31.7.22

Semana do escritor

                                                                           Dia 25 de julho é o Dia Nacional do Escritor

 (celebro todos, mas não poupo nenhum, a começar por mim)

 

Dois escritores se encontram num bar. Se encontram por acaso, jamais se fariam companhia, pois se odeiam. Um finge que não vê o outro, numa reciprocidade comovente. O que chegou primeiro chama o garçom e, em tom de quem quer ser ouvido por todos, particularmente por aquele, pede uma caipirinha à Quixote. O outro ri nas entranhas, discreto, onde já se viu tamanha estupidez. O drinque chega e é reluzente, incrivelmente bonito. O primeiro escritor dá um gole, e o segundo sente uma pontada que não consegue localizar bem onde é. Ao segundo gole do escritor de fala alta e ostensiva, o que achou a tal da caipirinha à Quixote não só um péssimo nome, mas também absurdo histórico e desrespeito literário, sente mais que uma pontada. Ele começa a ver estrelas. Quanto mais o outro bebe, mais estrelas cobrem sua visão e, logo depois, não são mais estrelas, são moinhos de vento. Então o escritor que, sem beber, se embebedava, levanta-se e começa a combater os moinhos de vento. Só no outro dia, Dulcinéia, a enfermeira roliça, lhe confidencia a razão de ele estar amarrado ao leito de um hospício.

 

**

— E o que você faz?

— Sou escritora.

— Jura?

— Por são Machado e santa Meireles.

— Você não é cristã, certo?

— Como assim?

— Esses santos não são da bíblia.

 

**

No dia em que seu amado livrinho atingiu a marca de um milhão de exemplares vendidos, ele ficou eufórico. Bote eufórico nisso. Um milhão? Pensa no que é isso. Vende-se um livro, depois um segundo, um leitor comenta e, em seguida, vendem-se dez de uma vez. Uma livraria encomenda mil e, não demora muito, mais mil e depois mais mil e enfim cinco mil. Que loucura, um milhão. Me belisca que vou ter um troço. Ah, tremenda alegria. Alegria é pouco. Tremenda felicidade! Uma coisa dessas deveria ser desfrutada, o que faria descendo à rua e experimentando a notoriedade. Mal posou o pé na calçada, recebeu uma livrada na cabeça. Nem teve tempo de olhar de onde partia o ataque, que livro era, caíram sobre seus ombros mais dois e, no próximo segundo, outros três e quatro. Saiu correndo, enquanto novos o atingiam feito bala. Conseguiu olhar de relance a capa de um deles, e era o seu. O seu! Dobrou a esquina e, quando se achava salvo, levou uma saraivada de tiros, uma biblioteca inteira saída de uma baioneta adaptada. Disparou em fuga feito um doido. De vez em quando, olhava para trás e via que a pilha de livros só fazia crescer, logo tomando a calçada e o asfalto. No barato, eram cem mil, dez por cento de sua venda. Que diabos teria ocorrido? De repente, o ataque cessou, e ele, ao chegar esbaforido a um novo cruzamento, viu uma senhora velha, encarquilhada e encurvada, apoiando-se, com a mesma mão com que segurava uma sacola de mercado, numa bengala. Resolveu ajudá-la a atravessar a rua. Estendeu-lhe o braço. Davam passos lentos, no ritmo dela. No meio do caminho, o sinal abriu, e os carros começaram a buzinar. Foi então que a mulher olhou para ele. Olhou, desviou o olhar na direção dos automóveis. A buzina não se intimidou, tampouco ela, que, enfim, encarou seu guia.

— Você não é o autor deste livro aqui? — parou (carros em ponto morto aceleraram, buzinas blateraram, motoristas xingaram) e, com um grande esforço, tirou da sacolinha o exemplar do best-seller.

— Sim, sou eu.

Ela então, com movimento surpreendentemente rápido, levantou a bengala e acertou a testa do escritor. Motoristas e caronas aplaudiram, passantes uivaram, moradores jogaram páginas picotadas do livro pela janela. Depois, tudo perdeu a pressa. A senhorinha poderia terminar de atravessar a rua, a cidade estava salva.

 

                                                                **           

— Mãe?

— O que foi?

— O livro...

— O que tem ele?

— Bem, sabe, ele me deu uma vontade danada de continuar viva.

16.7.22

Parque de distração

 No Brasil, todo mundo está precisando dar um descanso à cabeça. Para isso, existe um parque cheio de possibilidades que vão do joguinho eletrônico ao carteado, passando por uma leitura leve. Há, meio intrusa, uma opção que me agrada muito: brincar de caçar palavras que sumiram das ruas.

Na minha infância, em casa com duas moças que demandavam intensamente a máquina de costura, chulear era palavra usual. Para quem não sabe, seu significado é dar uns pontinhos na beira do tecido para ele não desfiar. Eu ignorava, mas o Houaiss me conta que chulear também é, ou foi, “ficar na expectativa de obter algo muito desejado”. Chuleei a manhã toda o encontro com Geralda. Ah, até os nomes se perdem pelo caminho. Segundo o IBGE, na década de 1950, havia umas vinte mil Geraldas no Brasil; sessenta anos depois, não chegavam a mil.

A distração por meio de palavras mortas é uma coisa meio sofisticada, cerebral. Ora, então, é melhor agarrar-se a coisa mais trivial: sair à rua em busca de um refúgio, o que não falta no Rio de Janeiro.




Me sentei na mureta da Urca. À minha frente, num dia azul de inverno, o mar, o Cristo Redentor, lá longe o Dedo de Deus. Enfim, uma paisagem exuberante, capaz de restituir o fôlego ao mais estressado entre os estressados. Acontece que, um pouco adiante, havia uma moça linda, mas linda mesmo. Ela também contemplava a beleza do Rio de Janeiro. Ela lá, eu cá: só isso. Homem educado em velhos tempos, se eu não houvesse aprendido tanto com as mulheres desde então, teria sido inconveniente. Talvez a ficasse olhando descaradamente ou a importunasse puxando assunto. Mas sei que não é assim, é preciso respeitar, e eu respeito. Para controlar o impulso, os barcos no mar, os aviões passando rente ao Cristo a caminho do Santos Dumont.

O grupo Rumo tem uma composição chamada “Minha cabeça”. Ela diz: “Eu vou pensar um assunto, certo? / um assunto que eu escolho, é claro / então eu faço força, força, força / e olha o que acontece / não adianta ter cabeça / ela pensa o que quer / para, cabeça / assim você me enlouquece / não cansa você?” Sempre cantei essa música para crianças, primeiro meus sobrinhos, depois meus filhos e agora meus sobrinhos-netos. Elas se interessam, a meu ver por começarem a entender que a relação com a cabeça é complexa. Mas, nesse momento, penso na música porque, naquele dia na Urca, ao olhar a montanha, os barcos, os aviões, não consegui me distrair da moça linda e chuleei um encontro com ela, que, aposto, não se chama Geralda. Mas nada foi além da fantasia, isso que é uma espécie de carrinho de trombada sozinho na pista, sem bater em ninguém, sem bater em nada, rodando em torno de si mesmo.

2.7.22

Ternura

Eu matutava sobre a enrascada na qual estamos metidos, a violência que tomou o país. Convenhamos, a violência não é de hoje, mas nunca havíamos visto o Estado ao lado dela, seu cúmplice. Quer dizer, vimos, e nem faz tanto tempo assim, no entanto tudo levava a crer que era página virada ou página que, com o empenho de todos, ia sendo virada. Todos, todos, não é verdade, uma maioria, quem sabe. Nesse torvelinho, cavava desesperançado o chão duro dos dias.

Foi quando, entre a meditação, o sonho e o delírio, no meio do silêncio, brotou a palavra ternura. Ternura, ternura, ternura. Se assentou ruidosa, relâmpago e trovão. Sou uma deusa. Sou a razão da existência. Sou a única saída. Subservientes, todos os ecos da razão correram em busca daquilo que fizesse jus aos preceitos da ternura. O carinho de mãe. O sorriso de criança. A cumplicidade de um olhar. O amor. A ternura disse, como se fosse o oposto de si mesma, não basta, é preciso mais. Mais? Um fato, um fato, a ternura clamou por um fato.

Sinapses em curto-circuito, memórias atabalhoadas, escrutínio catatônico em cada um dos mais de trinta milhões de segundos vividos, e tudo que conseguia retribuir ao pedido da ternura era a repetição. O carinho de mãe. O sorriso de criança. A cumplicidade de um olhar. O amor. Mas a demanda da ternura exigia o agora. Agora, justo agora, quando, a ferro e fogo, nos aliamos à incompreensão, nos confundimos com ela, fazemos dela nossa razão de ser?

Uma imagem pousou em minha cabeça, esse espaço infinito e compacto. Um homem na mata. Ele está sentado e canta. Ele gira a cabeça, olha para trás, volta com a cabeça para a posição inicial. Ele canta em uma língua nativa. Ele carrega um sorriso. Pura ternura.

É Bruno (1).

Bruno Pereira, aquele que fez da luta com e pelos indígenas sua grande missão, primeiro como agente do Estado e, depois de perseguido por este mesmo Estado — que abriu mão de proteger os indígenas —, trabalhando para a Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari). Bruno Pereira, assassinado na mesma emboscada que deu fim à vida do jornalista inglês Dom Phillips.

A partir do próximo ano, teremos de reconstruir um país arruinado por forças retrógadas, obscuras, violentas, portanto teremos de resgatar a ternura. Aquela que se encontra além do carinho de mãe, do sorriso de criança, da cumplicidade de um olhar, do amor; a que nutre os que lutam pelos desassistidos; a que anima quem se propõe a garantir aos primeiros habitantes dessa terra o que é deles de direito. Regaremos com essa ternura transformadora cada canto do país, quem sabe, assim, descolonizando-o de si mesmo, de sua elite.

É um longo processo, e Bruno, o terno, é a fonte.

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(1) O vídeo no qual Bruno Pereira canta pode ser visto aqui.

20.6.22

Bom dia

 

Devo esta crônica a Cortázar, pois foi escrita depois de ler “Retorno de la noche”, um conto de 1941 que só veio a público após a morte do escritor, em 1984.


Acorda e, de pronto, dá-se conta de que está vivo. Não é pouca coisa, ainda que seja o tipo de constatação que não se compartilha com ninguém. “Hoje acordei e estava vivo.” “Ora — reagirá o interlocutor —, que tremenda coincidência, eu também.” É difícil encontrar a diferença naquilo que é comum a todos, mas a verdade é que uns têm bunda grande, outros, nariz adunco e há os que possuem mãos menores que as tão pequenas da chuva (uso a imagem de E. E. Cummings, na tradução de Augusto de Campos).

Existem, enfim, aqueles que se surpreendem por acordar vivos. Os tristes? Talvez sim, e é provável que alguns deles se decepcionem com isso. Os que foram dormir depois de um instante único de felicidade (no amor, no trabalho)? Podem temer o dia à frente, pois há um passado radiante, com alta chance de não se repetir.

A vida lhe tem sido boa e ruim, deprimente e excitante. Portanto, ao se beliscar para ter certeza de que está vivo (no mínimo acordado), age como o homem que, ao se olhar no espelho, se pergunta por que aquele nariz tão grande não sendo nem lobo para cheirar a netinha destemida, que enfrenta o bosque. “Estou vivo.” Levanta e dança? Continua deitado e adia chegar ao cotidiano que, pela manhã, o quer de dentes escovados, banho tomado e disposto a trabalhar e não deixar a engrenagem do lucro e da produção emperrar?

Na noite anterior, dormiu na sala, diante de uma televisão fastidiosa, e nem sabe como foi para o quarto. Na casa não existe nenhum cachorro, que, numa hora dessas, poderia acordar, levantar as orelhas e, num suspiro, voltar ao sono. (Os cachorros se admiram por acordar vivos?) Bem, foi uma noite como um monte de outras na sua vida de anos que, para serem contados, demandam vários dedos a mais que os vinte de seu corpo. Tem vontade de dançar não para celebrar alguma alegria, algum prazer. Dançar para chamar a chuva (e agarrar-se às suas mãos) e, com ela, limpar o quintal de sua memória da infância.

Apesar da vontade, não se levanta, nem mesmo requebra sobre o colchão. Se tivesse um cão, o bichinho já o teria tirado de suas cismas, exigido uma água limpa, a ração matinal, o passeio. Eis a percepção exata do tamanho de sua solidão. Solitário, mas com ganas de dançar. Bate palmas. Primeiro na cadência de um partido alto. Logo se perde, atravessando o samba. Tenta outro ritmo. Novo desacerto. Bate então palmas como se, à porta da casa de alguém, se anunciasse. “Olha, vim trazer essa encomenda que o papai mandou.” “Eita, menino vivo esse do Bandolim.” Guarda de um tempo nem tão delicado a delicadeza. Descobre então que será ela a sua parceira de dança. E isso o faz pular da cama. 

Coloca um dos braços sobre a barriga, estica o outro no ar. Sai, de manso, dançando uma valsinha. “Não vá pisar no pé de sua parceira!” “Tranquilo, as sombras não têm pé.” Capricha, solta o corpo. Troca a música. Michael Jackson. James Brown. Jorge Benjor. Saracoteia, afinal acordou vivo. Tira a mão da barriga, abre os dois braços, olha para cima (para o céu, se estivesse ao ar livre) e dança solto e sorrindo. O horror está lá fora; lá fora com seus algozes e energúmenos, com aqueles que só se sentem vivos ao arrancar a vida de alguém. Não é nenhum desses.




4.6.22

A menina me chamou de poeta

Sempre achei estranho ser chamado de poeta e já explico o porquê. Antes, recorro à memória e encontro o rosto de uma moça bonita, mais velha que eu, portanto fora das minhas possibilidades de conquista. Ela me chamou de poeta, e não me lembro o motivo. Talvez fosse por conta de alguma bebedeira na qual, exibido, eu tenha recitado um poema – na adolescência, a cada porre, declamava, compungido, a introdução de “O Ébrio” (“Nasci artista, fui cantor...”).

Aquela moça era mesmo mais velha? Talvez fosse uns meses, um ano, vá lá. Na juventude, essa diferença é suficiente para separar mulheres de meninos. Hoje, pode ser que ela esteja com a minha idade, se não estiver mais nova. Como nunca mais a vi e não soube de seus caminhos pelo mundo, ela, de quem nem o nome guardei, continua com seus dezessete anos.

Confesso que experimentei uma alegria danada ao ser chamado de poeta. Depois, bem, depois caí em mim, eu não era poeta coisa nenhuma. Naquela época, compunha umas musiquinhas, portanto era exagero ser chamado assim. E agora, com dois livros de poesias lançados, mantenho a desconfiança de que essa roupa não me veste.

Poeta é um negócio grande demais. Poeta é aquele francês, gênio aos dezessete. Poeta é o português de sete faces. Poeta é aquela polonesa cujo nome já é uma odisseia. Poeta é o moço de Itabira ou a moça que, em versos, romanceou a inconfidência. Enfim, poeta é imensidão. E eu — peço vênia ao poeta da delicadeza —, eu sou imensidinho. Mas tem mais: poeta é sensível, e eu não sou. Quer dizer, não era.

Tenho me tornado sensível até demais. Telespectador acidental, me vejo chorando (mas disfarço) ao ver as crianças cantando num programa de calouros sofisticado, com grife, e fico bambo (sorte estar sentado) ao assistir à cena na qual Zé Leôncio (Marcos Palmeira) se descobre pai de Zé Lucas de Nada (Irandhir Santos). Não é sensibilidade, é sentimentalismo, e a pequena distância que separa o sensível do sentimental transforma o poeta num nada. 

Até parece que estou preocupado com essa história de ser poeta ou não. Longe disso, meu ponto é outro, é o de ficar abismado em saber que já me contentei com pouco, com uma palavra dita por uma menina linda e inalcançável. Ah, mas, se me alegrei com algo assim tão básico, acho que sempre tive alma de poeta. 

23.5.22

Aviõezinhos de papel

À Leny e à Yara, minhas primeiras professoras

 

A crônica nos ensinou a perseguir o rodapé dos jornais. Não só ela está lá, como é de lá que extrai seu intento. Num jornal cheio das notícias tumultuadas do mundo, Rubem Braga descobriu, num cantinho, que a flor de maio havia resplandecido no Jardim Botânico e aconselhou os leitores a visitá-la com urgência, pois seria breve aquela vida.

No dia em que outro caso (em 2021, foram quase dois mil) de pessoa escravizada — uma senhora por setenta e dois anos — em lares impolutos vem à tona. No dia em que o mandatário do país se mostra mais uma vez racista e continua com sua estratégia de esgarçar a democracia, certo de que poderá simplesmente sufocá-la, destruí-la e, como déspota, manter-se no poder, desfrutando de toda a proteção contra seus crimes diários. No dia em que a crise econômica deixa de ser uma frase escrita em jornal ou discutida em textos acadêmicos e toma a vida das pessoas. No dia em que se revelam assassinatos bárbaros de civis ucranianos por soldados russos.

Bem, nesse dia, três brasileiros estavam em Salzburgo, na Áustria, para participar do “Campeonato Mundial de Aviãozinho de Papel”. Dois homens e uma mulher disputaram as provas de maior distância, maior tempo de voo e acrobacias. Assim como a flor de maio não perdura muito, os aviõezinhos não voam por um longo tempo (nosso “atleta” da prova de tempo de voo se classificou para a etapa final mantendo seu engenho no ar por 7s61, bem abaixo do recorde mundial, de 27s9). Da brevidade se alimenta o cronista? Não. A beleza, essa sim, sua matéria bruta, é que costuma ser breve. Flor, borboleta, chuva, voo de aviõezinhos de papel, tudo nasce e morre num piscar de olhos.

Torcem o nariz os leitores capturados pela urgência. Maldita alienação. Aqueles em busca de um refúgio aproveitam a crônica e tomam fôlego. Bendita sorte! O cronista não se importa com o julgamento, ele, agora, diante do campeonato mundial, voou para a própria infância, em cujos dias fez aviõezinhos de voos curtíssimos. Aliás, sempre cumpriu mal as tarefas que exigissem habilidade manual e, por isso, em toda sua vida escolar, só foi reprovado uma única vez, justamente no pré-primário, quando se aprendia a cortar e colar, a sentar em roda, a cantar e dançar. Uma vez, esteve com uma de suas professoras daquela fase e, irônico, insinuou que ela era responsável por sua reprovação. Ela riu, mas, passados uns dias, o procurou para dizer que não, não o havia reprovado. Mas deveria. Os aviões do cronista sempre embicaram mal saídos das mãos; seus desenhos foram repetidamente uma casinha com chaminé, uma estradinha e um pequeno lago, tudo sem perspectiva e mal colorido. Verdade seja dita, tinha alguma graça em dançar. Inábil com as mãos, inábil no trato: o cronista, boquirroto e metido a engraçadinho, faria bem se pedisse desculpas à professora pela brincadeira de mau gosto, afinal de contas, ele não foi reprovado. Tendo entrado um ano antes do previsto na escola, esperou mais um ano até completar a idade de ser alfabetizado.

Infância é quando não existem boletos, repete o povo. Mas também é quando não se tem consciência do desejo e não se sabe muito bem o que é a morte. Isso é verdade até o cronista se deparar com imagens de crianças fugindo da Ucrânia. Ou de crianças assustadas na Síria, no Iraque, no Afeganistão, nas favelas do Rio de Janeiro, nas reservas indígenas sob ataque de garimpeiros. Seria bom se, em aviõezinhos de papel, as pessoas chegadas a luares e flores de maio invadissem o coração das bestas à frente das batalhas e lhes devolvessem a infância. Por que não passam o campeonato de Salzburgo no horário nobre das televisões do mundo todo?

Os vencedores, é bom informar, foram um sérvio (distância), um paquistanês (tempo de voo) e um sul-coreano (acrobacias) — este, professor de ciências, aproveitou o palco e pediu a namorada em casamento. 



7.5.22

Enquanto caminho

 

Esta semana foi infame para a História do Brasil, pois não reagimos. (Dorrit Harazim,“Consciência”, O Globo, 1º/5/22)


Escolho o álbum e, com a música no fone de ouvido, desço à rua. É comum, quando caminho, ter uns pequenos delírios, desta vez não é diferente. O que é um clássico, me perguntaria alguém, talvez em mesa de bar ou na preguiça que nos toma depois do almoço de domingo. Não saberia, e não sei, explicar. Como resposta botaria as músicas que ouço para tocar na eletrola, na vitrola, no CD player, num streaming da vida, de repente até dando uma ordem àquele robô com nome de mulher (um ultraje inventar uma máquina de receber ordens e nomeá-la assim): “Moça, toque o disco Cartola, de 1976”. Gosto da frase-clichê: não sei o que é um clássico (serve para outras ignorâncias), mas sei reconhecê-lo.

Passa por mim um sujeito numa corrida estranha, um trotezinho meio desarticulado, e fico com medo de que ele caia de si. Houve uma época em que eu, em vez de caminhar, corria. Um amigo me viu e caçoou do meu jeito, decerto pensou que era um trotezinho desarticulado e que eu poderia cair de mim. De mim, não sei, mas um dia caí. Fui a uma emergência, tirei chapa, estava um coquinho. Coquinho ou não, não corro mais. 

Duas mulheres andam em minha direção, e, quando se aproximam, apesar de meu fone de ouvido, eu as ouço perfeitamente. Uma delas leva o dedo indicador da mão direita à têmpora e diz: tem de cuidar do psicólogo. (Lógico, dos cronistas também, baby!) Um casal cruza à minha frente. Ele leva o cachorro, ela empurra o carrinho com o bebê e chora. É tão difícil ver aquela moça chorando. Tento encontrar uma justificativa branda. É dia de vacinação (contra gripe e sarampo), estamos perto de um posto de saúde, então concluo que a mãe se recupera do sofrimento da criança. Tomara seja só isso. De todo modo, invejo quem chora, invejo mais ainda quem chora por coisas pequenas.

O streaming emenda ao clássico Cartola músicas que julga parecidas. Dorival Caymmi com sua voz entre terrena e etérea canta “é doce morrer no mar”. Nelson Gonçalves toma posse de Carinhoso. Um inesperado Itamar Assumpção insurge entre compositores que decerto o influenciaram e me surpreende e me deixa feliz. No meio de saltos previstos e imprevistos, um violão tímido vai num crescendo só. Paulinho Nogueira toca sua “Bachianinha número um”. Ao contrário daquela mãe, não tenho um carrinho para empurrar e, desse modo, também não tenho como dar a um homem estúpido qualquer que passe pela rua uma justificativa para as lágrimas que correrão dos meus olhos. Homem estúpido sou eu, que seguro o choro. Minto, encharco as vísceras, chorando do olho para dentro. Naquele instante, estaria incapaz de responder ao bom-dia que, um pouco antes, a moça da limpeza havia me dado.

Choro um tantinho por mim e um tantão por nós. A que ponto chegamos! Que desfaçatez é essa que nos governa, ameaça com golpe (já não é mais ameaça, discute-se apenas a data: se antes ou depois da eleição, caso o atual governo perca nas urnas) e é aplaudida e adorada? Luiz Eduardo Soares defende a ideia de que parte dos nossos problemas, ancorados naquele ainda incompreendido 2013, está na melhoria de vida dos mais pobres ocorrida nos governos do PT (me adianto, ele não nega os problemas tão conhecidos). Enfio uma metáfora no pensamento do cientista social: enfrentam-se “a gente não quer só comida”, voz relativamente nova e titânica, e o sempiterno e patético “tem muita doméstica na Disney”. Seja como for, agora tudo parece perdido. Se dançássemos uma quadrilha, o narrador diria “a ponte quebrou” e, em seguida, não desmentiria. Impossibilitados de atravessar o rio e avançar, voltaríamos ao país da fome (estamos quase lá). Nossa elite pouco se importaria (nunca se importa), pois não precisa de pontes, cruza o rio de navio, de avião. Na realidade, ela já está do outro lado, nasceu lá, e permanece feliz quando não encontra doméstica nos aeroportos e parques de diversão dos Estados Unidos, que, claro, estão do outro lado do rio. 

Num primeiro momento, confundo Paulinho Nogueira com Baden Powell, e isso me faz constatar quantos gênios a música popular brasileira produz. Meu choro cessa. É preciso me agarrar ao que não é uma esperança, mas um fato: o artista brasileiro é inventivo e sensível. Seremos salvos pelo Cartola, ou pelo Emicida.






25.4.22

Fim do armistício

 Blandina não se conformou. Leu, releu, treleu. Por que condenar a compra de remédios para disfunção erétil, próteses penianas e lubrificantes íntimos feita pelas forças armadas? Manter a tropa cheia de vigor garantiria que, quando o país necessitasse de seus homens, eles estariam lá fortes e plenos. Tudo pela Pátria, portanto, despesa justificadíssima. Só que, naquele cantinho de Copacabana, coabitado por ela e seu adorável generalzinho, não havia chegado nem uma mísera amostra grátis da pílula milagrosa.

Resolveu ligar para umas amigas. Cuidadosa, daria voltas até tocar em assunto tão delicado. No meio da conversa, especularia se elas viam aquela aquisição como um escândalo ou se era mais uma violência da imprensa antipatriótica.

— Alô, querida Dinah. Quanto tempo!

— Pois é, Blandina, essa gripezinha tá custando a passar, não é? Ninguém mais promove um baile, uma reunião, uma biriba.

— Uma tristeza. Como se não bastasse, tem essa imprensa maldosa, caluniadora. Viu essa história dos remedinhos azuis?

— Pecado, isso é pecado.

— Pecado?

— Mentir é pecado, Blandina. Veja se nossos soldados precisariam disso! A julgar pelo meu, é tiroteio todos os dias — um risinho maroto foi o ponto final de Dinah.

— Claro. Aqui também é uma guerra sem fim.

Gargalharam com gosto.

Ligação terminada, Blandina caiu no choro. Se Dinah, 70 aninhos, cinco mais velha que ela, se fartava da compra, ela... Ou a amiga estaria mentindo? Fossem os papéis invertidos, tinha dúvidas se contaria a verdade.

— Ih, Dinah, nem posso dizer que a bandeira branca aqui está fincada, porque o verbo fincar foi por nós esquecido.

Seria o fim do prestígio de seu cinco estrelas. Nem pensar numa humilhação dessas. Concluiu então que Dinah, no alto de sua experiência, mentiu. Mentiu e, ligação encerrada, pintou uma péssima imagem da esposa do venerável general P. Flácido. Que vergonha.

Como um verdadeiro SNI, Blandina deu uma geral nas coisas do marido. Revirou gavetas, pastas de documento, bolsos das fardas, arquivos no computador, declaração de imposto de renda. Fora uns rascunhos de golpe aqui e ali, nada havia digno de nota. Uma vida de marasmo. Nem amante o danado parecia ter.

Decidiu ir à farmácia do exército. Lá diria que sofria de problemas pulmonares — razão pela qual a “pílula celeste” (poderia chamá-la assim?) teria sido comprada — e exigiria uma boa quantidade do tal levanta defunto. Tomou um banho caprichado, maquiou-se com esmero, espalhou talco no pescoço e gotas de um francês nos pulsos. Se enfiou num vestidinho não muito chique, mas formal, meteu os óculos escuros comprados em Miami e chamou um táxi.

Ao chegar a Triagem, estranhou a fila imensa e só de mulheres, a maioria conhecida, inclusive Dinah. O que estaria acontecendo? Passara a manhã encafifada com a polêmica em torno da compra e se esquecera de olhar a televisão. Não demorou a concluir, com absoluta certeza, que nada de grave acontecera, todas estavam ali pelos seus mesmos motivos. Perfilou-se ereta, convencida de ter escolhido muito bem a roupa, os óculos, o perfume. Ali estava uma mulher de vida sexual invejável.

Ao dar adeusinho a Dinah, lá na frente, a dois passos do balcão de atendimento, Blandina pensou nas mentiras da amiga e quase foi lá rir da cara dela ou tirar satisfação, mas achou melhor puxar assunto com quem estava a seu lado, Cândida, a mulher do general C. Langoroso. Falaram sobre o clima, sobre como a vida era melhor com os militares de volta ao poder; contaram de seus filhos, de seus cachorros; lamentaram a falta do joguinho das quartas-feiras; por fim, trocaram receitas, se fizeram elogios. Podia-se adiar, mas evitar saber a razão de a outra estar ali era impossível. Blandina se adiantou para não ser pega de surpresa.

— Ora, Blandina, é cada pergunta.

Cândida gaguejou e, sem responder, fugiu para uma segunda fila que se formava. Diante de fuga tão evidente, Blandina transformou suas suspeitas em certeza: cada mulher daquelas buscava festim para dar fim à trégua. Se as outras tiveram coragem de fazer o pedido, ela não soube, mas supôs que não. À Blandina faltou confiança e, em vez do azulzinho, pediu cloroquina, remédio que não servia para Covid e menos ainda para dar fim ao armistício e reiniciar a saudosa guerra, uma batalha que fosse.

9.4.22

Domingo sem sol

ao Anthony Almeida

A crônica não reserva espaço para o pessimismo. Que uma melancolia débil ou uma tristeza perplexa a visitem com cerimônia, aceita-se, mas não a queiram viva no pântano, no inferno, na escuridão. A crônica é a voz espantada das cigarras, a presença inquieta do sanhaço na jabuticabeira, o olhar baço da senhora que não sabe dar informação na rua. “Dona, onde fica a loja de material de construção?” “Ah, meu filho, tudo muda tão depressa.”

A crônica não pode deter os guerreiros, mas faria bem ao mundo se lida pelos imbecis comandantes de armas. Ela não tem força para reverter o conflito dos casais, porém, se pudesse, sopraria em seus ouvidos um dos Noturnos de Chopin e a consciência de que a vida, em potência, é um convite a amar sem interesse. A crônica não se atreve a invadir os celulares e pedir a atenção de seus donos, mas, ora, se ganhasse deles uma escuta pequena e fugaz, os devolveria aos mesmos celulares, só que amparados e livres dessa espécie de busca eletrônica por salvação.

A crônica não canta muito bem. Não dança nada bem. Gagueja. Baixa os olhos se está em evidência. Por ser dotada de tantas inabilidades, ao falar, está certa de que suas palavras são como as cores que habitam as efêmeras borboletas. Pretensiosa, sim. A crônica almeja, nos minutos arrancados dos homens e das mulheres em sua leitura, fazê-los esquecer a própria existência. Quem é, é o outro, aquele de quem ela fala. Não pretende, com isso, tornar-se poderosa, ao contrário, sua ambição é devolver a vida aos vivos.

A crônica é parente das brincadeiras hoje esquecidas. Prima da amarelinha, meia-irmã da cabra-cega, confidente do passa-anel, carrega a infância de todos, inclusive ou principalmente daqueles dos quais ela foi subtraída. Por isso, comunica-se pelo coração e, de leve, toca o leitor durante a conversa.

Falo das crônicas de um domingo sem sol. Mas talvez fale de qualquer uma: noturna, luminosa, pletórica, seca, de rua, de salão, ébria, careta. No fundo, todas sonham despertar no leitor o riso — o sorriso, na verdade. 

27.3.22

Cenas de resistência

 O fato é que nem ele nem ela dançam muito bem a valsa. Por sorte, a valsa anda sumida dos salões, e eles disfarçam a inaptidão sacolejando-se em outros ritmos, sem chegar, verdade seja dita, ao funk. Ela por achar que lhe faltam os atributos buzanfânicos, ele por uma certa recusa ao novo. Mas, entre a valsa e o funk, dançam tudo aquilo que é sincopado e que, em certos momentos, os faz até colar o rosto um no outro. De rostinhos colados, o mundo é aquele trem lá fora, complexo, violento, nada musical. O mundo é o que se esquece.

 

Em pleno século XXI, dois meninos resolvem brincar de cowboy. Ninguém entende muito bem, nem mesmo o pai, nascido no último vicênio do século XX, nunca havia brincado daquele modo. Nos tempos do coroa, as aventuras eram extraplanetárias ou vividas por uma coisa entre bicho e avatar, desenho japonês. Como aqueles dois, soltos no quintal, sem celular ou algum controle remoto na mão, brincam daquele jeito? Onde arranjaram os revólveres? E as espoletas?

Um dos meninos cai ao chão. O outro pula, grita, parece feliz. Sopra o cano do revólver, dá meia-volta e sai correndo. O morto se levanta, ri da morte e sai atrás do outro. O bandido virou mocinho e vice-versa. Eles estão brincando é disso, de perpetuar a vida.

 

Na hora da parolagem, levantam uma possível traição da Melina, mulher de Expedito. Alguém lembra que a recíproca também é verdadeira, Expedito não é flor que se cheire. Enquanto o tititi fofocante aumenta e diminui, Melina e Expedito fazem do colchão palco do amor mais sublime e sincero.

 

A velha senhora não é muito chegada a olhar a vida e ter saudade, nostalgia. Vive o dia das seis da manhã, quando se levanta, às dez da noite, quando se deita. Viver está ligado a fazer uma leitura, uma visita, um passeio, um crochê ou mesmo a preparar um prato para receber amigos ou alguém da família. O fato é que, como sempre fez, toca a vida pra frente, não empurrando com a barriga, mas dando um passo atrás do outro, pra frente, sempre pra frente, isso é o que importa. Mas, entre as dez da noite e as seis da manhã, entre deitar-se, dormir, acordar e levantar-se, a velha senhora pensa e sonha. Uma dessas coisas, que é pensamento e, em seguida, sonho, lhe coloca o mundo nas mãos, e ela, sem grande esforço, joga sobre ele três pitadas de delicadeza, o suficiente para o mundo seguir em frente, sempre em frente. A delicadeza faria do mundo um bom lugar para viver, ler um livro, fazer um crochê, um passeio, uma visita, preparar um prato para receber amigos ou familiares sem que fosse preciso modificá-lo.

 

As meninas jogaram suas bonecas no quarto dos meninos. Eles se surpreenderam com aquilo, mas, uma vez recuperados do susto, ninaram as bonecas com todo o amor que guardavam.

 

O trânsito estava horrível. Fazia mais de hora que nenhum carro saía do lugar. Os mais ansiosos haviam recorrido à buzina, mas caíram em si e perceberam que isso não fazia o trânsito avançar. A moça do carro popular desligou o motor. O senhor cujo carro estava emparelhado ao dela fez o mesmo. Os dois logo atrás foram na onda. De repente, a rua era um monte de carros parados e silenciosos. Uma mulher de turbante vermelho e vestido rosa desceu do ônibus, abriu os braços e começou a cantar “Aquarela do Brasil”. Todo mundo saiu de seus carros e acompanhou a afinada passageira do Gávea-Tijuca. Sorrisos, abraços e danças arrancaram do transtorno uma dose de felicidade.


Como todo assaltante, aquele chegou sorrateiro atrás da vítima, que assistia na tela do celular às mais recentes informações sobre a guerra. As imagens o fizeram se lembrar das histórias da fuga de seu avô da Europa durante a grande guerra e seu pensamento saiu em espanto pela boca: outra guerra? Sim, respondeu o desavisado a um passo de perder o celular, outra entre inúmeras espalhadas, naquele instante, mundo afora. O assaltante, com as mãos sobre o rosto, gaguejante, mas dono da voz, lamentou a índole má e corruptível do ser humano. 

12.3.22

Heróis

Você acorda, Petrópolis foi destruída pela chuva. Mais de duzentos mortos, um monte de gente sem ter para onde ir. Você dorme e, no dia seguinte, a Rússia invadiu a Ucrânia. Você começa a ter medo de dormir, mesmo não estando em área de risco, mesmo não estando em zona de guerra. Você está no mundo, e o mundo é um desacerto com belas paisagens e poucos encontros.

Na televisão, as imagens dão a dimensão da catástrofe, enquanto mostram aqueles que, dilacerados, transformam-se em heróis. No Morro da Oficina, um pedreiro, ó, meu Deus, qual é o seu nome? Jefferson? Não sei. Meu esquecimento já mostra como esse heroísmo é efêmero. Mas vamos adiante. Jefferson perdeu mulher e filhos e cavucava o chão atrás da família. Naquele momento, os bombeiros não o ajudavam, e ele usava o que tinha: mãos, unhas, pá e picareta. Seu sonho era dar um enterro digno a cada um dos seus. Jefferson é um herói com todo caráter.

Na Europa, uma brasileira, Clara (dela guardei muito bem o nome), saiu da Alemanha e, dirigindo por mais de dez horas, foi até a fronteira da Polônia com a Ucrânia. Seu objetivo era simplesmente colocar brasileiros em seu carro e levá-los a uma cidade estruturada e capaz de abrigá-los. Depois eu soube que ela não era a única, vários brasileiros, saindo de outros pontos da Europa, faziam o mesmo. Essa carona acabou servindo não apenas a nossos compatriotas e enfrentou problemas adicionais, uma vez que eram impostos bloqueios nas estradas, tornando necessário tomar caminhos alternativos, cruzar outros países. Clara e os demais voluntários também são heróis plenos de caráter.

Jefferson e Clara serão esquecidos.

Einstein teria dito que não sabia como seria a terceira guerra, mas, na quarta, as armas seriam tacapes e braços, uma tremenda briga de rua. Sem rua. Se o conflito entre Rússia e Ucrânia não se difundir e o mundo não se acabar, ao fim da guerra, como sempre acontece, os heróis da morte serão eternizados em estátuas, nomes de rua, de praças etc.

Já em Petrópolis, nenhum monumento exaltando os heróis ou homenageando as vítimas será levantado. Os que sofreram perdas estarão marcados para o resto da vida, e os que podem mudar a situação permanente de risco, depois de discursos e promessas, voltarão a não gastar a verba nas obras de prevenção, se é que não a excluirão do orçamento. Até que nova chuva caia e eles chorem, em alguns casos até arregacem as mangas e se misturem aos despossuídos como se fossem um deles. Não são. Nunca foram. Eles acham que a culpa da tragédia é de quem construiu a casa lá na ribanceira.


Guerra, 1942
Lasar Segall
Óleo sobre tela, c.i.e.
270,00 cm x 185,00 cm
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (SP)




26.2.22

Pra não dizer que não deixei de não falar dos horrores


Uma de minhas irmãs confessou que anda gostando de gim, mas que é para não nos preocuparmos, toma um drinque muito de vez em quando. Não me preocupo, mas cantarolo o conselho do velho Vinícius de Moraes, uma autoridade no assunto: “o gim é um veneno, cuidado, benzinho, não beba demais”.

A pandemia me transformou em sonhador. Quer dizer, uma vez acordado, a sensação dos sonhos sai da cama comigo, mesmo que eu não me lembre exatamente deles. Às vezes, acordo angustiado, mas, como não registro os sonhos — o que, numa mesa de bar, uma psicanalista considerou um pecado —, as imagens logo se dissipam. Volto a dormir, ou não. Dia desses sonhei que espalhava uns brinquedinhos de plástico ou umas bijuterias, não consegui definir se uma coisa ou outra, sobre o capô de um Ford Rabudo. Foi como uma volta a minha infância nos anos 1960, quando os táxis de minha cidade eram velhos automóveis dos anos 1940. 



Ford rabudo

 Numa mesa de bar, havia uma parente do Milton Nascimento. Isso não é nada e não seria nada se, de repente, o Deus em pessoa não passasse por lá. Muito simpático, deu um alô geral e foi para um compromisso. Eu havia me preparado tanto para aquele dia, arquitetado tudinho, mas não aconteceu. Falariam ao Milton: “Este é o Xandão”. Depois, a pessoa que nos apresentava me diria: “Você está careca de saber quem ele é, não?”. Eu responderia: “Claro. Muito prazer, Fernando Brant, sou seu fã”.

A piada criaria uma empatia imediata entre nós dois, e ele sentaria ao meu lado. Falaríamos de Minas, de nossas vidas em Passos e Três Pontas, cidades próximas. Quando ele descobrisse que eu escrevia umas bobaginhas, pediria uma letra, que eu rascunharia ali mesmo, e ele, ali mesmo, delinearia a melodia. A gente se transformaria em parceiro, emendando um sucesso atrás do outro. Algum tempo depois, alguém faria uma brincadeira com ele dizendo que o conhecia muito bem, ele não era o Xandão da Haydée e do Joaquim?

Sonho bom é sonho acordado.

Ao ver uma foto antiga, de pessoas desconhecidas, tive muita vontade de ser uma delas. Talvez pelos sorrisos. Ou pelo bolo, branco, semelhante à torta de abacaxi com coco que minha mãe fazia, mas nem sempre. Ela tinha disso. Uma das primeiras vezes que meu cunhado almoçou lá em casa, mamãe preparou um coq au vin, um trem chique. Bem, durante os demais trinta e quatro anos vividos por ela, meu cunhado pediu o franguinho francês. Não logrou sucesso.

Quando dona Haydée queria, em casa se fazia doce com a casca da melancia; também com a casca, no caso do abacaxi, se fazia o aluá, bebida, segundo ela, muito apreciada por Dom Pedro I. Quando a senhora que comia jabuticaba com garfo e faca queria, essas coisas de preparo delicado eram feitas. Mas só quando ela queria.

Na Copa do Mundo de 1974, ouvi a partida entre Brasil e Polônia dentro do Fusca vermelho, ano 1966, do meu irmão. Atravessávamos a Serra da Mantiqueira, indo do Rio a Passos. O rádio não ficava sintonizado o tempo todo, assim, até hoje não sei se ganhamos ou perdemos. Mas, também, era decisão de terceiro lugar, quem se preocupa com isso?

Outra viagem entre Rio e Passos. Dessa vez, eu dirigia, meu pai acompanhava. Fomos parados por excesso (não muito) de velocidade. Desci do carro, meu pai desceu também e, ao chegar perto de onde o militar anotava os dados da multa, me deu uma bronquinha, já havia me avisado para ir devagar etc. e tal. Voltando ao carro, ele olhou o relógio e, fazendo-se ouvir por todos, lamentou o nosso atraso, teríamos de correr.

O velho não demonstrava interesse por uma comida específica, a não ser, talvez, pelo pudim de pão. Mas, se o doce — feito quando mamãe queria — fosse servido na sobremesa, ele, magro e nem um pouco guloso, comeria um pedaço pequeno. Sóbrio no gostar, impiedoso no não gostar: naquela casa no Beco dos Aflitos, nem quando mamãe quis, se comeu bacalhau.

Seu Joaquim jamais foi de verdades ou filosofias. Mas não me estranharia se ele lançasse a máxima: lambisgoias à parte, o mundo não está para mexericas. Não quer dizer nada, mas meu pai era mesmo um pândego.



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Lançarei pela Urutau o livro de poesias "O sol pelo basculante". Como tem ocorrido nesse período de pandemia, as editoras vêm recorrendo à campanha de pré-venda, garantindo assim os recursos que viabilizem a produção do livro. 

Para acessar o site e adquirir seu livro (se dentro do prazo a meta não for alcançada, o dinheiro é devolvido), entre aqui. Vale dizer que há muitas opções de compra disponíveis, desde o livro eletrônico até "pacotes" com mais de um exemplar deste título ou com outros livros da editora. No site, é possível que o título ainda esteja com um pequeno erro, "um" no lugar de "o".

Espero que eu possa fazer uma noite de autógrafos, quem sabe um pouco diferente: em vez de meus amigos irem lá comprar o livro, levarão seus exemplares apenas para eu colocar aquela dedicatória que, graças a minha letra, ninguém entenderá. O vinho ou a cerveja, de todo modo, continuarão nos ajudando a manter alguma alegria em tempos tão sombrios.

Agora, se a compra já for a do livro autografado, bem, aí o encontro será apenas para tomar umas e outras e matar nossas saudades.

Espero que a pandemia arrefeça para que os planos de encontro se concretizem.

14.2.22

A felicidade deu adeus

Nada anda muito bem, e não é segredo. O Brasil já foi considerado o lugar do mundo no qual a felicidade batia ponto. O sol, a alegria e a miscigenação eram fatores que levavam àquela ideia.

Há algum tempo, um grupo de pesquisadores, levando em conta motivações subjetivas, levantadas em entrevistas, e objetivas, os indicadores socioeconômicos, começou a “medir” a felicidade. Segundo a pesquisa, em 2020 e em 2021, a Finlândia foi o país mais feliz do mundo.

Já estive em Helsinque, uma cidade sombria, cheia de bêbados caídos na rua, mas extremamente organizada. Na época (já se vão trinta anos), conheci alguns brasileiros ou filhos de brasileiros que viviam lá, todos com nível de vida bem razoável, ainda que se ocupando de funções pouco valorizadas. Um deles, que cuidava dos casacos deixados à entrada de um bar, me disse que, trabalhando também como pintor de paredes, conseguia ter um carro desses supercaros, ainda que não o modelo mais recente. Um país com um inverno tão rigoroso, clima que associamos a isolamento e tristeza, surpreende ao encabeçar a lista da pesquisa, ainda mais sendo acompanhado por Islândia e Dinamarca, segundo e terceiro lugares no ranking da felicidade. A despeito de toda crítica que se possa fazer a uma medida dessas, ela não parece encantada com o Brasil tropical, onde em se plantando tudo dá, mas também onde a fome só faz crescer. O modelo socioeconômico monstruoso adotado no país não deixa ninguém mais se enganar com a nossa alegria carnavalesca, que é, de fato, uma alegria — um, e apenas um, dos fatores que compõem a felicidade.

Entre os dias 24 de janeiro e 2 de fevereiro, uma face da atrocidade brasileira foi mostrada ao mundo. Assistimos na televisão a três homens matando a paulada Moïse Mugenyi Kabagambe, um congolês de vinte e quatro anos. A paulada. Matar assim exige perseverança, o que não combina com uma raiva momentânea. Aqueles assassinos estavam tomados por uma premeditação bestial. A família de Moïse havia saído do Congo treze anos antes dessa tragédia que a acometeu. Fugiam de outras tragédias, inúmeras num país rico em minerais e, mesmo depois de se tornarem independentes da Bélgica, massacrado por interesses externos que se misturam às lutas locais de poder. Luiz Antonio Simas, pesquisador da vida de rua carioca, afirmou o seguinte: “O melhor que existe nessa cidade terrível e bela, filha da morte e da chibata, veio do Congo: samba”. O crime contra Moïse afirma a voz dos que não se conformam nem com o fim da escravidão nem com o fato de uma de nossas manifestações mais criativas, pérola na lama de nossa história, ser obra dos negros. Acrescentem-se a isso doses de xenofobia.

No dia 2 de fevereiro, enquanto havia festa no mar, Iemanjá celebrada, um militar viu um negro, Durval Teófilo Filho, trinta e oito anos, mexer em uma pasta e achou que seria assaltado. O que fez? Atirou contra a possível ameaça. O assassino e a vítima eram vizinhos em um condomínio no Colubandê, bairro de São Gonçalo. No início, a polícia chegou a defender a tese de que o assassino não tinha a intenção de matar. Qual seria então a intenção? Comemorar o gol do time? Usar a arma por usar? Testar a mira? Com a reação da sociedade, o militar da Marinha foi qualificado como assassino doloso. O que ele é, e não é o único, e não será o único à medida que armar a população tem sido a política de segurança do atual governo.

A morte de Moïse e a de Durval infelizmente não são um acidente. Matam-se negros aos montes. A polícia entra em favelas e, quase sempre, deixa um saldo escandaloso de mortos. Negros na maioria, muitos inocentes, sem envolvimento com o tráfico ou outra forma de crime. Como soldados do tráfico, negros também se matam uns aos outros. Negros são mortos na porta de casa como foi o caso de Durval e de outros tantos, crianças inclusive, que podemos puxar da memória. Na imagem que mais nos aproxima da chibata dos tempos da escravidão, negros levam pauladas até a morte.

No Marrocos, Rayam Awram, um menino de cinco anos, foi tragado por um buraco de trinta e oito metros. O drama de seu resgate durou dias, e os marroquinos, mas não só eles, acompanharam diuturnamente o esforço da equipe de socorro. No quarto dia, o pequeno Rayam foi resgatado, mas não resistiu. Marrocos transformou essa tragédia em uma dor coletiva.

Dor coletiva deveria ser a nossa diante da morte de Moïse e Durval. Mas o fato é que esses crimes não encontram o repúdio de todos, em particular daqueles que podem mudar as leis e fazer cumpri-las. Ao contrário, quando mataram Marielle, em ações coordenadas pela milícia digital, trataram de associar caluniosamente a vereadora a criminosos. Agora, dizem, Moïse seria um drogado inoportuno. E que absurdo foi esse de Durval mexer em uma bolsa em uma região considerada violenta? Em 2018, Rodrigo Serrano, um garçom negro, desceu ao pé do Chapéu Mangueira para esperar a mulher e a filha. Chovia, e ele abriu o guarda-chuva. Foi o suficiente para a polícia deduzir que ele estava armado de um fuzil. Atiraram sem pena nem dó. Muitos batem palma para a polícia e vão à loucura quando se estuda uma mudança na lei que dê a ela licença para matar, o tal “excludente de ilicitude”. 

Nada anda muito bem? Corrijo-me: tudo anda mal. Demos adeus à felicidade.

29.1.22

Na floresta de pedra

Em Itatiaia, na casa de campo de um amigo, gravei um depoimento para o canal “Acontece nos Livros” (do Youtube), de Whisner Fraga. Minha conversinha fiada e a leitura de uns poemas enfrentaram a concorrência de passarinhos e galinhas, em particular do galo e sua barulhenta forma de querer se impor como dono do terreiro. Seja como for, a trilha sonora aviária foi um simpático complemento a meu pequeno testemunho.




Quando o vídeo foi a público, além de estar longe daquele paraíso, eu adiava minha volta à rua, esperando que a mais nova onda da pandemia regredisse. É um sem-fim essa tormenta. Mais eis que um passarinho começou a piar aqui nas redondezas da verdadeira floresta de pedra que é Botafogo. Não é raro que algum cante. Às vezes, no início da manhã, um grupo de maritacas — com destino ao Aterro, onde promove verdadeiros encontros, com debate, degustação de sementes e voos coreográficos — passa apressado e ruidoso diante da janela do meu quarto. Que liberdade gozam os não molestados pelo vírus. É comum ouvir também o trinado de um bem-te-vi. Digo um bem-te-vi, pois, apesar de nunca o ter visto, sua voz não me engana. Bem, se é único, melhor nomeá-lo. Te batizo, em nome de ninguém, deus ou mortal, de Pafúncio. 

A Bia percebeu logo que o tal passarinho não era nem uma das maritacas nem o Pafúncio, e aquele mavioso gorjeio, ininterrupto, não demorou a nos chatear. Esse bichinho não voava, não se juntava aos seus em tertúlias sob árvores? O porteiro esclareceu o mistério: um dos apartamentos havia sido alugado por temporada — pequena, ele garantiu —, e o locatário tinha um trinca-ferro engaiolado. Ó, meu Deus, como é melancólico (e maçante) o pio de pássaros presos. 

Uma escritora andou desabafando no Facebook: está cansada do confinamento. Quem não está? Se cantássemos, agora que estamos encarcerados por um vírus que vivia quieto nas florestas chinesas até o homem ir lá e cutucá-lo, seríamos esse trinca-ferro incansável, triste, tedioso e torturado. Ele canta? Não, lamenta.

Vídeos e entrevistas recentes

No início de janeiro foi divulgada a entrevista que dei ao canal do Youtube, Acontece nos Livros, do escritor Whisner Fraga. Em depoimento de 13 minutos, falei um pouco de minha relação com a poesia e declamei alguns poemas. Meu depoimento pode ser visto aqui. Fica, de todo modo, para que acompanhem o Acontece nos Livros, pois é muito bom. Além do depoimento de outros poetas, Whisner comenta muitos livros, a maioria, senão todos, publicados por editoras pequenas. 


É recente também a entrevista que dei ao blog Diários do Arrabalde, do professor Wilson Luques. Um papo rápido no qual falo de livros e autores que me marcaram e marcam, além de falar de frustrações e alegrias literárias. Para ler, clique aqui.

15.1.22

Um quase Brasil

Em uma foto que viralizou, Tawy Zo’é, um jovem indígena, carrega nas costas Wahu Zo’é, seu pai. O médico Erik Jennings, sob o impacto da imagem, tratou de registrá-la sem saber ainda que o filho carregara o pai durante uma caminhada, floresta adentro, de seis horas. O motivo de tamanho sacrifício? Vacinar o idoso contra a Covid-19. O fato ocorreu no norte do Pará, onde vive a etnia Zo’é, que, segundo o médico, não teve nenhum dos seus infectado pelo vírus.

Em seu livro mais recente, “As doenças do Brasil” (Biblioteca Azul), o português Valter Hugo Mãe narra uma história que se passa em um território indígena à época em que os portugueses começaram a explorar o interior. A grande sacada de Mãe é a de promover a aliança entre um indígena mestiço (mãe indígena estuprada por um branco), de nome Honra, e um negro, o Meio da Noite. Até se chegar ao pacto que levará os dois a lutarem contra os brancos em defesa dos “abaeté”, muitas arestas são aparadas: Honra tem de se sentir indígena, perder a culpa de ser também branco; Meio da Noite, que havia sido capturado e poupado da morte, tem de ser reconhecido como humano pelos indígenas. Além disso, um deve confiar no outro, uma dificuldade quando a língua que serve aos dois não é a de nenhum deles, mas a do homem branco. No romance, a linguagem é radical (me faz pensar em Guimarães Rosa), e serve ao propósito de Mãe escrever a partir dos valores e modos de ver o mundo dos autóctones. Assim, diálogos entre eles e os rios ou os animais é uma coisa dada, natural, não é magia, nada disso. Leio o livro como se ele viesse nos dizer que, se respeitados os habitantes originais ou se as alianças entre indígenas e negros houvessem se transformado em vitórias expressivas, o Brasil seria outro. Talvez o mundo fosse outro.

Havia lido, antes de Mãe, “Viva o povo brasileiro” (Nova Fronteira), de João Ubaldo Ribeiro. Ora com ironia, ora em delírio, sempre com senso estético apurado, Ribeiro pincela caminhos que poderiam dar em um Brasil diferente do que temos. Pessimista, ele deixa claro que o que vinga em nossa história é um país cujo futuro é o paredão da rua sem saída. O livro foi lançado na década de 1980, ainda na ditadura, momento que justificava o pessimismo. Mas a abertura já acontecia, algum lume de otimismo estava aceso, o que não foi suficiente para o livro ser alegre, apesar de divertido (sabemos rir de nossas mazelas). De todo modo, se, com suas revoltas, os negros houvessem forjado mudanças de fato, se lideranças femininas multiplicassem-se história afora, se tivéssemos respeitado as religiões de matriz africana, se os dissidentes brancos — ou seja, aqueles que entendem que desfrutam de privilégios inimagináveis e estão dispostos a abrir mão deles — fossem em número, o Brasil agônico não teria triunfado.

Assisti aos cinco episódios de “O canto livre de Nara Leão” (Globoplay), de Renato Terra. Com seus 13, 14 anos, Nara se enturmou com uma moçada de Copacabana que tinha talento especial para a música. Ela e aquela turma, na casa da futura cantora, “inventaram” a bossa nova. Quando seu namorado Ronaldo Bôscoli a trocou por Maysa, Nara abandonou a turma e voltou os olhos para o samba. Ela conta então que, aos 15 anos, descobriu que havia favela, pobre e fome no Brasil, começando assim a sua conscientização política. De voz mansa, mas assertiva, Nara não deixou de se posicionar. Quando em entrevista disse que o exército (já no poder) não servia para nada — ela já estava na mira por protagonizar, com Zé Keti e João do Vale, o espetáculo “Opinião” —, passou a ser perseguida. Então casada com Cacá Diegues, mudou-se para a França. Na volta, aproximou-se da turma do Ceará que chegava ao Rio no começo da década de 1970 e, em seu disco “... e que tudo mais vá pro inferno”, gravou Roberto e Erasmo, o que irritou antigos parceiros, como Dori Caymmi e Edu Lobo. A diversidade e a independência a ajudaram a construir uma carreira sólida, de qualidade e curta (Nara morreu aos 47 anos, em 1989). O documentário joga luz num momento terrível, a ditadura, e mostra como sempre houve, da parte dos artistas, resistência. Nara foi uma liderança entre os que resistiram.

O indígena carregando o pai horas a fio para se vacinar é fiapo de um Brasil potente. Os livros de Mãe e Ubaldo, a vida de Nara (e o documentário de Terra) estão cheios de outros fiapos de potência.

Mas o Brasil não existe, o que existe é um quase Brasil.






1.1.22

Diálogos atuais

 I

— Entre.

— A porta está trancada.

— Então não deveria ter saído.

 

II

— Isso, respire fundo. Agora olhe para o horizonte.

— Horizonte?

— Sim.

— Ele não está ali.

— Melhor fechar os olhos.

 

III

— Quanto custa?

— Uma vida.

— Embrulhe para presente.

— Prefere pagar como?

— Com os pulsos.

 

IV

— Reservamos para o senhor a suíte presidencial.

— O que há de especial nela?

— De lá se veem todos os problemas do país.

— É preciso resolvê-los?

— Não.

— Ótimo.

 

V

— Em que ano estamos?

— Acabamos de chegar a 2022.

— Há 2022 anos mandávamos o menino.

— Passou rápido, não foi?

— Demais.

— Quer dar uma olhada em como andam as coisas por lá?

— Eu sei como andam as coisas. Pode apertar o botão vermelho.

19.12.21

Cinco noites, cinco dias




Chuva. Sol. Noites de frio moderado e dias de calor igualmente moderado. Galinhas; pavões; um faisão; os cães Dado e Amy; passarinhos por todo lado; lagartos; aranha. Num ambiente assim, cinco noites e cinco dias bastariam para compensar a distância imposta a dois amigos pela pandemia?

Não.

Sim.

Conversar sem compromisso; trocar impressões sobre o mundo. Membros da igreja dos pessimistas não muito fiéis, num instante descremos para em seguida voltarmos a crer, afinal, há uma garotada, em particular negra, sedenta por mudanças. Passear por nossas histórias marotas e, de repente, chegar às perdas e ao que ficou dessas perdas. Isso seria suficiente para compensar a distância imposta pela pandemia?

Sim.

Não.

Regar a prosa, num dia, com licor de jabuticaba feito por um vizinho e, no outro, com uma taça de vinho (bebemos pouco, eis a verdade). Ver um filme novo (“Ataque de cães”, “The power of the dog”, de Jane Campion), um velho (“A época da inocência”, “The age of innocence”, de Martin Scorsese) e o documentário sobre Fela, importante músico nigeriano que pagou caro por ser ativista e questionar valores sociais (“Meu amigo Fela”, de Joel Zito Araújo). Trocar dicas musicais e literárias, alimentar os cães, rir de bobeira, encantar-se com a montanha bem diante dos olhos e com o coro afinado das cigarras. Na terça à noite, não conseguir se lembrar do nome “daquele sanfoneiro amigo da Bebel, aquele que toca com o Gil”. Trabalhar cada um no seu canto; ele, instalado no novo escritório, fazendo reuniões intermináveis; eu, no jardim, gravando um vídeo (editado por ele) a ser publicado em um canal do Youtube. Assim se esqueceriam dos dois anos de distância imposta pela pandemia?

Nãossim.

Proteger um filhote de anu. Lamentar o passarinho morto na piscina. Estar preocupados com os filhos. Estar orgulhosos dos filhos. Olhar a vida dos filhos na perspectiva das nossas, concluir que o tempo é outro; melhor observar, aprender, respeitar. Perguntar sobre o que foi feito de um velho amigo. Contar de um amigo que o outro não conhece. Planejar saber da saúde da companheira de um terceiro amigo. Lembrar-se daquela fita cassete com a entrevista feita na casa de Bento Ribeiro. A fita, ele mostra, está ali e precisa de emenda e de um toca-fitas. Colocar a fragilidade para quarar na grama. Lavar os temores na chuva serrana. No meio de uma conversa qualquer, já na quinta-feira, soltar do nada: “Mestrinho, o nome do sanfoneiro é Mestrinho”. Dar opinião sobre a obra da cozinha. Anunciar que vai ao banheiro. A distância imposta pelo confinamento foi embora?

Sinão.

Especular como tem sido o tempo da pandemia na vida das crianças; na vida dos muito pobres; na dos velhos mais velhos que nós. Citar alguns — próximos ou que nos chegavam por arte ou pensamento — dos derrotados pelo vírus e a incompetência política. Certificar-nos de que sobrevivemos. “Estou aqui? Sim, Xandón.” “E eu? Claro, Atira Sun.” Tomar o café juntos. Fazer planos para o resto da vida e mais dois anos.

Cinco noites e cinco dias não deram para nada. 

Mas não deixaram de dar para quase tudo.

4.12.21

O amor nos tempos virtuais

O amor, o amor... Ah, o amor! Dele já se falou, se fala e muito se falará. Primeiro amamos a mãe, depois abrimos a guarda ao pai (ou a outra mulher que faça as vezes de uma babá, sejamos sinceros) e, daí então, ao resto do mundo. Mais adiante, surpreendidos por hormônios impiedosos, tentamos unir desejo e amor, o que nem sempre dá certo. Aliás, o amor nem sempre dá certo, é fonte de desatinos e, amiúde, se transforma em seu oposto, e então odiamos tanto, às vezes até a própria mãe.

Impulsionados pela ansiedade e pela carência, pagamos qualquer preço para desfrutar do amor e, dispostos a amar, somos capturados por uma de suas múltiplas armadilhas: alçapões que nos prendem a relações de sujeição, minas que escondem bombas capazes de explodir nossa saúde mental. Sempre foi assim e é, nesses tempos de conectividade, mais ainda. Soube-se há pouco do caso do atleta italiano que, durante 15 anos, teve-se como namorado de uma modelo brasileira, sem que nunca houvessem se encontrado. Qual o espanto? Eu mesmo julguei que namorava aquela amiga alta, bem fornida. Não, não era namoro, apenas nos beijamos num domingo à noite na Praça da Matriz. O atleta italiano, veja bem, se relacionava por internet — na realidade, nem isso. Trocava juras e planejava o futuro com quem, na outra ponta da fibra ótica, não era a modelo brasileira e sim um(a) estelionatário(a). Ao final das contas, o moço — a julgar pelo italiano típico, ele deve ser bonito —, acumulou uma dívida de 60 mil euros fazendo transferências a seu amor.

O Direito, ao constatar a multiplicação de casos parecidos, deu-lhe um nome: catfishing, que é melhor deixar em inglês para evitar impingir uma cacofonia no que já é triste. Em O Globo, encontro outro exemplo: uma advogada acreditou ser namorada de um dos filhos da princesa Diana. Por isso, entrou na justiça para cobrar as promessas feitas por ele (mas não era ele) ao longo dos encontros sem encontro. Pelo menos eu beijei aquela menina, e, mesmo assim, ao me dar conta de que não estávamos em um “relacionamento sério”, me doeu tanto que, um pouco depois, risquei, à la Ary Barroso, aquele nome do meu caderno (pois já não aguentava o inferno de nosso amor fracassado) e até hoje, passados 45 anos, prefiro não saber de sua vida. O amor, ao ser estancado, vira isso, uma frustração, uma vontade de nem sei, como diria Zeca Baleiro.

Já que cheguei à música, recupero uma de Sueli Costa e Abel Silva, “A alegria e a dor”. A letra diz: “São duas vizinhas de quarto / a alegria e a dor / e moram tão juntas que, entre elas, / não há corredor”. Vizinhas que vão além da gentileza cotidiana, a alegria (estado de quem ama) e a dor (no corpo e na alma de quem não ama) penduram suas roupas íntimas no mesmo varal. Elis, em seu último disco lançado em vida, cantou de Sérgio Natureza e Tunai: “As aparências enganam / aos que odeiam e aos que amam / porque o amor e o ódio / se irmanam na fogueira das paixões”.

Com poesia ou sem, o amor nos fragiliza. Quer dizer, a expectativa do amor — querer demais amar —, já que ele mesmo nos potencializa. Éramos enganados antes da internet; por meio de novas artimanhas, somos mais uma vez ludibriados, agora nesse mundo nebuloso. O amor nos torna bobos — o ódio também.