26.2.22

Pra não dizer que não deixei de não falar dos horrores


Uma de minhas irmãs confessou que anda gostando de gim, mas que é para não nos preocuparmos, toma um drinque muito de vez em quando. Não me preocupo, mas cantarolo o conselho do velho Vinícius de Moraes, uma autoridade no assunto: “o gim é um veneno, cuidado, benzinho, não beba demais”.

A pandemia me transformou em sonhador. Quer dizer, uma vez acordado, a sensação dos sonhos sai da cama comigo, mesmo que eu não me lembre exatamente deles. Às vezes, acordo angustiado, mas, como não registro os sonhos — o que, numa mesa de bar, uma psicanalista considerou um pecado —, as imagens logo se dissipam. Volto a dormir, ou não. Dia desses sonhei que espalhava uns brinquedinhos de plástico ou umas bijuterias, não consegui definir se uma coisa ou outra, sobre o capô de um Ford Rabudo. Foi como uma volta a minha infância nos anos 1960, quando os táxis de minha cidade eram velhos automóveis dos anos 1940. 



Ford rabudo

 Numa mesa de bar, havia uma parente do Milton Nascimento. Isso não é nada e não seria nada se, de repente, o Deus em pessoa não passasse por lá. Muito simpático, deu um alô geral e foi para um compromisso. Eu havia me preparado tanto para aquele dia, arquitetado tudinho, mas não aconteceu. Falariam ao Milton: “Este é o Xandão”. Depois, a pessoa que nos apresentava me diria: “Você está careca de saber quem ele é, não?”. Eu responderia: “Claro. Muito prazer, Fernando Brant, sou seu fã”.

A piada criaria uma empatia imediata entre nós dois, e ele sentaria ao meu lado. Falaríamos de Minas, de nossas vidas em Passos e Três Pontas, cidades próximas. Quando ele descobrisse que eu escrevia umas bobaginhas, pediria uma letra, que eu rascunharia ali mesmo, e ele, ali mesmo, delinearia a melodia. A gente se transformaria em parceiro, emendando um sucesso atrás do outro. Algum tempo depois, alguém faria uma brincadeira com ele dizendo que o conhecia muito bem, ele não era o Xandão da Haydée e do Joaquim?

Sonho bom é sonho acordado.

Ao ver uma foto antiga, de pessoas desconhecidas, tive muita vontade de ser uma delas. Talvez pelos sorrisos. Ou pelo bolo, branco, semelhante à torta de abacaxi com coco que minha mãe fazia, mas nem sempre. Ela tinha disso. Uma das primeiras vezes que meu cunhado almoçou lá em casa, mamãe preparou um coq au vin, um trem chique. Bem, durante os demais trinta e quatro anos vividos por ela, meu cunhado pediu o franguinho francês. Não logrou sucesso.

Quando dona Haydée queria, em casa se fazia doce com a casca da melancia; também com a casca, no caso do abacaxi, se fazia o aluá, bebida, segundo ela, muito apreciada por Dom Pedro I. Quando a senhora que comia jabuticaba com garfo e faca queria, essas coisas de preparo delicado eram feitas. Mas só quando ela queria.

Na Copa do Mundo de 1974, ouvi a partida entre Brasil e Polônia dentro do Fusca vermelho, ano 1966, do meu irmão. Atravessávamos a Serra da Mantiqueira, indo do Rio a Passos. O rádio não ficava sintonizado o tempo todo, assim, até hoje não sei se ganhamos ou perdemos. Mas, também, era decisão de terceiro lugar, quem se preocupa com isso?

Outra viagem entre Rio e Passos. Dessa vez, eu dirigia, meu pai acompanhava. Fomos parados por excesso (não muito) de velocidade. Desci do carro, meu pai desceu também e, ao chegar perto de onde o militar anotava os dados da multa, me deu uma bronquinha, já havia me avisado para ir devagar etc. e tal. Voltando ao carro, ele olhou o relógio e, fazendo-se ouvir por todos, lamentou o nosso atraso, teríamos de correr.

O velho não demonstrava interesse por uma comida específica, a não ser, talvez, pelo pudim de pão. Mas, se o doce — feito quando mamãe queria — fosse servido na sobremesa, ele, magro e nem um pouco guloso, comeria um pedaço pequeno. Sóbrio no gostar, impiedoso no não gostar: naquela casa no Beco dos Aflitos, nem quando mamãe quis, se comeu bacalhau.

Seu Joaquim jamais foi de verdades ou filosofias. Mas não me estranharia se ele lançasse a máxima: lambisgoias à parte, o mundo não está para mexericas. Não quer dizer nada, mas meu pai era mesmo um pândego.



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Lançarei pela Urutau o livro de poesias "O sol pelo basculante". Como tem ocorrido nesse período de pandemia, as editoras vêm recorrendo à campanha de pré-venda, garantindo assim os recursos que viabilizem a produção do livro. 

Para acessar o site e adquirir seu livro (se dentro do prazo a meta não for alcançada, o dinheiro é devolvido), entre aqui. Vale dizer que há muitas opções de compra disponíveis, desde o livro eletrônico até "pacotes" com mais de um exemplar deste título ou com outros livros da editora. No site, é possível que o título ainda esteja com um pequeno erro, "um" no lugar de "o".

Espero que eu possa fazer uma noite de autógrafos, quem sabe um pouco diferente: em vez de meus amigos irem lá comprar o livro, levarão seus exemplares apenas para eu colocar aquela dedicatória que, graças a minha letra, ninguém entenderá. O vinho ou a cerveja, de todo modo, continuarão nos ajudando a manter alguma alegria em tempos tão sombrios.

Agora, se a compra já for a do livro autografado, bem, aí o encontro será apenas para tomar umas e outras e matar nossas saudades.

Espero que a pandemia arrefeça para que os planos de encontro se concretizem.

14.2.22

A felicidade deu adeus

Nada anda muito bem, e não é segredo. O Brasil já foi considerado o lugar do mundo no qual a felicidade batia ponto. O sol, a alegria e a miscigenação eram fatores que levavam àquela ideia.

Há algum tempo, um grupo de pesquisadores, levando em conta motivações subjetivas, levantadas em entrevistas, e objetivas, os indicadores socioeconômicos, começou a “medir” a felicidade. Segundo a pesquisa, em 2020 e em 2021, a Finlândia foi o país mais feliz do mundo.

Já estive em Helsinque, uma cidade sombria, cheia de bêbados caídos na rua, mas extremamente organizada. Na época (já se vão trinta anos), conheci alguns brasileiros ou filhos de brasileiros que viviam lá, todos com nível de vida bem razoável, ainda que se ocupando de funções pouco valorizadas. Um deles, que cuidava dos casacos deixados à entrada de um bar, me disse que, trabalhando também como pintor de paredes, conseguia ter um carro desses supercaros, ainda que não o modelo mais recente. Um país com um inverno tão rigoroso, clima que associamos a isolamento e tristeza, surpreende ao encabeçar a lista da pesquisa, ainda mais sendo acompanhado por Islândia e Dinamarca, segundo e terceiro lugares no ranking da felicidade. A despeito de toda crítica que se possa fazer a uma medida dessas, ela não parece encantada com o Brasil tropical, onde em se plantando tudo dá, mas também onde a fome só faz crescer. O modelo socioeconômico monstruoso adotado no país não deixa ninguém mais se enganar com a nossa alegria carnavalesca, que é, de fato, uma alegria — um, e apenas um, dos fatores que compõem a felicidade.

Entre os dias 24 de janeiro e 2 de fevereiro, uma face da atrocidade brasileira foi mostrada ao mundo. Assistimos na televisão a três homens matando a paulada Moïse Mugenyi Kabagambe, um congolês de vinte e quatro anos. A paulada. Matar assim exige perseverança, o que não combina com uma raiva momentânea. Aqueles assassinos estavam tomados por uma premeditação bestial. A família de Moïse havia saído do Congo treze anos antes dessa tragédia que a acometeu. Fugiam de outras tragédias, inúmeras num país rico em minerais e, mesmo depois de se tornarem independentes da Bélgica, massacrado por interesses externos que se misturam às lutas locais de poder. Luiz Antonio Simas, pesquisador da vida de rua carioca, afirmou o seguinte: “O melhor que existe nessa cidade terrível e bela, filha da morte e da chibata, veio do Congo: samba”. O crime contra Moïse afirma a voz dos que não se conformam nem com o fim da escravidão nem com o fato de uma de nossas manifestações mais criativas, pérola na lama de nossa história, ser obra dos negros. Acrescentem-se a isso doses de xenofobia.

No dia 2 de fevereiro, enquanto havia festa no mar, Iemanjá celebrada, um militar viu um negro, Durval Teófilo Filho, trinta e oito anos, mexer em uma pasta e achou que seria assaltado. O que fez? Atirou contra a possível ameaça. O assassino e a vítima eram vizinhos em um condomínio no Colubandê, bairro de São Gonçalo. No início, a polícia chegou a defender a tese de que o assassino não tinha a intenção de matar. Qual seria então a intenção? Comemorar o gol do time? Usar a arma por usar? Testar a mira? Com a reação da sociedade, o militar da Marinha foi qualificado como assassino doloso. O que ele é, e não é o único, e não será o único à medida que armar a população tem sido a política de segurança do atual governo.

A morte de Moïse e a de Durval infelizmente não são um acidente. Matam-se negros aos montes. A polícia entra em favelas e, quase sempre, deixa um saldo escandaloso de mortos. Negros na maioria, muitos inocentes, sem envolvimento com o tráfico ou outra forma de crime. Como soldados do tráfico, negros também se matam uns aos outros. Negros são mortos na porta de casa como foi o caso de Durval e de outros tantos, crianças inclusive, que podemos puxar da memória. Na imagem que mais nos aproxima da chibata dos tempos da escravidão, negros levam pauladas até a morte.

No Marrocos, Rayam Awram, um menino de cinco anos, foi tragado por um buraco de trinta e oito metros. O drama de seu resgate durou dias, e os marroquinos, mas não só eles, acompanharam diuturnamente o esforço da equipe de socorro. No quarto dia, o pequeno Rayam foi resgatado, mas não resistiu. Marrocos transformou essa tragédia em uma dor coletiva.

Dor coletiva deveria ser a nossa diante da morte de Moïse e Durval. Mas o fato é que esses crimes não encontram o repúdio de todos, em particular daqueles que podem mudar as leis e fazer cumpri-las. Ao contrário, quando mataram Marielle, em ações coordenadas pela milícia digital, trataram de associar caluniosamente a vereadora a criminosos. Agora, dizem, Moïse seria um drogado inoportuno. E que absurdo foi esse de Durval mexer em uma bolsa em uma região considerada violenta? Em 2018, Rodrigo Serrano, um garçom negro, desceu ao pé do Chapéu Mangueira para esperar a mulher e a filha. Chovia, e ele abriu o guarda-chuva. Foi o suficiente para a polícia deduzir que ele estava armado de um fuzil. Atiraram sem pena nem dó. Muitos batem palma para a polícia e vão à loucura quando se estuda uma mudança na lei que dê a ela licença para matar, o tal “excludente de ilicitude”. 

Nada anda muito bem? Corrijo-me: tudo anda mal. Demos adeus à felicidade.

29.1.22

Na floresta de pedra

Em Itatiaia, na casa de campo de um amigo, gravei um depoimento para o canal “Acontece nos Livros” (do Youtube), de Whisner Fraga. Minha conversinha fiada e a leitura de uns poemas enfrentaram a concorrência de passarinhos e galinhas, em particular do galo e sua barulhenta forma de querer se impor como dono do terreiro. Seja como for, a trilha sonora aviária foi um simpático complemento a meu pequeno testemunho.




Quando o vídeo foi a público, além de estar longe daquele paraíso, eu adiava minha volta à rua, esperando que a mais nova onda da pandemia regredisse. É um sem-fim essa tormenta. Mais eis que um passarinho começou a piar aqui nas redondezas da verdadeira floresta de pedra que é Botafogo. Não é raro que algum cante. Às vezes, no início da manhã, um grupo de maritacas — com destino ao Aterro, onde promove verdadeiros encontros, com debate, degustação de sementes e voos coreográficos — passa apressado e ruidoso diante da janela do meu quarto. Que liberdade gozam os não molestados pelo vírus. É comum ouvir também o trinado de um bem-te-vi. Digo um bem-te-vi, pois, apesar de nunca o ter visto, sua voz não me engana. Bem, se é único, melhor nomeá-lo. Te batizo, em nome de ninguém, deus ou mortal, de Pafúncio. 

A Bia percebeu logo que o tal passarinho não era nem uma das maritacas nem o Pafúncio, e aquele mavioso gorjeio, ininterrupto, não demorou a nos chatear. Esse bichinho não voava, não se juntava aos seus em tertúlias sob árvores? O porteiro esclareceu o mistério: um dos apartamentos havia sido alugado por temporada — pequena, ele garantiu —, e o locatário tinha um trinca-ferro engaiolado. Ó, meu Deus, como é melancólico (e maçante) o pio de pássaros presos. 

Uma escritora andou desabafando no Facebook: está cansada do confinamento. Quem não está? Se cantássemos, agora que estamos encarcerados por um vírus que vivia quieto nas florestas chinesas até o homem ir lá e cutucá-lo, seríamos esse trinca-ferro incansável, triste, tedioso e torturado. Ele canta? Não, lamenta.

Vídeos e entrevistas recentes

No início de janeiro foi divulgada a entrevista que dei ao canal do Youtube, Acontece nos Livros, do escritor Whisner Fraga. Em depoimento de 13 minutos, falei um pouco de minha relação com a poesia e declamei alguns poemas. Meu depoimento pode ser visto aqui. Fica, de todo modo, para que acompanhem o Acontece nos Livros, pois é muito bom. Além do depoimento de outros poetas, Whisner comenta muitos livros, a maioria, senão todos, publicados por editoras pequenas. 


É recente também a entrevista que dei ao blog Diários do Arrabalde, do professor Wilson Luques. Um papo rápido no qual falo de livros e autores que me marcaram e marcam, além de falar de frustrações e alegrias literárias. Para ler, clique aqui.

15.1.22

Um quase Brasil

Em uma foto que viralizou, Tawy Zo’é, um jovem indígena, carrega nas costas Wahu Zo’é, seu pai. O médico Erik Jennings, sob o impacto da imagem, tratou de registrá-la sem saber ainda que o filho carregara o pai durante uma caminhada, floresta adentro, de seis horas. O motivo de tamanho sacrifício? Vacinar o idoso contra a Covid-19. O fato ocorreu no norte do Pará, onde vive a etnia Zo’é, que, segundo o médico, não teve nenhum dos seus infectado pelo vírus.

Em seu livro mais recente, “As doenças do Brasil” (Biblioteca Azul), o português Valter Hugo Mãe narra uma história que se passa em um território indígena à época em que os portugueses começaram a explorar o interior. A grande sacada de Mãe é a de promover a aliança entre um indígena mestiço (mãe indígena estuprada por um branco), de nome Honra, e um negro, o Meio da Noite. Até se chegar ao pacto que levará os dois a lutarem contra os brancos em defesa dos “abaeté”, muitas arestas são aparadas: Honra tem de se sentir indígena, perder a culpa de ser também branco; Meio da Noite, que havia sido capturado e poupado da morte, tem de ser reconhecido como humano pelos indígenas. Além disso, um deve confiar no outro, uma dificuldade quando a língua que serve aos dois não é a de nenhum deles, mas a do homem branco. No romance, a linguagem é radical (me faz pensar em Guimarães Rosa), e serve ao propósito de Mãe escrever a partir dos valores e modos de ver o mundo dos autóctones. Assim, diálogos entre eles e os rios ou os animais é uma coisa dada, natural, não é magia, nada disso. Leio o livro como se ele viesse nos dizer que, se respeitados os habitantes originais ou se as alianças entre indígenas e negros houvessem se transformado em vitórias expressivas, o Brasil seria outro. Talvez o mundo fosse outro.

Havia lido, antes de Mãe, “Viva o povo brasileiro” (Nova Fronteira), de João Ubaldo Ribeiro. Ora com ironia, ora em delírio, sempre com senso estético apurado, Ribeiro pincela caminhos que poderiam dar em um Brasil diferente do que temos. Pessimista, ele deixa claro que o que vinga em nossa história é um país cujo futuro é o paredão da rua sem saída. O livro foi lançado na década de 1980, ainda na ditadura, momento que justificava o pessimismo. Mas a abertura já acontecia, algum lume de otimismo estava aceso, o que não foi suficiente para o livro ser alegre, apesar de divertido (sabemos rir de nossas mazelas). De todo modo, se, com suas revoltas, os negros houvessem forjado mudanças de fato, se lideranças femininas multiplicassem-se história afora, se tivéssemos respeitado as religiões de matriz africana, se os dissidentes brancos — ou seja, aqueles que entendem que desfrutam de privilégios inimagináveis e estão dispostos a abrir mão deles — fossem em número, o Brasil agônico não teria triunfado.

Assisti aos cinco episódios de “O canto livre de Nara Leão” (Globoplay), de Renato Terra. Com seus 13, 14 anos, Nara se enturmou com uma moçada de Copacabana que tinha talento especial para a música. Ela e aquela turma, na casa da futura cantora, “inventaram” a bossa nova. Quando seu namorado Ronaldo Bôscoli a trocou por Maysa, Nara abandonou a turma e voltou os olhos para o samba. Ela conta então que, aos 15 anos, descobriu que havia favela, pobre e fome no Brasil, começando assim a sua conscientização política. De voz mansa, mas assertiva, Nara não deixou de se posicionar. Quando em entrevista disse que o exército (já no poder) não servia para nada — ela já estava na mira por protagonizar, com Zé Keti e João do Vale, o espetáculo “Opinião” —, passou a ser perseguida. Então casada com Cacá Diegues, mudou-se para a França. Na volta, aproximou-se da turma do Ceará que chegava ao Rio no começo da década de 1970 e, em seu disco “... e que tudo mais vá pro inferno”, gravou Roberto e Erasmo, o que irritou antigos parceiros, como Dori Caymmi e Edu Lobo. A diversidade e a independência a ajudaram a construir uma carreira sólida, de qualidade e curta (Nara morreu aos 47 anos, em 1989). O documentário joga luz num momento terrível, a ditadura, e mostra como sempre houve, da parte dos artistas, resistência. Nara foi uma liderança entre os que resistiram.

O indígena carregando o pai horas a fio para se vacinar é fiapo de um Brasil potente. Os livros de Mãe e Ubaldo, a vida de Nara (e o documentário de Terra) estão cheios de outros fiapos de potência.

Mas o Brasil não existe, o que existe é um quase Brasil.






1.1.22

Diálogos atuais

 I

— Entre.

— A porta está trancada.

— Então não deveria ter saído.

 

II

— Isso, respire fundo. Agora olhe para o horizonte.

— Horizonte?

— Sim.

— Ele não está ali.

— Melhor fechar os olhos.

 

III

— Quanto custa?

— Uma vida.

— Embrulhe para presente.

— Prefere pagar como?

— Com os pulsos.

 

IV

— Reservamos para o senhor a suíte presidencial.

— O que há de especial nela?

— De lá se veem todos os problemas do país.

— É preciso resolvê-los?

— Não.

— Ótimo.

 

V

— Em que ano estamos?

— Acabamos de chegar a 2022.

— Há 2022 anos mandávamos o menino.

— Passou rápido, não foi?

— Demais.

— Quer dar uma olhada em como andam as coisas por lá?

— Eu sei como andam as coisas. Pode apertar o botão vermelho.

19.12.21

Cinco noites, cinco dias




Chuva. Sol. Noites de frio moderado e dias de calor igualmente moderado. Galinhas; pavões; um faisão; os cães Dado e Amy; passarinhos por todo lado; lagartos; aranha. Num ambiente assim, cinco noites e cinco dias bastariam para compensar a distância imposta a dois amigos pela pandemia?

Não.

Sim.

Conversar sem compromisso; trocar impressões sobre o mundo. Membros da igreja dos pessimistas não muito fiéis, num instante descremos para em seguida voltarmos a crer, afinal, há uma garotada, em particular negra, sedenta por mudanças. Passear por nossas histórias marotas e, de repente, chegar às perdas e ao que ficou dessas perdas. Isso seria suficiente para compensar a distância imposta pela pandemia?

Sim.

Não.

Regar a prosa, num dia, com licor de jabuticaba feito por um vizinho e, no outro, com uma taça de vinho (bebemos pouco, eis a verdade). Ver um filme novo (“Ataque de cães”, “The power of the dog”, de Jane Campion), um velho (“A época da inocência”, “The age of innocence”, de Martin Scorsese) e o documentário sobre Fela, importante músico nigeriano que pagou caro por ser ativista e questionar valores sociais (“Meu amigo Fela”, de Joel Zito Araújo). Trocar dicas musicais e literárias, alimentar os cães, rir de bobeira, encantar-se com a montanha bem diante dos olhos e com o coro afinado das cigarras. Na terça à noite, não conseguir se lembrar do nome “daquele sanfoneiro amigo da Bebel, aquele que toca com o Gil”. Trabalhar cada um no seu canto; ele, instalado no novo escritório, fazendo reuniões intermináveis; eu, no jardim, gravando um vídeo (editado por ele) a ser publicado em um canal do Youtube. Assim se esqueceriam dos dois anos de distância imposta pela pandemia?

Nãossim.

Proteger um filhote de anu. Lamentar o passarinho morto na piscina. Estar preocupados com os filhos. Estar orgulhosos dos filhos. Olhar a vida dos filhos na perspectiva das nossas, concluir que o tempo é outro; melhor observar, aprender, respeitar. Perguntar sobre o que foi feito de um velho amigo. Contar de um amigo que o outro não conhece. Planejar saber da saúde da companheira de um terceiro amigo. Lembrar-se daquela fita cassete com a entrevista feita na casa de Bento Ribeiro. A fita, ele mostra, está ali e precisa de emenda e de um toca-fitas. Colocar a fragilidade para quarar na grama. Lavar os temores na chuva serrana. No meio de uma conversa qualquer, já na quinta-feira, soltar do nada: “Mestrinho, o nome do sanfoneiro é Mestrinho”. Dar opinião sobre a obra da cozinha. Anunciar que vai ao banheiro. A distância imposta pelo confinamento foi embora?

Sinão.

Especular como tem sido o tempo da pandemia na vida das crianças; na vida dos muito pobres; na dos velhos mais velhos que nós. Citar alguns — próximos ou que nos chegavam por arte ou pensamento — dos derrotados pelo vírus e a incompetência política. Certificar-nos de que sobrevivemos. “Estou aqui? Sim, Xandón.” “E eu? Claro, Atira Sun.” Tomar o café juntos. Fazer planos para o resto da vida e mais dois anos.

Cinco noites e cinco dias não deram para nada. 

Mas não deixaram de dar para quase tudo.

4.12.21

O amor nos tempos virtuais

O amor, o amor... Ah, o amor! Dele já se falou, se fala e muito se falará. Primeiro amamos a mãe, depois abrimos a guarda ao pai (ou a outra mulher que faça as vezes de uma babá, sejamos sinceros) e, daí então, ao resto do mundo. Mais adiante, surpreendidos por hormônios impiedosos, tentamos unir desejo e amor, o que nem sempre dá certo. Aliás, o amor nem sempre dá certo, é fonte de desatinos e, amiúde, se transforma em seu oposto, e então odiamos tanto, às vezes até a própria mãe.

Impulsionados pela ansiedade e pela carência, pagamos qualquer preço para desfrutar do amor e, dispostos a amar, somos capturados por uma de suas múltiplas armadilhas: alçapões que nos prendem a relações de sujeição, minas que escondem bombas capazes de explodir nossa saúde mental. Sempre foi assim e é, nesses tempos de conectividade, mais ainda. Soube-se há pouco do caso do atleta italiano que, durante 15 anos, teve-se como namorado de uma modelo brasileira, sem que nunca houvessem se encontrado. Qual o espanto? Eu mesmo julguei que namorava aquela amiga alta, bem fornida. Não, não era namoro, apenas nos beijamos num domingo à noite na Praça da Matriz. O atleta italiano, veja bem, se relacionava por internet — na realidade, nem isso. Trocava juras e planejava o futuro com quem, na outra ponta da fibra ótica, não era a modelo brasileira e sim um(a) estelionatário(a). Ao final das contas, o moço — a julgar pelo italiano típico, ele deve ser bonito —, acumulou uma dívida de 60 mil euros fazendo transferências a seu amor.

O Direito, ao constatar a multiplicação de casos parecidos, deu-lhe um nome: catfishing, que é melhor deixar em inglês para evitar impingir uma cacofonia no que já é triste. Em O Globo, encontro outro exemplo: uma advogada acreditou ser namorada de um dos filhos da princesa Diana. Por isso, entrou na justiça para cobrar as promessas feitas por ele (mas não era ele) ao longo dos encontros sem encontro. Pelo menos eu beijei aquela menina, e, mesmo assim, ao me dar conta de que não estávamos em um “relacionamento sério”, me doeu tanto que, um pouco depois, risquei, à la Ary Barroso, aquele nome do meu caderno (pois já não aguentava o inferno de nosso amor fracassado) e até hoje, passados 45 anos, prefiro não saber de sua vida. O amor, ao ser estancado, vira isso, uma frustração, uma vontade de nem sei, como diria Zeca Baleiro.

Já que cheguei à música, recupero uma de Sueli Costa e Abel Silva, “A alegria e a dor”. A letra diz: “São duas vizinhas de quarto / a alegria e a dor / e moram tão juntas que, entre elas, / não há corredor”. Vizinhas que vão além da gentileza cotidiana, a alegria (estado de quem ama) e a dor (no corpo e na alma de quem não ama) penduram suas roupas íntimas no mesmo varal. Elis, em seu último disco lançado em vida, cantou de Sérgio Natureza e Tunai: “As aparências enganam / aos que odeiam e aos que amam / porque o amor e o ódio / se irmanam na fogueira das paixões”.

Com poesia ou sem, o amor nos fragiliza. Quer dizer, a expectativa do amor — querer demais amar —, já que ele mesmo nos potencializa. Éramos enganados antes da internet; por meio de novas artimanhas, somos mais uma vez ludibriados, agora nesse mundo nebuloso. O amor nos torna bobos — o ódio também.

21.11.21

E agora?

 

Na semana passada, enfrentei uma situação inédita: eu — que não existira por bilhões de anos e, depois disso, fizera um aninho (com corpo de dois, pois nasci com quase seis quilos), em 1962; 18, em 1979; 45, 59, já no século XXI — completei 60 anos. A burocracia acha por bem me considerar idoso a partir de agora, mas a gratuidade no uso do transporte urbano só virá daqui a cinco anos; o fim da obrigatoriedade de votar, daqui a dez. Enquanto não usufruo das benesses nem chego àquele momento em que se escancara a pouca importância dada pela comunidade ao que pensam septuagenários, octogenários, nonagenários e centenários, começo a ouvir, como marteladas na cabeça: velho, você é velho; velho és, velho serás. Assim seja, não me envergonho.

A proximidade do aniversário me coloca a cavucar a memória. Faço balanços — sonhos realizados e frustrados, amores feitos e desfeitos, mortos e vivos — e agarro-me, estimulado por algumas palavras, a nostalgias. Rolimã, carrinho de sebo, enxurrada, corgo, mamona.

É possível que meus netos nunca experimentem a sensação de liberdade e perigo que é descer em disparada uma ladeira de Minas sentado num carrinho de sebo ou rolimã — nem meus filhos o fizeram. Como anda o clima, as enxurradas não serão mais comportadas e limpas como as que corriam no Beco dos Aflitos e me chamavam: desce, Xandão, vem molhar os pés, lavar a alma. Elas se assemelharão a tsunamis e serão formadas pela chuva acumulada em muitos verões e primaveras de intensa estiagem. O corgo da minha aldeia, antes esgoto a céu aberto — para dar continuidade à guerra de mamona lá na outra banda, um empecilho a ser transposto em salto com vara de bambu —, agora está sob uma avenida, tampado com concreto. Recusam-lhe o sol e a margem de terra, e o corgo se vinga inundando a cidade vez ou outra. As coisas em estado de esquecimento reagem à passagem do tempo, bem sei, assim como sei que essas recém-lembradas, e as palavras que lhes dão vida, são mais velhas que eu ou, ao contrário, ficaram pelo meio do caminho ainda jovens, condenadas a um mundo sem futuro.

O Brasil a seu modo também reage ao tempo. Meus pais, nascidos na passagem da segunda para a terceira década do século XX, viveram transformações enormes ao longo de suas vidas: foram da popularização da luz elétrica e do telefone à internet incipiente; cresceram em um país com taxas enormes de mortes de recém-nascidos e morreram quando havia acontecido uma boa melhora da expectativa de vida. Meu tempo tem sido igualmente marcado por mudanças tecnológicas. A inteligência artificial está aí e promete facilitar o nosso dia a dia, mas poderá, ao reinventar o mundo do trabalho estimulando a virtualidade, desarticular os elos que conquistamos como trabalhadores. Em consequência, corremos o risco de amargar uma solidão sem tamanho. Apesar de avanços aqui e ali, meus pais não assistiram à diminuição da desigualdade social; o mesmo ocorrerá comigo. O Brasil é fiel a suas atrocidades.

Mal pisei nos 60, ouvi, à exaustão, que agora sou sexy. Já me contaram inúmeras vezes aquela velha piada — velho sou eu, ela é anciã — de que a vida sexual do sexagenário ocupa um livro de cinco mil páginas (falam em números diferentes: maiores, os pessimistas; menores, os otimistas), todas em branco. Ainda que a medicina nos dê esperança de um futuro confortável, no qual caberá alguma estripulia, inclusive sexual, não é possível concordar que os 60 sejam os novos 30, outro lugar comum. As varizes, a dificuldade de compreender certos assuntos levados à mesa pelos filhos, saudades absurdas, medos indefinidos, a audição traiçoeira, as dores, o sono miúdo e entrecortado, a má vontade com músicas novas, enfim, um conjunto de somenos faz com que os 60 continuem os 60 de sempre, num mundo modificado, é verdade. Calças curtas, chinelos de dedo, menos formalidade, mais transparência, eis o velho de hoje. Há um par de dias, sou um deles, e, a partir de agora, é o que serei até o fim. 

Nostálgico, crítico, irônico, assim, não muito diferente de sempre, dou os primeiros passos nos 60. Para não ceder ao pessimismo, cultivo planos. Um deles é o de continuar a escrever, tarefa que desdenha da velhice e que desempenho, estando com os graus dos óculos bem ajustados, com toda a minha potência.





6.11.21

Pedaço de Minas

Chove, e Nelson Freire está morto. Ouço, neste instante, Encores, disco lançado em 2019 para comemorar seus 75 anos. A morte e a chuva não me entristecem, mas me roubam a alegria. Recorro à música como forma de compensar a perda. A chuva, neste ano seco e maltratado, cai como festa.

Em um texto que estou começando a escrever, um dos personagens é preso em Formiga, cidade de Marco Túlio Costa, que, sem saber de minhas maquinações recentes (praticamente ninguém sabe delas), repassou a um pequeno grupo (nós dois mais Alexandre Marino e Antonio Barreto) uma matéria sobre Lamartine Babo, autor de “Serra da Boa Esperança”, música feita quando o compositor esteve na cidade de Boa Esperança — não muito distante de Formiga e de Passos, minha cidade natal — para conhecer uma pessoa com quem correspondia, Nair, codinome de Carlos Netto, um dentista que, passando-se por mulher, conseguia fotos autografadas de artistas do rádio. (Não conto essa história aqui, seus detalhes pitorescos são encontrados na internet.) Nascido em Boa Esperança, Nelson Freire deixou a cidade a conselho de sua professora de piano, que se viu incapaz, ao fim de poucas aulas, de ensinar muito mais ao molecote de quatro anos. Conselho acatado, a família se mudou para o Rio, e Nelson se tornou um dos maiores pianistas do mundo.

De Boa Esperança, onde esteve uma única vez, Lamartine Babo foi a Formiga, cidade à qual voltaria com alguma frequência. Numa delas, impressionado com uma cantora, Babita, mãe do músico Zebeto Corrêa, pediu-lhe que cantasse uma composição recém-feita, “Eu sonhei que tu estavas tão linda”. A música foi um sucesso à época — décadas de 1930, 1940 — e, tempos depois, marcaria minha juventude, pois, como acontecia Brasil afora, inclusive em Passos, Francisco Petrônio, em seu famoso “Baile da saudade”, a cantava no ponto alto do show. Meu texto em processo começa num baile daqueles, quando dois jovens deslocados em sua pequena cidade dançam a música que lhes parece o passado do passado, mas, guiados por ela, acabam tornando-se namorados.












Chegaram ao mesmo tempo a notícia da morte de Nelson Freire e as histórias de Lamartine Babo. O pesar da primeira e a graça da segunda, bem como sua ligação com o meu texto embrionário, me levaram a pensar sobre esse pedaço de Minas, a passagem do sul para o oeste, onde estão fincadas minhas raízes. Lá, o presidente atual e seu projeto obtuso, extremista e incivilizado foram eleitos com mais de 60% dos votos, um motivo e tanto para me fazer triste.

Triste, formulei, sem pretensão de abrangência, deixando a memória e o esquecimento se entenderem como bem quisessem, uma lista de artistas daquelas bandas — Milton Nascimento, Ezequias Marques, os irmãos Grilo, Alexandre Marino, Stella Maris Rezende, Gustavo Lemos, Gilda Parenti, Antonio Barreto, Reinaldo Barbosa, Marise Pacheco, Selton e Danton Mello, Edel Holz, Elpídio Lemos de Vasconcelos (avô de Maria Valéria Rezende), Marco Túlio Costa, Hilda Mendonça, Silviano Santiago, Bárbara Mançanares, Marco Ajeje, Wagner de Castro, Lilo Clareto, Arlete Porto Soares, João e Gilberto Abreu, Zininha Negrão, Gabriel Villela, Tibless Machado, Gilvan de Oliveira, Maurílio Romão, Consuelo de Paula, Váscoli, Irmãos Jerônimo, Celso Faria, Kaju Ribeiro, Ramon Pitter, Sebastião Borges, José Reis Santos, Jerônimo Neto, Ana Lis Soares, Wagner Tiso, Zé Vicente —, uns vivos, outros mortos, uns de renome nacional, mundial, muitos em busca de seu espaço, vários da cena local. À medida que pensava neles, eu os chamava, e ainda outros, para, juntos, enfrentarmos a perda de Nelson Freire e, ao mesmo tempo, encararmos o desafio de devolver nosso país ao campo da disputa democrática e republicana.

23.10.21

O velhinho

Enquanto a pandemia desnudava a incompetência bolsonariana, Paula Lavigne fazia vídeos caseiros de Caetano Veloso. Ele aparecia de pijama, sapato com sola de corda, retratado, aos meus olhos, como um velhinho. Em um dos vídeos o artista discorda de Celso Cunha, de quem lê um livro da década de 1980, que vaticinava o fim do sotaque caipira. Caetano argumenta que o tal “R retroflexo” está aí, firme e forte, como demostram falantes do Centro-Oeste, do Paraná (Moro, o “ex-tudo”), Tabata Amaral, Mano Brown e cantores sertanejos. Tendo encontrado o mesmo “R” no espanhol falado no Paraguai, Caetano o liga à influência do Tupi-Guarani. Pijamas, pantufas, resistência ao exercício físico, gula de paçoca, alguma rabugice, às vezes dificuldade de entender determinada coisa: um velho, mas um velho que, curioso e atento, estuda. Naqueles vídeos, havia um atrito (velado) entre o marido e a mulher, além da pressão para que ele fizesse uma live (ele e os filhos fariam uma linda).


Imagens extraídas do Instagram de Caetano Veloso



A mesma exposição da velhice encontrei em pequenos vídeos que Augusto Nascimento, filho de Milton, fez do pai. Ora, os autores de “Paula e Bebeto” são velhos e, no frio, têm, como Milton faz, de se agasalhar com exagero e, em casa, devem abusar do pijama. De todo modo, por ter crescido encantado com a potência desses caras — e de Chico, Gil e Paulinho da Viola, a plêiade de nossos gênios musicais —, é difícil lidar com seu declínio.

A pandemia fez um ano, fez um ano e meio e caminha para o segundo. Somamos 600 mil mortos e uma leva de outros desastres. Mas eis que, livre do pijama e da câmera invasiva de Paula, Caetano lançou uma nova música, a primeira de um álbum (“Meu coco”) que viria a público um pouco depois. Não é uma música qualquer, é uma baita música. “Anjos tronchos” (Drummond espia e ouve) dialoga com o que é o grande bem e o grande mal do nosso tempo, a internet, isso que nos aproximaria e miseravelmente tem nos distanciado, que foi criado para nos libertar e tem nos aprisionado, que foi concebido como plural, descentralizado, e tem se aglutinado em monopólios; isso que se tem reduzido a um grande mercado. Caetano compõe com faro e fúria de jovem. Não por acaso, ele, que na música diz: “Agora a minha história é um denso algoritmo / Que vende venda a vendedores reais”, afirma em entrevista: “Meu desejo é confundir os algoritmos”. Ah, moleque! A velhice em Caetano é um detalhe besta, talvez lhe pese, pois a velhice pesa, mas não lhe subtrai a fome de compreender e embelezar o mundo e a capacidade de nos surpreender.

7.10.21

Cheio de vontade

 Vontade de gritar da janela: “Corre, Maria, seu amor está logo ali na esquina.” Vontade de andar na rua rindo da rinha de calos nos pés daquela gente metida em sapatos feios, desconfortáveis e caros. Vontade de dançar com a Zilma. Vontade de mandar meus boletos a quem continua aplaudindo o dito-cujo. Vontade de extrair a raiz oval do infinito. Vontade de comer o sanduíche do Bolinha. Vontade de cantar durante o curto silêncio do tagarela. Vontade de virar do avesso o vinil do Vinícius. Vontade de ir a Marte procurar o Furioso, meu cavalinho do Forte Apache. Vontade de apagar a luz da escuridão. Vontade de abraçar a Sá Inês. Vontade de contar até três, começando de um milhão. Vontade de encontrar meu pai resmungando daquele seu jeito irônico, mas não tanto: “Ah, gente, deixa um pouquinho de mim pra mim”. Vontade de devolver a patativa engaiolada ao ovo. Vontade de dizer à Capetinha que, sim, ela pode ficar com a camiseta que ficou com ela. Vontade de tomar um chope com Deus. Vontade de papar, na biloca, as biloscas de meus patos. Vontade de acordar no meio da noite com minha avó dizendo que tudo isso, ó, não é nada. Vontade de ver os olhinhos da Viveca sumirem quando ela ri da vida. Vontade de voltar a ser um leão manco; manso, não. Vontade de cobrar o Romeu e Julieta que a Mônica não pagou. Vontade de ensinar ao menininho bonito do Afeganistão a tocar cuíca. Vontade de confessar ao Reinaldo, meu professor de Educação Artística e de Inglês, que ele foi importante pacas. Vontade de roubar ambrosia da despensa de Zeus. Vontade de ter esperança. Vontade de despertar no Brasil, almoçar em Moçambique e dormir de conchinha com a Nastassja Kinski lá na Cochinchina. Vontade de sugerir à Célia refogar o mexidinho com cebola, eu agora gosto. Vontade de montar o cavalo que Calígula nomeou cônsul da Bitínia. Vontade de declarar meu amor a quem está passando bem agora na rua detrás da rodoviária de Caiapônia. Vontade de levar a estátua do Drummond para tricotar com a da Clarice. Vontade de pedir à dona Neisa permissão para ir à instalação sanitária. Vontade de ser um personagem de Dostoiévski, mesmo que tenha de matar uma velhinha ou disputar a amante com o pai. Vontade de falar ao coração para não se assustar, bater tranquilo, é só a Elaine que desce o Beco dos Aflitos. Vontade de chutar a lua lá onde dorme a coruja na galáxia de Andrômeda. Vontade de ouvir o pito do Zé Porteiro. Vontade de, em vez de subir, descer pela mangueira até o ponto em que sua raiz banqueteia no inferno. Vontade de não perdoar. Vontade de proteger a Maria Tomate. Vontade de, esquecendo as outras vontades, ganhar um sorriso de meus filhos quando eram bebês.





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(1) Para os que receberam meu e-mail com o link da crônica, peço vênias pelo erro de português que seguiu na mensagem. Quando o percebi, tratei de corrigi-lo, logo alguns já receberam a nota sem o escorregão. 




27.9.21

Saindo do armário

Estava teclando — já não se tecla mais — com o amigo e escritor Fernando Andrade, e ele me disse que quer comprar o CD da Mônica Salmaso com músicas do Guinga, seu vizinho de rua. Lembrei-me então de, no início dos anos de 1990, ter feito contato com o ainda dentista, mas já parceiro de Aldir Blanc. Não sei como foi nem por que foi, o fato é que liguei para o seu consultório e conversamos um pouco. Ele, simpático à beça, me ofereceu convite para o show que faria no Jazzmania, casa famosa no Arpoador e hoje fechada. Depois do espetáculo, dei-lhe um exemplar de “A palavra em construção”, primeiro livro do Estilingues.

Como uma memória puxa outra, me vi em outro show do Guinga, dessa vez com Hermeto Pascoal. Imagine o que pode ter sido isso, pois então, foi assim e mais. Novamente, fui conversar com o músico que, se não estou enganado, havia invertido as coisas e passara a dentista nas horas vagas. Ele me perguntou se eu percebera o Hermeto tentando “derrubá-lo” a todo instante. Não gozo de tamanha sensibilidade musical. De todo jeito, o violonista não reclamava, ao contrário, queria mostrar como estava estimulado pelo “duelo”. Para a glória de quem os assistia, os dois “bruxos” se divertiam.

O palco daquela vez era o do Instituto dos Arquitetos do Brasil do Rio de Janeiro (IAB-RJ), uma construção antiga e linda perto do Largo do Machado. Ao pensar no IAB, recordo de um aniversário da Soninha (20 de setembro) comemorado ali quando uma de suas amigas cuidava do restaurante e sou visitado por um colega da primeira oficina literária que frequentei, a Afrânio Coutinho. André Solti era ou fora presidente do IAB-RJ, não sei bem. O que sei é que num conto dele tive contato com a palavra “tremelicar” — as peças de salame tremelicavam num armazém gaúcho, coisa assim. Ou seja, fui apresentado à palavra já em estado poético. Arquiteto reconhecido e escritor promissor, André deixou a vida ainda mais novo que a Soninha.

Espremo o sumo dessas memórias e concluo que, sim, o país já deu sinais de que trilharia caminhos distintos dos atuais. Mas não devemos ficar cabisbaixos, Guinga ainda está aí, e Salmaso lança um disco com suas músicas. Bem faz o Fernando em estar ansioso por comprá-lo, pois, com certeza, nas composições de Guinga, na voz de Mônica, o Brasil luminoso bota os pés fora do armário.

13.9.21

A semana passada

 Os dias depois daquilo foram longos. Como se as horas se esquecessem de passar (Wish you were here, Sônia Peçanha).


Eu sei que o Brasil está de cabeça para baixo. A última semana foi terrível, ou mais terrível que as anteriores, que já haviam sido terríveis. Somar terribilidade a terribilidade faz parte de uma matemática menos acessível, aquela na qual a concretude da aritmética básica é trocada pela abstração. Faço essa comparação e me arrependo. A matemática é linda, quase sagrada, mesmo que não a entendamos em toda a sua complexidade. Acho que foi Galileu quem definiu a matemática como o alfabeto usado por Deus para escrever o Universo.

Seja como for, hoje deixo de lado o Brasil de cabeça para baixo, dou de ombro para o desastre coletivo e falo de uma perda particular, a da Sônia Peçanha. Na semana terrivelmente terrível do Brasil, fez um ano da morte da escritora, da amiga. No último dia 8, acordei e havia no zap uma mensagem da Marilena Moraes, outra escritora do nosso grupo — o Estilingues —, com um link para a música do Pink Floyd, Wish you were here, numa gravação de Dime Nineteen. Com esse título, Soninha escreveu um conto — está em seu último livro, “Relógio d’água” (Editora Patuá) — que é prova irrefutável de seu talento. Não fosse a literatura tão maltratada no Brasil, e viesse à luz não só o que as grandes editoras alardeiam, ela seria lida por muita gente, estudada de norte a sul; enfim, reconhecida. Mas não é assim. Azar de quem não a lê, sorte a minha de ter acompanhado sua trajetória desde o início, de ter lido seus textos ainda em estado embrionário. Azar o meu de ter perdido uma amiga desse porte, grande artista, grande ser humano.

Sim, Soninha era uma mulher gigante. Nunca, em mais de trinta anos de amizade, a presenciei em atitude vaidosa, arrogante ou coisa que o valha. Ao contrário, a vi alinhada a lutas por justiça social e se desdobrando para ajudar crianças pobres. Vi ainda, inúmeras vezes, aquela mulher calada abrir a boca para uma pequena ironia, para dividir seu sorriso com os mais chegados, também para falar com toda a segurança e paixão sobre literatura.

Semana passada, o Brasil ficou muito pior do que estava, mas nem todos sabem que a falta da Soninha o piora ainda mais.

Para terminar, deixo um poema dedicado a ela.

Sônia

Espichar pela ponta da tristeza

espichar até que, solto,

o fio permita confeccionar

o agasalho com que me protegerei

de tua ausência - de tua presença

em outra dimensão,

como é o teu modo de entender o fim.

 

Tricotar esse fio e, aos poucos,

ver a lã de cor aguda

mesclar-se à plácida

como duas vozes

em canto

em oração

em luta

como a tua voz

leve e presente

irônica e assertiva

sábia e humilde.

 

Tricotar os fios de tua cabeleira

num colete de gola em V de vigor

numa saia justa de poesia

numa lembrança de teu

sorriso, de teu olhar pronto

a reinventar o mundo, para o qual reservas

água, ar, intensidade

azeite, pão e o gesto

solidário carregado pelas mãos

: as tuas.

 

Tricotar o frio no fio

a presença na ausência

a alegria na tristeza

a saudade na comunhão

a espera na fúria

tricotar, com cuidado,

teu estilo no meu

teu brilho no da Cristina

teu segredo no da Marilena

teu amor no da Miriam

teu silêncio no da Nilma

teu aprendizado no da Vânia.

 

Ver a luz

— atirada do Estilingues

(tua e nossa palavra de vida) —

acertar o pássaro amoroso

que, em pios de conforto, assume

a tarefa de cuidar de ti

 

: aceitar teu voo. 

28.8.21

7 de setembro de 2021

Esta é a última crônica que escrevo antes do 7 de setembro, data da independência do país, mas que pode, neste nefasto 2021, se transformar no dia do golpe ou no dia do “diga ao povo que, quando for para ir, eu não vou”. Parece e é uma comédia, mas o preço do riso tem sido elevado. Salta aos olhos o fato de a atual gerência (chamo-a assim porque governo não é) ter levado o país da pobreza à miséria, um feito que exige um planejamento arrojado, um senhor desplanejamento.

Golpe é um prato de preparo lento, como a maniçoba, feita da folha da mandioca, a maniva, e que requer sete dias de cozimento para eliminar o veneno, nada mais, nada menos que o cianeto. No caso de um golpe, a demora serve para salpicar e apurar o veneno, e, no de agora, ele tem sido tão lento que o veneno fede à distância e leva ao delírio os inimigos da democracia.

No golpe sanguinário de 1964, parte da sociedade civil o apoiou. É a mesma gente que vê com bons olhos o discurso atual, moralista, religioso e ufanista, ou seja, é a turma que não aprende e, numa primeira dificuldade da democracia, chuta para o lado a liberdade e clama pela ditadura. Em 2021, apesar de um movimento aqui ou ali, os incentivadores da escuridão continuam se valendo do ambiente virtual e da mentira como tática. Bem, também cometem arroubos mais sérios, o que, pelo menos neste agosto, tem sido contestado pela justiça. Um dos mais comentados foi a busca nas propriedades do cantor sertanejo que andou ameaçando invadir o STF. Enfim, o país dividido entre a civilidade e a não civilidade está no ringue. Num ringue, aliás, no qual todos devemos entrar, pois não é uma luta a ser assistida. Somos pugilistas.

Não é preciso dizer que estou do lado da democracia, da liberdade (nada a ver com o cada-um-faz-o-que-quer) e do debate em um ambiente de diversidade política. Do lado em que combato, é habitual o conflito, que nada mais é do que o meio mais rico de as ideias encontrarem soluções para os problemas, o que não quer dizer que não haja erros. Há aos montes, e deles surgem novos conflitos e, no fim, novas soluções. Não é, portanto, um paraíso, pois viver é bruto, sem que tenha de ser violento. O lado da civilidade luta contra a violência, condena-a no Afeganistão, no Haiti, nos Estados Unidos, na Venezuela, na China e aqui, debaixo de nosso nariz.

Para o 7 de setembro plúmbeo que se aproxima, homens lustram seus coturnos, mulheres enaltecem os algozes, jovens se deixam enganar por aqueles que desejam sequestrar a democracia para lucrar. No fundo, o moralismo, a religiosidade e o ufanismo não passam de conversa para os bois dormirem.




14.8.21

Sanduíches, sandices e afeto

Quando eu era bem jovem, me lembro de ter ficado admirado com o que contou um amigo recém-chegado de São Paulo: no cardápio de uma lanchonete não constava uma variedade de sanduíches, mas apenas três: carne; queijo e carne; e queijo, carne e ovo. A carne era de um tipo só, hambúrguer bovino. Meu espanto tinha a ver com o fato de que, na minha cidade interiorana, os sanduíches ficavam cada mais cheios de opção: cebola, alho, bacon, salada, molhos diferentes, linguiça e outras invenções. Diante do que me parecia um retrocesso da lanchonete paulistana, quis saber como o justificavam. Simples, esclareceu o amigo, o dono percebeu que, com tantas alternativas, a escolha se tornava difícil, optar por uma era abrir mão das outras. Frente a um verdadeiro dilema, muitos clientes desistiam de comer, portanto não gastavam seu precioso dinheiro na lanchonete. Moral da história: o excesso nos confunde.





Se a gente esquece o sanduíche e pensa — escolho a próxima palavra também pela rima — nas sandices do captain, their captain, talvez encontre um paralelo entre as duas coisas. Os golpes absurdos, numerosos e disparados simultaneamente por aquele senhor e seu séquito buscam apenas nos confundir. É melhor então sermos objetivos e não cairmos na tentação de enfiar muitos recheios no sandubão; enfim, optar por um clássico. Traduzindo: se taparmos os ouvidos para a verborragia, os xingamentos e as ameaças, o que resta é a incompetência. Na verdade, não existe sanduíche se não se acrescenta queijo ao bife, portanto à incompetência devem-se juntar pitadas de banditismo. Eis então a síntese de quem nos governa.

 

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Para Neném, Carlinhos, Edinho (in memoriam) e o amor de minha vida, Nilzinha

Pena que eu vá misturar essa podridão pela qual temos passado com o nome que direi agora: Dita.

A Dita, negra forte (como são tantas ou todas), viúva ainda jovem e com quatro filhos, foi trabalhar na casa de meus pais e, apesar de ter conseguido, uns anos depois, um emprego muito melhor na Santa Casa, com a segurança da carteira assinada e da previdência paga, nunca nos abandonou. Nunca. Quando meus pais ficaram mais velhos, e o enfisema de meu pai se agravou, ela passou a dormir na casa dos velhos. Sim, ela deixava a família, àquela altura de filhos adultos e netos, para fazer companhia aos seus antigos patrões. Na última internação de meu pai, ao sair de casa, ele sussurrou alguma coisa na direção de minha mãe, e ela não compreendeu, mas a Dita sim. Joaquim declarava seu amor à Haydée. Não fosse a escuta atenta daquela acompanhante tão especial, saberíamos do amor de meus velhos, pois era evidente, mas não saberíamos do último gesto daquele amor.

Agora foi a vez da dona Benedita nos deixar. Eu só posso lhe agradecer — e não só pelo caso recém-contado, uma lembrança que diz muito para mim e não alcança nem de longe tudo que ela foi. Sua grandeza estava na inteligência, no caráter, na força com que lutava e em como sabia ser irônica na medida certa. Conhecer uma mulher assim é um privilégio, e, por ter tido essa sorte, sim, agradeço mil vezes. E agradeço mais uma vez por ela ter me dado a oportunidade de conviver com seus filhos (minha infância não existe sem eles) e netos. Voltando um pouco ao campo da política, devo também desculpas à Dita, pois até o momento não conseguimos, em nosso país, apagar as marcas de um passado escravocrata e erradicar o racismo estrutural. Contribuo para esse fracasso.

31.7.21

O dicionarista de ocasião

O nome na tela do celular já adianta o início do diálogo:

— Sargento?

— Não.

— Márquez?

— Tampouco.

Garcia, amigo de infância, sempre foi atrapalhado (feito o sargento que persegue o Zorro) e fabulista (à moda do escritor colombiano). Por isso, o estribilho sempre que vejo seu nome na tela. A bem da verdade, quando meu nome é anunciado no celular dele, vem a contrapartida.

— Pires?

— Nem canto.

— Magno?

— Quem dera!

Nossas provocações recíprocas são, claro, temperadas de afeto e respeito. Ele não é só atrapalhado e fabulista, tem um rol de qualidades invejáveis, entre elas, a paciência. Quanto a mim, espero não ser apenas um romântico metido a grande, mas é melhor perguntar a ele.

Desta vez, Garcia liga preocupado com o Brasil. Com a política. Ele não milita na esquerda nem na direita, é um conciliador, um sujeito de centro. E o problema dele está aí.

— Esse Centrão não me representa.

— Como assim? Vocês não estão todos em cima do mesmo muro, só esperando a hora de dar o bote num lado ou no outro?

— Em política, você é um beócio. Isso que você diz faz parte do compêndio desses aí. Sou do centro dos Neves.

— Do neto?

— Não me venha com blasfêmia. Aquele de centro não tem nada; de Centrão, tudo. Não honra o avô.

— Então conclua.

— Daí que é preciso sequestrar o apodo de Centrão desses... desses... desses facínoras.

— Apodo, é? Hoje você está caprichando, é compêndio cá, beócio lá, facínora aqui.

— As frases são minhas, falo do jeito que quiser.

— Perdão, prometo ser daqui pra frente um respeitoso ouvinte.

— Centro, nas raias da política, é uma coisa importante. Quem ocupa esse espaço de consenso não vai pra lá nem pra cá, ao contrário, puxa as pontas pro meio.

— Hum, sei. Nas raias...

— Sim, nas raias. Ignorarei seus apartes pífios de agora em diante. Cumpra sua promessa e ouça. O tal Centrão nem busca o entendimento nem amortece as colisões de ideias. Estão ora no centro, ora à esquerda, ora à direita sem coerência ou vergonha. Esse Nogueira, por exemplo, já disse que o Lula foi o melhor presidente do Brasil e chamou o atual presindecente, a quem vai servir como ministro, de fascista. Haja maleabilidade.

— Maleabilidade...

— O que há, hein? Resolveu me tomar pra Cristo?

— Não, de jeito algum. Vamos lá, você quer mudar o... qual é a palavra mesmo?

— Apodo, iletrado, apodo. Pra mim, em vez de Centrão, a súcia deveria ser chamada de Sabujão.

— Você comeu o dicionário?

— Nestes tempos incivis, é a única leitura que não mexe com meus nervos.

Desconfio de que Garcia ligou apenas para fazer uma piada e exibir sua erudição passageira. Gaiatices do velho amigo. É hora de dizer, a nosso modo, adeus.

— Sargento?

— Não.

— Márquez?

— Tampouco.

— Outra hora nos falamos, douto amigo.

— Que assim seja, pagodeiro de butique e pequeno apedeuta político.

16.7.21

Estratégias de guerra



Cofiar o escuro da lua.

Umedecer o sol.

Escanhoar o frio.

Aconselhar-se com as estrelas.

Reger o coaxar da saparia.


Esquecer no vermelho de um tiê-sangue o espanto.

Medir a sombra das horas.

Cansar-se pelo mar.

Aprender a acrobacia da poeira.

Colorir o silêncio das flores.

Perguntar à infância que fim levaram as taboas.

Mascar o vento.

Intervir nos mapas.

Desistir do passo anterior.

Acender-se e apagar-se na presença de vaga-lumes.

Rir da retidão dos caminhos.

Dar de beber à água.

Mentir aos pés.

Burlar a aurora.

Engolir o horizonte.

Acender o cigarro num vulcão.

Contar estórias à noite.

Esconder-se do amanhã.

Ouvir a intimidade da chuva.

Assistir ao coito das pedras

Cultivar tudo que a estupidez dos poderosos não alcança.