24.7.08

A perna oculta da mentira




Iam aí uns bons trinta anos sem ver M.M., quando, por acaso, numa rodoviária, encontrei-o. Dois senhores. Ele parecido com o pai; melhorado, é verdade. Dois senhores, insisto.

Não nos faltou conversa. Nossa infância foi vivida na mesma Jaime Gomes, rua com nome do sogro do Juscelino, o homem dos cinqüenta em cinco. Pois bem, falamos sobre “nossa” época, embora pouco sobre ela. O lapso de trinta anos era tempo suficiente para aguçar a curiosidade de ambas as partes sobre a vida vivida distante um do outro.

Estabelecemos um diálogo pontuado de interrogações exclamativas.

“É mesmo?! Manaus?”

“Escrevendo?!”

Dois velhos conhecidos charlando ao deus-dará.

Não sei o momento exato em que rememorei que, durante nossa infância, adicionávamos ao nome dele um “mentiroso”. M.M.: M. Mentiroso. Talvez suas mentiras fossem inconseqüentes e tão absurdas que não deveriam chamar a si nenhuma suspeita de verdade, portanto, não nos deveriam incomodar. Mas não era assim que a garotada pensava, e, por essa razão, cada um de nós se sentia permanentemente ludibriado por ele.

Será que ele nos contara sua luta contra uma horda de cem morféticos (contra os leprosos eram lançados todos nossos preconceitos, e deles brotava toda nossa fonte de inquietação e medo) que tentaram arrancar-lhe o estilingue da mão?

Será que relatara sua vitória tranqüila contra algum perigo que faria com que qualquer um de nós, só de pensar, borrasse nas calças? Sei lá, ter enfrentado, na mão, uma onça na fazenda do tio.

Será que não nos dissera que o dinheiro do pai (um simples professor) era tanto que o velho não comprava todas as casas da rua porque não queria?

Enfim, um monte de fabulações, apenas isso, talvez um jeito de sobressair-se entre tantos, ele sem nenhum talento específico. Não era bom no bilboquê, não ameaçava ninguém na bilosca, na pelada chutava o chão em vez da bola. Como aparecer quando não se tem qualificação nenhuma? Fabulando — eis uma hipótese.

Taxava-se toda fala de M. como mentira. Se dissesse que iria almoçar, apostávamos que arranjara um pretexto para cair fora. Se anunciasse, ainda que fanhoso, uma gripe, ríamos de sua capacidade de inventar desculpa para não apostar na roda de bafo formada logo ali, sob a janela do seu quarto.

Trinta anos depois, numa rodoviária da vida, ele me conta de suas andanças. Viveu pelo Norte. Casou-se com moça da nossa cidade natal, decerto eu não a conhecia. Seu irmão enricou e deu jeito de trazê-lo de volta ao Sul maravilha para cuidar de uma de suas empresas. É responsável pela logística, essa coisa que não é o coração das empresas, mas que pode matar a mais saudável delas num golpe só, como um enfarto. Morava em São Paulo.

Como eu poderia acreditar em M. se nunca acreditei? Como, ainda mais passado tanto tempo, tempo em que esteve longe da minha vista, fazendo sabe-se lá o quê?

Quando falou Norte, poderia querer que eu perguntasse por sua ocupação por aquelas bandas. Seria a chance de relatar lutas contra jacarés, de vangloriar-se de sua resistência contra as doenças da floresta, de falar em tribos de mulheres majestosas, permanentemente nuas, virgens como nunca se viu, nem na bíblia.

Quando falou em empresa familiar de sucesso, gostaria que eu indagasse sobre suas estratégias de mercado. Diria que trabalham com material que seu pai, professor de química, portanto, químico, desenvolvera, sem que ninguém nunca soubesse, no puxadinho no fundo de sua casa baixa, com porta à altura da rua. Diria que vendem tudo para o exterior, para as empresas de ponta dos EUA, da Europa, um pouco para o Japão e ainda para o Iraque antes da guerra, porém o próprio Bush pediu para não venderem mais. Aceitaram, seguindo as diretrizes da Aliança para o Progresso, que, alguns poderiam dizer, fora coisa do passado, mas eles sabiam que não era bem assim; existia ainda e manter-se fiel a ela garantia os lucros exorbitantes apresentados nos balanços das empresas.

Apertamos as mãos. Ele entrou num ônibus, esperei um pouco mais pela chegada do meu.
Sozinho, percebi minha enorme infantilidade. Deixei de ter uma conversa quem sabe até instrutiva — um sujeito que morou no Norte e vive em São Paulo cuidando de uma grande empresa sempre tem o que dizer — para ficar nos meus devaneios, comandado por um tirano nostálgico interno que não me dá de presente ao presente.

Talvez eu tenha de responder ao que, traduzido por Gullar, Neruda (Livro das Perguntas, Cosac Naify) pergunta, não sei se a si mesmo, se ao leitor. Alguns acham que pergunta justamente à criança que todos fomos um dia.

“Onde está o menino que eu fui?
Está dentro de mim ou se foi?

Sabe que jamais o quis
e que tampouco me queria?

Por que andamos tanto tempo
crescendo para nos separarmos?

Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?

E se minha alma se foi
por que me segue o esqueleto?”

Vou buscar a resposta. Se encontrá-la, e mesmo que não a encontre, o certo é um dia apartar-me do mentiroso que também sou, procurar por M. e contar-lhe tudo. Se estiver imbuído de humildade, devo-lhe também desculpas.

14.6.08

Réu Confesso

Quando o mar não está para peixe, é hora de olhar para os lados. Para quem estarão as montanhas? Os lagos estarão para peixes? E os peixes, eles mesmos, independentemente de mares e lagos, estarão para nós?

Neste exato instante, olho para os lados, mil vezes olho para os lados. Vejo. Vejo com o espanto dos inocentes. Vejo, e ver me cega.

As marcas do crime hediondo vieram parar em minhas mãos, justo nelas que até então não passavam da ferramenta com que pude (e posso) carregar as pedras do cotidiano, as mesmas que fizeram Drummond insistir: “E agora, José?”.

O sangue coagulado entranhou-se na minha pele e virou um fio avermelhado, que se confunde com uma marca sem importância, um estresse qualquer devido a algum esbarrão. Mas, não se iludam, é o sangue da vítima. Como saiu dela e chegou aqui, ela morta lá longe, num lugar em que nunca estive?

Não bastasse esse risco rubro, salta de minhas mãos o cheiro envinagrado da matéria velha. Ontem, vida; hoje, deslocada no tempo e no espaço, é o biscoito proustiano a despertar com teimosia a lembrança do crime que não cometi, mas que é meu. Sou culpado!

Não há como apartar-me de minhas mãos, dizer elas em oposição a mim. Formamos uma unidade incorruptível, logo tomo-me de certo orgulho; sim, orgulho: cometi o crime perfeito. Não deixei nada de meu na cena do crime e, ainda por cima, trouxe de lá as digitais da vítima.

O que posso fazer com essas pegadas cravadas em mim? Tentar apagá-las, recorrendo à soda cáustica, ao esfregão, à amputação simples e pura? Cultivá-las como flor, dando-lhes amiúde água e esterco? O que estou dizendo? O ferrão não me marcou com rosa ou crisântemo, mas com os músculos abortados, com os sorrisos calados, com a esperança pujante destituída de seus pés.

Já não me orgulho de nada, nunca me orgulhei. Os sentimentos são mestres em nos confundir. Estive e estou confuso. O crime que cometi é o mais perfeito de todos, apesar de não tê-lo feito, apesar de não querê-lo. E o assassino só se satisfaz quando se vê revelado a todos. Eu não serei, jamais serei, pois não arrastei ninguém pelas ruas da cidade, não estrangulei nem atirei menina alguma de um sexto andar qualquer. No entanto fiquei com os momentos de remorso do criminoso. Se tenho culpa, sou eu a besta.

Não serei punido pela lei dos homens. Se estender minhas mãos ao policial, ao promotor, ao juiz, eles dirão: limpas, assaz limpas. Se insistir para que sejam cheiradas, encontrarão ali, na placidez da pele, o agradável aroma dos sabonetes anunciados entre os capítulos da novela das oito.

O mar não está para peixe. O peixe não está para o mar. A montanha não está para a neve. A neve não está para a montanha. Os homens? Não, não rirei dos homens como se não fosse um deles. Sou um tão bom ou tão ruim como outro qualquer. Não posso bisar o que por aí se diz: “Foi um desesperançado que não tem nada a perder”. Ou: “Foram uns desajustados que perderam o controle da situação”. Não posso, pois somos todos farinha do mesmo saco. Tanto quanto eles, eu matei. Estão aqui, nem tão escondidas assim, embora não de todo visíveis, as marcas do crime que cometi. Que cometemos. Sinto dizer-lhe, você também o cometeu.

13.5.08

Rebelo e o aquecimento global



Marques Rebelo dizia leviano o clima desta cidade. Mal sabia que leviano ficaria o clima do mundo (talvez o próprio mundo). Derretem-se as geleiras nas pontas da terra, esfriam-se os trópicos, chove no deserto e o solo, onde, antes, adubando tudo dava, torna-se estéril. No Rio de Janeiro, os mais desesperados apostam que, em breve, o Grajaú será bairro praiano. Resta saber se a água vai passar ilesa pela Grajaú-Jacarepaguá. Um furto levaria o sal. Um acidente romperia as moléculas. Que mar seria esse?

Já ouvi dizer que repousa nessa visão certo alarmismo, pois não existiriam dados de um longo período de tempo e, portanto, não se saberia se a terra já não esteve mais quente do que está. Tudo não passaria de um ciclo sobrepondo-se a outro, situação que se reverteria no futuro.



Se o aquecimento global catastrófico for mesmo um fato, como deveremos agir? De um lado está o Protocolo de Kyoto (nome lindo, não acham?) e, de outro, a resistência a ele por parte dos estadunidenses. A gente esquece esse povo e trata de fazer nosso exercício de casa? Porém, se os bambambãs lá do norte estão se lixando para o caos climático, por que logo nós iríamos esquentar a cabeça? Trocando em miúdos: ou contrapomos nossa responsabilidade à irresponsabilidade alheia ou somamos nossa irresponsabilidade à deles.

Em sinuca parecida, vê-se metido o amigo ao perceber outro se afundar na lama. Ele bem pode partir do princípio de que a vida alheia não diz respeito a ninguém além da própria pessoa e conviver com o amigo enquanto este for sociável. Outra opção é partir para o ataque, fazer das tripas coração para tirar o camarada daquela barafunda.



Conheço um sujeito que, para salvar o irmão metido com drogas, pensou na seguinte estratégia: começar a puxar um fuminho com ele e depois, aos poucos, levá-lo de volta ao “caminho do bem”. Atualmente, são os dois uns senhores (no duplo sentido da expressão) maconheiros, sem trabalho e alcoólatras.

Falava de clima, falei de amigos. Tudo porque, matutando cá com meus botões de plástico, concluí que a estratégia dos países e a das pessoas miúdas que somos não se diferem muito. O irmão que foi salvar o outro poderia ter adotado tática distinta: meter-lhe a mão na cara e apostar no confronto e não no diálogo ou nessa espécie de aliança feita entre eles. No caso dos países, os que assinaram o Protocolo de Kyoto (lindo nome!) poderiam invadir aquele outro para dar um jeito na situação. A terra seria derretida em segundos, não se requerem esforço e adivinhações para concluir isso. Se as estratégias nos dois níveis (pessoas e países) podem não diferir muito, os efeitos, Deus me livre! O que significam dois irmãos vagabundos e decadentes perto de uma guerra mundial? Nadinha. Pouco mais de nadinha.



Continuo com o meu paralelo mequetrefe. A mãe de outro amigo, a partir de certo momento, começou a rezar para que seu filho morresse o mais breve possível. Imagine o quanto ela sofria com as barbaridades aprontadas por ele. Então me pergunto: será que sumir com a terra do mapa cósmico de uma vez por todas é melhor do que fazê-lo aos poucos, como é o nosso caso, ao continuar jogando ilimitadamente gás carbônico no céu de infinitos significados? Será a destruição, aos poucos ou de forma abrupta, melhor saída do que, conversando aqui e ali em busca de consenso, tentar salvar este planeta que deve ser lindo visto da lua? Quem saberá? Eu não sei.

Você se perguntará, não sem razão, aonde quero chegar com esse chove-não-molha tantas vezes bisado por outros, estes mestres no assunto e, portanto, tratando-o, ao contrário de minha crônica, de forma profunda, matando a cobra-problema e mostrando o pau-solução. Digo-lhe, leitor, expondo não só a mim, mas possivelmente a classe dos cronistas, que escrevi essa crônica a partir da leitura do Rebelo, que me encantou com a designação de leviano dada ao clima carioca, a qual quis espalhar por aí, compartilhando-a com você. O resto, bem, o resto é recheio de uma empada cuja casca é sua melhor parte.

26.4.08

Máximas apressadas acerca da amizade


Ao Paulinho Colares, agora em outra dimensão.


Todo mundo tem um amigo.

Todo amigo é único.

Na companhia de um amigo, é possível ultrapassar os limites de onde o vento faz a curva.

Chegará o dia em que qualquer um de nós pedirá a mão a um amigo para atravessar a mais pacata das ruas pacatas.

Um amigo não lhe revelará todos os seus segredos, pois há os que caem bem num amigo e não noutro.

Certo amigo deve dizer-lhe todos os segredos, inclusive os que se ajustariam melhor a amigo distinto de você.

Existe um amigo que poderia roubar-lhe o amor e depois devolvê-lo.

Tão-somente um amigo saberia perdoar outro por roubar-lhe o amor. Haverá igualmente um único capaz de receber de braços abertos o amor roubado e o amigo que o roubou.

Botar a mão no fogo por um amigo não significa emprestar-lhe dinheiro.

Topar qualquer parada com um amigo inclui socorrê-lo nas dificuldades financeiras sem se importar se será ou não ressarcido.

É melhor dever a banco do que a amigo.

Amigo no inferno nem sempre deseja céu.

Seu inferno nem o pior amigo merece. (Às vezes, sim, e não só ele, todos os outros também.)

Morte de amigo não acaba nunca. Todos os dias, o dia inteiro, ele volta a morrer.

Osvaldo, professor de matemática, ensinava: amigo do meu amigo é meu amigo. Traduzindo: um número positivo (amigo) multiplicado por outro positivo gera um terceiro igualmente positivo. Logo, o inimigo do meu inimigo é meu amigo (menos vezes menos resulta em mais) e o amigo do meu inimigo é meu inimigo. Isso vale como didática e em papo de boteco, quando se faz jura de eterno amor, às vezes pacto de morte. Fora disso, um inimigo de inimigo pode ser igualmente inimigo; um amigo de inimigo, amigo; e, por fim, um amigo de amigo, inimigo.

O sofrimento de um amigo dói igualmente ou mais em pelo menos um de seus amigos.

Mentira de amigo é verdade absoluta, menos a daquele que nunca mente.

Você nunca mente a um amigo; floreia os fatos, quando muito.

Guardam-se no fundo do peito os amigos magros. Melhor ser guardado pelos demais.

Chifre na cabeça de amigo dói na de outro somente quando este passou pela mesma situação com o mesmíssimo amor.

Conta de boteco se divide de igual modo entre os amigos independentemente do consumo de cada um. Paga-se a parte daquele que está duro sem que se peça nada em troca ou pedindo-se não mais do que uma carona, ainda que a pé.

Amigo preso continua amigo. Talvez ele mereça a prisão, mas não merece perder sua amizade.

Quando dois amigos, um estrábico, precisam garantir com discrição a velha e boa cumplicidade, não recorrerão ao olhar que diz tudo, mas a chute manso e certeiro, sob a mesa, na altura da canela. Este também diz tudo, só que com pressa.

Se quem cala consente, silêncio de amigo soa como oposição ao consentimento, um ato de covardia, ainda que amorosa covardia.

Amigo deve ter coragem para dizer a outro: “Por hoje basta”.

5.4.08

De Costas para o BNDES


O prédio é imponente, arquitetura arrojada. O negócio lá dentro é papa fina, nada menos do que o ouro negro. Quem viveu nos anos 50 ou leu sobre eles sabe muito bem que a exploração de petróleo, em forma de monopólio do Estado, já deu muito pano pra manga neste país. Quando aqui era a capital federal, lutávamos por essas causas; hoje, hoje bradamos contra o IPTU. Aliás, não contra o IPTU, nosso alvo é o prefeito, ou, mais corretamente, sua péssima gerência no mandato que encerra neste ano.


Embates grandes ou miúdos, pouco importa, o carioca é bom de briga, o prefeito que se cuide. Que se cuide também a direção da estatal do petróleo, pois os aposentados andam fazendo uma zoeira bem ali de frente para o belo prédio e de costas para o BNDES, o que não sei se tem ou não tem significância. O que sei é que há muito acompanho os aposentados mandando bala. Não vi, mas até nus ficaram; no meio da rua, digo.

No Natal, teve Papai Noel. No carnaval, banda cantando marchinha que enaltecia a classe dos petroleiros e ameaçava o presidente e todo o resto da diretoria. Contra ou a favor da causa, se é que chega a ser uma causa, vale ver o show dos aposentados. Não são muitos, mas estão ali; se for preciso, se despem. É uma causa, acabo de me convencer, ninguém se despe a troco de nada.
No fim de janeiro, a banda explodia em sopros que faziam desenhos melódicos supimpas. Parecia que tudo ia por água abaixo, o sax tomava um rumo, o trombone de vara outro, mas no fim tudo se ajeitava. (Adoro isso.) Bem, a marcha corria solta, e uma senhorinha aposentada, que vejo sempre nas manifestações, começou a dançar; mais parecia porta-estandarte — sem o mestre-sala, sem ninguém. Se fosse adepto das adjetivações fáceis, diria que ela é meio lelé da cuca. Não sendo, digo que carrega em si tamanha liberdade. O presidente da empresa deveria dar pelo menos a ela o que se reivindica à porta de seu escritório.

A porta-estandarte dava suas voltas e reviravoltas sem que ninguém prestasse muita atenção nela. Menos duas pessoas: eu, sei lá por que eu, e um rapaz (mal saído do cueiro) cujo olhar sugeria outras intenções. Se fosse adepto das adjetivações fáceis, diria tratar-se de um taradinho. Não sendo, digo que se encantou, nunca vira nada parecido. A beleza pode estar onde nem parece estar.


Manifestações recorrentes tendem a surtir efeito. Minha torcida é que um dia, cansado de marchinhas no carnaval, fogueiras no São João, papais-noéis no Natal, o presidente do BNDES ligue para o do Banco Central e sugira que se acelere a queda dos juros. Por que motivo ele faria isso? Ora, sei lá, nem tudo o que se faz se explica. Se o todo-poderoso, guardião do nosso real, aceitar a sugestão, pode ser que sobre mais dindim no caixa da estatal do ouro negro e que seu presidente, também cansado de tantas manifestações, atenda o pedido dos aposentados. Não deve ser muito, com a idade ficamos modestos.

11.3.08

O cronista ranzinza


Já computei. Essa turma do pagode, que teima em padronizar o samba e o próprio jeito de ser, apresentando-se em grupos anódinos que dançam uns passinhos de envergonhar até o maior dos caras-de-pau, envoltos num sorriso forçado de dar dó, usa, em suas composições (Trato de respeitar a turma!), cinco palavras às quais se juntam outras pequenas variações: eu (você, ele, nós), te (lhe, nos), amo (amei, amamos, amarei). Além dessas, mais duas: ihihih, ohohoh. O máximo da criatividade dos pagodeiros é espalhar essas espichadas interjeições ao longo das canções. A gente ouve coisas do tipo: “Ihihih, eu te amo” ou “te amoohohohoh”. Um escândalo.

Três vezes por semana tomo um ônibus em Bonsucesso para descer em Botafogo. Está aí uma senhora linha. Da Avenida Paris, pega a Brasil, sobe o Elevado da Perimetral, desce o Aterro, indo direto e reto até Copacabana. Levo em meu trajeto, quando muito, vinte, vinte e cinco minutos. Com ar-condicionado e uma tarifa vinte por cento mais cara, acho um luxo e pago sem chiar. Mas... Por que raios resolvem “brindar” o usuário com música? O rádio soa alto e a estação escolhida é um acinte. Quando não é o famigerado pagode, é bate-papo com algum péssimo cantor ou é o hit do momento (Alcione cantando “Perdeu, perdeu”. Ô Marrom, essa doeu!). Alguém tem de dizer à empresa que, quando alguém toma o ônibus num dia de semana, perto das 21 horas, essa pessoa está cansada, voltando para casa depois de um dia inteiro de trabalho. Merece respeito. Vamos em silêncio, a viagem em si, rápida e confortável, já é uma delícia.

Tolerância zero com os habitantes de rua! Acho que é essa a meta do senhor prefeito. Começou por Copacabana, logo depois chegou a Ipanema, ao Leblon e à Gávea. Sabemos todos — sei lá, eu sei — que, entre essa população de rua, há aqueles que não querem ou não conseguem mais adaptar-se à família e, na rua, apenas ocupam um espaço sem causar grandes problemas a ninguém, mas também há os que cometem assaltos e outros excessos. (Embora assaltos e outros excessos sejam praticados por outros que não moram na rua). De todo modo, os sem-teto merecem atenção especial, desde que não sejam tratados apenas como peça que se tira daqui e se desova ali.

A sensação que tenho, morando em Botafogo, é que a medida tem sido feita sob a batuta do estoquista. O sujeito olha e diz: “Não existe mais nenhum em Copacabana”. Claro, grande parte deles está em Botafogo. Alguns estarão em Ipanema. A operação chega a Ipanema, ao Leblon e à Gávea, irão todos para o Jardim Botânico, para a Lagoa, para o Humaitá e outros mais para Botafogo. Abafados nesses bairros, ressurgirão no Flamengo, no Catete, na Glória.

A questão não é de poucos contra muitos. Não há uma política social; simplesmente o alcaide ligou seu superespanador, atirando-se contra o pó. Mas não é pó, prefeito, é gente. Ainda que ele se atirasse mesmo contra o pó, espalhar não tem nada a ver com limpeza, é só olhar embaixo do sofá: o pó foi parar ali.


Como todos sabem, todo cronista tem seus dias. No meu caso, de uns tempos pra cá, tudo se justifica. Nasci em Passos, onde andam “batizando” leite com hidróxido de sódio e peróxido de hidrogênio, mais conhecidos como soda cáustica e água oxigenada, respectivamente. Ando vexado e com os nervos à flor da pele. Nem vem contemporizar, leitor, nem vem.

27.2.08

Frases inconseqüentes

Escrevi há pouco que sou bobo, bobinho da silva. Para não deixar dúvida, apresento uma série de frases, os famosos trocadalhos, completamente inconseqüentes e, abusando da rima, dementes. Dedico-as ao Conradão, que gosta de besteiras assim até dizer chega.

Mulher de amigo meu é fome.
Não foge nem sai de cima.
Foi um cio que passou em minha vida.
Existirmo-nos a que Ceará que se destina.
Quem dá aos pobres empresta o dedo.
Mora na ciclovia.
Tire seu sobrinho do caminho que quero passar com meu avô.
É dando que se esquece.
O tiro saiu pela cunhada.
Está semeando o que colheu. (Frase que uma amiga minha dizia a outra.)
Era um garoto que como eu amava os vícios e as confusões.
Não vi e não gozei.
Solto a vó na estrada.
Vivi a ilusão de que ser homem mataria.
Vou ensiná-lo com quantos paus se faz uma garoa.
Vão-se os anéis, ficam os medos.

26.1.08

Santomé

Tudo indica que Lula tem apenas quatro dedos em uma das mãos.

Sarney ostenta um enorme bigode. Não é?

Jobim tem vestido roupas do exército. É o que se vê na tevê.

Quércia é alto. Afirmo com quase 100% de certeza.

Aécio é neto do Tancredo, atesta seu registro de nascimento.

Cabral saiu ao pai, pelo menos na bochecha, assim suas aparições levam a crer.

César Maia traja invariavelmente um casaquinho xexelento. De longe, assim é: casaquinho e xexelento.

Roberto Jefferson emagreceu graças à redução do estômago. Li.

FHC ensina na Brown University. Ele mesmo frisa isso em seus artigos.

É possível checar na internet as mortes do Covas, do Ulisses, do próprio Tancredo, a do Magalhães Pinto e a do ACM também.

Pedro Simon fala com paixão. José Dirceu, com frieza. Renan, dissimuladamente.

Ângela Guadagnin bailou quando seu partidário foi livrado de perder o mandato. Marco Aurélio Garcia mandou uma banana quando o desastre com o avião pareceu ser culpa do piloto, não dos controladores de vôo. Collor voltou à tribuna. Vi com estes olhos que a terra há de comer.

Heloísa Helena gosta de uma camisetinha básica. Babá não corta o cabelo. Chico Alencar corta, às vezes. A mensagem perseguida por eles é: diante de tantos problemas, nada de preocupação excessiva com a aparência.

Eduardo Paes muda de roupa e de partido sem pestanejar. Gabeira não usa mais tanga, nem se candidata a prefeito. O primeiro ocupa a mídia; o segundo, pouco, nunca mais como dantes.

Político é engraçado. Vive nos pedindo para lhe darmos um voto de confiança, para acreditarmos que aquilo de que é acusado, tal e tal falcatrua, é intriga da oposição. O tiro pode sair pela culatra: qualquer dia, o brasileiro deixa de diferenciar uns dos outros, e todos passam a ser farinha do mesmo saco. Pior ainda: deixa de acreditar até no que é visível, audível e legível.




Vai que o Covas está vivo. O Lula tem seis dedos. O Simon adora camisetas básicas. A Heloísa Helena troca de roupa e de partido só pensando em ser prefeita. O Quércia é baixinho. O Gabeira não corta os cabelos. O Aécio é neto do ACM. O Cabral corta os cabelos de vez em quando. O Collor tem grandes bochechas como as de seu pai. O Renan deixou de usar tangas. O Eduardo Paes morreu num desastre aéreo. O FHC diminuiu o estômago. O ACM morreu há anos e o Magalhães Pinto, num dia desses. O César Maia dança para comemorar quando seus partidários livram a cara.

Se deixarmos de acreditar até naquilo de que não se pode duvidar, o país vai pro beleléu. Por vinte anos estivemos lá, e não foi bom. Como talvez dissesse o pessoal do Casseta: “Seu político, roube, mas não minta; a mentira tem perna curta”.

7.1.08

Chicle de Bola



Desce a Voluntários da Pátria, masca chicletes e o mundo dos homens, cachorro eficiente, morde e não ladra. O Iraque está lá aos frangalhos, e a fome, como sempre, espalhada por toda a África. No Brasil, bem, deixemos este país com o qual não temos intimidade longe do circuito Gávea, Leblon e Botafogo.



A mulher e seu chiclete não são metáforas de nada. São apenas o que são: ela linda; ele, doce. Ela, descendo a Voluntários; ele, amassado entre dentes.



Se pinta um problema, a moça faz bola. A bola é uma casquinha de goma com ar dentro, coisa frágil, frágil, que não dura dois passos da mulher-agora-com-pulga-atrás-da-orelha.





O problema dela não tem a ver com a tragédia iraquiana ou com a africana; poderia ter, mas nesse instante não tem. Não é também minha indiferença por ela, porque, se há indiferença, é dela por mim, um desconhecido com quem esbarra em Botafogo, na rua pavimentada hoje e cheia de irregularidades amanhã. Não é o prefeito que a está incomodando. O que será?



Todo chiclete perde seu docinho. Em moleque, quando o que eu mascava se avizinhava do fim, enfiava-o no congelador — não sei se ganhava uma sobrevida, um “plus a mais” de doce, mas é o que diziam e eu acreditava. Sorte a do meu pai, levava mais tempo para lhe pedir outro tostão.



É o fim do chiclete que está pegando? Não, não há congelador no meio da Voluntários e, mesmo se houvesse, seria preciso que a goma congelasse totalmente para ter de novo o seu gosto, se é que ele volta. Será o Benedito que ela não tem um vintém, dez pratinhas em moedas de um centavo perdidas na bolsa? Se for dinheiro, bem poderia adiantar-lhe algum, nem fazia questão de recebê-lo de volta. Se muito, armava um estratagema para reencontrá-la:”Toma vinte centavos; amanhã a gente se vê aqui mesmo para você me pagar”.




A moça masca chiclete. A mim resta a dúvida: hortelã ou tutti frutti? Será de canela ou desses surpreendentes dos dias de hoje: melancia, maracujá? É uma dúvida, não mais do que isso; meu problema, problema mesmo, é outro, e só a moça que caminha mascando seu chicletinho resolve. Basta que ela deixe a Voluntários, entre comigo na livraria ao lado do cinema, aceite o café e um naco de bolo que lhe oferecerei, responda ao meu sorriso e, com jeitinho tímido ou arrogante, pouco importa, tire o chiclete da boca, jogue-o no lixo e, olhando talvez para mim, talvez para alguma coisa que posso chamar de infinito, diga: pronto!

26.11.07

O que se é




No dia em que a tristeza foi embora, fui acometido de outra maior ainda. Nos acostumamos a ser o que somos, ainda que ser ou não ser pertença a um mundo distante léguas de minha tímida crônica.

Não é assim, leitor? A gente é bobo, deixa de ser bobo, fica triste. A gente é alegre, perde a alegria, bem, aí é óbvio (existirão mais coisas entre a alegria e a tristeza do que meu vão devaneio é capaz de imaginar?). A gente deixa de ser pobre, a tristeza se impõe: ser rico se parece com uma dívida, sabe-se lá com quem, mais pesada do que a acumulada na mercearia da esquina.

Por que eu dizia tudo isso mesmo? Ah, sim! Nem era pela tristeza, apesar de ser um tico por ela. Era pelo fato de ser bobo. Sou bobo, bobinho da silva.

No meu caso, essa bobeira não está no meu DNA, nem é alguma herança "freudiana" passada de pai para filho como um rio correndo para o mar ou, ao contrário, como um mar recusando o rio. Fiquei bobo para não dar bandeira justamente com minha tristeza. Não fosse assim, ninguém me suportaria. Amarro bode diante de minhas inúmeras impossibilidades, mas também por causa da crueldade existente nesse país de crianças abandonadas e de adultos que as abandonam.

Rio à toa. Faço piada de tudo. Para não sucumbir, o escárnio. Sejamos bobos. É uma senhora saída.

Para ser bobo, basta ter inteligência. Não digo dessa congênita, matéria-prima dos gênios. Falo dessa outra que se acha largada na rua, no humor do carioca, por exemplo. É mais uma questão de rapidez, de atenção. Pois bem, quem cumpre essa premissa está a um passo de se tornar bobo. Quem não, não se desespere, talvez nada do que anime a minha tristeza avive a sua. Talvez você seja um bobo nato. (Não há nada de mau nisso, acho mesmo o máximo; invejo quem o seja.)

Ser bobo é uma opção. De foro íntimo, portanto. Raciocino assim: ou isso ou ficar carrancudo pelos cantos. Sei lá, carrancudo hoje, infeliz amanhã, suicida não mais do que de repente. Não mergulho em rio dessa natureza. Enquanto houver sexo, pão e circo (se for do seu agrado: sexo, drogas e rock'n'roll), vou vivendo, vivendo eu vou. Pode ser que um dia me veja lambido por cachorro, largado numa sarjeta qualquer, ouvindo dos transeuntes comentários do tipo: "Vai ser bobo lá na China". Feliz não estarei, mas, quem sabe, de tanto insistir, serei mesmo bobo, exclusivamente bobo, não só na casca, mas nela, na clara e na gema. Amém.

(PS. "La Reproduction Interdite" é de Magritte)

20.10.07

Cachorro


À Celina, que adotou o Tilo.
À Nilza, pelo Nicolau (o boxer).


Bem sei que não se deve cobrar muita coerência de nós, pobres humanos. Todavia soa estranho dizer que o cachorro é o melhor amigo do homem e chamar de cachorro o pior dos homens. Com que “lado” do cão ficamos?

Tive, em menino, um cachorro independente, vagabundo da melhor estirpe. Esteve em minha casa por uns bons dez anos e nunca tomou banho. Se ouvia a palavra água, fugia. Sua fuga tanto podia ser correr para o fundo do quintal, escondendo-se entre árvores, como sair portão afora e voltar noutro dia, às vezes noutra semana. Resultado da luta insana que os cães travam por conta de uma fêmea no cio, regressava esfalfado. O Zorro nunca foi levado para cruzar; ele que se virasse. Pelo jeito, se virou, ou, por outra, espero que tenha conseguido alguma coisa além das marcas de luta.




Sendo assim, não me acostumo com a idéia de cachorro vivendo dentro de apartamento ou mesmo de casa. Não me atraem aqueles que comem da melhor ração, que são levados ao veterinário para cortar os pêlos e fazer check-up. Parece estranho, por exemplo, minha irmã arranjar cobertor para um boxer que dormia do lado de fora da casa de minha mãe. Em não lhe dando coberta, morreria de frio? O Zorro não morreu, disso não morreu.

(Me perco em desvios, fico por aí falando de meus pecados e esquecendo ao que vim).

Noutro momento, já contei da morte de minha mãe. Pois bem, fiquei responsável por ajeitar a papelada exigida pelas instâncias burocráticas da vida. Entretanto, além disso, teríamos, meus irmãos e eu, de fechar a casa dela, longe do Rio, na cidade em que nenhum de nós vive mais. Nela, além dos móveis, restavam dois cachorros: o tal boxer e um poodle — este, não parece difícil imaginar, acostumado a dormir ao pé da cama da dona.




Não conto da depressão dos animais no momento do luto, mas ainda estávamos todos na casa quando comecei a notar que o poodle, o Tilo, percebeu que seu destino estava em minhas mãos. Todo aquele comportamento reservado à minha mãe foi-se transferindo aos poucos para mim. Com um agravante: triste, passou a só comer na minha presença e, se eu não estava, punha-se a latir e chorar perturbando a vizinhança. Certa noite, me acordou para mostrar que havia feito suas necessidades na cozinha. Veja só a ironia: logo eu, pouco amistoso com esse tipo de cão, lidando com tamanha herança.

Uma vizinha adotou o Tilo e o boxer, bem, este foi obrigado a fazer uma operação contra um câncer que acabaria por matá-lo passado pouco tempo. Quando saíram os cães, fiquei quatro dias sem nenhuma companhia na casa vazia. Vazia daquela espécie única em que ficam as casas depois da morte da pessoa que viveu nelas uma vida inteira. As coisas crescem, é como o registro das lembranças trazidas da infância: tudo parece grande; tudo, tudinho.

Vivi então na própria pele a dubiedade de o cachorro ser o melhor amigo do homem e alguns homens, verdadeiros cachorros. No caso, fui o homem amado por um cão e, de novo homem, um cachorro que se desfez desse mesmo cão.


16.8.07

Atacado Absoluto

Nos acostumamos com a máxima de que tudo é relativo, e é. Não sei se a teoria exige que exista, de qualquer forma, um absoluto. Na religião, como me disse há pouco um amigo que perdeu um filho, não se deve cobrar a existência de Deus, pois, de fato, Ele não existe, Ele é.

Outro absoluto é a morte, da qual falo hoje. No dia 10 de julho, ela visitou minha casa e levou minha mãe. Não tardou 48 horas, voltou para buscar o dentista da minha infância, primo de meu pai. Não satisfeita, esperou o relógio cumprir mais 24 horas e derrubou outro primo mais distante. Eu já dizia que ela atuava no atacado, uma comerciante de quantidades, quando morreu o Bolinha, um sujeito pertencente ao meu círculo afetivo, que durante anos, lá no interior de Minas, fez um excelente sanduíche de carne.

Então veio a tragédia de São Paulo. Nem a morte nas mãos do Saramago agiu com tanta objetividade e frieza. Aliás, para dizer a verdade, a morte nas letras do Saramago foi personagem de um romance menor (“Intermitências da Morte”, Companhia das Letras) do homem que deu vida humana a Jesus Cristo em seu belíssimo “Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Mas deixemos a crítica de lado e voltemos à morte. Ninguém volta à morte, bem sei, porém acho que vocês entendem o que quero dizer.

Sem exagero, a tragédia de São Paulo tornou todas as demais mortes coisas menores. Vivos, transitamos no mundo da relatividade. A morte de minha mãe é, em mim, uma dor que, como a deixada por meu pai, amainará hoje para voltar amanhã. Não latejando, mesmo assim será dor, conheço dessa matéria. Porém mamãe viveu quase 84 anos, foi feliz com meu pai, teve quatro filhos que se formaram e nenhum de nós é malandro, escroque ou mau irmão. Enfim, mamãe viveu uma vida e deixou frutos dignos do seu amor. Logo, choro sua morte, mas me conformo, assim como me conformo com a dos outros amigos que se foram logo a seguir.

Difícil é suportar a morte dos que desciam em São Paulo, indo, quem sabe, visitar um amigo, fazer um exame, pegar outro avião para visitar familiares, gente que daria prosseguimento à vida. Decerto morreram por alguma causa que se explicará muito bem (falha humana, falha mecânica, defeito na pista, seja lá o que for), mas que não apagará as questões políticas que estão atreladas à matéria da aviação no Brasil desde o acidente entre o avião da Gol e o Legacy. Torçamos para que se chegue à conclusão técnica e se tomem as providências necessárias para que isso não se repita.





Este julho de 2007 foi mês em que a morte atuou no atacado. Saiu das esquinas, onde estende sua mesinha de camelô e, montada num caminhão de último tipo, desses com letreiro chamativo, foi arrastando as pessoas de roldão. Não há o que discutir com ela; nem com Deus. É preciso, sim, discutirmos entre nós, valorizarmos nossas vidas e nosso convívio comum. Com urgência.


Enquanto isso, vou aprendendo a ser órfão de pai e de mãe, nesse mundão sem fim, cada dia mais apertado.

30.7.07

Morei na Gávea






Sim, morei sim.






Não era perto do Baixo, ao contrário, era bem lá pra cima, depois da PUC e do Teresiano. A casa sem pai nem mãe, onde um mineiro (eu) e um boliviano residíamos, era porto para todo tipo de embarcação. Amigos, antes disso e depois daquilo, ancoravam por lá; outros, abraçados às suas mulheres, desabrigados por alguma enchente tropical, ali se aboletavam com mala e cuia e só não levavam cachorro porque não tinham. Um outro sistematicamente chegava, sentava-se no sofá da sala, ligava a televisão e dali não arredava por nada. Se calhasse de a noite esquentar por conta de algum excesso — sabe como é, aparecem meninas que ninguém conhece, abre-se uma cachaça pura de alambique do interior de Minas ou do Ceará, experimenta-se um fuminho de rolo que papagaio não bica —, nem assim esse amigo desgrudava da televisão, vendo qualquer coisa que passasse nos canais abertos (e únicos, pois não havia canal a cabo, talvez nem antena parabólica). Enfim, mais do que em casa, morava na comunidade dos universitários que começam a farejar a vida sem o controle rígido dos pais. Fizemos besteiras e aprendemos muito. Sobrevivemos, quer dizer, alguns morreram, não pelas pequenas doideiras ou por algum malefício adquirido ali; morreram porque, estando vivos, morremos sempre.




A Gávea para mim não é exatamente um bairro, esse metro quadrado de pedra que começa numa praça, termina numa favela, tem montanha de um lado e o mar um pouco distante, mas, sim, um espaço incrustado na memória. Justamente na memória do homem que sou hoje, feito, em parte, do jovem que fui então. É, portanto, uma bruma, um debuxo, um fio tênue, ainda que resistente, diria mesmo perene.




Talvez por isso, onde estou carrego o bairro comigo. Levei-o para Botafogo, onde vivo. Levei-o à Bolívia, aos Estados Unidos, à Finlândia, enfim, às terras estranhas e estrangeiras que as circunstâncias me fizeram conhecer. Levei-o para compartilhar com meus amigos de botecos em Minas e em conversas fiadas nas noites frias de São Paulo.


Para Bandeira e Cabral, Pernambuco. Para Drummond, Minas. Para Trevisan, Curitiba. Para Marques Rebelo, a capital da Guanabara. Para García Márquez, Macondo. Real ou fictício, precisamos de um chão, assim como precisamos de pai e mãe (reais ou fictícios). O meu chão, que é Minas, também é a Gávea.





Tô Voltando

Ando rateando como os viciados de modo geral. No meu caso, todavia, vou na contramão. Digo: volto ao blog amanhã, mas não volto, não escrevo. Meu vício é a abstinência.
De todo modo, reproduzo a seguir uma crônica que escrevi para o Jornal Folha Gávea e Leblon, publicação mensal de circulação gratuita. Como devo escrever por algum tempo no jornal, pelo menos uma vez por mês volto aqui para rechear meu blog, coitadinho.

7.3.07

Carta de Saudação

Desculpe o jeito, mas sou informal em tudo. Já me disseram que isso vai me custar caro, que o mundo real, o do trabalho (aliás, escasso toda a vida nos dias de hoje), exige formalidade. Que não vou ascender, serei apenas esse sujeitinho simpático e solícito, nunca chefe, doutor, essas qualificações filhas do formalismo. Sou assim, e meus quarenta e cinco anos me levam a desconfiar que perduro nessa até rachar, ou melhor, morrer (além de informal, ser cheio de metáforas é demais para o propósito dessa singela carta de saudação).


Posto isso... Ô, Bush, chega mais, toma um café.
Cara, fico olhando de longe, você na TV, eu estatelado no sofá, cansado do vaivém cotidiano, e me pego pensando: macacos me mordam, esse sujeito é o bicho chupando manga. (Fui dominado pelas metáforas. Agora paciência.) Você não tá nem aí para o efeito estufa. Você quer mais é meter tiro nesse povaréu muçulmano. Também naquele de olhinhos fechados, não só os coreanos — bem sei, os seus, Bush, olhinhos de igual modo meio fechados não me enganam —também os chineses. Sua pança engole uma China se (os chineses e o resto do mundo) vacilarem. Com PIB grande, crescente ou não, e tudo. Tome cuidado com o muro: mamãe disse que embrulha o estômago comer pedra. Não, claro, ela não disse para mim, avisava a um pobre coitado faminto que se interessava por um tijolo largado na rua. Mamãe é terrível, excessivamente sensata, até com esfomeados ela se mete a ser a sensatez em pessoa. Nisso vocês se parecem.

Esta carta, escrevo-a para lhe dar as boas-vindas. São Paulo é o Brasil. Se você ficar só aí nas bandas da Avenida Paulista, vai pensar que falamos inglês, que somos um exército de reserva convocável para acabar logo com essa bobagem de Cháves na vizinha Venezuela (além de achar que o trânsito da cidade é uma beleza). Agora, dê uns passinhos pra lá e outros pra cá, leves, dançantes, ora, ora, o cu do mundo também está encravado na metrópole brasileira. Por mais que minha mãe tente, mesmo na rica São Paulo, a nau dos insensatos insiste em beliscar um tijolinho, em mascar piche. Talvez você não se assuste por conta de lá nos States encontrar gente como essa, que parece existir apenas para manchar nossa reputação. Tudo leva a crer que a escolha por São Paulo foi acertadíssima, é a nossa metade mais aproximada da América. (Você não se orgulha de América ter se tornado sinônimo de Estados Unidos da América? Nós aqui, não faço rodeios, temos uma certa implicância com isso, não sei bem a razão, mas achamos também que somos da América. Imagine que os professores nos ensinam isso no colégio. E confirmam na universidade).

Talvez você, Bush filho, já tenha ouvido falar do Rio de Janeiro. Seria o lugar ideal para vir. Seu antecedente, aquele democrata chegado a estagiárias, veio aqui e caiu na farra; no samba, compreende? No entanto, desaconselho a visita por estarmos atualmente em guerra. Não contra muçulmanos. Nem contra judeus. Nem contra bárbaros de qualquer espécie. Lutamos contra os monstros que cultivamos em 500 anos de história e que, veja a loucura, resolveram fugir da jaula e, mais do que isso, colocar os que estamos fora dentro. Para dar uma espiada na beleza carioca, peça a seu avião para dar um rasante pela cidade. Pode descer atirando, existirão aqueles que o aplaudirão. Nem lhe digo para tomar cuidado, mas tome, com a criançada que, indiferente aos caos, dá suas estilingadas e solta pipa com cerol. Agora, não perca a esportiva à toa, carioca é fogo, chegado a dar apelido de primeira, no improviso. Não estranharia se referissem a você como Bush de Canhão. Essa turma não se emenda.


Bem, Bushinho, a carta é singela, até mesmo um pouco doidinha, escrita fora do riscado da razão, mas o objetivo dela é, além de lhe dar as boas-vindas, alertando-o para nossas características particulares, que nós mesmos chamamos de tupiniquim, também lhe dizer que vejo em você a encarnação daqueles personagens de desenho animado e seriado de heróis, todos made in USA. Falo daqueles que riem muito, e como riem! Uma risada forte, que diz tudo. Já sacou? Não? Pô, Bush, Bushinho, tô falando dos caras do mal. Daqueles que querem acabar com o mundo. Você é igualzinho. Nem precisa do risadão, basta fechar seus olhinhos e corar a bochecha.
Em algum momento da vida, comecei a acreditar que isso de bem e mal é uma simplificação; maniqueísmo, como dizem. Mas, ilustre visitante, se você não é o mal, o que seria?

Bem-vindo.

PS. Por favor, filho do Bush, Bush igual, não me vá ter uma recaída com o álcool brasileiro.

25.2.07

César Aira e o Espaço da Arte


César Áira. Escritor argentino. Contemporâneo. A Nova Fronteira acaba de lançar dois títulos dele: As Noites de Flores e Um Acontecimento na Vida do Pintor-Viajante.


Não fiz pesquisa exaustiva sobre o escritor, mas, não resta dúvida, é um dos mais badalados da literatura atual de seu país. Aira não se contenta com o espaço da ficção, escreve também ensaios, o que se presume ser uma busca de compreensão do mundo de forma estruturada, talvez até canônica. No meu modo de ver, a literatura é o espaço da procura, do encontro casual. As narrativas não servem a nada, como disse há pouco, conforme li em reportagem em “O Globo”, o poeta Paulo Henriques Brito a respeito da poesia.


Isso não quer dizer que não revelem. A ficção é mão que rasga o véu da forma mais incerimoniosa possível. Mas não o faz para revelar o que está sob o véu, mas simplesmente para dizer que há algo sob o véu. Assim fazendo, dá à luz a nudez de nossa condição humana. Às vezes de forma rápida, pois é preciso recobrir tudo para reiniciar o pique-esconde. O próximo corpo gritará outros segredos.


Em “As Noites de Flores”, Aira parece transitar entre a inutilidade da ficção e a obsessão reveladora do ensaio. Em grande parte da novela, ao acompanhar seus personagens “centrais”, o autor salpica o texto de verdadeiras digressões sobre a contemporaneidade. O contraste entre o velho e o novo, as limitações e transformações impostas pela crise econômica, o espaço real e o espaço mais do que real estabelecido pela televisão — tudo isso posto enquanto o narrador acompanha um casal aposentado que, para garantir seu sustento, entrega pizzas pelo bairro de Flores. Entrega, aliás, a pé, causando uma estranheza desestabilizadora, mas também restauradora, no ramo em que dominam jovens e motos.


Levando a narrativa num feixe de leveza, o início poderia indicar o caminho da crônica. Não, Aira foge disso e, fazendo um bom jogo textual, vai depositando, de pouco em pouco, elementos de mistério (o seqüestro de um jovem; a figura de outro cujos 14 anos não o impedem de conhecer todos os segredos do GPS, mas o impedem de garantir se determinado colega é um homem ou uma mulher), típicos do suspense que se espera de um bom livro.


O autor dá uma rasteira no leitor na segunda parte do livro. Se boa literatura se faz a partir da coerência, ou mais do que ela, do fazer sentido dentro daquele mundo que se construiu, não se vai encontrar isso em “As Noites de Flores”. Ao contrário: de repente vamos sendo apresentados a inúmeras e sucessivas quebras. Um personagem é cego, mas não o era em momento nenhum até que se disse que é. Não há sutilezas que poderiam escamotear essa cegueira. Não, ela aparece sem mais nem menos. Um personagem é homem, mas era mulher até que se disse que é homem. Novamente, nenhuma filigrana foi espalhada ao longo do texto para indicar isso. Há um escritor sem livros, que se torna o portador da verdade que, afinal, não só o juiz do livro, mas todo leitor, busca. Mas, tal verdade, o escritor encontrou em um livro de um roteirista de reality show, um outro metade uma coisa, metade outra coisa.


A segunda parte parece um segundo livro. Na primeira, os anjos agem. Na segunda, os monstros. No entanto, os segundos saíram dos primeiros. A segunda parte saiu da primeira. Ouso dizer que Aira, usando seu faro de ensaísta, de homem preocupado com a concepção da arte no mundo moderno, quis e fez um livro ruim. Um livro que não aceita a “regra” do bom livro, subverte-a, dá-lhe um nó. Se, com isso, o autor fez um bom livro ruim ou não, leitor, vá lá você conferir.
De certo, certo mesmo, é a obsessão que o autor tem por contextualizar a arte de modo geral.


Em “Um Acontecimento na Vida do Pintor-Viajante”, Aira conta a passagem de Rugendas, aquele que pintou a vida colonial do Brasil e de outros países sul-americanos, pela Argentina. Ao que tudo indica, tal passagem foi de pouca importância, mas Aira desfaz a verdade histórica e coloca Rugendas não só fazendo seu trabalho de sempre, como mudando o rumo de sua vida nessa ida à Argentina. O escritor argentino, nesse livro, usa, digamos assim, da “boa prática” novelesca, narrando, sem rupturas, uma história forte e contagiante. Rugendas se faz acompanhar, nessa viagem, por um aprendiz, que, na pena de Aira, não é dos mais talentosos. O choque entre a genialidade de um e a mediocridade do outro é a brecha para a discussão sobre arte. Novamente, assim como em “As Noites em Flores”, Aira nos pergunta: há, hoje, espaço para a criatividade? Há criatividade?


Aira, como resposta, corre risco com sua literatura. E o risco é o maior parceiro de um artista.

3.2.07

Um barranco para descansar


O escritor, ô sono, dá uma grande espreguiçada no meio da tarde de sexta-feira, dia de Iemanjá.

Depois de alguns dias de leitura feita sob o solavanco dos ônibus urbanos, na cidade do Rio de Janeiro, o escritor terminou “O Vôo da Madrugada”, de Sérgio Sant’anna. Mestre esse Sant’anna, a conta gotas vai levando a gente no bico. Nesse livro inventou (escritor não inventa, descobre) um tal Gorila, tarado virtual, pouco tarado e muito virtual, sujeitinho frágil, uma casca de ovo. Fez filho e mãe transarem, sem um pingo de pornografia, deixando escorrer o incômodo de coisa dessa natureza; e deu vida a imagens estáticas, vistas em fotos e pinturas. Tenho na ponta da língua mil comentários sobre “O Vôo”, ainda que o melhor meio de fazê-lo seja conversar seriamente cá com meus botões. Explico, explico. Um cadinho na temática, outro na forma, nossa literatura, minha e dele (talvez também a sua, como saber?) tem muita coisa em comum. Mas quem há de se interessar por isso além de mim, escritor em busca de afirmação?

Essa maldita preguiça, de onde vem? Dormi tarde ontem. Pode ser por isso, mas teve, agorinha, o almoço de arroz com camarão e polvo. Sim, sim, a leseira que se segue a um bom cardápio acomete a maioria dos humanos, não nos deixando esquecer do pecado da gula. Uma prova cabal da existência desse Deus inventor de pecados capitais. Como será o inferno?

Não, meus parcos leitores, vocês não merecem tal humor de porca enferrujada, rangendo dia e noite, noite e dia. Nem eu mesmo mereço tamanha chiadeira. O sol. A lua. O amor. O prazer. Bem sei de tudo isso, mas, ô sono, ô olho pesado.

Chega, chega. O que vocês estão fazendo? Digo, além de ler isso aqui. Nada, nadinha?
Então anotem. Ouçam minha quase conterrânea (que só conheço de disco), a Consuelo de Paula (http://www.consuelodepaula.com.br). Leiam o Bernardo Carvalho (http://www.clickescritores.com.br/bernardoc00.html). Beijem seus filhos (não há página na Internet). Assistam ao “Ensaio de Orquestra”, do Fellini (http://www.imdb.com/name/nm0000019/). Compre ingresso, se estiver no Rio, para ver “Gaivota - Tema Para Um Conto Curto” no Poeira.

Esse cardápio mínimo, bem comido e digerido, pode levá-lo, meu caro leitor, a uma preguiça assim interminável, mas você estará, esteja certo, um pouco menos suscetível de passar pela vida cheio de disposição, mas vazio.

30.11.06

O homem mais velho do mundo

Adão, apesar de pecador, ou por isso mesmo, viveu 930 anos. Outros bíblicos também ultrapassaram a barreira da velhice, alcançando outro estágio da vida, que não chegaremos a conhecer. Assuntos de religião são muito controversos, prefiro evitá-los. De qualquer modo, Adão foi menos que um homem, sendo, de fato, um modelo de homem ou um homem-modelo, não sei bem. Sua longevidade é uma metáfora para as dores e prazeres do ser humano, as de ontem, de hoje e de amanhã, explorada no veio de um rio ideológico.


Portanto, o homem mais velho do mundo não sai da bíblia, tem de ser alguém de carne e osso. Minha avó, por exemplo, é candidata. Viveu 96 anos, dos quais os últimos 20 na escuridão da cegueira. Ela não teve os recursos da modernidade, todas as drogas que nos perpetuam mais e mais, sequer saneamento, luz elétrica e água tratada (teve, sim, nos seus últimos 15 anos de vida). Fez 18 partos, traduzidos em 22 filhos, 8 deles natimortos ou mortos na primeira infância. Em suma, um milagre.


Todos os filhos de minha avó viveram menos do que ela. Apenas uma das filhas pode ultrapassá-la, ainda que esteja vivendo completamente alheada da vida, a despeito de enxergar bem. Inventa namorados. Vê pessoas onde não há pessoas. Paquera sobrinhos. Toma sol levada por sua ajudante. Come como uma menina sem intenção de ser top-model. E é magra, magérrima.







Nem minha avó, nem sua filha são os homens mais velhos do mundo. Ao colocar o título do texto pensei em colocar “O ser humano mais velho do mundo”, seria mais correto. Depois, me censurei: politicamente correto demais! Na língua portuguesa, homem é o macho e é a raça. Então, vamos de homem, mesmo que se acabe por escrever a frase anterior: minha avó não foi o homem mais velho do mundo. Logo Dona Tomásia, ceguinha e feminina como ela só.



Já estou eu perdendo o rumo. Toma tenência, escritor!


Esperava a hora de pegar o remédio para meu filho. Daí a pouco cruza por mim um sujeito vestindo uma dessas máscaras típicas de quem está fazendo tratamento e precisa de proteção contra a vida invisível escondida no ar. Fura a fila com todo o direito. Quando volta, uma senhora, dois corpos à minha frente, chama-o. Se conhecem. Começam a conversar. Ele conta sua história bem triste (transplantado de rim, padecendo de efeitos colaterais sobre o coração e, aparentemente sem ligação com a doença original, sofrendo de um começo de surdez). Um homem, entre mim e a senhora que conversa com o transplantado, faz um comentário do tipo: nossa, tão jovem! E ouve como resposta:


— Não, senhor, sou o homem mais velho do mundo. Estou condenado à morte desde os meus 10 anos de idade.


Ele não tem mais de 35 anos. É possível que tenha menos de 30.

14.11.06

Maquinação do Senhor Noll



Instigante sempre foi. Falo da obra de João Gilberto Noll, que agora ganha mais um livro, “A máquina de ser” (Nova Fronteira), reunindo uma série de pequenos contos. Se, em número, o grosso de seu trabalho são os romances, os contos costumam chamar bastante a atenção, não sendo raro encontrar aqueles que os consideram como a melhor parte da criação do escritor gaúcho. Também dizem isso em relação a Clarice Lispector. Não quero entrar no mérito da questão, mas acho que esse é o tipo de debate estéril. Noll e Lispector escrevem bem às pampas e o pior deles tira o fôlego de qualquer um (fazer perder ou não fazer perder o fôlego é a melhor maneira de medir a qualidade da literatura).


Debates à parte, concentro-me nessa tal máquina de ser do Senhor Noll. O título abre dois caminhos claros para associações rápidas: a contemporaneidade (máquina) e a filosofia ou a perenidade (ser). E é bem no interstício entre essas duas forças que Noll, habitualmente e não só neste livro, trafega. Poucos são os autores capazes de cutucar com vara curta a ferocidade de nosso dia-a-dia, no qual, não por acaso, o corpo furioso se apresenta como espaço sintético de todo o resto.


Nos contos da “Máquina”, o corpo é a estrela, também o breu, o que pouco importa, desde que céu e inferno sejam entendidos como foco urgente e principal de Noll. E são. Não só neste livro, em todo o Noll, em contos e romances, de cabo a rabo, dos pés à cabeça, o corpo serve de palco a suas fabulações.


Entre este livro e os romances, há uma diferença fundamental: Noll trancafiou seus personagens no ambiente de suas casas, como o fizera em sua estréia em contos, “O Cego e a Dançarina”. Não vamos encontrar mais o sujeito que permanentemente está mudando de ares, indo de Copacabana para Santo Cristo e, num átimo, rumando para o Leblon, quem sabe descansando no Rocha ou se perdendo num país inexistente; voando de Londres para Porto Alegre, vagueando, antes, pela Lagoa da Conceição. Os personagens do Senhor Noll sempre precisaram de campos abertos e de longas caminhadas, riscando uma metáfora de liberdade na prisão pessoal, intrínseca, não há como não bisar, corpórea.


Eis que, na “Máquina”, o ir-e-vir se reduz a um quase nada, tudo está ali intramuros. Mesmo quando um helicóptero aparece para levar o pouco que resta de um tal personagem para o mais distante possível, para a geografia sem fronteiras do céu, não logrará sucesso. Sim, sim, se o céu é o paraíso religioso, a afirmação anterior não se sustenta, mas se não é, e para Noll não é, o resultado final será um aglomerado de carne e ossos esboroado no chão, instante em que perderá pelos pólos a liquidez das idéias e ganhará, tarde demais, a dimensão do imensurável.


O ilimitado, a partir do novo livro, perde o significado até então concebido a ele, o de metáfora da recusa do que está posto pelas regras da convivência. A mesma recusa continua quando o espaço se reduz ao mínimo possível. Em Noll, nunca houve sinal de agorafobia, nem há, em sua última tacada, sinal de claustrofobia. Em campo aberto, em quarto fechado, o corpo corre sozinho os riscos inerentes à condição humana.

20.10.06

Enfim, um clube

O papo é o seguinte: não sou de pertencer a clubes. Entenda-se clube como qualquer coisa cheirando a determinada coletividade voltada a um fim específico: entretenimento, política, esporte, conselhos profissionais e outros mil exemplos que me escapam no momento.

Sim, sim, sou botafoguense, mas sem paixão exacerbada. Namorei o PT, mas não me filiei, acho melhor dizer: fiquei com o PT. (Aliás, o PT beija tão bem que nada impede que, na próxima festa, nos agarremos no meio da pista de dança, mas, claro, só se ele estiver trajando o velho, mas reciclado, vermelhinho básico e desacompanhado de seus amigos esquisitões.) Não comungo, não busco espíritos, não freqüento terreiros.

Sou quase como o Marx, o irmão americano, não a chama comunista, aquele que não entrava de sócio de clube que o aceitasse como tal. Digo quase porque, na matemática, até o vazio é um conjunto, ou um clube na palavra exata desse lero-lero. Ou seja, pertenço ao clube do eu sozinho. Leitor que nem me conhece, passo longe de ser egoísta, sou, sim, um cético de carteirinha, por mais contraditória possa soar a afirmação.



Apesar de tudo, fui jogado, pelos fundos, a um clube. Bordejei pelos cantos tentando manter-me o mais discreto possível. Daí reparei meus parceiros. Rostos vilipendiados, gestos arrastados, olhares inquietos, fugidios. Tanto como eu, até os mais embrenhados no salão de baile, dançantes e passadiços, escancaravam o mesmo ar de vergonha, ainda que neles já se percebesse uma certa anuência com a situação.


Qual situação? Afinal de contas que clube era esse que nos tragara, que nos buscara, que nos engolira? Éramos os endividados, a classe média que pegou 5 dinheiros para complementar a grana de um mês, outro 1 para trocar a TV e mais outro para dar de entrada no fogão que durou menos do que as prestações. E depois recorreu ao crédito em folha e depois à renegociação de todos os empréstimos em 60 meses, chance única, pegar ou largar.

A classe média voltando do paraíso.

A classe média aguardando o elevador defeituoso, descendo, descendo eternamente.

Baile da última gota de dignidade da classe média muito pouco digna no mais das vezes. Baile de ventiladores desligados porque não foi possível pagar a conta. Baile com os odores do último perfume de Paris.

Arrastado até ali, ali não ficaria. Mesmo com empréstimos e empréstimos-sobre-empréstimos e empréstimos-sobre-empréstimos-sobre-empréstimos, empunhei meu cartão de crédito e caí fora.

Entrei na primeira loja encontrada pelo caminho. Mostrei para o caixa o dinheiro de plástico e levei para casa o novo Caetano (Cê).



Andam dizendo que o disco do baiano é nhenhenhém. Dor de cotovelo. Coisa de velho que perdeu a menina. Se é, dane-se. Caetano acaba de dar outra chacoalhada em si mesmo.


O disco parece com a fase de “O quereres”, mas enxuto. Rock básico. Sofisticação a partir de miudezas. Som de garagem. Harmonia incompleta até o som, arremetido com aparente desgoverno, entrar na gente e ficar. Caetano fala de trepadas mal dadas, da mulher que foi “mor rata” com ele, da saudade de Wally Salomão.


Mil vezes o chororô do Caetano. Mil vezes o baiano abraçado a Lupcínio. Mil vezes Veloso Dylan. Mil vezes o pai do Moreno, irmão do Moreno, filho do Moreno. Mil vezes a rebeldia magrela do falastrão desastrado. Mil vezes. Dez mil vezes.


Nos próximos cinco minutos, cinco dias, cinco mil horas, sei lá, sou do Clube do Caetano. Nele fico protegido dos ataques da nostalgia burguesa da classe média. Nele fico, ainda que endividado esteja, endividado estarei, endividado serei.

Antes só do que mal acompanhado.

10.10.06

Revelação

Acenei…Não, antes olhei pro céu e pressenti chuva. Voltei em casa para pegar o guarda-chuva. Não sei a razão, mas um sujeito com guarda-chuva, apesar da pouca durabilidade dos atuais, made in China, parece mais digno.

Voltei com certa dignidade para o ponto de ônibus e, aí sim, acenei para o 409. Não estava cheio, pude escolher o lugar. Sentei ali no meio, perto da janela, na fila oposta a do motorista. Nessa posição posso deitar a vista na enseada: Botafogo, Flamengo… os Pracinhas, todo o Aterro. Bela cidade, o Rio de Janeiro.


E lá ia o ônibus com o jovem senhor com destino tão certo, rotineiro. Sentadas no banco de trás, duas senhoras conversavam sobre qualquer coisa, nada que aguçasse minha curiosidade. Uma delas desceu no ponto bem em frente ao Shopping da Praia de Botafogo.

E, nesse momento, aconteceu.A senhora que ficou desandou a falar sozinha. Reclamava. Era o ônibus que se arrastava; um ônibus enguiçado logo adiante que atrasava a vida de todo o mundo. Sabem aquele tipo mal-humorado, ranzinza? Era ela.

Não me caiu bem essa reclamação interminável. Era uma segunda-feira, o day after do debate entre os candidatos à presidência. Eu estava triste, mal-humorado também, só não estava falando sozinho, achando que o ouvido dos outros é esgoto.
A mulher, no entanto, continuava. E continuava. E continuava.

Até que falou:

— 9 horas da manhã, e essa lerdeza. Na Europa, o pessoal já almoçou, se duvidar até já lanchou, e nós aqui… Seu Lula, seu Lula, olha o que senhor aprontou!

Quando contei a amigos, pensei que a mulher poderia ficar mais espantada ainda se pensasse não nos europeus, mas nos japoneses. Àquela hora, já se preparavam para dormir.



Esse deslize da mulher, todavia, pode ser debitado ao preço pago por pioneiros. Ela acabava de criar uma teoria. Não é a diferença racial (responsável por tantas guerras). Não é a diferença religiosa (responsável por outras tantas guerras). Não é cultural. Não é econômico. O problema do mundo, leitores e leitoras, é o fuso horário.


Vamos mudar nossa agenda política.


PS. O Guarda-chuva lá em cima é obra de Goeldi.

8.10.06

50 anos de “Encontro Marcado”



O “Prosa e Verso” (O Globo) de hoje, 7 de outubro de 2006, é todo dedicado aos 50 anos do livro do Sabino.

É possível que tenha lido o romance na comemoração de seus 30 anos. Minhas lembranças, portanto, são apenas borrões. Lembro dos personagens transitando por Belo Horizonte, varando madrugadas na Praça da Liberdade, perto de onde, aliás, recentemente colocaram uma escultura em que estão Sabino, Pelegrino, Lara Resende e Mendes Campos, os quatro terríveis.

Essa turma nasceu na década de 20, na mesma de minha mãe, que os conheceu lá em BH, na década posterior.

E daí?

Daí que tomei de achar os nascidos em 20 gente muito interessante. Minha mãe é. E esses escritores mineiros também o são (eram), assim, como, da mesma safra, outro contemporâneo deles, o Ivo Pitangui.

E foi o Pitangui que me fez vir aqui escrever.

No caderno do Globo, ao entrevistarem o médico, perguntam se ele, como os personagens do livro numa determinada passagem, puxava uma angustiazinha. A resposta foi mais ou menos assim: é, como não tinha um fuminho, a gente puxava uma angustiazinha.

A sabedoria não é monopólio da velhice, pois se assim fosse, Sabino não teria escrito o “Encontro Marcado”, salvo engano, com um pouco mais de 30 anos. Seja como for, a idade deve suavizar nossa visão da vida. “Não havia fuminhos, fumávamos angústia”.

Fica aí um pingo de poesia para os dias tão medíocres do Brasil de hoje.

29.9.06

Opinião de Estreante

Acabo de estrear em outro blog, o Opinativas. Agora estou aqui, muito raramente, e lá. Quem sabe não escrevo com mais freqüência...
Assim espero.
Reproduzo a seguir o texto de lá. O opinativas está no endereço: http://opinativas.wordpress.com


O senhor responsável por este blog achou por bem me convidar para dar opiniões a respeito do que eu bem entender. Sujeito corajoso, ele.

Sou da opinião… peraí, estou tentando lembrar. Está muito claro… peraí, estou tentando lembrar.
Sabe o que é? Sou mais de palpite do que de opinião. É um erro, bem sei. Não sou de acreditar que “pau que nasce torto, torto morre”. Pois bem, se um assunto me interessa, sou capaz de estudá-lo, ver um lado, ver o outro, enfim, tomar uma posição. No entanto, na calada da noite, o que desprezei reclama, volta, mostra lá o seu valor. Que nem nos desenhos, onde o diabinho puxa de cá e o anjinho de lá. (No meu pensamento, os dois ficam trocando de roupa, só para confundir e complicar ainda mais.)

Alguém dirá: um sujeito tão infantilizado assim não pode mesmo ter opiniões. Concordo e não discordo. Sendo assim, tomo minha primeira atitude diante do convite do moderador: inauguro no Opinativas a seção Palpitaria. Espero ser inconseqüente, muito pouco economista, bastante moleque. Que não digam que não avisei.

Ao primeiro palpite.

O Lula vai faturar. Nós que acreditamos nele por tanto tempo, tivemos a chance de descobrir um de seus defeitos: o agora e amanhã presidente não sabe escolher os amigos. Sai com uns traíras, com uns “aloprados”, dá até dó. (A exceção, obviamente, é a daquele sujeito que paga as contas sem o presidente pedir. Isso sim é amigo; os meus, se pestanejar, me deixam a conta do bar e ó, pé na tábua.)
Mas acompanhem meu raciocínio: ele perdeu os (piores) amigos, vai ter de escolher outros para governar. A questão então é se vai dar sorte numa segunda vez ou errar de novo, o que é humano, ainda que vá nos custar muito caro. Custar. Muito caro.

Só vejo uma solução: blindar (essa palavra da moda, não tinha tido oportunidade de usá-la ainda) o Lula. Como? Quem sabe uma intriga, modesta, sem maiores conseqüências, com a esposa. Tipo assim: “não sei, dona Primeira Dama, essas idas ao Pará, esses pernoites em Minas, mesmo a senhora o acompanhando, há aqueles seus momentos de cabeleireiro, de comprinhas, necessidades tão prementes, e pode ser, nunca se sabe, não é?, a carne é fraca, patati, patatá…”

Se ferimos a fêmea, o segundo mandato pode ser todo feito lá de dentro do palácio, por e-mail, um governo recluso e virtual, sob as vistas da esposa.

Quem sabe a solidão e o encontro repetido com os diversos espelhos do palácio (serão muitos, imagino), se não derem em filosofia, dêem ao homem a oportunidade de encontrar-se consigo mesmo e com seus valores?

Seria uma bela amizade.

21.5.06

Vaca de Nariz Sutil





Você saca o quadro acima? Não? Descobri-o há pouco, passeando pela WEB. O que buscava? Alguma referência sobre “Vaca de Nariz Sutil”, livro de Campos de Carvalho. O quadro tem o mesmo nome e é do pintor Jean Dubuffet, que, descubro também na WEB, nasceu no início do século XX, tendo sido sua obra atrelada a “arte bruta”, da qual seria o maior representante.

De que forma o quadro está presente na novela de Campos de Carvalho é difícil dizer, e nessa minha imensa pesquisa de dois minutos não encontrei nenhuma referência sobre isso. No entanto, não há nada que uma boa conjectura, neste domingo de céu aberto outonal, não resolva.

Uma vaca de nariz sutil, onde já se viu isso? Se há uma coisa que ninguém presta muita atenção é em nariz de vaca. Dela, olhamos as tetas e os chifres e ficamos muito impressionados em saber que tem um estômago com quatro cavidades, uma que recebe a comida (sem mastigação), que, regurgitada, volta à boca para então seguir o caminho comum da digestão. Esse processo digestivo tem muito mais de sutileza do que o nariz do quadro em questão. Compare-o à foto abaixo. Há algum indício de diferença entre o focinho (melhor do que nariz, aliás) estilizado de Dubuffet e o natural? Não acho.




Eis o mistério. Vamos entrar na história do livro. Um ex-combatente de guerra, que recebeu todas as honras que um país dá a essa classe de gente, apesar de ele mesmo se ver como um assassino, será transformado em um perigoso criminoso (para os outros) quando cometer uma violência sexual contra a filha do administrador do cemitério. O nome dela, Valquíria.


(Um aparte: num dos milhões de lendas existentes mundo afora, essa nórdica, salvo engano (pesquisas de dois minutos são esquecidas em mais ou menos dois minutos e dezesseis segundos), conta-se que as Valquírias seriam seres que escolheriam entre os combatentes aqueles que deveriam morrer para formar um exército no outro mundo, o melhor exército na realidade, com vistas a proteger Odin numa futura guerra.)

Pois bem, a Valquíria de Campos de Carvalho vai em busca de um combatente, de um herói mesmo, embora este não esteja, no frigir dos ovos, morto. Aqui se coloca a questão: se é ela quem corre atrás, por que é ele quem paga o pato? “Sempre é a mulher quem tomba diante do homem, portanto, sobre o masculino recairá invariavelmente o ônus da violência”. Tudo bem, temos aí uma resposta. No entanto, inapropriada. A Valquíria de nariz sutil busca sem buscar; seduz sem se colocar sedutora. Em tudo é igual a qualquer mulher, mas não é igual. Não digo o porquê, leia o livro quem quiser.

A sutileza, no livro de Carvalho, não está na história até certo ponto previsível — ainda que a escrita em primeira pessoa favoreça o desconforto por nos colocar tão próximos do narrador, esse que virou assassino e descreve o crime. Não está na dança da sedução. Não está no ambiente do cemitério, tão e sempre habitado pela morte.

A sutileza do livro está em digeri-lo à maneira dos ruminantes. Aos 18 anos, como fiz, engoli-lo sem mastigação. Regurgitá-lo para novamente engoli-lo. Dessa vez aos quarenta e quatro, depois de tombar em inúmeras guerras sem que nenhuma Valquíria descesse do céu para levar consigo este bom soldado.

7.5.06

Poeminha Contábil





Para ler Ulisses
Pedro levou 10 anos
Eu, 10 meses
Nelson, uma vida, e com a leitura sempre por começar.

29.4.06

Novembro, em Araçatuba

Fui duas vezes a Araçatuba.

Na primeira, para um Natal familiar um pouco raro porque coincidia mais ou menos com os trinta dias da morte de meu tio Elin. Pisávamos em ovos, mas somos, a família eu digo, meio festeiros e nem luto nos impede de saracotear, ainda que dois passos pra cá, dois pra lá se misturassem, naquela ocasião, com lágrimas, as mais sentidas.

Na segunda, vejam quanta honra, convidado pela Academia Araçatubense de Letras, participei da sessão solene de final de ano, quando distribuem prêmios aos vencedores dos concursos literários que promovem e dão posse a novos membros. Além disso, lancei meu “Estão todos aqui”. Falo um pouquinho de cada coisa nos parágrafos a seguir.

Começo pelo lançamento. Chovia em Araçatuba (e por sorte não fazia tanto calor) e a expectativa era a de que o evento estivesse bem esvaziado. Surpresa geral: a família, em peso, não falhou, foram todos, chegando um pouco encharcados, é verdade, mas, como já disse, somos meio festeiros e nem chuva nos impede de saracotear, ainda que saltando uma poça d’água aqui, outra ali.

Além dessa manifestação extrema de carinho de meus primos, me chamou a atenção a livraria (Entre Páginas, rua General Glicério, 690) onde foi o lançamento. Não se encontra uma daquelas fácil por aí, não. Quem conhece esse mundinho dos livros pode imaginar que por trás do empreendimento há uma abnegada, uma idealista. Pois é isso mesmo. A livraria e seu café dão dignidade à Araçatuba, uma das poucas cidades com mais ou menos duzentos mil habitantes que pode se orgulhar de ter uma coisa daquelas. Torço para o negócio vingar e a dona enriquecer. Carisma não lhe falta.

Na livraria me acompanhava uma loura, ia de camisa preta com rosas vermelhas. É a Viveca, minha prima-irmã, grande responsável por tudo. Ela e a professora Cidinha Baracat, esta, por seu dinamismo e entusiasmo, uma mulher de tirar o chapéu. Cidinha é também uma acadêmica e foi quem teve a (estranha) idéia de me levar a Araçatuba. Se bem entendi, meus livros a cativaram (escritor vive disso, sabiam?).

No outro dia, sem chuva, lá fui eu para a sessão solene, na Câmara dos Vereadores. Meu Deus, era tanta gente com fardão. Eram idosos ao lado de jovens. Eram médicos, advogados, professores. Era o prefeito e um discurso que eu, por não viver ali, não pude entender plenamente. Me deu a impressão de rolar uma promessa de grana para a Academia, o que me levou, no improviso, a taxá-la de pífia e pedir mais. Inconseqüência estrangeira, a minha.

Não sabia muito o que falar para aquele público. De casa, havia levado o texto reproduzido abaixo (De onde escrevo), um guia antes de outra coisa. Abri a conversa contando minha ligação com a cidade, de meus parentes que foram para lá há muitos anos, na década de 40, salvo engano. Falei também de meu primo Paulinho, meu grande amigo de adolescência. Ele não estava ali, seus pais sim, mas ele não. (Como eu precisava do Paulinho na platéia. No outro dia, fui visitá-lo. Ele está careca e me deu uma meia dúzia de pares de meia e algumas horas de alegria e, e, ... não importa o que mais. Estive com ele, e rimos.)

A última parte da intensa programação foi um jantar com a turma da Academia. Minha família lá, festeiros como somos não é qualquer calor desumano, num lugar onde nem ventilador funciona, que nos impede de saracotear, ainda que o suor nos deixe menos elegantes do que somos.

Lá pelas tantas a Cidinha me chamou para dizer alguma coisa. Quando levantei da mesa, derramei água na camisa... Rasguei o verbo molhado e amarfanhado. Poderia ter rasgado um verso, mas minha memória, sei lá, acabo de esquecer como gostaria de qualificá-la.

Conheci uma psicóloga, feiticeira também, me pareceu, de uma cidade vizinha. Troquei algumas palavras com um escritor recém ingresso na Academia, um desses que concebem a vida interiorana como uma peça mágica elaborada sob medida por Deus. E ouvi um homem simples, marido de uma acadêmica, homem de mãos calejadas, contar uma história de discriminação ocorrida ali mesmo durante a confraternização.

Ele chegou e não havia mesas. Havia uma e somente uma, sobre a qual repousava um bule de café. Ele pensou bem pensado: para que serve um bule de café no início de uma festa? Tentou puxar a mesa, mas não lhe deixaram, ela tinha de ficar ali, com o bule. Ele, a mulher e a neta se meteram num canto do salão, sentaram-se no chão. Um pouco depois, ele viu outra mesa vazia. Sentou-se, mas não é que tentaram lhe tirar esta também? Estava reservada para outra pessoa. Nosso homem simples bateu o pé, e ficou. Bem, o bule de café foi desalojado e o tal convidado misterioso quando chegou encontrou a sua mesa prontinha, prontinha.

O homem simples me contou essa história porque me imaginava usando-a numa peça literária futura. Não sei, vale mais como história verídica mesmo, como exemplo de como estamos longe da sensatez que, em tese, distinguiria a raça humana das demais. Eu pensava isso, ouvindo o homem ainda. Agora comentava a minha “palestra” do dia anterior. Concordava comigo: sua sombra, como a minha, o acompanhava onde estivesse. Eu havia falado (leiam o texto abaixo) em assombro. Assombro, sombra... Nosso homem simples, que não se curvou à falta de mesa e à indelicadeza, reinventou minhas palavras. Nesse instante, sim, como disse um amigo meu, o homem me dava uma história para contar um dia.

Ainda fiquei mais uma manhã em Araçatuba. O suficiente para limpar a piscina da casa da Viveca, tendo como chefe o marido dela. Assim não, Alexandre. Isso, agora esfrega até a outra ponta. Escritor também trabalha (sob pressão). Como prêmio, Thales, o maridão, me deu uma caneta e uma lapiseira, as quais uso no meu dia-a-dia.

Lucros financeiros? Vendi alguns livros, mas dinheiro no meu bolso quando chegar não vai passar de umas migalhas. Portanto, lucro mesmo só meu caçula, o Pedro. Fui em Birigui visitar uma fábrica de calçados infantis, da irmã do namorado (a cara do Keanu Reeves) da Bárbara, a filha da Viveca. Escolhi um tênis e uma sandália, mas na hora de pagar não deixaram.

Se não fosse o fato de minha memória ser essa gelatina imprestável, me lembraria do nome do motorista que me buscou e me levou ao aeroporto de São José do Rio Preto. Outro homem simples, conversador, boa praça, bom motorista, o único que poderia ter percebido minha inquietação no momento da chegada e minha tristeza na partida.

De onde escrevo

(à Cidinha Baracat e ao Hélio Consolaro)

Sempre é de um lugar ou de um lugar-tempo, lugar-memória. Fala-se muito da infância, a partir dela, de sua nostalgia, sim, mas principalmente de seu encantamento, que nos marca a ferro e fogo.

No meu caso, será a infância se a ela associar-se a ignorância, não uma bestial qualquer, consciente e avessa ao conhecimento. Outra: ignorância inocente, condição de quem desconhece e não de quem nega ou renega.

O mundo me parece grande. Nos seus limites físicos, em seus colapsos geográficos. Maior ainda se a intenção de compreendê-lo não se voltar, em exclusividade, nem para o pronto da religião nem para a aventura da ciência. Porque o mundo cresce quando se apequena; quando é tão-somente um amontoado de gente (mais ou menos) organizada vivendo sobre ele; no seu colo; de seus troços.

Na linha da história, há um constante ascender e descender, neste se aninhando o germe da próxima ascensão e também o da próxima descensão. Fomos nômades, pastores, agricultores; encastelados hoje, aburguesados amanhã; crentes, utópicos, investigativos, guerreiros. Fabris inconseqüentes, ambientalistas raivosos. Fomos assim; vamos assim.

Mundo grande. Aberto à compreensão. Não uma única, várias; polifonia atonal, desafinada, também correta, senão burocrática, alegre e embriagadora. O economista olha assim. O sociólogo assado. O geógrafo releva. O antropólogo visita. E o escritor? Sua matéria é a ignorância, que se compensa, que se busca compensar, através do exercício do desbravamento.

Desbravar qual floresta? Qual obstáculo? Todos. Qualquer um. Até mesmo nenhum. Porque o escritor é, o escritor são. Se caminhássemos num imenso prado, Guimarães Rosa andaria só, com as mãos livres, seguido de longe por tímidos, cônscios de lhes caber apenas a tarefa da reprodução caricatural. Guimarães é único. Graciliano puxaria pelas mãos um séqüito heterogêneo: regionalistas, puristas do idioma, futuros exploradores do imensurável indivíduo (como um Noll). Clarice formaria outro bloco do eu sozinho, enquanto Mário de Andrade fixaria um projeto de coalizão artística ainda hoje ecoado (nova safra de escritores paulistas e outra de cariocas; nestes se vê mais claramente isso, pois demarcam o coletivo dando-se a si mesmos o selo de “Paralelos”).

Nem de longe pretende-se aqui teorizar, apenas se disse: somos vários de variadas formas, mostrando-se alguns e algumas das suas. Comum a todos a recusa de se vestir de um olhar ensinado. Ignoramos, portanto reinventamos, a roda a cada nova vez que nos colocamos em campo.

Eu escrevo entrelaçado a esse assombro do desconhecimento e arrisco a dizer que faço par com a grande maioria dos escritores. Disse assombro. Sobre ele, Julián Marías (História da Filosofia, Ed. Martins Fontes, 2004) afirmou ser a chama inaugural da filosofia. Ora, ora, nada mais natural que literatura e filosofia partam da mesma raia. Na primeira bifurcação, esta rumará para conter o assombro, conhecer tudo até o ponto em que não haja mais dúvida (quando então, sabemos todos, tudo se reinicia porque sempre há uma dúvida torta para uma certeza furada) nem assombro. A literatura, por sua vez, ao encontrar respostas não se dará por elas, porque o que lhe interessa é a travessia, é a peleja, é o vício da procura que nem sempre sabe ser de fato uma procura.

28.3.06

Enfim, um poema

Hoje, direto e reto, sem muita conversa fiada, coloco aqui nessa minha gaveta aberta ao mundo um punhado de versos (quem sabe se ainda em elaboração?). Devo dizer que o escrevi a partir da leitura de uns poemas do grande vagabundo norte-americano, Bukowski.

Saravá, poeta!


Canções Americanas
(Ao Cristiano dos Santos, que me emprestou o livro)

I
Não estou chorando, Kowski,
Vem do casco da cebola com que tempero a carne da carne de plástico —
Da vaca somática —
Ajuntando erva-daninha ao diabo da pimenta
Pra tascar fogo
Oh, Kowski!
Onde está o céu?
Cadê cadê cadê cadeira dura, bunda mole,
Quede quede o quarador de roupa e as colchas de mamãe
E as coxas da sua mãe, Kowski, pequeno marginal do pinto roto?

II
Baixa mulher das tetas que são demais pra minha boca
Sexista dia sim dia não dia sim dia e noite e noite e dívida
Tu carrega no bucho o porra nenhuma o abortumbrado
Filho meu dele de tudo quanto é um que te viu aberta
Em Paris da puta que nos pariu
— Parada.

III
A seiva de hoje é o duplo de cola e gelo
E gordura e sal e fica quieto e não se mexa
E não se mexa e trabalhe o dia a noite toda e mais um trago
E cheire e deite para não dormir para não sonhar para não
Para educada e cordialmente afirmar e reafirmar a próxima invasão, a de mil,
Na base da mão invisível
Com a ajuda da cartucheira de hoje afeita a disparos ininterruptos
Apontada para o artista da fome que sobe para o palco da morte
Num salto só do anonimato à estatística.

IV
Seu way of life
Seu Wayne e his wife
Carros carrões e grandes produções e a boca e a fome
De um russo exibindo a nudez das suas pudicícias
Enquanto a nova guerra (apodrecendo) arromba o glamour da vitória
Cuspindo à tona o suculento sangue do sangue do sangue bom do sangue de todos
Vocês e nós
Nós… apertados… apartados.

V
Furacões eunucos chamam a sua atenção para o seu tão próprio
Irreconhecido quintal. Seus olhos sempre
Esquadrinhando o além da cerca: o mundo, o mundo pouco visto mas imaginado
E fabulado
Para o qual
Sem se deter
Você avança de derrubada em derribada desenfreada
Sem freio freio nenhum.

VI
Marchas.
Estradas.
Algodão.
(Muita dor, de lascar.)
Jaz a alma
Petrifica-se a alegria
Come-se pelas bordas, queimando os beiços,
O último cigarro de bango
A última dose de a-que-incha
Para desbagulhar entrededos a tortura e a tontura
E morgar no colo do coito do coito do coito da violência
Selada nas coxas — e cruel.

VII
Onde estão seus tamborins?
Batendo na mesma tecla
Dos excessos do seu silêncio
Que mareia a miséria cujo endereço
São seus becos sem saída
E suas raízes fissuradas.
Mas também
Ludibriando o rigor da escala
Com tanta paixão e fome e fúria e medo e vergonha e demência
Se assemelham ao que não são: a um assobio descuidado
Nas filas dos seus supermercados de sua previdência social de sua acolhedora morte.

VIII
O carnaval submerso de New Orleans
O vício tabagista das fábricas
A mistura de diesel ao sangue
O batismo cifrado das sementes de trigo
A obesidade dos esgotos:
Ao Lucro, as batatas (de parafina).

IX
O suor de Luther King
O suor (frio) de Parker
Duas gotas da mesma dor
Duas dores da mesma cor
Dois gritos gestados no umbigo das contradições
Que cheiram a flor que cheiram a peido
Que não fedem nem cheiram
Até ... até o pum fatal da pólvora e o tum final do coração ao injetar mais sem poder.

X
Kowski, a descoberta de seus iguais
(Iguais na sede; iguais na perspicácia; iguais)
Cobre os pés, também os meus, quando o cobertor é curto
Abraça quando tudo desmorona
Empurra quando já é cansaço demais.
Mas, Kowski, seu punheteiro,
Conterrâneos, seus desiguais,
Preferem um certo frio,
Cair de vez
e
Morrer
de
Cansaço.



21.3.06

Não sei ao certo

Durante a minha infância, ouvi, e muito, esse papo de que homem não chora. Não lembro de ter saído da boca de meu pai, mas familiares diziam, outros pais diziam, professores também. Sou do tempo em que todos diziam.

Nunca eu mesmo disse, nem a mim, nem a amigos, sobrinhos ou filhos. No entanto, o fato é que poucas vezes chorei.

Lembro de todas elas.

Quando minha avó materna morreu. Um certo dia depois da morte de meu pai. Quando foi a vez do Marião. Sempre a morte. O choro da orfandade é a exceção permitida: lembro de assistir atônito ao pai: homem forte, rasgando-se na frente de todos diante da morte do filho.

Nunca no cinema. Nunca lendo um livro. Nem ao ver uma imagem de terror. Não choro diante da pobreza vergonhosa habitante de nossas ruas, ainda que sofra por ela; covardemente.

Sou da secura de minha mãe.

Ainda que.


Ao ouvir a gravação ao vivo de “Travessia”, feita por Elis Regina (em disco lançado depois de sua morte, a partir de umas fitas que receberam um banho de tecnologia), já não comungo intimamente com o racional dos parágrafos anteriores. Algo se desmancha, se transforma em outra coisa tão eu quanto, mas meu diferente.

Posso muito bem ver Elis levantando os braços, fechando os olhos, naquele instante em que a melodia sofre sua inflexão, para cantar o estribilho (“solto a voz nas estradas...”). Neste momento e todas as vezes, Elis cruza a fronteira, passa para o lado do sublime. A guitarra de Natan Marques toca solo assemelhado a um lamento metálico, levando a voz de Elis. Para onde?

Não sei ao certo... É provável que para um ponto de muitos pontos, onde minha química, minha biologia, meus nervos e minhas fricções elétricas sucumbem à magia da condição humana, que nasce ali entre tudo isso para ser uma força muito maior do que a soma de seus elementos.

Enfim, espaço onde a dor é e pronto.