. Há poetas que nasceram na miséria, que conheceram ou conhecem a fome, o frio, a falta de individualidade. Outros, por sua vez, tiveram e têm do bom e do melhor, mas, nem por isso, encontram a felicidade ou qualquer outro sentimento apaziguador. Alguns viveram ou vivem em países repressores, outros em democracias. Há muitos motivos para um poeta ser diferente de outro.

Apesar das disparidades, ouso dizer, há dois extremos com os quais todo poeta lida. De um lado, seu trabalho profundo, a agudeza com que revolve a dor e a transforma em palavras. De outro, o reconhecimento. Entre esses extremos, o poeta, um forte, antes de tudo, convive com sua impotência, sua vaidade, sua revolta e, para não me alongar, também com a sua submissão (voluntária ou não) a seja lá o que for.

Penso tudo isso a partir de dois poemas lidos recentemente. Um de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, uma de suas odes. O outro — compartilhado no Facebook por Adelaide do Julinho, pseudônimo de Silvana Guimarães — de Sebastião Nunes, poeta e editor mineiro.

Os dois poemas têm a ver com esse situar-se do poeta. Ricardo Reis defronta-se com a questão de que nunca será alguém e, mais que isso, de que não terá mesmo uma obra (reconhecimento). Ironia de um grande poeta? Não, ao contrário, o medo enraizado daquele que, em vida, publicou pouco. Diante da possibilidade de fracassar em seu desejo de criar uma obra — que, no caso do escritor, só se completa quando chega ao leitor —, a paz de um instante leva-o a imaginar-se sendo o que nunca poderá ser. Contra a impossibilidade, uma ilusão.


Sim, sei bem (1) (Ricardo Reis)


Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Sebastião Nunes, com ironia — mais, com sarcasmo , também trata do “fracasso”. No caso, de um poeta que fez pacto com a própria solidão, apostando na força (“poeta solitário corajoso, forte e temerário”) e que, de repente, pede o penico e quer pertencer a uma panela e ter quem puxe o seu saco. O reconhecimento que se quer aqui não é o da obra, e sim o da própria figura do poeta (ídolo popular com poder, senhor midiático), desejo comum no mundo da criação, mas que hoje chega a um nível doentio: expor-se, e colher os benefícios dessa exposição, é mais gratificante do que produzir a parte da obra que cabe ao poeta. A panelinha, por ser uma ação de grupo, é uma das formas de alçar os seus membros à fama. Fama, eis o que se quer.

Oh que estúpido fui! (Sebastião Nunes)

Quebrei minha panelinha literária
no dia em que nasci.
Voaram cacas, caquinhos e cagões
fedendo como nunca vi.

Desde então sou poeta solitário
corajoso, forte e temerário
orgulhoso pra caralho
mas no borralho.

Quem me empresta nova panelinha?
Quero que me puxem o saco.
Exijo ser chamado gênio.
Preciso cagar regras.

Ai que saudades de uma cagadinha
na minha literária panelinha.

Hoje, ainda que haja a tendência ao espetáculo, muitos poetas — o próprio Sebastião Nunes e também a Silvana Guimarães, por exemplo — estão por aí fazendo seu trabalho, temendo talvez, feito Ricardo Reis, o fato de que, por falta de leitor, nunca venham a ser reconhecidos. 

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(1) No disco Ná e Zé, de Zé Miguel Wisnik e Ná Ozzetti, foi gravada a música que Wisnik fez sobre o poema; no Youtube, encontra-se o disco, que, aliás, vale a pena escutar. Para ouvir a música, clique aqui.

15.6.15

Para quem escrevo: uma crônica-dedicatória

Escrevo para aqueles que, feito eu, nunca viram um pinguim. Ou, se viram, logo deram as costas à ave para, desatentos ao entorno, macerarem suas angústias — devo essa imagem aos craques para quem eu gostaria de escrever: Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, quarteto que “puxava angústias” pelas ruas de Belo Horizonte. Escrevo de olho nos que não distinguem um pinguim de uma foca.

Escrevo para todos que morrem de medo e ressuscitam dia após dia. Igualmente escrevo para os corajosos, que nem sempre vingam e morrem sem medo.

Escrevo para o inventor da saudade, que, suponho, seja um daqueles astronautas de fundo de quintal habituais no quintal que já não tenho e não me tem mais. Escrevo para os lunáticos insatisfeitos. Escrevo para a lua.

Escrevo para os farmacêuticos viciados e, não raro, para os carcereiros levianos e para as pessoas incapazes de combinar os tons da roupa. Escrevo para a moça de Goiás que acabou de passar por aqui. Aqui? Sim, pela minha lembrança.

Escrevo para a vítima de um espanto. E também para quem se espanta com a vítima. Trocaladrilhos, trocaladralhos, escrevo para quem não maneja bem as palavras. Afinal, é para mim que escrevo.


Foto minha, da cristaleira lá de casa.


Sem me recordar quais foram, escrevo para meus heróis da infância. Ah, sim, foi meu tio Lozo. Escrevo para ele. Também para os outros tios que, na companhia de papai, negociavam seus zebus na varanda da casa de minha avó cega. Escrevo para boi dormir — seria tão melhor escrever para conter esse desejo besta que algumas andorinhas têm de sozinhas fazer verão.

Escrevo para quem nem se dá conta de ter vivido um momento histórico. Aquele milhão urrando “diretas já” na Candelária, em 1984. Um tal fulano que, em passeio pelo Rio, ouviu ecoar do Palácio do Catete o tiro que matava Getúlio Vargas. (Não importa se havia um silenciador na arma.) Escrevo para os mitômanos autênticos.

Escrevo para o sicrano que transpira seco o suor de rios podres, para a lavadeira relapsa batendo roupas à beira desses mesmos rios e, ainda, para o atendente mal-humorado, que só pensa em pescarias e gandaias. Escrevo para aqueles que fumam depois do sexo e para os que, depois dele, chupam laranja.

Escrevo para os pacienciosos — se existirem. Para a mulher iletrada. Para quem, ao me ensinar o catecismo com sua pedagogia do medo, me afastou de Deus. (Se tivesse coragem, escreveria uma carta rancorosa ao bispo de Guaxupé.) Escrevo para a mulher do padre.

Não tendo outra, é com a minha cara de pau que escrevo para você. E é sempre para você que escrevo.

27.5.15

Rondó da cor mais dúbia

“eu não tinha este coração /que nem se mostra” (Cecília Meireles)



Você acabou de colorir seu livro. Estresse zero num dia lindo de outono. Antes de correr à livraria para comprar um novo, o quinto no mês, você, distraída, adia tomar providências corriqueiras: descongelar a carne do almoço, escrever um bilhete para o filho mais velho, separar aquela roupa que perdeu a hora de ser passada adiante. Um suspiro. A chave na porta. Rua.

Dois moleques espiam um pedestre desatento e com um celular da hora. Um desempregado confabula com a sombra, em quem confia, com quem não compete. Um corno assobia. Uma menina pensa no beijo dado dois segundos antes. O motorista de ônibus para o veículo, salta e entra na padaria para comprar um refrigerante. Em protesto, todas as buzinas do mundo soam em coro, barulho insuficiente para acordar o ciclista morto ou para orientar o velho extraviado.

Indiferente a tudo, você só tem olhos para chegar à livraria e adquirir o livro despalavrado, cheio de formas a espera de cores. O pássaro rosa — uma invenção sua, não se tem notícia de um desses na natureza — volta a sua lembrança, e você quase chora. Criar tem custo, custo emocional. Amarelo aqui, verde ali. Perfeccionista, quando um azul clarinho escapou do espaço a ele destinado, a janela da casa, você pensou em desistir. Mas não, respirou fundo e deu um jeito pintando de marrom escuro, cor de tijolo, a parede na qual havia se metido o azul intrujão. No stress, eis o prêmio.

Entre o livro de figuras ocas e o colorido, deixado sobre a mesa de casa, houve uma dedicação absurda, um deixar o resto de lado, inclusive os filhos, inclusive o marido, inclusive a mãe, inclusive os cabelos e as unhas. Valeu a pena. Tarefa cumprida, você foi tomada pela paúra de perder esse bem-estar, de ter de voltar à rotina carrasqueira. O medo de renunciar às recentes conquistas serve-lhe de guia e estímulo no caminho entre a casa e a livraria. Você avança.

A moto em zigue-zague corta os carros. Um neném desanda a chorar alto, a ponto de sossegar o facho das buzinas. Um mendigo atravessa a rua desviando-se dos carros numa espécie de balé sem beleza, mas eficaz por levá-lo ao outro lado sem um arranhão. Duas velhas pareadas se arrastam pela calçada estreita, feita apenas para quem vai só — ideal para os solitários, com o que se forma uma fila atrás delas. Na fila, muitos talvez estejam indo à livraria com a mesma necessidade. Haverá livros para todos, não há por que temer. Mesmo assim você teme.

De repente, despenca sobre seus ombros o sofrimento do mundo, vivo ali na rua. Os meninos infratores, o velho perdido, as velhas andando em ruas feitas para jovens, apenas para jovens, o ciclista morto e o corno tentando apagar a dor num assobio. As buzinas e a birra do bebê furam-lhe o tímpano. Tudo isso comprime sua alegria, dá uma rasteira em sua tranquilidade e nubla o céu outonal. É preciso fazer alguma coisa. Você tem de fazer alguma coisa.

Na saída da livraria, você entrega o primeiro exemplar ao mendigo, que acabara de cruzar mais uma vez a rua. Ele segura o presente e, em agradecimento, improvisa um pas de deux de araque, com a autoridade de um Baryshnikov sem banho. E come o livro (é o livro que colore a fome e a sede dele). Uma das velhinhas, para receber a gentileza de uma moça tão bonita, passa a bengala para a outra mão, livrando-se do braço da amiga. Gesto miúdo que a leva ao chão. Ali mesmo ela abre a bolsa, tira de lá a caneta azul e começa o trabalho. A fila que se formava atrás das senhoras, já grande, cresce, cresce, vira a primeira esquina, a segunda. O bairro fica congestionado de pedestres, que, por não terem buzinas, gritam e xingam. Você aproveita a fila sem rabo e distribui com presteza os livros. Ao pegar o seu, a mocinha ri, o adolescente desdenha, o senhor de terno guarda o dele na bolsa. A babá daquele chorão dá o exemplar que acabou de ganhar ao menino, que passa a pintá-lo com lágrimas.

Uma, duas, três pessoas, a rua toda e, já fora de seu controle, a cidade inteirinha começam a colorir os livros que, do nada, foram parar em suas mãos. É gente sentada na calçada, na rua, na escada da igreja, no para-choque do ônibus, na mureta, em todo canto. A serenidade se alastra feito fogo e passa o rodo no estresse.

Ao perceber todo mundo “assim calmo, assim triste, assim magro”, com os olhos tão vazios e o lábio amargo, você se toca que a vida não funcionará com as pessoas nessa vibração — que não vibra. Algo de muito trágico está por acontecer. Você pensa em ler um livro para antever o desastre ou pelo menos para descobrir em que espelho ficou perdida a sua face.