30.3.20

O clown sem graça

Ó meu ódio, ódio majestoso,
Meu ódio santo e puro e benfazejo
(Cruz e Souza, Ódio Sagrado)



Numa visão superficial, parece que na esquerda sobram os quadradões e na direita deitam e rolam os “de boa”. O presidente, quer dizer, me desculpem pela violação de um cargo tão sagrado, me corrijo: o presindecente apregoa por aí que o vírus made in China é bichinho bobo e que temer um inimigo miúdo desses é pura histeria. Ele se parece com amigos inconsequentes que sempre tivemos. A esquerda, nessa metáfora, é o tiozão preocupado, o que acha que nove da noite é hora avançada para moços e moças estarem pelas ruas. No caso do enfrentamento ao vírus, é melhor se trancar em casa e esperar o pior passar. Nunca fomos tão tiozões e tiazonas. Viva a caretice, que enfim encontra serventia.

Noves fora o vírus e tudo que ele nos faz enfrentar — seu contágio, de um lado, nosso caráter, de outro —, o fato é que, diante desse desgoverno eleito, nossos dias são dedicados a assombros, sustos e depressões. Pelo menos os meus têm sido assim. Penso que, por sorte, tenho a literatura, essa ilusão que nos fortalece ao oferecer uma realidade paralela. Quem não usufrui da arte (como “produtor” ou “consumidor”) passa um perrengue maior. Leiam! Ouçam música! Visitem virtualmente os museus! Dancem sozinhos em seus quartos!

Não estou contra este governo agora que virou modinha ser contra — modinha é esta expressão. O atual ocupante da presidência entrou no meu raio de observação quando, em seu voto no impeachment da Dilma, fez loas a um desqualificado, a um torturador. Naquele instante, achei que o senhor deveria ter saído preso da sessão. Não saiu, o que prova que nosso acordo em torno da Anistia deixou um monte de cicatrizes e, peço desculpas pela próxima palavra, empoderou os que, a serviço do Estado, torturaram e mataram.

O sujeito em foco neste texto tem dado mostras claras de que não tem preparo nenhum, muito menos para governar. Alguns dizem que está de olho na reeleição, ouso discordar, os políticos estão sempre de olho na reeleição. Para mim, ele governa respondendo a interesses escusos, especula-se que das milícias. Soma-se a isso sua personagem popularesca. Apegado à imagem de machão e de homem do povo, ecoa impropérios, incentiva a violência, em particular contra as mulheres. A palavra incivilidade cai como uma luva sobre o desgovernante do país.

Sua atuação no dia das manifestações a seu favor deu mostras de seu descontrole. Suspeito de ser portador do vírus que, indiferente a países ricos ou pobres, tem aterrorizado o mundo, o paspalhão foi à rua cumprimentar e tirar selfies com os fãs. Merecia, novamente, sair dali preso. Passa-se mais uma vez o pano, dada a conjuntura, com álcool em gel ou com a mistura de um litro de água sanitária em três litros de água comum.

O que parecia irresponsabilidade suficiente não parou aí; no dia 22 de março, em rede nacional, o senhor jogou a ciência e toda a experiência no enfrentamento da nova doença dos países estrangeiros no lixo. Um arroubo menos que juvenil decidido na antessala da presidência, no que é chamado de escritório do ódio.

No dia 18 de março, quando sairíamos às ruas pela educação (uma das áreas mais afetadas pela política ideológica que se diz sem ideologia), os protestos, em período de recolhimento, migraram para as janelas e varandas. O panelaço — símbolo da luta contra o governo Dilma — foi resgatado por quem não admite tamanhos descalabros. Claro que, agora, àqueles que nunca se convenceram de que o atual governo poderia ser bom juntaram-se os arrependidos. O devaneio do clown (sem graça) — ou o anticlown, como sugere minha irmã Teresa Cristina, revisora de meus textos — pelas ruas, quando poderia estar contaminado pelo vírus, foi um facho de luz sobre quem acreditou que, pior do que estava (no tempo do PT), não ficaria. Ficou, ficou muito.

Charge de Nando Motta, publicada no Barsil 247

16.3.20

Em torno do umbigo

Gostaria de começar esta crônica-espelho com a palavra convulsão, pois me vi num estado convulsivo nos dias próximos ao lançamento no Rio de Janeiro de “Nenhuma poesia: uma antologia” (Editora Patuá), um conjunto de poemas escritos ao longo de quarenta anos. Como quarenta são os anos vividos no Rio, é um livro comemorativo. Sim, uma comemoração minha comigo mesmo. Meu nome é Narciso Alexandre Pessôa Brandão. Ou foi por uns dias. Agora já voltei à realidade estúpida reproduzida pelos espelhos, vitrines, capôs de carros e latas abandonadas nas ruas.

Nos meus dias de beleza revelada pela água, vivi as bobagens mais bobas que a ansiedade nos faz viver. Me vi um adolescente que não sabe muito bem como lidar com os compromissos que, da noite para o dia, mudam de tom. Símbolo dessa mudança era deixar de usar calças curtas. Pois então, nos dias em torno do dia do lançamento, minhas calças compridas estavam sendo confeccionadas pelo alfaiate da delicadeza, da amizade. Eu não sabia e pensava que elas iriam me apertar e me reter no chão. Insônia, dúvidas em cascatas, essas são as companhias da ansiedade adolescente.

Mas também há um nível da ansiedade menos estúpido, aquele no qual um cara com sete livros soltos pelo mundo se vê metido. Será que não fui longe demais, por que não ficar escrevendo meus contos e crônicas, deixando isso de poesia pra lá? Mas por que não, se há material para um livro? Essa briguinha tem, de um lado, a vontade de se dar ao mundo como mais uma voz que lhe quer falar e, de outro, a vaidade, a proteção um tanto quanto covarde do próprio nome.

Publicar o livro foi a vitória de quem quer dialogar. Como digo sempre, escrevo com esse fim. Claro que, ao escrever, busco a forma que me agrade, ou seja, não faço pouco caso das questões estéticas, mas o meu interesse é falar com o hoje.

Amigos que escrevem entendem esse estado convulsivo, um pouco letárgico e muito viçoso. Para quem não escreve, pode soar incompreensível, mas, por favor, faça um esforço, não saia por aí dizendo que o Xandão é cheio de nove horas. Não sou, só tenho um umbigo que, numa hora dessas, fica maior que o mundo.

Chegado o dia do lançamento, raspei o prato do afeto. No quintal da casa que minha filha e outras psicólogas alugam (mulheres, obrigado pelo espaço tão acolhedor), recebi pessoas de vários mundos: da faculdade, do trabalho, da família, do círculo de amigos, da literatura. E foi um encontro, além de lindo, potente. Todos nós sorríamos. Poderia ser simplesmente uma festinha, mas não, ali firmávamos o compromisso calado de manter o sorriso no rosto para enfrentar a monstruosidade que governa nosso país, eco desafinado de uma monstruosidade que se impõe ao mundo.

Na viagem ao umbigo, encontrei forças para sair dele e exigir que a gente lute para retornarmos à convivência social respeitosa — ainda que contraditória, com forças conflituosas puxando a corda cada uma para o seu lado —, que, com a intermediação do Estado, deve buscar o bem comum. 

1.3.20

Conjecturas


Claro, não existem bruxas, existem mulheres que passam o pano no terror comandado por esses nostálgicos da Idade Média.

Claro, não existem mulas sem cabeça, existem homens que se sentem abraçados pelos novos bafos do ultrapassado.

Claro, não existem fantasmas, existem crianças que não querem brincar de bangue-bangue, mas, sim, de atirar e matar.

Claro, claro, claro, Juscelino, retórico, publicitário, político, jamais pensou ser possível dar mil passos para trás avançando o tempo em um ano.

Mayo, Coups de Bâtons 1937.


Exagero, a besta se construiu ou foi parida aos poucos e ao longo do tempo.

Exagero, a besta não é um acidente, um fato raro, um absurdo, um ator que enganou a todos. A besta sempre esteve aí, no peito, na essência.

A besta dormiu em mim?

Sim.

Em você?

Sim.

Por que você canta e enaltece a besta enquanto eu não?

Porque eu, você diz, fui ignorado pelos não ignorantes. Os dedos me apontaram como o ontem. Mas eu estou aqui com Deus — um que não compreende; com a família — uma que não existe, de tão limpa, suja; com a propriedade — conquistada de berço ou de suor, sim, de suor de pronto esquecido. Quem fui, não sou mais. Como com garfo, atiro com bala; as mãos são sujas, as flechas, imprecisas. Os leões matam. Mato igualmente. Os leões rugem. Eu afirmo com todas as letras: mato porque matar a meu modo, saciado, é a atitude dos que não rugem.

Claro, não existe o inferno, a escuridão é um descuido do sol.

Claro, não existe a dor, o fracasso é uma fruta podre.

Claro, não existe a fome, o paraíso é a etapa superior do sacrifício.

Claro, claro, claro, o sonho civilizatório foi pisoteado pela insônia.

Exagero, ninguém está acordado. Anestesiado é como estamos.

Exagero, brinca-se de pique onde não há esconderijo — na luz do deserto.

Você tem comido o riso e arrotado a loucura enquanto eu queimo os versos que não são mais que cinzas.

17.2.20

O assobio

para Viveca e Boinha

Aos 18 anos, eu, amigo da noite e de seus maus conselhos, voltava para casa quando os miseravelmente responsáveis (mal sabia que seria um deles em futuro próximo), já acordados, preparavam-se para o trabalho. Foi nessa época que, tendo ficado viúva, tia Yole me escolheu para acompanhá-la nas visitas que fazia à fazenda deixada pelo tio Elin.

Eu me recolhia às três ou quatro da manhã, às seis era despertado, às seis e pouco minha tia e eu entrávamos no carro e fazíamos uma pequena viagem de uns cinquenta quilômetros, de Passos a Cássia. Chegávamos ao Morro Alto, que tinha apenas um curral, nada mais, descíamos e literalmente olhávamos para o pasto e seus boizinhos. Era tudo. “Está tudo bem, não está, querido?” “Sim, tia, está tudo ótimo.” Minha resposta tinha mais a ver com o meu estado deplorável. Apesar de o bate-estaca da boate ainda ecoar pela cabeça e de os infortúnios da ressaca já se prepararem para tomar conta da área, tudo estava bem; ótimo era exagero.

Uma vez, fomos acompanhados por um primo meu (sem parentesco com a tia), veterinário. Ele examinaria o Astuto, touro reprodutor — de má fama, por ter um apetite sexual típico dos pandas — com o qual o tio Elin planejara desenvolver o maior e mais bonito plantel do Sudoeste de Minas, mas que, nas mãos de quem não tinha intimidade com a pecuária, acabou se transformando num estorvo.

Durante a consulta, aproveitando um descuido da tia, meu primo cochichou comigo que não voltaria com ela na direção (ele, de fato, foi o motorista da volta). Puro machismo, claro, tia Yole dirigia bem, aliás dirigiu até às vésperas de morrer, o que foi acontecer quando tinha quase noventa anos (que ela não me ouça falar de sua idade, que, aliás, ganharia mais um ano no próximo 20 de fevereiro), mais de trinta depois da história que conto. O que talvez tenha assustado meu primo é que, alérgica ao sol, ela se protegia segurando uma revista; quer dizer: dirigia com uma só das mãos.

Passada essa época, evoluímos de sobrinho e tia para cúmplices: eu acobertei algumas de suas traquinagens, ela, muitas das minhas. Para reforçar nossos vínculos, houve a escrita. Tia Yole escrevia com sensibilidade, lindamente. Lembro-me da carta que me mandou quando a Helena nasceu. E é inesquecível a crônica que dedicou a meu padrinho, um solteirão, um joão-ninguém, um homem doce, qualidades que “Yoyó, a viúva louca”, como eu carinhosamente a chamava, soube destacar.

Não vou dizer da beleza de minha tia. Não vou dizer de como eram engraçadas suas histórias com o marido, cujo humor era a sua forma de estar na droga deste mundo. Não vou dizer como ela era sofisticada. Vou deixar apenas esse caso miúdo que vivemos juntos. Ah, e acrescentar que tia Yole assobiava. Quem assobia, não sei se vocês sabem, perpetua sua passagem pelo mundo.

3.2.20

Paulinho não só da Viola

Nem sei bem como conheci e quando passei a ouvir Paulinho da Viola. Deve ter sido por meio do rádio, no pré-carnaval, única época em que o samba dava a cara pelas bandas de Minas, isso há mais de cinquenta anos, hoje não sei como é. Samba era só no carnaval e, mesmo assim, perdia em popularidade para as marchinhas de salão. Eu devo ter ouvido nessas circunstâncias, distraída e meninamente, Foi um rio que passou em minha vida, talvez o maior sucesso do compositor.

Depois de eu me curvar à música popular brasileira graças ao antológico “Milagre dos Peixes ao vivo”, de Milton Nascimento, Paulinho entrou no radar da minha curiosidade musical. Não esperava a rádio ou a TV me darem notícias dele, eu procurava por elas. É verdade que não fui, logo no início, um fã ardoroso; Milton, Chico, Caetano e Gil ocupavam esse espaço.

Penso que a aproximação definitiva veio depois de ouvir, numa roda de comes e bebes na casa de meu irmão, um dos convidados falar que o samba havia acabado, nada prestava, e outro fazer um aparte: mas e o Paulinho da Viola? A exceção, concluíram. Eu, que já conhecia um pouco a música do sambista de Botafogo, fiquei intrigado com o diálogo e, aí sim, com afinco fui ouvir seus discos — e na época era isso mesmo: ouvir os discos de vinil ou as fitas cassetes.

Em sua deliciosa Eu canto samba, Paulinho deu o recado: “Há muito tempo eu escuto esse papo furado / dizendo que o samba acabou / só se foi quando o dia clareou”. A audição de sua obra só me fez entender que sobre as costas do samba pesam séculos de ancestralidade e, por isso, ele não acaba. A tal morte não passa de despeito branco. Papo de branco.

Um dos maiores sambistas do país — anda ali com Cartola, com Nelson Cavaquinho, com qualquer gigante —, mas não se pode prendê-lo ao samba, Paulinho é, sim, um dos mais requintados compositores da música popular. Sinal fechado, por exemplo, não é exatamente um samba ou é um samba ao avesso. O fiel compositor de sambas é também um traidor. Sorte do samba. Sorte nossa.

No último 25 de janeiro, fui ao Circo Voador ver o esteta do samba. A qualidade do som não estava muito boa, mas nem isso o tirou do sério. Nesses shows, a ideia é, sem grandes surpresas, tocar os sucessos e promover uma comunhão entre o público e o artista que é porta-voz do afeto desse público. Paulinho soube fazer isso.

Desenho de Elifas Andreato, retirado daqui.


Registrei a história de como nasceu uma de suas composições mais lindas, Para um amor no Recife. Ele teve problema com a hospedagem na cidade, então uma senhora — professora e intelectual que fazia a cabeça do pessoal de Pernambuco — ofereceu-lhe pouso para um ou dois dias, que, por fim, se transformaram em mais de trinta. A música é para ela. O teor desse amor pouco me importa, mas, ao recordar o caso, acho uma oportunidade para falar sobre a qualidade do poeta. 

O filho do violonista Cesar Faria e de dona Paulina Batista não faz feio para ninguém. Pego duas das músicas de que mais gosto. A primeira é justamente a homenagem à pernambucana e fala: “Quero estancar o sangue / e sepultar bem longe / o que restou da camisa / colorida que cobria / minha dor”. A outra é Para ver as meninas: “Quem sabe de tudo não fale / quem não sabe nada se cale / se for preciso eu repito / porque hoje eu vou fazer / ao meu jeito eu vou fazer / um samba sobre o infinito”. Ambas devem ter sido escritas por um menino, um rapazote com seus vinte anos. Não é coisa de monstro? Um monstro delicado, deus preto de calça curta e pés descalços. Em um samba gravado em 1971, ele disse que ninguém explica a vida num samba curto, eu, quase cinquenta anos depois, digo que ninguém explica um Paulinho da Viola em crônica curta ou longa.

Quando eu e a família visitávamos meus pais em Minas, havia uma seleção musical para nos distrair das nove, dez horas de estrada. Rolava de tudo, de Mamonas Assassinas e Rita Lee a João Bosco, passando por Paulinho da Viola, especialmente por seu Bebadosamba. Quando tocava uma de suas parcerias com Hermínio Bello de Carvalho, Timoneiro — “Não sou eu quem me navega / quem me navega é o mar” —, aquele carro tonto das curvas da Mantiqueira a cantava em coro. A música fez parte do show, o que me levou a fazer uma coisa abominável: saquei o celular, gravei um trechinho e enviei para os filhos. Espero que o tenham visto e se dado conta de que Paulinho faz parte de nossa alegria.










20.1.20

Guerras de hoje


Esmiuçando um país

Gennady Privedentsev, artista russo.

Um país não é aquela roupa velha que se veste de quando em quando, longe dos estranhos, na intimidade.

Um país não é uma saudade, sequer uma nostalgia miúda. Não é uma música que seu pai cantava enquanto preparava o cigarro de palha. Não é a lembrança que sua mãe mantém de um antigo amante.

Não é uma tarde com crianças correndo no quintal. Igualmente não são dois vizinhos batendo papo pela janela de suas casas.

Um país não é uma bola na trave. Não é um grito inesperado daquele homem que caminha em silêncio. Qualquer muleta abandonada na calçada é apenas uma potencial metáfora para o país.

Por mais que se pense que um país seja suas sextas-feiras e feriados, ele não é isso. Tampouco é o domingo, no qual velhos casais reencontram o desejo.

Um país, veja bem, não é o conjunto de suas desgraças. Não é o sorriso do velho banguela ao ver seu neto banguela rindo do vento que lhe assopra o rostinho.

Um país não é nem a chuva ruidosa (muito menos a garoa) nem a mulher que, no meio da rua, parece chorar e ao mesmo tempo sorrir. Não é a gargalhada de um grupo de adolescentes.

Alguns querem que um país seja o aplauso comovido para aquela cantora cuja voz é apenas um fiapo da voz de quando ela estava no auge. Esqueçam. Um país não é a vassoura que varre a calçada.

Um país está longe de ser um assalto a banco. Do mesmo modo, está longe de ser um ato altruísta de um mendigo. Até poderia ser, mas não é, um beijo que o senhor violento, às escondidas, dá em uma flor cujo cheiro é mais intenso que a cor. Um país não é a sua literatura ou seus muros pichados.

Um país não é uma greve geral. Não é um dia sem consumir carne ou um dia sem consumir ou um dia em que se vai de visita ao túmulo dos pais.

Um país não são as crianças na escola. Não são os jovens na escola. Não são os adultos empregados. Não são nossas certezas ou sonhos.

Um país não é um filme de terror — ainda que um filme de terror possa ser um país; ainda que uma comédia possa ser um país. Ainda que a tristeza possa representar o país. Ainda que a alegria faça parte das saudades de um país.

Um país não é a sabedoria. Não são os acepipes servidos em reuniões festivas. Não são as quitandas cuja receita é anterior ao próprio país. Um país não são seus tambores e festas.

Um país não tem o rosto que os mapas dizem que ele tem.

Um país — o nosso — é um daqui a pouco urgente.

15.1.20

40 anos no Rio

Cheguei ao Rio no dia 5 de março de 1980. Vim depois de passar as férias em Passos, mas eu já não morava lá, saí de minha cidade em 1977, mudando-me para Belo Horizonte.

Um dia talvez eu escreva alguma memória sobre esse período, mas hoje minha intenção é apenas justificar porque, na efeméride dessa data, resolvi lançar um livro de poesia.

O fato é que a poesia foi minha primeira manifestação artística. Ainda criança, fazia musiquinhas e, um pouco mais tarde, compunha músicas bem precárias. Dessa experiência o que ficou foi a poesia.

Em 1986, minha irmã Patrícia trabalhava na Imprensa Oficial de Minas Gerais, e ali se fazia (e ainda faz, creio) o Suplemento Literário de Minas Gerais. Ela sabia que eu escrevia, conhecia minhas músicas. Como lá no Suplemento circulava um conterrâneo nosso, o premiado poeta Antonio Barreto, a Paçoca levou um material para ele avaliar. Acho que mandei uns cinco ou seis poemas. Passado um tempo, recebi tudo de volta com anotações (tenho tudo em casa, sabe-se lá onde). Mais surpreendente, três foram publicados.

Quando me derramo de agradecimento ao Barreto, ele diz que não teve essa de QI, não. Seu relato é que os poemas foram parar nas mãos de pareceristas e a decisão final foi sugerir a publicação de três. Seja como for, considero o mestre Barreto um dos meus padrinhos literários. Ele, o Noll (que fez o prefácio de meu primeiro livro, Contos de homem) e o Marco Túlio Costa (que me inventou cronista).

Para comemorar meus 40 anos de Rio, pensei em escrever uma série de crônicas memorialistas, mas, quando dei por mim, não teria tempo para preparar um livro a ser lançado em 5 de março de 2020. É uma tarefa hercúlea para um sujeito desmemoriado e que não dá muito valor ao que viveu. As duas coisas indicam que produziria um péssimo livro.

Quando estive na Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto (Gilberto Abreu, outro conterrâneo, meu ex-professor de história e escritor admirável, foi o homenageado), eu, Alexandre Marino e Nádia Monteiro trocamos umas figurinhas e eles se prontificaram a ler minhas poesias. Foi uma coisa linda e uma força danada. Depois pedi outras leituras (com respostas igualmente lindas), de Adriane Garcia e Alberto Bresciani. Isso sem contar o próprio Eduardo Lacerda, editor sensível, com pendores claros para a escrita e a edição de poesias.

Se tenho um livro de poesia, ora, façamos de seu lançamento a comemoração dos meus 40 anos na cidade maravilhosa, mas feia; de cultura inclusiva, mas de segregação; da beleza dos corpos, mas de clima infernal.

É um livro bom? Olha, todo escritor é vaidoso, mas eu, no caso da poesia, sou menos (já como contista e cronista, nem digo). Isso quer dizer que estou mais preocupado com a comemoração do que com a qualidade da poesia (todo escritor é mentiroso). De todo modo, acho que tem alguma coisa bacana, sim, ao lado de poemas menores, ruins de verdade. Na realidade, em tudo que faço (fazemos?) há essas duas porções. Passados 25 anos desde o lançamento de meu primeiro livro, já não alimento grandes ilusões. Escrevo porque quero falar com meu tempo.

Assim será. Ainda que formalmente não dedique meu livro a esses caras que me deram a força inicial, o livro é deles, em especial do Barreto.

Um brinde!

#nenhumapoesiaumaantologia

Lançamentos: 

                    15/02, em São Paulo (na Patuscada, Rua Murat, 40, Vila Madalena).

                    05/03, no Rio de Janeiro (local por ser definido).


Já em pré-venda.

6.1.20

Esqueça os famosos



Para dona Euza, Cristina e familiares do JC


Você conhece algum escritor famoso?

Foi o que me perguntaram quando participei, em 2018, de um dos eventos ligados à Feira Literária de Passos, minha cidade natal. A pergunta seca foi o ápice de uma participação tensa. Acompanhem.

Eu falava com alunos do ensino médio que não conheciam nem meus livros nem meu blog, na realidade, não sabiam nada de mim. Quando era para ser astro de um evento, me vi um zé-ninguém. Como sair daquela situação? Abri O bichano experimental (Editora Patuá), livro que lançaria no dia seguinte, e, apostando no humor como um bom jeito de iniciar o papo, li uma crônica a meu juízo engraçada. As garotas e os garotos sequer ensaiaram um sorriso.

Minha única certeza era de que a conversa deveria servir-se da literatura, então pensei em ler outra crônica do livro. Adolescentes gostam das coisas que dialogam com seus calores. Agarrado a esta ideia, li "Arranjos fresquinhos para uma velha cantiga pornográfica e outra antipatriótica". Eles riram, as duas meninas sentadas logo na primeira fila se deram as mãos, o ambiente desanuviou, passamos a falar uns com os outros. A leitura certa, na hora certa, concluí.

Passado o embaraço inicial e alcançada uma certa cumplicidade, estava preparado para tudo, mas talvez não para a singela questão, que, uma vez formulada, fez meu cérebro ecoar incessantemente: famoso, famoso, famoso. Com certeza, o meu famoso seria diferente do famoso daqueles jovens. Na minha lista João Gilberto Noll, Maria Valéria Rezende, Stella Mariz Rezende, uma parte da fina flor da literatura com quem mantenho laços afetivos. Como seria a deles? Youtubers da hora, best-sellers de sempre, enfim, as celebridades daquela semana? Estávamos num impasse, e eu poderia elaborar um ensaio tresloucado sobre a fama, mas não o fiz. Ao se dar conta da besteira que eu gaguejava como resposta, sabiamente a coordenadora encerrou a conversa.

Por que diabo gostamos tanto de famosos, dos famosos entre os famosos, dos midiáticos, melhor dizendo? Por associá-los a super-humanos ou a pessoas isentas das ziquiziras da vida? Hipótese medíocre, mas vai saber.

Não ligo para essa pompa incentivada pelo mercado e, de fato, dentro ou fora da literatura, conheço poucos que se encaixariam nesse perfil. Desse grupinho pequeno, o mais popular morreu na passagem de 2019 para 2020, o cantor sertanejo Juliano Cezar, com quem convivi antes de ele se tornar estrela do show business.

Não fomos os maiores amigos do mundo, mas compartilhamos algumas mesas de bar, mantivemos animadas conversas de jovens. Sempre metido com cavalos, o inicialmente peão de rodeios um dia me disse que seria cantor. E foi. Em nosso último encontro, o já conhecidíssimo artista e eu fazíamos compras na avenida da Moda da nossa Passos. Trocamos palavras amáveis, falamos de sua mãe e da Cristina, sua irmã e (ela sim) minha amiga, demo-nos um abraço. Ele era o cara humilde e educado de sempre e, mais importante, ainda sonhava.

Não acompanhei de perto a vida artística do Juliano, não gosto muito do sertanejo, principalmente do mais recente, mas sua carreira se meteu na minha vida. Conto.

Certa vez, no meu trabalho, recebemos por duas semanas um consultor americano. Era um senhor boa praça, fácil de lidar. No início da segunda semana da consultoria, perguntei a ele o que havia feito na folga. Mórmon, descobrira onde era a sua igreja. Além disso, passeara pelo calçadão de Copacabana e, principalmente, assistira a programas de televisão. Na programação dominical, ouviu algumas músicas agradáveis, com um quê da música country americana. Anotara o nome de um dos cantores, era o Juliano. No final do expediente, fui com ele a uma loja comprar discos do meu amigo.

Senti orgulho daquele moleque, de maneira alguma por ele ter sensibilizado um ouvinte estrangeiro; fiquei feliz ao constatar que o JC — não o homem do palco, não o apresentador de televisão, não o famoso, mas o velho e bom Lagartixa — realizara seu sonho de ser cantor. Boa, garoto!

Se pudesse voltar ao papo com os estudantes, diria que não há escritor famoso, há escritores. Muitos, assim como Juliano Cezar fez com a música, firmaram cedo seu compromisso com a literatura. A rapaziada deveria procurar por eles.

23.12.19

Uma senhora primavera


Sou um cronista bem fajuto. Digo isso porque são raras as minhas crônicas que se rendem a alguma efeméride. Chega o dia das mães, não escrevo nada a respeito; vem o dos pais, a mesma coisa. Isso sem dizer que não fiz a crônica de ano novo e não farei a de Natal. Não sei explicar os motivos. Se houver algum psicólogo de plantão, aceito palpites, diagnósticos, conselhos e até mesmo algum remedinho.

Dito isso, esta será mais uma crônica a não celebrar o Natal, mesmo estando a dois dias da noite da ceia, da Missa do Galo e, o mais importante, da troca dos amigos ocultos. O mais importante são os presentes? Sintam, leitores, como a questão do Natal me pega de jeito. Fico tão chateado com essa imposição de dar presente que acabo me esquecendo de que o importante, o importante mesmo, é comemorar o nascimento de Jesus Cristo, aquele judeu que, tendo vindo ao mundo há 2019 anos, mudou o rumo da história.

Como não será uma crônica de Natal, qual será seu assunto?

Ah, sim, posso falar a respeito desta primavera que, pelo menos na primeira quinzena de dezembro, segurou o verão, não o deixando chegar antes da hora. Isso é uma atitude digna. O Rio de Janeiro esteve uma delícia, nem liguei o ar-condicionado para dormir. Meu bolso e meu nariz, que não ficou ressecado, agradecem.

A oposição no Brasil deveria aprender com esta primavera e espanar o calor da ignorância que tomou Brasília, que tomou o Brasil. Ora, dirão, esta primavera só está assim porque houve um El Niño ou uma La Niña ou porque as geleiras dos árticos afracaram-se todas ou porque uma borboleta bateu as asas numa floresta chinesa. Mas eu contradigo: não faltam motivos para nossa oposição esfriar o verão desse desgoverno. Aliás, não só a oposição, o que nós estamos fazendo de concreto? O engraçadinho responde: “providenciando a ceia”; mas não estou falando disso. Estou falando de jantarmos as ruas, de fazermos política com presença física. O bravão ameaçou descer o cassetete (no mínimo) em que fizer essas chilenices, equadorices, bolivianices, colombialices aqui nas terras da fartura. Estou ciente, mas, se mantivermos os braços cruzados, o verão político nos derreterá.

Por meus belos olhos, exagerei. Não escrever a crônica de Natal, paciência, mas vir com assunto tão duro e indigesto já é falta de respeito. Peço-lhes perdão. Vou escrever sobre uma coisa leve. Enquanto isso, podem continuar fritando as rabanadas ou embrulhando os presentes (compraram o meu?) ou, olha como me corrigi em três parágrafos, elevando suas preces a Cristo, razão única do Natal.


Prometi leveza, vou a ela, ainda que com alguma erudição. Vocês sabem que a referência ao fato de o bater de asas de uma borboleta na China ter a capacidade de modificar a intensidade da primavera aqui não é poesia, não sabem? É uma metáfora usada por Lorenz — um dos formuladores da teoria do caos, campo razoavelmente novo da física — para explicar o princípio de sua teoria. Em modo rasteiro, a teoria é a seguinte: “Uma pequenina mudança no início de um evento qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro[1]”. Pois bem, se vale para uma borboleta e para lugares tão distantes, China e Brasil, podemos atualizar a metáfora e torná-la mais próxima de nós. Fica assim: quando uma menina garganteia na Suécia, um beócio tonteia no Planalto Central.

Caramba, não me acerto, melhor terminar por aqui. Só mais uma coisa: de fato, hoje é o primeiro dia do verão. Esta crônica foi escrita antes, nem sei como o dia estará no instante em que estiver sendo lida. De minha parte, estando de um jeito ou de outro, ainda torcerei pela primavera; pela primavera política principalmente.



[1] “O que é a teoria do Caos?” — em https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-e-a-teoria-do-caos/ (pesquisado em 12/12/2019).