25.3.24

Visita ao Rio Grande do Sul

 

Voltei ao Rio Grande do Sul depois de alguns anos. Porto Alegre é uma cidade agradável, na qual, por conta do trabalho e da literatura (trabalho sem remuneração), coleciono amizades, inclusive recentes. Bia, a quem fui apresentado pela Ione – gaúcha e carioca que se conheceram no Pará –, faz parte da nova leva, mas já chegou esbanjando carinho e generosidade, parece até que nos conhecemos não é de hoje – nem de ontem.

A capital gaúcha vem renovando a área portuária, planejando inclusive erguer prédios residenciais, o que me parece uma tendência. No Rio de Janeiro acontece a mesma coisa, e não é muito diferente o que se fez em Buenos Aires e Montevidéu. No caso de Porto Alegre, já há um espaço, ao lado do Gasômetro (em reforma, no momento), cheio de bares com pontos de observação do pôr do sol. Jaqueline afirma que é o mais lindo do mundo, assim como são sem igual o vinho e o churrasco da terrinha. O carioca defenderá o pôr do sol do Arpoador, o argentino achará um acinte esse destaque dado ao churrasco. Enfim, nossas paixões nos comandam.

Talvez por eu ser mineiro, Luciano e Júlio riram de mim quando, numa parada entre Bento Gonçalves e Porto Alegre, pedi um café, um pão de queijo e, vá lá, uma cuca. Cuca, especialidade gaúcha, tem o mesmo nome de um bolo muito comum no Rio de Janeiro, mas eles não se parecem em nada. Ambos são bons, assim como era bom o tal pão de queijo comido a caminho de volta da serra – bom, mas não o melhor, lugar incontestável da iguaria feita em Minas Gerais. Aproveitando a oportunidade, a globalização do pão de queijo mineiro deve ser estudada, parece um case de sucesso.

Meus amigos gaúchos me indicaram com entusiasmo uma visita à livraria Bamboletras. Lá encontrei livros do Rubem e do Tiago – meus colegas da Rubem e com quem tomei um chopinho de leve –, além de pelo menos um da Mariana, outra da revista. Me senti bem na companhia livresca dos três. E melhor ainda ao saber que aquela livraria ocupou uma antiga igreja. Nada contra as igrejas – quer dizer, as autênticas, não as que servem de disfarce a bancos –, mas, acostumado a ver cinemas transformados em templos, essa insurgência – fato único nesse Brasil desgostoso da cultura – merece aplausos.

O trabalho me levou, vejam só, a Santa Cruz do Sul, uma cidade da qual eu nunca ouvira falar até um pouco antes dessa minha viagem, quando de lá veio à tona a censura ao “O avesso da pele”, livro de Jefferson Tenório, um escritor negro, carioca e com vida acadêmica no Rio Grande do Sul. Uma diretora de escola pública da cidade e logo depois seus iguais em escolas paranaense e goiana viram na história de Tenório uma ameaça à juventude. Os livros estão sempre na mira dos conservadores. Daqui a pouco, a pira queimará uma pilha deles, pois depois do caso Jefferson a censura continuou excitada: o Sesc tem censurado o romance do paraense Airton Souza, “O outono de carne estranha”, vencedor, vejam só a ironia, de seu último concurso literário. Ah, os livros!

Santa Cruz do Sul é uma cidade bonita, tem um igreja gótica impressionante e sua rua central é toda arborizada, um exemplo urbano. Eu e os colegas de trabalho chegamos lá à tarde e corremos para ver a igreja aberta. Íamos comentando como a cidade parecia segura quando à nossa frente nos deparamos com dois ou três carros de polícia. Custamos a entender o que se passava. Eles atendiam à denúncia do conselho tutelar de que havia uma criança sozinha na rua, não sei se mendigando. Pelo que entendi, a cidade está atenta a possíveis abandonos. Pode ser bom, ainda que, na minha avaliação leiga, as viaturas policiais são um exagero e parecem indicar que o que se tem não é zelo pela infância, mas controle sobre ela.

Dormi lá. De manhã, um monte de gente se dirigia à praça. Fiquei encafifado pelo fato de todos carregarem uma “cadeirinha de praia” (há uma grande empresa produtora na cidade). Depois percebi que havia um palanque e julguei que fariam uma assembleia – uma estranha assembleia na qual os militantes ficariam sentados. Desejei que fosse o movimento de professores contra a colega censora. Uma senhora me esclareceu que os funcionários públicos exigiam melhores salários. Agradeci a informação, dei meu apoio à causa, mas saí de lá torcendo para que a tal diretora e perseguidora da literatura não levasse o dinheirinho a mais. Ela não merece. Quanto a mim, mereci degustar um churrasco na cidade, uma coisa dos deuses.

Ao deixar Porto Alegre, peguei um Uber dirigido por um rapaz jovem, que se mudou de Uruguaiana para a capital e ganha a vida como motorista. A conversa fluiu e, por sorte, encontrei um crítico de toda essa direita enlouquecida que ainda atua no país. Em seu perfil no aplicativo, ele diz gostar de filosofia, literatura e música. Imagino estar se sustentando desse modo, mas de olho numa outra vida. Desejo-lhe sorte. No voo, a mulher sentada ao meu lado – não sei se gaúcha, mineira, carioca ou extraterrestre –, leu a viagem toda. Título do livro: “A coragem de ser imperfeito” – na sinopse disponível na internet, está escrito: “aceite a sua vulnerabilidade e ouse ser grande”. Ah, os livros!

10.3.24

Maria Escolástica

 às crianças da Palestina


Dos filmes que têm circulado, inclusive candidatos ao Oscar, “Dias perfeitos”, de Wim Wenders, com o incrível ator japonês Köji Yakusho, foi o que me tocou mais profundamente. O enredo do diretor alemão e de Takuma Takasaki se passa no Japão, com atores japoneses, equipe japonesa e falado em japonês. É quase mudo, além de ser de poucos movimentos, ao contrário do que eram as fitas de Charles Chaplin ou Buster Keaton. A música é uma personagem, a voz do silencioso Hirayama, o limpador de banheiro público em Tóquio. Tenho assistido a algumas produções ótimas, como “Pobres criaturas”, “Anatomia de uma queda”, ou a não tão ótima “Saltburn”, e o de Wenders se diferencia delas por nos convidar a buscar um cantinho, tirar os sapatos e tomar um café no mundo interior. Os outros, ruidosos na sua maioria, são de embates, de personagens que se afirmam quando lutam contra um lá fora hostil. Hirayama não quer nada disso, ainda que não seja nem tolo nem alienado. Aos poucos, temos algumas pistas de sua vida e podemos levantar hipóteses sobre por que está ali, levando aquela vida simples, rotineira, sem grandes contrariedades.

Toda noite, Hirayama sonha imagens meio tremidas, cheias de sombras. Todos os dias, fotografa as sombras formadas por uma imensa árvore (a questão das sombras se explica, desde que o espectador espere o final dos créditos). E a esse respeito, houve uma coincidência. Um ou dois dias antes de ir ao cinema, acompanhei a live “A fim de poesia” que a poeta Noélia Ribeiro faz, desde o início da pandemia, no Instagram. Na temporada mais recente, ela mudou a dinâmica. Agora, em vez de convidar poetas e promover um sarau no qual eles leem seus poemas, ela e Fátima Ribeiro escolhem poesias e as leem. Naquela ocasião, Fátima leu um poema do meu “O sol pelo basculante” (editora Urutau), que reproduzo a seguir.

 

O homem íntegro

                                                                        a Eustáquio Grilo

 

Não sou desses homens que têm dois lados

o A em contraposição ao B

o beco às terças, a avenida aos domingos

o comezinho de costas para o incomum

a alma contra o corpo.

 

Mesmo assim ou por isso mesmo

amo desconfiado

trabalho desconfiado

vivo desconfiado

— há, na integridade, uma sombra.

 

Tenho, como todos,

peito e dorso

bunda e coco

ombro e sexo

joelho e calcanhar.

 

Dentro e fora, o único rosto

em feriados e dias úteis, um só esforço

na mesma bica, o sedento e o saciado.

 

Tomo como certa a hora de

cortar o cabelo. E como medo

inconfesso que me aparem a sombra.

 

 

Meu poema – aqui não há uma questão de valor ou coisa similar – faz fronteira com “Dias perfeitos”. Não é uma afirmação narcísica, mas a percepção de pontos de diálogos. Hirayama se encaixa bem no homem íntegro do poema.

Seja como for, e seja lá o que isso tudo é, Wenders berra a favor da simplicidade – em entrevista, ele disse: “Dias perfeitos é o mais próximo que já cheguei de fazer uma declaração sobre a paz” – e me remete a uma vida que já tive: a de jovem do interior de Minas. Lá viveu minha prima Maria Escolástica. Era sobrinha de meu pai, mas não diferiam muito em idade. Dona de uma casa movimentada – aos filhos e, depois, noras, genros e netos, agregavam-se sobrinhos, primos, vizinhos –, ela tinha uma máxima recorrente: tudo é bobagem.

Hirayama, ao dar acolhimento à sobrinha que foge da casa dos pais, leva-a para ver o rio, e ela lhe pergunta se o rio vai dar no mar. Sim. Ela pede para irem até lá. Ele responde que da próxima vez irão. A menina indaga quando é a próxima vez. E ele: a próxima vez é a próxima vez. Ela insiste. Ele mantém a resposta frouxa e acrescenta, agora é agora. Ambos saem pedalando e improvisando uma melodia para “a próxima vez é a próxima vez, agora é agora”. Uma cena linda, num filme de muitas cenas lindas. Bem, mas eles poderiam sair cantando “tudo é bobagem”. Minha saudosa prima Maria Escolástica está na gênese do filme de Wenders.


25.2.24

O perrengue da comunicação

 


Quando eu disser a vocês o que tenho a dizer, vocês me dirão – É isso o que tem a nos dizer? E eu direi – O que vocês queriam que eu dissesse?

Eu disse, ela disse — Repete. Eu repeti, ela repetiu – Repete. Eu repeti, ela repetiu – Repete. Eu repeti, ela disse – Você não se cansa?

A mãe perguntou ao filho se estava entendido. Ele disse que sim, só não entendeu exatamente o que deveria ser entendido. A mãe então concluiu – Ok, estamos entendidos.

Ele me pediu um minuto. Pegou um papel, fez um desenho. Era uma cena chocante, um monstro engolia uma pessoa pela cabeça. Eu ainda me perdia nos detalhes da gravura, e ele já me perguntava se, vendo e não ouvindo, tudo se esclarecera. Eu respondi – Bem, o desenho tem problema de perspectiva.

Quando ela começava a se despir, ele disse – Espera. Ela ficou estática. Ele não disse mais nada. Ela continua lá.

Do nada, ela diz – As árvores trocam mensagens umas com as outras. Eu pergunto – E daí? Ela responde – Daí que o desentendimento é maior do que imaginamos.

Ouvir, ouvi, mas ouvir é pouco.

O palestrante perguntou – Alguém? Eu levantei o dedo. Ele nem deixou eu me ajeitar direito na cadeira – E então? Eu respondi – Concordo. Ele se surpreendeu – Com o quê? Escandi as palavras – Com o que o senhor não disse.

O prefeito mudou o nome da rua. Todas as cartas endereçadas a ela foram parar numa rua homônima em outra cidade. As pessoas que as receberam abriram, leram e responderam uma a uma. Assim, aceitaram o convite para um date, o pedido de perdão, mas, num caso, o falso destinatário reclamou – Alguma coisa deve estar errada, o aluguel está em dia, o IPTU é que ainda não deu pra pagar. Não parou aí – E não me chamo Raimundo, Perivaldo é meu nome.

A professora pediu a atenção de todos – De todos. Começou então a falar de forma automática o discurso de começo de ano. Os alunos se distraíram em surdina. Quer dizer, Luisinha não, ela estava tão atenta que caiu no choro quando a professora disse que não eram dela aquelas palavras.

Discreto é o suspiro, no entanto é sempre bem entendido.

Tiramos a palavra na sorte. Fiquei pensando o que fazer com a minha. Enfim, decidi ficar calado, com o olhar de quem acompanha um voo de pernilongo.

Na voz miúda, dizem que a guerra foi perdida quando o comandante ordenou que atirasse a primeira pedra aquele que não sofreu por amor.

Bateu à porta da casa da namorada. Nada. Bateu de novo. Nada. Mais uma vez. Nada. A namorada, ao lado, não sabia o que fazer.

Ela deu um sonoro não ao pedido de casamento. O rapaz, assustado, mas célere, buscou uma saída – Esquece o casamento, vamos tomar um sorvete. Ela respondeu – Uma coisa dessas só faço depois de casada. E completou – Você tem uma bicicleta?

Depois de ler o jornal de cabo a rabo, a garota levantou-se e foi à cozinha. Lá encontrou a cozinheira. Elas se olharam, se olharam e mais uma vez se olharam. A garota saiu de lá certa de que o jornal jamais olharia para ela e a cozinheira. Jornal gosta é de distâncias.

Esse negócio de beijar na boca de olhos fechados tem deixado muita gente a ver navios.

Achou muita graça ter ganhado o prêmio de quem menos entendia piadas.

Escrevi muitos livros, compus músicas mil, pintei quadros a valer, pena que sempre estivesse dormindo.

Com a casa vazia, o rapaz anunciou – De agora em diante, falarei o que me der na telha. Gotejou então duas ou três ideias que as paredes, caso tivessem ouvido, o teriam tampado.

Eu queria dizer a vocês, mas vocês não me entenderiam. Então não digo. Será que vocês me entendem?


10.2.24

Um falcão de volta ao céu


Lá na rede social,

passa boi, passa boiada

às vezes a gente acredita,

noutras, pensa, “é marmelada” 


Nos primórdios do mundo virtual, o e-mail parecia uma coisa mágica, mas, com a chegada das redes sociais, um tempo depois, ele passou a quase nada. Estávamos diante de uma inovação que mudaria de vez – para pior e para melhor – nossas vidas.

As coisas ruins só fazem crescer: excesso de propaganda, suspeita constante de vazamento de nossos dados, ditadura do algoritmo, vista grossa dos donos das poderosas redes aos descalabros que circulam livremente por elas, verdadeira bomba capaz de destruir os alicerces da vida social em harmonia, a própria democracia. Tudo isso num ambiente – como outros tantos no capitalismo tão pouco concorrencial – de alta concentração: quatro ou cinco redes nos prendem a todos.

Dorrit Harazim, jornalista que dá gosto de ler, em recente coluna falava sobre as possíveis cem mil vítimas palestinas (não há contagem, apenas inferência) na guerra entre Israel e Palestina. (Não vou comentar esse conflito, que, a meu ver, está longe de ser uma simples resposta de Israel a um ataque terrorista.) Na conclusão de seu artigo, Harazim cita uma carta de John Steinbeck a Pascal Covici escrita no início da Segunda Guerra. Depois de o autor de        “As Vinhas da Ira” afirmar que a espécie humana não aprende as lições que toma (“a experiência de 10 mil anos não deixou qualquer marca sobre os instintos do milhão de anos anteriores”), ele conclui: “Não digo que o mal vence – jamais vencerá –, digo apenas que ele não morre...”. Essa percepção cabe bem para ilustrar o perigo que ronda as redes sociais.

Sejamos justos: existem as coisas boas. Já pensou a pandemia sem as lives, sem a consulta médica ou a terapia à distância? Melhor nem pensar ou pensar que, além disso, essas redes ainda permitem que façamos amigos a léguas de nossa casa e que reencontremos alguns deixados pelo caminho. No filme “Vidas passadas” (da sul-coreana Celine Song), por exemplo, dois amigos, namoradinhos na passagem da infância para a adolescência, conseguem, graças a uma rede social, se reencontrar doze anos depois de a menina, Na Young, ter se mudado para o Canadá. É um filme bonito, introspectivo – e que toca com delicadeza a questão da imigração –, no qual o mundo virtual só está ali de forma coadjuvante como deveria ser.

Nas redes, arredio como sou a grandes embates, quando não estou divulgando meus textos ou fazendo chacota da vida, me distraio com receitas culinárias ou macetes para disfarçar uma fenda na parede ou dar vida a plantas moribundas. Logo eu que quase não cozinho, não cuido de plantas e não tenho o menor pendor para pintar paredes, consertar ferro elétrico, enfim, para lidar com afazeres tão domésticos. Diante de minha confissão, não estranharia se me censurassem pelo tempo gasto com inutilidades e vissem em meu entretenimento um tico de tristeza doentia, uma queda pela escuridão. Se é assim, diante do breu e obediente a Thiago de Mello, eu canto.

Além desses vídeos sem-noção, curto outros simples, que – se não saíram da cabeça de uma Inteligência Artificial, hipótese a não ser descartada –, me enchem de esperança. São delicados os que mostram um urso panda brincando na neve e a dificuldade de uma elefanta ou de uma onça para atravessarem seus filhotes numa rodovia – tem sempre um que volta. Um vídeo me toca em particular: três pessoas, cientistas, imagino, chegam ao topo de uma montanha e tiram de uma caixa uma ave enorme, um falcão, se não estou enganado. Esse animal fica andando de um lado para o outro, estudando a paisagem, reconhecendo a casa, decidindo o melhor momento de voltar ao seu habitat. Ele vai para cá, vai para lá, vai e volta de novo até tomar coragem e despencar no céu. Vibro pela ave de voo tão seguro, mas igualmente pela atitude daquelas três pessoas cujos rostos não são mostrados. Elas devem ter resgatado o animal fragilizado e o levado a um centro de tratamento, onde ele foi recuperado. Aos poucos, treinaram a ave, a estimularam em voos controlados e, depois de muita observação, concluíram que era o momento de devolvê-la à liberdade.


29.1.24

Janeiro visto de um cesto de gávea

Nos devaneios a que me entrego vez ou outra e quase sempre, concluo, por exemplo, que não deveríamos nos assustar com a inteligência artificial, haja vista que a literatura é o resultado de uma certa IA. Assim como faz a máquina, para escrever um poeminha, é preciso ler outros tantos, misturar uns com outros, respeitar ou não a métrica, à moda de uns, as formas clássicas, à moda de outros. Um erudito talvez leia mil livros, a IA, alguns milhões, senão todos. No entanto, o primeiro vai ao banheiro, a segunda não. Nosso diferencial – e nossa vantagem – portanto, meus amigos, está no fato de irmos ao banheiro. O dia em que a máquina pedir um tempinho para fazer xixi, adeus humanidade.

Há algo de muito errado com nossos figurinistas, pelo menos os de novela. Em Paraíso Tropical – novela de 2007 que se passa no Rio de Janeiro, tendo Copacabana como o centro do mundo –, é sempre verão. Há o núcleo dos que jogam futevôlei e o dos jovens que frequentam a praia após as aulas. Há as meninas de programa em roupa minúscula fazendo ponto ao longo da orla. Enfim, é como é essa cidade-inferno. No folhetim, todavia, fora da praia, os homens se agasalham – de terno, no escritório, de casaquinho desses que as mães aconselham os filhos e as filhas a levarem caso o tempo mude, nos outros ambientes –, enquanto as mulheres não ou quase nunca não. Uma amiga lançou a ideia de que as mulheres com menos roupa obedeceriam ao velho machismo. Pode ser, mas eu vejo como um problema de verossimilhança (ou marketing da indústria do vestuário). Numa mesma cena, os homens – que já estiveram em marte – estão no inverno, e as mulheres – que transitaram por vênus –, no verão. Acordai, figurinistas.

Quando cheguei à Folha Seca, livraria no centro do Rio que completou no dia 20 de janeiro vinte e seis anos, encontrei seu dono, o Digão, carregando cadeira, ajeitando o piano e as caixas de som. Para quem não sabe: no dia de São Sebastião, o padroeiro da cidade, a Folha Seca promove uma festa de rua maravilhosa. Grandes músicos vão para lá e dão altas canjas. A vedete é um piano de cauda, que vai passando de mão em mão. A gente ouve em sequência chorinho, samba-jazz, bossa nova e o velho e bom samba. Pois bem, encontrei o Digão pegando no pesado e comentei que o havia conhecido quando ele era livreiro da Dazibao. Dei-lhe uma espetada: livreiro, não, um repositor de livro. Ele então me disse que aqueles eram tempos bons, agora, dono do negócio, carregava cargas mais pesadas. Dito isso, foi levar cadeiras para a turma do samba. A vida de um empreendedor cultural não é fácil.

A passagem de dezembro para janeiro foi, em termos de saúde, um pouco complicada. Nada sério, só aquelas chatices que surpreendem nosso corpo dando-nos um alerta de nossa mortalidade (será que devo almejar a Academia de Letras?). Primeiro foi um evento – realmente não sei como me referir a isso – de herpes-zoster. Apareceu no olho direito. Dei sorte, não tive dor, o que parece raro nesses casos. No primeiro dia útil do ano, fui ao escritório, o que só faço de quando em quando, pois trabalho à distância. No ônibus, um senhor caiu. Me levantei para ajudá-lo: me agachei, dei-lhe a mão, ele se apoiou em mim e se levantou. Quem por pouco não se levantou fui eu. Enquanto o ajudava, uma pinçada na coluna quase me nocauteou. Um anti-inflamatório e uns analgésicos aliviaram a crise nos dias seguintes. A Solange, que trabalhou em casa por trinta anos, quando soube do caso e de sua consequência lombar, me mandou um conselho: “Ó, vencida a barreira dos sessenta anos, ao presenciar um acidente assim, o máximo que devemos fazer é exclamar: Ah, coitado!”

Li mais devagar neste janeiro à beira dos sessenta graus. De todo jeito, coisas boas. Algumas estão aí à disposição dos leitores (“A casa da mãe dos homens”,  Telha, de Ione Mattos, e “As filhas moravam com ele”, Caos e Letras, de André Giusti), outras têm de ser garimpadas em sebos (“A língua da serpente”, Lê, de Jeter Neves) e, por último, um inédito. Sobre este não anuncio o título nem o autor, mas aguço a curiosidade de vocês: é um livro que, numa escrita leve e sem pompas, não parece muito diferente, mas é.

Estar num cesto de gávea pressupõe estar num barco à vela, a caminho de uma Índia qualquer, encarregado de avistar terra logo adiante. Não estou em barco nenhum. A imagem serve para dizer que estou sobre as águas da cidade submersa pela chuva. Sob os desígnios do deus marítimo e menino, o El Niño, com o auxílio luxuoso de anos de crescimento urbano desordenado e incompetência misturada com má-fé (ou pior) do poder público, as águas sobem pelas ruas e derrubam as casas dos morros. A chuva não tem piedade de ninguém, ou, um pouco a Caetano e Gil e sendo mais exato, ninguém, não, dos que são “quase pretos, ou quase brancos, quase pretos de tão pobres”.

15.1.24

A música alimenta

Comecei a gostar de música quando era miúdo de tudo, criado num ambiente em que não era raro ter cantoria, com sanfona e violão. Nascido no interior de Minas Gerais, a música caipira – que, para diferenciar da sertaneja atual, ganhou o sobrenome raiz – sobressaía às demais, ainda que, numa casa de irmãos mais velhos e antenados, eu ouvisse desde os primeiros passos de um Chico Buarque até os garotos de Liverpool que disputavam a fama com Jesus Cristo. Depois, na adolescência das décadas seguintes, para desespero de mamãe, o Pink Floyd e mais tarde o Queen fizeram pouso e escândalo na nossa casinha no Beco dos Aflitos. Ao contrário de muitos amigos, não deixei de lado a MPB, e Milton Nascimento tratou de abrir a porta de um mundo amplo e diverso.

Foi um movimento natural querer ser um compositor de música e letra. Por sorte, nada do que fiz permaneceu, ainda que eu me lembre de trechos como: “você que faz minha cabeça vem comigo pr’eu não parar” (parceria com meu primo Paulinho de Araçatuba); “Conrado, hoje jornal fechado, ilusão de tê-lo sempre ao meu lado”; “Luz e companhia, um fósforo aceso na madeira podre do coração azul”. Sabe-se lá por quais motivos guardamos coisas assim e esquecemos nomes, senhas, o caminho de casa em dia de porre homérico, mas isso não importa, o que vale é que a música me ajudaria a escrever meus contos (não guardei o primeiro, mas sei do que tratava: um funcionário da Petrobras via uma sujeira no chão da sala de sua casa e refletia sobre ela), poemas e crônicas. Esse estímulo seria intensificado quando, um pouco depois, cheguei, como ouvinte, à música instrumental: um pouco de chorinho, de violão e piano brasileiros, depois jazz e umas investidas na música clássica.

Se eu, escritor principiante, não tivesse nenhuma ideia, me sentava diante do computador, ligava uma música sem palavras e, não demorava muito, surgia ali na tela uma frase e logo depois outras tantas que vinham em companhia ou socorro da primeira. Bem diferente de hoje: se começo a escutar música no meio da noite, batata: vou ficar no fone até duas, três da matina, sem fazer nada além daquilo. Nada? Ora nada, a música é uma amante sem corpo que liga todas as máquinas de minhas fantasias, sem me dar o alento do gozo final. Vou querer (e poder) sempre mais. O problema será encontrar forças no dia seguinte. Por isso, tenho preferido manter a audição como uma atividade diurna, a melhor companhia nas caminhadas feitas nessa paisagem chamada Rio de Janeiro. Mas não é a mesma coisa. Na caminhada, a música é apenas uma presença discreta, um, como diria Marisa Monte, barulhinho bom. O fato é que a música já não me faz escrever – até mesmo atrapalha –, mas não consigo considerá-la apenas um entretenimento. Vou contar uma historinha que ilustra bem isso.

Dia desses, eu fazia uma coisa rara: ver vídeos no Youtube. Assistia distraído à playlist do Duo Metafonia, mais ouvindo do que vendo. Batucava os dedos, balançava o corpo, mas aos poucos a voz, as melodias, os instrumentos, os arranjos e as letras foram pedindo uma atenção mais aguda. Como bom mineiro, me perguntei que trem bonito era aquele.

Que trem bonito é aquele? Já bem atento, fui me respondendo: é o trem que trafega na tradição nobre da nossa cultura, de músicos que, compondo agora, estão sendo parceiros de Chiquinha Gonzaga ou de Sueli Costa, de Caymmi ou de Roberto Mendes, de Noel Rosa ou de Aldir Blanc. O Duo Metafonia (@metafonia.duo, no Instagram) fala com a tradição, a rearranja e, como os grandes, joga para o futuro uma versão modificada dessa tradição. Enfim, produzem um som sem firula e sem mesmice.

Nora Fortunato – poeta e violoncelista da Orquestra Petrobras Sinfônica – e Walter Ribeiro – músico popular e cria da Bahia – fazem música para criança (no Spotify, Cirandaê) e para adulto. Assim como Vinícius e sua “A Arca de Noé”, o duo vê na criança uma inteligência a ser respeitada e provocada. Quando se volta aos adultos, alcança aquele ponto em que a música é simples, mas não simplória, é sofisticada, mas não excludente. Nora e Walter compõem e escrevem caprichados arranjos. Além disso, transformam uma história do João Paulo Vaz em música para criança e revelam o Nuno Rau como um letrista tão bom quanto o poeta que é.

Estaria diante de um duo bom de ouvir não fosse o caso de a Nora e o Walter terem-se tornado meus amigos, um desses que convidam a sua casa e servem cerveja, que bebo sem moderação. Servem também um bonito estrogonofe, que eu, saciado pelo violão e pela voz do Walter e pelo contracanto do violoncelo da Nora, me privo de comer.

21.12.23

O raro romance de Ione Mattos

 “A casa da mãe dos homens” (editora Telha), novo livro de Ione Mattos, é um romance, mas um romance com uma personalidade muito própria, um estranho quando comparado à produção atual com a qual tenho contato, ainda que, como muitos outros, dê voz a quem vive à margem.

Ione traz para o centro da narrativa pessoas contra as quais a sociedade costuma torcer o nariz, seja por suas características físicas (a obesa, a anã), seja por suas escolhas pessoais (o homem que se veste de roupas femininas, os que praticam o poliamor, o homem que se quer manter virgem até o casamento). Além disso, a casa é em si uma personagem que interage com os personagens (essa característica me faz pensar em “Crônica da casa assassinada”, de Lúcio Cardoso, embora não saiba bem por que caminho) e abriga vivos e mortos, estes relacionando-se com uns poucos escolhidos entre aqueles.

O romance corre em dois tempos. No passado conhecemos a família que é dona da casa. Descobrimos então como a casa foi cair nas mãos de duas mulheres muito raras, a bisa e Mirtila, mãe e filha, que não têm uma ligação de sangue com os donos. Os donos são gente rica, barões e baronesas. Mas, e aqui começam os “desvios” que Ione tinge com as cores mais fortes (e agradáveis), entre eles há um trisal: o barão (filho da grande baronesa), sua mulher (uma feminista de primeira hora) e uma prostituta. Há uma atenção especial e sem preconceito sobre esse relacionamento, indicando que o amor não se adequa a modelos.

No presente, a casa é uma ilha, um pedaço de Brasil – um país possível – que busca preservar aquilo que seria a essência humana: o amor, a tolerância, a solidariedade. Seus moradores vivem no trânsito entre esse espaço especial e a hostilidade da vida urbana hoje. O choque entre os dois mundos é inevitável e chegará a extremos ao longo da história.

Todos os personagens estão fugindo ao estereótipo pelos quais veem sendo atacados desde sempre, mais recentemente pelas hordas direitistas. Nessa caminhada, os “abandonados” (e os “assistidos”, nome dos sem-teto que são alimentados e, algumas vezes, acolhidos pela casa) se encontram e se fortalecem (mas há os arranca-rabos, os conflitos, não é um mar de rosa, ainda que seja um porto seguro).

Não me proponho a contar a história, fazer um resumo, deixo que cada leitor vá lá e leia, aliás, aconselho que se faça isso. O que importa é que, como já disse, Ione coloca o amor, a solidariedade, a compreensão, o acolhimento (da casa, de seus moradores) como peças-chaves na sobrevivência humana e atuam como um elemento de fortalecimento da experiência de vida. Quando o mundo está envolto em guerras, vivendo sob regras não cumpridas por seus defensores, gente hipócrita em grau máximo, essa casa da mãe dos homens recebe o divergente, o expulso, o aprendiz. A figura feminina, nessa visão, é a única capaz de reequilibrar o mundo. No livro (assim como na vida), o feminino é forte e diverso – está na feminista do começo do século XX, nas mulheres que transformam o casarão em espaço de proteção e crescimento, na jovem muito cheia de si, no homem que se veste de mulher – e, sem que haja um foco proposital e forçado nele, é a grande personagem que acompanhamos. A casa, outro feminino, também.

O livro se vale de um espalhado diálogo da autora com escritores, ficcionistas ou não, e se faz presente ora na voz de um dos narradores (no passado, é um barão machadiano que nos contará sua história de um amor não convencional), ora nos títulos, ora em alguma história que se conta. No belo final, a personagem mais velha, a bisa, conta à mais nova, Justina, uma possibilidade de criação do mundo. Não opta nem pela bíblica nem pela científica, escolhendo uma da cosmogonia indígena, a que coloca como princípio de tudo a criação, do nada, de uma mulher.

Apesar dessa clara leitura feminina, não há um desprezo pelos homens, ao contrário, o caminho está aberto à comunhão, desde que o princípio seja o amor. A figura de Lemuel serve bem para ilustrar essa linha. Ele chega à casa, depois de ter vivido sua infância num orfanato, e ali vai viver entre aquele ambiente quase utópico – onde convivem e se respeitam figuras tão diferentes, onde o trabalho é sempre compartilhado – e, um pouco depois, se ver atraído pelo mundo-mundo, este em que há disputa, ambição; o mundo masculino, afinal de conta. Ele viverá então a tensão desses dois polos até que a complexidade de um mundo habitado por vivos e mortos aja sobre ele. Seja como for, ele é uma espécie de espinha dorsal do romance.

No romance de Ione, o final é triste. No romance de Ione, o final é feliz. Eu bem disse que estamos diante de uma peça incomum.




18.12.23

Ainda em Minas

Depois de passar uns dias em Tiradentes, não voltei ao Rio, fui a Belo Horizonte ver familiares e amigos. Na capital mineira fiquei duas semanas e, ao contrário de outras vezes, circulei pouco, ficando mais na casa de minha madrinha e irmã, a mãedrinha. Eu e ela estávamos trabalhando e, aqui e ali, assistíamos a alguma coisa na TV.

Vimos um filme meio sessão da tarde, “Nosso amigo extraordinário”, uma espécie de “E.T., o extraterrestre” que se desenvolve numa situação diferente da original: em vez de aparecer para as crianças, o de agora aparece para uns velhos que, até aquele momento, fugiam da solidão indo assiduamente a encontros públicos demandar melhoras na cidade. Filme simples, mas bonito, com ótimos atores: Ben Kingsley, Jane Curtin e Harriet Sansom Harris. Vimos também o Som Brasil com o Zeca Pagodinho, tremendo artista. Ele contou que, quando vendeu um milhão de cópias de seu primeiro disco, a vida não mudou muito porque ele andava e continuou a andar pelas favelas, onde já era conhecido. No final dos anos 1980, eu trabalhava no pé da Mangueira e sabia – os meninos que tomavam conta de nossos carros nos contavam – que ele passava algum tempo por ali. Imagino que tomava umas, fazia uns sambas, enfim, era o autêntico boêmio que ainda não deixou de ser, com a saúde de ferro de quem tinha quarenta anos menos. O danado do Zeca Pagodinho, e é isso que interessa, canta muito, aquela voz meio detonada faz milagre durante a interpretação de um samba.

Ainda na estadia mineira, eu e mãedrinha assistimos aos quatro primeiros episódios de “Betinho: No fio da navalha”, direção de Lipe Binder e Julio Andrade. Há muitas maneiras de ver a série. Betinho foi um protagonista da história recente do Brasil e, nesse sentido, sua trajetória mostra como os vestígios da ditadura custaram a desaparecer, ou nem desapareceram de vez, basta pensar na anistia injusta. Refazer a vida naquele ambiente não foi nada fácil, e a criação do Ibase mostra bem isso. Num ambiente tenso, mas também esperançoso, a AIDS apareceu e mudou o mundo, em particular o dos hemofílicos, como Betinho e seus irmãos, Henfil e Chico Mário. Enfim, aos que dão as costas à história, a série é um bom chamado à realidade.

Tenho também uma leitura mais pessoal. Não fui próximo do Betinho, mas, graças a amigos que trabalharam no Ibase, em particular Wania Santanna e Atila Roque (personagem na série), convivi um pouco com ele. Ao lado daquela doçura tão presente em seu olhar, havia um sujeito muito divertido, de uma ironia até ácida. Como mostra a minissérie, Betinho gostava de música. Graças a isso, tive a sorte de ir com ele e Atila a um show do Johnny Alf e, em torno de uma roda de música, o recebemos em casa, naquela que dever ter sido uma de suas últimas saídas. Na época, eu e ele não podíamos beber, então lhe ofereci uma cerveja sem álcool. Ele não sabia daquela “novidade”, mas garantiu que a partir daquele momento sempre teria alguma na geladeira. Por essa tímida proximidade, a série tende a me emocionar, o que não aconteceria se não fosse o trabalho artístico. Aí está mais um acerto: a constituição de época, o ritmo da história e principalmente a atuação dos atores. Esse Julio Andrade é um espanto, e não o vejo trair a memória física que guardo do Betinho – o olhar, o corpo arqueado, os gestos das mãos, está tudo ali.

Proximidade maior tenho com a Maria Nakano, o que me faz muito bem. Maria é o tipo de pessoa que nos abraça e acolhe em sua casa, uma raridade neste mundo de isolamento e egoísmo. Certa vez, lancei a ideia de fazermos um livro sobre a sua história, Maria desconversou. Penso que nisso haja um pouco de timidez, de não querer se expor, mas também uma sabedoria, a de que, tendo participado de um momento tão importante do país, melhor deixar sua imagem no emaranhado do coletivo. Entendo bem, e admiro.

Apesar do recolhimento, saí algumas vezes em Belo Horizonte. Com Ronaldo Guimarães, que acaba de lançar “O dia em que os Beatles visitaram Belo Horizonte” (Editora Lê), fui a um bar em Santa Efigênia, no mesmo dia em que tomei umas cervejas com o Celso Faria. Sérgio Fantini, mais uma vez, me recebeu em sua casa. Dessa vez, foram também Ádlei Carvalho (que está lançando “Céu de luz Marina” pela Editora Patuá), Aloísio Sá, o Lelu, e Tadeu Sarmento, que arrumava as malas para ir ao Rio de Janeiro receber, por “Meu amigo Pedro” (Abacatte Editoria), o prêmio Biblioteca Nacional, na categoria Literatura Juvenil. Na livraria Quixote, um monte de amigos se reuniu para ouvir, entre outros, Caio Junqueira Maciel e Adriane Garcia falarem de seus livros da coleção “BH, a cidade de cada um”. Depois da conversa, fomos eu e Fantini à casa do Caio. O Vasco conseguiu ficar na primeira divisão, o que deixou o anfitrião feliz demais. Já eu, botafoguense, amarrei outra decepção, o time, para jogar a Libertadores, terá de disputar uma etapa anterior. Tive ainda um dia esplêndido na casa do poeta e conterrâneo Antonio Barreto e de Graça Sette, amiga que é uma usina de fazer pensar. Na festa de meu cunhado, eu e meus três irmãos nos juntamos depois de uns cinco anos. Ah, sim, fiz umas estripulias com meus sobrinhos Cristiano e Conrado e com o primo Lucas. E o melhor de tudo: vi meu querido Apollo, que nasceu meu sobrinho-neto e agora é meu neto.

4.12.23

Um momento mágico

Eram dez da noite, e eu estava no Conto de Réis, restaurante bem no Largo das Forras, em Tiradentes. Com um copo de cerveja numa das mãos e um feijão amigo na outra, observava o movimento da praça. Algumas pessoas estavam entretidas com as imagens transmitidas na fachada da Capela do Senhor Bom Jesus da Pobreza, outras simplesmente passeavam, indo ou vindo de algum lugar, talvez da casa de Papai Noel, talvez de um dos concertos do Festival Artes Vertentes. Sentado com moradores da cidade, ouvia opiniões sobre a tentativa de, na época de Natal, fazer da histórica cidade mineira, tão rica em eventos culturais, uma espécie de Gramado. Uns concordavam com a ideia, outros não. Não que eu não tenha opinião sobre isso (não gosto), mas meus olhos estavam encantados com o trânsito de crianças, jovens e velhos pela rua, todos sem nenhuma preocupação com a violência. Essa tranquilidade me remeteu à minha infância, à minha cidade de origem, que já foi pacífica e não é mais tanto. Enfim, enquanto meu caçula tinha o celular roubado no Rio de Janeiro, e eu ainda não sabia, Tiradentes curtia sem medo uma noite fresca, quase fria, nesse verão dos diabos.

Não sou o único, mas, ao caminhar por cidades históricas, sinto a presença fantasmagórica dos inconfidentes, de “Marília de Dirceu” e Xica da Silva, além de ver nitidamente a dor da escravidão cunhada em cada parede ou muro erguidos. Atualmente, encontro nesse patrimônio de orgulho e vergonha um pouco do que esperamos do mundo: um lugar de pessoas despreocupadas, passeando enquanto a noite é entornada na madrugada. Restaram poucas ilhas calmas em nossa sociedade insana.

Em Tiradentes, tenho sido apresentado a pessoas bacanas. Os cariocas Sérgio e Beth, donos do Conto de Réis, a família em torno do Sabor Rural – Kleber e Fernanda à frente –, a Carmen, funcionária de um banco e que exige que eu abra uma conta antes de me dar um cartão de crédito sem limite e anuidade, uma tremenda burocracia, mon cher. Também Luciana, nascida em uma cidade vizinha de Passos, Carmo do Rio Claro, que me vem à memória por seus doces caramelizados e artesanais (verdadeira obra de arte) e sua tecelagem em tear manual bonita de doer. Sem contar o Gabriel Vilella, criativo diretor de teatro. Quem me facilita tomar contato com os tiradentinos, poucos por nascimento, a maioria por exílio espontâneo, são meus amigos Marco Ajeje e Tereza Portugal. Eles se mudaram para a cidade há uns quinze anos e hoje são bem conhecidos, não só por sua simpatia, mas também pela qualidade do trabalho que fazem na Divinas Gerais, oficina de móveis e artes, e nas associações da sociedade civil a que pertencem ou trabalham como voluntários. Com eles, começo a tomar intimidade com a cidade e já posso frequentar sozinho um boteco e me sentar com um conhecido. Por isso, abraço esse resistente patrimônio histórico onde ainda (tomara que para sempre) se respira sem aflição e medo.

No último final de semana de novembro, Maria Valéria Rezende, premiada escritora, estava em Tiradentes e nos encontramos. Por ela ser filha de mãe e neta de avô passenses, nós nos chamamos de primos. (Seu avô, Elpídio Vasconcelos, foi um artista plástico e fotógrafo que, na primeira metade do século XX, lançou o primeiro livro retratando Passos.) Na infância, frequentando a cidade de seus ascendentes, a prima entrava em casas de familiares para um dedo de prosa, um gole de café, uma degustação de quitandas. Ela tem a impressão de que, de casa em casa, entrava em todas, portanto os passenses seríamos todos do mesmo sangue. Não só concordo como, se for o caso, comprovo com um teste de DNA.

Maria Valéria participava do Festival Artes Vertentes. Fez oficinas de haicai, lançou “Toda palavra dá samba” pela estreante editora paraibana Dromedário, bateu papo com jovens que a vão descobrindo. Deu o show de sempre. Dessa vez, estavam com ela duas de suas irmãs, Valentina e Viviana. Uma primaiada só. Certa hora, consegui sequestrar as três e levá-las à Divinas Gerais. O encontro com a arte do Marco Ajeje (logo incorporado ao ramo sírio-libanês dessa família elástica) foi, nas palavras da Vivi, o momento mais emocionante da viagem. Marquinho – primo delas, meu irmão – é um artista imenso. Seus móveis – feitos em grande parte de madeira de demolição – são, além de bonitos, funcionais; suas esculturas, um deslumbre. Maria Valéria e ele pareciam velhos conhecidos, o que sempre acontece, isso é, dois artistas, se controladas suas vaidades, são afinal velhos conhecidos e bons parceiros.

A escritora ainda conheceu pessoalmente o Celso Faria, violonista de Passos, morador de Belo Horizonte, que fugiu para Tiradentes para vê-la de perto e não deve ter se arrependido. Na companhia do Celso estava Carminha Guerra – musicista responsável pela gravação de discos de poetas como Adélia Prado e Thiago de Mello, além de muitos musicais, como o de Maria Lúcia Godoy (por coincidência, vizinha das primas Rezende em Belo Horizonte) –, que chegou a essa turma meio desavisada. Lá pelas tantas, ela adjetivou o momento como mágico. Graças também a ela, foi mesmo.

20.11.23

Futebol e outras frivolidades

Vocês me desculpem se trato de temas amenos. Amenos, não, insignificantes. É que os dias andam difíceis, as guerras, televisionadas ou não, matam crianças sem nenhuma piedade, desrespeitando seus próprios códigos de ética. Dito isso, enfatizo: para minha saúde, caçar assuntos até frívolos é fundamental. Assim, gasto umas quatro horas – tempo estimado para escrever uma crônica – transitando nas nuvens, e você, caro leitor, cara leitora, se distrai por uns cinco minutos. Claro, isso se der tudo certo na minha escrita e na sua leitura.

Sou botafoguense, logo aliado do sofrimento. Essa pecha grudou no time e ninguém consegue desgrudá-la. Agora, por exemplo, depois de termos liderado o campeonato com até treze pontos à frente do segundo colocado, a última rodada nos deixou na vice-liderança e corremos o risco de nem ir para a chave de grupo da Libertadores. Mas meu assunto não é o Botafogo, que só está aqui para servir de mote a assuntos futebolísticos, que podem ou não ser os únicos tratados adiante. A ver: escrever é uma aventura.

A última vez que o Brasil sagrou-se campeão mundial foi em 2002. Era um bom time, com craques como Ronaldo e Ronaldinho, Rivaldo, Dunga, Taffarel, Cafu, enfim, gente cujo nome já revela um jogador de futebol. Naquela equipe, havia uns nomes mais sofisticados, Roberto Carlos, Gilberto Silva, Edmilson, apontando para uma mudança que ocorreria daí em diante. Se vamos para trás, Romário, Bebeto, Zinho, e mais atrás ainda, Jairzinho, Gérson, Tostão, Zagalo, Vavá e os deuses Pelé e Garrincha. Minha tese: o que faz o Brasil ganhar campeonato são os nomes de seus jogadores. Neymar, Ederson, Emerson Royal, Gabriel Jesus anunciam um fracasso. Melhor convocar um Tiquinho, um Tche Tche, até mesmo, por exótico, um John Kennedy ou uns caras que têm me chamado a atenção – pelo nome, sempre pelo nome –, Praxedes e Galdino. Nomes menos usuais e bons apelidos são uma indicação de que os donos daquelas pernas sabem correr, pular, passar a bola, driblar ou impedir o drible, fazer ou evitar o gol, enfim, sabem jogar o bom e velho futebol da escola brasileira.

Mal elaboro a teoria, dou o assunto futebol por esgotado. Apesar de minha descrença espiritual, estou em período de oração pelo meu time, apostando que, pelo fato de poucas vezes demandar um socorro divino, eu possa ser ouvido e atendido.

O que haverá de frívolo além do futebol? Concurso de miss? Não, disso não falo, não é assunto de meu interesse. Embora essa coisa de miss me faça lembrar de um romance lido recentemente, Pastoral Americana, de Philip Roth. Nele, Seymour Levov, o personagem central da história, é casado com uma miss. E daí? Daí nada, foi só uma lembrança. Mas já que falei do livro, tem uma coisa espetacular na literatura do Roth: a concatenação feita entre a vida miúda (a minha, a sua, a daquele Levov, o Sueco, como é chamado) e a política. Nisso, ou também nisso, ele é mestre.

Vejam que só de citar aquilo que me parece a coisa mais leve do mundo, o concurso de miss, aliás, evento que resiste fora da grande mídia, esbarrei na literatura. E literatura não é nada frívola. Até os textos ruins ou de entretenimento não o são. A literatura é coisa séria, mesmo quando não é. Se é assim, eu deveria cortar os dois últimos parágrafos, mas me custaram um bom tempo, me afeiçoei a eles e os manterei.

O fato de a literatura nunca ser frívola não quer dizer que ela e seu entorno não tenham sua graça. Me despeço dando prova disso com um trecho de uma carta que Macedonio Fernández, escritor argentino estranhíssimo – autor, por exemplo, de “Museu do Romance da Eterna”, um livro cheio de prólogos a um romance que afinal não se escreve –, remeteu (ou não) a Borges. Encontrei “as (de maneira nenhuma) mal traçadas linhas” no site do La Nacion, com data de 11 de setembro de 2007, mas o texto traduzido estava em um post em rede social de Adaubam Pires, que afinal não sei quem é.

“Desculpe-me por não ter ido ontem à noite. Eu estava indo, mas sou tão distraído que no caminho me lembrei que havia ficado em casa. Estas constantes distrações são uma vergonha, e às vezes esqueço de me envergonhar também”.

6.11.23

Psicologia no busão

Antes de tudo, preciso falar de ônibus lotados, ou não exatamente deles, mas de uma das razões por que ficam lotados. A partir da minha experiência no Rio de Janeiro, e não só o de fevereiro e março, alô, alô, seu prefeito, aquele abraço, os ônibus lotam porque sua frequência é incompatível com o fluxo de passageiros. Mas há algo pior. Desde que alguns conhecidos abriram um sebo-livraria em Laranjeiras – a maravilhosa Casa 11 –, me desloco bastante entre meu bairro, Botafogo, e lá. Antes até de eu me mudar para a Cidade Maravilhosa, quer dizer, bem mais do que quarenta e três anos, já existia a linha circular ligando o Cosme Velho ao Leblon. Quem está em Botafogo, portanto, pode ir a Laranjeiras e voltar de lá sem problema, pois o bairro está na trajetória. Quer dizer, podia. A linha não acabou, mas cadê os ônibus? Cadê, prefeito?

Dia desses, esperei de quinze a vinte minutos pelo famigerado e, como não veio, peguei um alternativo, que nos deixa no início de Laranjeiras e nos obriga então a tomar outra condução para chegar ao interior do bairro ou caminhar. Quando se tem tempo, a segunda opção é ótima. Num momento de correria, a coisa aperta. Foi o que me aconteceu naquele dia, eu não tinha tempo, mesmo assim, desci do ônibus e, suspeitando de que esperar poderia ser uma cilada, andei até a livraria.

O que quero contar – passado o momento usuário prensa o prefeito, que por sua vez não vai se importar com nada disso – é o que me aconteceu no ônibus, este que estava lotado e tomei com pressa. Minto, não aconteceu comigo, nem posso dizer que vi, pois não vi e sim ouvi. Nessa era de podcast, os ouvidos estão bem treinados.

O ônibus levava trabalhadores de volta para casa. Me posicionei em pé já perto da porta de saída, precavido que só. Espalhadas ao meu redor, nos bancos à minha esquerda, atrás de mim, e muitas, feito eu, em pé, iam várias mulheres. Imagino que algumas trabalhem nas clínicas e em hospitais da redondeza, outras devem ser domésticas, cuidadoras, atendentes de loja. Elas conversavam alto, de um jeito informal e íntimo, próprio de quem se esbarra com frequência. Isso acontece no transporte público, sei até de festas de fim de ano dentro de ônibus. Bem, mas as mulheres falavam, falavam muito e desordenadamente (para quem não estava no assunto). De repente, contando um caso, uma voz sobressaiu às demais.

De uns tempos para cá, ela passou a ter umas tremedeiras. Foi ao médico, fez exames. Nada. Foi aconselhada a ir a uma psicóloga. Sessão marcada, presença garantida. O resultado a deixou fora do eixo. No consultório, falou com as paredes, pois a outra nem tchum. Como se não bastasse, ao final perguntou à psicóloga se lhe indicaria um remédio, e a resposta foi não. Ela era esperada na outra semana, no mesmo horário. Onde já se viu uma coisa dessas? A mulher queria ouvir seus segredos e não lhe dava nada em troca. Preferia seus tremores. O pior, no entanto, ainda viria: a “doutora” deu uma cruzada de perna digna de Sharon Stone em “Instinto Selvagem”. Puro assédio.

Antes que eu fosse em busca de minha psicologia de botequim para aplicar àquela história, a senhora já se queixava do ônibus lotado. Era um perigo, ela disse. Nisso veio uma moça pedindo licença, pois saltaria no próximo ponto. A passageira falante perguntou se ela era homem. A pergunta preconceituosa não encontrou uma resposta à altura, a moça simplesmente disse não e avançou sobre o espaço que lhe foi aberto. Quando ela desceu, a trêmula comentou que, se fosse homem, não passaria atrás dela, a menos que se virasse de costas. Acontecem muitas histórias de violência sexual em ônibus e trens lotados, eis uma verdade.

Essa passageira, na realidade, era fogosa, seu assunto principal era de cunho sexual. Suas amigas, sabendo bem disso, a provocavam. Uma lhe perguntou sobre o novinho. Ela suspirou, diminuiu um pouco a voz, um pouco mesmo, um quase nada, um faz de conta que baixava a voz, e começou a falar da gostosura do rapaz. Ele era gordinho, o que só a deixava mais encantada – não era bem essa palavra – e saudosa, apesar de ser apenas uma relação idealizada. O rapaz nem sabia de seu amor, o que não tinha importância. Ela suspirava, e isso já lhe valia uma alegria, um prazer sem fim, eu diria.

Coincidiu de descermos juntos. Eu ansioso, ela com uma expressão marota, própria de quem se alegra por ter feito as pessoas rirem. Pessoa leve, apesar de tudo. Eu poderia dizer a ela que um bom psicólogo a ajudaria com aquelas tremedeiras sem diagnóstico e, até quem sabe, a vencer a timidez e chegar junto de seu crush. Mas não disse, eu estava a um passo de me atrasar para o compromisso em Laranjeiras, que antecedia outro que me levaria de volta a Botafogo. Eu, na realidade, tremia de raiva do prefeito e de pressa, o que me fez voar e chegar a tempo aos dois.


7.10.23

O encanto estrangeiro

 Não é raro rirmos do estrangeiro. Tampouco é raro a troça desandar para o preconceito, como é o caso do português entre os brasileiros. O que, nesse caso, é estranho, pois, veja bem, quando eles chegaram por aqui, havia apenas os indígenas, logo as diferenças evidentes entre ambos os grupos eram tão grandes que, diante dos sustos recíprocos, deve ter sobrado pouco espaço para graça. Tudo bem, a nudez de uns e o excesso de roupas dos outros podem ter se traduzido em dedos apontados para lá e para cá e risinhos de canto de boca. Imagino que o português só tenha virado piada depois de o país ter alcançado uma vida urbana mais intensa, quando os escravizados já eram uma parte substantiva da população.

Galindo, professor, tradutor e escritor, em seu livro “Latim em pó” defende que o “brasileiro”, nosso verdadeiro idioma, nasceu de uma mistura do português de Portugal do século XVI com as demais línguas que por aqui circulavam, em particular as indígenas e as africanas. Ele acaba por concluir que o brasileiro é o pretoguês, reforçando a influência africana no nosso modo de falar. Se é assim, enquanto nossa língua se distanciava do português castiço, o sujeito verdadeiramente brasileiro que se estabelecia passou a ironizar o colonizador. Da ironia à piada e dela ao preconceito é um pulo.

Apesar do perigo em errar a dose, é difícil não rir de um estrangeiro, que, a bem da verdade, nem precisa ser de outro país. Nasci no interior de Minas e em cada uma de minhas mudanças convivi com ironias e gozações. Quando fui para Belo Horizonte, brincavam (estou sendo suave) com meu “erre retroflexo”; ao chegar ao Rio, com meus excessos de “uais” e “nossas” e “virgens marias”. Mesmo hoje, vira e mexe alguém aponta alguma de minhas notas dissonantes ao ouvido carioca. É do jogo.

Fui fazer um curso em Madri e, num fim de semana, eu e um colega chileno conseguimos uma viagem bem barata para Lisboa. Ficamos dois dias por lá, tempo suficiente para conhecer um pouco da cidade, comer uma boa bacalhoada servida por um garçom goiano e ouvir uma apresentação muito triste de fado. E, claro, para enfrentar as diferenças — bem além da língua — entre o português e o brasileiro. Perguntei a um taxista aonde ia o trem que passa sobre o Tejo. Ele me corrigiu: “O comboio?” Concordei. Ele então respondeu à minha pergunta: “Ora, pois, para o outro lado, mas depois regressa”. O chileno, que não falava bulhufas de português, caiu na risada. Isso de compreender sem entender acontece. Na Alemanha, eu sabia exatamente se meus amigos mantinham conversas amenas ou não — e desconfiava de quando caçoavam de mim. Seja como for, e voltando a Portugal, a beira do Tejo era o ponto das baladas. Fui ao banheiro de um dos bares, e todas as piadas que fazemos com os portugueses estavam pintadas (não pichadas ou rabiscadas) nas paredes, com um detalhe: os personagens tacanhos éramos nós, os brasileiros.

Um funcionário do instituto de estatística da Espanha veio fazer uma consultoria na área em que trabalho no IBGE. Um dia o levamos para almoçar num local mais ajeitadinho. Escolhemos um restaurante mineiro, de que, aliás, ele gostou muito, achou a comida parecida com a espanhola. Cerveja aqui, caipirinha ali, ele, mais solto, afirmou que na Espanha a mulher ideal era a dinamarquesa; em Portugal, a polonesa; na Alemanha, a espanhola (posso ter trocado as nacionalidades, mas o espírito era esse). Dito isso, quis saber qual era a mulher ideal para o brasileiro. Um gaiato gritou lá da ponta oposta da mesa: “A do outro”. O espanhol gostou tanto da resposta que passou a contar a história, agora anedota, em seus cursos. Sei disso porque fui aluno dele logo depois. Quando viajei para fazer o curso, levei-lhe de presente uma boa cachaça. A primeira pergunta que me fez foi se poderia colocá-la no congelador, feito uma vodca. Não tinha ideia, mas ele, passado um tempo, me disse que colocou e ficou muito bom.


Obra de Goya



Esse espanhol, Manuel, seu nome, teve disposição para passear comigo por Madri. Fomos ao Museu do Prado, que ele conhecia em detalhes graças à sua mulher, ex-funcionária de lá. Diante de cada obra, meu anfitrião discorria sobre o período em que ela foi criada, a técnica utilizada, dava alguma palavrinha sobre a biografia do artista, em particular de sua relação com o poder, ilustrava, enfim, os Velázques, Rubens, El Greco espalhados pelo salão. Uma hora, no entanto, a voz de Manuel sumiu, deixou de me alcançar: havíamos chegado à parte em que estão as “pinturas negras” de Goya, obra que ele, já velho e, sem sair da Espanha, vivendo uma espécie de exílio, pintou no reboco de sua casa (na Quinta del Sordo). Diante delas, fui perdendo o interesse por tudo fora do meu campo de visão e audição. Um estrangeiro, morto fazia muito tempo, me cobrava uma compreensão do mundo distinta da que eu tinha. Goya parecia me dizer que no mundo, no mundo ideal, não haveria fronteiras. Caminhamos em sentido oposto.

23.9.23

Em busca do ouro

 Na classe média estamos os nem lá nem cá, muitos cobiçando o andar de cima, oásis da opulência, outros de olho no de baixo, para onde não querem voltar ou despencar. Diríamos que somos um aglomerado desigual e propício a intensa e merecida piada.

Sonhamos com a Disney e, se conseguimos chegar lá, somos vistos como verdadeiros patetas, a tal ponto que, aqui e ali, nos repreendem. Vocês são muito novos para se lembrarem de Pepeu Gomes e Baby Consuelo barrados no parque. Mickey e seus amigos consideraram a figura do casal roqueiro — cabelos e roupas bem coloridos, uma bobagem aos olhos de hoje — muito chamativa, capaz de roubar a atenção dos demais frequentadores. Tem cabimento usar Pepeu e Baby como exemplo da classe média? Não se iludam, pertencem a ela tanto quanto eu — e talvez você — e podem ter ganhado algum dinheiro, mas, sei lá, nunca permaneceram na lista dos mais tocados, nem daqueles que batem ponto nos programas de auditório badalados. E ainda se separaram, e ainda tiveram muitos filhos. Além do mais, a classe média é um território bem extenso, bastante habitado e com diferenças gritantes entre os quase ricos e os por muito pouco fora da pobreza.

Em 2015, a Piauí publicou uma reportagem do escritor norte-americano Walter Kirn. É um texto típico do que se convencionou chamar de jornalismo literário, uma peça que conta a história aos poucos, enchendo-a de pormenores saborosos que, não raro, esclarecem os interesses do jornalista ao contar aquilo. No caso, Kirn resolve levar um cachorro — que, depois de um atropelamento, ficou paralítico e só conseguia andar com um carrinho que lhe era acoplado à parte traseira do corpo — de Montana à cidade de Nova York para entregá-lo à pessoa que o adotou: ninguém mais, ninguém menos que um Rockefeller. A estranheza de um milionário (não um qualquer) se interessar por um cachorro que lhe daria muito trabalho e talvez tivesse uma vida curta motivou o escritor, que viu nessa história material para um possível novo livro. Na verdade, o Rockfeller não era um Rockfeller, e sim um golpista que, não se sabe muito bem como, vivia em altas rodas sem ser desmascarado e mantinha peças de artes caríssimas (Mondrian, Motherwell, Pollock e Rothko). Mesmo achando o sujeito excêntrico, Kirn manteve uma relação (até mesmo uma amizade) com o golpista de 1998 a bem depois, sem desconfiar de suas trapaças. Em 2013, a farsa do milionário veio à tona. Descobriu-se que muitos anos antes ele havia cometido um crime. A reportagem não esclarece como o alemão (sim, era um estrangeiro) chegou tão longe, quer dizer, como deixou o anonimato da classe média e tornou-se um rico de pedigree, nem rico, nem com pedigree. Conheço histórias não desse quilate, mas com o mesmo princípio. Na minha cidade, havia um homem, pai de amigos, que certa vez vendeu um terreno em Belo Horizonte, e o comprador só se deu pelo golpe quando, indo registrá-lo, descobriu que sua nova propriedade estava submersa na Lagoa da Pampulha. O meu conhecido não foi exitoso como o alemão, mas nunca se emendou e viveu tentando dar o pulo do gato, sem, contudo, conseguir deixar o porão onde se amontoa a ralé dos remediados.

Em tempos de internet, além dos golpes virtuais, há outros meios de alcançar — ou pelo menos de tentar — a riqueza. A classe média sabe ocupar um espaço honesto, mesmo aqueles que os falsos moralistas apedrejam sem dó. Soube ainda esta semana de uma moça muito jovem que, vendo-se em apuros financeiros, começou a obter likes de homens e mulheres em sites adultos. Não é a única que se aproveita da imagem, mas ela vai além e se exibe transando com parceiros de ambos os sexos, o que também não é uma grande novidade. Ela inova ao abordar homens na rua e perguntar-lhes coisas assim: “Tapa ou beijo?”; “Dois reais ou um presente secreto?” Isso foi considerado abusivo e gerou uma campanha de cancelamento contra ela. Apesar disso, ou exatamente por isso, seus seguidores em redes sociais nas quais é possível compartilhar conteúdo erótico só têm aumentado. Hoje ela estaria faturando algo como cem mil reais por mês.

A classe média tem aqueles que não dormem no ponto. Com astúcia e sorte, podem dormir na cobertura da pirâmide da distribuição de renda, mas, presos ao destino irônico, quase sempre amanhecem na pindaíba de sempre — ou mais além.

11.9.23

Viajando na maionese e na abobrinha

Não faz muito tempo, li “Madame Bovary”, de Flaubert. O autor e o editor da revista em que o romance foi publicado tornaram-se réus porque, aos olhos de seus contemporâneos, o adultério – feminino, se fosse o masculino estava tudo certo, sabemos bem disso – teria ganhado certo glamour naquelas páginas. Não é bem assim, quem leu sabe o fim da intensa Emma, a madame. (Espero que essa pequena confidência não seja vista como spoiler e afaste possíveis leitores.) Não vou analisar ou fazer uma resenha do “romance dos romances”, pois não tenho interesse nem os apetrechos exigidos pela empreitada – sou apenas um leitor amador. Trago-o à tona porque fiquei pensando se nosso “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, não seria um “Madame Bovary” do ponto de vista do monsieur Bovary, que, como todos sabem, inclusive quem nunca leu o livro, é um corno. Corno manso, devo acrescentar, na esperança de atrair novos leitores ao romance francês. De quebra, também ao brasileiro.

Retomei uma leitura de muitos anos atrás e dessa vez fui com ela até o fim: “Crônica da casa assassinada”, de Lúcio Cardoso, um livro e tanto, no tamanho (umas 500 páginas) e na qualidade. Quando vejo autores contemporâneos explorando, num mesmo texto, vários narradores, fico pensando que um dos que mais souberam fazer isso foi esse mineiro de Curvelo. Desse ponto de vista, ele é um mestre, e a obra um primor. Mas Lúcio Cardoso (não sei se por pressão externa de pré-leitores ou do editor, ou se interna, a pior delas) não manteve sua história no extremo. Quando nos acostumamos com o fato de o clã dos Menezes ter cruzado a fronteira da moral burguesa, a trama recua e nega o horror, bem, isso até onde seria possível negá-lo naquela altura do romance. No prefácio da publicação comemorativa de quarenta anos da primeira edição, lançada em 2000 pela Civilização Brasileira, André Seffrin diz que “se o último capítulo dilui e desfibra boa parte da tensão e do enigma que o livro encerra, e se no todo a narrativa deixa transparecer um engenho demasiadamente literário, estes detalhes são infinitamente pequenos ante o poder extraordinário da poesia que se levanta destas páginas”. Concordo, e isso me faz pensar no que seria um bom romance. Na realidade, não sei, mas anoto que pelo menos uma – quem sabe duas – de suas partes deve ser muito boa: a história, o texto, a estrutura... ou a coragem de quem o escreve. Flaubert é corajoso. Machado de Assis é corajoso. Lúcio Cardoso é corajoso. Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus, Hilda Hilst, Maria Valéria Rezende são corajosas. Viva a coragem, mesmo aquela – ou principalmente ela – que não tem nada de clara e triunfante.

Troco o assunto literatura por um ameno: comida, que, aliás, dá título a esta crônica em que uso maionese e abobrinha para expressar uma conversa inconsequente, meio à deriva. Sem querer armar confusão, afirmo de forma contundente: a segunda melhor comida do mundo é o pão de queijo. Não os deixarei sem saber qual é a primeira, claro. Num texto em que dei até spoiler, vou esconder uma coisica à toa? A melhor comida do mundo é o pão de queijo da Nilzinha.

Não há comida sem bebida, mesmo os médicos dizendo que é melhor não misturá-las durante as refeições. Olha só, médico nenhum me disse isso, mas essa “verdade” zanza por aí muito antes da existência da internet. Essa, sejamos sinceros, só dá celeridade a assuntos candentes, que despertam apenas o nosso – reles rudes, giróvagos mesmerizados – interesse. Me lembro que em tempos pré-redes sociais uma de minhas irmãs foi convencida de que o jeito mais fácil de emagrecer seria comer com uma colher pequena. Ela adotou a estratégia e, de fato, emagreceu, mas não naquele momento, e sim muitos anos depois, quando já havia abandonado a tal colherzinha, deixado de comer doce e virado rata de academia. Ela é enxutinha agora, passados uns tantos anos após ter recebido a preciosa dica. Se estivéssemos entre 2020 e 2022, interstício do nosso aprisionamento, chamaríamos aquela divulgadora da ciência para nos dizer se a dieta do talher miúdo é comprovada e eficaz, mas, agora que ela cutucou até Freud, parece mais sensato deixá-la de lado e mudar de assunto.

Aliás, não vou mudar de assunto, e sim fugir do enorme parêntese em que me meti. Eu ia falar de bebida e acabei expondo minha irmã e desferindo indelicadezas contra quem eu nem conheço. Falemos de bebida. Não sei se vocês tomam, assim na maciota, um drinquezinho ou uma cervejola. Caso não bebam, não vou aconselhá-los a beber, haja vista que o álcool faz um mal danado e não raro leva ao vício – o que está comprovado, mas há de se pesarem os prós e os contras, pois, nas pesquisas divulgadas até a semana passada, o vinho tinto chileno é visto como um elixir cardíaco. Se você, correndo os riscos do vício e da cirrose, toma um gole aqui e outro ali, preciso dizer o seguinte: beba água entre uma talagada e outra. Não sei se está provado pela ciência – ainda que minha irmã, aquela da dieta, tenha visto na internet que sim –, mas, no meu caso, atenua bem a inevitável ressaca.

26.8.23

A fuga do espelho

Tenho estado com pessoas com quem só me relacionava pela rede social. É incrível, elas existem. Uma tem nariz bem torneado, o que não quer dizer que seja bonita; outra, orelha grande, o que não quer dizer que seja feia. Tem aquela cuja beleza não passa de um filtro; e aquela que é alta – como eu poderia imaginar? Uma, apesar de poeta, de boa poeta, é chata. Já outra, coitada, péssima no verso, na prosa, na piadinha que faz para agradar, é uma simpatia sem fim.

Continuamos tridimensionais, no corpo, e complexos, na essência. Não deixa de ser uma esperança. Afinal de contas, o mundo das redes é um sugador insaciável de nossa humanidade e, se é forte dizer que nos escraviza – melhor deixar a palavra para o que ela de fato representa, a exploração aviltante do trabalho, o uso do castigo físico e o rapto da liberdade –, cabe dizer que nos torna dependentes. Um vício. Injeta-nos uma droga que, antes de destruir o corpo, destrói a cuca. Sem um like, não vivemos mais e, para conquistá-lo, caprichamos nas fotos e escondemos as complicações.

Nos livros, encontramos personagens bastante intricadas, mas elas estão presas a determinadas situações, que se repetem a cada leitura. Raskólnikov, de “Crime e Castigo”, não pode marcar um encontro com um dos leitores, desabafar, contar de seus planos de crime e, quem sabe, ouvir o outro e recuar da jornada de autodestruição e castigo. Tampouco Dmitri, o mais velho dos irmãos Karamázov, consegue abandonar sua existência de palavras e, pedindo que lhe paguem um chope, quer dizer, uma vodca, dialogar com quem, por ser mero espectador de seus dramas, é capaz de alertá-lo de que só se amassa o pão depois de colhido e preparado o trigo. Cito dois personagens de Fiódor Dostoiévski por ser ele um autor conhecido por criar personagens mais humanos do que qualquer um de nós.

Na rede social, somos as personagens. Eu faço o bobo; fulano, o militante; a universitária, a sedutora; o rapazote, o poeta romântico; o tiozão, o defensor dos bons costumes – todos lineares e em busca de uma dose de like. Mas é possível que, num chope, eu não seja tão bobo assim e o tiozão, na terceira tulipa, nos revele que, não sempre, mas também não em tão raras vezes, dorme de conchinha com um sobrinho ocasional.

Se o romance é um espelho que, ao nos refletir quase em minúcia, nos assusta, a rede social é um espaço sem meio-termo, de onde o contraditório (não confundir com treta) foi expulso. No romance, o autor torna complexo o já complexo; na rede social, enxuga-se o simples até que só lhe reste o simplório.

14.8.23

O fim de tudo

 

Há muito tempo eu escuto esse papo furado / dizendo que o samba acabou / só se foi quando o dia clareou (Paulinho da Viola)


Ora acabam com o samba, ora com o conto, com a literatura, com a história. No entanto, meus amigos, o que vai acabar é o mundo, mas até lá nosso assombro, cuja voz é a música, a literatura, a escultura, a pintura, o cinema, a ciência, continuará se manifestando. Portanto não passa de um novo alarme falso o fim da crônica anunciado por Julian Fuks em sua coluna no UOL. Segundo ele, a pressa dos dias de hoje justifica essa morte. Não a pressa de todos, ele esclarece (ou imagina esclarecer), mas a do leitor. Ó, meu deus, a pressa está aí pelo menos desde a Revolução Industrial, claro que se ajustando às novas tecnologias. Ela nada mais é do que a subtração do nosso tempo pelos perrengues da sobrevivência, portanto a gente se adapta a ela não é de hoje. Alguns afoitos leem, no entanto a maioria nunca leu nem vai ler. Assim é a triste realidade.

O tique-taque comeu, sem mastigar, o tempo medido pela posição do sol, pelo desenho da sombra, pelas manifestações do estômago, e essa aceleração não destruiu nada que chamamos de arte, ao contrário, o romance – esse colosso que já teve mil, mil e quinhentas páginas, reduzidas hoje, na pressa de todos, inclusive dos escritores, a no máximo duzentas, com raras exceções – frutificou ali. Agora o vapt-vupt engoliu o tique-taque, e, graças às descobertas e inventos atuais dos tempos velozes, viveremos uma vida longa – morrendo, no entanto, mais novos do que nunca – e, como não?, produzindo arte e ciência. Portanto sejamos menos alarmistas. Quem dá as costas à literatura ao rés do chão é a grande imprensa. A crônica, que nasceu num cantinho sem proveito do jornal, foi expulsa dele. Sobra um Joaquim Ferreira dos Santos aqui, uma Martha Medeiros ali. Mas, em meio ao menosprezo, surge, na cabeça apaixonada e sábia de um jovem paranaense, essa Rubem, que dá guarida a mim e a outros onze cronistas (sem contar os que já contribuíram com ela), alguns inclusive com passagem pelos jornais. O Rascunho, publicação literária já longeva, mantém cronistas entre seus colunistas e, recentemente, o prêmio Jabuti abriu distinção ao gênero, o que sugere que se têm escrito livros de crônica.

Enquanto houver pobreza, haverá crônica. Enquanto houver histórias de amor, haverá crônica. Enquanto houver uma tristeza ou mesmo uma alegria sem motivo, haverá crônica. Tédio? Crônica. Ironia? Crônica. Um sujeito dado a caminhadas pela rua é um potencial cronista. Uma mulher tomada por uma lembrança erótica é uma potencial cronista. Um saudosista pode ser um cronista, ainda que chato. Uma atendente de petshop precisará apenas de um empurrãozinho (do talento) para escrever crônicas contando aonde chegou nosso amor pelos animais domésticos, sem se esquecer dos excessos por conta desse amor.

A crônica não acabará, assim como a história não acabou com o fim da Guerra Fria. Nosso problema é outro: se não cuidarmos do mundo – mantendo florestas em pé, esfriando o planeta um bocado, distribuindo a riqueza –, é certo que, pegos no contrapé, não teremos nem tempo de escrever a crônica do fim de tudo.