16.5.16

Vendendo desprodutos

Nossa lama de chocolate meio samarco vale como xarope bhp-billitônico e é indicada para devastar vidas inocentes. Efeitos colaterais? Quem pobre estava mais pobre fica se e quando sobrevive. Nada de muito grave.

Aritmética do marido da mulher prendada: soma e subtraia ministérios até acalmar as águas dos rios do interesse — e não se importe se dois menos um for um falso três. A matemática pura e insofismável é coisa pros outros, os que pedalam. Sob nosso auspício e noves fora isso e aquilo, monte um ministério masculino, o que não se vê desde a ditadura, e seja invejado por todos.  

Plantamos na imprensa falada, escrita e televisionada a tese de que agora é parlamentarismo ou a crise não chega ao fim. Visamos a outros clientes que não os tucanos, oferecendo-lhes preços e condições de pagamento ímpares.

Nosso plano médico permite aos clientes adoecer aqui e ir se curar em hospitais na Síria. Papa fina, mas, como não somos os únicos no mercado, a mensalidade — nosso diferencial — é do outro mundo.

Entregamos quentinhas no Brasil inteiro. Prato do dia: cuscunha temerado ao aceite de impeachment. Acompanha dessa água não beberei, com gotas de limão calheiro.

Assaltante age às escuras. Um deles deu um bote na filha do governador do Rio de Janeiro, mas, se tivesse encontrado no carro o pai da moça em vez dela, coitado do assaltante, o chefe do executivo está sem dinheiro, raspando o bolso de qualquer um que se aproxime dele. Fica o alerta: Assaltante consciente, não conte com a sorte, temos app identificador de vítimas para pronta-entrega!

Vende-se bicicleta voadora para ciclovias interditadas. Ligue para 1717171 e diga a senha “E.T. phone home”.

Traficantes, tenham um mínimo de responsabilidade social: Não vendam seus baseados na porta das escolas de São Paulo. Lá, os meninos estão sem merenda e, na larica, podem tornar-se violentos. Sigam esta máxima: Vender menos hoje para vender mais amanhã. Isso é empreendedorismo. Podemos lhes ensinar muito mais.

Comercializamos frases para uso em momentos de júbilo republicano. Uma amostra para dias de impeachment e que tais: Voto sim — ou não, fica a gosto do freguês — pensando nas colombinas edulcoradas da minha infância. Temos frases sintéticas para políticos apoéticos. Antes da consulta, 50% na mão. Ao fim e ao cabo, não podemos esquecer dos 10% da propina usual.

Apagamos palavras de dicionários. Temos apreço pelas começadas com G.

Campanha cívica: não confunda boi sonado com o deputado fascista.

Contra cuspes e escarradas, caras de pau a menos de um tostão.

Temos bicicletas sem pedal, muito apropriadas para quem é irresponsável ou é tratado como tal. Estoque baixo.

Troque seis por meia dúzia. Oferecemos os disfarces.

Aprenda a falar impeachment sem sotaque com o método Celso de Mello, certificado pela própria rainha. Manteremos uma promoção espetacular até que a Inglaterra se decida se fica ou se sai da União Europeia.

Temos lulas congeladas desde quando os mares não eram poluídos. Vitaminas e sabores preservados. Na compra de duas, ganhe um livro de receitas escrito por um amigo.

Reciclam-se discursos. Damos sabor democrático àquele desenxabido dos tempos da Arena e do Manda-Brasa esquecido numa gaveta. O cliente escolhe ou uma garantia de sucesso, pagando um adicional, ou um escudo contra chuva de ovo choco.

Oferecemos pacotes de ministros da fazenda. Com uma assinatura bianual, pode-se usar, no primeiro ano, um neoliberal com formação em Chicago e, em seguida, um keynesiano ortodoxo. No segundo, um homem de mercado, mestre no arroz com feijão com viés de favorecimento ao ex-patrão, e um marxista lunático. No Brasil ou fora, entregamos à domicílio ou em domicílio, o que for de acordo com a gramática do freguês.

Pintamos de branco defuntos de jovens negros de modo a inverter as estatísticas que cismam em apontá-los como as maiores vítimas da violência policial. Podemos também desenhar rugas para simular uma idade maior. Dois serviços, duas tarifas.

Levamos cópias de índios para eventos de falsa demarcação de terras. Não falam o tupi, mas arranham o kiriri.

Vendemos poesias boas, parnasianas ou não, para presidentes sem votos. Podemos — se o cliente se dispuser a fazer módicos depósitos em contas nas Ilhas Cayman — montar um business plan para o seu aceite na Academia. O fardão é negociado à parte, num segundo momento.

Não fazemos marketing político, mas gostamos de dinheiro.





2.5.16

Balanço em dias de crise


Nunca molhei a mão de um policial. Não economizo água. Bebi uns gorós antes dos 18 anos. Lá em casa, somos severos em matéria de não estimular os filhos a beber antes do permitido. Não furo sinal de trânsito, mas já furei alguma vez e sei que, em alguns cruzamentos com assaltos recorrentes, o sinal deve ser furado. Costumo atravessar a rua fora da faixa de pedestre. Nem cuspo nem jogo papel ou outra coisa na calçada. Desobedeço a velocidade máxima permitida com alguma frequência. Já me esqueci de declarar seiscentos reais no imposto de renda, o que me custou apresentar-me à Receita e retificar a declaração. Tenho função doméstica bem definida — lavo louças, principalmente — e, se não sou belo, pelo menos recatado eu sou. Hoje não dirijo caso tenha tomado um gole de cerveja, mas já dirigi completamente bêbado. Na infância, roubei fruta no pé. Certa vez, num restaurante, enquanto pagava a conta no caixa, fui assaltado com uma arma apontada para minha cabeça, e, passado o susto, o dono do restaurante me disse que os assaltos aconteciam quando ele não pingava a propina dos policiais. Fui o único a levantar a mão quando a professora perguntou se alguém já... E respondi afirmativamente à mesma pergunta quando feita por meu pai. Fumei, traguei, mas nunca vendi ou revendi. Nunca roubei livros, nem de amigos, mas, confesso: há uns vinte anos mantenho sob empréstimo um do Calvino cujo dono é um irmão, um brother mesmo, como vocês hão de convir de um sujeito que nunca cobrou o livro. Já menti por amor (canalhice). Menti também por covardia. Contei verdades que, se não contadas, não fariam diferença alguma na vida dos envolvidos. Amei mulher do próximo sem ser correspondido, minto, uma vez fui. Tenho orgulho de alguns votos nas muitas eleições da qual tenho participado, mas de outros tenho nojo (o famoso “menos pior”, escolhido numa conjuntura desfavorável). Para não pagar a passagem, pulei de um ônibus em movimento e me machuquei sem gravidade. Não dou esmolas. Trato as mulheres com respeito, mas às vezes quebro o pescoço para acompanhar alguma que tenha achado bonita. Nesses casos, em hipótese alguma, assobio ou falo impropérios. Ouço piadas de anão, negro, mulher, bicha, sapatão, presidiário, burguês, papagaio e português. Rio de quase todas, nunca das de negro. Não sei contar piadas, apesar de ser um pouco engraçado. Alguma vez joguei no bicho, mas nunca fui a desfiles de escola de samba, nem sambando na avenida nem sentado na arquibancada. O Zé Porteiro, que cuidava da portaria do prestigiado Passos Clube, por conhecer a todos, não permitia que eu entrasse nos bailes antes de completar a idade exigida. Nunca falsifiquei carteira de estudante ou outro documento. Não costumo comprar de camelôs, sinto falta da garantia e de outras formalidades no ato de compra e venda. Compro de lojas, mas não sei até que ponto suas mercadorias estão de fato formalizadas. Uso o Uber. Já paguei menos a médico em troca de não receber seu recibo. Nunca pedi um recibo a um médico sem ter usado seus serviços. Vivo há 30 anos uma união consensual desprovida de papéis lavrados em cartório. Guardo segredos. Tenho segredos que não confio a ninguém. Nunca matei passarinho, embora tenha tentado. Nunca me ofereceram propina. Não sou sócio de clubes nem militante de partidos políticos porque desconfio deles e provavelmente porque não confie muito em mim. Apesar disso, sou botafoguense. Jamais roubarei picolé de uma criança.

18.4.16

Mexendo na língua

“Um orador de boca cheia é um virtuose de refugos: na cesta de entulhos da literatura vai recolhendo imagens esfiapadas, carretéis perifrásticos, antíteses ruborizadas, prosopopeias trovejantes, metonímias desparafusadas, clips enferrujados, anáforas babadas, tmeses tortas, anacolutos malignos, sinédoques descartáveis e demais tropos e trapos de hiperbólica aceitação no mercado paralelo.” (Paulo Mendes Campos, Congelamento.)


Ao longo de sua existência, nosso português de todo dia tem sofrido muitas alterações em suas regras ortográficas. Na primeira metade do século passado, trocaram-se “pharmacia” por “farmácia”, “caza” por “casa”, “sciencia” por “ciência”. Recentemente, tiraram o trema de “linguiça” e, cortando na própria pele, de "linguística". Mataram o trema, eis a verdade. Se a grafia antiga soa, depois de um tempo, estranha, deixar uma determinada grafia de lado não é nada fácil, porque os que a usavam acostumaram-se com um jeito de escrever e, da noite pro dia ou num intervalo de tempo acordado longe de todos, em gabinetes, veem-se obrigados a abandoná-lo e adotar outro. A última reforma, presente em nossa memória e bastante contestada em Portugal, prova isso.

Tenho comigo que, ao mudar uma grafia, não só a relação das pessoas com a palavra é modificada, como também a coisa nomeada por ela ganha um novo destino. “Pharmacia”, durante muito tempo, foi o local onde os medicamentos eram preparados e vendidos — o que atualmente chamamos de farmácia de manipulação. Ao trocar “ph” por “f”, abriu-se caminho para a proliferação das farmácias, que passaram a vender remédios (e não só) produzidos em laboratórios. Quando se escrevia a palavra à moda antiga, na minha cidade natal, não devia haver mais que duas. Hoje, no quarteirão da minha casa, no Rio de Janeiro, são três, e, ao longo da rua com seus dois quilômetros, quinze ou mais. Estamos mais doentes? Temos mais possibilidades de nos curar? A doença e sua cura sustentam uma indústria rentável? Tudo isso é verdade, mas a mudança ortográfica impingida à palavra reinventou o negócio e garantiu o sucesso comercial do estabelecimento farmacêutico.

Quando fui alfabetizado, escrevia-se “êle”, “almôço”, “govêrno”. Concordo que ficou mais fácil escrever essas palavras sem o acento, entretanto, assim como o homem sem chapéu perde um pouco de sua necessária formalidade, ao perder o acento circunflexo, a palavra que designa a terceira pessoa do masculino jogou essa terceira pessoa na vala da vulgaridade. Pense nas refeições feitas atualmente: cada membro da família num canto da sala, com o prato no colo e a cabeça nas nuvens do celular. Isso seria possível no tempo do “almôço”? Nunca! Nem falo em governo (que, cauteloso, não volto a escrever na grafia cerimoniosa de antanho). Tenho de fazer uma pequena reflexão sobre a palavra “ela”, sempre escrita sem o adorno do circunflexo. Quer dizer que as mulheres foram e são vulgares? Muito pelo contrário, um chapéu a mais ou a menos não as diferenciaria em nada, razão pela qual não se acentuava a palavra antes e não se passou a acentuá-la depois da reforma levada a cabo durante a ditadura militar. Vulgar são os homens. (Ufa, acho que me saí bem.)

Reformas ortográficas têm sido feitas aos borbotões, só que ninguém mexe naquilo que facilitaria nossas vidas. Acompanhem meu raciocínio.

Você sabe o que são as perífrases? Não? Puxe pela memória. Perífrase é, segundo o Aurélio, a “designação de alguém ou de algo por construção que dê relevo a uma de suas qualidades, e não por seu nome”. O exemplo do dicionário é “a luz de minha vida em lugar de meu amor”. Talvez, feito eu, você conhecesse a “coisa”, mas nunca soube seu nome — ou, se soube, não o reteve.

Sem querer abusar de sua paciência, vou ao fundo do fundo buscar a palavra “tmese”, sinônimo de mesóclise, quer dizer, a “intercalação de pronome átono em um verbo”. Um exemplo da minha cachola: “Dir-te-iam, em áureos tempos, que andamos às cegas rumo ao fim do mundo.” Uma frase meio pessimista, mas esqueça sua mensagem, a frase tem a única intenção de ilustrar o que vem a ser uma tmese.

As palavras anteriores e outras tantas, mal-encaradas em sua essência, fazem parte do que poderia ser visto como o suprassumo da gramática. Todos passaríamos bem sem elas caso não enfrentássemos tantas provas ao longo da vida de estudante. Provas que, nesse caso específico, foram apenas uma cobrança da nossa capacidade de memorização.





Meu texto quis apenas isto: chamar a atenção para os efeitos das mudanças no terreno da língua. (Acabo de escrever uma catáfora, “unidade linguística que se refere a outra, enunciada mais adiante”). Como os exemplos que citei provam por a mais b, as mudanças ortográficas repercutem na vida real, que vibra muito além da palavra escrita (o que podemos esperar do mundo lusófono sem o trema?). Sendo assim, um conselho, a essa altura óbvio, aos sabichões que porventura resolvam dedicar seu precioso tempo à exigida simplificação: muito cuidado com as consequências que podem advir daí. Pensem, ponderem. Repensem e ponderem mais uma vez. De qualquer modo, pelo amor ao deus das coisas triviais, corram o risco. Antevejo, de cara, um efeito colateral positivo na mudança: facilitará a decoreba, melhorando, com isso, a nota da moçada.

4.4.16

A Bahia em dias nublados

Ao João, que me proporcionou a viagem.

Segunda praia, o point de Morro de São Paulo. Foto do autor.


O poeta Carlito Azevedo postou no Facebook a história de uma bailarina russa de noventa anos que afirmou, em entrevista, que os melhores anos de sua vida haviam sido os vividos entre 1936 e 1942. Justo quando ocorreram os expurgos de Stálin e grande parte da Segunda Guerra?, reagiu o entrevistador. Para a bailarina, não havia mal nenhum nisso já que, naquela época, ela era jovem e bela, o que bastava. O intuito de Carlito era dizer que, apesar da espessa nuvem que cobre os dias de 2016, nada impede que, nele, cada um de nós possa ser feliz. Seu otimismo tinha a ver com a beleza do outono, que chegava. Otimismo relativo, Carlito alertava, agarrado a Drummond, haja vista que a felicidade coletiva estava transferida para o próximo século.

O país de fato está capengando, mas eu estive na Bahia. Eu e meu filho mais velho, o bom João. Lá, reencontrei meu primo Fernando e também o amigo Ricardo. Lá, fui conhecer a Praia do Forte e o projeto Tamar. Lá, depois de mais de trinta anos, voltei a Morro de São Paulo, agora uma ilha toda incrementada, cheia de vida e luz, tão diferente daquela da qual saí justo no dia em que a eletricidade chegava para os ilhéus. Dela, minhas lembranças eram um misto de pôres do sol, pratos feitos de siri catado, praias vazias e morcegos. O pôr do sol está lá intocado, ninguém brinca com ele. Come-se bem — só que não me ofereceram PF de siri —, ainda é possível encontrar um naco de praia vazia (distante), mas os morcegos retiraram-se, sobrou-lhes menos espaço. Assim é, quando o homem, munido de luz, toma conta de tudo.

Fim de tarde visto não do Farol, ponto de observação do pôr do sol, mas de um barco. Foto do autor.


Eu e meu filho somos pessoas caladas, o que nos torna contempladores da natureza, caminhantes incansáveis. Na Bahia, quando foi preciso, tomamos decisões (regadas a cerveja e falando baixo) que garantissem exclusivamente o descanso, o desfrute do nada. É certo que olhamos as mulheres, mas, sendo homens que não gostam de esbravejar, de falar a linguagem de macho conquistador, lá pelas tantas, não na hora H — no momento do desfrute visual, um ou outro comentava que não era pequeno o número de meninas bonitas, argentinas, na maioria. Morro de São Paulo parecia um território argentino (um pouco uruguaio, quem sabe). Jovens e outros nem tão jovens circulavam pela vila, e o espanhol ecoava livre pelos becos. Ouvi alguns baianos indo além do portunhol, gente preparada para receber turistas. Em certas lojas e restaurantes, vi placas escritas no que me pareceu árabe e que depois soube era hebraico. Contam que os israelenses visitam muito o lugar. Bobo de quem não o visita. Há muita gente para pouco espaço, é verdade, mas a beleza compensa a muvuca.

Falei dos gringos, mas os baianos estão lá, negros e bonitos. Jovens fortes — mulheres altas, de pernas rijas (resultado de tantos morros no caminho diário). Muitos rapazes vivem de carregar malas e mercadorias em carrinhos de mão, um dos meios de transporte mais importantes da ilha. (Há, ainda, um trator para recolher o lixo e transportar alguma mercadoria mais pesada, poucas motos e algumas bicicletas, todos alocados nos serviços de utilidade pública). Tudo bem organizado, com trabalhadores credenciados. Isso me fez pensar se essa não é uma tarefa pesada demais para alguns jovens e para outros que estão numa idade “muito” adulta. Por outro lado, o que seria deles sem isso? As agruras da realidade sempre vêm cobrar meu posicionamento. Sem resposta, volto, não como fuga, ao belo.

Boipeba, ilha vizinha a de Tinharé. Foto do autor.


E como é belo aquele pedaço de terra que recebeu cedo os portugueses. Aprendi em um fôlder que Martin Afonso de Souza aportou por lá em 1531 e batizou a ilha de Tynharéa, hoje Tinharé. Por sua localização (na chamada barra falsa da Baia de Todos os Santos), a ilha esteve envolvida em muitos conflitos, ora com franceses, ora com holandeses que procuravam atacar a colônia portuguesa. Na internet, por sua vez, afirma-se que ali Hitler teria afundado submarinos brasileiros, forçando nossa entrada na Segunda Guerra. Nada disso, porém, destruiu o lugar; não sei se o turismo, as construções de pousadas e casas conseguirão fazê-lo, ao poluir as águas com esgoto não tratado, por exemplo.

Venho fazendo tudo para falar do belo e, nos últimos parágrafos, esbarrei em senões. Não tem nada a ver com os tropeços do país, é coisa minha, um pessimismo miúdo que gosta de furar os olhos da minha fé na vida. Tenho muito a aprender com a bailarina russa, mas ela não está entre nós, imagino. Se estiver, saberá ensinar? É matéria que se ensine? Que se aprenda?

Eu e João, ao sairmos do hotel, levávamos em uma bolsa térmica meia dúzia de cervejas. Quero dizer com isso que, mesmo diante da crise, há meios de fazer uma viagem não tão dispendiosa e, assim, garantir uma dose de alegria e encantamento. Quando a realidade não me deixa esquecer, sei muito bem disso.

21.3.16

Crônica em linha pontilhada

Álvaro Campos, um dos habitantes na pátria Fernando Pessoa, escreveu “Poema em linha reta”, um de seus mais famosos. O poema começa assim: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada, / todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.” A essa visão heroica de seus conhecidos, Campos antepõe a de si mesmo (“E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil”). Fazendo esse jogo entre vencedor (eles) e derrotado (eu) ao longo de todo poema, lá pelas tantas, Campos se questiona: “Arre, estou farto de semideuses! / onde é que há gente no mundo?” E acrescenta: “Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?” Apesar dessas perguntas, Campos diz que seus conhecidos, mesmo diante do fato de não terem sido amados por suas mulheres, de terem sido até mesmo traídos por elas, não se tornam ridículos, enquanto ele, mesmo sem traição sofrida, é ridículo e vil, “vil no sentido mesquinho e infame da vileza”.

Um sentimento parecido ao de Campos me toma diante das certezas tão absolutas de meus conhecidos (muitos deles amigos) em relação ao momento político por que passa o Brasil. De um lado, há aqueles que enxergam uma maquinação muito bem orquestrada entre a justiça e a imprensa de modo a jogar na boca do lobo o projeto de retirar uma imensa gama de desvalidos da condição de famintos. De outro, os que têm certeza mais que absoluta de que foi tudo um jogo de cena, que o governo dos últimos doze anos só pensou no enriquecimento de seus membros. Os primeiros pedem a inclusão de outros governos no faro da justiça (governos federais anteriores, governos estaduais de agora). Os segundos, no extremo, defendem que se esfaqueiem os partidos e os deixem descarnados na rua.

Eu, o vil ignorante, penso dentro do meu quadrado. As coisas vinham bem. Um governo deu uma ajeitada no capitalismo bárbaro brasileiro, domou a inflação (uma desgraça que ataca principalmente os mais pobres, sem defesa contra a perda de poder de compra da moeda), criou a lei que determina o controle dos gastos públicos, se desfez de empresas que a iniciativa privada lida melhor com elas (eu sei que há polêmicas sobre as privatizações, mas estou contando a história de uma perspectiva boa). O outro, aproveitando a organização anterior, atacou um problema ancestral, ferindo a pobreza e a fome. Uma evolução que poderia seguir adiante. Um governo mais preocupado com o funcionamento do capitalismo, outro impondo ao capitalismo a inclusão de todos. O espectro ideológico nessa sucessão se daria entre um partido mais à direita — mas que não ultrapassaria a barreira do centro — e outro mais à esquerda — que não chegaria ao extremo, aquele no qual se buscaria rever as privatizações e coisas parecidas. Um cenário dos sonhos.

A visão menos poliana é a que diz que o primeiro governo roubou, o segundo roubou, o terceiro roubou e o quarto vem roubando. O caos. Um caos que não encontra saída. Quer dizer, não encontra saída dentro da política e, por isso, esse caos vira uma coisa inqualificável, grande, muito grande.

Estamos mais para o primeiro ou para o segundo cenário? Me arrisco a dizer que o governo atual não é bom (o que não tira sua legitimidade), quer se olhe do ponto de vista de quem prepara o ambiente para a economia privada deslanchar, quer se olhe do ponto de vista de quem inclui os desvalidos (a inflação, volto a dizer, é uma sangria na vida dos mais pobres). Isso sem dizer do desastre de suas costuras políticas e da desfaçatez da oposição. Sendo assim, com um governo sem atitude e uma oposição que aposta no quanto pior, melhor, estamos mais para o caos. E, no caos, prolifera a voz dos que defendem a necessidade de governar com medidas de exceção, normalmente cerceando a liberdade. Em tese, dizem, por um tempo curto, na prática, por uma noite interminável.

A partir de minha ignorância e vileza pergunto: o que estamos fazendo com nossa democracia? Os não tão cheios assim de verdades, por favor, me respondam (ou me ajudem a encontrar uma resposta). Os outros, por favor, se forem responder, poupem minha mãe.

9.3.16

Brincando com o perigo

para FHC e Lula, com minha admiração ferida

Troca de mensagens entre ex-presidentes:
“E aí, Príncipe?”
“Aqui, entre livros, Metal.”
“Bicho, o bagulho tá quente, melhor a gente levar um lero, eu e tu, tu e eu.”
“No meu apê em Paris ou no seu no Guarujá?”
“Nós não temos esses apartamentos!”
“É verdade, a imprensa me confunde.”
“Melhor em praça pública, na calada da noite.”
“Vamos a Salvador, onde a Castro Alves é do povo.”


****

Em São Paulo, há uma festa para gays coroas. É um negócio bem comportado, um baile no qual os senhores dançam tranquilos e sem grande assanhamento. Isso me faz pensar em um similar para gatunos da terceira idade. A festa começa no cair da tarde, quando entram no recinto, quase ao mesmo tempo, EC e RC (não, por favor, não pensem em Erasmo e Roberto). Sentam-se na mesma mesa e, seguindo as regras do encontro, colocam as carteiras e as mãos à vista de todos. Conversam sobre as trivialidades da tarefa à qual dedicam suas vidas. Difícil, concluem, é roubar galinha quando se tem fome.

***

Wanderléa — sim, estou falando da cantora da jovem guarda, da que está sempre na companhia de EC e RC (Erasmo e Roberto, que fique claro) — é convidada para cantar num convescote na sede da justiça federal no Paraná. As autoridades estão cansadas com tanto trabalho, motivo pelo qual deram-se o direito a esse pequeno luxo. Wanderléa entra e, o que seria óbvio, mas ninguém se tocara, manda o velho e bom refrão: “Senhor Juiz, pare agora.”

***


Três dirigentes máximos das maiores empreiteiras do país estão trancafiados na mesma cela. Ou estiveram até que começaram a trocar farpas entre si e, dizem (quem? Ora, quem. Quem sabe?), logo depois, tapas. Tudo começou quando um deles afirmou que a ponte construída por um dos outros era um erro de engenharia de ponta a ponta, apesar de, ao contrário de muitas que os três se empenharam em fazer, levar gente e mercadorias de um lugar para outro. Sentindo-se ultrajado, o responsável pela ponte franziu o rosto e contra-atacou. A ponte estava lá, forte e transitável, o que já não se podia dizer do asfalto novinho da rodovia federal, na altura de uma importante cidade. Quem se sentiu ofendido não foi o dono da obra, mas o terceiro empreiteiro, que, no caso, havia sido subcontratado para pavimentar a estrada. O guardinha — designado para manter os olhos bem abertos sobre os meliantes chiques —, diante das discussões (e dos possíveis safanões), sugeriu ao chefe que os três fossem separados. Em seguida, pediu baixa da corporação. Ele ouviu dizer (de novo o zunzunzum inconcreto, boa palavra para o momento) que, em consórcio, os três haviam construído aquele presídio.

***


Em São Paulo, um menino chega atrasado à escola. A zelosa diretora, como castigo, deixa o irresponsável sem a merenda. O estudante se sente muito feliz, só assim não passará fome naquela manhã. Antes de entrar em sala de aula, confere o saco de biscoito Maria na mochila.

***


Busquem a verdade, só a verdade, nada além da verdade. Esse era o mantra do editor. Os jornalistas, recém-contratados depois do último “ajuste”, o famoso passaralho, escutam atentos, não têm coragem de pedir um aparte, de fazer uma pergunta. Quando o editor sai, um questiona o outro sobre o significado de tudo aquilo. O mais experiente — dois meses de redação — acalma os demais. A verdade, ele explica, é aquilo que interessa ao editor. Correm todos para a rua para ajustar os fatos.

***

“Senhor, por favor, — a moça se aproxima esbaforida, tentando entender um mapa, que ela vira de um lado para outro —, o senhor sabe me dizer onde fica esse país?”
“Sei direito não, filha, mas deve ser lá na esquina do desmancha-prazeres.”

***

“Mãe, eles bateram em mim.”
“O que você aprontou?”
“Tava só brincando.”
“Com cinquenta e tantos anos? Mereceu.”



7.3.16

O sequestro do sorriso

Para minha colega de trabalho Ana




No último carnaval, levei um susto e não foi com bate-bola ou com bêbado sem-noção solto pela rua. Eu gastava o tempo à beira da piscina. Estava sozinho e, como bom bisbilhoteiro, atento ao mundo de tantos desconhecidos largados a minha volta. Na água, duas mulheres conversavam em inglês. Meu domínio do idioma é pré-básico, sendo assim, nem me dei ao trabalho de esticar o ouvido e desfrutar da prosa alheia. Durante alguns longos minutos, olhei com discrição os gestos e expressões das duas. Caramba, não houve um sorriso, um menos que sorriso, um ricto insinuando alguma ironia ou uma simples afeição. Nada disso. Os olhos de uma se abriam em espanto ao que a outra dizia. E uma dizia e a outra respondia, e uma subia de tom e a outra diminuía, tudo em seca seriedade. Supus que pelo menos uma delas era estrangeira, talvez americana, e concluí que esses estrangeiros sofrem com gosto. Como é possível conversar tanto tempo sem desviar o assunto e meter nele um comentário sarcástico, bobinho, fresco? Nós, que sempre importamos as modas, chegaremos ao ponto de conversarmos horas a fio sem fazer uso de uma frase ou comentário que alimente um risinho, frouxo que seja?

Uma colega de trabalho do escritório de São Paulo me ligou. Levantou um problema, e, juntos, demos encaminhamento a uma possível solução. Despedi mandando-lhe um beijo. Ela disse então: “Alexandre, Alexandre, espere um pouco”. Daí tomou outro rumo e afirmou que, nós, do Rio, éramos mais leves, mandávamos beijos, brincávamos. Em São Paulo, ela sentia, as relações estavam muito fechadas, frias de fato. Eu disse, em tom de brincadeira, que o exemplo paulista espalhava-se por todos os cantos. Para ilustrar, contei-lhe as mudanças ocorridas na cidade em que nasci: na minha juventude, o cumprimento entre homens e mulheres se dava com três beijos (“três pra casar”), mas hoje a coisa minguara para um só beijo. Profetizei que em breve seríamos como os americanos, apertaríamos as mãos, se tanto.


Se eu estiver certo, ao aperto de mão seguirá um papo interminável e sisudo (mesmo dentro da piscina, em dia de descanso). Seremos apenas espanto, olhares furiosos, punhos fechados, rugas e disciplina. Nesse dia, o país poderá virar o jogo, tornar-se grande em todos os sentidos objetivos da grandeza (PIB estratosférico, assento nas comissões mais importantes da ONU, não sei mais quê). Nesse dia, os jovens terão o futuro dos deuses ao alcance das mãos. Nesse dia, os pobres serão uma fatia mínima da população. Nesse dia, teremos cruzado o deserto e chegado à terra da fartura. Mas nos faltarão o sorriso e o beijo de afeto. Nos faltará um pingo de nossa alegria inconsequente, carnavalizada até. Teremos sepultado o país que tanto surpreende os estrangeiros — de quem se rouba um sorriso. Nesse dia, ai, meus deuses, faça com que o Xandão seja apenas uma saudade ou, se não for muita pretensão, uns livros ainda disponíveis nalguma biblioteca ou, enfim a glória, um movimento — clandestino, se a situação exigir — pelo resgate sem fiança do sorriso sequestrado de um povo que sempre se empenhou em parecer fazer pouco caso de suas dores.

22.2.16

Sou Mangueira

Sou torcedor da Mangueira, o mais fuleiro de todos, aquele que grita aos quatro ventos o nome da escola, mas não conhece os sambas, não assiste aos desfiles. Acompanho, quando muito, a apuração e, se a Mangueira não ganha, digo que foi roubo e, se ganha, não digo nada, nem mesmo comemoro. Um torcedor desprezível, mas torcedor assim mesmo.

Por que comecei a gostar dessa escola? Um pouquinho porque gosto de manga e, mais ainda, da árvore que dá manga. Associação afetiva, portanto. Outro pouquinho porque, às vésperas de um carnaval, a Cuca, minha irmã, apareceu com um disquinho do Ataulfo Alves Júnior no qual ele cantava “Os meninos da Mangueira”, de Rildo Hora e Sérgio Cabral — “Um menino da Mangueira recebeu pelo natal um pandeiro e uma cuíca, que lhe deu Papai Noel, um mulato sarará, primo-irmão de dona Zica”. A música me levava a pensar na iniciação dos meninos ao samba. Meninos que eu antevia negros, de short e barrigudinhos, feito os meninos pobres de minha cidade, lá onde a herança africana aparecia mais nas congadas do que no samba, embora este também tivesse sua importância em escolas de samba como a “Malandro é o gato” e a “Passense”.

A razão maior dessa simpatia está ligada aos anos entre 1987 e 1997, período no qual trabalhei ao pé do morro da Mangueira. Convivi com a comunidade e percebi algumas de suas dificuldades — que iam, e decerto ainda vão, desde o acesso precário entre a rua asfaltada e o barraco, passando pela violência exercida pela polícia e pelo tráfico, até a falta completa do Estado, patente no abandono das crianças, que, cedo, bandeavam para o comércio ilegal das drogas ou, em posição menos desfavorável, se é que é possível, para o comércio informal de quinquilharias — e também de suas alegrias — entre elas, simples de perceber, o orgulho da escola. Aprendi a gostar dali e, por extensão, reforcei minha torcida pela verde e rosa.

De forma recorrente, Mangueira e Flamengo são tratados como similares. A escola e o time seriam os mais queridos do povo, os de maior torcida. Eu, um botafoguense, recuso essa abordagem, mesmo porque futebol e samba não se parecem em nada. Futebol é todo dia, os times disputam vários campeonatos. As escolas de samba vivem para um dia só. Ao longo do ano, claro, promovem festas — concurso de samba-enredo, ensaios nas quadras —, tudo para o brilho efêmero do tal dia. Nos estádios, as torcidas estão separadas, são touros bravos que, num descuido, chifram o outro, não se contentando com a simples vitória no campo. No sambódromo, não, todos estão misturados, dança-se, canta-se, namora-se. Portanto, se o amor que se tem pela Mangueira é popular, ele é de natureza distinta daquele que abraça o futebol, mais festiva que competitiva — ainda que a competição exista e sustente toda a (indústria da) festa.

Silencio minhas digressões. Abro uma cerveja hipotética e brindo a Mangueira e seu campeonato. Brindo Maria Bethânia, essa cantora que ao longo da vida, ao lado de sua música, fez questão de dar voz à poesia. Brindo a festa popular, mesmo sabendo que não há inocência nos arranjos comerciais que acomodam sem atrito dinheiro público, do bicho, do tráfico, de outras cidades, de outros países (democráticos ou não). Brindo, com muita inocência, o homem comum, que vive para o samba, que vive do samba, que se confunde com o samba. Viva!


Gustavo Pellizzon / O Globo / Arquivo: 25/07/2011

10.2.16

Crônica de uma palavra só

Gostaria de escrever uma palavra, uma única, que, isolada, se bastasse e fosse a crônica de hoje. Sei bem que não é tarefa fácil, pois qual palavra daria conta de, sozinha na briga — quer dizer, na crônica —, passar um recado amplo, quiçá uma mensagem sobre a qual se pudesse debruçar, refletir, ou um argumento capaz de estimular alguma discussão?

Aposto que alguns defendam a ideia de que a palavra Deus contém todas as demais e, sendo assim, se eu a escrevesse, pronto, teria escrito tudo. Verdade ou não, a palavra que me vem à cabeça é chinfrim e nomeia algo aparentemente inexistente. Quer dizer, a coisa existe, mas quase não se vê — se eu a vejo só de quando em quando é porque ela existe em estado de pouco, último passo antes de ser dada como exaurida.

Proponho um exercício: escolher uma palavra e pensar nela como uma crônica. Que tal hemisfério? Você abre a crônica e está lá a metade de uma esfera, palavra ligada à ideia de divisão da terra entre sul e norte, no corte estabelecido pela linha imaginária do Equador. Palavra que também tem uso na anatomia, nomeando os lados direito e esquerdo do cérebro. Ela sozinha, ocupando com pouco estardalhaço parte mínima do hemisfério norte da página em branco, poderia levar a várias suposições sem afirmar, de fato e de concreto, nada. O mesmo ocorreria caso a palavra fosse despertador, amplexo, ventríloquo, indumentária, fosfato, logopedia. 

Estou dizendo que uma palavra-andorinha só não faz uma crônica-verão? Sim e não. Poucas fariam. A que tenho em mente, sem ombrear com Deus, talvez pudesse ser uma delas. Sua força, desimportante que a palavra é, está no fato de carregar uma mensagem. Qual? De que, apesar de seus méritos, o passado chega esfarelado ao presente. Com isso, creio, deveríamos enterrar o sentimento nostálgico, tratando de, a partir do conhecimento profundo do passado, pagar nossas dívidas históricas — o acúmulo de injustiças cometidas ao longo do tempo. Olha aí a escravidão, ainda uma ferida aberta. Olha aí o maltrato ao meio ambiente, outra ferida aberta. 

Exagerei, sim, exagerei muito. A palavra, desconhecida de muita gente, não teria repercussão tão forte. Por um lado, como já disse, a coisa que ela nomeia circula em ambientes cada vez mais restritos e, por outro, graças aos regionalismos, aqui se dá um nome, ali se dá outro. Minha palavrinha, aceito, só faria sentido para mim. Logo, o fato de eu ter abortado a crônica de uma palavra só mostra que tomei com louvor uma lição do ofício de cronista, a de não falar apenas com meus botões ou para os meus botões. Mamãe, orgulhe-se, sou macaco velho, mas ainda aprendo.

Chego ao ponto em que preciso decidir entre deixar a conversa como está, sem pé nem cabeça, ou, enfim, dizer a palavra que quase desfruta de seus quinze segundos de estrelato, numa crônica pretensiosa e fadada ao fracasso. Dizê-la e sair de cena? 

Imagino que o leitor esteja aí — se ainda está — balançando a cabeça. Em alguns o gesto seria um pedido para que acabe logo essa droga, que já não lhe interessa saber de palavra alguma, nem isolada nem reunida. Nos outros, os mais suscetíveis, uma sinalização de que estariam dispostos a conhecer o que custo a anunciar para depois julgar minhas intenções. 

Como os últimos parecem mais amistosos, sussurro-lhes a palavra: gominha.



24.1.16

Infância

A Nilma Lacerda, que, ao falar da importância do mediador na alfabetização, tomou poeticamente como exemplo Graciliano Ramos.


Em "Infância", como não poderia deixar de ser, Graciliano Ramos conta como foi sua vida de menino, o que se deu na passagem do século XIX para o XX. Não só pelas mudanças tecnológicas e da organização social observadas entre aquele período e o atual — e mesmo entre aquele e a década de 1960, quando fui criança —, o livro nos leva a uma infância muito diferente da que conhecemos hoje. Graciliano nasceu e cresceu no Nordeste, região que já era sofrida ou ainda mais sofrida do que agora. Seca, pobreza, injustiça, pouco acesso a quase tudo — livros então — faziam parte do dia a dia do garoto que viria a ser um de nossos maiores escritores.



Graciliano devota particular atenção a sua luta para se alfabetizar. A gente talvez seja inclinada a achar que seus pendores (de futuro escritor) tornariam fácil a tarefa de dominar o beabá, mas, ó, doce ilusão, o que se vê em seu relato é um sofrimento só. Escolas precárias (um explicador, no mais das vezes, que se encarregava de ensinar em casa, juntando uns dois ou três meninos) e/ou uma pedagogia improvisada por algum parente. No caso de Graciliano, o pai tentou, e o “pai não tinha vocação para o ensino, mas quis meter-me o alfabeto na cabeça. Resisti, ele teimou — e o resultado foi um desastre.” Esse desastre é apontado do seguinte modo: “Afinal meu pai desesperou de instruir-me, revelou tristeza por haver gerado um maluco e deixou-me.” Como esse menino ferido em sua autoestima deu a volta na frustração e virou quem virou não está nas páginas do livro, o que está lá é um olhar que se depara com as velhas dificuldades e sobre elas reflete, sem deixar de rir de tudo.
Logo depois de o pai desistir das aulas, Graciliano não se fez de rogado e pediu a ajuda de uma irmã. Chega-lhe então à mão o seguinte texto: “A preguiça é a chave da pobreza — Quem não ouve conselhos raras vezes acerta — Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém.” E o menino fica intrigado: quem seria Terteão? Quem? A irmã não sabia, nunca ouvira falar dele. Graciliano, seco, ri de si, e eu rio dele, mas, sejamos sinceros: como é duro aprender, em particular o português, língua estruturada em gramática tão árida.
Graciliano ilustra outras “alfabetizações” pelas quais passou ao longo da infância. Uma delas foi a de aprender o que, afinal, é o homem. E aprender o que é o homem é conviver com fronteiras muito tênues, pois ninguém é uma coisa só. Falo isso do alto de meus mais de cinquenta anos, quando já vi demais, mas um menino aprender, melhor, viver as contradições inerentes ao ser humano é duro e muitas vezes nem é notado. Graciliano notou e notou muito bem.
O melhor exemplo de sua acuidade está no capítulo “Fernando”, que começa assim: “É uma das recordações mais desagradáveis que me ficaram: sujeito magro, de olho duro, aspecto tenebroso.” A partir daí, Graciliano conta que, antes de ter contato com Fernando, já conhecia a sua fama e, “se fosse tão mau como afirmavam, não existia patife igual”. Aparentado com coronéis, verdadeiros donos do mundo, Fernando fazia e acontecia, sem que nenhuma de suas atitudes violentas fosse punida, haja vista que a justiça não funcionava ali ou, por outra, a justiça se confundia com a vontade dos latifundiários e seus apaniguados. Graciliano cresceu temendo esse pau mandado dos poderosos até presenciar uma cena no comércio que seu pai mantinha. Os empregados tiravam mercadorias de caixas de madeiras e, distraidamente, deixaram uma tábua com pregos solta no chão. Fernando, que matava o tempo na loja, se levantou, pegou um martelo e entortou os pregos, mostrando-se preocupado com a possibilidade de uma criança ferir-se com eles. As certezas de Graciliano ruíram, e o escritor termina o capítulo assim: “Fernando, o monstro, semelhante a Nero, receava que as crianças ferissem os pés. Esqueci as torpezas cochichadas, condenei o dicionário vermelho que tinha bandeiras e retratos. Talvez Nero, o pior dos seres, envergasse os pregos que poderiam furar os pés das crianças.”
A lição aprendida por Graciliano, feito os devidos ajustes, está nos faltando na atual conjuntura, período no qual achamos que o outro é esse Fernando, até mesmo aquele histórico Nero, um monstro incurável.

11.1.16

Quem eu sou

Eu sou o capitalista que chora pela fome das crianças de Mali.
Eu sou a mulher que fuma charutos às escondidas da sogra.
Eu sou a sogra cega.
Eu sou o ciclista com ganas de atropelar a sombra dos automóveis.
Eu sou o que roubou a herança para comprar uma partitura original de Debussy.
Eu sou a bicha que cuida da segurança da vila.
Eu sou o motorista do carro que tem simpatia pela contramão.
Eu sou o paulistano para quem a cidade não vai além da minha rua.
Eu sou a mulher que dá ordens na cama.
Eu sou a freira cujas crenças nunca revela.
Eu sou o matador profissional de pulgas.
Eu sou o sambista de uma nota só.
Eu sou o desgraçado de bem com a vida.
Eu sou a norueguesa que planeja casar-se com uma guria guatemalteca.
Eu sou o vigarista notório que ainda tem medo do pai.
Eu sou o negro de alma branda.
Eu sou a jogadora de pôquer que aposta e entrega as calças.
Eu sou o poliglota que comete os mesmos erros em todos os idiomas.
Eu sou o poeta que prefere pudins a sonetos.
Eu sou o confeiteiro de endechas.
Eu sou o valentão que só tem mais um dente para perder em briga de rua.
Eu sou a mulher cuja beleza é meu silêncio.
Eu sou aquela que visitou o estuprador faminto.
Eu sou o velho sem idade.
Eu sou a santa que procura se manter incógnita.
Eu sou o seresteiro fora do tom.
Eu sou você que não se conhece.
Eu sou o garotão do Arpoador vivendo no Alaska.
Eu sou o policial que não brincou de mocinho e bandido.
Eu sou o Hércules domesticado.
Eu sou a amante do homem puro.
Eu sou o que em vão abastece de medo o corrupto.
Eu sou o crupiê de roleta russa.
Eu sou a mosca que vomitou na sua sopa.
Eu sou o rei nu, depois de usar o vaso sanitário e antes de se limpar.
Eu sou a rainha um pouco lesada de tanto pó.
Eu sou o melhor aluno do professor cansado.
Eu sou a professora do aluno castrado.
Eu sou o riso.
Eu sou a lágrima.
Eu sou um deus nos acuda sem dinheiro. Passo bem, apesar de tudo.

Com Mondrian na madrugada

Sem sono, zapeei até chegar ao Arte 1. Neste canal passava um documentário sobre Mondrian, parei para vê-lo. Naquele instante contava-se que, antes da Primeira Guerra Mundial, ele fora visitar o pai adoentado na Holanda. A guerra eclodiu, e o artista teve de ficar um bom tempo longe da França, onde vivia àquela altura de sua vida. Deve ter sido a referência à enfermidade paterna o que me fez lembrar-me de meu pai, de quando ele morreu.
Em minha memória armazeno inteiro e intacto aquele dia. Na tarde anterior, recebi um telefonema dizendo que meu velho havia sido internado. Intuindo o pior, corri à rodoviária e, depois de combinar com meu cunhado e minhas irmãs de irmos de carro para o interior de Minas, peguei um ônibus com destino a Belo Horizonte. Pouco dormi durante a noite. Pensava nas muitas viagens que fizéramos juntos, papai e eu. Irresponsável, ele entregava o carro nas mãos de um garoto de 14 anos — e dormia. No escuro, eu buscava me confortar com essas e outras recordações e me arrastava à boca de uma conclusão: a nosso modo, fomos cúmplices. Viagem com um tico de transgressão, nosso segredo.
Uma senhora, sentada na primeira fila, puxava assunto com o motorista, claramente uma estratégia para não deixá-lo dormir. Lá pelas tantas, ele lhe deu uma cantada, e ela reagiu indignada. A desavença me devolveu a meu pai, um sujeito que, apesar de ter nascido num mundo rural, fugiu ao estereótipo e não se tornou rude — rudes eram muitas pessoas de seu convívio, alguns parentes, outros amigos. O velho jamais cantaria uma mulher naqueles termos, jamais alteraria o tom da voz, como de fato nunca o vi fazer. Algumas vezes vi-o desmoronar, cair abatido, mas, mesmo aí, com serenidade.
Em Belo Horizonte, a notícia de sua morte veio nos olhos marejados de minhas irmãs, no abraço com que me receberam na plataforma. Elas e meu cunhado não tiveram uma noite boa, pois souberam da morte do velho na madrugada, talvez na mesma hora em que eu, sentado no ônibus, supunha que ele já estivesse morto. Cansados ou não, partimos para uma viagem — sempre uma viagem — de trezentos e sessenta quilômetros.
Nesse dia, do qual recordo todos os minutos, uma lacuna: não sei como foi meu encontro com minha mãe. Lembro-me do que ocorreu depois do impacto de entrar no recinto do velório: eu olhava atento o rosto de meu pai e observava sem pressa seus traços — fino no trato interpessoal, fino no desenho do rosto: um bom homem bonito. No que recupero o fio da meada, encontro minha mãe ao lado do caixão, de onde não se levantou. Quando nos vimos a sós, já em casa, ela me disse: “Amei muito seu pai, mas não vou com ele”. E aqui ficou por mais 11 anos, uma prova de amor a ele, a nós, seus filhos, e a nossas famílias.
Fiz piada com o Ezinho Joele. Fui e voltei da rua para ver se a família do meu irmão e minha mulher haviam chegado do Rio. Aceitei o convite da Neide e do Guido, preocupados comigo, para ir à padaria fazer um lanche. Devo ter comido uma bobagem qualquer, mas era a companhia íntima de meus amigos o que me interessava, era a confiança de saber que, no meio deles, eu poderia chorar. Não chorei nem ali nem quando o corpo de papai desceu à sepultura. As lágrimas vieram noutro momento de intimidade, minha com minha mulher, uns dez dias depois, quando toda a família se reuniu para o Natal. Choro curto, excesso de um homem seco.
A vida de Mondrian continuava na televisão. Um sujeito obsessivo. Seu ateliê reproduzia, nos móveis, os quadrados coloridos, os retângulos coloridos e o vazio (branco) que cobriam suas telas. Era rigoroso, gostava de jazz; vivia só, saía para dançar de par com alguma mulher tomada emprestada de um de seus amigos. Idoso, Mondrian mudou-se para os Estados Unidos, país no qual, finalmente, obteve reconhecimento e dinheiro. Ali sua pintura mudou, mas seus traços continuaram fiéis a figuras geométricas básicas.

Mondrian

Se meu pai fosse artista, não seria Mondrian. Tampouco Picasso ou Dali ou Schiele. Praticaria um realismo sóbrio e acadêmico, pintando seu mundo rural, seus bois, animais cujas qualidades ele reconhecia de longe, num primeiro e breve olhar. Nisso era uma autoridade. Disso não soube tirar proveito financeiro. Para ele, não houve um Estados Unidos.

28.12.15

Falando do zero

Em “Chico — Artista brasileiro”, documentário sobre Chico Buarque de Holanda, dirigido por Miguel Faria Jr., Edu Lobo, ao falar do processo criativo, cita Fernando Sabino, que teria dito que escrever é muito simples: o sujeito senta em frente à máquina de escrever — estamos num tempo antediluviano, que antecede o computador —, corta os pulsos e manda ver.

Sabino não exagera, a escrita é tarefa árdua por ser um ofício do qual nunca se sabe, no qual nunca se aprende, sendo assim, todo recomeço se dá a partir do zero. Não é como andar de bicicleta, consertar relógio, recitar a tabuada, dar o golpe do baú, essas ciências que cobram criatividade, memória, mas se baseiam principalmente na técnica. A escrita só faz uso da técnica em seu momento de depuração, mas aí o sujeito já cortou os pulsos, enfrentou o zero e deu seus dois, três, sei lá quantos passos.

Escrever exige vigor físico. Nem sempre o escritor tem grana para ter uma boa cadeira, com isso o desconforto descamba para uma dor eventual nas costas, depois para uma lombalgia crônica, sem contar as lesões por esforço de repetição, causadas pelo uso excessivo do computador. Ao escrever, a pessoa sua, perde o fôlego, ou seja, sofre os efeitos negativos da ginástica, sem que usufrua dos positivos: escrever não emagrece, não baixa o colesterol, não ajuda a controlar a glicose, o que, de fato, é uma injustiça. Quem escreve é potencialmente um forte, não fossem o uísque, a diamba, as noites em claro. Não fosse a infelicidade — irmã siamesa. Sim, qualquer um que se envolva com a escrita é infeliz, mesmo o humorista, ou principalmente ele, uma vez que tirar graça de tudo causa um dessabor tremendo.

Escrever é prazeroso, afinal de contas, saindo-se do zero, chegou-se a algum ponto com um texto bem escrito e comunicativo. É uma vitória. Uma vitória que — quando e se o texto for lido — é colocada à prova e pode causar frustração. Por exemplo, se ninguém gosta daquilo que lê — ficar frustrado por isso é um pouco mesquinho, aprende-se com o tempo, pois as pessoas são livres para gostar ou não gostar do que quiserem —, ou se ele é mal interpretado ou incompreendido. Quem está fadado a escrever vai colher a vitória ou amargar a derrota brevemente, haja vista que deve começar de novo, o zero está lá e lá não pode ficar, é preciso escrever alguma coisa a partir dele, empurrá-lo para o precipício, uma vez que o buraco é seu destino (de onde ele sempre volta).

Tarefa de Sísifo ou vício, a escrita é isso, com ou sem punho — primeiro com, depois sem. É um suicídio que se repete, êxito e fracasso simultâneos. Ao morrer na escrita, o escritor ressuscita. Renasce, melhor dizendo, já que não traz de sua pequena morte nenhuma lembrança. Sempre o zero, início e fim.


14.12.15

Lição de surrealismo (Este não é um texto surrealista)



“Pense que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo. Escreva depressa, sem assunto preconcebido, bastante depressa para não reprimir, e para fugir à tentação de se reler. A primeira frase vem por si, tanto é verdade que a cada segundo há uma frase estranha ao nosso pensamento consciente pedindo para ser exteriorizada.” (Manifesto do Surrealismo, André Breton, 1924)


René Magritte
Enquanto teço o silêncio que roubei aos mortos, você borra sonhos e lustra angústias. Vamos engolir um sete a um sem eloquência. Vamos sem ir. Para ver se passa. Se passa a dor. Se a roupa se passa sozinha. Se o dia pássaro. Se o pássaro anoitece. Se a noite adoenta. Se a doença compensa. Se o pensamento cala a boca das sobras palavreadas ao longo da vala incomum da mudez.

Enquanto rego meu choro com caldo sulfúrico, você suspira feito amor perdido, cantando a liturgia turva do ocaso. Do ocaso de caso perdido. Das perdas petrificadas. Das pedras lanhadas no lodo. Do lodo esquecido na mão que o tentou deter. Da detenção dos matadores coxos da ingenuidade.

Preciso, masco ventre e mente. Quando não, desvario vazio, consumido em canudos de doce de leite. Você cata coquinhos na manhã lisa e sem brisa, e eu lhe pergunto se já esculpiu vento num soçobro. Quem inespera meus clamores?

Para mergulhar em tudo que nos é tão próprio e único, o empurrão de um baseado, o gosto ocre-duro do uísque, a dança vertical de um coro de violinos ou o segredo que só os oboés guardam quando soprados. Três perguntas secas descansam à escuridão: De quantos navios nenhuma tábua corrida? De quantos rios nenhuma alma varrida? De quanto dinheiro nenhuma felicidade comprovendida?

Chegarei, sim, no dia não. Chegarei a cavalo, cavalo montado em meu cansaço baio. Papai, tenho piolhos ainda. Mamãe, são caraminholas que coçam e caçoam. Nenhum peixe no anzol vergado pela leveza da água — isso que veio da lágrima do peixe, segundo Adriane Garcia. Pisceomasoquistas choram pelo único prazer de nadar nas próprias lágrimas. E nadam. Nado também. Nada. Na(da)dor. 

Agora, daqui a pouco, nunca. O tempo coleciona relógios famintos, cuja fome mal tiquetaqueia, berra. O berro atravessa a hora. Ao ir sem ir, a hora é uma luz vagarosa. Você paranda pelo sono dos sapatos e pisa em mim, capacho ao pó recolhido. Somos cágados, sujos filhos de um dos deuses desbraçados, esses mitos que crucifixam uns nos outros. Nós somos o prego. Nós somos o pau chutado da barraca. (E aproveitado na cruz. Também no credo.)

Isso não é tudo.