23.10.21

O velhinho

Enquanto a pandemia desnudava a incompetência bolsonariana, Paula Lavigne fazia vídeos caseiros de Caetano Veloso. Ele aparecia de pijama, sapato com sola de corda, retratado, aos meus olhos, como um velhinho. Em um dos vídeos o artista discorda de Celso Cunha, de quem lê um livro da década de 1980, que vaticinava o fim do sotaque caipira. Caetano argumenta que o tal “R retroflexo” está aí, firme e forte, como demostram falantes do Centro-Oeste, do Paraná (Moro, o “ex-tudo”), Tabata Amaral, Mano Brown e cantores sertanejos. Tendo encontrado o mesmo “R” no espanhol falado no Paraguai, Caetano o liga à influência do Tupi-Guarani. Pijamas, pantufas, resistência ao exercício físico, gula de paçoca, alguma rabugice, às vezes dificuldade de entender determinada coisa: um velho, mas um velho que, curioso e atento, estuda. Naqueles vídeos, havia um atrito (velado) entre o marido e a mulher, além da pressão para que ele fizesse uma live (ele e os filhos fariam uma linda).


Imagens extraídas do Instagram de Caetano Veloso



A mesma exposição da velhice encontrei em pequenos vídeos que Augusto Nascimento, filho de Milton, fez do pai. Ora, os autores de “Paula e Bebeto” são velhos e, no frio, têm, como Milton faz, de se agasalhar com exagero e, em casa, devem abusar do pijama. De todo modo, por ter crescido encantado com a potência desses caras — e de Chico, Gil e Paulinho da Viola, a plêiade de nossos gênios musicais —, é difícil lidar com seu declínio.

A pandemia fez um ano, fez um ano e meio e caminha para o segundo. Somamos 600 mil mortos e uma leva de outros desastres. Mas eis que, livre do pijama e da câmera invasiva de Paula, Caetano lançou uma nova música, a primeira de um álbum (“Meu coco”) que viria a público um pouco depois. Não é uma música qualquer, é uma baita música. “Anjos tronchos” (Drummond espia e ouve) dialoga com o que é o grande bem e o grande mal do nosso tempo, a internet, isso que nos aproximaria e miseravelmente tem nos distanciado, que foi criado para nos libertar e tem nos aprisionado, que foi concebido como plural, descentralizado, e tem se aglutinado em monopólios; isso que se tem reduzido a um grande mercado. Caetano compõe com faro e fúria de jovem. Não por acaso, ele, que na música diz: “Agora a minha história é um denso algoritmo / Que vende venda a vendedores reais”, afirma em entrevista: “Meu desejo é confundir os algoritmos”. Ah, moleque! A velhice em Caetano é um detalhe besta, talvez lhe pese, pois a velhice pesa, mas não lhe subtrai a fome de compreender e embelezar o mundo e a capacidade de nos surpreender.

7.10.21

Cheio de vontade

 Vontade de gritar da janela: “Corre, Maria, seu amor está logo ali na esquina.” Vontade de andar na rua rindo da rinha de calos nos pés daquela gente metida em sapatos feios, desconfortáveis e caros. Vontade de dançar com a Zilma. Vontade de mandar meus boletos a quem continua aplaudindo o dito-cujo. Vontade de extrair a raiz oval do infinito. Vontade de comer o sanduíche do Bolinha. Vontade de cantar durante o curto silêncio do tagarela. Vontade de virar do avesso o vinil do Vinícius. Vontade de ir a Marte procurar o Furioso, meu cavalinho do Forte Apache. Vontade de apagar a luz da escuridão. Vontade de abraçar a Sá Inês. Vontade de contar até três, começando de um milhão. Vontade de encontrar meu pai resmungando daquele seu jeito irônico, mas não tanto: “Ah, gente, deixa um pouquinho de mim pra mim”. Vontade de devolver a patativa engaiolada ao ovo. Vontade de dizer à Capetinha que, sim, ela pode ficar com a camiseta que ficou com ela. Vontade de tomar um chope com Deus. Vontade de papar, na biloca, as biloscas de meus patos. Vontade de acordar no meio da noite com minha avó dizendo que tudo isso, ó, não é nada. Vontade de ver os olhinhos da Viveca sumirem quando ela ri da vida. Vontade de voltar a ser um leão manco; manso, não. Vontade de cobrar o Romeu e Julieta que a Mônica não pagou. Vontade de ensinar ao menininho bonito do Afeganistão a tocar cuíca. Vontade de confessar ao Reinaldo, meu professor de Educação Artística e de Inglês, que ele foi importante pacas. Vontade de roubar ambrosia da despensa de Zeus. Vontade de ter esperança. Vontade de despertar no Brasil, almoçar em Moçambique e dormir de conchinha com a Nastassja Kinski lá na Cochinchina. Vontade de sugerir à Célia refogar o mexidinho com cebola, eu agora gosto. Vontade de montar o cavalo que Calígula nomeou cônsul da Bitínia. Vontade de declarar meu amor a quem está passando bem agora na rua detrás da rodoviária de Caiapônia. Vontade de levar a estátua do Drummond para tricotar com a da Clarice. Vontade de pedir à dona Neisa permissão para ir à instalação sanitária. Vontade de ser um personagem de Dostoiévski, mesmo que tenha de matar uma velhinha ou disputar a amante com o pai. Vontade de falar ao coração para não se assustar, bater tranquilo, é só a Elaine que desce o Beco dos Aflitos. Vontade de chutar a lua lá onde dorme a coruja na galáxia de Andrômeda. Vontade de ouvir o pito do Zé Porteiro. Vontade de, em vez de subir, descer pela mangueira até o ponto em que sua raiz banqueteia no inferno. Vontade de não perdoar. Vontade de proteger a Maria Tomate. Vontade de, esquecendo as outras vontades, ganhar um sorriso de meus filhos quando eram bebês.





___________________________

(1) Para os que receberam meu e-mail com o link da crônica, peço vênias pelo erro de português que seguiu na mensagem. Quando o percebi, tratei de corrigi-lo, logo alguns já receberam a nota sem o escorregão. 




27.9.21

Saindo do armário

Estava teclando — já não se tecla mais — com o amigo e escritor Fernando Andrade, e ele me disse que quer comprar o CD da Mônica Salmaso com músicas do Guinga, seu vizinho de rua. Lembrei-me então de, no início dos anos de 1990, ter feito contato com o ainda dentista, mas já parceiro de Aldir Blanc. Não sei como foi nem por que foi, o fato é que liguei para o seu consultório e conversamos um pouco. Ele, simpático à beça, me ofereceu convite para o show que faria no Jazzmania, casa famosa no Arpoador e hoje fechada. Depois do espetáculo, dei-lhe um exemplar de “A palavra em construção”, primeiro livro do Estilingues.

Como uma memória puxa outra, me vi em outro show do Guinga, dessa vez com Hermeto Pascoal. Imagine o que pode ter sido isso, pois então, foi assim e mais. Novamente, fui conversar com o músico que, se não estou enganado, havia invertido as coisas e passara a dentista nas horas vagas. Ele me perguntou se eu percebera o Hermeto tentando “derrubá-lo” a todo instante. Não gozo de tamanha sensibilidade musical. De todo jeito, o violonista não reclamava, ao contrário, queria mostrar como estava estimulado pelo “duelo”. Para a glória de quem os assistia, os dois “bruxos” se divertiam.

O palco daquela vez era o do Instituto dos Arquitetos do Brasil do Rio de Janeiro (IAB-RJ), uma construção antiga e linda perto do Largo do Machado. Ao pensar no IAB, recordo de um aniversário da Soninha (20 de setembro) comemorado ali quando uma de suas amigas cuidava do restaurante e sou visitado por um colega da primeira oficina literária que frequentei, a Afrânio Coutinho. André Solti era ou fora presidente do IAB-RJ, não sei bem. O que sei é que num conto dele tive contato com a palavra “tremelicar” — as peças de salame tremelicavam num armazém gaúcho, coisa assim. Ou seja, fui apresentado à palavra já em estado poético. Arquiteto reconhecido e escritor promissor, André deixou a vida ainda mais novo que a Soninha.

Espremo o sumo dessas memórias e concluo que, sim, o país já deu sinais de que trilharia caminhos distintos dos atuais. Mas não devemos ficar cabisbaixos, Guinga ainda está aí, e Salmaso lança um disco com suas músicas. Bem faz o Fernando em estar ansioso por comprá-lo, pois, com certeza, nas composições de Guinga, na voz de Mônica, o Brasil luminoso bota os pés fora do armário.

13.9.21

A semana passada

 Os dias depois daquilo foram longos. Como se as horas se esquecessem de passar (Wish you were here, Sônia Peçanha).


Eu sei que o Brasil está de cabeça para baixo. A última semana foi terrível, ou mais terrível que as anteriores, que já haviam sido terríveis. Somar terribilidade a terribilidade faz parte de uma matemática menos acessível, aquela na qual a concretude da aritmética básica é trocada pela abstração. Faço essa comparação e me arrependo. A matemática é linda, quase sagrada, mesmo que não a entendamos em toda a sua complexidade. Acho que foi Galileu quem definiu a matemática como o alfabeto usado por Deus para escrever o Universo.

Seja como for, hoje deixo de lado o Brasil de cabeça para baixo, dou de ombro para o desastre coletivo e falo de uma perda particular, a da Sônia Peçanha. Na semana terrivelmente terrível do Brasil, fez um ano da morte da escritora, da amiga. No último dia 8, acordei e havia no zap uma mensagem da Marilena Moraes, outra escritora do nosso grupo — o Estilingues —, com um link para a música do Pink Floyd, Wish you were here, numa gravação de Dime Nineteen. Com esse título, Soninha escreveu um conto — está em seu último livro, “Relógio d’água” (Editora Patuá) — que é prova irrefutável de seu talento. Não fosse a literatura tão maltratada no Brasil, e viesse à luz não só o que as grandes editoras alardeiam, ela seria lida por muita gente, estudada de norte a sul; enfim, reconhecida. Mas não é assim. Azar de quem não a lê, sorte a minha de ter acompanhado sua trajetória desde o início, de ter lido seus textos ainda em estado embrionário. Azar o meu de ter perdido uma amiga desse porte, grande artista, grande ser humano.

Sim, Soninha era uma mulher gigante. Nunca, em mais de trinta anos de amizade, a presenciei em atitude vaidosa, arrogante ou coisa que o valha. Ao contrário, a vi alinhada a lutas por justiça social e se desdobrando para ajudar crianças pobres. Vi ainda, inúmeras vezes, aquela mulher calada abrir a boca para uma pequena ironia, para dividir seu sorriso com os mais chegados, também para falar com toda a segurança e paixão sobre literatura.

Semana passada, o Brasil ficou muito pior do que estava, mas nem todos sabem que a falta da Soninha o piora ainda mais.

Para terminar, deixo um poema dedicado a ela.

Sônia

Espichar pela ponta da tristeza

espichar até que, solto,

o fio permita confeccionar

o agasalho com que me protegerei

de tua ausência - de tua presença

em outra dimensão,

como é o teu modo de entender o fim.

 

Tricotar esse fio e, aos poucos,

ver a lã de cor aguda

mesclar-se à plácida

como duas vozes

em canto

em oração

em luta

como a tua voz

leve e presente

irônica e assertiva

sábia e humilde.

 

Tricotar os fios de tua cabeleira

num colete de gola em V de vigor

numa saia justa de poesia

numa lembrança de teu

sorriso, de teu olhar pronto

a reinventar o mundo, para o qual reservas

água, ar, intensidade

azeite, pão e o gesto

solidário carregado pelas mãos

: as tuas.

 

Tricotar o frio no fio

a presença na ausência

a alegria na tristeza

a saudade na comunhão

a espera na fúria

tricotar, com cuidado,

teu estilo no meu

teu brilho no da Cristina

teu segredo no da Marilena

teu amor no da Miriam

teu silêncio no da Nilma

teu aprendizado no da Vânia.

 

Ver a luz

— atirada do Estilingues

(tua e nossa palavra de vida) —

acertar o pássaro amoroso

que, em pios de conforto, assume

a tarefa de cuidar de ti

 

: aceitar teu voo. 

28.8.21

7 de setembro de 2021

Esta é a última crônica que escrevo antes do 7 de setembro, data da independência do país, mas que pode, neste nefasto 2021, se transformar no dia do golpe ou no dia do “diga ao povo que, quando for para ir, eu não vou”. Parece e é uma comédia, mas o preço do riso tem sido elevado. Salta aos olhos o fato de a atual gerência (chamo-a assim porque governo não é) ter levado o país da pobreza à miséria, um feito que exige um planejamento arrojado, um senhor desplanejamento.

Golpe é um prato de preparo lento, como a maniçoba, feita da folha da mandioca, a maniva, e que requer sete dias de cozimento para eliminar o veneno, nada mais, nada menos que o cianeto. No caso de um golpe, a demora serve para salpicar e apurar o veneno, e, no de agora, ele tem sido tão lento que o veneno fede à distância e leva ao delírio os inimigos da democracia.

No golpe sanguinário de 1964, parte da sociedade civil o apoiou. É a mesma gente que vê com bons olhos o discurso atual, moralista, religioso e ufanista, ou seja, é a turma que não aprende e, numa primeira dificuldade da democracia, chuta para o lado a liberdade e clama pela ditadura. Em 2021, apesar de um movimento aqui ou ali, os incentivadores da escuridão continuam se valendo do ambiente virtual e da mentira como tática. Bem, também cometem arroubos mais sérios, o que, pelo menos neste agosto, tem sido contestado pela justiça. Um dos mais comentados foi a busca nas propriedades do cantor sertanejo que andou ameaçando invadir o STF. Enfim, o país dividido entre a civilidade e a não civilidade está no ringue. Num ringue, aliás, no qual todos devemos entrar, pois não é uma luta a ser assistida. Somos pugilistas.

Não é preciso dizer que estou do lado da democracia, da liberdade (nada a ver com o cada-um-faz-o-que-quer) e do debate em um ambiente de diversidade política. Do lado em que combato, é habitual o conflito, que nada mais é do que o meio mais rico de as ideias encontrarem soluções para os problemas, o que não quer dizer que não haja erros. Há aos montes, e deles surgem novos conflitos e, no fim, novas soluções. Não é, portanto, um paraíso, pois viver é bruto, sem que tenha de ser violento. O lado da civilidade luta contra a violência, condena-a no Afeganistão, no Haiti, nos Estados Unidos, na Venezuela, na China e aqui, debaixo de nosso nariz.

Para o 7 de setembro plúmbeo que se aproxima, homens lustram seus coturnos, mulheres enaltecem os algozes, jovens se deixam enganar por aqueles que desejam sequestrar a democracia para lucrar. No fundo, o moralismo, a religiosidade e o ufanismo não passam de conversa para os bois dormirem.




14.8.21

Sanduíches, sandices e afeto

Quando eu era bem jovem, me lembro de ter ficado admirado com o que contou um amigo recém-chegado de São Paulo: no cardápio de uma lanchonete não constava uma variedade de sanduíches, mas apenas três: carne; queijo e carne; e queijo, carne e ovo. A carne era de um tipo só, hambúrguer bovino. Meu espanto tinha a ver com o fato de que, na minha cidade interiorana, os sanduíches ficavam cada mais cheios de opção: cebola, alho, bacon, salada, molhos diferentes, linguiça e outras invenções. Diante do que me parecia um retrocesso da lanchonete paulistana, quis saber como o justificavam. Simples, esclareceu o amigo, o dono percebeu que, com tantas alternativas, a escolha se tornava difícil, optar por uma era abrir mão das outras. Frente a um verdadeiro dilema, muitos clientes desistiam de comer, portanto não gastavam seu precioso dinheiro na lanchonete. Moral da história: o excesso nos confunde.





Se a gente esquece o sanduíche e pensa — escolho a próxima palavra também pela rima — nas sandices do captain, their captain, talvez encontre um paralelo entre as duas coisas. Os golpes absurdos, numerosos e disparados simultaneamente por aquele senhor e seu séquito buscam apenas nos confundir. É melhor então sermos objetivos e não cairmos na tentação de enfiar muitos recheios no sandubão; enfim, optar por um clássico. Traduzindo: se taparmos os ouvidos para a verborragia, os xingamentos e as ameaças, o que resta é a incompetência. Na verdade, não existe sanduíche se não se acrescenta queijo ao bife, portanto à incompetência devem-se juntar pitadas de banditismo. Eis então a síntese de quem nos governa.

 

*******

Para Neném, Carlinhos, Edinho (in memoriam) e o amor de minha vida, Nilzinha

Pena que eu vá misturar essa podridão pela qual temos passado com o nome que direi agora: Dita.

A Dita, negra forte (como são tantas ou todas), viúva ainda jovem e com quatro filhos, foi trabalhar na casa de meus pais e, apesar de ter conseguido, uns anos depois, um emprego muito melhor na Santa Casa, com a segurança da carteira assinada e da previdência paga, nunca nos abandonou. Nunca. Quando meus pais ficaram mais velhos, e o enfisema de meu pai se agravou, ela passou a dormir na casa dos velhos. Sim, ela deixava a família, àquela altura de filhos adultos e netos, para fazer companhia aos seus antigos patrões. Na última internação de meu pai, ao sair de casa, ele sussurrou alguma coisa na direção de minha mãe, e ela não compreendeu, mas a Dita sim. Joaquim declarava seu amor à Haydée. Não fosse a escuta atenta daquela acompanhante tão especial, saberíamos do amor de meus velhos, pois era evidente, mas não saberíamos do último gesto daquele amor.

Agora foi a vez da dona Benedita nos deixar. Eu só posso lhe agradecer — e não só pelo caso recém-contado, uma lembrança que diz muito para mim e não alcança nem de longe tudo que ela foi. Sua grandeza estava na inteligência, no caráter, na força com que lutava e em como sabia ser irônica na medida certa. Conhecer uma mulher assim é um privilégio, e, por ter tido essa sorte, sim, agradeço mil vezes. E agradeço mais uma vez por ela ter me dado a oportunidade de conviver com seus filhos (minha infância não existe sem eles) e netos. Voltando um pouco ao campo da política, devo também desculpas à Dita, pois até o momento não conseguimos, em nosso país, apagar as marcas de um passado escravocrata e erradicar o racismo estrutural. Contribuo para esse fracasso.

31.7.21

O dicionarista de ocasião

O nome na tela do celular já adianta o início do diálogo:

— Sargento?

— Não.

— Márquez?

— Tampouco.

Garcia, amigo de infância, sempre foi atrapalhado (feito o sargento que persegue o Zorro) e fabulista (à moda do escritor colombiano). Por isso, o estribilho sempre que vejo seu nome na tela. A bem da verdade, quando meu nome é anunciado no celular dele, vem a contrapartida.

— Pires?

— Nem canto.

— Magno?

— Quem dera!

Nossas provocações recíprocas são, claro, temperadas de afeto e respeito. Ele não é só atrapalhado e fabulista, tem um rol de qualidades invejáveis, entre elas, a paciência. Quanto a mim, espero não ser apenas um romântico metido a grande, mas é melhor perguntar a ele.

Desta vez, Garcia liga preocupado com o Brasil. Com a política. Ele não milita na esquerda nem na direita, é um conciliador, um sujeito de centro. E o problema dele está aí.

— Esse Centrão não me representa.

— Como assim? Vocês não estão todos em cima do mesmo muro, só esperando a hora de dar o bote num lado ou no outro?

— Em política, você é um beócio. Isso que você diz faz parte do compêndio desses aí. Sou do centro dos Neves.

— Do neto?

— Não me venha com blasfêmia. Aquele de centro não tem nada; de Centrão, tudo. Não honra o avô.

— Então conclua.

— Daí que é preciso sequestrar o apodo de Centrão desses... desses... desses facínoras.

— Apodo, é? Hoje você está caprichando, é compêndio cá, beócio lá, facínora aqui.

— As frases são minhas, falo do jeito que quiser.

— Perdão, prometo ser daqui pra frente um respeitoso ouvinte.

— Centro, nas raias da política, é uma coisa importante. Quem ocupa esse espaço de consenso não vai pra lá nem pra cá, ao contrário, puxa as pontas pro meio.

— Hum, sei. Nas raias...

— Sim, nas raias. Ignorarei seus apartes pífios de agora em diante. Cumpra sua promessa e ouça. O tal Centrão nem busca o entendimento nem amortece as colisões de ideias. Estão ora no centro, ora à esquerda, ora à direita sem coerência ou vergonha. Esse Nogueira, por exemplo, já disse que o Lula foi o melhor presidente do Brasil e chamou o atual presindecente, a quem vai servir como ministro, de fascista. Haja maleabilidade.

— Maleabilidade...

— O que há, hein? Resolveu me tomar pra Cristo?

— Não, de jeito algum. Vamos lá, você quer mudar o... qual é a palavra mesmo?

— Apodo, iletrado, apodo. Pra mim, em vez de Centrão, a súcia deveria ser chamada de Sabujão.

— Você comeu o dicionário?

— Nestes tempos incivis, é a única leitura que não mexe com meus nervos.

Desconfio de que Garcia ligou apenas para fazer uma piada e exibir sua erudição passageira. Gaiatices do velho amigo. É hora de dizer, a nosso modo, adeus.

— Sargento?

— Não.

— Márquez?

— Tampouco.

— Outra hora nos falamos, douto amigo.

— Que assim seja, pagodeiro de butique e pequeno apedeuta político.

16.7.21

Estratégias de guerra



Cofiar o escuro da lua.

Umedecer o sol.

Escanhoar o frio.

Aconselhar-se com as estrelas.

Reger o coaxar da saparia.


Esquecer no vermelho de um tiê-sangue o espanto.

Medir a sombra das horas.

Cansar-se pelo mar.

Aprender a acrobacia da poeira.

Colorir o silêncio das flores.

Perguntar à infância que fim levaram as taboas.

Mascar o vento.

Intervir nos mapas.

Desistir do passo anterior.

Acender-se e apagar-se na presença de vaga-lumes.

Rir da retidão dos caminhos.

Dar de beber à água.

Mentir aos pés.

Burlar a aurora.

Engolir o horizonte.

Acender o cigarro num vulcão.

Contar estórias à noite.

Esconder-se do amanhã.

Ouvir a intimidade da chuva.

Assistir ao coito das pedras

Cultivar tudo que a estupidez dos poderosos não alcança.

3.7.21

Os escolhidos

 Antes da pandemia, flanando por Botafogo, encontrava assobiadores pelas ruas. Eu pensava: assobia de tristeza — o amor o deixou no dia anterior, às 17h35m —, ou, quem sabe, de alegria — ganhou na Raspadinha cinco contos, o valor de um café. De repente, não é nem uma coisa nem outra, é um assobio distraído, um dessilêncio contra o barulho da rua. Desconfio que seja por um motivo especial, maior.





Agora há, ou deveria haver, a imposição da máscara, e assobiar não é mais tão simples, nem mesmo falar de máscara é tão simples. O som, quando sai, sai abafado. Imagino então que os assobiadores tenham sumido. Mas, se eles não apenas gorjeiam suas alegrias ou tristezas, se não apenas devolvem barulho ao barulho, mas também vão além, como estão fazendo?

Numa das minhas poucas saídas neste quase um ano e meio de reclusão, passeando com minha filha e seus filhos, um casal de cachorros, reparei que as pessoas, diante de rostos somente em parte descobertos, passaram a olhar sem cerimônia o corpo umas das outras. Olhar no olho é íntimo, ninguém o faz com desconhecidos. (Quer dizer, existe o flerte. A bem da verdade, existiu, hoje não mais se encara a paquera com malícia e súplica, dá-se match no Tinder, e, se o outro não é cringe, pa-pum, “vem cá, meu crush.) Mas o corpo, vestido com roupa que o desenha ou disfarça, por estar arriado ou teso, bronzeado ou pálido, enfim, por ser presente, transparente e óbvio, não se compara a um assobio, que é só possibilidade, pura insinuação.

Sendo assim, quando voltar às ruas, se ainda estivermos sob o império da máscara, fitarei os olhos de quem der pista de carregar em silêncio seus assobios, pois não posso perdê-los de vista. Sabe por quê?

Indiferentes ao tumulto, aqueles assobios, como já disse, não são um transbordamento de alegria ou tristeza, nem uma guerra particular contra o ruído do trânsito e o alarido do comércio. Os assobiadores de rua são depositários, desde o instante em que perdemos a capacidade de dialogar com os animais, do que se tornou o maior segredo da existência. Por terem capacidade de conversar com os passarinhos urbanos, eles relembram o segredo, não o deixam cair no esquecimento, ainda que no esquecimento somente deles, os escolhidos.

19.6.21

Abobrinhas

Um amigo e eu falávamos do apetite sexual da juventude. Na mocidade dele e depois na minha, os homens eram predadores sexuais. Quer dizer, nem sempre eram, mas, por imposição cultural, deveriam ser. Deveríamos ser. Deitar-se com todas as mulheres do mundo era o esperado. Quando não satisfeito, ou seja, sempre ou quase sempre — haja vista que o desejo é insaciável,  — essa ânsia acabava gerando tristeza, frustração e um gasto excessivo com revistas masculinas. Lá pelas tantas, meu amigo comparou aquelas batalhas aos desafios de Américo Vespúcio, um dos grandes navegadores da passagem dos séculos XV para o XVI. Preferimos então rebatizá-lo de Américo Prepúcio. 

Alguns de meus amigos que foram maconheiros aos dezoito e ainda o são aos sessenta balançam bandeira pelo atual governo. Reflito cá com meus botões atualmente caretas e não consigo entender esse alinhamento. O que andam misturando na erva?

Aos quatorze anos, tornei-me crítico da televisão, uma máquina alienante, concluí. As novelas eram um pastiche, suas histórias, em títulos diferentes, se repetiam todas as noites, ontem, hoje e amanhã. Os telejornais mais confundiam que informavam. Os programas de auditório exploravam desafinados, humildes e toda sorte de desassistidos. Aos vinte e poucos, me dei conta de que não era bem assim, exagero meu, mas o estrago já estava feito, logo, a partir de então, vejo pouca televisão, inclusive a fechada e paga. Próximo dos sessenta, trancado em casa há mais de ano por conta da pandemia, acabo assistindo a alguma coisa e choro ouvindo crianças calouras num programa com grife americana.

Viemos ao mundo para fazer listas. Corolário imediato: viemos ao mundo para criar polêmicas com nossas listas. O Ruffato, por exemplo, elaborou recentemente uma lista dos melhores romances escritos no Brasil até a década de 1990 e recebeu aplausos e apupos. Aplausos tímidos, apupos ruidosos. Eu não faço listas, mas, se as fizesse, essa seria a primeira entre as coisas descartáveis deste mundo. Ora, mas se a razão de viver está em fazer listas, logo... Bem, logo a vida não tem sentido, o que é a pura verdade.

Não estamos entre a cruz e a espada, mas entre a graça e a desgraça. E toda graça que a gente acha, no fundo, alimenta a desgraça que nos achaca. Tudo assim em rimas espúrias, como espúrios têm sido nossos dias.

A dentista anunciou minha entrada na terceira dentição, quer dizer, daquele momento em diante, trocaria os dentes definitivos (uma ova) pelos postiços. A situação exige resignação e dinheiro. Este, mesmo não tendo, a gente arranja, já aquela não há banco que a empreste, mesmo a juros extorsivos.

Eu, meu pai e alguns de seus amigos estávamos sentados à sombra da “árvore dos enforcados” — sob a qual se reuniam ou se reúnem os negociantes lá de Passos, muitos deles na pendura, pedindo dinheiro a todo mundo —, quando o Canário soltou assim do nada que a exposição excessiva do corpo feminino acabaria com a libido masculina. Ele fazia loas ao tempo no qual visualizar um pedaço de uma canela, ali entre a barra da saia comprida e a renda que enfeitava o punho da meiinha curta, era um acontecimento e tanto. Se ele estivesse certo, agora que a máscara passou a ser, entre os sensatos, parte fundamental da indumentária, nossa vida sexual deveria estar a mil. No entanto muitos municípios têm apresentado estatísticas de um número maior de mortes do que de nascimentos. A máscara não estimula a sensualidade e a fertilidade, mas a recusa de seu uso assanha a morte.

Às vezes, como brinca o narrador de futebol Milton Leite, eu se acho, mas, fora esses lampejos de vaidade, eu me escondo e não sei onde me esqueci. Ah, sim, foi num país do futuro. Não aquele edulcorado pela ditadura, mas o real, duro e no qual a gente colheria ao menos uma flor de um dos muitos canteiros que plantamos e que o vento não se cansa de derrubar.

Entramos na vida como verdadeiros parvos e saímos dela não de todo instruídos, portanto a ignorância é, de fato, uma de nossas mais arraigadas características. O desconhecimento conquistado, se é certo dizer assim, pode ser por falta de curiosidade, de oportunidade ou até por não haver necessidade de saber certas coisas. Logo, há grandes, médias e pequenas ignorâncias. Eu, por exemplo, alimento uma que, na hierarquia, deve ser ínfima, mas assim mesmo me traz algum sofrimento. Por que entre tantas frutas, legumes, tubérculos, justo à abobrinha coube o significado de conversa informal, tola, recheada de bobeiras? Por que, meu Deus? Por quê? 




6.6.21

Vinte e uma dicas para deter o fim do mundo

 Na última segunda-feira, comecei o dia espalhando, em rede social, dicas para a semana que se iniciava. Repito-as aqui sem saber se são valiosas, ainda que, imodestamente, creia que, mil vezes repetidas, elas nos auxiliariam a deter este momento assemelhado ao fim do mundo, senão o próprio.

 

Divida as tarefas domésticas / Manifeste-se contra o governo / Beba, se for o caso, mas não deixe de orar / Ore, se for o caso, mas não deixe de beber / Troque uma ideia com amigos / Ouça música. Leia. Cante. Dance / Manifeste-se mais uma vez contra o governo / Tenha saudades / Procure se informar. Desconfie de tudo / Agradeça a vacina tomada / Se prepare para tomar a vacina / Não se conforme com tantas mortes / Olhe para o Jacarezinho. Cobre justiça / Olhe para as aldeias indígenas. Cobre justiça / Manifeste-se mais uma vez contra o governo / Mande uma gracinha pelo ZAP / Confronte fake news / Faça planos / Chore / Ria / Olhe bem para os lados, não esteja sozinho.

 

À beira da autoajuda, as dicas beliscam temas que me mobilizam e misturam aquelas claramente políticas com as apenas afetuosas. Sabendo-se que o afeto, e isso está tão claro hoje, é mais político que muito grito de guerra, minhas dicas — com destaque para “divida as tarefas domésticas” — são absolutamente políticas e absolutamente afetuosas.

Escrevi as vinte e uma ações instigado, de um lado, pelas derrotas quase diárias, representadas pelas chacinas do Jacarezinho e de muitas aldeias indígenas: dois exemplos tirados de uma lista que, no dia 29 de maio, quando os descontentes com o governo tomamos a rua (não fui, mas, como acumulo crédito em protestos e passeatas, é como tivesse ido), foi acrescida por um ataque covarde da polícia pernambucana contra a população. Daniel Campelo da Silva e Jonas Correia de França, que nem estavam no protesto, perderam parte da visão depois de levarem tiros de bala de borracha. De outro lado, o impulso veio do brilho saído das ruas cheias e inconformadas. Escrevi, portanto, a partir de um lamento e de uma esperança. Olhemos para os lados e não estejamos sozinhos — não estamos!

A extrema direita, essa cobra por muito tempo escondida e alimentada pela própria fome, voltou ao poder com o intuito único e claro de desinventar o Brasil, o Brasil cordial. Digo cordial não no sentido de ser habitado exclusiva ou majoritariamente por pessoas afáveis e sinceras, mas sim por abrigar o povo que inventou o drible e que, se não o inventou, aperfeiçoou a gambiarra. Povo que, do trauma da escravidão e agarrado à ancestralidade africana, fez surgir o samba, nossa trilha da alegria, da congratulação, “o pai do prazer” e “o filho da dor”, nas palavras de Gil e Caetano. Cordial porque age de coração.

A direita quer acabar com os atravessamentos entre o antigo (e até o conservador) e o moderno que marcam este país em permanente exercício de autoconhecimento. Vandré e sua Disparada. O Lamento Sertanejo, de Gil e Dominguinhos. Os Mutantes cantando Dois mil e um, de Rita Lee e Tom Zé. Os irmãos Pena Branca e Xavantinho, crias do Brasil Central, rural, boiadeiro, acaipirando Cio da Terra, de Milton e Chico. Bethânia levando Evidências para além do que é. Emicida absorvendo Belchior. Todas essas experiências são o resultado de diálogos entre o centro e a periferia, entre o rural e o urbano, entre o interior e as capitais, entre a costa oceânica e os sertões e as florestas, entre o negro e o branco, entre distintas gerações, portanto diálogos feitos também ou principalmente de embates. O Brasil, bem ou mal, foi se construindo a partir dessas contradições que agora querem dizer que não existem, querem proibi-las de dar norte ao país.

A direita no comando não tem um projeto neoliberal claro, nesse ponto ela enfrenta suas contendas internas, mas, não resta dúvida, tem um projeto coerente de, agarrado às batidas agendas conservadoras, impor um poder que não é civil, também não é militar, é miliciano. As milícias nasceram oferecendo, mediante pagamento e de forma chantagista, “segurança” aos desassistidos (no subúrbio carioca, na Baixada Fluminense). Aonde a lei não chegava, as milícias agiam como se zelassem por ela. Lorota. Na verdade, reescreviam as leis e encarceravam — expandindo os serviços já oferecidos, que passaram a contar com o gatonet, a venda monopólica do gás etc. — primeiro os seus protegidos e, depois, todos os moradores dos territórios sob sua influência.

É nessa esquina que estamos. Se não reagirmos, de 500 mil mortos por Covid-19, saltaremos para um milhão. A esse um milhão, acrescentaremos outro milhão de mortos por perseguição e balas perdidas. E mais não sei quantos milhões vitimados pela fome. É hora de trazer o poder para o campo civilizatório, tomá-lo de volta desse projeto de destruição. Depois, bem, depois a gente retoma as velhas questões. Uma retomada que, embora anteponha projetos distintos, quiçá incompatíveis, garanta a alternância no poder e o estabelecimento de um consenso duradouro, qual seja, o de que situação e oposição agirão sempre respeitando a democracia.

Bebendo sem deixar de orar e orando sem deixar de beber, nos concentremos na luta civilizatória e resgatemos o Brasil da mão dos facínoras. 

24.5.21

Realismo mágico em três versões

 






Com o realismo mágico, García Márquez reportou o mundo a sua volta, em particular o de sua juventude vivida no interior da Colômbia. Sim, era uma espécie de reportagem sobre o extraordinário embutido nas histórias narradas por seus avós e de modo algum criado por ele. Na minha infância, eram comuns os casos situados na fronteira entre o real e o imaginário, entre o visível e o invisível. Eu também — e muita gente de sessenta anos ou mais — poderia ter inventado, se me fosse dado talento, o realismo mágico, bastava registrar, ao lado de mulas sem cabeça e sacis, as peripécias de meus antepassados. O avô materno de minha mãe colocava maçãs na cabeça de suas filhas e, de uma certa distância, atirava na fruta. Verdade? É o que sei. Nas mãos de Gabo, suspeito, as maçãs seriam para lá de rubras e as meninas, apesar de pálidas, esperariam os tiros de olhos abertos.

O escritor colombiano não só registrou as histórias de seus ancestrais, falsas ou verdadeiras, o que ele não poderia atestar, como também espalhou, a seu gosto, ervas e pimenta sobre elas. Não fosse assim, não seria um escritor, mas um contador de causos. Nem contador de causos, já que esses, ao relatar o que viram ou ouviram, dão um jeito no inverossímil da realidade. Não sendo escritor nem contador de causo, García Márquez talvez pudesse ter sido um contabilista com talento para esconder do fisco parte da renda de seus clientes. Sempre projeto sobre o Nobel de 1982 a pecha de mentiroso. Creio que lhe cai bem.

O boom da literatura fantástica ficou para trás. Entretanto esses dias tão cheios de assombros parecem propícios à exploração do mágico. Sendo assim, sugiro três argumentos, que podem ser explorados em diferentes nichos de mercado, àqueles que nalgum canto do universo escrevem sob a bênção do velho Gabo. Corram à cozinha, separem os temperos mais picantes e mãos à obra.

Distopia:  no lugar dos coronéis déspotas, velhos e sozinhos, o personagem é o homem orgulhoso da própria ignorância e fiel à violência. Ele tem o olhar vidrado, não como o de um louco, mas como o de uma besta. Recusa o passado, encantado ou não, por ser um tempo morto. Seu foco são o presente, para desfrutar as benesses da fortuna, e o futuro, para garantir a boa vida dos descendentes e perpetuar o próprio nome como um herói da pátria. Ambicioso e gabola, apresenta-se numa versão mais que requentada do velho caudilho. O déspota atualizado percebe a passagem do real para o virtual, no qual age. As fake news, sua mão sobre o novo mundo, trocam o acaso e a riqueza do contraditório por algoritmos que escravizam, inicialmente, aqueles que o escolheram como libertador e, em seguida, os demais.


Humor: o olhar vidrado do poderoso expressa o assombro de quem não entende uma vírgula do que está se passando. Ele é o menino do “A vida é bela” que, ao crescer, continuou a enxergar o real como um jogo. Em vez de viver, joga, e tudo para ele — inclusive ou principalmente o horror — é encantamento e beleza. Envolvido em sucessivas situações vexatórias, como a de negar a ciência, bradar contra a democracia e babar de medo, vê-se transformado num palhaço sem graça e sem circo. Quando chega ao limite da tolerância, ao apontar o dedo contra seus detratores e ameaçá-los de morte, causa mais riso que medo. Não fosse, apesar de patético, perigoso, seu desatino seria comovente.


Terror: o novo Messias teria voltado à terra para acabar com a corrupção original, o passo em falso de Adão e Eva, e com a alimentada pela cobiça. Seu discurso enaltece um passado em nada similar ao fantasmagórico e recorrente de García Márquez, mas um que nunca existiu, aquele no qual, sob ditadura, homens e mulheres foram felizes. Encontra seguidores fanáticos, no entanto, quando o discurso messiânico se transforma em idiotice política, surgem os desiludidos, que, em número crescente, fogem para lugares distantes, se ajeitam em pequenos sítios e abandonam o mundo virtual, praça de guerra do líder. O até então ídolo se vê incapaz de manejar a tecnologia a seu favor, perdendo assim o poder de influir com suas mentiras na vida de todos, seus partidários ou não. Abandonado, meio milhão de almas penadas o visitam e o aniquilam. Enquanto isso, os fugitivos se agarram à única ideia do falso Messias com a qual ainda concordam, a de o passado ter sido o melhor momento não exatamente de suas vidas, mas da existência humana. Empenham-se, então, em reerguer montanhas, replantar florestas, desinventar a agricultura, sobreviver da caça, enfim, dedicam-se a arrastar suas vidas cada vez mais para trás. Até que chega a hora de enfrentar os dinossauros.

 

8.5.21

As palavras mortas

 

Para André Ricardo Aguiar


Palavras mortas, algumas indignadas, outras conformadas, não raro se reencarnam na crônica, escrita de reconhecido poder mediúnico, mas não por isso. O romance, o conto e a poesia são, menos por vontade própria e mais por cobrança estética, infensos a defuntos dessa natureza, cabendo à crônica, portanto, ocupar o espaço. Em um romance moderno não entra a palavra “fuá”. O romancista, dependendo do caso, preferirá os sinônimos intriga (dificilmente mexerico) ou valentão. Mas um cronista defenderá como não sendo puro fuá o que se fala acerca da origem ilícita dos seis milhões usados para comprar aquela façanhosa casa no Distrito Federal. Ou dirá que esses fuás arrotam muito e mordem pouco.

Em uma crônica de agosto de 1968, Carlinhos Oliveira escreveu “em pandarecos”; antes de continuar, cito o texto: “sabendo estar em pandarecos o seu próprio coração, ele acalentava uma única pergunta. / — Quem morrerá por mim?” (Sobre corações, no site Crônica Brasileira). Cinquenta e cinco anos atrás, aquela locução era de uso corriqueiro, mas não causaria estranheza caso não fosse e irrompesse na crônica. De lá para cá, e sabe-se lá por que motivo, pandarecos, catando cavacos, deu com os burros n’água e foi dividir o túmulo com circunfuso, adjetivo que, provavelmente nascido morto, foi exumado com a facilidade com que os numéricos filhos mimados não contarão para cremar a democracia. Deixemos de papo e vamos ao que interessa: quem, hoje em dia, empregaria os pandarecos e circunfusos da vida e da morte? Respondo: outro cronista.

A crônica trava uma luta particular para ressuscitar as palavras fenecidas por conta de um vírus estrangeiro — nunca chinês, é bom que se registre. O download em site made in USA destrói o “baixar”, e ninguém mais baixa coisa alguma de um sítio feito nos Estados Unidos. Por outro lado, continuamos baixando a cabeça para as atrocidades ditas por um brasileiro que estudou em Chicago e, no crepúsculo de seus dias, açoita os camumbembes, com certeza mais pobres do que ele foi, que galgam os primeiros degraus que os separam de um mundo mais justo. Resumindo: entre a recusa cabal e o aceite dócil dos estrangeirismos, a crônica ora é um médium raiz, que distribui pelos quatro cantos a palavra portuguesa já no purgatório e a um passo do céu ou do inferno, ora finge-se de morta e prefere estar in.

No final de semana passado — quando os trabalhadores memoraram seu dia e uma gente estranha gozou da democracia ladrando contra a democracia — entre leituras, faxinas e outros labores, tentei recuperar o nome de um colunista salvo engano d’O Globo. Ele escrevia — mais um salvo engano — no Segundo Caderno, na década de 1980. É possível que escrevesse desde antes, e pode ser que minha reminiscência seja de fato dos anos 1990. De qualquer modo, o traço do tal colunista era o uso intensivo de palavras mortas e inumadas. Fora os artigos e alguns pronomes, muitos mergulhados em ênclises e mesóclises, todo o texto era empachado por palavras que um bebê, vivesse quanto vivesse, jamais falaria, e um revelho, tendo vivido quanto viveu, nunca terá falado. Pelintra, fato, janota e cocote, olvidadas desde os primórdios do século passado, eram defuntos muito frescos, portanto estavam descartadas do repertório do tal colunista.

Talvez fosse um filólogo, um dicionarista, um reles diletante, mas, apesar de consultar jornalistas, no privado e em rede social, não descobri quem era aquele Chico Xavier das palavralmas. Muitos apostaram no Joaquim Ferreira dos Santos, que costuma usar gírias de décadas distantes e, em alguns casos, se expressa com antigualhas dos tempos do onça, mas Joaquim só espicaça uma coisa aqui e outra ali por puro deleite estético, para dar sabor ao texto. O outro, não. Ele montava um bloco hermético, que, para ser decifrado, primeiro exigia a consulta do significado de cada palavra — naquela época, em dicionários pesados e quase sempre velhos —, depois cobrava a compreensão do conjunto, ou seja, da sequência dada às palavras, algumas ornadas de aspas ou escritas em itálico e, quando necessário e até exageradamente, separadas por vírgula, ponto e vírgula, dois-pontos, reticências, travessão, parêntese, exclamações e interrogações. Não era fácil e, confesso, jamais avancei além de umas poucas orações, nunca chegando ao fim do primeiro parágrafo.

Seja como for, e, se não é um dislate o que vou dizer — não sei bem o que eu fazia nos anos de 1980 —, o jornalista cujo nome e existência me escapam é o exemplo fiel do poder mediúnico da crônica, sobre a qual palavras de antanho descem tanto para assombrar gregos e leitores quanto para distrair escritores e troianos. É um luxo essa função açambarcada pelo texto miúdo, criado, segundo Antônio Cândido, para falar da vida ao rés do chão. Como cronista, cioso de meu privilégio e menosprezando os que não gozam da mesma sorte, vasculho romancistas, contistas e poetas e rio dos que não violam, por puro medo, a lápide das palavras mortas, seja num comecinho de noite, seja à meia-noite, quando, mal o sol desponta no horizonte, um jovem de oitenta anos lê, de cabeça para baixo, seu jornal sem letras que diz: “é melhor morrer do que falecer, a terra é uma bola quadrada, que gira parada em torno do nada, sem sair do lugar”.

24.4.21

Adeus, otimismo

 Nasci otimista, e assim permaneci por muito tempo. Fui o típico garoto leve; leve de espírito, fique bem claro, pois sempre cultivei minhas gordurinhas. Pensando bem, acho que eu era, de fato, bobo, herança de meu pai. O círculo pelo qual o velho Joaquim transitava, e eu o acompanhava muitas vezes, era cheio de bobos, inclusive ele, donde concluo que a máxima feminina — os homens são bobos e infantis — está correta. É o que somos.

Otimista ou bobo, me tornei sociável e cercado de turmas que, dependendo da cidade em que morava, Passos, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, se renovavam. Meu papel em todas era o de fazer o comentário engraçado, rápido, tirando gargalhada dos chegados ao riso e pequeno riso dos sisudos. Esse meu comportamento transbordou até para o ambiente de trabalho. Mais uma vez encontro similaridade com meu pai, só que o ambiente de trabalho dele era a rua, o ponto de encontro dos negociantes, o curral onde estava o gado a ser comprado ou vendido, enquanto o meu, a sala de aula, como aluno ou professor, a repartição pública, algum evento literário.

Como posso dizer otimista ou bobo? Um se confunde com o outro? Não, mas o meu jeito bobo associou-se à certeza de que o futuro seria um tempo no qual todos os problemas estariam resolvidos — novamente tangenciando o velho. Apesar disso, não me tornei cego e conheço o lado obscuro ligado à vida privada — perder amigos, por exemplo — ou a nossa injusta e violenta vida comunitária. No campo do afeto particular, graças ao otimismo, chorei as perdas e segui adiante zelando pela memória dos ausentes. No que diz respeito à convivência em sociedade, acreditei que a política amputaria a injustiça, que, não esqueçamos, é uma característica inaugural de nosso país, estava lá desde a distribuição das sesmarias, cuja sobrevivência, enquanto negócio, como nos ensinou Celso Furtado, só foi possível com a escravidão.




O bobo e otimista — penso, por conta da rima, em “O bêbado e o equilibrista”, o hino do Brasil confiante, oposto ao de agora, feito no fim da ditadura por João Bosco e Aldir Blanc, um cara que não foi meu amigo, mas cuja morte recente me dói como se houvesse sido —, o bobo e otimista, repito, aguentou as perdas e acreditou na política, ainda que, com a experiência, tenha passado a ser mais parcimonioso em acolher um novo amigo e se tornado menos ingênuo e mais racional, menos o que diz isso passa ou chegaremos lá e mais o que acredita na justiça como uma conquista.

Então o Brasil do compromisso inaugural, masculino, violento e excludente, voltou à tona. Ao longo de nossa história, não fomos capazes de enquadrar a escravidão e a ditadura como crime e dívida coletiva a ser quitada pelas gerações futuras. O pagamento exigiria reduzir as regalias da elite e abrir as portas para uma vida digna, com comida à mesa, educação e saúde, no mínimo, aos historicamente marginalizados. O dono de escravos e o ditador, nunca punidos, saíram da toca a partir de 2013, ganharam o poder em 2018 e, desde então, têm ceifado o pouco que se fez para diminuir as brutais diferenças que marcam nossa sociedade.

O Brasil atual — no qual as mortes pela Covid-19 ilustram a incompetência de um governo que empobrece os pobres e promove retrocessos nas políticas ambiental, de segurança, dos direitos individuais etc. —, me transformou no mais pessimista entre os pessimistas, o que não vê saída. Não sou mais uma boa pessoa para, numa troca de ideia com os jovens, inclusive os meus filhos, fazê-los rir, dar-lhes um pouco de leveza, essa que foi tão minha, e, mais importante, de esperança.

10.4.21

O cronista na pandemia

A crônica, depois de pronta, pede pouco espaço, um cantinho de jornal, se muito um byte de um site, não mais que isso. Sua escrita, no entanto, requer amplidão.

O cronista bate pé pelas ruas e à tarde se senta num boteco fuleiro ou chique, na companhia de gente simples ou daquela meia dúzia de cabeças delirantes que tomam lugar nos círculos mais inteligentes da paróquia. Sai da Zona Sul para subir — ou dizer que subiu — de joelhos as escadas da Penha ou entra num avião no Santos Dumont e, depois de descer em Congonhas, se mete por cantos que não conhece à procura de vestígios do Geraldo Filme. Caminha cabisbaixo pelas ruas de Porto Alegre para ver se detecta os passos do Veríssimo. Leva para Salvador um bilhete para o Caetano Veloso sabendo que o baiano ainda não terminou de estacionar o carro no Leblon. Senta-se à margem do São Francisco, em Petrolina, abre um vinho local e espera por notícias do Zé Coco do Riachão que chegarão num vapor que talvez não mais trafegue pelo rio. Comanda um pingado no Maletta e, espantado, enxerga o Murilo Rubião na careca de um sujeito que anda com um guarda-chuva preso no sovaco, um livro de bolso enfiado no cós da calça e um cigarro apagado na boca. Oferece ivermectina para uma das emas do Palácio do Alvorada e, diante da recusa amedrontada, insiste: “Aceita, boba!”

Mais, eis que de repente, impossibilitado de saracotear por aí, não sabe o que fazer. Inventa de medir a distância entre o banheiro, o quarto, a sala e a cozinha. Encontra Hemingway na barata que o cachorro que se parece com Kafka abocanha. Dança ao som dos repiques da geladeira, de onde tira uma feijoada congelada desde os tempos em que a tia Surica não sabia cozinhar. Sopra a poeira da mesinha de cabeceira e depois corre atrás daquela bolinha voante que o atrai tanto quanto as pernas das musas atraíam Vinícius no início de sua conversão a cancioneiro. Dorme de conchinha com a saudade mais filha da rua do mundo.

Dá de acordar triste.

Chora pela hora do almoço.

Fala mal da primavera.

5.4.21

Horas Turvas (do livro Contos de homem, 1995)

 


Quando criança, acreditava neles; hoje tenho certeza de que existem. Atitude ambígua, às vezes os desejo por perto, mas, se chegam, fujo, não, por favor; tenho medo. Acendo a luz, o cigarro, água no gargalo, a madrugada vem, é maior que suas horas e cresce. Então, tento-me acalmar, já vai passar. Já vai passar, sempre a mesma ilusão. Espero que com os anos eles sumam; nada, na outra noite desperto suado, a respiração sôfrega, o coração batendo atravessado. Não adianta ficar escondido no armário e deixá-los ir embora ou torcer para que meu pai entre, "Ouvi barulhos, o que é isso? Ora esqueça, foi só um susto, não chore, homem, não”. Vou à sala, no banheiro ligo o chuveiro, poderia gritar, e o temor talvez sumisse. O grito de repente acorda a vizinha e suas minissaias, ou o vizinho e seus vícios e solidários talvez toquem a campainha oferecendo sexo e pó. Prefiro o soco na parede. A mão sangra, corro, mãe, alcanço o quintal, sento na sala, subo a escada, continuo na sala, mãe, passo pela cozinha, deito no sofá, vou ao quarto, no sofá fecho os olhos, mãe. “O que foi?” Caí da mangueira, estou tão sozinho. “Bobagem, já já é dia.” Vejo as horas: 3:09 h. Tento 222 e o resto do número de um amigo. Ninguém. A televisão ligada parece cuspi-los na sala. Perco a trama e choro, choro escondido e sou pego em flagrante e denunciado. “O que ele tem? Agora deu para isso, é excesso de mimo, coisas da mãe, coisas do pai, é fase.” Dou um gole numa bebida, coloco uma música qualquer, mas a repetição continuada de seus quatro acordes e do estribilho me deixam pior, tiro o disco, quebro o disco, viro a dose, tomo outra. No relógio: 3:10. Todas as noites nesta noite. Arranco a roupa, entro no chuveiro. Relaxo. No boxe, os dedos fingem desenhos nos ladrilhos. A mão toca o corpo, alisa os pés, fica por aí, entre massagens e cócegas, depois vai às coxas e repousa no pau. Demora-se. Sobe ao peito, dança na barriga, retorna ao pau, ele apruma. Esta é para as mulheres que me fugiram pelas mãos. Penteio os cabelos, escovo os dentes. Outro gole. No relógio: 3:09. Armadilha. O rádio anuncia um dia bonito para amanhã; não acredito. Sei rir sem querer e fingir ser o que não sou. Círculo. Círculo. Redemoinho. Na farmacinha não encontro o tranquilizante. Quarto, sala, cozinha, quarto. “Sossega, menino ansioso, parece que tem o diabo!” Diabo? “Um homem como você precisa de uma mulher endiabrada.” Diabo? Não. Apago as luzes. Olho o céu. Uma estrela cai e volta na trilha do ponteiro dos relógios. Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome. Acendo o abajur. Ajeito-me e corro de encontro à parede. Atravesso-a incólume. Sou eles.

29.3.21

Janelas


Uma voz que parece sair de meus sonhos me diz: escreva sobre janelas.

Ao fugir do castigo da casa baixa onde imagino ter nascido, descobri que as janelas podem ser um caminho para a liberdade. Alguns anos depois, num sobrado no Beco dos Aflitos, olhava a rua pela janela e ouvia minha mãe dizer para eu não me debruçar. Minha mãe tinha medo, e eu, anseio de ver o mundo. Feito essas namoradeiras esculpidas em madeira, eu esperava a Elaine, no seu uniforme de secundarista, passar a caminho de sua casa. Aquela janela me deu a dimensão de que a moça, por ser uns cinco anos mais velha que eu, era inalcançável, e o correr da vida, estivessem meus cotovelos apoiados numa janela ou num balcão de botequim, completaria a lição: muitas mulheres são inalcançáveis. Em compensação, ao pular a janela da sede do diretório acadêmico, despertei o interesse de uma garota por mim — nos alcançamos.  

Quando as janelas se fecham, os passarinhos, longe de nosso olhar de gaiola, voam plenos de liberdade.

Recém-chegado ao Rio de Janeiro, do nono andar de um prédio em frente ao consulado português, em Botafogo, eu observava a fúria dos que, presos no engarrafamento, voltavam para casa após o trabalho. Naquela época, ano de 1980, os motoristas não poupavam a buzina. Alguma coisa houve de lá para cá e, hoje, buzina-se menos, assim como se fuma menos — as janelas são o paraíso dos fumantes. No caso do cigarro, a proibição de fumar em ambientes públicos e fechados, auxiliada por uma competente campanha publicitária, explica a queda no número de fumantes, mas em relação à buzina não houve nada parecido. Talvez seja uma compreensão espontânea do mal que a poluição sonora faz. Sociologias à parte, lá da janela do nono andar, e, depois de uma mudança, da equivalente do décimo segundo andar do mesmo prédio, o recém-chegado descobria que, para viver no mundo escolhido, deveria descer à rua, tomar o ônibus, sentar-se, caso desse azar, ao lado de um fumante, enfrentar o engarrafamento e ouvir as buzinas soarem bem ao lado. As janelas estimulam a reflexão e nos chamam à vida.

Para muitos, elas não são a tela de cinema por meio da qual, além da imagem e do som, se transmite o cheiro; ao contrário, apresentam-se como passagem entre um andar alto e o chão, entre a vida e a morte. Não se culpam as janelas nem as moradias tornadas verticais para comportar tanta gente em espaços exíguos. Cúmplice dos arranha-céus, o salto obedece a comandos de uma alma ferida. As janelas não julgam.

A evolução humana se deu única e exclusivamente para tornar possível a construção de janelas e teve, como consequência inesperada, a invenção, agora esquecida, da serenata. A arquitetura moderna, com seus prédios de vidro, engana-se ao imaginar que nos contentamos tão somente em ver o lá fora. Nada disso, queremos janelas.

Minha avó paterna ficou cega por conta de uma enfermidade que hoje algumas gotas diárias de colírio e uma cirurgia curariam. Para ela, a janela era fonte de brisa, mas poderia ser de vento e chuva, logo, havia sempre alguém zelando para que prazer e frescor não se transformassem em tormento. Se, como Da Vinci afirmou, “o olho é a janela da alma, o espelho do mundo”, que espécie de janela é o olho decorativo dos cegos? É este paradoxo que João Jardim e Walter Carvalho, no documentário não sem motivo chamado de “Janela da alma”, lançam ao colherem depoimento de dezenove artistas (de José Saramago a Hanna Schygulla, de Hermeto Pascoal a Agnès Varda) com problemas que vão de limitações medianas de visão à cegueira, como é o caso do fotógrafo Evgen Bavcar. Chego a um momento delicado, e, sem saber esclarecer o paradoxo, afirmo apenas que as janelas são uma metáfora de fragilidade e potência.

Morei numa pequena vila, e a janela principal, bela peça de uma construção do início do século XX, me dava aos olhos a similar do vizinho da frente. Às vezes eu e ele, olho no olho e uma ruazinha no meio, travávamos ótimas conversas. Do mesmo lugar, soltando a voz, anunciava a hora da tarefa escolar ou da refeição e tirava as crianças do pique-pega.

Falam da existência de janelas capazes de aproximar o nosso mundo de uma quinta dimensão. Não duvido disso, porém, nem em viagens induzidas por néctares vulgares, que me trouxeram aos olhos o que não havia, entrevi qualquer pedacinho do que imagino ser a mais bela visão. As janelas descortinam a quimera.

Manter as janelas abertas é princípio básico de saúde e está em evidência por conta desse maldito vírus assassino. Além de muita gente viver em moradias sem janelas, no Brasil elas foram fechadas, estão fechadas — sim, as janelas estão fechadas. Nem por isso os pássaros têm usufruído de sua máxima liberdade. Por solidariedade a nós? Não creio, devem estar estupefatos por ver a mão visível e incerimoniosa fechar as janelas, à luz do dia, sem que nós façamos nada para detê-la.

13.3.21

O jumento e a vacina

Há uns dez dias, um pequeno avião do governo da Bahia foi decolar de um aeroporto em Salvador e atropelou um jumento. Nem o animal nem o piloto se machucaram seriamente, mas o avião sofreu avarias e sua função, transportar doses da vacina contra a Covid-19 para o interior do estado, teve de ser executada por outro.

Nada mais metafórico do Brasil de hoje: o símbolo da estultícia, o pobre jumento — não sei por que razão ganhou a fama de pouco inteligente, ignorante, incapaz, mas vou aceitá-la sem crítica —, de um lado, e o da sabedoria e diligência humanas, a vacina, de outro. Aquele retarda o voo deste, ou seja, o acidente revela a encruzilhada civilizatória em que estamos. A imagem de um abismo logo adiante não serve mais ao Brasil, pois já demos o passo adicional e agora voamos em queda. Ainda que demore, pousaremos não exatamente no território da morte, mas no Tártaro, lá onde os deuses gregos supliciavam incorrigíveis como Sísifo. Repetir diariamente tarefas pesadas e inúteis é o que nos espera.

Relacionar o atual governo à irracionalidade do jumento (ou do gado) pode nos confortar, mas, ao fazê-lo, deixamos de reconhecer a inteligência dos senhores no poder. Pois eles têm inteligência, grande até; perversa, de fato. São conluiados com a morte. Se depois das grandes guerras, um ideal de civilidade e respeito às diferenças parece ter se transformado em um valor universal e desejável — ainda que pesem todas as atrocidades e guerras praticadas depois —, sempre houve aqueles que, por uma razão ou outra, continuaram a entender que governar é matar. Inventam inimigos em países vizinhos ou distantes, senão no próprio, onde passam a perseguir os que incomodam pela ancestralidade (os índios), pela potência (os negros), pela luta por independência e igualdade (as mulheres), pela subversão dos valores tradicionais (a comunidade LGBTQIA+) ou pela inconformidade (os artistas).

Quem nos comanda atualmente cultiva uma mentalidade mórbida como a descrita. A morte de quase trezentas mil pessoas (número aproximado de habitantes de Petrópolis, a nonagésima cidade, em termos de população, do Brasil, que conta com 5570 municípios), numa pandemia, não aflige os que militam na necropolítica, decerto os contenta. Queimar florestas é um espetáculo bonito. Dar as costas para a cultura é um ato de preservação de valores. Não faltam exemplos de como se compadecem da destruição.

Tenho um amigo que é exemplo dos que acreditam piamente no diálogo como forma de superar diferenças. Coerente com isso, o diálogo tem sido seu instrumento de ação profissional e política, papel que, aliás, desempenha muito bem. Por isso, fiquei surpreso com uma de suas publicações no Twitter. Diante da ruína civilizatória pela qual passamos, ele disse ter compreendido — não como um estudioso de um período passado, mas como alguém que experimenta, adulto e crítico, a dureza e periculosidade de seus dias — a opção de parte da juventude dos anos de 1960 pela luta armada. Meu amigo em nenhum momento defende que peguemos em arma, mas, com a violência e o autoritarismo inconsequente à solta, ele conclui, a escolha pelo combate no campo do inimigo (a violência) não é destituída de racionalidade. Eu acrescentaria: é exatamente isso que o novo poder quer de nós, portanto, tratemos de decepcioná-lo. Mais Gandhis, menos — como são muitos os que ocupam o espaço oposto ao de um pacifista, não cito nomes, preferindo a imagem talvez distorcida de outro animal — abutres.


Imagem captada na Internet/sem crédito