10.10.10

A Branca Mau e os sete Porquinhos - crônica de Pedro Werneck Brandão



Um dia, Chapeuzinho Vermelho encontrou os três porquinhos, a Branca de Neve, os sete anões e o Lobo Mau. Eles queriam aparecer juntos numa história.
Sabendo da idéia da história juntos, o Lobo Mau disse:
- Só aceito esta ideia, se eu comer os três porquinhos!

Ninguém concordou, óbvio, mas teve uma coisa estranha. Não ouviram a voz dos três porquinhos falando que não concordavam, então olharam pra um lado e pro outro pois, claro, eles teriam falado que não, já que não queriam ser alimento de lobo. Depois de olharem para os lados, Chapeuzinho declarou:
- Eles fugiram! Vamos procurá-los! Foi unânime a aceitação da ideia de procurá-los. Mas cada um com um motivo: Chapeuzinho: porque queria muito fazer a história com todos eles juntos. Lobo Mau: queria que eles fossem seu jantar, desse você já sabia, não é? Os sete anões: achavam que eles eram anões também, e vai saber o porquê disso. E a Branca de Neve: achava eles  fofos, então concordou com a ideia de juntar os porcos a ela como se fossem anões.
E lá foram eles procurar, entraram em tudo quanto é lugar e, claro, o Lobo também, soprando tudo, obviamente já com garfo e faca na mão. Depois de uma hora, acharam os três cheios de lama para o Lobo desistir da ideia.
Depois do encontro discutiram sobre como seria a tal história  por muito tempo e Chapeuzinho, espertamente, disse:
- Vocês não acham que depois de toda essa procura aos porcos e tudo isso já não fizemos uma história.
- Verdade - disseram todos ao mesmo tempo.


FIM

Pedro Werneck Brandão tem 10 anos, é  aluno do quinto ano da Escola Sá Pereira.

A atividade proposta pela Professora de Língua Portuguesa, Flávia Lobão, consistiu em escrever, em sala de aula, a partir de uma frase sorteada da “Fábrica de Histórias para Crianças” (cartas como as de um baralho com propostas de textos) um texto em gênero livre.
O segundo momento foi um troca-troca de histórias quando puderam fazer a leitura e apreciação do texto do colega no que diz respeito aos aspectos linguísticos, textuais, gramaticais, assim como aos discursivos, autorais. Apreciaram, discutiram, trouxeram sugestões, fizeram elogios, corrigiram! Os autores contaram com essa riqueza de observações, de diálogo e puderam, assim, rever ou mesmo reescrever passagens das histórias que, depois, foram lidas para todos.

Para sair das sinucas de bico que a vida dá

Se seu amor tem um bafo daqueles, escreva-lhe assim: “Pedacinho de céu, o alho não é tudo na vida. Bom pra saúde, péssimo pro amor. No caso do nosso, nem lhe digo, com ele o bulbo acabou.”
O agiota pareceu um sujeito simpático quando, no dia D, você disse que estava liso, precisando de prazo maior para quitar a dívida. No segundo adiamento, o danado bateu em suas costas, deixou-o à vontade, que não se preocupasse. Como você não nasceu hoje, percebeu logo que tamanha bondade não daria em boa coisa. Como o medo é sábio! Sua reflexão de covarde é sabedoria em estado puro. Nada de descolar o dinheiro, todavia. E aí? Suicídio nem pensar. Tampouco assassinato. Não é hora de remorso, arrependimento não se troca por moeda em mercado. Então... Sr. Endividado, dispare rua afora. Tome a Dutra, quebre em Lavrinhas, suba a serra, entre em Passa Quatro. Contam que os habitantes de lá são mestres na arte do disfarce. Filho da terra teria enganado o Dops na época da repressão e virado, anos depois, homem poderoso na República. Nessa que aí está. Isso, entretanto, são outros quinhentos, e de quinhentos, na realidade, de falta de quinhentos seu inferno está cheio. Corre, bobo, corre, ou o agiota, ó, cafunga no seu cangote e baba no seu cadáver.
Nunca minta, mesmo quando a mentira puder tirá-lo de situação embaraçosa. Esqueceu o aniversário da cara-metade, não telefonou no Dia dos Pais ou no das Mães, não foi à apresentação da criança no balé, ora, quando vierem alugar seu pobre ouvido, mande na bucha: “Poxa, gente, sou um só.” Se faz sentido ou se aceitarão sua resposta, não sei, mas é a melhor desculpa disponível e não é mentira, não é mesmo. Isso me faz lembrar um amigo. Quando pintava uma cerveja não planejada depois do trabalho, todo mundo corria para avisar a esposa ou o marido por telefone, menos ele. Além de não se mexer, ainda caçoava dos outros: “A bronca é inevitável, logo, melhor levar uma só depois da diversão.”
De repente, você se encontra num ambiente decente. Almoço de prata e cristal; hábito de licor e charuto. Voz baixa como tom. Olhares discretos como norma. Música de câmara. Você sempre foi reconhecido como um sujeito que sabe quebrar formalidades. Contam de suas tiradas no tempo do colégio, no trabalho, no trânsito. Hora de fazer uso desse talento. Mas não parece ser seu dia. Sua piada sexista — ou um pouco antissemita, ou que abusa do preconceito contra portugueses e anões — é recebida com frieza para dizer o mínimo. O ambiente, impecavelmente limpo, torna-se pesado, muito pesado. Amigo, corra todos os riscos: arrote. Em salões dessa estirpe, sempre existem uma velhinha, um velhinho ou uma criança que se amarram em escatologias, quer dizer, de algumas, não exagere. Se rirem, pronto! 
Seus candidatos estão quase lá. Um pouco mais de dedicação à campanha na etapa final, e você sai vitorioso. Você, sim, claro. Pois seu voto expressa suas ideias e ideais de país, e aquele presidente, aquele senador ou aquele deputado são a personificação de tudo o que você pensa. Maravilhoso! Um único porém: numa roda de chope, passados não mais do que dois meses da eleição, um de seus amigos lhe perguntará: “Votaste em quem, mano?” Aplicaram-lhe uma rasteira. Até mesmo o voto ao cargo republicano máximo não estará mais claro em sua cabeça. Bicho, faça como minha tia: aos 95 anos de idade, não tendo nenhum dano sério em sua memória, vez ou outra escapa-lhe o nome de alguém. O que ela faz? Pergunta se a pessoa não tem um apelido, no que recebe de bandeja o nome esquecido — pois numa situação assim, o natural é responder: “Nunca tive apelidos, sempre fui Alexandre”. Como usar a tática de minha tia? Ora, encare o chato do seu amigo e pergunte-lhe se ele não tem mãe. O que acabo de dizer não tem nada a ver com a “saída” à moda de minha tia? Também quem mandou você ser um democrata festivo? Sinuca de bico é sinuca de bico, só os craques escapam de uma. Às vezes, nem eles.

21.9.10

Num momento assim

Alexandre Brandão/set.2010


Ao sair do eixo
Feito um pato sem plumas diante do espelho
Ou, diante do mesmo espelho, o espelho da alma de um gato triste

A memória caçoa do desejo —
Esse que escreve descolorido
Em pergaminho que não guarda segredos.

E eu me pergunto:

Quem costura a pronúncia da dor?
Quem limpa o dejeto da beleza?


O braço à espera da morfina
O rosto envergonhado do sem-vergonha
A nostalgia rasteira dos confusos
    ou aquele por trás disso.

O verbo incapaz
A frase não dita
O pôr do sol depois do sol posto
    ou o que é avesso a tudo isso.

Quem?

12.9.10

Hei, Amy!



Manhã chuvosa. Trabalho à espera. Mãos prontas para obedecer o cérebro. Tudo em ordem para dar o suor ao Brasil. Oxalá!
Uma música, penso, não atrapalhará em nada meu desempenho, não fico menos produtivo com isso. Coloco  “Will You Still Love Me Tomorrow”, com Amy Winehouse.
...

Parem as máquinas. Silêncio nesse mar de baias. Que ninguém se levante pra tomar café; que ninguém converse, ainda que a tarefa exija. Silêncio!, repito.
Amy se droga demais, sabe-se lá com que tipo de coisa. Ela se mete em encrencas a toda hora: pelejas físicas com o namorado, escândalos em locais públicos, cano nos shows.
Amy, oh, Amy! O que há, garota?
Dói tanto assim, a ponto de a anestesia ser tão ou mais importante que o ar? Será que não dá pra diminuir um pouco os decibéis de seus bodes? Sei lá, liga pros “meninos” do Rolling Stones, pede uma receita. Não, não estou falando de uma nova droga, mas procure saber como conciliar doideira com longevidade, pois precisamos e precisaremos de sua arte para percorrer os quilômetros e mais quilômetros de vida que nos faltam.
Menina, farejo tanta maldade no pessoal do show business. Acho que os caras gostam das tragédias pessoais; elas, de alguma forma, animam os lucros — deles. Portanto, vão estimular seu circo, não tenha dúvida. Em algum momento, no entanto, seus escândalos, suas prisões e seus internamentos, Amy, podem inibir os tais lucros, ou mesmo manchar de vermelho a contabilidade. Nessa hora, todos lhe darão bye, bye. Pode ser que você tenha de se mudar de corpo e alma para uma sarjeta, hoje seu cantinho esporádico num final de farra.
Minha memória dá um salto e constato: como você se parece com a Viviane, uma menina do meu círculo de amizades na adolescência. Ela, como você, era doida — e bota doida nisso. O que terá sido feito da Viviane? Você não é a Viviane, é, Amy? Se for, baby, por que você não cantou em nossas rodas ao redor de fogueiras, quando consumíamos os primeiros drinques e uns poucos baseados? A Vivi só nos deu trabalho com seus desfalecimentos. Tivesse nos dado música... quem sabe a vida não teria sido diferente para todos, melhor até.
Pense, Amy, nos cinquentões que, com seu aparecimento, esqueceram um pouco seus Pink Floyd, Yes e Led Zeppelin da vida. Pense em como você embala as pessoas da China, as de Portugal, as do Brasil. Faça aquilo que sua condição humana pede, mas abre o olho, não entre no jogo dos donos do espetáculo. Permaneça. Isso: permaneça.
Amy, quando você cantar novamente “Will You Still Love Me Tomorrow”, olhe ou pense em mim e não me deixe morrer.
(Trabalhar depois de Amy foi um suplício. Acho melhor descontarem o dia no meu contracheque.)

6.9.10

Sorteio de livros

O blog Sobrecapa está promovendo o sorteio de 4 livros, entre eles "A câmera e a pena" e  “Amores vagos”. São três chances. Corra lá e boa sorte.
A promoção fica no ar até o dia 17 de setembro.

19.8.10

Agrado Passense

Minha conterrânea, a jornalista Vera Pagliuso (quem quiser acompanhá-la, inclusive em programa de rádio, clique aqui), faz um agrado nesse hominho aqui, que vive no osso. Vejam a matéria e digam se não tenho de estar feliz com uma coisa dessas. Obrigado, Vera.

6.8.10

Musical Variado

Para Rick Bell, Sabão e Tacilinho


Blues


Quando sair de cena, minha senhora, não esqueça no varal suas roupas íntimas nem no lençol seu cheiro de maçã.


Esqueça de vez a primeira e a última palavras que trocamos. As contas penduradas e as noites maldormidas em madrugadas de filmes ruins faça de conta que nunca existiram.

Deixe valer seu charme na próxima esquina. Ou explore a força de suas pernas e ponha-se a correr ladeira abaixo, sem olhar pra trás, sem olhar pro lado, sem se dar pelos perigos.

Não me escreva correios eletrônicos ou correios elegantes em noites juninas. Não telefone ao cair da tarde ou no auge de pileques de bebidas baratas.

Gaste seu dinheiro, mulher, moça e menina, em bacanais assexuados e jogos de azar. Não invista.

Todo sol é princípio de escuridão.

Jazz

O silêncio tem amizades suspeitas. Nos anos de chumbo, amasiou-se com o medo. Juntos improvisaram escuridões. Resistentes, poetas cantaram assim mesmo. Bill Evans, alheio a tudo isso, passou ao largo em solos lunares.

Anônimo, um menino do interior das nuanças tropeçou num desses solos e soprou a Chet Baker um sustenido de amor. Foi a gota fértil que faltava para tudo tomar outro rumo, no qual o silêncio não se furtou de fazer das suas, aconchegando-se à alegria num bebop febril.

Valsa

Não somos de soma.

Não somos quadrados.

Somos quem abraça o outro no calor das notas suaves.

Vamos pra lá e pra cá levados pelo vento.

Sabemos o alfabeto do corpo em movimento e sonhamos requebrar em praça pública.

Tango (trecho do poema Tangos de cera)

O homem do lado cheira a fracasso/ O homem no bar bebe o gargalo/ O dono do bar tem tanta grana/ E nenhum amor:/ Nunca comeu arroz doce/ Tapioca ou banana com canela.

O mundo é do ontem/ Do desencontro/ Do lodo.

Sinistros dias que conceberam a ilusão/  Não lustro sapatos para refletirem calcinhas/ Não sujo sapatos para insinuarem histórias.

Os  cegos  de  Sábato  têm  a  visão  do  bandoneon/ Os coelhos de Cortázar reproduzem-se com o esperma do bandoneon.

O conjunto faz o intervalo/ Uma lâmina traça outro pulso.

Outros, inclusive e principalmente o rock

O salão oval gosta de receber os que, sem ritmo, dançam conforme a música que não foi nem será tocada. 

1.8.10

Um novo projeto

Se você está passando por aqui meio por acaso, sugiro-lhe fortemente dar uma fugida até o Estilingues. Lá está descrito um projeto bacana no qual eu e minhas amigas Cristina, Marilena, Miriam, Nilma, Sonia e Vânia estamos metidos. Queríamos comemorar o aniversário de nosso encontro literário (quase 25 anos) e decidimos, para isso, conceber um projeto que possa ser um sopro leve no sentido de estimular a leitura no Brasil.

Até lá.

12.7.10

Ontôje: uma crônica mercantil



           


Sou do tempo em que meu primo, Zecão, vendia de porta em porta o leite fresquinho da roça. Chegava com sua camioneta, estacionava nalgum ponto estratégico da rua e buzinava. As pessoas acudiam o chamado com vasilhame na mão, prontas para pegar um, dois litros. Nada de dinheiro, pagamento só depois, no final do mês. De volta a casa, fervia-se o leite bom, gordo, e com ele, às vezes pelando e amorenado com açúcar queimado, enchiam a pança da meninada. Também se preparava o doce de leite, o arroz doce, até queijo se fazia. Sou do tempo em que as casas eram manufatoras.


Sou do tempo em que tudo era pecado. Os campos e as cidades estavam cheios de seus frutos. Eu era um deles, você também, ou seus pais e avós, dependendo de sua idade. Sorte que, na minha cidade, havia um padre, o Jaime, que aliviava nossas penitências nos casos de roubos de frutas e de uma ou outra mentira inconsequente. Padre Jaime acabaria por largar a batina agarrando-se a uma saia sob a qual uma moça bem ajeitada não se escondia. Pecador? Na época, sim, hoje, com o que se anda fazendo por aí nas barbas de Deus, muitas vezes em seu nome, Padre Jaime seria um homem digno; o que, de fato, ele era. Me excedi, deixemos Padre Jaime em paz.




Sou do tempo em que se pedia para namorar hoje e só se tinha a resposta uma semana depois. Pegar na mão, era um protocolo, custava um mês. Beijar, dois. Transar, uma vida. Aprendíamos, com a experiência, que uma vida era um tempo grande, mas finito. Alguns convertiam essa medida pouco rigorosa: uma vida igual a dois meses, três, dependendo da lábia e dos lábios. Sou do tempo de grandes segredos.
Sou do tempo em que não se tinha jogo eletrônico. À toa pela cidade, medíamos as ruas em número de pisadas. Ida e volta. Íamos sem medo, com os olhos nas vitrines e nas pessoas; do mesmo modo voltávamos. Sou do tempo em que apelidos não eram apelidados de nick e bastavam por si, sem que fosse preciso seu complemento atual, a senha.
Éramos desportistas. Para ser mais exato, peladeiros de plantão. No surgimento dos primeiros fios de barba, os amistosos tornavam-se disputa de vida e morte, cabendo ao morto o pagamento das cervejas tomadas até morrer pelos vivos. A partir da primeira aposta, as cervejas passariam a ser o atrativo principal — gol pra quê? De qualquer forma, jogávamos, quando jogávamos, quase tudo: futebol, basquete, handebol... O vôlei tinha má fama: era coisa de mulher ou de invertido. Invertido era a palavra mais branda que se usava para falar dos homossexuais.
No meu tempo não conhecíamos a palavra homossexual. Não éramos, para o bem e para o mal, politicamente corretos. O conceito “politicamente correto” nem existia, o que não me impede de dizer que erramos ao ser tão descaradamente preconceituosos. Éramos, e nesse ponto o mundo e nós melhoramos.
Aonde quero chegar? Quero chamar sua atenção, leitor jovem, caso haja algum, para o fato de que meu tempo era em quase tudo melhor que o seu. Compare. Atualmente, a violência; antigamente, a tranquilidade. Agora, funk com suas cachorras; antes, música lenta para se dançar colado com a gata. Contra o mundo cibernético do presente, o peripatético e saudável do passado. Hoje, transparência excessiva; ontem, obscuridade sutil.
Não estou certo? Então, agora escute minha proposta: fico com o caos contemporâneo e todas as suas mazelas; em troca você fica com o mar de rosas de antanho. Extensão lógica: fico com a sua idade, você com a minha.
Permuta olho no olho, olho por olho, sem devo ou deve.
Fechado?

11.6.10

Dois assuntos da hora


Primeiro



Chovo no molhado (expressão inapropriada) ao dizer que o outono nos brinda com os dias mais lindos do ano. O céu é limpo, de um azul absoluto. Os fins de tarde inauguram a noite com todas as pompas que ela merece. Mesmo aqui no Rio de Janeiro, terra quente, a temperatura torna-se branda, agradabilíssima.
Não fosse o fato de a velha do “João e Maria“ ter fugido das páginas do livro, comprado um apartamento em Ipanema e passado a torturar uma criança, justo aquela para a qual o mundo oferecido era de fato a casa de chocolate.
Não fosse o fato de as gigogas terem tomado, mais uma vez, a Lagoa da Tijuca, evidenciando assim que o meio ambiente continua a ser tratado depois de ferido.
E o que mais?
O fato de Gabeira ter de fazer um esforço medonho para não perder a face ao entrar no bloco dos mascarados, no qual pulam parados os donos do poder.
E também o voto do ministro Eros Grau segundo o qual ninguém fala mais da tortura cometida nos anos de chumbo. Página virada.
Maria Rita Kehl, no Estadão, nos mostrou, com a história do suposto gatuno de bicicleta (Eduardo Pinheiro dos Santos), torturado e morto por policiais paulistas, que a violência do Estado continua sendo servida fria e com maus bofes à população. Agora não mais aos politicamente resistentes, mas sim, e como sempre, aos pobres, os física e psicologicamente resistentes. Ao aliviar o torturador de ontem, anistia-se o de hoje e, por conseguinte, o de amanhã também?
Não fossem essas nuvens, poderíamos receber a beleza do outono como o carinho mais suave feito por Deus.

Segundo

Dunga, o Brasil agora é o senhor, gostemos ou não. Sejamos ou não apaixonados por futebol. O Brasil é o senhor, do senhor, para o senhor. Não me venha com o papo de que faz parte de uma equipe, de que não podem ser esquecidos os 23 jogadores, o massagista, o roupeiro, o médico, os cartolas, a CBF; sem contar os adversários com sua força própria. O ônus do cargo é do senhor, pronto e acabou. Perdemos, a culpa é sua. Ganhamos, o talento é nosso, inato.
Apesar dessa posse temporária do Brasil, o senhor deve levar em consideração a opinião dos 199.999.975 treinadores que esse país de 200.000.000 de habitantes tem (subtraí o senhor, seu assistente e os 23 atletas). Temos diretrizes, filosofias, na realidade, um punhado de generalidades para guiar sua conduta. Muitas o senhor contrariou já na convocação. De todo jeito, sobram outras. Falo delas. Trate de segui-las de agora em diante, é a nossa chance; é a sua sorte.
Para usar uma imagem pertinente à crônica: queremos ser campeões sem que nossos atletas torturem a bola. E sem que a bola torture nossos meninos —  hoje ricos, mas que, como sabemos, vieram de baixo, às vezes de muito baixo. De certo, antes da fama, levaram cacetes por aí, o que não seria preciso, a pobreza em si é uma tortura, a pior delas (sei disso, senhor Dunga, sem nunca ter sido pobre).
Seu grupo está formado, mas na escalação dos titulares escolha os jogadores risonhos, os atrevidos, os leves e, por fim, os que tentam fugir da concentração (ainda que não consigam, pois o senhor anuncia-se como um disciplinador) — estes, usando uma segunda imagem inapropriada, roubada de Brecht, são os imprevisíveis.
Há na sua convocação uns dois ou três muito parecidos com o Dunga jogador; use-os para a conversa, para a sinuquinha na folga, nunca colocando em campo dois ao mesmo tempo, nem no desespero, quando se quer fechar a defesa. Aliás, se for preciso fechar a defesa, sugerimos a velha tática de abrir a defesa dos joões adversários. A melhor defesa... não completo a frase para não chover no molhado (imagem repetida, mas finalmente apropriada).

27.5.10

Algumas de minhas amigas e dois outros amigos


BbA

Ele ousa comer poesia desprezando o tempero.

CZ

 A inquietude move o corpo, este que pode muito. Pode, ao fim das contas, equilibrar-se entre o prazer e a dor. Se há um abismo entre esta e aquele, minha amiga se atira sem sombrinha sobre ele, pisando em um inexistente fio. As mãos livres servem ao propósito de (d)escrever essa passagem entre lugar nenhum e nenhum lugar.

DãoM

Era uma menina de arregimentar batalhões de amigos para as guerras pacíficas da juventude. Depois, passou a pegar touro a unha, trabalhando e, mais tarde, tendo seus filhos. Quase sumiu, pouco soube dela. Quando voltou, fez de sua casa um espaço ao qual todos vamos, como se fosse nosso.

MA

As mãos de meu amigo transferem um pouco de sua vida interna à madeira. Essa madeira, não raro peça de demolição, acrescenta à casa na qual será mesa, banco, enfim, um objeto útil e artístico, isso que ganhou de um homem sábio, nem por isso sobre-humano, nem por isso Deus.

MM

Ela, a despeito dos outros, até mesmo contra os outros, buscou o caminho das chamas. Tudo que flameja debaixo do tapete de água é íntimo dela. Se fosse a Chapeuzinho Vermelho, teria dado cabo do lobo e dos caçadores.

MMo

 Na tarefa impossível de tornar leve a vida, o humor cumpre o papel do homem que representa a mulher, do branco que se pinta de negro, do alto que dobra as pernas para ser o anão do próximo espetáculo. É um truque vil, por isso mesmo, admirável. Minha amiga faz do humor sua faca, não uma qualquer, mas aquela cujas dores produzidas se assemelham a cócegas.

NãoP

Nascemos com uma distância de uma semana e cem metros. Desde cedo, transformei-a, num olhar, em uma espécie de fada-madrinha que me protege. Se mexem com ela, mordo — com esses dentes que sua mãe jurava eu já tinha ao nascer. Sou, talvez ela saiba, seu anjo da guarda.

NL

Professora cujo ensinamento balança feito criança em jardins e praças. Ou mesmo balança onde não há redes, cipós ou cordas. Ela ensina como evitar as bacadas numa estrada esburacada. Depois, não professorando ilusões, grita pelo asfalto necessário, que o corrupto transformou em artigo luxoso de uso só dele.

SP

Conhece o desconhecido, mas não abusa disso. Revela-o de tal modo que ele, nunca, e nós, muitas vezes, não nos damos conta de tamanha revelação. Minha amiga pode, numa fagulha instantânea e fugaz, dar a entender que o belo é o desconhecido. (É quase.)

VO

Com um pé na matemática frouxa da poesia e o outro na pouca matemática dos negócios exatos, minha amiga se dá à tarefa de embaralhar o fácil e desembrulhar o impossível.

Grito

Sou coisa mansa
Vale sem água protegido por montanhas
Me faço ouvir pela mímica do sapato
Enquanto fujo
Pela mímica das minhas dores
Enquanto roo as unhas e o silêncio

Eu roo o silêncio
Na quebrada invariante da tarde
Quando o horizonte de tão próximo não se deixa ver

Adiante há um eco
Mesmo que eu gire o corpo e volte-me para o outro lado
Lá está ele, silencioso e abraçado à nuvem de algum passo estrangeiro
É um pássaro visível
É um pássaro na fronteira do arco-íris
É um eco de pássaro

Eu coo o café da noite
Para cair nos braços da escuridão chegada a tangos
E dançar feito nave neve nuvem – feito pó

Pó manso
Imensa brisa calada
Depositário de um grito cheio de graça com os terremotos.

9.5.10

O menino, a manequim e a chuva

À memória de Diego Frazão e à serena beleza de Luísa Brunet.


Duas notícias recentes chamaram minha atenção.
A primeira dava conta da morte daquele menino lindo, o Diego, o mesmo que aparecera na mídia, um pouco antes, tocando violino e chorando numa homenagem que os alunos faziam ao duplamente assassinado Evandro do Afroreggae.
A outra, num diapasão bem distinto, era uma entrevista de Luísa Brunet, na qual, entre outros assuntos, ela comentava que, aos 47 anos, não mantinha relações sexuais havia dois anos.
Diante de notícias tão díspares, pensava que, no caso do Diego, uma derrota pessoal (dele) crescia de significado, pois de alguma forma ele passara a representar a esperança por uma cidade menos violenta e mais justa, que desse oportunidades iguais a todos. No caso da Luísa, para além de algum possível desejo masculino (meu) que se viu desperto, perceber que ela, “a bailarina do Edu Lobo e do Chico Buarque”, a que não deveria ter problema algum, de fato tinha, de um lado me consolava por reforçar a constatação de que somos todos humanos, demasiadamente humanos, e de outro me deprimia: então não há um ser belo e feliz, um que possamos almejar ser, ainda que em parte?

Por mais tocantes sejam essas histórias particulares, a do menino e a da manequim, a tragédia comandada pela chuva de abril gritou mais alto, carregando minha atenção — imagino que não só a minha — para os seus efeitos destrutivos. Choveu no Rio. Choveu um rio. Choveu um mar para ser mais exato.
Ruas inundadas. Deslizamentos. Interdição de pontes e rodovias. Vidas levadas pela enxurrada. Não teve dó a chuva. Não é a primeira vez. Não será a última. Por que então a cada chuva assistimos à mesma reprise de tragédias?
O atual prefeito diz que não é com ele, é culpa do anterior. O anterior achava que era problema do anterior. Nessa sequência, Deus será o culpado, já que os homens públicos não chamam a si a responsabilidade que é, em grande parte e por voto popular, deles mesmos. Não quero cair na lenga-lenga de maldizer os políticos, misturando todos num único saco, porém friso: esses homens contam com o beneplácito de nossa cultura de poucas cobranças. E acrescento: o tempo é o desmemoriol que dá sete vidas a eles.
Cobramos pouco, é fato. Fazemos pouco também. O lixo, somos nós que o espalhamos pela cidade. O prefeito não dá conta de limpar as ruas, mas o caos seria menor se não as tivéssemos sujado.
O presidente, o governador, o prefeito, a justiça, enfim, todo o poder público vê nascer sob suas barbas milhares e milhares de favelas. Não fazem nada. Talvez um pouco por culpa, afinal, se não se pode construir um país sem desempregados, como exigir que os pobres vivam em terrenos “oficiais”, pagando os tributos relacionados a eles? Porém, mais do que isso, fecham os olhos porque vivem da pobreza. É paradoxal, ao desavisado, mas é a verdade.
Há outro ponto de vista. O dos próprios favelados. O que os leva a estabelecer-se numa encosta ou sobre um desativado aterro sanitário? Pitadas de ignorância? Gotas de desespero? Não tenho resposta. Nada (nem a razão) se contrapõe aos perigos conhecidos, levando-os a correr todos os riscos? Soa estranho.
A chuva levou consigo centenas de pessoas que se parecem mais com o Diego do que com a Luísa. Os prefeitos das cidades do Rio que sofreram com as chuvas trabalharam muito durante o caos, mas provavelmente, passado o dilúvio e seus aluviões, voltaram a seus gabinetes para sonhar, erotizados pelo poder, mais com Luísa do que com Diego. Acabarão por esquecer de buscar uma saída para tornar a cidade menos vulnerável aos golpes da natureza e à exclusão social.

29.4.10

Alguns dos meus amigos

AB

Um mandruvá letroso inoculou em meu amigo, então pititinho, um zê de ipsilone como se fosse o xis da questão. E ele, envenenado e carcomido de letra, viu-se fonêmico. Em seguida frasal. Descambou em poético. Uma lua cheia de costa pro vento sonhando com marés quadradas nas hipotenusas menores do sol sustenido. São os nostálgicos do amanhã sem ontem os únicos a entendê-lo. Embora nem sempre.


AR
Tem morada naquela cabeça o gosto de amplitude infinita. Ah, talentoso! Ah, conquistador! Ah, justo! Na linha da história, sua ciência, nossa amizade será não mais do que alguns pontos, todavia fortes, pois deles alimenta-se a linha inteira (soma enfim) na qual negros chegam ao poder do Império e marginalizados ganham voz. Meu amigo, que busca fixar justiça no que será história, semeia na militância o sorriso e a sensibilidade artística, deixando a dor, sua miserável companheira, longe disso, como se nunca houvesse existido.


HSN
O único erro que não se deve cometer é acertar sem errar. Errar uma segunda vez é como lambuzar-se de manga toda vez que se chupa uma. É inevitável caso não se disponha de garfo, faca e prato. E mesmo que se disponha, todos sabemos: uma manga chupada é melhor do que uma manga cortada e mordida com decência.
Aliás, não é no chão decente que brota saudável o fruto da criação. É no solo de lata enferrujada; no campo das dúvidas banais; nonde sobra esterco do belo. Se jardineiro é quem conhece e discorre sobre a ciência das flores e, indefectível, produz as mais vistosas e enebriantes, meu amigo não pode ser um deles. Mas ele é, eis o fato.


MJO
Não se é ator sendo-o. Talvez, sim, arqueando-se as pernas, por si só arqueadas, ao rir-se triste das dores que o lugar fora do palco impinge em cada um de nós. O buraco é mais embaixo da unha. Ele sabe, mas prefere pensar de outro modo, ou melhor, gostaria que o buraco não fosse ali tão perto dos dedos que apontam, que agarram, que coçam e caçam. O palco poderia ser o buraco.


MTC
Ele dorme acordado. E acorda dormido, momento em que afunda os meninos e as meninas que sabem só um cadinho raso da vida nos próprios sonhos. Neófito, sempre volta ao local do crime, e ali encontra a fuga adulta da infância nas digitais do que será, para todos, nostalgia impalpável. Chora e, choroso, dorme acordado para acordar dormido e redescobrir a seta do início com a cabeça no rabo. Repisa.



NV
Quem estuda seus passos de ritmo moderado apreende a utilidade da mochila — sempre às costas. Nela se acomodam o verso futuro, o desenho por se desenhar, a música em gestação e ainda o passo rápido que um dia animará seus pés, fazendo-o chegar a si mesmo.


PB
Descobriu a poesia entre os presos. Como era ele o carcereiro, ofereceu a ela a oportunidade de viver livre, desde que se encarcerasse nele. Ali ela está, e bem cuidada. Não são felizes porque poetas e poesias não o são. Nem querem sê-lo.


RT
Nada escapa de seu olhar, e este comanda a mão. E das mãos uma peça se fará visível a outros olhos. Não será peça para deleite, mesmo que bela, pois toda beleza questiona e confunde. Será panfleto de um artista deslocado, cuja compreensão alcançaremos se e somente se estivermos também pisando no deslugar.


SF
Sob o boné, a urgência. Dela, manuscrito, um trapo lavado a seco e sua mensagem dúbia, mas sem rodeios. O álcool dos mimeógrafos sempre deu algum sentido aos poemas marginais, e esses subverteram os poetas que escapavam aos revolucionários. Brotou dessa guerrilha sem armas outra geografia das ruas que se pensavam apenas como concreto e traço. Ele, capitão temente aos recrutas rasos, sugeriu a direção na qual o norte seria apontado. Com isso a bússola engasgou e, vesga e soluçante, deu-se a ler.


SS
O inominado ele chama pelo nome de guerra. Assim, Judith é, na lembrança da primeira comunhão dele, a nave da igreja vazia e o desgosto do corpo de Cristo sobre a língua. Penélope é a meia trava que o atacante, ser intuitivo, dá temendo os conhecimentos de cantos e ângulos que o goleiro possa ter. Isocléa é tudo o mais que está no cesto do inexplicável. E Isolda, aquilo que porventura escape do cesto.


XM
Todo vegetal brota em sua mão. Por isso, sua visão de mundo, em barquinho de papel, escorre esconsa pelo Aquífero Guarani. Os perdigotos de sua fala falam por si, em silêncio, deixando-se entreouvir seus sonetos brancos, de amor e de revolta.

28.3.10

Surpresas de 2010

A máxima aceita por todos diz que o ano no Brasil começa depois do carnaval. Com a Copa do Mundo, dá-se um chega pra lá nesse teórico janeiro e tudo principia na palma da mão de julho. Assim é.
Assim seria, pois neste 2010 o ano começou no meio da folia, quando foi preso o governador do Distrito Federal. O homem, que foi flagrado recebendo um dindim escuso, que pulou pra se esconder, que inventou desculpa esfarrapada, foi pro xilindró. Claro, prum xilindró bacana, de onde, provavelmente, com recursos jurídicos de toda sorte, deverá sair em breve. Não faz mal, fez-se e houve um gesto que o condena. Aos poucos o país melhora essa questão, sou otimista. Não tarda muito – pense no tempo dos países, não no ligeiro pelo qual passamos por aqui –, não tarda muito e veremos gente dessa espécie devolvendo a grana aos cofres públicos.
Sinais efetivos de que não nos devemos curvar ao poder do tempo, particularmente do tempo cultural. Comecemos o ano no dia primeiro de janeiro ou no 11 de fevereiro, pouco importa, somos uma nação jovem, ainda jovem, e temos de acertar muitas coisas tortas largadas por aí.
Cuidar da educação: parece que estamos num impasse. Fim do vestibular, cotas, escolas particulares tentando tornar-se grifes ao mesmo tempo em que há crise financeira em quase todas. Ainda não está claro como fazer a excelência voltar às escolas públicas de forma definitiva e universal.
Cuidar da saúde: discute-se a melhor forma de gerenciamento; há dicotomias absurdas (medicina de altíssimo nível para poucos e sofrível para a maioria); os governos estaduais e municipais encarregam-se de comprar os medicamentos de altos custos e, invariavelmente, estes faltam aos necessitados.
Cuidar da infraestrutura: deita-se falação sobre transporte ferroviário, mas tudo anda no ritmo das marias-fumaças; a navegação fluvial é incipiente; as estradas sofrem as mesmas anomalias observadas em tantas outras áreas (algumas ótimas, a maioria deixada à própria sorte).
São coisas tortas, sim, mas, em retrospectiva, acho que tudo melhorou um pouco. Talvez um pouquinho. Já é um passo. Repito: sou otimista. Responsáveis por essas melhoras: PSDB e PT, no plano político, com 50% de mérito para cada um, a despeito do que eles, em confronto, nos dirão em ano eleitoral. No campo que interessa, a responsabilidade é nossa, da sociedade civil, de nossas representações autônomas e de nossos gritos espontâneos aqui e ali. Se, como se diz no futebol, acertarmos o último passe, ninguém vai nos segurar. Podem vir políticos mal-intencionados, larápios assim ou assado que a gente enfia o gol de nossas necessidades na fuça deles. Sem violência, com pressão do ataque e drible de craque. Exatamente como os estudantes de Brasília fizeram desde o início da crise local. Esses meninos e essas meninas, sim, são o orgulho da mamãe, do papai e nosso.
Com um ano começando tão cedo, dá no que está dando.
A Unidos da Tijuca fatura o carnaval carioca, passando uma rasteira merecida nas escolonas.
O Botafogo, esse injustiçado, torna-se bicampeão da Taça Guanabara.
Um poste candidata-se a presidente do país para concorrer contra um carrancudo. Não devemos temer cara feia, deveremos estar atentos e prontos para as lutas. Como sempre foi e é, independentemente do calendário.
Por enquanto, com esse ano de quase doze meses, jogo preocupações maiores de lado e comemoro. Grito assim: Fogooooooooooo!


23.3.10

Programa para 27 de março, no Rio de Janeiro


Amigos, a barbada é a seguinte: dia 27, no Cinemathèque de Botafogo (RJ), Rua Voluntários da Pátria, 53 - Botafogo – RJ, a boa é ir ao lançamento de "Como se não houvesse amanhã", da Record, coletânea baseada em músicas do Legião Urbana, mais precisamente do Renato Russo.

Mais detalhes, dê um pulo aqui.

6.3.10

Lançamento de livro


No dia 27 de março, daqui a pouco, rapazes e moças talentosos lançarão no Rio uma coletânea de contos inspirados em música do Renato Russo. Entre eles, meus amigos Sérgio Fantini e Mariel Reis. Será uma festa, vale a pena esticar as pernas até lá (veja o convite) e, de quebra, comemorar os 50 anos do líder do Legião. Eu vou.

19.2.10

Receitas talvez desnecessárias



Para dias noturnos

Tome o alho e o bugalho nas mãos, esfregando-as até tornar o alho bugalho e vice-versa. Feito isso, espalhe a massa compacta derivada do movimento anterior sobre o lombo de tudo quanto é tristeza. Deixe-o descansar, aproveitando parte desse tempo para descansar você mesmo.
Ao voltar ao batente, peneire o pó das dúvidas, macere o limão para extrair-lhe o azedo das raivas e bata em neve as claras da boa vontade e da crença. Use, para as claras, garfos de gratidão e evite batedeiras, britadeiras e outras máquinas que são ágeis, mas brutas.
Deite num pirex um fio de esperança e um pouco do leite de Eva, mãe e mulher antes que pecadora. Arrume o lombo nessa mesma travessa, cobrindo-o com a química da bonomia. Leve-o ao forno morno e deixe o calor dar conta do recado.

Para dúvidas políticas

No liquidificador jogue inteiro o discurso mentiroso, que sempre vem protegido pela casca da desvergonha. Triture, triture e triture mais um tico. Se preciso, peça à vizinha o multiprocessador e triture novamente o já triplamente triturado. Virou poeira? Não assopre. Nem se espante, esse é o ponto.
Bote sob o sol do meio-dia o prato das alianças negociadas, ou melhor: das negociatas — com isso, a receita não ficará nem melhor nem pior, mas a cachola dos arquitetos dessas estruturas interesseiras deverá ficar bem quente (são merecedores).
Em fôrma untada com a manteiga salgada da verdade, derrame o líquido das intenções ditas doces, proferidas por essas pessoas que não se cansam de se dizer tementes a Deus. A manteiga vexada fatalmente irá ferver como num milagre, acomodando-se depois numa pasta oleosa. Sobre o prato das negociatas então bem aquecidas pelo sol tropical e pelas culpas ainda que passageiras, mescle a pasta ao pó do discurso, sovando a mistura até formar uma massa que se possa moldar com facilidade. Na tradição rural, aconselha-se ao cozinheiro levar tudo no deboche e na descrença, o que aguçaria o sabor dessa espécie de pastelão.
Sirva o prato frio, acompanhado de licor da pupila jabuticabosa dos olhos cegos da justiça.

Para alimentar os filhos


Escolha na feira hortaliças viçosas e frutas suculentas.
Em casa, antes de misturar isso e aquilo, deixe escapar uma palavra doce para as crianças, mesmo que o almoço não tarde, pois não será isso que lhes tirará o apetite, antes pelo contrário. Em seguida, e sempre, esteja cozinhando ou não, tome como compromisso inalienável não mentir para elas nunquinha durante essa vida tão breve. Sequer mentiras adornadas com trufas e biscoitos da vovó ou insufladas pela melhor das intenções.
Por fim, com o coração arejado, faça o que bem entender com as compras recém-feitas. Só não deixe de enfeitar o prato: a beleza atiça a fome dos inocentes.