7.9.15

No lombo do Brasil


Acomodo-me no vagão nem luxuoso nem simples do trem que me levará do interior de Minas a Florianópolis ou, via Pantanal, de Quixeramobim ao último povoado ocidental do extremo sul. Mas não existe essa possibilidade. Poderia existir, não fosse a falsa modernidade à qual nos agarramos ao longo do século XX e que sepultou os trens, sem que ninguém soubesse ou saiba quem garfou os trilhos.
Estou bem instalado no trem inexistente, e de sua janela num instante passo a contemplar o sertão árido, o resto de mata atlântica, o cerrado. (O Pantanal, preso num poema de Manoel de Barros, não pode ser mais visto, apenas lido, mas lemos pouco.) E sobe montanha e desce montanha. E margeia rio e se afasta de rio. Café com pão, café com pão. Bandeira, sedento de Brasil, invade o vagão e me sequestra.
No Brasil ninguém diz “eu digo”, ninguém diz “eu roubo”. (Tampouco eu.) Aqui, a esquerda benze meia dúzia de empresários: mais-valia pura pra quê se cinco letras em forma de banco abastecem os ungidos com dinheiro barato e pedalado? Aqui, a direita tem nostalgia da palmatória, mas investe mesmo é em arma pesada e sonha com um sistema prisional lucrativo: menino preso é capital sadio e, por isso, bom reprodutor.
O trem parece andar fora dos trilhos. Virge Maria, que foi isso, maquinista? Nada de susto, ele avisa pelo sistema de alto-falante, estamos apenas passando por cima de um rol de Adílios. No trem da Central, continua em tom muito formal, a operação de passar sobre o corpo de Adílio Cabral dos Santos ocorreu por necessidade: Quem seria o doido de tumultuar a vida daquele que precisa chegar ao trabalho na hora? Apesar do improviso, a profanação foi um ato de humanismo, ápice da consciência coletiva. Agora — a voz soa bonita e cheia de si —, produzimos Adílios em prostibolatórios de última geração e os jogamos já mortos sobre os dormentes. O trem que conseguir esbarrar no menor número deles ganha um prêmio. Qual? Dizer que foi ideia do outro. No Brasil gostamos de apontar o dedo e dizer “foi ele”, “foi ela”. Precavidos, não afirmamos coisa alguma defronte do espelho. Quanta sabedoria a desse homem!
O trem-bala já contornou o Chuí e, não tarda muito, desceremos em Manaus para, de acordo com o cardápio, comer carne de índio tucunaré. Sou repreendido pelo vizinho de assento: Não seja inocente, o índio é haitiano ou guianense, ninguém sabe ao certo. E não vem ao caso. Nunca vem ao caso, e ninguém jamais sabe ao certo. O tempero vai ser nativo, corre de boca em boca, para dar sabor à nossa eterna vingança pelo que fizeram ao bispo Sardinha.
Há pela frente o Pico da Neblina. O trem não está preparado para tamanha escalada, mas uma voz prática convoca homens de fome eterna para empurrá-lo até o cume. Lembro-me de Fitzcarraldo, o lunático filmado por Herzog, cineasta idealista que fez subir um navio pela montanha, uma linda imagem à custa da vida de outros famintos nativos dessas mesmas bandas amazônicas. Agora, são índios e negros — outra vez escravos, se é que algum dia deixaram de sê-lo — os que, tropeçando em Adílios, cumprem a missão. Ninguém poderia imaginar que ainda houvesse relho, chibata e cipó de aroeira, mas eles estão lá, troando no lombo de quem nunca mandou dar — tamanha violência cujo efeito colateral inesperado é deixar cada um de nós nu e, com isso, nu e transparente o próprio Brasil. Um rápido olhar para os lados é suficiente para se perguntar: onde foi parar a África nos machos, a Europa nas fêmeas? Quem lavou nossa miscigenação com água oxigenada e óleo de peroba?
Para cruzar o pico e depois descer, o governo empenhou no orçamento do ano que não vem dinheiro insuficiente e desnecessário, diz uma voz que não é a do maquinista, sabe-se lá se de um Adílio, de um Herzog, de um Deus dessas tantas butiques da fé espalhadas pelo Brasil. Outra frase brota no ar: No alto do morro, passa boi, passa boiada, só não passa solução já pronta para tormenta encomendada. Quem diz é ele, o do lado ou aquele mais adiante, mas, segundo ele, fui eu quem disse.
Em terras tropicais, odiamos o outro.















23.8.15

A primeira vez

A primeira vez que eu vi o mar, não o vi de cara. Mal pisei na areia, corri feito um louco e me atirei na água para, depois de um caldo, beber a espuma da onda recém-quebrada. Eu esperava uma água salgada, mas não tão salgada quanto aquela que provava a contragosto.

Desenho do autor, feito a partir de gotas de café.
Houve quem caçoasse do mineiro que tossia engasgado depois de levar um caixote. Saí humilhado ali da beirada, me sentei na areia e, aí sim, mirei o mar. Lancei sobre ele já então um olhar perspicaz, de quem o sabia cruel.

***
As mulheres de Argel, Picasso.
Numa casa em construção, talvez no espaço que viria a ser a sala, vi pela primeira vez uma mulher nua. Noutro futuro cômodo, dois amigos esperavam a vez de vê-la — o combinado, seguido à risca, era apenas vê-la. Ansioso e sentindo-me vigiado, eu não poderia estar inteiro na cena, e não estava. Vi os seios de maneira muito clara, rijos ali onde de fato os seios crescem e ficam, mas todo o resto do corpo — não só o que eu buscava, desconhecia e até aquele momento estivera sempre encoberto, como também a cabeça, os braços, enfim, as partes públicas — não estava no lugar. A primeira vez que vi uma mulher nua, ela parecia um desenho de Picasso.

***
A mãe da dona Antonieta, minha professora do terceiro ano do ensino fundamental, foi a primeira pessoa que vi morta. A diretora da escola nos levou ao velório e nós nos comportamos muito bem: não demonstramos medo, não evitamos estender a mão para a professora, alguns até mesmo deram-lhe um abraço. Em fila passamos ao lado do corpo, baixamos a cabeça com resignação, fizemos o sinal da cruz e saímos para a varanda. Não sei se tive dimensão do que aconteceria a partir dali, mas creio que, ao olhar aquela velha tão velha, decidi que não tocaria jamais num morto. E assim tem sido.

***
Foto do Globo, Brasil X Iugoslávia, 1971.
A primeira vez que fui ao Maracanã, em 1971, foi a última que Pelé jogou pela seleção brasileira no Rio de Janeiro: era um amistoso contra a Iugoslávia, país que não existe mais. Eu não tinha dez anos, e o estádio lotado com mais de cento e trinta mil pessoas, um número inconcebível para quem, feito eu, vinha de uma cidade com menos de sessenta mil habitantes, chamou mais minha atenção do que o jogo em si, ainda que fosse também a primeira e a última vez que via Pelé. Os quatro gols do jogo, que terminou em dois a dois, só fui ver à noite, pela televisão.

***
O primeiro poema que fiz era para uma canção, que eu e o Carlinhos, do alto de nossos oito anos, fizemos à beira do tanque da casa de meus pais. A letra dizia: “Vem, meu pedaço de papel, um papel não muito comum, mas uma folha de amor, uma folha de amizade”. Dois pirralhos, nos anos de 1960, deveriam falar de mocinho e bandido ou de corrida de carrinho de rolimã, nada a ver com folha de amor ou de amizade, a meus olhos de hoje, pouco condizente com o mundo infantil, coisa de gente mais velha. Não sei explicar o meu espanto, contudo, fosse eu meu pai ou minha mãe, temeria pelo futuro de seu filho, que dava mostras de que envelhecia bem antes da hora.

***
 Viejo desnudo al sol, de Mariano Fortuny.
Rola por aí que a velhice chega quando você se dá conta de que não faz, há algum tempo, algo pela primeira vez. Mentira. Velhos fazem várias coisas pela primeira vez, muitas, é verdade, como um sinal da decadência física (é a primeira vez que não se enxerga nem com óculos, é a primeira vez que não se ouve bem, é a primeira vez... a lista é grande) e outras, ainda que não sejam novidade na vida de ninguém, como a oportunidade de fazer pela primeira vez sem tanta ansiedade, sem tanta ignorância.

Além do mais, no meu caso pelo menos, será na velhice que vou morrer pela primeira vez.

6.8.15

Dez ideias soltas para uso futuro

I
O pássaro é um diletante e canta ao léu suas mazurcas do instante.

II
Eu e minha mulher andando de mãos dadas pela rua movimentada do bairro, depois de assistir à sessão de cinema, é uma crônica pronta e inacabada.

III
O suicídio, a possibilidade do suicídio, é a questão filosófica, na visão de Camus. Todavia estar dentro ou fora da indústria do sucesso e vê-la ou como o espaço ocupado pelos inescrupulosos ou como o altar sagrado merecido por quem fez inúmeros sacrifícios pessoais são duas formas de dar valor absoluto a essa indústria. E a morte, o suicídio, inclusive, adora o sabor forte dos valores absolutos.

IV
Eu e meus amigos de adolescência não éramos exatamente flor que se cheirasse. Hoje, depois de a maioria de nós ter ultrapassado a barreira dos cinquenta anos, somos atuais, não envelhecemos antes da hora nem nos agarramos a uma falsa juventude. Agora, não sei se é uma coisa minha, mas sinto em nossos encontros esporádicos um cheiro de flor em plena intumescência.

V
Planos? Troco plano por sonho e imagino um mundo, o Brasil em particular, menos violento. Até que isso aconteça, quantas crônicas — ou textos, ensaios, o que for — encarniçadas teremos de escrever? Todos eles, provavelmente, nascidos de mais um episódio cruel. 


VI
Desfrutar um longo silêncio na companhia de meu pai é a maior saudade que tenho dele.

VII
O lugar do cachorro em nossas vidas está muito bem estabelecido. E o cachorro já achou seu canto na literatura há muito tempo. Baleia, a cachorra faminta de Graciliano Ramos, talvez seja o momento mais sublime desse encontro entre o cão e as letras. Eu li, já nem sei quando, Tantubá (Global Editora), de Luiz P. Cardoso (escritor de quem pouco ouço falar), livro que me marcou bastante. Não me lembro tanto dos detalhes, mas a história — um diálogo entre um morto e seu cachorro — explora a ideia de que os mortos continuam falando, sendo, entretanto, entendidos apenas pelos cachorros.Dia desses, Tiago Germano, escritor paraibano, me mandou um conto cujo protagonista é um cachorro, e eu mesmo escrevi outro que um escritor em crise chuta um cachorro na rua. Afinal, o que querem os cachorros?

VIII
Eu e meu amigo Leninho, também conhecido como Pombo, sempre ancoramos nossa amizade em um cais inalcançável. Ouvir música juntos foi — e é quando nos vemos, o que não tem sido frequente — o nosso jeito de dialogar. Ouve isso, e eu apurava os sentidos e ouvia. Sua vez, e ele, atento, ouvia. Certo dia, numa festa que durou sei lá quantos dias, a turma foi caindo pelos cantos, e eu e o Pombo vimos, sentados na varanda da chácara do Raul e do Chico, lá no horizonte, a lua se meter dentro de uma árvore. Foi nosso diálogo mais profundo.

IX
Fico mexido quando alguém lá da minha cidade diz uma coisa assim: eu vou de a pé. Ou outro em fala admirada: esse trem não avua.

X
O pássaro, esse diletante, borra o céu de tudo que é cor. E o céu se refaz em azul sem ofender o pássaro.

26.7.15

A segunda mãe


Não fui gerado metade num útero, metade noutro, não tendo sido, no início da década de 1960, quando nasci, nem uma aberração da natureza nem fruto de alguma experiência científica antecipatória do futuro. Assim mesmo, tive duas mães, o que me faz uma criatura um quase nada rara. A segunda, mãe afetiva. Afetiva, não adotiva. Sempre desfrutei da companhia de minha mãe biológica e, de certo modo, ainda desfruto, apesar de ela não transitar mais pela vida — por esta vida, dirão os crédulos.

Célia chegou a minha casa antes de eu nascer. Foi costurar para minhas irmãs, uma com quase dez anos, a outra beirando os cinco. Naquela época, as famílias confeccionavam suas roupas. Qualquer mãe prendada cosia para os filhos e, se não fosse talentosa ou carecesse de tempo, contratava uma ajudante. Foi o caso. Mamãe, boa de costura, mas atarefada com o trabalho de diretora de uma escola de economia doméstica, ao ver suas meninas crescendo, não pensou duas vezes e chamou a Célia para fazer-lhes uns vestidos. Seria trabalho para uma semana, Célia ficou conosco quarenta anos. Morreu em nossa companhia.

Solteira, Célia teve um fortuito namorico, um flerte com um radialista que lhe ofereceu música num programa vespertino: “Essa vai para a Rosa da Bonsucesso”. Célia Rosa, moradora da rua Bonsucesso. Sem talento para o matrimônio, dedicou-se a meus pais, a mim e a meus três irmãos — com o tempo ainda teve fôlego para os netos de meus pais e para o seu sobrinho. Foi costurando roupas novas e reformando as velhas enquanto minhas irmãs completavam onze, doze, os emblemáticos quinze anos, até que a indústria tornou inútil uma costureira no domicílio, pondo tudo pronto e à venda na butique da esquina. Nesse momento, Célia deixou a figura de costureira para ocupar um espaço indeterminado. Uma vizinha, Celina, gracejava: em Passos, éramos a única família com uma governanta. Célia nunca foi governanta. Intuo o que pode ter significado para meus pais e irmãos, mas não posso afirmar com certeza, não com a mesma com que afirmo que para mim ela foi uma segunda mãe.

Uma segunda mãe, por definição, entra em confronto com a primeira. Haydée, apesar de todos os seus medos, me jogava para a rua, apostava na minha independência, sempre com o olho em meu futuro. Célia, sem a preocupação de me educar, oferecia o colo. Minha mãe biológica me colocava de castigo, a outra me tirava ou entrava nele e o transformava num tempo amistoso, bom de ser vivido. Nas viagens sem fim de meu pai, nas tormentas barulhentas caídas do céu, nos dias de crime na cidade, Haydée pedia minha mão, meu conforto, alterava, desse modo, nossos papéis e passava a ocupar o lugar de filha. Célia parecia não temer nada, nenhuma tristeza a atingia: doação em estado de absurda pureza.

Vivendo assim entre dois modelos tão distintos, eu poderia ter enlouquecido de vez, mas não, acho que não atolei na lama da sandice, sequer tornei-me um inseguro em grau doentio. As duas mães me deram a chance de conviver, desde cedo, com carinhos de forças opostas, que, ao puxarem a brasa cada uma para o seu lado, abriram uma pequena greta no terreno de minhas emoções. A fenda é um bom lugar a partir do qual um escritor pode vir à luz — especulo, aqui, fora de contexto e insinuando um tímido segundo sentido à frase. 

A outra figura feminina acomodada em meu altar da maternidade me transformou de que em que, não sei, mas eu seria outro caso fosse filho de mãe única. Digo isso ou só isso. Não é pouco. Na realidade é muito. 


13.7.15

Antes de eu ir pra Nauru

Ao Belmiro, amigo que costuma transver o mundo.

No trem, um pregador diz que já havia sido traficante e assassino. Escrevendo certo por linhas tortas, Deus e Cristo o salvaram. Até aí uma conversa conhecida, mas ele acrescenta que fugiu do tráfico, da favela, foi viver longe de onde nasceu e, ao voltar, foi pego e levado para o alto do morro. Quando iam despachá-lo para o nunca mais, resolveu dizer que ninguém morre duas vezes, que eles já haviam matado seu corpo antes e, naquele momento, não conseguiriam matar seu espírito. O fato de ele estar no trem, expondo sua vida, era a prova cabal de um milagre. Imagino que, na viagem entre a Central e o subúrbio carioca, naquele dia e noutros, o pregador conquiste muitos devotos. Como estamos todos à deriva, uma salvação a módicos —  quase nunca tão módicos — dízimos nos cai bem.

Bel, que me contou tal história, emenda mais outra, essa similar a uma vivida por mim. Ele andava pelas imediações da praça Tiradentes quando um sujeito, assim do nada, lhe perguntou se ele já havia saído de lá. De lá? É tudo obscuro, mas a intimidade da abordagem fez Belmiro pensar que a memória o estava traindo, que estava diante de alguém com quem já convivera. Ao fim e ao cabo, o “parceiro” deu um perfume a meu amigo, disse que era para a esposa e que não lhe cobraria um centavo. Depois pediu uma ajuda. O perfume — apenas uma essência adquirida numa das lojas da Saara, a Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega — saiu por um preço muito acima da sua qualidade. Na minha história, em vez de perguntar se eu havia saído de lá, o trambiqueiro perguntou se eu ainda ensinava lá. Como dei aulas alguns anos na Zona Norte, numa faculdade frequentada por muitos alunos que viviam da informalidade e outros, segundo corria a boca pequena, da ilegalidade, o perfumista bem poderia ter sido meu aluno. Na lábia pura, vinte contos meus, vinte do Bel, grande malandro.


1752, galo na cabeça. (Foto do autor.)



Em Homenagem ao Malandro, imortalizado por Moreira da Silva, Chico Buarque dizia que o malandro havia acabado, substituído pelo engravatado com emprego, retrato na coluna social e tralha e tal. Vê-se, no perfumista da praça Tiradentes, um resquício desse tipo em extinção. Num mundo em que se tira o tênis do outro com revólver ou faca — não raro usados para dar cabo da vida do dono do tênis a troco de nada —, afanar vinte pilas do inocente na conversa mole é uma dádiva. E, melhor ainda, sem que a polícia perceba, o que seria um problema e tanto, pois sabemos como é a mira dessa polícia. Não só a mira, mas também o dedo podre, que não perde a chance de transformar uma pequena contravenção num grande negócio. (Nem preciso dizer para quem é bom o negócio.)

Na minha utopia pessoal, iriam por terra todas as proibições. Tudo que não fosse roubar, violentar, sequestrar, discriminar e matar (mais alguma atrocidade que me escape agora) seria permitido, e a justiça cuidaria de condenar os malfeitores, baseada no fato de que sempre há os que vivem de passar a perna nos outros. Os médicos atuariam orgulhosamente com seu diploma para interromper uma gravidez não desejada, uma vez que, com orgulho, devem atuar em tudo que é da medicina. Em contrapartida, a igreja trataria de convencer seus fiéis de que, independente de a lei permitir, eles deveriam agir sob o preceito da religião. Cada um no seu quadrado. Os pais, quando seus filhos saíssem à noite, teriam a tranquilidade de saber que os excessos dos meninos não lhe custariam a vida numa guerra entre gangues de traficantes ou entre polícia e traficantes. Por que estou falando tudo isso? Uma especulação firmada na minha crença de que muitas proibições acabam por substituir o malandro folclórico por um bandido de fato perigoso. Um delírio a partir da nostalgia de dias menos violentos, o que deve coincidir com o tempo em que Don Don jogava no Andaraí (música de Nei Lopes cantada com aquele jeitão de malandro das antigas do Zeca Pagodinho).

Não posso me alongar e ainda não disse o que tenho a dizer. A oferecer, na verdade. Preste atenção, é uma oportunidade única. Viajarei para Nauru, de onde importarei guano, um fosfato de cálcio composto pelo cocô de morcegos e aves — pré-históricos, segundo alguns. Pois bem, tenho um bilhete premiado da loteria federal no valor de um milhão de reais e estou sem tempo de buscar a grana. Sendo assim, vendo o bilhete — 1752, galo na cabeça — por reles cem mil. O interessado pode fazer um depósito em minha conta do Banco do Brasil e aguardar o talão, que enviarei em carta comum, com fé cândida no funcionamento de nossos correios. Pegar ou largar. 

29.6.15

E o poeta no meio

Cada poeta tem seu mundo próprio, e o que atinge um não atinge outro. Há poetas que nasceram na miséria, que conheceram ou conhecem a fome, o frio, a falta de individualidade. Outros, por sua vez, tiveram e têm do bom e do melhor, mas, nem por isso, encontram a felicidade ou qualquer outro sentimento apaziguador. Alguns viveram ou vivem em países repressores, outros em democracias. Há muitos motivos para um poeta ser diferente de outro.

Apesar das disparidades, ouso dizer, há dois extremos com os quais todo poeta lida. De um lado, seu trabalho profundo, a agudeza com que revolve a dor e a transforma em palavras. De outro, o reconhecimento. Entre esses extremos, o poeta, um forte, antes de tudo, convive com sua impotência, sua vaidade, sua revolta e, para não me alongar, também com a sua submissão (voluntária ou não) a seja lá o que for.

Penso tudo isso a partir de dois poemas lidos recentemente. Um de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, uma de suas odes. O outro — compartilhado no Facebook por Adelaide do Julinho, pseudônimo de Silvana Guimarães — de Sebastião Nunes, poeta e editor mineiro.

Os dois poemas têm a ver com esse situar-se do poeta. Ricardo Reis defronta-se com a questão de que nunca será alguém e, mais que isso, de que não terá mesmo uma obra (reconhecimento). Ironia de um grande poeta? Não, ao contrário, o medo enraizado daquele que, em vida, publicou pouco. Diante da possibilidade de fracassar em seu desejo de criar uma obra — que, no caso do escritor, só se completa quando chega ao leitor —, a paz de um instante leva-o a imaginar-se sendo o que nunca poderá ser. Contra a impossibilidade, uma ilusão.


Sim, sei bem (1) (Ricardo Reis)


Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Sebastião Nunes, com ironia — mais, com sarcasmo , também trata do “fracasso”. No caso, de um poeta que fez pacto com a própria solidão, apostando na força (“poeta solitário corajoso, forte e temerário”) e que, de repente, pede o penico e quer pertencer a uma panela e ter quem puxe o seu saco. O reconhecimento que se quer aqui não é o da obra, e sim o da própria figura do poeta (ídolo popular com poder, senhor midiático), desejo comum no mundo da criação, mas que hoje chega a um nível doentio: expor-se, e colher os benefícios dessa exposição, é mais gratificante do que produzir a parte da obra que cabe ao poeta. A panelinha, por ser uma ação de grupo, é uma das formas de alçar os seus membros à fama. Fama, eis o que se quer.

Oh que estúpido fui! (Sebastião Nunes)

Quebrei minha panelinha literária
no dia em que nasci.
Voaram cacas, caquinhos e cagões
fedendo como nunca vi.

Desde então sou poeta solitário
corajoso, forte e temerário
orgulhoso pra caralho
mas no borralho.

Quem me empresta nova panelinha?
Quero que me puxem o saco.
Exijo ser chamado gênio.
Preciso cagar regras.

Ai que saudades de uma cagadinha
na minha literária panelinha.

Hoje, ainda que haja a tendência ao espetáculo, muitos poetas — o próprio Sebastião Nunes e também a Silvana Guimarães, por exemplo — estão por aí fazendo seu trabalho, temendo talvez, feito Ricardo Reis, o fato de que, por falta de leitor, nunca venham a ser reconhecidos. 

__________________________________________________
(1) No disco Ná e Zé, de Zé Miguel Wisnik e Ná Ozzetti, foi gravada a música que Wisnik fez sobre o poema; no Youtube, encontra-se o disco, que, aliás, vale a pena escutar. Para ouvir a música, clique aqui.

15.6.15

Para quem escrevo: uma crônica-dedicatória

Escrevo para aqueles que, feito eu, nunca viram um pinguim. Ou, se viram, logo deram as costas à ave para, desatentos ao entorno, macerarem suas angústias — devo essa imagem aos craques para quem eu gostaria de escrever: Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, quarteto que “puxava angústias” pelas ruas de Belo Horizonte. Escrevo de olho nos que não distinguem um pinguim de uma foca.

Escrevo para todos que morrem de medo e ressuscitam dia após dia. Igualmente escrevo para os corajosos, que nem sempre vingam e morrem sem medo.

Escrevo para o inventor da saudade, que, suponho, seja um daqueles astronautas de fundo de quintal habituais no quintal que já não tenho e não me tem mais. Escrevo para os lunáticos insatisfeitos. Escrevo para a lua.

Escrevo para os farmacêuticos viciados e, não raro, para os carcereiros levianos e para as pessoas incapazes de combinar os tons da roupa. Escrevo para a moça de Goiás que acabou de passar por aqui. Aqui? Sim, pela minha lembrança.

Escrevo para a vítima de um espanto. E também para quem se espanta com a vítima. Trocaladrilhos, trocaladralhos, escrevo para quem não maneja bem as palavras. Afinal, é para mim que escrevo.


Foto minha, da cristaleira lá de casa.


Sem me recordar quais foram, escrevo para meus heróis da infância. Ah, sim, foi meu tio Lozo. Escrevo para ele. Também para os outros tios que, na companhia de papai, negociavam seus zebus na varanda da casa de minha avó cega. Escrevo para boi dormir — seria tão melhor escrever para conter esse desejo besta que algumas andorinhas têm de sozinhas fazer verão.

Escrevo para quem nem se dá conta de ter vivido um momento histórico. Aquele milhão urrando “diretas já” na Candelária, em 1984. Um tal fulano que, em passeio pelo Rio, ouviu ecoar do Palácio do Catete o tiro que matava Getúlio Vargas. (Não importa se havia um silenciador na arma.) Escrevo para os mitômanos autênticos.

Escrevo para o sicrano que transpira seco o suor de rios podres, para a lavadeira relapsa batendo roupas à beira desses mesmos rios e, ainda, para o atendente mal-humorado, que só pensa em pescarias e gandaias. Escrevo para aqueles que fumam depois do sexo e para os que, depois dele, chupam laranja.

Escrevo para os pacienciosos — se existirem. Para a mulher iletrada. Para quem, ao me ensinar o catecismo com sua pedagogia do medo, me afastou de Deus. (Se tivesse coragem, escreveria uma carta rancorosa ao bispo de Guaxupé.) Escrevo para a mulher do padre.

Não tendo outra, é com a minha cara de pau que escrevo para você. E é sempre para você que escrevo.

27.5.15

Rondó da cor mais dúbia

“eu não tinha este coração /que nem se mostra” (Cecília Meireles)



Você acabou de colorir seu livro. Estresse zero num dia lindo de outono. Antes de correr à livraria para comprar um novo, o quinto no mês, você, distraída, adia tomar providências corriqueiras: descongelar a carne do almoço, escrever um bilhete para o filho mais velho, separar aquela roupa que perdeu a hora de ser passada adiante. Um suspiro. A chave na porta. Rua.

Dois moleques espiam um pedestre desatento e com um celular da hora. Um desempregado confabula com a sombra, em quem confia, com quem não compete. Um corno assobia. Uma menina pensa no beijo dado dois segundos antes. O motorista de ônibus para o veículo, salta e entra na padaria para comprar um refrigerante. Em protesto, todas as buzinas do mundo soam em coro, barulho insuficiente para acordar o ciclista morto ou para orientar o velho extraviado.

Indiferente a tudo, você só tem olhos para chegar à livraria e adquirir o livro despalavrado, cheio de formas a espera de cores. O pássaro rosa — uma invenção sua, não se tem notícia de um desses na natureza — volta a sua lembrança, e você quase chora. Criar tem custo, custo emocional. Amarelo aqui, verde ali. Perfeccionista, quando um azul clarinho escapou do espaço a ele destinado, a janela da casa, você pensou em desistir. Mas não, respirou fundo e deu um jeito pintando de marrom escuro, cor de tijolo, a parede na qual havia se metido o azul intrujão. No stress, eis o prêmio.

Entre o livro de figuras ocas e o colorido, deixado sobre a mesa de casa, houve uma dedicação absurda, um deixar o resto de lado, inclusive os filhos, inclusive o marido, inclusive a mãe, inclusive os cabelos e as unhas. Valeu a pena. Tarefa cumprida, você foi tomada pela paúra de perder esse bem-estar, de ter de voltar à rotina carrasqueira. O medo de renunciar às recentes conquistas serve-lhe de guia e estímulo no caminho entre a casa e a livraria. Você avança.

A moto em zigue-zague corta os carros. Um neném desanda a chorar alto, a ponto de sossegar o facho das buzinas. Um mendigo atravessa a rua desviando-se dos carros numa espécie de balé sem beleza, mas eficaz por levá-lo ao outro lado sem um arranhão. Duas velhas pareadas se arrastam pela calçada estreita, feita apenas para quem vai só — ideal para os solitários, com o que se forma uma fila atrás delas. Na fila, muitos talvez estejam indo à livraria com a mesma necessidade. Haverá livros para todos, não há por que temer. Mesmo assim você teme.

De repente, despenca sobre seus ombros o sofrimento do mundo, vivo ali na rua. Os meninos infratores, o velho perdido, as velhas andando em ruas feitas para jovens, apenas para jovens, o ciclista morto e o corno tentando apagar a dor num assobio. As buzinas e a birra do bebê furam-lhe o tímpano. Tudo isso comprime sua alegria, dá uma rasteira em sua tranquilidade e nubla o céu outonal. É preciso fazer alguma coisa. Você tem de fazer alguma coisa.

Na saída da livraria, você entrega o primeiro exemplar ao mendigo, que acabara de cruzar mais uma vez a rua. Ele segura o presente e, em agradecimento, improvisa um pas de deux de araque, com a autoridade de um Baryshnikov sem banho. E come o livro (é o livro que colore a fome e a sede dele). Uma das velhinhas, para receber a gentileza de uma moça tão bonita, passa a bengala para a outra mão, livrando-se do braço da amiga. Gesto miúdo que a leva ao chão. Ali mesmo ela abre a bolsa, tira de lá a caneta azul e começa o trabalho. A fila que se formava atrás das senhoras, já grande, cresce, cresce, vira a primeira esquina, a segunda. O bairro fica congestionado de pedestres, que, por não terem buzinas, gritam e xingam. Você aproveita a fila sem rabo e distribui com presteza os livros. Ao pegar o seu, a mocinha ri, o adolescente desdenha, o senhor de terno guarda o dele na bolsa. A babá daquele chorão dá o exemplar que acabou de ganhar ao menino, que passa a pintá-lo com lágrimas.

Uma, duas, três pessoas, a rua toda e, já fora de seu controle, a cidade inteirinha começam a colorir os livros que, do nada, foram parar em suas mãos. É gente sentada na calçada, na rua, na escada da igreja, no para-choque do ônibus, na mureta, em todo canto. A serenidade se alastra feito fogo e passa o rodo no estresse.

Ao perceber todo mundo “assim calmo, assim triste, assim magro”, com os olhos tão vazios e o lábio amargo, você se toca que a vida não funcionará com as pessoas nessa vibração — que não vibra. Algo de muito trágico está por acontecer. Você pensa em ler um livro para antever o desastre ou pelo menos para descobrir em que espelho ficou perdida a sua face.

18.5.15

Amigos do peito

Um grande amigo, já recolhido ao desconhecido, pioneiro em informática no Brasil, recebeu do governo uma bolsa para estudar em Londres. Grande apreciador de uísque, foi, com uma sede daquelas, para o país que julgava ser o verdadeiro paraíso da bebida. Todavia, vejam que ironia, não lhe caiu bem o escocês. Ao seu paladar, aquilo não era uísque, definitivamente não era. Passou a contrabandear os brasileiros. Alguém ia visitá-lo e levava um Old Eight ou outro brazilian scotch do mesmo quilate. Lá pelas tantas, com dificuldade de importação, meu amigo acabou se acostumando com o mais popular nas terras da Rainha, o Teacher, que, ao voltar ao Brasil, encontrou no mercado, engarrafado por aqui mesmo. Enquanto pôde, bebeu o Teacher. No seu modo de ver, marca condizente com o fato de ele ser professor — uma atitude corporativista.

Feliz do sujeito de ideias próprias, que rema contra a maré. Esse meu amigo era um tipo assim. Falei em felicidade, mas, não sei se é o caso, uma vez que para ser feliz não basta só ter opinião própria. A vida é feita de muito mais coisas: casar, não casar; ter filhos, não ter filhos; ganhar dinheiro, não ganhar dinheiro; etc. e não etc. Além de ideias próprias, uma boa pitada de sorte favorece a felicidade. Já que meu amigo, aqui e ali, teve de segurar alguns touros grandes e ferozes à unha pequena, numa pretensa contabilidade da felicidade (os economistas andam doidos por medi-la), seu débito recebeu lançamentos de valores altos, difíceis de serem abatidos. Apesar de tudo, meu amigo era leve, e sua companhia me fazia um bem danado.


Amigos! Essa crônica se serviria da lembrança de um tão querido para, a partir dela, falar de outro assunto, mas, ao aparecer num instantâneo, esse amigo tomou conta do que escrevo. Ele faria anos por agora, deve ser por isso que sua presença deu rasteira nas urgências que seriam tratadas por esta crônica. Não por esta, por outra, que não vai ser escrita. Saravá, meu avô (como eu o chamava), seu tio (como ele me chamava) preserva sua memória, a memória de um múltiplo artista (xilogravador, desenhista e escritor) com quem convivi e tomei lições das mais nobres.

Uma obra de Escher.


Caí no campo da amizade, sigo nele até o fim. Falo de outro amigo, mas tenho de deixá-los de sobreaviso, uma vez que é dono de uma qualidade perene e inigualável (não há risco no meu prognóstico): morrerá comigo e não me deixará sofrer a dor dos que perdem um verdadeiro irmão, nem a sofrerá ele. É um amigo imaginário. Nossa convivência começou nos meus dois, três anos, como é habitual, no entanto fiz quatro, catorze, vinte e quatro e vou fazer cinquenta e quatro anos sem que Jamil desaparecesse.

Discreto, ele nunca me acompanha no banheiro (nem nos públicos) e, quando algum namoro esquenta, sai do recinto na hora certa. Para poder me explicar, lê livros que não seriam os seus escolhidos. Assobia para me tirar de algum silêncio casmurro. Reza quando eu peco. Dirige quando cochilo ao volante.

Perfeito? Não, longe disso. Jamil, ao contrário do outro amigo que ilustra esta crônica, nunca me contou uma história que fosse dele, só dele, mesmo que embalada em algum delírio.

4.5.15

As quatro estações em torno do amor

Minha primeira trombada amorosa me custou uma borracha, com a qual apaguei o nome da namorada de minha agenda de endereços. A segunda, com contorno adulto, me fez tomar um porre homérico e curtir, ouvindo “Ronda”, de Paulo Vanzolini, num rádio de pilha na zona boêmia, a famosa — e até então desconhecida — dor de cotovelo. Na terceira, chutei o pau da barraca e caí, quase de imediato, nos braços de outra mulher, que me salvou, mas não para sempre. O amor é clichê, desde o início, regado a flores, declarações absurdas e outras traquitanas, até o fim. O amor sempre acaba.

Acaba e não acaba, pois, na verdade, o amor evapora para em seguida chover no mesmo terreno ou, quando carregado por nuvens, pesadas ou não, num outro mais adiante, quiçá longe, muito longe. Intempestivo, contra o fígado o amor cultiva pinimba e mantém total controle sobre nossos braços, pés e aquilo que a evolução social soube por bem denominar de nossas vergonhas. O amor é foda e aprende apenas as lições tomadas das pernas bambas e do sentido roto. Sua sabedoria é uma árvore que brota do nada. Vive o amor de primaveras reincidentes.


Foto do autor, na região serrana do Rio Grande do Sul.


Cabem aos amantes o outono, a perda das folhas e, ainda, o suspiro gratuito e solitário no alarido das ruas — revelação do golpe baixo cujas dores resistiram à fuga para as drogas e o sexo eventual. Ao murmúrio do prazer — parte inseparável do prazer — segue-se o seu outro, desgozo de um abandono, tristeza que não alcança o ouvido do amor, voltado para dentro e indiferente à luz. Autofágico o amor medonho.

No quarto tombo, já entendia o vaivém amoroso. Nem por isso deixei de sofrer os horrores de sempre, em segundas de abstenções e terças e quintas e finais de semana de excesso e ressaca. Em seus trajes de vento, o amor suspende nossas cobertas e, não satisfeito, arromba janelas, dando-nos, assim, o inverno que não vive. Por sermos condescendentes, há certo conforto no enfrentamento desse frio.

Todo o resto — o amor abrange também suas fronteiras e o que está fora delas — é um verão que sobe pelas nossas pernas e que, no meu quinto tropeço amoroso, tornou-me corado e bem disposto. Voluptuoso. Sem vergonha. Calejado inocente, mais uma vez beijei o chão. A flor da primavera amorosa é um tapa na cara do amante.

22.4.15

A vergonha coletiva

A discussão se baseia em argumentos racionais, e os envolvidos buscam colocar os pingos nos is de forma asséptica. Não parecem envolvidos com o que discutem. É como se fosse uma tese. Quando crianças, gostamos muito de brincar com situações hipotéticas. Um pergunta ao outro: se seu pai e sua mãe estivessem num barco e naufragassem, qual você salvaria caso tivesse condições de salvar um e apenas um? A resposta sai, depois de uma resistência teatral, e os jovens partem para outra pergunta incômoda. Tudo é tese.
Estamos mais ou menos assim nessa história de redução da maioridade penal. Os que são favoráveis a ela e os que são contra pelejam com argumentos razoáveis. Uns dizem: noutros lugares do mundo, até em países mais avançados, a idade é ainda menor, 12 anos, em certos casos, menos. Outros apresentam um contra-argumento: países têm revisto suas leis para aumentar a idade, na medida em que a redução não teve o efeito desejado de conter a violência praticada por jovens. Estes insistem: no Brasil, a idade mínima foi uma decisão constituinte, portanto, causa pétrea, que não se pode modificar. Aqueles já acham que a evolução da sociedade pode fazer com que se reveja essa idade, sem ferir a constituição. Para uns o percentual de delinquentes juvenis é ínfimo, e para os outros as taxas de crescimento do percentual são alarmantes. Enfim, como já disse, são argumentos bons, que podem gerar uma acalorada discussão política. Tudo como deve ser num ambiente democrático.
O meu ponto de vista é de outra natureza. Reduzir a maioridade penal é uma derrota da sociedade brasileira. Se optarmos por isso, feriremos (ainda mais) a infância e a juventude, jogando sobre elas a responsabilidade de um fracasso coletivo. Dificultamos o futuro dos jovens pobres (quase todos pretos), negando-lhes educação, segurança (as estatísticas de morte de jovens negros são aterrorizantes) e trabalho, por exemplo. Logo, estão todos jogados por aí e, na falta de perspectiva, deixam-se seduzir pelo tráfico de drogas, que, graças a uma política equivocada de combatê-lo, tornou-se um estado informal armado.
Até o momento, desamparo é o que define a situação dos jovens. Uma situação cruel, mas não basta; eles precisam ser considerados a raiz de todos os males de nossa sociedade amedrontada. Por incompetência, não conseguimos assegurar às crianças e aos adolescentes aquilo que, num passado recente e a partir de uma visão moderna, fizemos tanta questão de registrar na Constituição. O vergonhoso passo que se quer dar vai nos custar muito. Nosso espelho não perdoará e devolverá um rosto marcado de cinismo. O meu rosto, o seu rosto, o nosso.
Dia desses chegou às minhas mãos uma frase do Betinho. Uso-a (com grifos meus) para finalizar esta crônica:
“Se não vejo na criança uma criança, é porque alguém a violentou antes, e o que vejo é o que sobrou de tudo que lhe foi tirado. Essa que vejo na rua sem pai, sem mãe, sem casa, cama e comida, essa que vive a solidão das noites sem gente por perto, é um grito, é um espanto. Diante dela, o mundo deveria parar para começar um novo encontro, porque a criança é o princípio sem fim e o seu fim é o fim de todos nós.”

6.4.15

PC português

Não conto mentira, mas tenho péssima memória, pouco espírito investigativo e sou propenso a afirmar categoricamente como verdadeiro o que não passa de suspeita ou é fruto de um sonho. Rola por aí que os computadores americanos têm memória, os portugueses, uma leve lembrança. Sou um PC português.
No livro que lancei em 2014 — “Qual é, solidão?”, Editora Oito e Meio —, há um conto, “Sob chuva”, no qual Lois, ao voltar a sua casa, depois de um dia complicado, encontra a namorada do amigo assistindo ao filme “Quem comeu os cogumelos?”. Tudo no conto é invenção, menos o filme, ainda que eu nunca tenha encontrado alguém que o conhecesse e, além disso, jamais tenha visto referência a ele por aí, ou, por outra, li uma única na internet, numa edição de 1982 do Diário Oficial: sua liberação com cortes para exibição após as 23 horas. Certa madrugada de insônia, assisti na TV Manchete a partes do filme, o bastante para ficar marcado pelo nonsense da trama. Rever ou ver por inteiro esse filme pode reatar alguns dos meus nós. Ou desatar de vez os poucos ainda intactos.
Eu soube, tão logo Darcy Ribeiro morreu, que ele mantinha um galo em seu apartamento. O pensador indignado — ele dizia que nunca se resignaria, preferindo indignar-se ao longo da vida — não deixou filhos, mas um galo em Copacabana, essa selva de pedras cantada em verso e prosa. Não acho referências ao galo de Darcy no oráculo Google, por exemplo. Recentemente voltou à tona o apartamento dele — sem o galo. Acreditemos ou não, o imóvel foi usado durante anos por pessoas do judiciário enquanto, na Justiça, até agora não se sabe o destino a ser dado a ele — onde, eu juro, viveu um galo —, já que não há um herdeiro direto. Talvez a escorregada recente do juiz afastado do caso Eike Batista não seja de fato uma escorregada, mas sim prática mais comum do que a nossa insana razão pode imaginar.
Drummond — ele? Eu é que não fui — dizia que um bom poeta deveria gostar de um mau poeta, desses que todos rechaçam, e, ao mesmo tempo, deveria desprezar um poeta consagrado pela unanimidade. Um escritor que respeito muito, cujo nome preservo, não coloca Saramago no panteão dos grandes. Se concordo? Ora, que vale minha opinião se sou apenas um cronista “sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”? Bem, também não sou um zé-ninguém, ouçam o que lhes conto a seguir.

Em 1983, feito agora, havia um clima de protestos incessantes. Participávamos de várias passeatas com a intenção de acabar de vez com a droga daquela ditadura (DDD). Um dos primeiros focos do movimento era não deixar ir adiante os decretos-lei que Delfim Neto preparava para conter os salários. A inflação era altíssima e, na visão do governo, contendo os salários, a demanda seria contida e, por fim, os preços cairiam. Muito bem, essa política a rua chamava de arrocho e contra ele gritava: “greve geral derruba general”. O governo interveio em sindicatos, fez e aconteceu. Em certo momento, as forças políticas foram convidadas para uma conversa com o temível ministro. Eu estava lá. Não me perguntem como fui parar lá, importa o fato de eu estar lá. Cheguei faminto; na mão um sanduíche de queijo, desses simples, pão de forma e queijo prato derretido. Pois bem, sentei-me à mesa, ao lado do ministro, gordo como todos sabem. Justo no momento em que dei uma senhora mordida no meu lanchinho, a autoridade avançou sobre ele. Eu puxava de um lado com a boca, ele de outro com a mão. Com isso o queijo foi sendo esticado, esticado, esticado. Levantei-me e me afastei da mesa. O queijo continuou preso entre o pão na mão do ministro e o pedaço na minha boca. Cruzei a porta, saí de Brasília, e o queijo cada vez mais esticado, uma linha fina que não se rompia. A ditadura, feito aquele queijo, só chegou ao fim depois de muito esticada. Hoje uns a querem de volta, eu não — não pelo fato de terem me roubado um sanduíche que era um sonho, mas sim porque, naqueles dias, quase tudo era um pesadelo.

24.3.15

Dois rapazes

(Esta crônica foi originalmente publicada no blog Rubem - Revista da Crônica, que se pode acessar por aqui

Março começou com duas notícias tristes. Quer dizer, março começou triste, com o Brasil mostrando os fundilhos de uma democracia capenga, mas não vou falar sobre isso, ainda que algumas de nossas mazelas me guiem aqui e agora. Março trouxe a notícia da morte de Humberto e de Peterson, dois jovens.
Humberto era meu conterrâneo, conheço seus pais, que têm mais ou menos a minha idade. O rapaz morreu depois de participar de uma competição de quem bebia mais, num evento organizado por estudantes em Bauru, São Paulo. Ele tomou não sei se vinte ou trinta copinhos de vodca, logo depois, levantou os braços para comemorar e, em seguida, bem, em seguida Humberto se foi. Tudo o que sei dele, soube pela imprensa, mas, repito, conheço seus pais e me solidarizo com a dor deles. E essa dor deve ter crescido quando a imprensa buscou no perfil do Humberto no Facebook uma citação de Maiakóvski, poeta russo que se matou aos trinta e sete anos — “melhor morrer de vodca do que de tédio” (não conferi se é dele de fato)— e fez dela uma indicação (maldosa) de que Humberto, de fato, teria fugido do tédio. Aos dezoito anos, fiz um poema (que se perdeu na capa de um caderno) no qual prometia a meu fígado que o destruiria, pois apenas ele era mais frágil do que eu. Meu fígado, aos trinta, me fez mudar de vida. Eu e Humberto éramos presas do tédio? Suicidas? Não creio. Tenho a impressão de que, na juventude, somos seres absolutos, não acreditamos (ou temos impressão), sabemos. À medida que envelhecemos, passamos a andar na corda bamba (ou tomamos consciência disso) e, mesmo assim, mais gostamos da vida — que, indiferente ao nosso gostar, nos enche de perdas (de amigos, de vigor, tantas). Aos cinquenta e três, eu, se fosse Maiakóvski, diria que é melhor viver no tédio do que morrer de vodca ou de qualquer outro motivo. Humberto morreu de um excesso, de um acidente, num ambiente impróprio para uma festa excessiva.
Para além da questão pessoal envolvida na morte do Humberto, me chamou a atenção o fato de duas meninas na mesma festa terem sido internadas por beberem demais. Isso me leva a crer que a questão não é mais associar a bebida, a resistência à bebida, à masculinidade. Hoje, todos queremos ser “fortes”, homens e mulheres. Os passos que as mulheres têm dado no sentido da igualdade as têm levado (claro que não todas) a agir da mesma forma brucutu dos machões. Uma senhora do Ministério da Saúde, em um programa de televisão, citou a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar — a Pense de 2012 — para dizer que dos alunos do nono ano, com seus treze ou quatorze anos, 26,1% haviam consumido alguma bebida em pelo menos um dos trinta dias anteriores à entrevista, sendo que, no caso dos homens, o percentual era de 25,2% e, no das mulheres, 26,9%. Pode-se pensar que os meninos mentem, as meninas não, mas as estatísticas apontam que elas estão ali ombro a ombro com os rapazes. O mundo está piorando, não porque as mulheres passaram a beber, mas porque bebem estupidamente, feito os frágeis homens, que acham que beber muito é prova de masculinidade.
Trabalho de Lilian Porter, fotografado por mim no Malba, Buenos Aires.

Peterson era filho de um casal gay e, no momento em que escrevo, há suposição de que tenha sido agredido na escola, num corredor polonês, ainda que a própria escola negue a hipótese e a polícia não tenha chegado a conclusão alguma. Se Peterson não morreu porque era filho de gay, logo alguém morrerá por isso — se é que algum outro já não morreu. É pouco deitar o sarrafo nos gays, deve-se destruir a petulância com que eles, depois de saírem do armário, passaram a constituir famílias tradicionais, com filhos e tudo o mais. A morte de um filho de um casal homossexual são favas contadas, pois somos uma sociedade homofóbica, com representantes homofóbicos em todas as esferas da República. Numa visão otimista, se a comunidade LGBTL (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) e os que são seus aliados não fizermos barulho e articulações políticas, o tempo até que sejam todos respeitados será longo e manchado de sangue, de muito sangue. Quer dizer, de mais sangue ainda.
Peterson era negro, deixo registrado.

23.2.15

Preciso escrever uma crônica




Preciso escrever uma crônica sem medidas. Gorda e linda. Um pouco excessiva, por isso mesmo enxuta, e que dê conta de tudo, do que está sobre a água e do que soçobrou milênios de anos atrás. Apesar dessa ingerência no tempo, que ela não dê conta da passagem das horas e de seus desdobramentos. Nem nostálgica nem pretensiosa, mal conectada à sombra do futuro. Uma crônica — como de fato deve ser — de hoje para hoje. Imensa e miúda.
Preciso escrever uma crônica que nem acorde nem adormeça ninguém, mas que, ao acordado, leve uma réstia de descanso e, ao adormecido, uma côdea de consciência. Uma crônica claudicante nas suas certezas e muito determinada em seus desvãos. Crônica para o amigo na UTI e para a filha da amiga que prepara o casamento. Para alegres e tristes. Deus e o diabo.
Minha necessidade não tem a ver com a obrigação de entregar o material para edição, mas sim com urgências pessoais, inexoráveis. Não quero calar a boca nesse mundo estúpido, que resolve tudo na bala, covarde que só vendo. Não quero, entretanto, cair na armadilha desse mesmo mundo, objetivo e interesseiro, e virar um gatilho, um fogo contra o peito daquele que não conheço, daquele com o qual não concordo. Há espaço para todos nós, digo ou quero dizer com a crônica que, a ponto de sair (feito a bala da arma), me coça o dedo.
Vejo a jovem democracia brasileira cair pelas sarjetas, como se fosse os bêbados de um carnaval mal bebido e mal pulado. Quanto custou a democracia a uma geração não conta, e os mesmos que lutaram por ela vão aos poucos encurralando-a num canto. Já ouço gritos de “curra, curra”. Há uma torcida pelo pior. Quando sangrarmos a mulher dos trinta anos — tão bem cantada por Balzac —, nos descobriremos incapazes. Correremos dos homens, da polícia, mas haverá pouco espaço para nos esconder e, além do mais, por que voltaremos a viver escondidos, exilados? Vamos nos repetir?
Escrevo a partir do meu ponto de vista, longe da sabedoria, na medida em que caminho com meus pés no chão esburacado das minhas impressões. Assim, claro, posso estar errado. Todo esse disse-me-disse e esse o-ladrão-é-ele podem ser apenas desajustes temporários, coisa que passa. Se for assim, que o acerto não venha pelas graças de um salvador da pátria.
Preciso escrever uma crônica bêbada, mas protegida das ressacas física e moral. Uma crônica que arranque um riso do sisudo e um quê de preocupação do desavisado. Tenho urgências, já disse. Mais que urgências, tenho comichões de escrevê-la e, com ela, pescar não os aplausos dos leitores, mas o apaziguamento das minhas dúvidas, estas que são atiçadas com o carvão da minha covardia.
Preciso escrever uma crônica que seja um grito que me escapa, no qual eu diga — sem saber sugerir um remendo, uma solução — não, não é assim que construiremos um país. Não mesmo.
Vou me sentar para tentar escrever tal crônica, se é que já não a escrevi.

3.2.15

Qual é, solidão? em um comentário de Dag Bandeira

A professora e escritora Dag Bandeira fez o seguinte comentário de Qual é, solidão?, editora Oito e Meio, em seu perfil no Facebook.


"Alexandre Brandão em Qual é, solidão? (Editora Oito e meio /Átame/ Autoria) nos apresenta 22 contos onde os personagens levam consigo muito mais convivência e congregação (sinônimos, eu sei) do que exílio e desamparo (outra vez sinônimos). A solidão, tema do livro de contos, está ali representada no seu mais amplo sentido filosófico: a busca da força interna dos personagens, o lado mais verdadeiro de suas existências. Por isso, ao lermos as narrativas literárias tão bem estruturadas e cheias de surpresas, nos deparamos com histórias que, longe de nos deprimir, nos mostram o que nós podemos fazer com o tempo em que convivemos conosco e nossas mazelas. A leitura foi uma aula de vida para mim. Confiram."