29.6.16

A bela esquecida


Tertúlia é uma palavra bonita. Poderia mesmo ser nome de alguém, no mínimo um segundo nome: Clara Tertúlia, Rosa Tertúlia. Não, não faria feio. Minha avó chamava-se Thomazia, outro nome bonito que ninguém mais coloca nos filhos, quer dizer, segundo um site popular do IBGE, Censo 2010/nomes, no ano de 2010 eram oitenta e três no Brasil, a maioria vivendo em São Paulo (uma é minha prima). Se há Thomazia, por que não Tertúlia? Pelo menos o site do IBGE não registra ninguém com esse nome, portanto, se existem Tertúlias, são menos de dez, faixa na qual o instituto oculta a informação para proteger o sigilo pessoal.

Mas como estava dizendo, tertúlia é uma palavra bonita e, como ainda não disse, pouco falada entre nós. No Houaiss, ela é definida como um agrupamento, reunião de parentes ou amigos; uma palestra literária; por fim, uma pequena agremiação literária, menor do que as academias e arcádias. Ao promovem uma social em suas casas, os jovens bem que poderiam promover uma tertúlia. Em Madri, assim o fazem. Quando estive lá em 1999, um amigo me convidou para uma, na quinta-feira, não muito tarde. Conversaram sobre tudo, literatura inclusive, beberam, uma social típica, nomeada com mais formosura. Ainda segundo o dicionário, a palavra tertúlia veio do espanhol, razão pela qual na terra de Cervantes sobreviva com pujança.


José Gutiérrez Solana, artista espanhol, retratando uma tertúlia.


Tertúlia, a bela. Poemas cantam o amor, a dor, a saudade, o sol, a procela, algum a tertúlia? Recorro ao velho (sim, já é velho) e bom Google para encontrar o pequeno poema “De tertulia poetarum”, de Leminski — “de tortura militum / libera nos domine / de nocte infinita / libera nos domine / de morte nocturna / libera nos domine.” O falecido poeta,  influente ainda hoje, recorreu ao latim para, um pouco na moita — onde muitos tinham de viver na época daquela ditadura escancarada (anos 1970) — e simulando uma oração, invocar o Senhor para nos livrar da tortura militar, da noite infinita e da morte noturna (em tradução sugerida por Elizabeth Rocha Leite em sua tese de doutoramento pela USP). No caso desse poema, a mesma doutora propõe que o título seja lido como “Sobre o encontro de poetas”, esfaqueando sem pena a própria tertúlia.

Se houvesse seres tertúricos, sua compleição agradaria aos olhos, e, por dentro, sua personalidade como seria? O tertúrico apreciaria a dúvida, a discussão, o durante, a trajetória. Travaria embates com os determinados, metódicos, cumpridores de metas. Deve ser por isso que, pouco usual, tertúlia, quando dita, alude ao mundo da poesia, seus encontros e saraus. O mundo estaria melhor se trocasse a racionalidade da força pelos valores tertúricos — em cuja base estão, de mãos dadas, a dúvida e a humildade. Tertúlias na câmara ou no senado, casas que têm servido de ringue para nocautes de vilões de muitos matizes por outros vilões de matizes ainda mais diversos, exigiriam que nossas augustas excelências se reinventassem, e isso far-lhes-ia muito bem (eu, ansioso pelo tempo da delicadeza, adapto-me na marra ao tempo da mesóclise).

Tertúlia é uma palavra bonita, e toda palavra bonita carrega a beleza para além de sua sonoridade. É bonita, aliás, porque, em seu significado, repousa uma esperança. O que seria “um agrupamento, reunião de parentes ou amigos” senão a esperança viva de que, por meio do diálogo, se possa dar um passo? Um passo não necessariamente para a frente, pois as tertúlias não miram sempre nesse sentido. Poderia ser para trás, para rever e cheirar uma flor. Poderia ser para o lado, para dar início a uma dança. Poderia ser até para o abismo, se ao abismo formos na companhia daqueles com quem, entre concordâncias e discordâncias, dividimos o desejo de minorar o sofrimento do mundo.

13.6.16

Crachá e sapato feio: um papo reto com um sobrinho

Certa vez eu disse a meu sobrinho Cristiano — e ele não se esquece disso — que um sujeito sem crachá é incompleto. Pilhéria, uma de tantas da minha lavra.

Seja um homem completo colando sua foto e seu nome aqui.


O crachá, na brincadeira, completaria o homem por associar-se ao trabalho. Estou empregado num escritório, tenho um crachá, e isso me torna pleno. Além da questionável ligação entre trabalho e plenitude, tal evidência não sobrevive a uma análise superficial. Ainda que temporariamente, o desempregado precisa de um crachá para subir ao quinto andar para entregar seu currículo ou pedir uma grana ao amigo bem estabelecido.

O crachá é uma chave que abre as portas de prédios protegidos, parece um antídoto contra a violência, mas, de verdade, ele escancara o fato de que não resolvemos a violência. Somos mestres em criar áreas VIPs — nos blocos de carnaval, na arquitetura dos condomínios fechados, resquícios feudais num mundo que se aproxima do pós-capitalismo —, e é isso que o crachá faz, cria uma área VIP, um espaço que deveria estar isolado das agruras de um mundo contaminado. Lembro-me de “Extra II, o rock do segurança”, música do Gil, da safra dos anos 1980. Ela diz: “O segurança me pediu o crachá / Eu disse nada de crachá, meu chapa / Sou um escrachado, um extra achado / Num galpão abandonado, nada de crachá”. O Gil já conjecturava, numa lonjura do tempo, que o crachá é um símbolo da divisão nossa de cada dia, divisão que mantém os de dentro protegidos. Deus-crachá resguarde seus escolhidos. Amém!

No meu prédio, malandro não se engraça, exclama o crachá. É e não é assim, pois circula pelos corredores dos escritórios uma gama enorme de vendedores, gente que conseguiu entrar ali sabe-se lá como. Se um vendedor furou a barreira e pendurou a identificação no pescoço, qualquer um pode fazer o mesmo. Nas repartições, é comum o sumiço da marmita na geladeira ou do porta-retratos na mesa de trabalho. Rouba-se inclusive o computador da empresa. Ninguém está seguro, em lugar algum, com ou sem crachá. O crachá é um símbolo da falibilidade da segurança. É uma ilusão modelada em plástico.

Não é de hoje que nos deixamos enganar pelo cinema de sombras, confundindo as imagens distorcidas que passam na parede da caverna com a própria realidade. Sair do mundo escuro e chegar ao da luz (onde desenrola a tal realidade) custa um instante — às vezes mais, às vezes menos longo — de cegueira. O mesmo custo haverá ao fazer o caminho de volta, ainda que a cegueira do retorno não seja igual à da partida. O crachá é a ferramenta que manufaturamos durante a primeira cegueira. Cegueira não ligada ao fato de não ver — o cego, por ter aptidões extravisuais, pode muito bem produzir instrumentos úteis ao trabalho ou a qualquer outra atividade humana —, mas ao de desconhecer. O crachá é nossa ignorância convertida em objeto, em chave que não abre nem fecha, que desprotege dando pinta de proteger.

Apostamos no crachá como solução, quando ele deveria ser apenas um objeto para facilitar a identificação da pessoa com quem falamos ou o controle do fluxo de visitantes de uma repartição. Aposta errada. O que fazer para virar o jogo?

Mais educação, menos pobreza. Mais conversa, menos tiros. Mais negros, menos brancos. Mais mulheres, menos homens. Mais política, menos conchavo. Mais divergência, menos inimizades. Respeito no lugar de preconceitos.

Damos logo um passo nessa direção ou nos faltará — porque sobrarão motivos — matéria-prima para fabricar crachás demandados por inúmeras necessidades. Destruiremos o que resta da natureza e ficaremos ainda mais inseguros. O homem, Cristiano, só é completo quando é livre e vive, com suas contradições, entre iguais. No momento em que alcançarmos um naco de liberdade, bastará ao homem a meio caminho da completude, por pura conveniência social, vestir uma blusa e um sapato bonitos — nada de crachá. No seu caso, meu amado sobrinho, se já estivéssemos vivendo esses dias ainda longínquos, iria lhe faltar o sapato bonito. Corra à loja mais próxima e, pelo menos dessa vez, não pense apenas no preço — qualidade é tudo, e beleza é um braço da qualidade.
.

Modelo a ser evitado no ato da compra.

9.6.16

Consulta

— Qual foi o sintoma?
— Ela fechou os olhos.





(Miniconto encontrado durante o café da tarde de 08/06/2016.)

7.6.16

Distâncias

— Estamos longe — ela disse.
— Ora, ora — reagi um pouco incrédulo.

E nós dois rimos.




(Miniconto pensado em um ônibus e escrito numa manhã chuvosa.)

30.5.16

Leitura incendiária

“...haviam sentido um cheiro de animal tão forte que pensaram que, a qualquer momento, se defrontariam com uma pantera, mas o que surgiu do meio das árvores, com incrível velocidade, foi uma mulher, uma mulher selvagem inteiramente nua” (Anaïs Nin, O modelo)



Luís Giffoni, escritor mineiro de boníssima cepa, defende em uma crônica recente — Leitura e saúde[1] — que a leitura, entre as formas que utilizamos para nos aproximarmos das várias manifestações da arte, é a que mais beneficia o cérebro, haja vista que “a leitura atua em duas nobres regiões do cérebro, situadas no meio e na parte de trás da cabeça, ligadas à imaginação e à visão, enquanto os filmes e a televisão agem apenas na parte posterior, vinculada ao córtex visual”. Giffoni é um cara curioso e, graças a isso, culto. Suas crônicas mostram como ele se empenha em, mais do que se entregar ao zunzum das ruas, escarafunchar o que ouve, questioná-lo, entendê-lo. Assim, se é ele quem está falando aquilo que eu sempre intuí, minha intuição vira certeza e, então, reforço: ler é uma medida profilática, um escudo contra as doenças.

Na mesma crônica, Giffoni comenta que, ao ler, todos nós rodamos um filme na cabeça. É o ápice inventivo motivado pela leitura. Esse filme próprio, muito particular, deve ser responsável pelo fato de geralmente as adaptações cinematográficas soarem frustrantes, aquém dos livros. Claro, um diretor leva para a tela a fantasia dele, e ela se choca contra a minha. Além do mais, escolhe uma atriz, um ator e um ambiente para ocuparem o lugar daquilo que eu havia imaginado de uma maneira não muito clara, ainda que por mim reconhecível em qualquer circunstância. Logo, aquele esboço de um homem misterioso, ambíguo, de repente se converte, nas mãos de Hector Babenco, em William Hurt. Falo da adaptação de “O beijo da mulher-aranha”, romance de Manuel Puig. A despeito do resultado —  no caso desse livro, positivo, com uma atuação impactante do ator americano —, o embate entre o meu filme e o que está na tela é grande, travamos uma verdadeira luta movida a golpes baixos. Nocauteado, reconheço o filme do outro, até mesmo passo a desfrutar dele. Com ressalvas, sempre.

Uma leitura erótica eleva à enésima potência essa experiência. O filme desce ladeira e vai encontrar nos recônditos do corpo o palco onde é exibido. Ardo quando leio, ou ardo de ler. Se não tenho com quem festejar tamanho ardor, se não sou mais um menino para me bastar a mim mesmo, torno-me uma verdadeira labareda do inferno e posso queimar o mundo todo, pois não há, além de mim, quem, por pecador, não mereça ser queimado. Um chamado para o almoço, um convite para o chope, uma fuga para a internet aplacarão esse calor, e deixarei ali, próximo da cama, o livro, não mais o livro, mas um corpo que precisa do meu.

Escrevo sob o impacto de “Pequenos pássaros – histórias
Anaïs Nin.
eróticas” (LpM pocket), contos de Anaïs Nis. Nascida no início do século XX e morta na segunda metade da década de 1970, a escritora não viu esses contos publicados, o que não se deveu a nenhum recato, pois ela publicou vários livros de alta carga erótica. Se me lembro que Anaïs foi amante de Henry Miller, 
outro mestre do erotismo, autor da trilogia “A crucificação rosada” (ou Sexus, Plexus e Nexus), consequentemente suponho que em seus encontros celebraram acima de tudo o corpo. Se me lembro também que Anaïs circulou nos grupos de vanguarda artística e científica, concluo que era uma mulher avançada e que sua visão erótica deve-se, pelo menos em parte, ao fato de ela ter-se distanciado da figura feminina de seu tempo. Esse distanciamento fez com que soubesse dar voz ao que é quase indizível, o prazer.

Com que imprecisa precisão Anaïs conta suas histórias! Se me afastasse, seria possível falar que as carícias se repetem, que os papéis (masculino-feminino ou feminino-feminino) não fogem de um determinado padrão, porém não consigo manter-me longe. Caio preso às pernas umedecidas de sua escrita. Nessas circunstâncias, deixo-me levar, não há alternativa. Saio de uma história para entrar em outra no gozo de um desejo excessivo. Conte-me mais, Anaïs, mais. E também menos para que eu possa andar de bonde com o que não é razoável. Leio Anaïs como acho que ela escreveu, potente.

Não conheço o texto na língua original, mas arrisco a dizer que o tradutor, Haroldo Netto, fez um trabalho brilhante. A leitura flui, melodiosa, o que, em se tratando de erotismo, é fundamental, caso contrário seria o equivalente a um coito interrompido por uma urgência externa, que esmurra a porta. E quem quer uma coisa dessas durante o carnaval tão pouco que reservamos a nossas carcaças?

Ler é (também) uma orgia!




[1] Leia aqui.

23.5.16

Perguntas à toa

Fazendo perguntas ao modo de Neruda

Você poderia me dar um silêncio de seu tempo?
Por que os cegos fecham os olhos ao recordar?
De vinte em vinte a gente ultrabraça o intocável?
Com quantas palavras é possível navegar um minuto?
Por que o riso fuma maconha?
Vovó contraiu o diabetes num beijo mal dado?
O que não estou vendo é uma chuva que brota do chão?
Quando me distraio eu roubo a alegria dos beduínos?
O dia brigou com a morte?
Aquele relógio estava desesperado?
A cor da ilusão esgana?
No céu, a terra é um esquecimento?
Os urubus salgam os próprios voos?
Se uma palavra for elevada ao quadrado nós nos entenderemos menos ainda?
Posso morrer depois de passar o café?
Você está rindo pra onde?
É possível acender cigarro em ovo?
As gotas invejam a enxurrada?
Alguma mulher pelada tentou entrar numa revista esquecida no banheiro?
O que pensa o escocês que só me viu em sonhos?
Dois e dois reconhecem algo além da matemática?
Do lado de lá dói?
O que o cansaço diria ao tempo?
Você poderia me dar um minuto do seu temperamento?
A função social do homem é prender o choro?
Qual o melhor remédio para não se curar de nada?
A histeria conhece os canais de Veneza?
Por que o mar não nos conta tudo?
Todas as palavras são inconstantes?
A sujeira tem saudades do esfregão?
O que meu pai fez com o não de minha mãe?
O sol também sabe?
O buraco da fechadura mede o poder que transfere aos olhos do curioso?
Se essa rua fosse minha eu seria menos órfão?
Chegaremos a tempo de adiar a noite?
De onde vieram as incertezas das perguntas?


Pablo Neruda, aparentemente num momento de indagação.

16.5.16

Vendendo desprodutos

Nossa lama de chocolate meio samarco vale como xarope bhp-billitônico e é indicada para devastar vidas inocentes. Efeitos colaterais? Quem pobre estava mais pobre fica se e quando sobrevive. Nada de muito grave.

Aritmética do marido da mulher prendada: soma e subtraia ministérios até acalmar as águas dos rios do interesse — e não se importe se dois menos um for um falso três. A matemática pura e insofismável é coisa pros outros, os que pedalam. Sob nosso auspício e noves fora isso e aquilo, monte um ministério masculino, o que não se vê desde a ditadura, e seja invejado por todos.  

Plantamos na imprensa falada, escrita e televisionada a tese de que agora é parlamentarismo ou a crise não chega ao fim. Visamos a outros clientes que não os tucanos, oferecendo-lhes preços e condições de pagamento ímpares.

Nosso plano médico permite aos clientes adoecer aqui e ir se curar em hospitais na Síria. Papa fina, mas, como não somos os únicos no mercado, a mensalidade — nosso diferencial — é do outro mundo.

Entregamos quentinhas no Brasil inteiro. Prato do dia: cuscunha temerado ao aceite de impeachment. Acompanha dessa água não beberei, com gotas de limão calheiro.

Assaltante age às escuras. Um deles deu um bote na filha do governador do Rio de Janeiro, mas, se tivesse encontrado no carro o pai da moça em vez dela, coitado do assaltante, o chefe do executivo está sem dinheiro, raspando o bolso de qualquer um que se aproxime dele. Fica o alerta: Assaltante consciente, não conte com a sorte, temos app identificador de vítimas para pronta-entrega!

Vende-se bicicleta voadora para ciclovias interditadas. Ligue para 1717171 e diga a senha “E.T. phone home”.

Traficantes, tenham um mínimo de responsabilidade social: Não vendam seus baseados na porta das escolas de São Paulo. Lá, os meninos estão sem merenda e, na larica, podem tornar-se violentos. Sigam esta máxima: Vender menos hoje para vender mais amanhã. Isso é empreendedorismo. Podemos lhes ensinar muito mais.

Comercializamos frases para uso em momentos de júbilo republicano. Uma amostra para dias de impeachment e que tais: Voto sim — ou não, fica a gosto do freguês — pensando nas colombinas edulcoradas da minha infância. Temos frases sintéticas para políticos apoéticos. Antes da consulta, 50% na mão. Ao fim e ao cabo, não podemos esquecer dos 10% da propina usual.

Apagamos palavras de dicionários. Temos apreço pelas começadas com G.

Campanha cívica: não confunda boi sonado com o deputado fascista.

Contra cuspes e escarradas, caras de pau a menos de um tostão.

Temos bicicletas sem pedal, muito apropriadas para quem é irresponsável ou é tratado como tal. Estoque baixo.

Troque seis por meia dúzia. Oferecemos os disfarces.

Aprenda a falar impeachment sem sotaque com o método Celso de Mello, certificado pela própria rainha. Manteremos uma promoção espetacular até que a Inglaterra se decida se fica ou se sai da União Europeia.

Temos lulas congeladas desde quando os mares não eram poluídos. Vitaminas e sabores preservados. Na compra de duas, ganhe um livro de receitas escrito por um amigo.

Reciclam-se discursos. Damos sabor democrático àquele desenxabido dos tempos da Arena e do Manda-Brasa esquecido numa gaveta. O cliente escolhe ou uma garantia de sucesso, pagando um adicional, ou um escudo contra chuva de ovo choco.

Oferecemos pacotes de ministros da fazenda. Com uma assinatura bianual, pode-se usar, no primeiro ano, um neoliberal com formação em Chicago e, em seguida, um keynesiano ortodoxo. No segundo, um homem de mercado, mestre no arroz com feijão com viés de favorecimento ao ex-patrão, e um marxista lunático. No Brasil ou fora, entregamos à domicílio ou em domicílio, o que for de acordo com a gramática do freguês.

Pintamos de branco defuntos de jovens negros de modo a inverter as estatísticas que cismam em apontá-los como as maiores vítimas da violência policial. Podemos também desenhar rugas para simular uma idade maior. Dois serviços, duas tarifas.

Levamos cópias de índios para eventos de falsa demarcação de terras. Não falam o tupi, mas arranham o kiriri.

Vendemos poesias boas, parnasianas ou não, para presidentes sem votos. Podemos — se o cliente se dispuser a fazer módicos depósitos em contas nas Ilhas Cayman — montar um business plan para o seu aceite na Academia. O fardão é negociado à parte, num segundo momento.

Não fazemos marketing político, mas gostamos de dinheiro.





2.5.16

Balanço em dias de crise


Nunca molhei a mão de um policial. Não economizo água. Bebi uns gorós antes dos 18 anos. Lá em casa, somos severos em matéria de não estimular os filhos a beber antes do permitido. Não furo sinal de trânsito, mas já furei alguma vez e sei que, em alguns cruzamentos com assaltos recorrentes, o sinal deve ser furado. Costumo atravessar a rua fora da faixa de pedestre. Nem cuspo nem jogo papel ou outra coisa na calçada. Desobedeço a velocidade máxima permitida com alguma frequência. Já me esqueci de declarar seiscentos reais no imposto de renda, o que me custou apresentar-me à Receita e retificar a declaração. Tenho função doméstica bem definida — lavo louças, principalmente — e, se não sou belo, pelo menos recatado eu sou. Hoje não dirijo caso tenha tomado um gole de cerveja, mas já dirigi completamente bêbado. Na infância, roubei fruta no pé. Certa vez, num restaurante, enquanto pagava a conta no caixa, fui assaltado com uma arma apontada para minha cabeça, e, passado o susto, o dono do restaurante me disse que os assaltos aconteciam quando ele não pingava a propina dos policiais. Fui o único a levantar a mão quando a professora perguntou se alguém já... E respondi afirmativamente à mesma pergunta quando feita por meu pai. Fumei, traguei, mas nunca vendi ou revendi. Nunca roubei livros, nem de amigos, mas, confesso: há uns vinte anos mantenho sob empréstimo um do Calvino cujo dono é um irmão, um brother mesmo, como vocês hão de convir de um sujeito que nunca cobrou o livro. Já menti por amor (canalhice). Menti também por covardia. Contei verdades que, se não contadas, não fariam diferença alguma na vida dos envolvidos. Amei mulher do próximo sem ser correspondido, minto, uma vez fui. Tenho orgulho de alguns votos nas muitas eleições da qual tenho participado, mas de outros tenho nojo (o famoso “menos pior”, escolhido numa conjuntura desfavorável). Para não pagar a passagem, pulei de um ônibus em movimento e me machuquei sem gravidade. Não dou esmolas. Trato as mulheres com respeito, mas às vezes quebro o pescoço para acompanhar alguma que tenha achado bonita. Nesses casos, em hipótese alguma, assobio ou falo impropérios. Ouço piadas de anão, negro, mulher, bicha, sapatão, presidiário, burguês, papagaio e português. Rio de quase todas, nunca das de negro. Não sei contar piadas, apesar de ser um pouco engraçado. Alguma vez joguei no bicho, mas nunca fui a desfiles de escola de samba, nem sambando na avenida nem sentado na arquibancada. O Zé Porteiro, que cuidava da portaria do prestigiado Passos Clube, por conhecer a todos, não permitia que eu entrasse nos bailes antes de completar a idade exigida. Nunca falsifiquei carteira de estudante ou outro documento. Não costumo comprar de camelôs, sinto falta da garantia e de outras formalidades no ato de compra e venda. Compro de lojas, mas não sei até que ponto suas mercadorias estão de fato formalizadas. Uso o Uber. Já paguei menos a médico em troca de não receber seu recibo. Nunca pedi um recibo a um médico sem ter usado seus serviços. Vivo há 30 anos uma união consensual desprovida de papéis lavrados em cartório. Guardo segredos. Tenho segredos que não confio a ninguém. Nunca matei passarinho, embora tenha tentado. Nunca me ofereceram propina. Não sou sócio de clubes nem militante de partidos políticos porque desconfio deles e provavelmente porque não confie muito em mim. Apesar disso, sou botafoguense. Jamais roubarei picolé de uma criança.

18.4.16

Mexendo na língua

“Um orador de boca cheia é um virtuose de refugos: na cesta de entulhos da literatura vai recolhendo imagens esfiapadas, carretéis perifrásticos, antíteses ruborizadas, prosopopeias trovejantes, metonímias desparafusadas, clips enferrujados, anáforas babadas, tmeses tortas, anacolutos malignos, sinédoques descartáveis e demais tropos e trapos de hiperbólica aceitação no mercado paralelo.” (Paulo Mendes Campos, Congelamento.)


Ao longo de sua existência, nosso português de todo dia tem sofrido muitas alterações em suas regras ortográficas. Na primeira metade do século passado, trocaram-se “pharmacia” por “farmácia”, “caza” por “casa”, “sciencia” por “ciência”. Recentemente, tiraram o trema de “linguiça” e, cortando na própria pele, de "linguística". Mataram o trema, eis a verdade. Se a grafia antiga soa, depois de um tempo, estranha, deixar uma determinada grafia de lado não é nada fácil, porque os que a usavam acostumaram-se com um jeito de escrever e, da noite pro dia ou num intervalo de tempo acordado longe de todos, em gabinetes, veem-se obrigados a abandoná-lo e adotar outro. A última reforma, presente em nossa memória e bastante contestada em Portugal, prova isso.

Tenho comigo que, ao mudar uma grafia, não só a relação das pessoas com a palavra é modificada, como também a coisa nomeada por ela ganha um novo destino. “Pharmacia”, durante muito tempo, foi o local onde os medicamentos eram preparados e vendidos — o que atualmente chamamos de farmácia de manipulação. Ao trocar “ph” por “f”, abriu-se caminho para a proliferação das farmácias, que passaram a vender remédios (e não só) produzidos em laboratórios. Quando se escrevia a palavra à moda antiga, na minha cidade natal, não devia haver mais que duas. Hoje, no quarteirão da minha casa, no Rio de Janeiro, são três, e, ao longo da rua com seus dois quilômetros, quinze ou mais. Estamos mais doentes? Temos mais possibilidades de nos curar? A doença e sua cura sustentam uma indústria rentável? Tudo isso é verdade, mas a mudança ortográfica impingida à palavra reinventou o negócio e garantiu o sucesso comercial do estabelecimento farmacêutico.

Quando fui alfabetizado, escrevia-se “êle”, “almôço”, “govêrno”. Concordo que ficou mais fácil escrever essas palavras sem o acento, entretanto, assim como o homem sem chapéu perde um pouco de sua necessária formalidade, ao perder o acento circunflexo, a palavra que designa a terceira pessoa do masculino jogou essa terceira pessoa na vala da vulgaridade. Pense nas refeições feitas atualmente: cada membro da família num canto da sala, com o prato no colo e a cabeça nas nuvens do celular. Isso seria possível no tempo do “almôço”? Nunca! Nem falo em governo (que, cauteloso, não volto a escrever na grafia cerimoniosa de antanho). Tenho de fazer uma pequena reflexão sobre a palavra “ela”, sempre escrita sem o adorno do circunflexo. Quer dizer que as mulheres foram e são vulgares? Muito pelo contrário, um chapéu a mais ou a menos não as diferenciaria em nada, razão pela qual não se acentuava a palavra antes e não se passou a acentuá-la depois da reforma levada a cabo durante a ditadura militar. Vulgar são os homens. (Ufa, acho que me saí bem.)

Reformas ortográficas têm sido feitas aos borbotões, só que ninguém mexe naquilo que facilitaria nossas vidas. Acompanhem meu raciocínio.

Você sabe o que são as perífrases? Não? Puxe pela memória. Perífrase é, segundo o Aurélio, a “designação de alguém ou de algo por construção que dê relevo a uma de suas qualidades, e não por seu nome”. O exemplo do dicionário é “a luz de minha vida em lugar de meu amor”. Talvez, feito eu, você conhecesse a “coisa”, mas nunca soube seu nome — ou, se soube, não o reteve.

Sem querer abusar de sua paciência, vou ao fundo do fundo buscar a palavra “tmese”, sinônimo de mesóclise, quer dizer, a “intercalação de pronome átono em um verbo”. Um exemplo da minha cachola: “Dir-te-iam, em áureos tempos, que andamos às cegas rumo ao fim do mundo.” Uma frase meio pessimista, mas esqueça sua mensagem, a frase tem a única intenção de ilustrar o que vem a ser uma tmese.

As palavras anteriores e outras tantas, mal-encaradas em sua essência, fazem parte do que poderia ser visto como o suprassumo da gramática. Todos passaríamos bem sem elas caso não enfrentássemos tantas provas ao longo da vida de estudante. Provas que, nesse caso específico, foram apenas uma cobrança da nossa capacidade de memorização.





Meu texto quis apenas isto: chamar a atenção para os efeitos das mudanças no terreno da língua. (Acabo de escrever uma catáfora, “unidade linguística que se refere a outra, enunciada mais adiante”). Como os exemplos que citei provam por a mais b, as mudanças ortográficas repercutem na vida real, que vibra muito além da palavra escrita (o que podemos esperar do mundo lusófono sem o trema?). Sendo assim, um conselho, a essa altura óbvio, aos sabichões que porventura resolvam dedicar seu precioso tempo à exigida simplificação: muito cuidado com as consequências que podem advir daí. Pensem, ponderem. Repensem e ponderem mais uma vez. De qualquer modo, pelo amor ao deus das coisas triviais, corram o risco. Antevejo, de cara, um efeito colateral positivo na mudança: facilitará a decoreba, melhorando, com isso, a nota da moçada.

4.4.16

A Bahia em dias nublados

Ao João, que me proporcionou a viagem.

Segunda praia, o point de Morro de São Paulo. Foto do autor.


O poeta Carlito Azevedo postou no Facebook a história de uma bailarina russa de noventa anos que afirmou, em entrevista, que os melhores anos de sua vida haviam sido os vividos entre 1936 e 1942. Justo quando ocorreram os expurgos de Stálin e grande parte da Segunda Guerra?, reagiu o entrevistador. Para a bailarina, não havia mal nenhum nisso já que, naquela época, ela era jovem e bela, o que bastava. O intuito de Carlito era dizer que, apesar da espessa nuvem que cobre os dias de 2016, nada impede que, nele, cada um de nós possa ser feliz. Seu otimismo tinha a ver com a beleza do outono, que chegava. Otimismo relativo, Carlito alertava, agarrado a Drummond, haja vista que a felicidade coletiva estava transferida para o próximo século.

O país de fato está capengando, mas eu estive na Bahia. Eu e meu filho mais velho, o bom João. Lá, reencontrei meu primo Fernando e também o amigo Ricardo. Lá, fui conhecer a Praia do Forte e o projeto Tamar. Lá, depois de mais de trinta anos, voltei a Morro de São Paulo, agora uma ilha toda incrementada, cheia de vida e luz, tão diferente daquela da qual saí justo no dia em que a eletricidade chegava para os ilhéus. Dela, minhas lembranças eram um misto de pôres do sol, pratos feitos de siri catado, praias vazias e morcegos. O pôr do sol está lá intocado, ninguém brinca com ele. Come-se bem — só que não me ofereceram PF de siri —, ainda é possível encontrar um naco de praia vazia (distante), mas os morcegos retiraram-se, sobrou-lhes menos espaço. Assim é, quando o homem, munido de luz, toma conta de tudo.

Fim de tarde visto não do Farol, ponto de observação do pôr do sol, mas de um barco. Foto do autor.


Eu e meu filho somos pessoas caladas, o que nos torna contempladores da natureza, caminhantes incansáveis. Na Bahia, quando foi preciso, tomamos decisões (regadas a cerveja e falando baixo) que garantissem exclusivamente o descanso, o desfrute do nada. É certo que olhamos as mulheres, mas, sendo homens que não gostam de esbravejar, de falar a linguagem de macho conquistador, lá pelas tantas, não na hora H — no momento do desfrute visual, um ou outro comentava que não era pequeno o número de meninas bonitas, argentinas, na maioria. Morro de São Paulo parecia um território argentino (um pouco uruguaio, quem sabe). Jovens e outros nem tão jovens circulavam pela vila, e o espanhol ecoava livre pelos becos. Ouvi alguns baianos indo além do portunhol, gente preparada para receber turistas. Em certas lojas e restaurantes, vi placas escritas no que me pareceu árabe e que depois soube era hebraico. Contam que os israelenses visitam muito o lugar. Bobo de quem não o visita. Há muita gente para pouco espaço, é verdade, mas a beleza compensa a muvuca.

Falei dos gringos, mas os baianos estão lá, negros e bonitos. Jovens fortes — mulheres altas, de pernas rijas (resultado de tantos morros no caminho diário). Muitos rapazes vivem de carregar malas e mercadorias em carrinhos de mão, um dos meios de transporte mais importantes da ilha. (Há, ainda, um trator para recolher o lixo e transportar alguma mercadoria mais pesada, poucas motos e algumas bicicletas, todos alocados nos serviços de utilidade pública). Tudo bem organizado, com trabalhadores credenciados. Isso me fez pensar se essa não é uma tarefa pesada demais para alguns jovens e para outros que estão numa idade “muito” adulta. Por outro lado, o que seria deles sem isso? As agruras da realidade sempre vêm cobrar meu posicionamento. Sem resposta, volto, não como fuga, ao belo.

Boipeba, ilha vizinha a de Tinharé. Foto do autor.


E como é belo aquele pedaço de terra que recebeu cedo os portugueses. Aprendi em um fôlder que Martin Afonso de Souza aportou por lá em 1531 e batizou a ilha de Tynharéa, hoje Tinharé. Por sua localização (na chamada barra falsa da Baia de Todos os Santos), a ilha esteve envolvida em muitos conflitos, ora com franceses, ora com holandeses que procuravam atacar a colônia portuguesa. Na internet, por sua vez, afirma-se que ali Hitler teria afundado submarinos brasileiros, forçando nossa entrada na Segunda Guerra. Nada disso, porém, destruiu o lugar; não sei se o turismo, as construções de pousadas e casas conseguirão fazê-lo, ao poluir as águas com esgoto não tratado, por exemplo.

Venho fazendo tudo para falar do belo e, nos últimos parágrafos, esbarrei em senões. Não tem nada a ver com os tropeços do país, é coisa minha, um pessimismo miúdo que gosta de furar os olhos da minha fé na vida. Tenho muito a aprender com a bailarina russa, mas ela não está entre nós, imagino. Se estiver, saberá ensinar? É matéria que se ensine? Que se aprenda?

Eu e João, ao sairmos do hotel, levávamos em uma bolsa térmica meia dúzia de cervejas. Quero dizer com isso que, mesmo diante da crise, há meios de fazer uma viagem não tão dispendiosa e, assim, garantir uma dose de alegria e encantamento. Quando a realidade não me deixa esquecer, sei muito bem disso.

21.3.16

Crônica em linha pontilhada

Álvaro Campos, um dos habitantes na pátria Fernando Pessoa, escreveu “Poema em linha reta”, um de seus mais famosos. O poema começa assim: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada, / todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.” A essa visão heroica de seus conhecidos, Campos antepõe a de si mesmo (“E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil”). Fazendo esse jogo entre vencedor (eles) e derrotado (eu) ao longo de todo poema, lá pelas tantas, Campos se questiona: “Arre, estou farto de semideuses! / onde é que há gente no mundo?” E acrescenta: “Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?” Apesar dessas perguntas, Campos diz que seus conhecidos, mesmo diante do fato de não terem sido amados por suas mulheres, de terem sido até mesmo traídos por elas, não se tornam ridículos, enquanto ele, mesmo sem traição sofrida, é ridículo e vil, “vil no sentido mesquinho e infame da vileza”.

Um sentimento parecido ao de Campos me toma diante das certezas tão absolutas de meus conhecidos (muitos deles amigos) em relação ao momento político por que passa o Brasil. De um lado, há aqueles que enxergam uma maquinação muito bem orquestrada entre a justiça e a imprensa de modo a jogar na boca do lobo o projeto de retirar uma imensa gama de desvalidos da condição de famintos. De outro, os que têm certeza mais que absoluta de que foi tudo um jogo de cena, que o governo dos últimos doze anos só pensou no enriquecimento de seus membros. Os primeiros pedem a inclusão de outros governos no faro da justiça (governos federais anteriores, governos estaduais de agora). Os segundos, no extremo, defendem que se esfaqueiem os partidos e os deixem descarnados na rua.

Eu, o vil ignorante, penso dentro do meu quadrado. As coisas vinham bem. Um governo deu uma ajeitada no capitalismo bárbaro brasileiro, domou a inflação (uma desgraça que ataca principalmente os mais pobres, sem defesa contra a perda de poder de compra da moeda), criou a lei que determina o controle dos gastos públicos, se desfez de empresas que a iniciativa privada lida melhor com elas (eu sei que há polêmicas sobre as privatizações, mas estou contando a história de uma perspectiva boa). O outro, aproveitando a organização anterior, atacou um problema ancestral, ferindo a pobreza e a fome. Uma evolução que poderia seguir adiante. Um governo mais preocupado com o funcionamento do capitalismo, outro impondo ao capitalismo a inclusão de todos. O espectro ideológico nessa sucessão se daria entre um partido mais à direita — mas que não ultrapassaria a barreira do centro — e outro mais à esquerda — que não chegaria ao extremo, aquele no qual se buscaria rever as privatizações e coisas parecidas. Um cenário dos sonhos.

A visão menos poliana é a que diz que o primeiro governo roubou, o segundo roubou, o terceiro roubou e o quarto vem roubando. O caos. Um caos que não encontra saída. Quer dizer, não encontra saída dentro da política e, por isso, esse caos vira uma coisa inqualificável, grande, muito grande.

Estamos mais para o primeiro ou para o segundo cenário? Me arrisco a dizer que o governo atual não é bom (o que não tira sua legitimidade), quer se olhe do ponto de vista de quem prepara o ambiente para a economia privada deslanchar, quer se olhe do ponto de vista de quem inclui os desvalidos (a inflação, volto a dizer, é uma sangria na vida dos mais pobres). Isso sem dizer do desastre de suas costuras políticas e da desfaçatez da oposição. Sendo assim, com um governo sem atitude e uma oposição que aposta no quanto pior, melhor, estamos mais para o caos. E, no caos, prolifera a voz dos que defendem a necessidade de governar com medidas de exceção, normalmente cerceando a liberdade. Em tese, dizem, por um tempo curto, na prática, por uma noite interminável.

A partir de minha ignorância e vileza pergunto: o que estamos fazendo com nossa democracia? Os não tão cheios assim de verdades, por favor, me respondam (ou me ajudem a encontrar uma resposta). Os outros, por favor, se forem responder, poupem minha mãe.

9.3.16

Brincando com o perigo

para FHC e Lula, com minha admiração ferida

Troca de mensagens entre ex-presidentes:
“E aí, Príncipe?”
“Aqui, entre livros, Metal.”
“Bicho, o bagulho tá quente, melhor a gente levar um lero, eu e tu, tu e eu.”
“No meu apê em Paris ou no seu no Guarujá?”
“Nós não temos esses apartamentos!”
“É verdade, a imprensa me confunde.”
“Melhor em praça pública, na calada da noite.”
“Vamos a Salvador, onde a Castro Alves é do povo.”


****

Em São Paulo, há uma festa para gays coroas. É um negócio bem comportado, um baile no qual os senhores dançam tranquilos e sem grande assanhamento. Isso me faz pensar em um similar para gatunos da terceira idade. A festa começa no cair da tarde, quando entram no recinto, quase ao mesmo tempo, EC e RC (não, por favor, não pensem em Erasmo e Roberto). Sentam-se na mesma mesa e, seguindo as regras do encontro, colocam as carteiras e as mãos à vista de todos. Conversam sobre as trivialidades da tarefa à qual dedicam suas vidas. Difícil, concluem, é roubar galinha quando se tem fome.

***

Wanderléa — sim, estou falando da cantora da jovem guarda, da que está sempre na companhia de EC e RC (Erasmo e Roberto, que fique claro) — é convidada para cantar num convescote na sede da justiça federal no Paraná. As autoridades estão cansadas com tanto trabalho, motivo pelo qual deram-se o direito a esse pequeno luxo. Wanderléa entra e, o que seria óbvio, mas ninguém se tocara, manda o velho e bom refrão: “Senhor Juiz, pare agora.”

***


Três dirigentes máximos das maiores empreiteiras do país estão trancafiados na mesma cela. Ou estiveram até que começaram a trocar farpas entre si e, dizem (quem? Ora, quem. Quem sabe?), logo depois, tapas. Tudo começou quando um deles afirmou que a ponte construída por um dos outros era um erro de engenharia de ponta a ponta, apesar de, ao contrário de muitas que os três se empenharam em fazer, levar gente e mercadorias de um lugar para outro. Sentindo-se ultrajado, o responsável pela ponte franziu o rosto e contra-atacou. A ponte estava lá, forte e transitável, o que já não se podia dizer do asfalto novinho da rodovia federal, na altura de uma importante cidade. Quem se sentiu ofendido não foi o dono da obra, mas o terceiro empreiteiro, que, no caso, havia sido subcontratado para pavimentar a estrada. O guardinha — designado para manter os olhos bem abertos sobre os meliantes chiques —, diante das discussões (e dos possíveis safanões), sugeriu ao chefe que os três fossem separados. Em seguida, pediu baixa da corporação. Ele ouviu dizer (de novo o zunzunzum inconcreto, boa palavra para o momento) que, em consórcio, os três haviam construído aquele presídio.

***


Em São Paulo, um menino chega atrasado à escola. A zelosa diretora, como castigo, deixa o irresponsável sem a merenda. O estudante se sente muito feliz, só assim não passará fome naquela manhã. Antes de entrar em sala de aula, confere o saco de biscoito Maria na mochila.

***


Busquem a verdade, só a verdade, nada além da verdade. Esse era o mantra do editor. Os jornalistas, recém-contratados depois do último “ajuste”, o famoso passaralho, escutam atentos, não têm coragem de pedir um aparte, de fazer uma pergunta. Quando o editor sai, um questiona o outro sobre o significado de tudo aquilo. O mais experiente — dois meses de redação — acalma os demais. A verdade, ele explica, é aquilo que interessa ao editor. Correm todos para a rua para ajustar os fatos.

***

“Senhor, por favor, — a moça se aproxima esbaforida, tentando entender um mapa, que ela vira de um lado para outro —, o senhor sabe me dizer onde fica esse país?”
“Sei direito não, filha, mas deve ser lá na esquina do desmancha-prazeres.”

***

“Mãe, eles bateram em mim.”
“O que você aprontou?”
“Tava só brincando.”
“Com cinquenta e tantos anos? Mereceu.”



7.3.16

O sequestro do sorriso

Para minha colega de trabalho Ana




No último carnaval, levei um susto e não foi com bate-bola ou com bêbado sem-noção solto pela rua. Eu gastava o tempo à beira da piscina. Estava sozinho e, como bom bisbilhoteiro, atento ao mundo de tantos desconhecidos largados a minha volta. Na água, duas mulheres conversavam em inglês. Meu domínio do idioma é pré-básico, sendo assim, nem me dei ao trabalho de esticar o ouvido e desfrutar da prosa alheia. Durante alguns longos minutos, olhei com discrição os gestos e expressões das duas. Caramba, não houve um sorriso, um menos que sorriso, um ricto insinuando alguma ironia ou uma simples afeição. Nada disso. Os olhos de uma se abriam em espanto ao que a outra dizia. E uma dizia e a outra respondia, e uma subia de tom e a outra diminuía, tudo em seca seriedade. Supus que pelo menos uma delas era estrangeira, talvez americana, e concluí que esses estrangeiros sofrem com gosto. Como é possível conversar tanto tempo sem desviar o assunto e meter nele um comentário sarcástico, bobinho, fresco? Nós, que sempre importamos as modas, chegaremos ao ponto de conversarmos horas a fio sem fazer uso de uma frase ou comentário que alimente um risinho, frouxo que seja?

Uma colega de trabalho do escritório de São Paulo me ligou. Levantou um problema, e, juntos, demos encaminhamento a uma possível solução. Despedi mandando-lhe um beijo. Ela disse então: “Alexandre, Alexandre, espere um pouco”. Daí tomou outro rumo e afirmou que, nós, do Rio, éramos mais leves, mandávamos beijos, brincávamos. Em São Paulo, ela sentia, as relações estavam muito fechadas, frias de fato. Eu disse, em tom de brincadeira, que o exemplo paulista espalhava-se por todos os cantos. Para ilustrar, contei-lhe as mudanças ocorridas na cidade em que nasci: na minha juventude, o cumprimento entre homens e mulheres se dava com três beijos (“três pra casar”), mas hoje a coisa minguara para um só beijo. Profetizei que em breve seríamos como os americanos, apertaríamos as mãos, se tanto.


Se eu estiver certo, ao aperto de mão seguirá um papo interminável e sisudo (mesmo dentro da piscina, em dia de descanso). Seremos apenas espanto, olhares furiosos, punhos fechados, rugas e disciplina. Nesse dia, o país poderá virar o jogo, tornar-se grande em todos os sentidos objetivos da grandeza (PIB estratosférico, assento nas comissões mais importantes da ONU, não sei mais quê). Nesse dia, os jovens terão o futuro dos deuses ao alcance das mãos. Nesse dia, os pobres serão uma fatia mínima da população. Nesse dia, teremos cruzado o deserto e chegado à terra da fartura. Mas nos faltarão o sorriso e o beijo de afeto. Nos faltará um pingo de nossa alegria inconsequente, carnavalizada até. Teremos sepultado o país que tanto surpreende os estrangeiros — de quem se rouba um sorriso. Nesse dia, ai, meus deuses, faça com que o Xandão seja apenas uma saudade ou, se não for muita pretensão, uns livros ainda disponíveis nalguma biblioteca ou, enfim a glória, um movimento — clandestino, se a situação exigir — pelo resgate sem fiança do sorriso sequestrado de um povo que sempre se empenhou em parecer fazer pouco caso de suas dores.

22.2.16

Sou Mangueira

Sou torcedor da Mangueira, o mais fuleiro de todos, aquele que grita aos quatro ventos o nome da escola, mas não conhece os sambas, não assiste aos desfiles. Acompanho, quando muito, a apuração e, se a Mangueira não ganha, digo que foi roubo e, se ganha, não digo nada, nem mesmo comemoro. Um torcedor desprezível, mas torcedor assim mesmo.

Por que comecei a gostar dessa escola? Um pouquinho porque gosto de manga e, mais ainda, da árvore que dá manga. Associação afetiva, portanto. Outro pouquinho porque, às vésperas de um carnaval, a Cuca, minha irmã, apareceu com um disquinho do Ataulfo Alves Júnior no qual ele cantava “Os meninos da Mangueira”, de Rildo Hora e Sérgio Cabral — “Um menino da Mangueira recebeu pelo natal um pandeiro e uma cuíca, que lhe deu Papai Noel, um mulato sarará, primo-irmão de dona Zica”. A música me levava a pensar na iniciação dos meninos ao samba. Meninos que eu antevia negros, de short e barrigudinhos, feito os meninos pobres de minha cidade, lá onde a herança africana aparecia mais nas congadas do que no samba, embora este também tivesse sua importância em escolas de samba como a “Malandro é o gato” e a “Passense”.

A razão maior dessa simpatia está ligada aos anos entre 1987 e 1997, período no qual trabalhei ao pé do morro da Mangueira. Convivi com a comunidade e percebi algumas de suas dificuldades — que iam, e decerto ainda vão, desde o acesso precário entre a rua asfaltada e o barraco, passando pela violência exercida pela polícia e pelo tráfico, até a falta completa do Estado, patente no abandono das crianças, que, cedo, bandeavam para o comércio ilegal das drogas ou, em posição menos desfavorável, se é que é possível, para o comércio informal de quinquilharias — e também de suas alegrias — entre elas, simples de perceber, o orgulho da escola. Aprendi a gostar dali e, por extensão, reforcei minha torcida pela verde e rosa.

De forma recorrente, Mangueira e Flamengo são tratados como similares. A escola e o time seriam os mais queridos do povo, os de maior torcida. Eu, um botafoguense, recuso essa abordagem, mesmo porque futebol e samba não se parecem em nada. Futebol é todo dia, os times disputam vários campeonatos. As escolas de samba vivem para um dia só. Ao longo do ano, claro, promovem festas — concurso de samba-enredo, ensaios nas quadras —, tudo para o brilho efêmero do tal dia. Nos estádios, as torcidas estão separadas, são touros bravos que, num descuido, chifram o outro, não se contentando com a simples vitória no campo. No sambódromo, não, todos estão misturados, dança-se, canta-se, namora-se. Portanto, se o amor que se tem pela Mangueira é popular, ele é de natureza distinta daquele que abraça o futebol, mais festiva que competitiva — ainda que a competição exista e sustente toda a (indústria da) festa.

Silencio minhas digressões. Abro uma cerveja hipotética e brindo a Mangueira e seu campeonato. Brindo Maria Bethânia, essa cantora que ao longo da vida, ao lado de sua música, fez questão de dar voz à poesia. Brindo a festa popular, mesmo sabendo que não há inocência nos arranjos comerciais que acomodam sem atrito dinheiro público, do bicho, do tráfico, de outras cidades, de outros países (democráticos ou não). Brindo, com muita inocência, o homem comum, que vive para o samba, que vive do samba, que se confunde com o samba. Viva!


Gustavo Pellizzon / O Globo / Arquivo: 25/07/2011