27.8.17
20.8.17
A ciência cansada
A moça que vai descer do ônibus antes de mim leva o celular
no bolso de trás da calça. Eu me pergunto a razão disso, não me parece natural,
muito menos seguro, haja vista que o aparelho fica metade para fora. No bolso
de trás, totalmente protegida, os homens, principalmente eles, levam a
carteira, sempre foi assim. Não, não e não. Meu pai, agora me lembrei
nitidamente, levava a carteira no bolso da frente, no da direita. Ele usava
daquelas calças cujos bolsos frontais são fundos, bem fundos, logo uma carteira
solta ali está seguríssima. Esse modelo é o mesmo que o Veríssimo disse em
crônica usar a vida toda e, por conta dessa fidelidade ter estado, em
determinados períodos, na moda e noutros fora. Veríssimo, mestre, você não
passa de um démodé, a calça com bolsos mais rasos está na crista da onda pelo
menos desde os anos de 1980. O Whatsapp demanda ter rapidamente à mão o celular, por isso a vitória da calça atual. De novo cometo uma
inverdade, o bolso curto existe, acabei de dizer, antes das redes sociais, logo
a causalidade é outra: não fosse o bolso raso, não haveria a rede social, em
particular o Whatsapp.
Todo casamento é um equilíbrio precário, seja o casal de que
espécie for: negro casado com negro, negro casado com branco, branco com
branco, europeu com asiático, velho com novo, homem com homem e mulher com
mulher — sem esquecer os poliamorosos e os transgêneros. Enfim, é da natureza dos
casais conviver com um perigo à espreita, não percebido, capaz de fazer com que
todos se equilibrem na corda bamba; sem sombrinha, acrescento. Sendo assim, os
casais vão, ao longo do tempo, criando suas defesas, quer dizer, aqueles que
não chutam o balde e voltam à doce vida de solteiro, essa falácia que
inventamos, uma vez que estar solteiro é um equilíbrio igualmente precário
estabelecido numa casa quase sempre suja, com a cama desfeita e a geladeira
vazia. Deixo as tergiversações de lado e vou ao que interessa, no caso o que os
números dizem sobre o casamento. A evidência, todos sabem, é que o curso de
dança é a última etapa do casamento. É tiro e queda: o casal se matriculou na
dança, o casamento chegou ao fim. Nada mais lógico: dançar na corda bamba, e aí
com ou sem sombrinha, é impossível, não se vê nem em circo.
O pão cai sempre com a manteiga virada para baixo.
Assertivas como essa vieram importadas de países que não sabem o que é pobreza,
digo baseado em uma razão muito simples: o pão cai não só da mão daqueles que
têm dinheiro para comprar manteiga, cai também de quem come pão com pão.
É dando que se recebe. Esqueçam, essa frase faz parte da
oração de São Francisco, este homem bom, mas ruim de prognóstico. O que mais se
vê é muita gente dando (ou sendo roubada) sem receber nada em troca. Descarto a
frase não por suas questões intrínsecas, simplesmente não serve ao meu
propósito. Busco outra então. O preguiçoso fica pobre, mas quem se esforça no
trabalho enriquece. Veja que esta é parecida com a outra, mas não escorre de
boca de santo, tem mais a ver com os senhores do mercado, esses que nos fazem
crer nisso e, por isso, nos fazem perder nossas vidas. Ó, céus, aponte aquele
que ficou rico trabalhando.
Apresentei, amigos, quatro teorias. As duas primeiras
científicas até a raiz, as outras, como demonstrado, pura balela, coisa de
ciência cansada. Em tempos de falsas notícias, tenhamos cuidado,
principalmente quando falamos de verdade científica, que se estabelece depois
de cumpridas várias etapas, que vão da hipótese ao teste e, em seguida, à crítica.
Enfim, ciência exige protocolos. Então, amigos, agarrados à ciência ou
desagarrados da ciência cansada me ajudem a responder à questão inicial: como
justificar o celular no bolso de trás?
13.8.17
E tome palavra com Kátia Bandeira de Mello-Gerlach
E tome palavra
Kátia Bandeira de Mello-Gerlach Despejo
Ojepsed não passava do gênero escritor ocioso e insolente. Recusava os cumprimentos exigidos pela civilidade a qualquer um que descesse no elevador em sua companhia. Com um bafo de café amargo e carranca, o sujeito irritava. Síndico, sub-síndico e membros do conselho conspiravam o seu despejo em reuniões regadas a garrafas de Malbec despejadas até a última gota. Polarizados na política, os vizinhos gozavam de unanimidade no que dizia respeito ao escriba herdeiro do imóvel após o falecimento de sua mãe no chuveiro a gás, morte que chocara a todos e lançara suspeição no ar. Descarado ágil, Ojepsed usava de charme e sorrisos quando algo lhe interessava, inclusive o desfecho de uma vida. Convencera a vizinha idosa a suspender a queixa crime por conta dos tangos que ele ouvia a cento e setenta decibéis madrugada afora. Cinco dias depois, mais um homicídio no edifício. Nas reuniões de condôminos, Ojepsed chegava carregado de livros embalados em plástico. Poemas auto-publicados. Em casa, os compradores descobriam haver levado gato por lebre: tinham em mãos cadernos em branco com um único verso na capa. Et voilá, os que reclamavam, desapareceriam um por um dos andares a meio lume. Para completar o quadro de indignação geral, Ojepsed começou a abandonar os dejetos do gato gonzalo espanhol em um canto do elevador. Disfarçava esquecimento enquanto a maioria dos vizinhos chamava aquilo de provocação. Um ou outro que ousasse argumentar com Ojepsed tombava na lista dos desaparecidos, sendo que o síndico sequer se despedira de dona Ercília antes de ser encontrado flutuando no mar do Arpoador com as mãos cruzadas sobre o ventre. No fundo, no fundo Ojepsed almejava suceder Rimbaud no papel de poète maudit. O seu nome, no entanto, causava-lhe pejo quando ouvia os sussurros do resto dos moradores que se referiam a ele como Ojépissédi, alcunha para cordelistas pau-de-arara, inadequada para alguém que se intoxicava de incenso e exigia que lhe pedissem autógrafo no ponto do ônibus quando saía para flanar e se abrigava da chuva, sem temer despejos.
(texto em conformidade com as regras do método de Raymond Roussel levemente alterado)
6.8.17
Sob os meus cuidados
Para Vanessa e Pedro
No segundo dia da Flip de 2017, longe da festa, acordei, vesti o short, a camiseta, o boné, o tênis e, disposto, caminhei de Botafogo à Gávea, uma boa distância. Fui ao Instituto Moreira Sales ver a exposição com as fotografias tiradas por Chichico Alkmim em seu estúdio em Diamantina, mantido entre 1920 e 1950 mais ou menos. Suas fotos captam a emoção humana de forma impressionante. Uma menina acompanhava a exposição com familiares e fez um comentário pertinente: não há um único sorriso em todos aqueles rostos. É verdade, as expressões são graves, em grande parte porque deveriam ser instantâneos para documento, mas também, especulo, porque são pessoas humildes, quem sabe um pouco assustadas com o aparato tecnológico, as luzes, tudo isso que uma foto então demandava. Há mulheres bebendo cerveja, há um bar repleto de homens que leem jornal, há estudantes uniformizados, há religiosos. Muitos negros, inclusive entre os estudantes. Muitas mulheres, algumas em sessões eleitorais. Lamentei o fato de, por intermédio daqueles registros, constatar mais uma vez que o Brasil subaproveitou a oportunidade do fim da escravidão e a de ter dado às mulheres direito ao voto relativamente cedo.
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| Foto do acervo do Instituto Moreira Sales. |
Na manhã seguinte, eu veria o vídeo no qual a senhora Diva Guimarães — uma negra paranaense, professora por quarenta anos — levanta-se durante a palestra em que o ator Lázaro Ramos participava lá em Paraty e faz um dos depoimentos mais lúcidos e duros que já ouvi. Dona Diva bem poderia ter saído de uma foto de Chichiko para nos dizer que falhamos. São palavras dela a respeito da escravidão: “Aparentemente a gente teve uma libertação, que não existe até hoje”. A senhora, na sua argumentação, faz um discurso veemente sobre a importância da educação, ecoando aquelas fotos com negros e negras trajando uniformes.
Depois da ida ao instituto, depois do almoço, depois do cinema, mas antes de saber de dona Diva e de ter a companhia da querida Vanessa e do querido Pedro, amigos de meus filhos que tomo como meus também, ao sentar-me num quiosque que vende cerveja artesanal e de onde se podia ouvir um trio mandar ver o velho e bom rock’n’roll, me dei conta de que todos os escritores da cidade haviam se debandado para Paraty e por lá ficariam alguns dias.
Senti então que eu tinha uma imensa responsabilidade, a cidade estava sob os meus cuidados. Não que tivesse de dar conta da violência, do desemprego, das mazelas que de alguma maneira apareciam nas fotos de Chichico e que viriam a ser denunciadas — sem que eu ainda soubesse, repito — por dona Diva, portanto, antigas, duradouras e não exclusivas do Rio de Janeiro. A cidade estava sob minha responsabilidade poética, e só eu poderia contemplá-la com a ternura que merece e exige. Quando meus jovens amigos chegaram, lancei sobre eles meu primeiro olhar de curador da ternura. Depois direcionei-o a duas crianças que dançavam. Não me esqueci dos músicos, da moça bonita na mesa ao lado, do vendedor da boa cerveja, do casal de gringo que filmava tudo. Eu era o Poeta Terno, o único nos mais de um mil e duzentos quilômetros quadrados ocupados pela cidade.
Assim eu estava quando cruzou à minha frente, abraçado a uma moça e esbanjando sem pudor uma alegria quase tátil, o poeta Carlito Azevedo. Não, eu não era o único escritor na cidade, e isso tirou um tremendo peso de minhas costas. Lembrei-me então de um haicai do Bashô compartilhado no Facebook pelo próprio Carlito.
“quando a lua vai embora
descobre-se que a mesa
tem quatro quinas.”
Não sei bem como terminar essa crônica de peças soltas e desconexas. Talvez contando que só fui uma vez a Paraty, quando nem existia a Flip, e lá comprei uma camiseta estampada com o rosto do Chaplin.
30.7.17
23.7.17
Ali onde Getúlio entrou para a história
Este Brasil não tem jeito. Em mesa de bar com amigos, encasquetamos com tal afirmação. Todos somos desses que acreditam, pelo menos em tese, que a política é a única forma de superarmos os entraves que estão aí, à vista de todos. Porém, com a lambança feita pelos políticos, fomos parar na sarjeta da desesperança. O Brasil não tem jeito.
Numa tentativa de nos agarrar a alguma coisa positiva, uma das mulheres falou do movimento feminino, da potência que há nele. Rimos um pouco com a história da namorada de um desses reacionários que veio a público dar uma banana pro cara. Por sua vez, o outro homem sentado à mesa se sentia esperançoso ao acompanhar o crescimento de seus netos. Buscávamos algo que estivesse à margem da política de terno, gravata e tailleur e concordamos que o que vier virá das mulheres, dos negros, dos gays ou dos marginalizados de modo geral e comerá pelas bordas a desfaçatez da elite.
Contei-lhes então uma história que me ocorreu dia desses, que reproduzo aqui com a intenção de compartilhar um pouco do meu vacilante otimismo.
Eu e minha mulher fomos andar no Aterro, longe de casa. Para nossa surpresa, no calçadão encontramos alguns amigos, depois, no Museu da República, outro amigo e, em seguida, no Largo do Machado, mais uma amiga, e outras duas, na Marquês de Abrantes. Até parecia uma caminhada pelas ruas da minha pequena Passos, não a de agora com seus mais de cento e dez mil habitantes, mas aquela na qual eu vivia e era ocupada por um quarto da população atual.
No Museu, meu colega de trabalho estava acompanhado de sua esposa e da netinha de uns três ou quatro anos. Antes da história, devo dizer da alegria de ver avós agindo como avós, pois a criança ganhara um picolé, coisa que a mãe não gosta que ela coma. O casal desobedecia a filha. Viva a desobediência dos avós! Minha avó, diabética, me levava ao seu quarto, fechava a porta e, desde que eu jurasse guardar em segredo, me dava doce de caju, os melhores que já comi. Enquanto ela esteve viva, o segredo não saiu da minha boca.
A menina não gostou do picolé de morango, sabor que os avós escolheram na esperança de cometerem uma desobediência menor, afinal morango é fruta, é saudável. A garotinha, três mordidas depois, disse que não queria aquele e, na mesma hora, roubou o do avô, um de chocolate — aquilo que longe muito longe tem parentesco distante com o cacau —, e com ele se distraiu até o fim.
Ao nos despedirmos, eu disse para a menina: “Você é muito gatinha”. Ela olhou bem nos meus olhos e retrucou: “Eu não sou gatinha, sou...” (disse então, com muito orgulho, o nome e o sobrenome.) Ali onde, com um gesto radical, Getúlio entrou para a história, com uma troca de frases simplórias, eu e a neta de meus amigos ficamos assim: eu, quase sessenta anos, um sujeito que tem procurado não ser machista, mas que fracassa, e naquele momento acabara de fracassar; ela, quatro anos, sem a menor ideia dessa discussão toda em torno do feminismo, feminista pronta.
16.7.17
11.7.17
10.7.17
O dia da chegada de Guineto ao céu
Ao Sílvio Sales, que é fã do sambista
Em maio deste inominável 2017, Almir Guineto bateu à porta do céu. Durante a triagem habitual, São Pedro comunicou-lhe que um pouco mais tarde Deus o receberia para tratar de um assunto. Guineto, que já deixara o corpo frio para trás, viu a alma gelar. Medo. Medo de Deus. Estranho medo, mas justificável, ninguém chega ao céu com o escore de pecados zerado. Ciente de seus pecadilhos, o sambista do Salgueiro cismou que seria despachado para o inferno. Melhor seria se São Pedro não houvesse cochichado ao pé do seu ouvido, ainda que, por não ter tido som algum, não se escutara exatamente um cochicho, e, além do mais, alma não tem ouvido nem nada que se assemelhe ao corpo.
O sambista foi instalado em seu aposento, uma nuvem imensa, de onde ele conseguia ver a vida, a sua e a de quem quisesse, desde a infância até o derradeiro dia. Depois de matar a saudade de seus dias de criança no morro, riu do futuro do Brasil. Riu de nervoso. Pensou em fazer um samba, mas o som, no céu, não passava de uma sugestão e um samba insonoro não era samba. Será que Deus justificaria sua transferência para o inferno baseado na premissa de que a turma do samba não vive onde não há som? Cartola estaria no inferno? Clementina? Noel? Ou será que Deus, na ditadura do céu, desprezava os negros? Acostumado com o preconceito sofrido ao longo de seus setenta anos, preferia manter um pé atrás, mesmo estando no paraíso. Quis olhar-se no espelho — alma não tem cor? —, mas não havia espelho, havia somente a sombra projetada pelo sol sobre a nuvem, e, na terra ou no céu, do corpo ou da alma, toda sombra é negra. Melhor não se agarrar a teorias espúrias, impossíveis de testar e — melhor ainda, prudente até —, pedir uma força para Iemanjá, Iansã, Xangô. Quer dizer, Nossa Senhora da Conceição, Santa Bárbara, São João. Não era fácil livrar-se dos costumes terrenos, que Deus relevasse a heresia de um recém-chegado.
Visto do céu, o momento de sua morte foi apenas um olho franzido no rosto de um homem alto — um negão que fez sucesso com as mulheres, ah, isso sim —, nem uma expressão a mais. Mais um motivo para um samba. Mais um motivo para se lembrar de como seria duro viver eternamente sem batuques. Quem sabe o inferno? Esticou a alma no macio da nuvem. Já não sentia tanto medo ou, por outra, já não via sentido em ter tanto medo. Era uma alma sob controle.
“Deus te espera”, avisou-lhe o anjo, e, no mesmo instante, o sambista estava diante de Deus. “Guineto! Venha aqui, rapaz.” Almir rasgou o sorrisão de sempre e jogou-se nos braços naquele instante abertos, esperando por ele. “Uma das minhas alegrias, meu filho, foi quando ouvi, ecoando pela imensidão, a voz da Beth cantando ‘Coisinha do pai’. Nesse mundo silencioso aqui do céu, aquela música abrandou um pouco minha solidão.” O compositor não conseguiu segurar a emoção e chorou copiosamente, o que não o impediu de ficar intrigado: se não havia som por ali, como é que Deus ouviu a música? Almir, envergonhado, constatou o óbvio: Ele era Deus.
Deus confessou que o motivo daquele encontro era outro. Guineto suou frio. O Senhor tomou-lhe a mão e pediu-lhe que se acalmasse. Gostaria apenas de agradecer ao moleque do Salgueiro por ter cantado “Saco cheio”. Almir encarou-o com espanto e curiosidade. “Sim, estou cansado, muito cansado e é isso que se diz na música: ‘Deus já deve estar de saco cheio’. Ô, como estou!” O sambista ensaiou um movimento na direção do Pai, mas foi contido. “Não, querido, não se preocupe, é meu fardo”, e continuou: “Você bem tentou dizer aos homens, mas eles, mesmo tendo a faculdade de dialogar, são incapazes de alcançar a verdade. Você não vê? Olhe ali para o futuro: não demora muito, aquele energúmeno lá em Brasília dirá que fui eu quem o colocou num lugar no qual nunca deveria estar. Eu, meu Almir? Eu?” Deus suspirou, passou a mão sobre o corpo imaterial do sambista e aconselhou-o a passear pelo céu. “Logo você encontrará a sua turma: um tal Geraldo Pereira, outro tal Luiz Carlos da Vila, a forte Jovelina Pérola Negra, os seus, você sabe quem são, eu os chamo de as almas levadas do céu. Acredita que, mesmo não sendo possível produzir som nesse cantinho do infinito, continuam a se reunir em rodas de samba e a beber umas cachacinhas que — sabe-se lá outro Deus como — chegam a eles? Faço vista grossa. São os meus mais queridos inquilinos. Vá, vá, eles preparam uma festa para recebê-lo.”
2.7.17
25.6.17
Três leituras
Meu amigo Ricardo me deu “Águas-fortes cariocas” (Rocco), livro de Roberto Arlt, escritor argentino, contemporâneo de Borges, o cego. Águas-fortes era o nome da coluna que o escritor mantinha em um jornal de seu país, na qual escrevia o que se pode chamar de crônicas. Pois bem, em 1930, Arlt veio ao Rio de Janeiro, ficou por aqui uns dois ou três meses, e escreveu bastante sobre sua estadia — a Rocco, muitos anos depois, organizou o livro. Sua visão da cidade é, na perspectiva de hoje, no mínimo chocante. Primeiro, associa o carioca a um povo que não se dedica à alegria, trabalhador obstinado, que dorme cedo — várias vezes, o portenho despeja sua ira contra a cidade que, ao contrário de Buenos Aires, não tem vida depois das vinte e três horas. Mais: se surpreende com o grau de honestidade de nossa gente, incapaz de furtar o leite e o pão que, logo de manhã, são deixados à porta das casas. Nessa linha, sente falta dos malandros de sua terra, gente que lhe era próxima e que estava preocupada em achar formas seguras de assaltar uma casa. No entanto, seu maior espanto se dá quando descobre que muitos daqueles negros com quem eventualmente mantinha contato eram escravos havia menos de cinquenta anos. Escravos trabalhadores e operários incultos – novamente um contraponto com a Argentina, que, bem ou mal, tinha sindicatos e clubes que estimulavam a leitura — faziam do Brasil, na sua opinião, um país submisso. Perdemos nossa honestidade — aquela para argentino ver — nalgum momento, porém, e é aí que o olhar estrangeiro nos ajuda, temos sido um povo manso, excessivamente manso.
Sou velho, constato ao ler Eduardo Sabino, escritor mineiro de uma geração recente, que, se não vive, pelo menos é de Nova Lima. No seu livro de estreia, “Naufrágio entre amigos” (Patuá), ele faz uma espécie de coleção de contos de formação, expurgando a juventude. Minha tenra idade foi tão diferente daquela que escorre pelo livro, apesar de também ter tomado meus porres, ter enfrentado contratempos na escola. A diferença aparece no nome das bandas que os personagens ouvem, na forma como lidam com a internet e, principalmente, com a cultura dos jogos eletrônicos. Por conta dos jogos, aliás, boiei ao ler “Jogo de três”. De todo jeito, há contos menos datados, digamos assim, e um deles se tornou o meu preferido, “Strawberry fields forever”. A história se passa no dia em que morre a avó do narrador, cujo pai é o prefeito da cidade. Eduardo mostra, de um lado, o comportamento estudado e comedido do homem público, em torno do qual desconhecidos se debruçam com uma falsa solidariedade, e, de outro, já longe do teatro, em um ambiente íntimo ainda que inusitado, o seu desmoronamento.
Sou frequentador da livraria Travessa de Botafogo e tenho dois queridos lá: o Bruno e o Leonardo. Ambos são ótimos livreiros, mas, além disso e razão pela qual são tão bons no que fazem, estudam e escrevem. Pois bem, dia desses encontrei-me com eles e, durante o papo, me indicaram a Stela do Patrocínio (“Reino dos bichos e dos animais é o meu nome”, Azougue). Stela foi, assim como Bispo do Rosário, interna da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Se não entendi errado, alguma pesquisadora viu que a fala de Stela era poética e a gravou; Viviane Mosé, em contato com a gravação, transformou a fala em poema escrito. Não vou andar na corda bamba na qual Ivan Cavalcanti Proença se meteu ao dizer que Carolina Maria de Jesus — a escritora pobre e favelada autora do clássico “Quarto de despejo” — não fazia exatamente literatura, nem vou sair em defesa de ninguém, como o fez muito bem, neste caso, a Elisa Lucinda; simplesmente agradecerei a meus amigos livreiros e literatos terem me apresentado à Stela. Ela é capaz de dizer uma coisa assim: “Não deu tempo / Eu estava tomando claridade e luz / Quando a luz apagou / A claridade apagou / Tudo ficou nas trevas / Na madrugada mundial / Sem luz”. Pode ser apenas uma frase proferida por um doido, mas que frase, Deus da Poesia! Salve, Nise da Silveira, a psiquiatra que esteve na gênese de artistas tão fortes como a Stela e o Bispo.
18.6.17
12.6.17
Essas palavras...
... um tanto quanto clichês
Naqueles dias eu matava grito a perros e dormia de olhos deitados e corpo fechado. Sopesava cá com meus bordões jobinianos: o brasileiro não é para princípios claudicantes. Tentado a me distrair, assoviava tocatas e afastava-me da filosofia esbeiçando o pensamento em frase desfeita, por exemplo, uma que assim: não amo tudo que tenho, por sorte não tenho nada. Ai, ai, a caixinha é um futebol de surpresas.
Diabo velho, íntimo da cruz, fazia fé de que o trabalho havia sido criado pelo desleixo de Deus e que a vaca profana nascera com o brejo pra lua, certezas essas que me transformaram num descrente prontinho, prontinho para, não podendo mais, mandar tudo às favas e às fulvas paridas pela cor mais quente.
Voltando àquela sequência de exceções regradas - os fatos, nada mais que eles -, os tropeços dos comandantes foram tantos, mas tantos, que a lamparina do espírito desinstruiu-se de vez e aspergiu escuridão para tudo quanto é lado, a ponto de uma só andorinha obrar e voar pro verão.
... irônicas
— Moço, onde encontro explicação para a escravidão que não acaba, a corrupção que só faz crescer, a violência arraigada na gente?
— Lá no Grito do Ipiranga!
... marítimas
Nem todo vento venta como deve ventar. Quem inventa inverna; quem inverna inveja. O resto é naufrágio.
... de morte e de vida
Morri três
vezes: de pinote, amor e preguiça. Sempre voltei de costas pelo Aqueronte e de peito
pelo Estige e, num caso e no outro, cruzei o caminho de Caronte, a quem duas
moedas e um silêncio eu devia e ainda devo, e por ele nunca fui visto. A sorte
nadou comigo, por isso nasci três vezes, mas aí já não me lembro como.
4.6.17
29.5.17
O som dos destroços
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| Totora, Bolívia. Foto do autor. |
Escrevo esta crônica a partir da perda de uma foto, aquela 3 x 4 que o tio Raul me deu. Tinha uma dedicatória: “A mi querido sobrino Alexandre, un abrazo fuerte y apretado de su tío Raulito”. As palavras, se não eram essas, soavam mais ou menos assim e foram escritas em espanhol — nesse espanhol castiço, que não é meu, esclareço, é de meu irmão Gonzalo, a quem pedi socorro enviando-lhe um arremedo da frase em português, na hora transformada por ele nesta tão boliviana.
Tio Raul era, em meados da década de 1980, a única pessoa em Totora, pequeno município boliviano, na região de Cochabamba, que tinha, graças a uma geladeira a gás, cerveja gelada. Depois de um dia inteiro bebendo ora chicha, ora cerveja quente, papai se lembrou do tio Raul. Papai? Na Bolívia? Vejo-me obrigado a recuar um pouco, a soldo da clareza e em seu benefício, leitor.
Eu e Carlos, um amigo chileno, fomos à Bolívia com o propósito de passear por algumas cidades até chegar a La Paz, onde encontraríamos o Gonzy e de lá seguiríamos para o lago Titicaca, na divisa entre a Bolívia e o Peru. Não vem ao caso, a este caso confuso, mas a parte de chegar ao Peru não se concretizou. Tomávamos, a cada noite em La Paz, um porre e, na manhã seguinte, não tínhamos saúde para a viagem. Foram quinze dias de farras alcóolicas memoráveis.
Mal chegados à Bolívia, ainda na estação, encontramos um amigo boliviano que estava com outro boliviano, desconhecido e mais velho que a gente. O “coroa” nos contou que saíra do país havia uns vinte anos, e, desde então, nunca voltara. Ele iria visitar a família. Onde? Em Totora, claro. Ainda na plataforma, eu e Carlos aceitamos o convite para o réveillon da volta do filho pródigo à Bolívia.
Na cidade, aquele que sumira no mundo e cujo nome me escapa, ao nos apresentar ao irmão, na casa de quem ficaríamos hospedados, disse que eu e Carlos éramos seus filhos. (Entenderam por que falei em pai?) Que ator! Que ficcionista! Como eu não falava nada de espanhol, e o Carlos era chileno, papai inventou que Carlos namorava uma chilena, “maldita chilena”, reforçou, mostrando indignação com o fato de um boliviano se envolver com aquela gente que roubara o mar de seu país. Por esse namoro, Carlos falava com desenvoltura e sotaque do inimigo, enquanto eu, o caçula e seu xodó, um brasileirinho típico, não fazia esforço algum para aprender a língua paterna.
A empatia entre mim e tio Raul, tão logo tomei-lhe a bênção, foi tão grande que o velho comerciante, ao contrário do que esperávamos, não cobrou pelas cervejas. E ainda me deu a foto autografada — a foto que perdi. O que é roubar o mar diante de uma encenação como aquela? Maldito fui eu.
O povo de Totora, tio Raul em especial, gabava-se de a cidade ter sido rica, prova disso era que, no início do século XX, havia, espalhados por suas casas, onze pianos. O instrumento figurava como o símbolo de uma ostentação, de uma ostentação sepultada no tempo. O vilarejo (não passava disso) não tinha mais nem os pianos nem nada que lembrasse a antiga riqueza.
Lembrei-me de Totora e consequentemente de tio Raul e da foto enquanto via, desatento, um documentário sobre a Síria. Nele, ao visitar Aleppo, o repórter entra em uma das poucas casas que ainda mantinham a estrutura intacta. Pensei ver, entre os móveis, um piano. Um piano na guerra. O piano entre os destroços. O piano.
Polanski dirigiu “O pianista”, baseado numa história real passada na Polônia tomada pela Alemanha. Quando os russos, já no fim da guerra, começam a expulsar os alemães, o músico judeu, depois de se esconder faminto num edifício em ruínas, é encontrado por um oficial nazista que lhe pergunta qual a sua profissão. Pianista, ele responde. O militar — homem entediado, no qual uma dose de humanismo sobreviveu ou foi revivida naquele momento em que, talvez esperançoso, se vê voltando ao convívio de sua família, em período de paz — pede ao judeu que toque no piano empoeirado que resistiu à guerra. Władysław Szpilman toca a “Balada No. 1 em G Menor, Op. 23”, de Chopin. A música o salva.
Não tenho ideia de como Totora estará hoje, deduzo que tio Raul não está mais entre nós — como não está a foto, que, enganado, me deu como prova de amor. Além disso, arrisco dizer que onde houver um piano, haverá a possibilidade de revitalização. Foi assim em Varsóvia, espero que seja assim em Aleppo. A decadência de Totora foi medida em pianos perdidos.
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| Totora, Bolívia. Foto do autor. |
15.5.17
Treze quilômetros e o que veio depois
Naquele dia, como é meu costume, saí para caminhar. Um aplicativo disse que, ao voltar para casa, eu havia andado justos treze quilômetros, não tenho como negar, mas meu cansaço indicava menos.
Quando me meti, lá pela metade do trajeto, na pista Cláudio Coutinho, além de, logo na entrada, encontrar uma senhora que fazia gestos de acolhimento aos muitos que passavam, vi um sujeito, que se parecia com um amigo meu, amarrar ao redor de uma árvore pequena, de troncos finos, talvez para sustentá-la, uma ráfia ou coisa parecida. Meu amigo seria capaz de cuidar de uma árvore daquele jeito, é condizente com sua personalidade, mas não era ele, conferi mil vezes. Horas mais tarde, ao sair da sessão de cinema, quem eu encontro? Ney, esse amigo. Comento o fato, ele faz questão de dizer que não esteve pela Urca, mas concorda comigo, poderia ter cuidado de uma árvore de rua, tarefa que lhe daria prazer.
Ao longo da caminhada, portanto antes do cinema e do encontro, umas frases foram surgindo na minha cabeça, o que não é raro. Uma delas se fixou de vez e acabou sendo o início do texto que publiquei há quinze dias. Foi sob o sol de outono, entre Botafogo e Urca — ouvindo primeiro a Alice Passos (no emocionante disco no qual ela canta acompanhada exclusivamente por violonistas como Dori Caymmi e Guinga, que se alternam entre as faixas) e, depois, no piano do André Mehmari ou na coisa louca que é o Uakti, os Beatles —, que “ponhá o vestido novo, cosido enquanto cozinhava a vida em pano-maria” surgiu sabe-se lá de que grotão alexandrino. Depois de duas horas e meia, cheguei a minha casa, tomei banho, almocei um senhor risoto feito pela Beleleca e corri para o computador. Se eu disser que em meia hora a tal crônica, cuja primeira frase havia brotado na caminhada, estava pronta, não estarei mentindo. Estarei sim, pois durante vários dias fiquei trocando umas palavrinhas aqui, a posição de uma frase ali, mas o grosso saíra no jato sujo da primeira meia-hora.
É comum o escritor ficar feliz com o que escreveu, mas sou macaco velho, guardo comigo esses momentos, pois sei que são traiçoeiros. No entanto, naquele dia, esnobando a cautela, corri ao Facebook e postei que acabara de escrever um texto fofo, meigo. A linguagem que usei dá esse tom, mas o fato é que, até a publicação, fui vendo como “Passeio na praça” — título da crônica — era triste. Não me parece ensolarada, poderia ter vingado em terra fria, em dias cinza.
No momento do encontro com o Ney, acabara de assistir a “Paterson”, de Jim Jarmusch, peça de beleza mignon, típica do cineasta americano. O filme conta uma semana da vida de um motorista de ônibus que também é poeta, mas não é só isso; aliás, o fato de um motorista de ônibus ser poeta não é tratado como uma excentricidade, é coisa dada. O poeta é um escritor em estado puro, nem um pouco preocupado em chegar ao leitor, pois, ao que parece, nem mesmo a mulher conhece bem seus poemas. Mas, como eu dizia, isso não é tudo, porque o personagem, um motorista chamado Paterson, numa cidade morna chamada Paterson, é casado com Laura, uma mulher... como descrevê-la? Bela, sim, bem bonita, mas o que chama a atenção é a sua personalidade. Ainda que não se diga isso — porque de fato ninguém, muito menos ela, a reconhece como tal —, Laura, mais que Paterson, é uma artista bruta, irrequieta, sem foco. No filme, o dono de um boteco frequentado pelo motorista-poeta chama de Romeu e Julieta um casal que está sempre por ali e sempre em conflito, mas talvez Paterson e Laura coubessem melhor nas personagens, caso toda aquela tragédia shakespeariana não houvesse ocorrido, e o casal tivesse tido a chance de ser feliz pela eternidade afora.
De dentro de um carro alguém acenou para mim, enquanto eu fazia o trajeto entre o cinema e minha casa, distância pequena que percorro a pé. Quando pude, corri novamente ao Face e, mais uma vez, de chofre, fiz um post na esperança de encontrar o dono ou a dona do adeus. Um monte de gente curtiu, alguns lamentaram não ter passado pela rua naquela hora, outros afirmaram, sem me convencer, que eram eles e houve quem, de galhofa, me perguntasse se eu estava na Bahia ou em Minas. Só mais tarde caí em mim e me perguntei: mas quem garante que era um aceno ou, caso fosse, que era pra mim?
1.5.17
Passeio na praça
Ponhá o vestido novo, cosido enquanto cozinhava a vida em pano-maria. Botá o batom no tom, o esmalte mate, sem esquecê o colar e os brincos, tudo numa harmonia só, dessas de dá dó das dondocas bem-nascidas, mas sem encanto. Suspirá do jeito de uma avó avoada com a cabeça no vai de uma valsa que não foi. Enfiá os pés na rua, como se fosse montá numa quimera, e montá de fato e em pelo.
Passá pelo adolescente e dá de ombro, se perdê com menino, nem na imaginação. Endireitá o corpo na frente do bar dos mal-afamados e ignorá o “vem cá, teteia”, não é disso, dessas, ora! E chegá na praça, sentá no banco, afugentá uns monstros que coisam nela mané de hoje, é dum ontem sem tamanho que emendou todo o antes ao agora. Sentada no banco, protegida pela árvore que viu tudo aqui ganhá existência, te pego. E dô jeito. E desembaraço. Rumina a vingança, já empurrando o corpo pra rua.
Dona Lurdinha, dona Mercê, menina Júlia, elas todas banando a mãozinha de longe. Bana de volta, mulheres que nem ela, hospedeiras de suas desconjunturas, mais que desconfia, pode apostá. Proseá a respeito é que não. O silêncio sabe usufruí da própria sabedoria, então ela se arma é de psiu.
No caminho, afunda na esperança, essa rameira que se desmete com a morte. E da calçada sobe um bafo de otimismo, agora vai, ah, se vai. Batuca os dedos na coxa, espia o anel vermelho e, por ele, manda uma mensagem pra mãe: Num se espante.
Gosta da praça daquele jeito: vazia, vazia, vazia. Vazia, vazia, vazia ela também é. Olha de novo a praça e se pergunta onde é mesmo que aquela árvore não cansa de sombreá. É pra lá que vai caminhá com toda firmeza, a ponto de o vento se escondê do tempo, o calor tropeçá no céu, a cigarra chichiá pra dentro e a tarde nem pensá em anoitecê.
16.4.17
A dor no jornal
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| Escultura de Sandra Guinle. |
Defendo minha afirmação mesmo que os tiros não tivessem saído das armas dos policiais (embora contra eles pesasse, desde o início, o fato de, numa imagem reproduzida à exaustão, terem atirado em dois homens caídos, naquele momento, indefesos). Eles trocaram tiro com traficantes no entorno de uma escola. Errado. Porta de escola não é lugar para isso, o Estado, pela vida das crianças, tem de saber se retirar, ser covarde, fugir da briga. Não é com policial valente, incapaz de suportar provocação, que serão resolvidos os problemas relacionados à violência urbana.
Maria Eduarda está morta. João Pedro, o garoto que foi arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro, em 2008, está morto. Aqueles rapazes que estavam num carro alvejado por cento e onze tiros estão mortos. E há outro monte de meninos e meninas cujas vidas foram interrompidas porque se decretou que a questão das drogas se resolve assim, no tiro. Não é um detalhe menor, ao contrário, é fundamental o fato de a maioria dos mortos ser negra. Crianças negras: destino das balas (elas, sim, sempre) perversas e certeiras.
(Como os políticos angariam votos nas áreas ocupadas por traficantes e/ou milicianos? Como as armas chegam ao exército do tráfico ou ao escritório limpo dos milicianos? Se a gente pergunta essas coisas, fica no vácuo, fica a ver navios, até espaçonaves, e a mascar o fel que toma a boca do intrometido.)
Maria Eduarda
está morta. Eduardo, menino de dez anos que brincava à porta de sua casa no
Complexo do Alemão, está, desde 2015, morto. O Estado, quando muito, banca um
enterro digno às vítimas, mesmo se não reconhece ter sido o agente da morte. Os
pais dessas crianças, quase todos agarrados à pobreza, maltratados pelo
preconceito racial, vão viver ainda em piores condições do que viveram até o
trágico dia no qual seus filhos morreram. Leio no jornal que um advogado
conseguiu que o Estado pague o tratamento psicológico ou psiquiátrico de um ou
outro, e isso já é uma vitória e tanto, pois o Estado, de mãos lavadas, só se
preocupa em limpar as armas para matar mais. Mesmo quando não mata, o Estado
mata, pois sua política em relação às drogas é a guerra. A guerra às drogas foi
uma decisão datada, mas nós, brasileiros, não temos nos debruçado sobre essa
questão e revisto nossa estratégia. Se, no início, não foi um erro — o mundo,
em particular os Estados Unidos, agia assim, parecia razoável —, agora que
sabemos tanto sobre as drogas, agora que o balanço desses anos todos é um
número de mortos impensável, agora é.
O governo municipal, responsável pelas escolas, planeja blindá-las, querendo com isso desbloquear o território para as balas, ainda que, como discurso ou até mesmo como boa intenção (de novo), se diga que o intuito é preservar a vida dos alunos. Será que o Estado vai construir túneis blindados para garantir o ir e vir dos alunos? Pensa-se mal, às vezes com açodamento, noutras com desfaçatez e noutras com pressa e sem vergonha na cara.
Hosana Sessassim, 13 anos, está morta. Sim, já é outra, morta dias depois de Maria Eduarda, enquanto andava pelas ruas de seu bairro, Acari. Pelo que se sabe, a polícia não estava por perto, mas Hosana é outra vítima da mesma guerra.
2.4.17
Instituto Estação das Letras: espaço de resistência
No último dia 23, a Estação das Letras (1), espaço esplendoroso que Suzana Vargas e um time pequeno e aguerrido mantêm no Rio de Janeiro, completou 21 anos. Com a maioridade, veio a transformação. A Estação virou um instituto. É uma mudança jurídica, mas também um desafio, haja vista que agora, além das oficinas —entre outras atividades —, a Estação terá flexibilidade para lançar projetos que usufruam das leis de incentivo fiscal e poderá, também, contar com contribuições diretas de pessoas físicas e jurídicas e, com isso, oferecer bolsas de estudos aos que não têm condições financeiras. Enfim, a turma que gravita em torno da Estação está cheia de planos para tocar adiante essa casa de resistência. No dia da festa, um dos colaboradores mais antigos, o Jair Ferreira dos Santos, no discurso feito em nome do corpo docente, chamou a atenção para o fato de que, no mundo atual, encantado pelo virtual e pelo visual, promover a escrita e a leitura, o que a Estação faz, é uma ação política e de resistência. Assino embaixo.
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| Suzana Vargas e o bolo dos 21 anos da Estação das Letras. Foto do Instituto Estação das Letras. |
Numa tarde comovente, na qual encontrei, por exemplo, Flávio Moreira da Costa e Maria Amélia Mello, pessoas importantes na minha aventura literária, Suzana quebrou todos os poucos protocolos planejados e, nas mãos da mais justificada emoção, comandou a festa, que terminou com bolo e espumante. A comemoração teve início com a fala do Cristóvão Tezza, escritor que se mostrou um palestrante seguro, desses que levam seu papo erudito na maior simplicidade. Ele comentou, lá pelas tantas, que não se lembrava de ter falado para um auditório tão lotado quanto aquele. De fato, o público era grande, logo não somos tão poucos os que estamos prontos para resistir — e, de fato, já resistimos.
O instituto está promovendo o cadastramento de escritores residentes no Brasil, podendo, assim, tornar-se referência na organização de um encontro de escritores com leitores, de uma festa literária, enfim, de eventos dessa natureza. Ideia mais que bem-vinda, um jeito de aumentar o leque dos convidados, pois, se é muito bom ouvir um Veríssimo, um Ruffato, presenças quase certas em tudo que gira em torno da literatura, lá no interior de Minas, está um cara, meu chapa, que todos deveriam ouvir (e ler), o Marco Túlio Costa, um prêmio Jabuti que ainda não vi na Flip ou noutras festas. Também lá no interior de Minas, está outro escritor — que conheço exclusivamente por ter lido seu espetacular “as visitas que hoje estamos” (Editora Iluminuras) —, o Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, que eu gostaria muito de ver transitando por aí. Esse cadastro poderá tornar visível, onde alcance a internet, gente assim. Já está no ar (http://www.institutoestacaodasletras.org). Cadastrem-se!
Interessados em fazer leitura voluntária encontram um espaço no instituto, já que se pretende levar esses leitores a hospitais, casas de repouso e outras instituições nas quais muitas pessoas, por uma série de motivos, não têm autonomia para a leitura. Para terminar, cito a “curadoria” que o instituto fará, selecionando mensalmente em seu site livros recém-lançados, de vários gêneros e com destaque para novos autores. Isso, ao final do ano, levará a que determinados livros recebam um selo IEL.
Finda a comemoração, tomado o vinho e comido o bolo, eu e alguns amigos, inclusive o agora importante consultor de gestão do instituto, nos enfiamos num bar e fomos rir da vida, de nós mesmos, essas coisas que não são monopólio de escritores e leitores, mas que sabemos fazer com capricho.
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1) O endereço do Instituto Estação das Letras é:
Estação das Letras Rua Marquês de Abrantes, 177 LJs 107 e 108 – Flamengo
Rio de Janeiro – RJ, 22230-060
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1) O endereço do Instituto Estação das Letras é:
Estação das Letras Rua Marquês de Abrantes, 177 LJs 107 e 108 – Flamengo
(0xx)21 3237-3947
29.3.17
Tangos de cera
Este poema foi apresentado em uma oficina ministrada por João Gilberto Noll, e ele gostou. Então, mesmo que eu mantenha sérias dúvidas sobre ele, o poema, publico-o como uma homenagem ao Noll, que hoje, dia 28 de março de 2017, faleceu aos 70 anos.
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