29.7.24

Crônica numa hora dessas?

 Ao Xico Sá

Meu amigo Marco Túlio Costa me inventou como cronista em 2000 – quando ele foi editor da Gazeta de Passos, jornal que a família do antigo dono voltou a circular por algum tempo –, e, desde então, venho perseverando nesse gênero tão brasileiro. É difícil ser cronista depois de Machado de Assis, João do Rio, Raquel de Queiroz, Rubem Braga, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Luís Fernando Veríssimo (de quem me servi ao dar título a essa crônica), mas é igualmente difícil ou, mais ainda, escrever, simplesmente escrever, depois de Cervantes, Shakespeare, Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar... O escritor é antes de tudo um cara de pau, e eu sou. Além de contos e poesia, tenho dois livros elaborados com crônicas publicadas em sua maioria aqui na Rubem.

Sinônimo de crônica é liberdade. Ela pode ter contornos poéticos, um jeitão de contos, pode até esbarrar no ensaio, tudo isso com pouca seriedade. Quer dizer, ela é séria, mas descompromissada. A crônica é uma melodia assobiada por acaso. Às vezes, é uma verdadeira assobiofonia. Às vezes, não passa de um vento sibilante.

Nada disso importa. Quer dizer, importa, mas não aqui e agora.

Quero ir por um caminho novo, de reflexão. O leitor pensará: quanta pretensão e ignorância. É verdade, a crônica não faz outra coisa que não seja refletir, ainda que, no mais das vezes, sobre as minudências da vida. Apaguem então essa coisa de caminho novo. A crônica é humilde; seus escritores, nem sempre.

É o seguinte: nós – os cronistas também – não tivemos uma vida fácil durante os quatro anos nos quais o Brasil foi governado pela extrema-direita – a onda não passou, bem sei, mas estou pensando na escuridão que se estendeu de 2019 a 2022. Na realidade, fomos sequestrados por aquela gente. Em vez de olharmos o passarinho bicando a cacunda de um pedestre de cabeça baixa atraído pelo celular, tínhamos de lidar com as mentiras criadas aos borbotões. Em vez de nos determos na conversa da mesa ao lado, subíamos pelas paredes com as pretensas piadas do despresidente. Em vez de acompanharmos a beleza juvenil do casal que andava balançando suas mãos dadas, engolíamos seco as estatísticas de morte pela Covid (uma bobagem, segundo eles).

Se eu fosse fazer o terceiro livro de crônicas, teria uma dificuldade adicional. Digo adicional porque um livro de crônicas sempre nos coloca uma dúvida: elas sobreviverão? No futuro – que pode ser imediato –, os possíveis leitores compreenderão o quê de poesia, de graça, de reflexão o texto carrega? Eis o perigo. Mas, depois dos quatro piores anos da vida pública brasileira pós-democracia, montar um livro com as crônicas daquela época pode resultar numa antologia mal-humorada, revoltada, chiliquenta: tudo que a crônica não é ou não quer ser.

O Xico Sá, por exemplo, lançou recentemente, pela e-galáxia, “Cão mijando no caos”, uma reunião de crônicas escritas ao sabor da indignação. A meu ver, o livro não sofre dos problemas que antevejo porque seu autor recorre ao humor, sem cair numa espécie de fuga, além de se valer de uma escrita rica, inteligente, surpreendente até. Xico Sá nasceu no Crato – uma das cidades do Cariri, Ceará – e, ao assistir a seus parentes receberem o canudo universitário, ouve os ecos do discurso de David Foster Wallace lido em uma formatura nos Estados Unidos. É nesse cruzar de mundos e referências que suas crônicas fogem do lamento, ganham estilo e se sustentam.

A julgar pela crônica-prólogo, Xico também se preocupou com essa coisa de reunir a escrita “daqueles tempos”. Começa assim: “O cão é a crônica da ressaca cívica”. Mais adiante afirma: “Em alguns momentos, o presente volume pode lembrar certos relatos de náufragos. (...) É simplesmente uma narração, quase radiofônica, de como sobrevivemos ao desespero”. É explícito aqui: “Contém, e fica a advertência, fragmentos do discurso de amor & ódio, além de um rastilho de ressentimento”. E esclarece finalmente: “Aqui estão os textos escolhidos para recontar esse tempo agonizante que durou um século. Na política, nos relacionamentos, nos costumes, no amor, no sexo, na falta de erotismo, na sacanagem propriamente dita”.

Quando olho o que escrevi naqueles quatro anos com peso de cem, na boa medida do Xico, não me parece que equilibrei os pratos tão bem quanto ele. Que “Cão mijando no caos” (título tirado de um poema de Drummond) fique como testemunho incerimonioso e lamúria contida de nossa dor coletiva. Vou olhar para a frente, sei lá, vai que passa aqui uma menina conversando com uma borboleta, que por sua vez conversa com um pernilongo, que por sua vez não fala nada, resguardando-se para os zunidos noturnos. Eu vivo melhor – e quem sabe escreva melhor – quando posso, sem culpa, voltar minha atenção para essas trivialidades.




13.7.24

Casa 11

Para quem não é do Rio de Janeiro ou está por fora, preciso dizer o que é a Casa 11. É um sebo. Começou como um sebo e, em seguida, passou a vender livros novos, portanto é uma livraria. Mas, antes mesmo de se materializar, foi pensada como um centro cultural. Logo é um centro cultural.

O espaço fica em Laranjeiras, a cem metros do Instituto Nacional do Coração, um hospital público. A história começa quando uma médica, num momento de folga, bate perna pelo bairro. Ela encontra, numa galeria antiga e aconchegante, uma pequena loja vazia, o que a faz se lembrar da livraria que manteve por longos anos em Santa Teresa. Nostálgica, volta ao hospital e comenta com outros médicos o ocorrido e os provoca: por que não abrir ali um sebo em sociedade? Poderiam formar o acervo inicial com livros que tivessem em casa e receber doações. O custo de manutenção da loja, por sua vez, seria cotizado entre eles. Logo havia um bom número deles disposto a embarcar no sonho. E não demorou muito para não médicos também se incorporarem ao grupo. Não sei quantos são ao certo, mas a Casa 11 tem mais de cem sócios (algumas cotas são compartilhadas por mais de uma pessoa).

Vai dar errado, vaticina a pessoa que tem na cabeça sociedades ambiciosas por lucro e eficiência, a métrica capitalista. Na Casa 11, não se busca o lucro, que, claro, vem. Basta vender um livro e há uma sobra, não é? Mas, no caso, essa sobra ou cobre os custos (que os sócios estão dispostos a bancar) ou se transforma em novas compras. Mais que vender livros, a ideia é movimentar a cena.

A inauguração foi um festão. Havia música, vinho, abraços, encontros. Vez ou outra, promovem festas e já são uma referência em matéria de lançamentos e mesas de bate-papo. Além disso, o nome passou a circular pela cidade, parou em jornais, enfim, a maioria das pessoas já sabe o que é. O antinegócio deu tão certo que alugaram a sala ao lado, a ser inaugurada em breve, provavelmente com festa.

Como se não bastasse, a Casa 11 promove eventos em outros lugares, como foi a recente Festa Literária de Laranjeiras, da qual falo em seguida. Antes pontuo que o tema do empreendimento nefelibata é “mais livros, menos farmácias”, uma cutucada no fato de que no Brasil as farmácias prosperam a olhos nus. A doença pode ser curada com leitura, contrapõe a sociedade dos médicos amantes dos livros.

Com esse espírito, a Casa 11 organizou a festa literária, na qual livreiros vizinhos (como os do Jacaré Livros) e um pessoal ligado à gastronomia se juntaram. As palestras privilegiaram a experiência com mediação de leitura em lugares normalmente excluídos dos investimentos culturais, as favelas, em particular, deram destaque à literatura indígena e, fiel ao slogan, à relação entre saúde e literatura. Ainda que um amigo tenha criticado a ausência de referência a escritores locais – Machado de Assis, do Cosme Velho, bairro adjacente a Laranjeiras; Sérgio Sant’anna, de Laranjeiras, entre outros que têm os pés no bairro –, o que é uma boa observação, isso não diminui o caráter inovador da proposta.

Passei por lá, embora não tenha podido ficar muito tempo. Vi a mesa sobre mediação de leitura e ouvi o coral do São Vicente (escola do Cosme Velho, que fica defronte ao prédio erguido no terreno da casa de Machado). Já conhecia o coral, pois filhos meus estudaram lá, mas, entre a última vez que o ouvira e a recente, percebi uma evolução impressionante. É verdade que havia um elemento emotivo muito grande: foi a primeira apresentação do grupo depois de duas de suas cantoras terem falecido, uma delas muito minha amiga. Além disso, cantaram Milton Nascimento.

Antes do coral, assisti a uma parte da mesa “Mediação de leitura e cidadania: use sem moderação”, organizada por Bia Serra, com os palestrantes negros Vanessa Soares, Otávio Junior e Maria Chocolate. Quando cheguei, Vanessa Soares terminava sua fala. Ouvi então os outros dois. Otávio Junior é bem conhecido, e sua experiência está contada em “O livreiro do Alemão”. Morador do Complexo do Alemão, fominha de bola, com sonho e capacidade de ser jogador de futebol, seu caminho sofreu uma inflexão ao encontrar um livro abandonado no campo da pelada. Não custou muito a se perguntar por que os livros não narravam histórias de meninos como ele – o que lançou na feira é sua tentativa de ocupar esse espaço. Otávio é um sujeito objetivo, ainda que fale com emoção. Já Maria Chocolate, uma senhora assim da minha idade, sessenta e alguns anos, é puro transbordamento. Filha de pais analfabetos, ouvia a profecia da mãe de que seria professora, o que parecia um disparate – como, no meio de tanta penúria? Pois aconteceu. E foi além: um dia montou, na varanda de sua casa, num bairro pobre de Caxias, uma biblioteca, onde orienta crianças em suas leituras. Dona Maria Chocolate, que também lançava um livro, se espanta com a própria trajetória: acabou reconhecida (seu espaço foi visitado por Ziraldo, entre outros), mesmo fazendo tudo de forma precária. É um depoimento comovente. O que veio a seguir, o coral, a ausência de minha amiga e a música do Bituca elevaram aquela comoção inicial ao quadrado de mil, a ponto de eu não conseguir esconder minha emoção e de uma das cantoras (outra minha amiga), lá do palco, percebê-la.




29.6.24

Ônibus em festa

 

Para Shirley


Como ando bastante de ônibus, coleciono suas histórias e transformo algumas em crônica. Mais de uma vez, estive nas mãos de um motorista que não sabia o caminho e dependia da boa vontade dos passageiros. Ouvi diálogos estranhos e até um monólogo sui generis: uma mulher, assim do nada e falando com ninguém, passou a chamar a atenção de Lula, em seu primeiro ou segundo mandatos, para o fato de que, quando aqui é manhã, no Japão já é noite. Na avaliação da passageira, um atraso para o qual o presidente deveria abrir bem os olhos. Durante uma chuva de verão, vi a água entrar pela escada de acesso ao ônibus – um modelo moderno, rebaixado de modo a facilitar a entrada de idosos, mas que não vejo mais em circulação –, como se fosse um passageiro que, em vez de pagar, passa por baixo da roleta. Na crônica anterior a esta, comentei sobre o casal que, ao descer de um ônibus, se mostrou perdido em Botafogo.

O ônibus, mais uma vez ele, dita a crônica de hoje. Aconteceu no dia em que o Chico Buarque completou oitenta anos, o Botafogo arrancou, no último segundo dos dez minutos de acréscimo, um empate contra o Athletico Paranaense e eu havia ido ao lançamento do novo romance do Haron Gamal (“Lucarna”, editora Cajuína). Aliás, uma reunião agradável, com seus cálices de vinho e uma conversa afiada que nos levou a Tomas Mann, cuja mãe, Julia, nasceu no Brasil, em Paraty. Nos lembramos de “Ana em Veneza”, romance no qual João Silvério Trevisan nos conta, a partir da mudança dos Mann do Brasil para a Alemanha, o encontro de Julia, de Ana, a escrava levada daqui para lá, e do compositor brasileiro Alberto Nepomuceno. Embasado em vasta pesquisa, Trevisan, ao confrontar o fim dos séculos XIX e XX e manobrando ficção e ensaio, produziu, a juízo de Haron e meu, um clássico.

Na saída do lançamento, peguei o 435, Gávea-Grajaú. Mal entrei, o motorista falou alguma coisa que não captei o que era. Na continuação da viagem, supus que havia feito alguma graça, pois ele brincava com todo mundo. Prestei mais atenção quando entrou um vendedor. Antes de anunciar seus produtos, ele se aproximou da roleta e, como é de praxe e em agradecimento, ofereceu um doce a quem lhe franqueara a entrada. Os dois trocaram um dedo de prosa. Como tudo foi falado em voz alta, soubemos que o condutor por dezoito anos esteve naquele corre do vendedor. Terminada a conversa, os produtos foram anunciados sem que ninguém tivesse comprado uma mariola sequer. O vendedor desceu ouvindo as palavras animadoras do colega – “vai com Deus, tudo vai dar certo”. Em seguida, um menino sentado à minha frente abriu a janela e muito educadamente foi repreendido. O ar estava ligado, alertou o condutor. O menino entendeu o que era para ser feito, e a mãe, que estava noutro banco, ouviu um tremendo elogio – “que orgulho de garoto!”

Entraram, então, duas mulheres vestidas para festas juninas – uma de vestidinho de chita florido, a outra de chapéu de palha, cavanhaque e bigode pintados a lápis e, como se dizia na minha infância, calça rancheira. O motorista as recebeu com entusiasmo. Num instante os três cantavam músicas de São João, Santo Antônio e São Pedro e, no instante seguinte, éramos informados de que Nilson – acho que era esse seu nome – fazia anos. O ônibus inteiro entoou o Parabéns. No ponto seguinte, o motô – como são carinhosamente chamados pelos cariocas – se levantou, chamou a mulher mais tagarela, a vestida de homem, abriu os braços para ela, que não furtou de se aninhar no abraço, e disse que nunca havia dirigido num dia tão bom, que a vida era mesmo bela. Ela, por sua vez, confessou que seria difícil abandonar aquele mundo e externou seu desejo de continuar com ele naquela viagem e nas próximas. Antes de voltar à direção, ele fez uma imitação de Silvio Santos e nos autorizou a chamá-lo pelo nome do apresentador, uma vez que os amigos assim o faziam. As mulheres desceram no próximo ponto, mas antes deram o endereço de suas casas, novamente em voz alta e sem a menor preocupação. Uma vive no Tabajaras, a outra na Figueiredo Magalhães. Essa coisa do endereço foi importante porque uma delas esqueceu uma marmita, e Silvio Santos – em versão melhorada, negra, gorda e risonha – se prontificou a deixá-la na portaria da casa da passageira quando repassasse por lá.

Naquele dia, eu carregava uma tristeza profunda, que cresceria ainda mais na manhã seguinte: a dona do abraço mais expressivo do mundo desceria dessa espécie de transporte que apanhamos por acaso, não sabemos para onde nos levará e do qual, de supetão, somos atirados fora: a vida. Aquele alvoroço radiante da pequena viagem serviu de contraponto a meu pesar. Ainda no ônibus, revi a visita ao hospital no dia anterior. Minha amiga me deu um abraço quando cheguei, outro quando fui embora. Como sempre fazia, como nunca mais fará. Dessa vez, além do costumeiro acolhimento, repousou sobre meu corpo um conselho: que eu perseverasse na alegria, no molde do motorista do 435, das festeiras de Copacabana, dessas pessoas de quem minha amiga não teve tempo de ouvir falar.

28.6.24

A Ribeirinha (*)


(Antonio Barreto)


No mundo, disso não há semelhança:

enquanto vou vivendo de esperança,

por ela vou morrendo – e... ai!

 

Minha senhora clara e rosada,

como queria descrevê-la, e tanto

só eu sei quando a vi sem manto!

 

Infeliz do dia em que me levantei

e a vi assim tão bela, tão corada!

 

Minha senhora, desde aquele dia, ai,

me senti bem mal, comigo ausente.

 

Ela, filha de Dom Paio

Moniz, bem parecida

por seus modos, de luxo assim vestida.

 

E eu, minha senhora, um presente

de si nunca poderei ter, nem dar:

a não ser alguma coisa reles,

sem valor, insignificante!

Ay!


(*) BARRETO, Antônio. A ribeirinha. [Adaptado da obra do poema de] TAVEIRÓS, Paio Soares de.

15.6.24

Perdidos em tempos eletrônicos

Espero no ponto o 409 ou o 410. Se há alguém que me acompanhe e que, me acompanhando, retenha algum detalhe de minhas crônicas, ele ou ela talvez saibam que estas são as linhas de ônibus que uso em meu trajeto casa-trabalho-casa.

Depois de me acomodar numa ou noutra condução, saco um livro da mochila ou chafurdo no celular ou simplesmente aprecio a paisagem e, não demora muito, desço na primeira parada da Lapa, ando uns 500 metros e chego ao trabalho. Costumava alterar o jeito de voltar para casa, em vez de ônibus, tomar o metrô, mas a tarifa deste está pela hora trágica da morte sofrida e súbita, três reais mais cara que a do ônibus. Pasmem, o metrô – de extensão tímida numa cidade com tantos problemas de transporte público – tem o mesmo preço do trem que circula entre a Central e o subúrbio, ou seja, a turma que mora longe, que ganha menos, se virando em trabalho pouco qualificado, gasta o mesmo que os mais afortunados. Somos uma nação cruel. Seja como for, tenho voltado de ônibus para casa, opção, aliás, muito boa, pois dele se pode ver gente, assim como no metrô, mas principalmente pode-se apreciar a paisagem, um privilégio de quem vive nessa cidade que, de tão bela, faz cair o queixo até de um Noel Rosa e arranca lágrima dos menos emotivos.

Peço a compreensão de quem passou pelas linhas inúteis anteriores e uma segunda chance, não era nada disso que gostaria de dizer, me perdi mal comecei a crônica, mas, uma vez dito, dito está. Continuem comigo, por favor.

Espero no ponto o 409 ou o 410. Antes de um deles chegar – será o 410 – encosta o 309. A viagem nesta linha leva, do início ao fim, mais ou menos 1h30m – num percurso, entre o terminal Alvorada, na Barra, e a Central do Brasil, com mais de 70 paradas – e nela vão verdadeiros estrangeiros. Digo isso porque a pessoa que toma o coletivo na Barra – às vezes vindo do Recreio, de Curicica, de Santa Cruz, sabe-se lá de onde –, não conhece muito bem São Conrado, Gávea, Jardim Botânico, Humaitá, Botafogo, Flamengo, Glória e o Centro, os bairros pelos quais o ônibus passa. Essa parece ser a situação do casal que, ao saltar, se vê largado na rua e não na calçada. A senhora logo sobe para o espaço dos pedestres, o senhor fica no dos veículos, coladinho ao passeio. Ele olha abismado para um lado e outro. Vê um supermercado ali, um banco aqui. Uma perfumaria à esquerda, uma lanchonete à direita. Experimenta o mundo como se acabasse de chegar a ele. Já a senhora excede em objetividade. Olha para cima, olha para baixo e pronto: aponta o sentido da praia, para onde começa a caminhar. O senhor dá umas cabeçadas antes de segui-la.

Fico espantado por não terem tirado um celular do bolso e consultado o mapa. Ou mesmo já descerem com a lição tomada, numa consulta prévia feita no percurso que, da Barra a Botafogo, deve ter consumido mais da metade do tempo total da viagem ponta a ponta. Pode ser que não tenham intimidade com o aparelhinho que controla a nossa vida. Duvido. A julgar pelo jeito aéreo do senhor, imagino que, se tivesse um, mesmo folheado a ouro, o teria sacado e, na rua, não na calçada, começaria a consulta. Um homem daquele, que faz pouco caso de um atropelamento, não há de temer trombadinha, nem os de terra estrangeira. Ou teme tanto que deixou o celular em casa. Fica o mistério: por que não fizeram uma consulta rápida e eficiente, antes ou naquele momento?

Vão pelo faro da mulher, é o que sei dizer. Meu 410 chega, entro, pago, consigo me sentar, sacar o livro do Leonardo Almeida Filho, Berro (Editora Patuá), e começar a lê-lo. Em um segundo, a leitura me deixa encantado com a engenharia amorosa usada por meu amigo na construção de seus contos – já lhe deram um prêmio? Pois deem. Preso ao texto, nem namoro o Aterro, ou seja, abstenho-me da paisagem. Se não desfruto da beleza, poderia ter optado pela rapidez do metrô, embora, claro, de ônibus economize três pratas, o que, na atual circunstância, faz diferença.

Depois de saltar da condução e antes de me ajeitar na mesa do trabalho, volto a pensar no casal e, a partir dele, nas formas que inventamos para nos localizarmos em território desconhecido. Antes da facilidade do mapa eletrônico, havia o mapa em papel – tenho dificuldades em consultá-lo – a bússola – essa, que a meu juízo continua a falar mandarim, não deve levar ninguém da Torre Eiffel ao Museu Rodin ou do Recreio a uma rua de Botafogo – e, antes deles, as estrelas. A história humana talvez possa ser contada a partir da evolução das ferramentas de localização. No meu caso, no tempo anterior à traquitana eletrônica, sempre apostei na intuição, igual ao casal. Orgulhoso, nem perguntar a um estranho perguntava, o que já gerou conflito aos que, com espírito científico, caminhavam comigo. Nunca deixei de chegar ao destino, não sei se pelo melhor caminho, mas isso não importa.




3.6.24

Paul Auster e eu

No dia 30 de abril, aos setenta e sete anos, Paul Auster morreu em Nova York. Diante da notícia, me dei conta de que havia lido apenas um de seus livros, talvez o mais incensado, “Trilogia de Nova York”. Não bastasse a lacuna, nada me lembro daquela leitura, que deve ter ocorrido no final dos anos 1980 ou no máximo no início da década seguinte.

Na bagunça das minhas estantes, busquei seus livros e, para minha surpresa, não só tenho alguns, como estão na parte organizada da biblioteca. Peguei “Invenção da solidão” (Companhia das Letras, com tradução de Rubens Figueiredo) e li de uma sentada.

Na primeira parte, Auster conta como viveu o momento da morte do pai, relembrando a figura um tanto quanto ausente ao longo de sua vida. Em contraposição, mergulha na sua relação com o filho, buscando saber se cometia os mesmos erros do pai. Terminada essa narrativa reflexiva, passa a escrever um misto de romance e ensaio. Sua escrita então – distribuída em treze partes a que chama de livros da memória –, valendo-se de outros escritores, de obras como a Bíblia e Pinóquio, de suas memórias e a de seus familiares, lida com a questão da coincidência, que de forma muito própria reforça e é reforçada pela solidão.

A coincidência é o fio que une as peças soltas da memória, o que o leva a dizer: “Memória: o espaço em que uma coisa acontece pela segunda vez.” Aproveitando a deixa, abandono o caminho de uma resenha ou coisa que o valha para contar   uma coincidência entre uma parte do romance de Auster e um conto meu. Ele escreve:

 

Não se tratava exatamente de estar morto, mas sim de que ele ia morrer. Isto era certo, um fato imanente e absoluto. Estava deitado em um leito de hospital, acometido por uma doença fatal. Seu cabelo tinha caído em certas partes do crânio e sua cabeça estava meio careca. Duas enfermeiras vestidas de branco entraram no quarto e lhe disseram: "Hoje você vai morrer. É tarde demais para ajudá-lo". Eram quase mecânicas em sua indiferença em relação a ele. A. chorou e implorou às enfermeiras: "Sou jovem demais para morrer, não quero morrer agora". "É tarde demais”, responderam as enfermeiras. “Agora temos de raspar sua cabeça." Com lágrimas escorrendo dos olhos, ele as deixou raspar sua cabeça. Depois elas disseram: "O caixão está logo ali. Vá até lá e deite-se dentro dele, feche os olhos e logo você vai estar morto". A. queria fugir. Mas sabia que não era permitido desobedecer às ordens delas. Foi até o caixão e entrou. Fecharam a tampa sobre ele mas, uma vez lá dentro, ficou de olhos abertos.

Então acordou pela primeira vez.

 

Em março de 2024, quase dois meses antes da morte de Auster, escrevi o pequeno conto a seguir.

 

Olha, a enfermeira falou. Aflitos, meus olhos começaram a procurar alguma novidade naquele espaço tão exíguo. Ela fez um sinal para que me acalmasse e a escutasse. Olha, na realidade, era ouça. Respirei fundo tentando deter a excitação momentânea e rara. Mirei os olhos da enfermeira e de lá entrei em seu interior. Seu fígado não tinha marcas de excessos, bactérias ruidosas percorriam o longo caminho do intestino e o coração era uma criança cujos braços estavam estendidos pedindo o colo da mãe. Com sua voz suave, mas impositiva, ela me devolveu ao exterior. Olha, repetiu, você vai morrer hoje à tarde. Morrer hoje à tarde, morrer hoje à tarde, ecoou nos meus abismos. Morrer hoje à tarde. Tomei uma de suas mãos. Ela sobrepôs a sua outra sobre a minha, e eu levei a minha ainda solta para junto das demais. Poderíamos começar uma brincadeira dessas que se fazem com as mãos, mas não, não brincamos. Reunidas, nossas mãos formaram um pequeno totem sem adoradores. Uma lágrima brotou no cantinho de um dos meus olhos e, sem que nada a detivesse, foi serpenteando minha face, escorreu pelo pescoço e, fina, nem gelada nem quente, não demorou a sumir. A enfermeira pegou uma toalha de rosto, enxugou um pouco minha testa e as pontas do cabelo que se espalhavam sobre ela. Meus cabelos, eu via pela manhã, quando pedia um espelho para me ajeitar um pouco, estavam pastosos, evidenciando a sua permanente quase sujeira. A enfermeira por fim repousou os lábios em minha testa e a beijou com ternura. Meu longo suspiro talvez tenha rompido os limites do cômodo e chegado a um pássaro, a alguém no corredor, ou simplesmente se perdido no ar como todo som. Não posso morrer na quinta? Ela pareceu se assustar, mas logo seu semblante distendeu e anunciou um sorriso que não veio. E o que você fará com essas quarenta e oito horas? Ou melhor, trinta e seis, você ainda tem as doze de hoje. Fechei os olhos, como se assim me liberasse de respondê-la e ela entendesse aquilo como um último pedido. Eu a ouvi afastar-se da cama, mexer no sofá, recolher coisas, abrir e, em seguida, fechar a porta quase sem fazer barulho.

 

Auster não defende tese alguma, mas se encanta com a realidade e se espanta com o convulso mundo da escrita. Compartilho da mesma sensação e sigo. Este texto é seu, Mr. Paul.

20.5.24

Morte de famosos

 

I

Quando Senna morreu, eu comprava pão numa padaria que não existe mais.

II

Zé Luís chorava como se houvesse perdido a pessoa mais íntima e amada. Sem chorar – era o tempo de minhas securas, que de certo modo continua –, mas dilacerado, me curvei à dor do amigo. Depois, bem depois, fui viver o meu luto pela morte da Elis.

III

Lennon, Lennon, e agora?

IV

A morte de Tom Jobim botou fim à minha ilusão de tomar um chope com ele e João Ubaldo no Leblon. Naquele dia, perdi grande parte de minhas pretensões e fui ser escritor, poeta capenga, a meu modo.

V

No dia da morte do Ziraldo, pensei muito em Drummond.

VI

Paul Auster me ensinou a ver diferente o lugar sempre igual.

VII

Como ficaram as baratas que Clarice Lispector herdou de Kafka?

VIII

Não chorei a perda de Cássia Eller, pois estava ocupado com a morte de um amigo. Assim, penso que, apesar de um pouco recolhida, ela está viva.

IX

Sem Philip Roth, a que tamanho desamparo foi lançada a literatura!

X

Itamar Assumpção não escapou ileso da vida, doeu-lhe tudo, até o dom. Não são palavras minhas, mas dele. E eu, o que digo? Nada. Danço e me espanto com seus achados, sua poesia.

XI

Sem ter conhecido Chico Mário, fui ao seu velório porque a história dos irmãos hemofílicos e com Aids nos sensibilizava a todos e, além disso, amigos trabalhavam no Ibase, que eu frequentava, conhecia o Betinho.

No velório, não me lembro de ter encontrado conhecidos. Caminhei incógnito entre as pessoas. O filho do Mário puxava o cortejo, e, em suas mãos, um gravador tocava repetidamente Ressurreição, música do pai.

XII

Afonsinho — craque do meu Botafogo, o sujeito que, em tempos ditatoriais, lutou pela profissionalização dos atletas — chegou de ônibus a Santos, pegou, sem nenhum privilégio, a fila imensa dos que velavam Pelé. Ao passar pelo caixão, despediu-se do Rei com palavras que só Afonsinho sabe quais foram.

XIII

Gal Costa levou de roldão uma voz, uma boca, um quê ainda sem nome.

XIV

Rita Lee foi minha primeira namorada, ainda que ela não fosse um porquinho-da-índia nem eu um cadinho Bandeira.

XV

Um dia, numa conversa com alunos do ensino médio, uma menina que parecia a porta-voz da turma me perguntou se eu conhecia algum escritor famoso. Talvez esperassem o nome de um desses youtubers ou de escritores que por alguma razão se tornam celebridades. Mas eu só tinha você, João Gilberto Noll, para oferecer a eles. Assim mesmo não o tinha mais.

XVI

Não há morte de famoso que tire meu luto pelo Rio Grande do Sul.

14.5.24

Resenha Aí onde não cabe (Editora Patuá) - Mário Baggio

 

AÍ ONDE NÃO CABE” (Patuá, 2024), duas novelas de Alexandre Brandão

 

A prosa de Alexandre Brandão é tão instigante quanto sua poesia. Os poemas de “O sol pelo basculante” (2022) davam conta, com alguma ironia e muita melancolia, do período medonho da pandemia. O luto estava explícito ali, em versos doloridos, assim como a memória da infância e da juventude num tempo em que a vida era muito mais suportável e fácil de ser vivida.

“Aí onde não cabe” traz um elemento novo — o estranhamento, esse poderosíssimo recurso narrativo que atiça a curiosidade do leitor —, a começar pelo título geral do volume (onde é “aí”? o que não cabe aí?) e pelos títulos individuais das novelas (são duas): “Zerinho ou um” e “O anjo ouve os noturnos”. Os dois textos estão impressos nos lados opostos do livro, isto é, termina-se a leitura de um e vira-se o livro de ponta-cabeça para começar a leitura do outro. O leitor acha estranho, mas gosta. Muito.

Em “Zerinho ou um”, Dico e Blasco protagonizam um estranho “se eu fosse você por um dia”, como se um espelho mágico devolvesse a cada um a imagem que o outro queria ter. Dico está acossado pela inadequação na vida e almeja radicalizar o seu “estar no mundo”, em que a liberdade é inegociável; Blasco, em infinita solidão e abandono, tira, por acaso e sem esperar, uma sorte grande. Num determinado momento os dois se encontram, e é quando o espelho faz sua arte: reflete o duplo, ou melhor, o avesso, ou melhor ainda, o complemento. Um encontro estranho, diga-se, que trará desdobramentos inesperados para os dois personagens. Nesta novela, o autor deita e rola no nonsense e brinda o leitor com uma história deliciosamente estranha, cheia de ironia e humor.

Em “O anjo ouve os noturnos”, Clara, após a morte do pai, cuida de limpar as gavetas do escritório em que ele trabalhava. Encontra um envelope lacrado e, ao abri-lo, sua vida vira do avesso. Tem início uma trama policial insólita e estranhíssima, cheia de personagens dissimulados e, como nos filmes noir, nunca são o que aparentam ser e sempre escondem algum segredo. Uma trama que dificilmente terá fim, cabendo ao leitor determinar onde está o ponto final numa história que, se tem um clichê como pontapé inicial (um envelope misterioso entre os pertences de um morto), vai se desenrolar de modo absolutamente original. O estranhamento seguirá com o leitor muito tempo depois de finalizada a leitura.

As ilustrações de Ricardo Tamm, em determinados pontos das duas novelas, acentuam o estranhamento. Assemelhadas a rabiscos, são imagens que ora antecipam algumas ações, ora funcionam como conclusões no sentido de perguntarem ao leitor: “Eu não disse?” O leitor acha estranho, mas gosta. Muito.

 

Mário Baggio

Resenha de Aí onde não cabe (Editora Patuá) - Ione Mattos

 OPINIONE

29_02_2024

 

“aí onde não cabe”, uma bem armada confluência entre duas novelas de Alexandre Brandão e ilustrações de Ricardo Tamm, mexeu comigo. O conjunto, em um único volume de dupla face, me propôs, ou eu mesma me propus, não sei precisar, uma experiência entre personagens comuns e cotidianas, vivenciando desconfortos em que “o absurdo perde a modéstia”, como já o disse Nelson Rodrigues.

No design do livro, as novelas “zerinho ou um” e “o anjo ouve os noturnos” estão de ponta-cabeça uma em relação à outra. Marcando fronteiras e organizando meu olhar, a capa de “zerinho ou um” abre para “o anjo ouve os noturnos”, e vice-versa. Hum... ─ cismei eu, não são dois em um. São um em dois.

Começou por aí, pela materialidade do livro em minhas mãos, a minha aproximação com os textos e as pistas da ilustração: setas apontando circularidades, interseções, convergências, só tomando forma concreta onde a lâmina corta (de ambos os lados, dividida), obrigando-me, para seguir, a revirar o volume e correr páginas onde as linhas desenhadas sugerem mãos trêmulas que se sobrepõem, mas jamais se entrelaçam.

Sim, as novelas não se tocam: não é o mesmo enredo, não se repetem as personagens, tampouco os tópicos são similares. Mas as ilustrações, garatujas intencionais, unem-se à narrativa para sugerir-nos a interseção em uma dimensão mais ampla, tal como costuma acontecer conosco e nossas histórias pessoais: individuais na medida limitada de nossa posição nos acontecimentos, coletivas no ambiente que as contextualiza e determina. Afinal, todo acontecimento esconde modos de vida e os modos de vida nunca são individuais, e sim sociais, relacionais.   

Dico e Blasco, as personagens de “zerinho e um”, ocupam um lugar específico na estrutura que os situa, espaço que não é o de Clara e demais personagens de “o anjo ouve os noturnos”, daí a diversidade dos enredos. O que essa diversidade desvenda, no entanto, são os condicionantes comuns, que tornam inconsequentes as buscas por uma saída. Estão todos (ou estamos todos?) presos nessa trama coletiva, os esforços e as vias por uma saída pessoal tornando-se respostas que nada podem diante do todo.

Leituras instigantes, as novelas somam, em doses variadas, as facetas que há tempos admiro nos textos de Alexandre ─ o ficcionista, o poeta, o cronista, faces de perspectivas de humor sutis e inusitadas.

Ali estão as construções poéticas: “o silêncio, esse específico, tornava-se uma necessidade premente”; “sorrir subestimava a sua alegria”; “inocente chão de estrelas e luas”; “casa sem rosto”; “o cansaço não lhe fazia sala”...

As observações singulares: “tropeçava no pé dos próprios problemas”; “livrara-se da fome sem fim dos boletos”; “não comungava mais de nenhum pingo de ontens: era o homem do ali em diante”; “não se pode pedir lucidez a um homem distraído”; “o coração de quem perdeu os olhos está mais protegido que o de quem não vê”.

A ironia do humor: “─ O que sou por fora, sou por dentro. ─ Existe gente assim? ─ Devo ser um teste de Deus.”; “─ Pago o olho da cara por ele. ─ Os dois?”; “não era um pássaro, muito menos um galo, quem cantou ali foi sua culpa”; “a felicidade, tudo indicava, custava o preço de uma faxina”; “todo pensamento de cão, ou de cães famintos, não passava de um pedaço de osso”; “o esperado diapasão masculino, ora falando de mulheres, ora de futebol”...

Contudo, desta vez, os textos estão construídos também sobre estranhamentos, dos quais destaco a atmosfera como elemento de cena nos noturnos de múltiplos sentidos. Não somente externos e sonoros, como os de Chopin e da noite, mas internos e viscerais, como os que vivem nas pessoas, tantas vezes indecifráveis como as sombras e a escuridão. Para quem Clara, a narradora, afinal se dirige: “Que os Noturnos me consolassem. Ou me tornassem bárbara”. Fascinantes e selvagens noturnos. 

Ambas as novelas, nas vozes dos narradores, são não apenas provocativas das nossas curiosidades e emoções, mas igualmente subversivas em relação aos nossos padrões de realidade, convites abertos ao imaginário: a interpretação fantasiosa dos fatos, as indagações sem resposta, os comportamentos nonsense e as percepções sem sentido. Uma boa mexida na cabeça e nas emoções do leitor.

4.5.24

Encontro #2

Sou a praça do encontro no qual um fato do final da década de 1980 faz piquenique com outro, de mais ou menos trinta anos antes.

1987, 1988. Frequento a Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC), uma das pioneiras no Rio de Janeiro. Lá conheço minhas amigas do futuro Estilingues, grupo que começa como uma oficina literária permanente, com reuniões às quartas-feiras na casa da Marilena Moraes, as Quartalenas, adaptação do Sabadoyle. De tempos em tempos, convidamos alguém para nos acompanhar. Nilma Lacerda é a última, e ela não demora a saltar o balcão e se juntar a nós, abandonando o papel de orientadora. Somos então sete; hoje, o que nos dói demais, seis. Trinta e sete anos depois, os encontros são esporádicos, mais para compartilhar a mesa de vinho e queijo e darmos notícias de uns aos outros. Todos continuamos no mundo da literatura ou da fotografia e das artes plásticas.

Antes do Estilingues, ainda na OLAC, nossa orientadora é Maria Amélia Mello, autora de “Às oito” (Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras), um pequeno livro de contos, e, já então, uma editora importante. Além de definir os temas dos contos a serem desenvolvidos e comentar os escritos, nos orienta com leituras e, aqui e ali, leva alguém para conversar conosco. Victor Giudice é um deles. Bom de prosa e de rica experiência, nos deixa excitados com a ideia de pertencer ao mundo da literatura. Como as duas horas do encontro são insuficientes para satisfazer a nossa curiosidade, em vez da esticada no boteco de sempre, vamos a minha casa.

Sem a existência dessas entregas cômodas aos ébrios de ocasião, corremos ao bar da frente e, pedindo uns cascos emprestados, compramos a meia, a dúzia, a dúzia e meia de cervejas. Para receber troco em dinheiro, pagamos com cheque de valor superior ao da compra. Resolvida a logística alcoólica e do tira-gosto, nos espalhamos pela pequena sala, uns no sofá, alguém na cadeira de balanço, outros nas cadeiras da mesa de jantar e os destemidos largados no chão. Victor continua o centro das atenções.

No Banco do Brasil, trabalhou no setor de compensação. Assim, se já não estivesse aposentado, em breve os cheques usados na compra da cerveja pousariam em sua mesa para conferência do saldo. Estando tudo bem, transferiria o valor para a conta do botequim. Caso contrário, o cheque reapareceria no bar, e o dono que lutasse. Era um trabalho braçal, automático, enfadonho. Eis então que o banco cria o CCBB, local ideal para uma pessoa como ele, uma chance rara de trocar o trabalho manual pelo intelectual. O paraíso, na visão dele e dos amigos. Abraçou a oportunidade e se meteu na área de pesquisa, desfrutando das melhores condições possíveis. Só que... Depois do trabalho, onde encontrar forças para lidar com a sua literatura, seu real interesse, fonte de lucidez e fé na vida? Não, arrancarem isso dele, não. Victor deu um cavalo de pau e recuperou a função de carimbador de cheque.

2024. Leio Ágota Kristóf – não confundi-la com Agatha Christie, a inglesa das histórias de crime e suspense –, húngara que volta ao mercado editorial brasileiro pela editora Nós depois de muito tempo fora de catálogo. Em “A analfabeta” (tradução de Prisca Agustoni), livro de cinquenta e duas páginas, pequeno e intenso, ela dá um testemunho de como se tornou escritora. Tudo começa quando, aos quatro anos, se vê tomada pela doença da leitura.

Nasceu em uma família pobre, num país pobre, um pouco antes da Segunda Guerra, ao fim da qual viu a Hungria tornar-se um apêndice da União Soviética. Essa mudança dá início ao processo de analfabetização da menina prodígio. De uma hora para outra, os professores húngaros tiveram de aprender russo para ensinar a nova língua a seus compatriotas. Ágota, com vinte e um anos, o marido e a primeira filha do casal, um bebê, fugiram. Como parte de um fluxo migratório da Europa Oriental para a Ocidental e com a ajuda de um coiote, transpuseram a fronteira da Áustria. Ao contrário das experiências recentes, com africanos ou latino-americanos, os europeus do leste eram bem recebidos, afinal abandonavam o comunismo. A escritora sofreu muito, mas não lhe viraram as costas. Depois de finalmente se instalar na Suíça, Ágota enfrentou a condição de analfabeta plena. Não falava nem lia francês. Como faria sem a leitura, logo ela? Levaria um tempo até se virar na nova língua inimiga – como chama a todas não maternas –, que afinal dominaria bem, escrevendo nela, inclusive.

Durante a sua terceira alfabetização, Ágota empregou-se numa fábrica em que trabalhavam muitos imigrantes (não é de hoje, não é de hoje). O trabalho, enfadonho, não lhe roubava o cérebro e lhe dava tempo de escrever, em húngaro, poemas que enviava a um jornal de seu país ao qual tinha acesso esporádico. Ela diz: “Para escrever poesia, a fábrica é ótima. O trabalho é monótono, é possível pensar em outra coisa, e as máquinas têm um ritmo regular que cadencia os versos.”

Giudice e Kristóf, sentados num banquinho mixuruca, nessa praça de alma mole em que me vi transformado, concluem: ser bom escritor requer uma certa vagabundagem. Riem, e eu ligo a fonte de minhas águas roxas, rindo também.

20.4.24

Encontro #1

Uma frase assalta Drummond: “eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça”. Não é novato, publicou livros, sabe bem que o que lhe bate à porta é um poema. Apruma o corpo e espera os versos descerem para bicar o alpiste que espalha sobre a mesa de trabalho. Não há nada de inspiração, comprou a semente e inventou a árvore agora ocupada por pássaros famintos. Viver atento o transformou em poeta. Os versos pousam aos poucos. Drummond alimenta os mais feios e, em seguida, com um peteleco, espanta-os, manda-os de volta ao ninho. Noutra oportunidade – quem sabe ainda naquela manhã? –, é provável que os chame outra vez, pois, de repente, não serão tão feios assim. Seja como for, de longe assiste ao alvoroço faminto daquele monte de palavras, algumas já conectadas a outras, pássaros siameses. “Todas as mães se reconheçam, e que fale como dois olhos”. Tudo que recolhe guarda no bolso do paletó, um temporário alçapão de linho. A tarefa pode demorar – poeta de fibra, faz ginástica diária, está pronto para pequenas maratonas –, mas, se as inexistentes musas resolvem resguardá-lo para embates futuros, a escrita acontece num par de segundos. Pronto de vez, não, é apenas uma versão provisória, a ser revista amanhã ou depois, a primeira de umas tantas.

O final, já em verso, é um sopro a ser lançado contra furacões: “Eu preparo uma canção / que faça acordar os homens / e adormecer as crianças”. Feliz com o resultado, até mesmo excitado, o poeta, de novo menino, quer logo mostrar o feito aos amigos, à mãe, à mulher, ao porteiro do prédio, a Deus. Se faz ou deixa de fazer, depende muito do grau dessa pequena loucura. É de se esperar que, experiente, guarde os versos na gaveta e, um pouco febril, enfie-se na água fria, entorne duas doses de uísque ou, ávido por espiar o mundo que sua canção poderá tornar um pouco melhor, se debruce na janela.

Um dia o poema passa a circular. Uma mulher chora ao lê-lo. Tomado pela inveja, um poeta não sabe se beija Drummond e agradece ou se afasta-se daquele que acaba de jogá-lo na sarjeta da qual nunca se levantará. Certo é que o poema acaba lido por um carioca, adotado por Minas, com Minas no próprio nome, Milton Nascimento.

A mãe de Bituca, Maria do Carmo, foi levada pela tuberculose quando ele não tinha nem dois anos. A dona da pensão na qual ela trabalhava acolheu o menino como filho, um querido filho. Adotado por uma família, adotado por um Estado, Milton deve ter se visto naquela canção em que as mães todas, biológicas ou não, de sangue ou de terra, se reconhecerão. Ele tomará de Drummond aquelas palavras para cantá-las e levá-las a lugares aonde o poema talvez não chegue. Compõe então uma melodia. Grava a melodia. Em “Canção amiga”, não canta, como dizia Elis Regina, com a voz de Deus, sua voz é uma deusa, cuja bíblia são as palavras de Drummond.

Depois da audição protocolar, na qual, diante do cantor tão tímido quanto ele, segurou a emoção, Drummond faz outra, longe de todo o mundo, ele e o vinil. O menino toma o desejo do velho poeta e o faz ligar para Vinícius de Moraes, acostumado ao mundo musical, a quem se confessa comovido como o diabo do diabo. Ou não, o entorpecimento o leva à rua, onde gasta a sola do sapato no calçadão de Copacabana. Não tem coragem de assobiar, na realidade não sabe reproduzir a melodia. Não pode cantar aquela música ou qualquer outra, sua voz soaria como montanhas dinamitadas pelo capital, embora num tom agudo, de uma ave disposta a silenciar o céu. Chuta de leve uma lata de cerveja ou xinga em pensamento um cachorro de rua. Volta à casa e, antes de se deitar no quarto de hóspede, pede a Dolores para não ser incomodado. Agitado, vira-se e revira-se na cama. Enebriado pela vaidade, está feliz. Não é vaidade. Ou é. O que importa? Está feliz. Acomoda-se assim de lado, fecha os olhos e, numa velocidade jamais a ser alcançada ao rascunhar um mísero poemeto, dorme o sono do mundo.

7.4.24

Problemas alheios

 

Na Tailândia – especificamente na província de Lop Buri –, macacos, lá protegidos por lei, têm promovido verdadeiras guerras entre gangues. Não são raros ataques a humanos, mas a coisa fica feia mesmo durante o enfrentamento de um grupo contra o outro. O conflito não ocorre na mata, habitat dos animais, mas no centro urbano. Ou seja, você está lá no seu carro, ou pior, parado na calçada, esperando a chance de atravessar a rua, quando de repente uma horda de primatas cruza à sua frente para brigar com a outra que está bem às suas costas. Não conheço a realidade da Tailândia, portanto não posso afirmar se esse é o maior problema deles. Me arrisco a dizer que não, um país nada mais é do que um saco de problemas.

Apesar do inusitado dessa guerra nos moldes antigos, no tapa e na coragem, sem armas – alguns bichos confeccionam ferramentas para auxiliá-los em suas ações básicas, mas não sei de nenhum que produza armas –, os tailandeses deveriam agradecer pelo fato de suas ruas não serem tomadas pela polícia carioca, especializada em soltar tiros a esmo contra bandidos – verdadeiros ou inventados – nas ruas da cidade, para dizer a verdade, nas ruas em torno das favelas, principalmente em seus becos. Nem pela “nova” polícia paulista. Enquanto os macacos disputavam território, o governador de São Paulo, importado do Rio de Janeiro e com as palavras a seguir, encaminhava o pessoal dos direitos humanos à ONU ou à Liga da Justiça, ao raio que o parta, porque ele não estava nem aí com as críticas à truculência de seus comandados nas periferias. Ainda agora essa polícia matou Edneia, uma jovem de pouco mais de trinta anos, cabeleireira, com seis filhos para criar. A imprensa fala em mais um caso de bala perdida. É insuficiente a explicação, quando não cínica.

Os finlandeses são felizes, os mais felizes do mundo, constata uma pesquisa tradicional. Eu já estive lá e conheço seus dias cinzentos e frios, mesmo fora do inverno. Duvido um pouco dessa felicidade, mas não muito. Como assim? Acompanhe a historinha: num habitual dia sombrio, eu cruzava uma praça de Helsinque e, de repente, o sol se abriu. Uma mulher que ia logo adiante de mim se sentou num banco, tirou a blusa, o sutiã e ficou tomando sua carga de vitamina D. Isso, sim, me cheira a felicidade, ao miúdo da felicidade, mas quantas vezes no ano poderão se dar a esse luxo?

Igualmente não sei se o único problema da Finlândia é o frio. Sei um pouco, na verdade. O alcoolismo é uma questão sensível por lá. Quando estive no país, tinha em mente um dos episódios de “Uma noite sobre a terra” (Night on Earth), de Jim Jarmusch. O filme reúne cinco histórias, cada uma delas se passa em uma cidade, Nova York, Roma, Londres, Los Angeles e Helsinque, e os personagens estão sempre em um táxi. Pela lente do diretor americano, as ruas de Helsinque estão cheias de bêbados, o que constatei em minha visita. Se é certo que as cidades finlandesas jamais serão atacadas por macacos – podem ser por ursos e, às vezes, são – nem pela polícia vingativa e falsamente punitiva brasileira, eles têm, bem ao lado, a Rússia e sua discordância ameaçadora sobre a intenção da Finlândia de entrar para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o que veio a acontecer no ano passado. Uma bala perdida do poderio russo pode extinguir a felicidade e os bêbados da felicidade.

Minha expedição sem sair de casa à Tailândia ou à Finlândia se faz sem bússolas, até sem a orientação das estrelas. Penso na briga de macacos ou na felicidade “medida” pela estatística um pouco para não pensar, por exemplo, nas guerras entre Rússia e Ucrânia ou entre Israel e o Hamas, esta um banho de sangue cruel, comandado por um extremista de direita sem nenhuma visão além da vingança. Ah, senhor da guerra, leia “Judas”, de seu compatriota Amós Oz. Ou simplesmente leia (desconfio da absoluta falta de leitura dessa gente).

Dizem que a grama do vizinho é mais verde, mas a desgraça alheia maltrata mais do que a nossa. Penso assim? Ora sim, ora não. Vagueio, leitora, vagueio, leitor, e, com as mãos no bolso e andando de lado, chuto pedrinhas.

25.3.24

Visita ao Rio Grande do Sul

 

Voltei ao Rio Grande do Sul depois de alguns anos. Porto Alegre é uma cidade agradável, na qual, por conta do trabalho e da literatura (trabalho sem remuneração), coleciono amizades, inclusive recentes. Bia, a quem fui apresentado pela Ione – gaúcha e carioca que se conheceram no Pará –, faz parte da nova leva, mas já chegou esbanjando carinho e generosidade, parece até que nos conhecemos não é de hoje – nem de ontem.

A capital gaúcha vem renovando a área portuária, planejando inclusive erguer prédios residenciais, o que me parece uma tendência. No Rio de Janeiro acontece a mesma coisa, e não é muito diferente o que se fez em Buenos Aires e Montevidéu. No caso de Porto Alegre, já há um espaço, ao lado do Gasômetro (em reforma, no momento), cheio de bares com pontos de observação do pôr do sol. Jaqueline afirma que é o mais lindo do mundo, assim como são sem igual o vinho e o churrasco da terrinha. O carioca defenderá o pôr do sol do Arpoador, o argentino achará um acinte esse destaque dado ao churrasco. Enfim, nossas paixões nos comandam.

Talvez por eu ser mineiro, Luciano e Júlio riram de mim quando, numa parada entre Bento Gonçalves e Porto Alegre, pedi um café, um pão de queijo e, vá lá, uma cuca. Cuca, especialidade gaúcha, tem o mesmo nome de um bolo muito comum no Rio de Janeiro, mas eles não se parecem em nada. Ambos são bons, assim como era bom o tal pão de queijo comido a caminho de volta da serra – bom, mas não o melhor, lugar incontestável da iguaria feita em Minas Gerais. Aproveitando a oportunidade, a globalização do pão de queijo mineiro deve ser estudada, parece um case de sucesso.

Meus amigos gaúchos me indicaram com entusiasmo uma visita à livraria Bamboletras. Lá encontrei livros do Rubem e do Tiago – meus colegas da Rubem e com quem tomei um chopinho de leve –, além de pelo menos um da Mariana, outra da revista. Me senti bem na companhia livresca dos três. E melhor ainda ao saber que aquela livraria ocupou uma antiga igreja. Nada contra as igrejas – quer dizer, as autênticas, não as que servem de disfarce a bancos –, mas, acostumado a ver cinemas transformados em templos, essa insurgência – fato único nesse Brasil desgostoso da cultura – merece aplausos.

O trabalho me levou, vejam só, a Santa Cruz do Sul, uma cidade da qual eu nunca ouvira falar até um pouco antes dessa minha viagem, quando de lá veio à tona a censura ao “O avesso da pele”, livro de Jefferson Tenório, um escritor negro, carioca e com vida acadêmica no Rio Grande do Sul. Uma diretora de escola pública da cidade e logo depois seus iguais em escolas paranaense e goiana viram na história de Tenório uma ameaça à juventude. Os livros estão sempre na mira dos conservadores. Daqui a pouco, a pira queimará uma pilha deles, pois depois do caso Jefferson a censura continuou excitada: o Sesc tem censurado o romance do paraense Airton Souza, “O outono de carne estranha”, vencedor, vejam só a ironia, de seu último concurso literário. Ah, os livros!

Santa Cruz do Sul é uma cidade bonita, tem um igreja gótica impressionante e sua rua central é toda arborizada, um exemplo urbano. Eu e os colegas de trabalho chegamos lá à tarde e corremos para ver a igreja aberta. Íamos comentando como a cidade parecia segura quando à nossa frente nos deparamos com dois ou três carros de polícia. Custamos a entender o que se passava. Eles atendiam à denúncia do conselho tutelar de que havia uma criança sozinha na rua, não sei se mendigando. Pelo que entendi, a cidade está atenta a possíveis abandonos. Pode ser bom, ainda que, na minha avaliação leiga, as viaturas policiais são um exagero e parecem indicar que o que se tem não é zelo pela infância, mas controle sobre ela.

Dormi lá. De manhã, um monte de gente se dirigia à praça. Fiquei encafifado pelo fato de todos carregarem uma “cadeirinha de praia” (há uma grande empresa produtora na cidade). Depois percebi que havia um palanque e julguei que fariam uma assembleia – uma estranha assembleia na qual os militantes ficariam sentados. Desejei que fosse o movimento de professores contra a colega censora. Uma senhora me esclareceu que os funcionários públicos exigiam melhores salários. Agradeci a informação, dei meu apoio à causa, mas saí de lá torcendo para que a tal diretora e perseguidora da literatura não levasse o dinheirinho a mais. Ela não merece. Quanto a mim, mereci degustar um churrasco na cidade, uma coisa dos deuses.

Ao deixar Porto Alegre, peguei um Uber dirigido por um rapaz jovem, que se mudou de Uruguaiana para a capital e ganha a vida como motorista. A conversa fluiu e, por sorte, encontrei um crítico de toda essa direita enlouquecida que ainda atua no país. Em seu perfil no aplicativo, ele diz gostar de filosofia, literatura e música. Imagino estar se sustentando desse modo, mas de olho numa outra vida. Desejo-lhe sorte. No voo, a mulher sentada ao meu lado – não sei se gaúcha, mineira, carioca ou extraterrestre –, leu a viagem toda. Título do livro: “A coragem de ser imperfeito” – na sinopse disponível na internet, está escrito: “aceite a sua vulnerabilidade e ouse ser grande”. Ah, os livros!

10.3.24

Maria Escolástica

 às crianças da Palestina


Dos filmes que têm circulado, inclusive candidatos ao Oscar, “Dias perfeitos”, de Wim Wenders, com o incrível ator japonês Köji Yakusho, foi o que me tocou mais profundamente. O enredo do diretor alemão e de Takuma Takasaki se passa no Japão, com atores japoneses, equipe japonesa e falado em japonês. É quase mudo, além de ser de poucos movimentos, ao contrário do que eram as fitas de Charles Chaplin ou Buster Keaton. A música é uma personagem, a voz do silencioso Hirayama, o limpador de banheiro público em Tóquio. Tenho assistido a algumas produções ótimas, como “Pobres criaturas”, “Anatomia de uma queda”, ou a não tão ótima “Saltburn”, e o de Wenders se diferencia delas por nos convidar a buscar um cantinho, tirar os sapatos e tomar um café no mundo interior. Os outros, ruidosos na sua maioria, são de embates, de personagens que se afirmam quando lutam contra um lá fora hostil. Hirayama não quer nada disso, ainda que não seja nem tolo nem alienado. Aos poucos, temos algumas pistas de sua vida e podemos levantar hipóteses sobre por que está ali, levando aquela vida simples, rotineira, sem grandes contrariedades.

Toda noite, Hirayama sonha imagens meio tremidas, cheias de sombras. Todos os dias, fotografa as sombras formadas por uma imensa árvore (a questão das sombras se explica, desde que o espectador espere o final dos créditos). E a esse respeito, houve uma coincidência. Um ou dois dias antes de ir ao cinema, acompanhei a live “A fim de poesia” que a poeta Noélia Ribeiro faz, desde o início da pandemia, no Instagram. Na temporada mais recente, ela mudou a dinâmica. Agora, em vez de convidar poetas e promover um sarau no qual eles leem seus poemas, ela e Fátima Ribeiro escolhem poesias e as leem. Naquela ocasião, Fátima leu um poema do meu “O sol pelo basculante” (editora Urutau), que reproduzo a seguir.

 

O homem íntegro

                                                                        a Eustáquio Grilo

 

Não sou desses homens que têm dois lados

o A em contraposição ao B

o beco às terças, a avenida aos domingos

o comezinho de costas para o incomum

a alma contra o corpo.

 

Mesmo assim ou por isso mesmo

amo desconfiado

trabalho desconfiado

vivo desconfiado

— há, na integridade, uma sombra.

 

Tenho, como todos,

peito e dorso

bunda e coco

ombro e sexo

joelho e calcanhar.

 

Dentro e fora, o único rosto

em feriados e dias úteis, um só esforço

na mesma bica, o sedento e o saciado.

 

Tomo como certa a hora de

cortar o cabelo. E como medo

inconfesso que me aparem a sombra.

 

 

Meu poema – aqui não há uma questão de valor ou coisa similar – faz fronteira com “Dias perfeitos”. Não é uma afirmação narcísica, mas a percepção de pontos de diálogos. Hirayama se encaixa bem no homem íntegro do poema.

Seja como for, e seja lá o que isso tudo é, Wenders berra a favor da simplicidade – em entrevista, ele disse: “Dias perfeitos é o mais próximo que já cheguei de fazer uma declaração sobre a paz” – e me remete a uma vida que já tive: a de jovem do interior de Minas. Lá viveu minha prima Maria Escolástica. Era sobrinha de meu pai, mas não diferiam muito em idade. Dona de uma casa movimentada – aos filhos e, depois, noras, genros e netos, agregavam-se sobrinhos, primos, vizinhos –, ela tinha uma máxima recorrente: tudo é bobagem.

Hirayama, ao dar acolhimento à sobrinha que foge da casa dos pais, leva-a para ver o rio, e ela lhe pergunta se o rio vai dar no mar. Sim. Ela pede para irem até lá. Ele responde que da próxima vez irão. A menina indaga quando é a próxima vez. E ele: a próxima vez é a próxima vez. Ela insiste. Ele mantém a resposta frouxa e acrescenta, agora é agora. Ambos saem pedalando e improvisando uma melodia para “a próxima vez é a próxima vez, agora é agora”. Uma cena linda, num filme de muitas cenas lindas. Bem, mas eles poderiam sair cantando “tudo é bobagem”. Minha saudosa prima Maria Escolástica está na gênese do filme de Wenders.


25.2.24

O perrengue da comunicação

 


Quando eu disser a vocês o que tenho a dizer, vocês me dirão – É isso o que tem a nos dizer? E eu direi – O que vocês queriam que eu dissesse?

Eu disse, ela disse — Repete. Eu repeti, ela repetiu – Repete. Eu repeti, ela repetiu – Repete. Eu repeti, ela disse – Você não se cansa?

A mãe perguntou ao filho se estava entendido. Ele disse que sim, só não entendeu exatamente o que deveria ser entendido. A mãe então concluiu – Ok, estamos entendidos.

Ele me pediu um minuto. Pegou um papel, fez um desenho. Era uma cena chocante, um monstro engolia uma pessoa pela cabeça. Eu ainda me perdia nos detalhes da gravura, e ele já me perguntava se, vendo e não ouvindo, tudo se esclarecera. Eu respondi – Bem, o desenho tem problema de perspectiva.

Quando ela começava a se despir, ele disse – Espera. Ela ficou estática. Ele não disse mais nada. Ela continua lá.

Do nada, ela diz – As árvores trocam mensagens umas com as outras. Eu pergunto – E daí? Ela responde – Daí que o desentendimento é maior do que imaginamos.

Ouvir, ouvi, mas ouvir é pouco.

O palestrante perguntou – Alguém? Eu levantei o dedo. Ele nem deixou eu me ajeitar direito na cadeira – E então? Eu respondi – Concordo. Ele se surpreendeu – Com o quê? Escandi as palavras – Com o que o senhor não disse.

O prefeito mudou o nome da rua. Todas as cartas endereçadas a ela foram parar numa rua homônima em outra cidade. As pessoas que as receberam abriram, leram e responderam uma a uma. Assim, aceitaram o convite para um date, o pedido de perdão, mas, num caso, o falso destinatário reclamou – Alguma coisa deve estar errada, o aluguel está em dia, o IPTU é que ainda não deu pra pagar. Não parou aí – E não me chamo Raimundo, Perivaldo é meu nome.

A professora pediu a atenção de todos – De todos. Começou então a falar de forma automática o discurso de começo de ano. Os alunos se distraíram em surdina. Quer dizer, Luisinha não, ela estava tão atenta que caiu no choro quando a professora disse que não eram dela aquelas palavras.

Discreto é o suspiro, no entanto é sempre bem entendido.

Tiramos a palavra na sorte. Fiquei pensando o que fazer com a minha. Enfim, decidi ficar calado, com o olhar de quem acompanha um voo de pernilongo.

Na voz miúda, dizem que a guerra foi perdida quando o comandante ordenou que atirasse a primeira pedra aquele que não sofreu por amor.

Bateu à porta da casa da namorada. Nada. Bateu de novo. Nada. Mais uma vez. Nada. A namorada, ao lado, não sabia o que fazer.

Ela deu um sonoro não ao pedido de casamento. O rapaz, assustado, mas célere, buscou uma saída – Esquece o casamento, vamos tomar um sorvete. Ela respondeu – Uma coisa dessas só faço depois de casada. E completou – Você tem uma bicicleta?

Depois de ler o jornal de cabo a rabo, a garota levantou-se e foi à cozinha. Lá encontrou a cozinheira. Elas se olharam, se olharam e mais uma vez se olharam. A garota saiu de lá certa de que o jornal jamais olharia para ela e a cozinheira. Jornal gosta é de distâncias.

Esse negócio de beijar na boca de olhos fechados tem deixado muita gente a ver navios.

Achou muita graça ter ganhado o prêmio de quem menos entendia piadas.

Escrevi muitos livros, compus músicas mil, pintei quadros a valer, pena que sempre estivesse dormindo.

Com a casa vazia, o rapaz anunciou – De agora em diante, falarei o que me der na telha. Gotejou então duas ou três ideias que as paredes, caso tivessem ouvido, o teriam tampado.

Eu queria dizer a vocês, mas vocês não me entenderiam. Então não digo. Será que vocês me entendem?


10.2.24

Um falcão de volta ao céu


Lá na rede social,

passa boi, passa boiada

às vezes a gente acredita,

noutras, pensa, “é marmelada” 


Nos primórdios do mundo virtual, o e-mail parecia uma coisa mágica, mas, com a chegada das redes sociais, um tempo depois, ele passou a quase nada. Estávamos diante de uma inovação que mudaria de vez – para pior e para melhor – nossas vidas.

As coisas ruins só fazem crescer: excesso de propaganda, suspeita constante de vazamento de nossos dados, ditadura do algoritmo, vista grossa dos donos das poderosas redes aos descalabros que circulam livremente por elas, verdadeira bomba capaz de destruir os alicerces da vida social em harmonia, a própria democracia. Tudo isso num ambiente – como outros tantos no capitalismo tão pouco concorrencial – de alta concentração: quatro ou cinco redes nos prendem a todos.

Dorrit Harazim, jornalista que dá gosto de ler, em recente coluna falava sobre as possíveis cem mil vítimas palestinas (não há contagem, apenas inferência) na guerra entre Israel e Palestina. (Não vou comentar esse conflito, que, a meu ver, está longe de ser uma simples resposta de Israel a um ataque terrorista.) Na conclusão de seu artigo, Harazim cita uma carta de John Steinbeck a Pascal Covici escrita no início da Segunda Guerra. Depois de o autor de        “As Vinhas da Ira” afirmar que a espécie humana não aprende as lições que toma (“a experiência de 10 mil anos não deixou qualquer marca sobre os instintos do milhão de anos anteriores”), ele conclui: “Não digo que o mal vence – jamais vencerá –, digo apenas que ele não morre...”. Essa percepção cabe bem para ilustrar o perigo que ronda as redes sociais.

Sejamos justos: existem as coisas boas. Já pensou a pandemia sem as lives, sem a consulta médica ou a terapia à distância? Melhor nem pensar ou pensar que, além disso, essas redes ainda permitem que façamos amigos a léguas de nossa casa e que reencontremos alguns deixados pelo caminho. No filme “Vidas passadas” (da sul-coreana Celine Song), por exemplo, dois amigos, namoradinhos na passagem da infância para a adolescência, conseguem, graças a uma rede social, se reencontrar doze anos depois de a menina, Na Young, ter se mudado para o Canadá. É um filme bonito, introspectivo – e que toca com delicadeza a questão da imigração –, no qual o mundo virtual só está ali de forma coadjuvante como deveria ser.

Nas redes, arredio como sou a grandes embates, quando não estou divulgando meus textos ou fazendo chacota da vida, me distraio com receitas culinárias ou macetes para disfarçar uma fenda na parede ou dar vida a plantas moribundas. Logo eu que quase não cozinho, não cuido de plantas e não tenho o menor pendor para pintar paredes, consertar ferro elétrico, enfim, para lidar com afazeres tão domésticos. Diante de minha confissão, não estranharia se me censurassem pelo tempo gasto com inutilidades e vissem em meu entretenimento um tico de tristeza doentia, uma queda pela escuridão. Se é assim, diante do breu e obediente a Thiago de Mello, eu canto.

Além desses vídeos sem-noção, curto outros simples, que – se não saíram da cabeça de uma Inteligência Artificial, hipótese a não ser descartada –, me enchem de esperança. São delicados os que mostram um urso panda brincando na neve e a dificuldade de uma elefanta ou de uma onça para atravessarem seus filhotes numa rodovia – tem sempre um que volta. Um vídeo me toca em particular: três pessoas, cientistas, imagino, chegam ao topo de uma montanha e tiram de uma caixa uma ave enorme, um falcão, se não estou enganado. Esse animal fica andando de um lado para o outro, estudando a paisagem, reconhecendo a casa, decidindo o melhor momento de voltar ao seu habitat. Ele vai para cá, vai para lá, vai e volta de novo até tomar coragem e despencar no céu. Vibro pela ave de voo tão seguro, mas igualmente pela atitude daquelas três pessoas cujos rostos não são mostrados. Elas devem ter resgatado o animal fragilizado e o levado a um centro de tratamento, onde ele foi recuperado. Aos poucos, treinaram a ave, a estimularam em voos controlados e, depois de muita observação, concluíram que era o momento de devolvê-la à liberdade.