Meu caçula diz que pela primeira vez me viu rindo,
rindo pra valer, agora à porta de seus treze anos. O riso fora provocado por uma
matéria de Felipe Marra, publicada na Piauí de dezembro de 2012, sobre o
comportamento das torcidas de futebol no Reino Unido. Bem, o grave disso tudo
foi eu não ter rido durante treze anos. Como pode? Como pude?
Devo explicar a meu Pedro que não comungo de extremos.
Quase nada me mata de rir. Tampouco me leva às lágrimas. Coisa de homem
desconfiado, cético, sempre com um pé atrás. Homem também (principalmente) ignorante.
Sim, sou um ignorante incapaz de rir a rodo. Ou de chorar baldes de lágrimas.
Aqui levo tudo ao pé da letra. Rir é gargalhar, abrir
a boca, fechar os olhos, tremer-se todo. Chorar, contorcer-se, fungar,
desidratar-se até. Nos dois casos, sair de si. Difícil que eu chegue ali ou lá.
Falei em ceticismo, mas talvez seja insensibilidade, incapacidade de me matar
(de rir) na piada e/ou de morrer (de chorar) numa possibilidade de tragédia.
Burrice emocional.
Preciso dizer a meu filho que não veja em mim um
homem duro e pessimista. Ao contrário, acho a vida boa, apesar de tantas coisas
estranhas que acontecem por conta de nossa irresponsabilidade. Por exemplo, a
morte dos jovens que dançavam na boate em Santa Maria.
A maldição é como me apego com unhas e dentes à
razão, ancorado no mar sem eira nem beira da minha ignorância. É grave,
gravíssimo. Mas é assim, sou refém desse meu traço.
Dou um cavalo de pau nesta crônica e, à procura de um
exemplo que me ajude na explicação ao meu filho, falo do livro do Keith
Richards (“Vida”, Editora Globo). O cara é um doidão, todo mundo sabe. Ao longo
do livro, ele descreve coisas do arco da velha, algumas devem ser hilárias. São,
de fato são, eu que não consigo me entregar simplesmente ao riso. Todos os
excessos do cara me deixam um pingo e meio amargo.
E Amor (“Amour”, de Michael Haneke)? Uma amiga,
escorpiana como eu, afirmou que somos dos poucos que conseguem ver um filme
desses sem abandonar o barco. Ele é duro. A linguagem é dura. Não há,
aparentemente, uma linha de escape, os velhinhos estão mais pra lá do que pra
cá. (Mas com que elegância percorrem o último caminho!) A atuação dos atores, Jean-Louis
Trintignant e Emmanuelle Riva, não deixa meia-brecha para pensarmos que estão
apenas encenando. Está ali a verdade. (Mas é arte, não é vida; é imitação da
vida, como se diz por aí.) Não sucumbi à decadência. Vi todo o esplendor do
amor semeado naquele casal de velhos, vi, por exemplo, que eles tiveram uma
vida sexual boa e saudável. Não me perguntem como vi, mas eu vi. Não dei banana
para a tristeza que há na história contada pelo diretor austríaco, mas encontrei
motivos para não chorar.

















