7.2.18

Mais uma curva fechada

Minha amiga me disse que, sentada no metrô, enquanto se deslocava do trabalho para a livraria, onde afinal nos encontramos, observou que as pessoas estavam tristes. Reforçou: “As pessoas estão tristes até a raiz.” Mesmo o Chico Buarque, a quem assistira uns dias antes, lhe pareceu abatido, sem energia.
Sei que estamos sob pressão e a um passo de jogar a toalha e dizer: não dá mais. O sinal está fechado para nós, que não somos nem tão jovens assim, quiçá para os jovens. Ah, Belchior, você não teve tempo de presenciar nossa deblace. Só nós assistimos a sua derrota de homem triturado pela máquina, isso que se vê todos os dias e nos leva a dar de ombros e seguir adiante.
A queda coletiva está acontecendo e não parece ser a soma das individuais. É um processo. Adoniran Barbosa viu situação semelhante a isso, miúda, é verdade, no desmanche do Bexiga, no ocaso do seu mundo. Ecoa agora o que o Sargento Oliveira, de “Um samba no Bexiga”, fala, com intenção de acalmar as pessoas: “Num tem importância / Foi chamada as ambulância / Carma pessoal / A situação aqui está muito cínica / Os mais pior vai pras Clínica.” A dimensão das “tragédias” tem distintas implicações: no fracasso de um país Brasil, não há clínica que suporte tantos e tantas que precisam de socorro. Não haverá toque de silêncio em cornetas ou bumbos, simplesmente chegará o fim.
Eu e minha amiga fomos ouvir o papo de Rogério Reis, o fotógrafo responsável pela foto que serviu de modelo à estátua de Carlos Drummond de Andrade em Copacabana. A história do encontro dos dois é ótima. Antes da foto emblemática, Rogério fez outras, também muito conhecidas: Drummond, com um livro indecifrável na mão, ora está sentado, ora levemente deitado num tapete persa do chão de sua casa. Rogério tinha uns vinte anos nas duas oportunidades que teve de fazer as fotografias. Alguém na plateia comentou que, para tirar fotos como aquelas, o fotógrafo deveria ter uma grande empatia com o fotografado, rara capacidade principalmente em um jovem. Verdade. Que moleque era aquele e que poeta — um velho que completava oitenta anos — era aquele?
Falo da década de 1980. O Brasil também capotava na curva, mas conseguimos um alívio, desse modo torto com o qual historicamente avançamos. E Drummond estava vivo. E Rogério, hoje com sessenta anos, um pouco mais, um pouco menos, apostava todas as suas fichas na vida que mal começava. Apostávamos nossas fichas, eis a diferença para os dias atuais. Reunimos um milhão de pessoas em várias praças para ouvir um palanque com oligarcas, democratas históricos e exilados recém-chegados levantando as mesmas bandeiras. Alguma coisa nos unia. Hoje mais nada.
Uns querem a mão dura para enquadrar os meninos levados e as meninas levadas que nos tornamos aos olhos reacionários. Solução infantil, que não encontra adeptos nem na psicologia mais velha e/ou velhaca. Outros acreditam que o erro foi só do lado de lá, que há um homem bom capaz de dar jeito em tudo. Não, não há um homem bom. Ou por outra: não há um homem bom para além do que eu e você possamos ser.
Esse caso do apartamento no Guarujá, a um leigo feito eu, parece pouco substantivo, difícil de, a partir dele, levar uma pessoa à condenação. Apesar disso, Lula tem culpa pela conjuntura esfacelada. Tem sim. Culpa política. Não só ele, diga-se, e nomeiem-se mais alguns: Fernando Henrique e Aécio, um MDB de cabo a rabo e mais inúmeros entre políticos anões e religiosos devotos do cifrão. Conseguiram, em certos momentos com mérito, levar o carro para além da curva. Seguros de si, trocando a direção uns com os outros, pisaram fundo no acelerador logo em seguida. Estamos de novo no meio de outra curva. Os pneus são os mesmos de quarenta anos atrás, e o farol está queimado. A direção está e estará nas mãos de um político, e é bom que seja assim, apesar dos pesares. Os passageiros, que já tememos a velocidade, agarramo-nos à mão do destino. Somos bois abatidos, que ainda mugem (baixo).
A situação está cínica. Cínica e meia.

22.1.18

As muitas infâncias


Para o Daniel Ribas

Dia desses, fui convidado para um bate-papo com crianças, mas, infelizmente, a conversa foi cancelada. Deveria falar como me aproximei da literatura, acrescentando como a questão da violência interfere na relação livro-infância. Fiz umas anotações-guia, e são elas que, de modo geral, divido com vocês. Ah, sim, a linguagem é adulta, na hora do vamos ver, manteria outro nível, mas jamais, em hipótese alguma, falaria como se estivesse diante de animais, gorjeando onomatopeias para bebê dormir.

Cresci num mundo muito diferente do de hoje. Não havia internet nem celular; havia televisão, mas, durante muito tempo, não na minha casa. A primeira TV que tivemos foi em 1970, um pouco antes da conquista da Copa. Eu tinha nove anos.

O que fazia uma criança sem TV, internet e celular? Fora de sala de aula — o número de crianças que não frequentava a escola era grande —, a molecada brincava na rua, nos quintais. Brincava de pique esconde, de mamãe da rua, de balança caixeta, de bolinha de gude; jogava futebol; fazia guerra de mamona; pulava córrego com vara de bambu; roubava fruta dos vizinhos. Nos domingos, ia à matinê e, no fim de todos os dias, cansada, dormia cedo.

Poucas faziam um trenzinho a mais: liam um livro na hora de dormir. Liam espontaneamente, porque ajudava a desacelerar dos dias de tanto corre-corre e pula-pula. Eu lia? Só por volta dos doze anos, a leitura foi se tornando uma atividade corriqueira, que eu buscava. O que, muito cedo, eu fazia era imaginar coisas, fazer versinhos, músicas. Bolava números de circo (acrobacia, palhaçada) e convidava os vizinhos para ver. Na porta de casa, armava um jogo de argola, que muita gente parava para jogar. Investia o lucro em sorvete e figurinhas. Colecionar figurinhas era a coisa mais importante do mundo, e, graças a elas, uma vez ganhei um fogão. E o que uma criança fazia com um fogão? Nada, ué, dava pra mãe, e a mãe vendia.



O querido Carabolante mandou a turma de doze anos ler um livro de gente grande: “Capitães de areia”, de Jorge Amado, que conta a história de uns meninos de rua, muito diferentes do que eu era, ainda que fossem da minha idade. Putz, como aquilo me fez bem! O livro me acompanhou pelos dois ou três meses que gastei para lê-lo e depois fazer o trabalho. A partir de então, ler passou a ser uma atividade que se encaixava perfeitamente nas demais. É verdade que, entrando na adolescência, uma novidade — forte concorrente da rotina estabelecida — apareceu na minha vida: as meninas, quer dizer, a atração por elas.

Brincando até não poder mais, lendo livros que contavam histórias ao mesmo tempo diferentes e parecidas com as minhas e metido em paqueras, acabei, entre uma pelada e um mamãe da rua, entre “O escaravelho do Diabo” e “Lucíola”, rascunhando uns versos, uns versinhos de amor, feitos para impressionar.

Encontrei na leitura — e na escrita — terreno para alimentar a minha já robusta imaginação. Por que fui assim? Por que a fantasia sempre me atraiu? Não sei explicar, mas quem é que sabe tudo de si?

O mundo é violento desde sempre. Às vezes, a violência está mais distante, às vezes mais próxima. Na minha infância, numa cidade pequena, violência era briga de rua, eram os meninos mais fortes se impondo. Eram os meninos da periferia fazendo valer seu destemor contra a boa vida dos bem-nascidos. Era isso e mais algum crime raro, quase sempre de fundo passional, restrito ao mundo adulto. Violência, violência mesmo estava lá no Oriente Médio, eu via na TV. Estava também nos porões da ditadura, mas eu não via na TV. Hoje a violência é na esquina — de grandes ou de pequenas cidades —, por isso a infância foge da rua. Poderia ser um estímulo à leitura, mas parece que os jogos eletrônicos têm falado mais alto.

12.1.18

10 01 — do ano da graça de 2018

Não acredito em numerologia, nessas coisas, mas ontem, 10 do 01, foi um dia interessante, vai que tem a ver com a data espelhada, não é? Pois bem, o dia começou da seguinte forma: ouvi a conversa entre aqueles que chamei de revoltados da aurora (dois senhores, na primeira hora da manhã, enquanto levavam seus cachorros para as necessidades matinais, ameaçavam destruir a assembleia e o congresso na porrada) e li, num cartaz-propaganda de um leitor de búzios, a promessa de, depois de uma consulta, o cliente “ter êxito em seus problemas”.

Trabalhei, como sempre trabalho. No fim do dia, resolvi ir ao cinema. Seguindo a dica de meu amigo e xará, o poeta Alexandre Marino, fui ver “The Square — a arte da discórdia” (Ruben Östlund). Sobre o filme, digo que é importante, senão fundamental, vê-lo nesse momento. O crítico José Geraldo Couto, na primeira vez que falou do filme (no site do IMS), fez elogios rasgados, na segunda, recuou um pouco, viu certo didatismo no filme, uma tentativa de açambarcar todas as questões pungentes dos dias de hoje. É até possível que ele esteja certo, mas tudo no filme é colocado de forma intensa, verdadeira, então, a meu ver, esse didatismo se perde ou perde a importância.

Comprei o ingresso e dei um pulo na livraria que fica a um quarteirão dali. No caminho, esbarrei em dois escritores numa ilha que separa as calçadas da rua. Brinquei com eles dizendo: “poxa, já somos poucos e vocês ainda ficam aí, expostos ao perigo.” Rimos, e eu tratei de seguir para a livraria, sabia muito bem o que queria lá. Há algum tempo, numa conversa com a Suzana Vargas, ela me disse que havia conhecido e ganhado um livro do Marcelo Maluf. Me aconselhou fortemente a lê-lo. Depois, no Face, o Eugen Weiss, respondendo a uma enquete sobre quais seriam os bons escritores da atualidade, tascou um Marcelo Maluf. Então eu ia à livraria para comprar um Maluf, este, não o outro, aquele. E fui. Lá, o poeta, cantor e livreiro, Leonardo Marona, botou a livraria de cabeça para baixo (exagero) para achar o “A imensidão íntima dos carneiros” (Editora Reformatório). Eu e Leonardo, antes de qualquer coisa, ficamos embasbacados com o título, e, agora, avançado na leitura, posso dizer que o livro é bom, aliás, bem bom.

Voltei ao cinema, encontrei dois amigos, sentei num cantinho, comecei a ler a minha recente aquisição. Entrei pra sala, fui desligar o celular e, antes, resolvi dar uma espiada no Face. Para minha surpresa, o querido Marco Túlio Costa acabara de publicar um texto sobre o meu “O bichano experimental” (Patuá). Coisa linda. Respondi a ele o seguinte: “Eu aqui esperando o filme começar, numa sala lotada, onde devo ser discreto, e leio isso. Não posso gritar, nem chorar. O que me resta senão sentir-me um bichano feliz, ronronar baixinho e firmar um compromisso de, saindo daqui, tomar um chope e propor um brinde aos deuses? Valeu, grande Marco Túlio Costa." Ao sair da sala, encontro meus amigos Shirley e Átila. Cada um deles carrega uma garrafinha de cerveja. O Átila me dá a dele, já vai entrar no cinema (para assistir ao “The square”) e é com essa garrafa que cumpro o prometido e brindo aos deuses as palavras sobre o livrinho. Depois, fui pra casa comer macarrão com salsicha e, sentado no computador, ficar ouvindo o Catho, esse jovem cantor de quem nunca ouvira falar.

8.1.18

O inadiável

Acorda com a sensação de que está atrasado, de que espera por ele uma urgência não revelada.

Faz o asseio matinal sem apuro. Engole o pão e bebe apenas meia xícara de café. Não arruma a cama. Não troca uma ideia com o porteiro. Enfia-se no carro.

Enfrenta o trânsito com fúria. Faz ultrapassagens pela direita e pela esquerda, avança sobre a pista exclusiva dos ônibus, pouco se importando se, na primeira, na segunda ou na terceira vez, a câmera o flagre e multe seu excesso. Espreme um ciclista contra o meio-fio. Fura sinais e, quando não o faz, buzina — se depende de que outro carro, a sua frente, dê a arrancada — ou, se é o primeiro parado no sinal, engata a marcha e toca ainda que algum pedestre esteja terminando de atravessar a rua. Xinga o pedestre. Lamenta a falta de civilidade dos moradores de sua cidade. E acelera mais ainda.

À entrada do prédio onde trabalha, fura a fila dos automóveis que se encaminham para o estacionamento. Para de forma irregular na primeira vaga que encontra e nem se importa com as advertências do encarregado. Pega o elevador. Sai do elevador. Toma o outro elevador. Lê, no monitor de TV, que são 7h39m. Chegou cedo, a tempo (de quê?).

Dá bom-dia aos poucos que estão no escritório. Recebe, em troca, olhares desconfiados, irônicos talvez. Deve ser a hora, ele nunca chega tão cedo, é da jornada das 10h às 19h. Mas hoje é diferente, precisa se organizar.

Onde estão seus pertences? Suas canetas? Seus papéis de rascunho? A calculadora? O chefe ainda não chegou. A secretária tampouco. Depois se encarregará de saber o que aconteceu. Liga o computador. A senha é recusada. Uma, duas vezes. Se errar a terceira, terá problema, terá de pedir uma nova senha e não conseguirá uma tão cedo, os responsáveis por isso não teriam motivo para estar no escritório antes das 8h. Resolve tirar da bolsa uma caneta, um papel de rascunho, o celular para usar a função calculadora. Suspira.

— E aí, aposentado? Esqueceu o que por aqui? — Eleutério, em tom jocoso, deixa a frase no ar e dirige-se à sua mesa de trabalho, lá na ponta extrema do salão.

Na sexta-feira anterior, havia saído no Diário Oficial, hoje é seu primeiro dia útil de aposentado, ele não se deu conta, ao contrário, acordou com aquela sensação de trabalho por fazer, de rotina a cumprir. Sente vergonha. Recolhe o que espalhara pela mesa, desliga o computador. O que dirá ao chefe? À secretária? A todo mundo?

Acomoda-se na cadeira. Infla o peito de ar. Fecha os olhos. E morre.

25.12.17

Repertório

O editor da Rubem é um jovem, o Henrique Fendrich. Nem bem sei como um dia ele me convidou para escrever em sua revista eletrônica, o fato é que eu aceitei, e minhas crônicas por ali passeiam há mais de cinco anos. Encontrei em Henrique um conhecedor da crônica brasileira, um senhor conhecedor, melhor dizendo. Ele, que também é cronista dos bons, realmente leu tudo, o que deveria garantir-lhe um espaço nas festas literárias, nos saraus do Sesc, em júris de concurso, mas, até onde alcanço do seu dia a dia, isso não acontece. O jornalista Henrique vive de trabalhos avulsos em Curitiba. Oh, Brasil!

A erudição do jovem editor, vez por outra, levanta do pó do esquecimento algum ou alguma cronista. Recentemente foi a vez de Marisa Raja Gabaglia, escritora que escancarava o peito, virava-se do avesso. Não conheço absolutamente nada do que ela escreveu, portanto foi no perfil feito pelo Henrique que encontrei a seguinte frase: “Sonho com a família perdida como se a pudesse recuperar. Sonho com a família como os cegos sonham com a luz.”

Em meados de dezembro, passei uns dias na companhia do meu amigo Marco Túlio Costa — um Escritor, disse noutra oportunidade e repito em quantas julgar necessário. Acontece que o Túlio não é só um escritor, é também um sujeito que vira e mexe arruma um projeto para atuar como voluntário. Seu livro “A árvore do medo” (Editora Formato), por exemplo, foi escrito a partir de suas oficinas com crianças carentes da cidade de Passos, onde vive. Ultimamente, ele trabalha com a Associação dos Deficientes Visuais. Nesses dias que passamos juntos, meu amigo me contou várias histórias da turma que acompanha, histórias divertidas, pois aqueles cegos são alegres e contornam com humor suas limitações. Túlio perguntou a dois cegos de nascença se eles sonhavam e com o que sonhavam. A resposta é que sonhavam com sons e tatos.

Marisa Raja Gabaglia, ao dizer que sonha com a família da mesma forma como os cegos sonham com a luz, está idealizando o sonho dos cegos ou simplesmente está dizendo — ela, que abriu mão da sua — que, na verdade, não sonha com família alguma? A julgar pelo levantamento da vida da escritora, esse do Henrique, a frase está apoiada na ilusão de que os cegos sonham com a luz, pois Marisa era carente do convívio familiar.

Certa vez, ouvi o Túlio (onipresente por aqui) aconselhar algumas professoras do ensino médio a não se preocuparem com o que o escritor quis dizer; como leitores deveríamos nos perguntar o que aquilo escrito sabe-se lá por quem significa para nós. Acabei de dar esse tropeço, mas até certo ponto justifico-o. Não houvesse eu sido alertado para a espécie muito singular de que é feito o sonho de um cego (pelo menos aqueles que nasceram assim), a frase de Gabaglia teria uma única leitura. Tendo ganhado repertório, a leitura se multiplicou e desse modo tornou-se mais interessante. Ah, como isso é bom. E como leva uma vida inteira nosso processo de alfabetização.

11.12.17

Papo reto

Você que sabe que a terra é plana; que Paul McCartney morreu antes de os Beatles fazerem sucesso; que Elvis está vivo, vivíssimo. Você — o mesmo ou outro parecido com o primeiro — que não tem um pingo de dúvida de que a ida do homem à lua foi apenas um truque dirigido por Kubrick, a mando dos estúdios de Hollywood; que advoga que tomar óleo de coco, chá de boldo ou urina de homem ou mulher virgens cura até falta de dinheiro. Também você — reforço: o mesmo ou outro parecido com o/os anterior/es — que tem absoluta certeza de que Deus fala e atua por meio do pregador da esquina; que acredita fervorosamente na boa vontade daqueles homens circunspectos que, por meio de um discurso empolado, oferecem solução para tudo, particularmente para o fim da sua pobreza, que não depende da redução da riqueza deles. Você que toma uma colher de azeite para evitar a ressaca; que bebe diariamente, mas é só uma social, nada demais. Você que diz que ter fé é acreditar cegamente, sem questionamento, em tudo — esquecendo-se ou desconhecendo o fato de que muitos santos, inclusive Moisés e Jesus, exercitaram a dúvida até o limite. Você que é democrata, mas defende a violência como o melhor antídoto contra a violência; que é avançado, mas sente saudades do tempo em que os homens eram homens e as mulheres eram mulheres. Você que, solidário às mulheres, defende com unhas e dentes que o problema da violência contra elas está na minissaia que usam. Você que vê, no Brasil de Lula (e no de Temer, diga-se) e até mesmo nos Estados Unidos de Obama, a evidência da ascensão do comunismo. Você que não é racista, mas — é o que você diz — francamente tudo tem limite. Você que não é homofóbico, mas, ora, meu Deus, você se espanta, tudo tem limite. Você que já andou no lombo de mula sem cabeça. Você que já viveu de tudo e aprendeu que o esforço sempre é recompensado, ainda que não seja exatamente isso que lhe aconteceu. Você que não se deixa enganar. Você que não muda de opinião. Você que acha bobagem essa coisa de livro, de filme, de teatro, de pintura; que acredita que o mundo está como está porque ninguém quer trabalhar. Você que fuma, mas não traga.




Pois bem: é com você que estou falando e quero lhe dizer uma coisa: você está mal, muito mal. Porém sou obrigado a reconhecer: você ganhou, o mundo é seu, e você não fará bom uso dele — aliás, você, dono do mundo não é de hoje, nunca fez bom uso dele.

27.11.17

Mais uma derradeira carta de amor


Amor, tivemos uma recaída e agora, de novo, temos de enfrentar o fim. Não é o primeiro, oxalá, seja o último.


Ao contrário das outras, esta carta anuncia que não, não cortarei os pulsos.

Não, não vou pular do décimo andar. Não subo mais tão alto, aprendi a desfrutar das delícias ao rés do chão, depois, você sabe do pânico de altura que passei a ter. Nem mesmo o tombo me atrai. Logo eu. Você dirá: logo você. Sim, logo eu.

Nas outras despedidas, além de ameaças, falei um monte de verdades embrulhadas num rancor danado de sem-vergonha. A vantagem da recorrência é que, na segunda vez, aprimora-se a primeira, na terceira, a segunda, e assim por diante. O que não dizer então de nós, que estamos em nossa décima? Décima? Ah, os numerais! Ah, a contabilidade do destroço!

Então começo esta carta sem dedo em riste, sem revólver que ora aponte para sua fronte, ora para o meu ouvido direito. Porém não pretendo escrever uma carta lírica, a última das últimas em tom passional. Nada disso, é uma carta protocolar.

Devolva-me o Neruda que eu te tomei, li, mas voltei a colocar no seu criado-mudo. Tudo bem, não é um caso de devolução, mas, por favor, reconheça que o chileno e suas estrelas ficarão melhor na minha companhia.

Não carregarei mágoas sobre todas aquelas coisas que você, três doses acima do habitual, costumava dizer na casa de seus pais. Mas, se puder e sóbria, desminta a história de que fui um menino cruel, que matei peixes apenas por matar. Você bem sabe que eram pombos, esses ratos alados.

Tem aquele amuleto que você — por razões tantas vezes confessadas, mas que eu jamais compreendi muito bem — gostava de ter ao alcance dos olhos durante o sexo. Pois bem, num momento de incontida raiva, eu o enfiei numa das minhas quatro malas e não sei quantas caixas. Mal lacrei estas e passei o cadeado naquelas, fui tomado por um arrependimento enorme. Eu jamais faria isso, eu não farei isso. Assim, não revire a casa atrás de seu orgástico amuleto, está comigo, mas não ficará por muito tempo, é só eu me arranjar na nova moradia, que ainda não sei qual é.

Não temos conta conjunta, não temos poupança nem letras do tesouro. Se tanto, em sua escrivaninha deve ter uns cem dólares restantes de nossa última viagem. Isso facilita nossa separação, não há coisas concretas — e duras — para cuidarmos. Em compensação, não sei bem ainda o que farei com minhas lágrimas (filhas de dores profundas), que só fui conhecer depois que passamos a ser, além de amantes, amigos. Minha oculista, sem saber de nada, disse que meus olhos estavam menos secos, que pareciam mais saudáveis. Não, não pense que uso de um artifício raso ou de manipulação para adiar nosso fim. Longe disso, mas, de todo jeito, vamos ver como eu me saio na próxima consulta. Aliás, se puder, veja em sua agenda se é mesmo na próxima semana. Desde já, obrigado.

Começo a ficar sentimental, isso não é bom. Você me disse várias vezes que eu não sei lidar com essas exacerbações, que sou melhor quando contido. Assim, para fugir de um vexame, começo a me preparar para, levando as malas e deixando esta cartinha, cair fora de sua vida.

Fique bem, não se esqueça de fechar a janela da área à noite. Sempre tem a chuva e, de uns tempos pra cá, os morcegos.

13.11.17

Na rua

Fui conversar com o sujeito na rua. Ele me olhou com aquela cara de que pior do que estava poderia ficar, acabava de ficar. Pedi a ele que me perdoasse, não ia incomodá-lo, ou pelo menos não ia incomodá-lo muito. Ele disse que não conhecia bem o bairro, se fosse, então, para obter informação talvez não pudesse me ajudar. Melhor seria se eu falasse com a moça da banca de jornal, com o vendedor de frutas na esquina.

Toquei em seu ombro. Ele deu dois passos para trás, levantou as mãos, deixou claro que não queria esse tipo de intimidade. Bisei minhas desculpas. Ele me mandou desembuchar logo, tinha pressa. Acrescentara certo pavor à cara de poucos amigos. Achei melhor tranquilizá-lo, eu não era um assaltante. Contestou em tom irônico, eu não precisava ter feito esse esclarecimento, via-se logo que eu seria incapaz de um gesto desses. Emendou com todas as letras: “Tu é um bunda-mole.”

Nesse instante, me enfezei, afinal de contas por que tamanha violência? Apontei-lhe o dedo, cocei a garganta e soltei um “pera lá, pô”. Ele quase riu, mas novamente ergueu as mãos e fez um gesto de que estava tudo bem, que eu deveria desconsiderar suas palavras. Chamei a atenção para o fato de que a conversa, que seria breve, estava se arrastando à toa por culpa dele. Fez não com os indicadores da mão direita e da esquerda. Era uma figura ridícula, afetada com aqueles dedos tremelicando ao deus-dará, à moda do presidentinho canalha, mas sem imunidade, desprotegido e largado na rua do meu ou do nosso bairro. 

Diante de quadro tão hilário, caí na risada. Ri de me curvar, mostrando-me igualmente ridículo. Dessa vez, foi ele quem tocou meu ombro. Eu me afastei, estendi as mãos e o retive. Ele me olhou bem no fundo dos olhos. Se não fôssemos dois desconhecidos, diria que o amor nos envolvia. Alguma fraternidade.

Numa rua movimentada e barulhenta, nem eu nem ele demos muita importância ao silêncio que estava ali entre nós dois e que servia de base ao olhar afetuoso que trocávamos. Foi um menino quem, agarrado à mãe, perguntou a ela por que estávamos assim, quietos e olhando um para o outro. A mãe deu-lhe um puxão, uma espécie de cala-boca, uma lição de que não é bom se meter na vida alheia. Eles passaram, e eu voltei à tona, reclamei de que já estávamos servindo de chacota aos outros, que precisávamos acabar logo com aquilo. Quis saber se poderia fazer a pergunta que tanto queria. Ele disse não.

Não? Como não? Já havíamos perdido um tempo razoável ali parados na rua, e agora ele vinha com esse papo de não? Deu de ombro, não era problema dele. Fiquei furioso, a que ponto as relações humanas estavam chegando. A maldita rede social separava as pessoas umas das outras, ninguém mais sabia como manter uma boa convivência. Nervoso — cuspia, bem sei —, eu não admitia ser tratado daquele jeito. Ele cruzou os braços, fez pose desses brutamontes que se miram antes da luta. Imediatamente fiz o mesmo. O menino e a mãe passaram por nós mais uma vez. O menino, desatento à lição dada havia pouco pela mãe, não resistiu e riu da nossa cara, com um dos dedos fez rodinha em torno da orelha. Doidos, era isso que éramos para ele.

Não me importei muito com o menino, mas o sujeito que não queria conversa ficou uma arara. Despejou sobre mim um monte de impropérios. O que eu provocara havia nos levado àquela situação vexatória. Exigia que eu lhe pedisse desculpas, mais até, que eu, em alto e bom som, fizesse chegar o pedido ao menino, à mãe, ao vendedor de frutas, à moça da banca de jornal, ao motorista de ônibus que passava por ali naquele instante, ao taxista que pegava um velhinho com dificuldade para entrar no carro, ao mendigo que caminhava bem no meio da rua, indiferente a tudo e a todos. À medida que ele falava, fui sendo tomado por uma espécie de culpa, quase entro no jogo, quase me desculpo com o mundo. Buscando reencontrar meu caminho, um acerto de contas com as minhas reais intenções, respirei fundo.
O autor no bar Ouro Preto, Itaim Bibi, São Paulo.

Eu havia puxado assunto com aquele homem apenas para falar com alguém. Não tinha dúvida de nada, não tinha questões a levantar. Sabia todos os caminhos, conhecia todas as lojas, botequins, padarias. Mas estava só, absolutamente só. Tudo que acontecera a mim e ao desconhecido, aquela série de mal-entendidos, abrandara meu estado insular, deixara-me satisfeito, devolvera-me à vida.

Falei bem baixo que não me desculparia, também não lhe faria pergunta alguma. Que ele ficasse bem. Já seguia adiante quando ele me chamou e, quase aos gritos, assim pelo menos me pareceu, quis saber se eu era feliz. Fez a pergunta, mas não esperou a resposta, virou-se e foi embora. Caminhei em direção oposta. Vi, do outro lado da rua, o menino no colo da mãe. Ele me apontava. É possível que dissesse: “Mãe, lá vai o moço feliz.”

29.10.17

Aprendido, reaprendido, por aprender


Nos últimos dias, aprendi que as estrelas se formam por meio de gases, o que não é novidade para ninguém, mas para mim era até bater os olhos naquela tela de TV existente no elevador do prédio no qual trabalho. Nem bem li o enunciado, e o texto em si era apenas o enunciado, pensei: meu deus, nossos puns de hoje serão as estrelas de amanhã. Ao mesmo tempo, me lembrei de que o metano é um dos maiores responsáveis pelo efeito estufa. Qual o balanço afinal: mais estrelas ou mais buraco na camada de ozônio? Incapaz de responder, resta-me rogar aos céus para que caiba na cozinha do universo algum espaço para o delírio dos incautos.

Não que eu não soubesse, sabia e sei faz tempo, mas nos últimos dias reaprendi, a duras penas, sempre é a duras penas, que uma ideia se esvai facilmente. Havia fechado o livro que estava lendo ("Tirza", de Arnon Grunberg, publicado pela Rádio Londres) e me ajeitava para dormir quando uma insinuação de verso me tirou o sono. Poderia ser o início de um poema. O verso ligava o silêncio à imagem de um cão sem lua. A questão é que, sem ter me levantado e anotado a ideia, do possível verso só guardei essa ligação tênue entre o silêncio e um cão sem lua. O verso em si, se houve, foi perdido, um poema que poderia ter sido escrito foi abortado, ou melhor, nem foi concebido — ah, Onã, deus da infertilidade! Se minha ignorância permite até fazer piada com essa evidência de os gases formarem as estrelas, no caso da perda de um verso, eu — esse escritor calejado (ah, Onã!) e preguiçoso, colecionador de versos perdidos — transito além da lamentação e me puno. De que maneira? Não conto, não quero que alguns leitores sintam alegria por isso.

Dados o aprendido e o reaprendido, o que ainda pode aprender um burro velho feito eu? Ganhar dinheiro. Vestir-me bem. Arrumar o cabelo. Cortejar uma dama. Rir sem motivo. Engraxar os sapatos. Falar inglês e/ou javanês. De todo modo, falar pouco e na hora certa. Pescar. Ter espírito crítico. Aderir a uma causa. Cantar no tom e sem errar a letra. Piscar um olho só. Chutar de canhota. Chutar no gol. Dançar de olhos fechados. Beijar de olhos abertos. Ler Ulysses.

Caramba, faltam muitas coisas, vou precisar de mais umas três vidas. Filho de mascate, mascatinho, portanto, proponho uma barganha: aceito morrer no espaço desta vidinha mesmo, mas, em troca, exijo que os ratos que roem os nossos queijos, sapatos, calcanhares, calças, que roem as nossas vergonhas, cuecas, barrigas, camisetas, que roem os nossos queixos, brincos, cabelos, chapéus, que roem nossa decência, enfim, roam uns aos outros até se consumirem. Como isso não acontece assim, de graça, cada um que arme sua ratoeira, recolha seus ratos e os envie para aquela gaiola, o xilindró. O voto (ou o não voto) bem pode fazer esse papel de armadilha 



16.10.17

Tomates e liberdade

É metafórico: um grupo que defende a devolução do poder aos militares jogou tomates num senhor que parece determinado a não deixar o presente cumprir sua sina de vir a ser futuro. Em permanente embate, o Brasil lançou ao ringue dois adversários que carregam em si o pior deste país cheio de piores. Vendo-me obrigado a torcer nas várias porrinhas do nosso dia a dia, dou de ombros, mas não lavo as mãos, e saio para caçar alguma esperança.

Encontro na Maré um pouco dela. Um pouco, eu disse. A solução não está inteiramente ali, claro que não, mas na Maré (nas favelas) há uma juventude que resiste sem fuzis e lamentações a isso que temos chamado de guerra às drogas. Essa juventude busca, por meio da palavra, da música, das artes plásticas, se meter entre o tráfico e o Estado para dizer que não aceita o papel que reservam a ela. Há ali uma força descomunal que, por sorte, encontra espaços de acolhida, como o Observatório das Favelas e o Centro de Artes da Maré (para ficar restrito à Maré). Aquela turma não vai se calar e vai cobrar seu espaço. Os passadistas e os que não querem perder o status quo serão engolidos por movimentos desse tipo, pois há um país novo brotando deles. Um país que é jovem, negro, feminino e elegante. O “Poetas Favelados” é a síntese disso tudo.
Silvana Mezenes, do site do Mulherio.


O Mulherio das Letras, cujo primeiro encontro se deu nesta semana em João Pessoa, é mais que um grupo de escritoras que busca chamar a atenção para o fato de que a presença das mulheres na literatura — e não só nela — tem relevância diminuída. Ao acontecer num estado do Nordeste e ao adotar um modelo no qual não há exatamente palestras, o encontro questiona várias coisas ao mesmo tempo, entre elas, a centralidade Rio-São Paulo e a verticalização num mundo — o da literatura e das artes de modo geral — no qual os artistas devem se posicionar a favor da igualdade e da proximidade.

Perspectiva da exposição "Faça você mesmo sua Capela Sistina"
A reação que os artistas — e não só eles — têm tido aos ensaios (em alguns casos, bem mais que ensaio) de censura é outro canto de esperança. Ouvi relato de uma mulher que, diante da manifestação ruidosa de alguns religiosos inconformados com a exposição “Faça você mesmo sua Capela Sistina” — de Pedro Moraleida, um artista plástico que morreu muito jovem —, resistiu à presença ameaçadora percorrendo, ainda que assustada, a sala do Palácio das Artes de Belo Horizonte de cabo a rabo. Logo depois, grupos faziam ato de protesto em defesa da exposição e, claro, da própria liberdade. Outros movimentos, com adesão de artistas conhecidos, têm se organizado para fazer frente aos censores.

Termino contando o que li em Frei Beto — num artigo n’O Globo, em 9 de outubro. O religioso diz que no século XVI a inquisição obrigou Daniele de Volterra a cobrir todos os nus que Michelangelo, seu mestre, havia pintado na Capela Sistina. João Paulo II mandou restaurar os originais uns quinhentos anos depois. Não sejamos os novos inquisidores. Não precisamos concordar com tudo, é até bom que não, mas vamos exigir que uma coisa só seja respeitada: a liberdade. 

2.10.17

Nem para o passar do sol

Meu tio Wellington, o tio Elin, costumava dizer: “hoje não estou para nada, estou apenas para o passar do sol”. Falava como troça, zombeteiro que era. Não sei se a frase é de outra pessoa, mas que meu tio poderia ser seu autor não resta dúvida. Ele era desses sujeitos inteligentes, que desprezam a inteligência sisuda, preferindo levar a vida ao rés do humor. Foi uma das figuras mais marcantes na minha vida, e morreu cedo, muito cedo, mais ou menos com a minha idade hoje.

Não vou falar de meu tio, mas aproveitar o gancho da fala dele para dizer: amigos, hoje não estou para nada. Não estou para as minhas queixas. Não estou para as minhas limitações. Não estou nem mesmo para a tragédia que desaba sobre todos nós, neste Brasil que, apesar de não sei quanto em reservas cambiais, está falido. Falido de caráter. Falido de futuro. Não estou para nada disso.

Se um pássaro canta, meus ouvidos se fecharam antes. Se uma luz brilha, meus olhos se fecharam antes. Se um abraço me alcança, meu corpo se petrificou antes. Não estou para nada.

Não estou para o sorriso da moça. Não estou para a cerveja com o amigo. Não estou para o pôr do sol. Não estou para a lua.

Guerras não me interessam. O drama humano não me interessa. A festa não me interessa.

Não estou para o gol, nem para a grande defesa ou o erro do juiz. Não estou para a desfaçatez dos políticos. Não estou para a escrita. Hoje. Tudo isso hoje.

Mas eu sei, sei bem, sou um galo sozinho, todos vocês estão atentos e potentes. E como dizia João Cabral de Melo Neto: “Um galo sozinho não tece a manhã: / ele precisará sempre de outros galos.” Acrescento: não tece a manhã, tampouco a noite. Melhor assim.

18.9.17

Aquela moça daquele dia

O que transformou aquele dia comunzinho foi o fato de ter ido ao cinema com um casal de amigos ou mais que amigos — somos benditos pelos astros e nascidos os três num 17 de novembro, ele o mais velho, ela a mais nova. Fomos ver “Como nossos pais”, dirigido por Laís Bodanzky, filme que está dando o que falar.
Entre os mais próximos, só ouvi elogios: amigas mostrando-se identificadas com as mulheres do filme, quase todos elogiando a atuação esplendorosa de Clarice Abujamra e Maria Ribeiro, atrizes que interpretam mãe (Clarice) e filha (Rosa). De pessoas distantes escutei alguns senões. No site do Instituto Moreira Sales, José Geraldo Couto pontua que o filme tem muito de defesa de uma tese, no caso o papel da mulher nos dias de hoje, dando pouco espaço a enquadramentos e outras sutilezas da arte cinematográfica. Uma escritora que acompanho no Facebook achou que as questões diziam respeito à mulher do século XIX, um tanto quanto ultrapassadas, portanto. Bial, em seu programa de televisão, tachou o personagem do marido de Rosa (Paulo Vilhena) como meio banana. Na reação irônica da Maria Ribeiro, os homens são sempre e de fato uns bananas.
O argumento do crítico me parece interessante, o da escritora, nem tanto, uma vez que as mulheres com quem tenho conversado se identificam profundamente com as dores de Rosa e/ou com as de Clarice. De minha parte, acho — com o que meu companheiro de sessão concordou — o personagem masculino, além de banana, bem caricato. Para minha mulher, na realidade, os homens não estão acostumados a desempenhar um papel secundário, por isso o incômodo. Faz sentido.
Terminada a sessão, lá fomos eu e o casal tomar um chope. Não sei se senti falta da minha mulher naquela hora ou se agradeci o fato de ela ter visto o filme antes e não estar ali conosco. Não há como casais saírem do filme e não promoverem uma pequena DR. Pois bem, eu estive ali entre o casal e, sim, as diferenças entre homens e mulheres sobre os papéis de cada um no dia a dia da família vieram à tona. Claro, nada foi desestabilizador, meus amigos se amam, e nós três temos intimidade até para alguma confissão. De todo modo, os três litros de chope transformaram tudo num momento de confraternização e, por que não?, de troça contra a vida muito séria. Certa hora, ao voltar do banheiro, escutei o resto de frase que ele dirigia a ela: “vocês são impenetráveis.” Sem saber o contexto, me espantei e reagi: “como assim?” O garçom, ali na lida de encher os copos, talvez testemunha de uma conversa maior, não se aguentou e riu. Rimos. Rir fora de hora não tem preço, assegura nosso cartão de afeto.

Encaminhávamos para o final da noite quando aquela jovem apareceu. Veio pelo meio do bar já falando conosco, que não a conhecíamos. Ela nos disse que estava usando uma calça difícil de tirar, feita para dificultar a vida de um possível estuprador e, naquele momento de ir ao banheiro, pagava o preço. Depois de alguma troca de palavras engraçadas entre nós e ela, a moça foi e voltou do banheiro. A calça era mesmo tão complicada que minha amiga teve de ajudá-la a dar o nó naquela espécie de cinto que passava aqui, ali e lá. Não sei o que meus amigos pensam a respeito, mas a jovem era dona de uma nova palavra. Seus dramas podem ou não ser os de Rosa e Clarice, mas ela parecia querer nos dar conta de que há outras mulheres no caldeirão dos dias atuais, aquelas que, apesar das dificuldades — como a de lidar com a realidade ameaçadora de um estupro —, vivem com pés e mãos no futuro.

4.9.17

Meia dúzia e gordura

Para o Raul Drewnick, à sua moda e com menos brilho 


Um
Morreu meu amigo que dizia “ô, maluco!” e, logo depois, o Wilson das Neves, que repetia “ô, sorte!”. Sei lá se com eles está findando nossa capacidade de exclamar, que é a mesma de espantar-se. Seria o fim.

Dois
Esse chope mal tirado, esse silêncio do qual não me desgrudo, aquelas contas por pagar botam a gente petrificado como o diabo.

Três
No meu jardim de inveja, as flores do vizinho não fedem nem cheiram.

Quatro
Com o tempo, a saudade — sem motivo — vinga feito doença crônica.

Cinco
Li há pouco numa tabuleta de rua: “Fé nas cria”. Achei minha igreja.

Seis
Naquela noite de inverno, sem ninguém que pudesse me aquecer, descobri do vinho o fogo e o mistério e, imodesto, nem no frio ousei crer.

Gordura
O problema é o regime.

20.8.17

A ciência cansada




A moça que vai descer do ônibus antes de mim leva o celular no bolso de trás da calça. Eu me pergunto a razão disso, não me parece natural, muito menos seguro, haja vista que o aparelho fica metade para fora. No bolso de trás, totalmente protegida, os homens, principalmente eles, levam a carteira, sempre foi assim. Não, não e não. Meu pai, agora me lembrei nitidamente, levava a carteira no bolso da frente, no da direita. Ele usava daquelas calças cujos bolsos frontais são fundos, bem fundos, logo uma carteira solta ali está seguríssima. Esse modelo é o mesmo que o Veríssimo disse em crônica usar a vida toda e, por conta dessa fidelidade ter estado, em determinados períodos, na moda e noutros fora. Veríssimo, mestre, você não passa de um démodé, a calça com bolsos mais rasos está na crista da onda pelo menos desde os anos de 1980. O Whatsapp demanda ter rapidamente à mão o celular, por isso a vitória da calça atual. De novo cometo uma inverdade, o bolso curto existe, acabei de dizer, antes das redes sociais, logo a causalidade é outra: não fosse o bolso raso, não haveria a rede social, em particular o Whatsapp.

Todo casamento é um equilíbrio precário, seja o casal de que espécie for: negro casado com negro, negro casado com branco, branco com branco, europeu com asiático, velho com novo, homem com homem e mulher com mulher — sem esquecer os poliamorosos e os transgêneros. Enfim, é da natureza dos casais conviver com um perigo à espreita, não percebido, capaz de fazer com que todos se equilibrem na corda bamba; sem sombrinha, acrescento. Sendo assim, os casais vão, ao longo do tempo, criando suas defesas, quer dizer, aqueles que não chutam o balde e voltam à doce vida de solteiro, essa falácia que inventamos, uma vez que estar solteiro é um equilíbrio igualmente precário estabelecido numa casa quase sempre suja, com a cama desfeita e a geladeira vazia. Deixo as tergiversações de lado e vou ao que interessa, no caso o que os números dizem sobre o casamento. A evidência, todos sabem, é que o curso de dança é a última etapa do casamento. É tiro e queda: o casal se matriculou na dança, o casamento chegou ao fim. Nada mais lógico: dançar na corda bamba, e aí com ou sem sombrinha, é impossível, não se vê nem em circo.

O pão cai sempre com a manteiga virada para baixo. Assertivas como essa vieram importadas de países que não sabem o que é pobreza, digo baseado em uma razão muito simples: o pão cai não só da mão daqueles que têm dinheiro para comprar manteiga, cai também de quem come pão com pão.

É dando que se recebe. Esqueçam, essa frase faz parte da oração de São Francisco, este homem bom, mas ruim de prognóstico. O que mais se vê é muita gente dando (ou sendo roubada) sem receber nada em troca. Descarto a frase não por suas questões intrínsecas, simplesmente não serve ao meu propósito. Busco outra então. O preguiçoso fica pobre, mas quem se esforça no trabalho enriquece. Veja que esta é parecida com a outra, mas não escorre de boca de santo, tem mais a ver com os senhores do mercado, esses que nos fazem crer nisso e, por isso, nos fazem perder nossas vidas. Ó, céus, aponte aquele que ficou rico trabalhando.

Apresentei, amigos, quatro teorias. As duas primeiras científicas até a raiz, as outras, como demonstrado, pura balela, coisa de ciência cansada. Em tempos de falsas notícias, tenhamos cuidado, principalmente quando falamos de verdade científica, que se estabelece depois de cumpridas várias etapas, que vão da hipótese ao teste e, em seguida, à crítica. Enfim, ciência exige protocolos. Então, amigos, agarrados à ciência ou desagarrados da ciência cansada me ajudem a responder à questão inicial: como justificar o celular no bolso de trás?





13.8.17

E tome palavra com Kátia Bandeira de Mello-Gerlach




E tome palavra




Kátia Bandeira de Mello-Gerlach                               Despejo                               


Ojepsed não passava do gênero escritor ocioso e insolente. Recusava os cumprimentos exigidos pela civilidade a qualquer um que descesse no elevador em sua companhia. Com um bafo de café amargo e carranca, o sujeito irritava. Síndico, sub-síndico e membros do conselho conspiravam o seu despejo em reuniões regadas a garrafas de Malbec despejadas até a última gota. Polarizados na política, os vizinhos gozavam de unanimidade no que dizia respeito ao escriba herdeiro do imóvel após o falecimento de sua mãe no chuveiro a gás, morte que chocara a todos e lançara suspeição no ar. Descarado ágil, Ojepsed usava de charme e sorrisos quando algo lhe interessava, inclusive o desfecho de uma vida. Convencera a vizinha idosa a suspender a queixa crime por conta dos tangos que ele ouvia a cento e setenta decibéis madrugada afora. Cinco dias depois, mais um homicídio no edifício. Nas reuniões de condôminos, Ojepsed chegava carregado de livros embalados em plástico. Poemas auto-publicados. Em casa, os compradores descobriam haver levado gato por lebre: tinham em mãos cadernos em branco com um único verso na capa. Et voilá, os que reclamavam, desapareceriam um por um dos andares a meio lume. Para completar o quadro de indignação geral, Ojepsed começou a abandonar os dejetos do gato gonzalo espanhol em um canto do elevador. Disfarçava esquecimento enquanto a maioria dos vizinhos chamava aquilo de provocação. Um ou outro que ousasse argumentar com Ojepsed tombava na lista dos desaparecidos, sendo que o síndico sequer se despedira de dona Ercília antes de ser encontrado flutuando no mar do Arpoador com as mãos cruzadas sobre o ventre. No fundo, no fundo Ojepsed almejava suceder Rimbaud no papel de poète maudit. O seu nome, no entanto, causava-lhe pejo quando ouvia os sussurros do resto dos moradores que se referiam a ele como Ojépissédi, alcunha para cordelistas pau-de-arara, inadequada para alguém que se intoxicava de incenso e exigia que lhe pedissem autógrafo no ponto do ônibus quando saía para flanar e se abrigava da chuva, sem temer despejos.


(texto em conformidade com as regras do método de Raymond Roussel levemente alterado)



6.8.17

Sob os meus cuidados

Para Vanessa e Pedro

No segundo dia da Flip de 2017, longe da festa, acordei, vesti o short, a camiseta, o boné, o tênis e, disposto, caminhei de Botafogo à Gávea, uma boa distância. Fui ao Instituto Moreira Sales ver a exposição com as fotografias tiradas por Chichico Alkmim em seu estúdio em Diamantina, mantido entre 1920 e 1950 mais ou menos. Suas fotos captam a emoção humana de forma impressionante. Uma menina acompanhava a exposição com familiares e fez um comentário pertinente: não há um único sorriso em todos aqueles rostos. É verdade, as expressões são graves, em grande parte porque deveriam ser instantâneos para documento, mas também, especulo, porque são pessoas humildes, quem sabe um pouco assustadas com o aparato tecnológico, as luzes, tudo isso que uma foto então demandava. Há mulheres bebendo cerveja, há um bar repleto de homens que leem jornal, há estudantes uniformizados, há religiosos. Muitos negros, inclusive entre os estudantes. Muitas mulheres, algumas em sessões eleitorais. Lamentei o fato de, por intermédio daqueles registros, constatar mais uma vez que o Brasil subaproveitou a oportunidade do fim da escravidão e a de ter dado às mulheres direito ao voto relativamente cedo.



Foto do acervo do Instituto Moreira Sales


Na manhã seguinte, eu veria o vídeo no qual a senhora Diva Guimarães — uma negra paranaense, professora por quarenta anos — levanta-se durante a palestra em que o ator Lázaro Ramos participava lá em Paraty e faz um dos depoimentos mais lúcidos e duros que já ouvi. Dona Diva bem poderia ter saído de uma foto de Chichiko para nos dizer que falhamos. São palavras dela a respeito da escravidão: “Aparentemente a gente teve uma libertação, que não existe até hoje”. A senhora, na sua argumentação, faz um discurso veemente sobre a importância da educação, ecoando aquelas fotos com negros e negras trajando uniformes.

Depois da ida ao instituto, depois do almoço, depois do cinema, mas antes de saber de dona Diva e de ter a companhia da querida Vanessa e do querido Pedro, amigos de meus filhos que tomo como meus também, ao sentar-me num quiosque que vende cerveja artesanal e de onde se podia ouvir um trio mandar ver o velho e bom rock’n’roll, me dei conta de que todos os escritores da cidade haviam se debandado para Paraty e por lá ficariam alguns dias.

Senti então que eu tinha uma imensa responsabilidade, a cidade estava sob os meus cuidados. Não que tivesse de dar conta da violência, do desemprego, das mazelas que de alguma maneira apareciam nas fotos de Chichico e que viriam a ser denunciadas — sem que eu ainda soubesse, repito — por dona Diva, portanto, antigas, duradouras e não exclusivas do Rio de Janeiro. A cidade estava sob minha responsabilidade poética, e só eu poderia contemplá-la com a ternura que merece e exige. Quando meus jovens amigos chegaram, lancei sobre eles meu primeiro olhar de curador da ternura. Depois direcionei-o a duas crianças que dançavam. Não me esqueci dos músicos, da moça bonita na mesa ao lado, do vendedor da boa cerveja, do casal de gringo que filmava tudo. Eu era o Poeta Terno, o único nos mais de um mil e duzentos quilômetros quadrados ocupados pela cidade. 

Assim eu estava quando cruzou à minha frente, abraçado a uma moça e esbanjando sem pudor uma alegria quase tátil, o poeta Carlito Azevedo. Não, eu não era o único escritor na cidade, e isso tirou um tremendo peso de minhas costas. Lembrei-me então de um haicai do Bashô compartilhado no Facebook pelo próprio Carlito.


              “quando a lua vai embora
               descobre-se que a mesa
               tem quatro quinas.”


Não sei bem como terminar essa crônica de peças soltas e desconexas. Talvez contando que só fui uma vez a Paraty, quando nem existia a Flip, e lá comprei uma camiseta estampada com o rosto do Chaplin.