9.9.13

Conselhos (quase) inconsequentes

Desarme a polícia.
Libere as drogas.
Proíba a publicidade governamental.
O poder não legisla, julga ou administra em nome de Deus (ou de Deuses). O bagulho é entre nós.
Rir pelo menos três vezes ao dia é bom para a saúde. Rir do governo, do vizinho ou de nós mesmos — não necessariamente nessa ordem. O governo também deve ser saudável, assim deve rir do governo, por óbvio, de outro governo, por exemplo, o nosso poderá rir do americano ou do russo. No caso do vizinho, o governo não reservará seu riso apenas para a  fronteiriça Argentina, devendo contemplar do mesmo modo andinos, caribenhos e platinos. Numa coletiva o governo rirá de si mesmo.
Reuniões entre agentes do governo e entre eles e agentes não governamentais poderiam ser filmadas, transmitidas ao vivo e mantidas na internet por tempo indeterminado. Nada de edição.
São péssimas as soluções de emergência, logo que se faça uso delas apenas quando de fato houver urgência (desastre natural, invasão das fronteiras). Diante das manifestações populares, o governo decide... Nada disso: diante das manifestações populares, o governo ouve antes de sugerir.
Incentivar artista, empresário, agitador cultural, enfim, todo aquele que receber dinheiro público (ainda que por renúncia fiscal) a escrever e tornar público um texto com críticas ao governo (seu mecenas). Construtivas, se achar por bem. Se optar por crítica leve, um senão à roupa usada pelas autoridades, que, em seguida, aponha outra mais contundente, que ajude o governo e o próprio estado a serem mais justos.
Imagem tirada daqui.

Uma vez por mês, formar uma mesa de biriba com os chefes do Executivo, do Legislativo e o do Judiciário. Transmitida ao vivo, claro. Depois de um ano, aquele que fizer mais pontos terá direito a um mimo do Estado: uns dias mais de poder, isenção de imposto de renda ou qualquer coisa que faça os jogadores lançarem mão de todas as suas artes e artimanhas para ser o vencedor.
O presidente, pelo menos duas vezes por ano, os governadores, quatro vezes, e os prefeitos, doze, bem que poderiam passar um dia inteiro na rua olhando as modas. As escolhas de por onde flanar respeitariam a diversidade: um dia de Leblon e outro de sertão sem chuva. Durante esse dia, o chefe do Executivo estaria obrigado a entrar num boteco, pedir um café, contar uma piada. E ouvir, ouvir muito.
Abrir as seções eleitorais para o eleitor arrependido justificar seu arrependimento e deseleger o antes eleito. Como consequência, a prática de desvoto de cabresto seria crime.

3.9.13

João

“Deus é propício” ou “graça divina” são significados dados ao nome João. Entre aqueles que fundaram a era cristã, dois Joões se sobressaíram: João Batista, que batizou Jesus, seu primo, e João Evangelista, o mais longevo dos apóstolos.
Meu padrinho era João, mas ninguém o chamava pelo nome. Lôzo, o apelido. Não se casou. Gostava de tomar uns tragos. Fumou bastante e, por isso, um câncer na boca desdentada havia não sei quanto tempo.
O primeiro a quem chamei de João, porque João era, foi meu tio João Ernesto. Sobrevivera a um derrame, tinha dificuldades motoras e brincava de boneca. A casa na qual ele e tia Maria viviam, na rua Formosa, tinha um quê de magia: na sala, um homúnculo de madeira batendo um pequeno sino anunciava as horas no relógio de parede e, no quintal, um banco que eu só via nas praças ficava a minha disposição para subir, deitar, pular e até me sentar nele para ficar, menino ainda, burilando minhas primeiras caraminholas.
Foto do relógio de tio João Ernesto e tia Maria (foto cedida por seus netos Guilherme e Vanessa).

João Batista virou Tista, amigo de escola em cuja casa a Bá torcia, como eu, pelo Botafogo. João Gaiola, hoje perdido no tempo, decerto gostava de prender passarinho. Nós todos gostávamos. Deixei de gostar ainda criança.
Tratavam o João Veloso como retardado. Dançava sozinho tanto na pista das matinês dançantes quanto na rua, neste caso para chamar chuva. Houve uma época em que ele passou a visitar a casa de meus pais — com seus prováveis um metro e noventa apanhava mangas na árvore alta e custosa. Foi quando descobri sua inteligência. Retardado não era — era (deve ser ainda) um ser especial, que, quando queria, fazia chover.
João Timponi, um terapeuta para meus dezoito anos de muitas incertezas e certa gana de ferir o mundo com a unha.
Quando ouvi o “Amoroso”, de João Gilberto, comecei a prestar atenção à dobradinha técnica e emoção. Uma vez, num bar no Leblon, sem razão aparente, eu estava sentado no banquinho do piano. João Donato cutucou um de meus ombros e pediu licença para se sentar ali e improvisar uma coisinha. Com aquela trilha musical, tive a ilusão de que a vida é sempre generosa.
João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, João Gilberto Noll: Joões para meu bico de leitor respeitoso. João Paulo Vaz e João Bastos são de outra natureza: dividimos nossos originais, portanto o que espero deles — e acho que eles esperam o mesmo de mim — é que não respeitem em demasia meus rascunhos.
Chegou meu dia de ser pai; isso há tempo. O primeiro filho, João. Não para homenagear alguém. Foi o gosto comum meu e da Bia. Meus pais, que não escolheram nomes bíblicos para os filhos, estranharam. Não liguei — não ligamos. Meu João, hoje um homem, um homem que admiro, caça seu rumo. E viver não é outra coisa senão caçar o rumo, sabendo-se que o rumo adora brincar de pique-esconde. 

4.8.13

Torcedor acanhado

Senti falta de negros na torcida durante a Copa das Confederações. Meu amigo, o Alberto Mattar, reclamou da ausência do torcedor desdentado, com radinho de pilha colado ao ouvido. Eu e o Beto não somos apenas uns nostálgicos empedernidos, ao contrário, nós, como muitos outros, captamos o aspecto excludente do evento. A ausência do negro ou do desdentado significa que à camada mais pobre da população não foi franqueada a entrada nos jogos. Uma pena, principalmente porque o País tem se empenhado em diminuir algumas de suas diferenças mais abissais, como a de renda, por exemplo. E mais pena ainda: o futebol é o esporte queridinho dos brasileiros, ricos ou pobres.
Imagem retirada deste site.

Em maio de 2010, Daniela Pinheiro, numa matéria para a revista Piauí, questionava as benesses de uma Copa do Mundo, tomando o caso da África do Sul, onde discussões parecidas com as que travamos hoje aconteceram. Em seu artigo, ela diz: “Quando a Fifa alardeia que os estádios devem estar lotados, portanto, é mais uma questão de estética de show do que financeira. O lucro da entidade em nada depende da venda de ingressos, mas para o sucesso do espetáculo as arquibancadas precisam estar cheias. ‘É o que o Berlusconi disse: o futebol ideal vai ser o dia em que a torcida receber para estar no estádio e se comportar exatamente como uma claque de auditório de um programa de tevê’, comentou Alvito“ (antropólogo Marcos Alvito, da Universidade Federal Fluminense).
Se essa é uma questão estética, o pobre não coaduna com os padrões de beleza definidos justamente por quem não é pobre — e é quem manda na Fifa, na televisão etc. e tal. Portanto, o que se vê é o seguinte: o país que aceita sediar a Copa do Mundo aceita cumprir todas as exigências da entidade. E essas funcionam como se, durante os jogos, uma área do país fosse extraída dele, passando a ser de responsabilidade da Fifa. De responsabilidade não, pois a Fifa faz as exigências, mas não arca com os custos delas. A segurança, por exemplo, é garantida pelas polícias nacional, estaduais e municipais.
Estive no Maracanã para ver um dos jogos da Copa — a festa dos dez a zero da Espanha sobre o Taiti. O estádio está confortável, vê-se bem o gramado de todos os cantos. Os banheiros são bons e havia sempre alguém cuidando de sua manutenção. (Vejamos como funcionará a coisa em jogos dos campeonatos nacionais ou estaduais.) Enfim, ainda que possamos ter saudade do antigo, o de agora responde bem aos anseios de inovação.
Não vou tocar na questão de custo e corrupção porque, em relação aos custos, todo mundo sabe que foram exorbitantes e, no caso da corrupção, como brasileiro e mineiro desconfiado, não boto a mão no fogo por ninguém, mas não tenho elementos para dizer se houve ou não.
Sei que tudo que esteve e está fora dos campos de futebol (que, diga-se de passagem, não é novidade) fez de mim um torcedor acanhado. Não fui o único, ouso dizer. Como o Brasil estava em alvoroço cívico, gritando aos quatro ventos a frustração com uma pá de coisas, paralelamente à Copa das Confederações — e até por conta dela –, o grito de gol encontrou resistência numa garganta que pedia passagens mais baratas, escola de melhor qualidade, saúde para todos. Minha torcida desbragada está em virar o jogo das mazelas brasileiras.

A verdadeira festa junina

A polifonia das ruas zumbe e zumbirá por um bom tempo nas dobras do País. Esqueça o vandalismo e pense: um sopro só e os políticos se mexeram. No Congresso votaram projetos guardados nos armários havia séculos. A presidente viu entrar por sua sala uma pauta com a qual não contava. Todos sabemos que as reformas política e tributária, entra governo, sai governo, não passam de assuntos tratados nas campanhas eleitorais, se tanto. 
Como não somos burros, não comungaremos a unanimidade das ruas por muito tempo. Nem tudo que quero para o País meu vizinho quer. Quero andar num ônibus confortável, ter metrô de alcance compatível com o tamanho da cidade em que vivo, ele quer lugar na garagem para mais um carro. Ele quer estourar o Maracanã, eu, poder assistir meu futebol em paz. Teremos pensamentos distintos em relação à ideia de cura dos gays, ao lugar que devem ocupar as igrejas nos espaços público e representativo.
Nossas manifestações arranharam a importância da política, dos partidos. As mudanças que estão sendo demandadas (multifacetadas e nem sempre convergentes) dependerão da política — portanto dos partidos. Esse atrito abre espaço para experiência de exceção? Sim, claro, mas também pode reforçar os protocolos da democracia e, por conseguinte, a própria democracia.
Acredito que nossa trajetória recente — viver a ditadura, superá-la, entrar na democracia, viver sob o comando de aventureiros devidamente expulsos do poder e, depois, ter governos menos distantes dos anseios populares (PSDB e PT), ainda que reféns do jeito ancestral de fazer política em nossa terra — nos fará optar pela democracia. Então será fatal reforçar os partidos, dar cor bem definida a cada um deles. Essa tal reforma política, de um jeito ou de outro, terá de vingar.
(Faço um ato de fé, agarrando-me ao meu otimismo atávico.)
Antes de terminar, dedico duas ou três palavras à questão do vandalismo. Acredito que houve aquele incentivado por forças retrógradas, mas também houve o espontâneo. Houve, no abuso das polícias, o vandalismo de farda (uma pequena passeata iniciada em Bonsucesso terminou com um verdadeiro massacre, comandado pela polícia do Rio de Janeiro, na favela da Maré).
Partindo desse ponto de vista, minhas palavras serão voltadas aos vândalos espontâneos. No muque, no furto, na destruição, não dizem nada? Dizem, ora se dizem. Eles dizem que há uma fatura não paga. Não bastam as bolsas isso e aquilo — boas, sem dúvida nenhuma —, mas é preciso agregar algo que as mercadorias por si só não são capazes de satisfazer. Há um desejo de inclusão, que, muitas vezes, não passa de uma demanda básica, como é o pedido de saneamento (e não de teleférico) na Rocinha. Aliás, a passeata que saiu da Rocinha e engrossou no Vidigal, a meu juízo, foi o momento máximo de todo esse movimento. Quebrando todos os estereótipos, nenhum ato de vandalismo. Ao contrário dos vândalos espontâneos, estes souberam dizer muito bem.
Imagem retirada deste site.

7.7.13

ABC da rata

Não sei quem e quantos conhecem a expressão “dar uma rata”. Significa cometer uma gafe, dar uma mancada. O sujeito que dá ratas é o sem-noção, o mané, não sei mais quais adjetivos aproximam a expressão tirada do fundo do baú de outras hoje em voga. Pouco importa, não estou aqui para platitudes vocabulares e sim para destrinchar a rata com um pingo de didática; e só.
A rata pode ser da alçada íntima, por exemplo, alguma estranheza que, sem saber, um ou outro do casal recém-formado deixa escapar durante o sono: uma frase enigmática balbuciada entre dentes; uma virada de lado com energia descabida e distribuição de socos ao deus-dará. Ratas íntimas e inconscientes são para deleite e análise de Freud, não para o meu. As conscientes, ou pelo menos aquelas que encontram os namorados acordados, interessam mais ao meu rascunho didático. Um segredo revelado numa mesa entre amigos ou uma reclamação do caráter do parceiro na casa dos sogros são ratas típicas. E doloridas. Quem viveu, sabe; quem não, esteja preparado, acontece com alguma frequência.
Pode-se definir a rata coletiva, cometida por um amigo e absorvida pelos demais. Quando adolescente — na realidade, pré-adolescente, ali com uns doze anos —, o Mosquito (que foi feito dele?) foi operado de fimose, e uma amiga não sabia que diabo era isso. Num tempo em que sentíamos vergonha de fazer comentários sobre aquela região do corpo que até nossos pais não costumavam nomear, não encontrávamos palavras para tirar a inusitada dúvida. Apostamos na generalidade: tratava-se de uma cirurgia feita com o propósito de não inibir o crescimento. Não dissemos do quê, mas, se bem me lembro, fizemos um gesto. A amiga, incapaz de perceber a sutileza de nossa comunicação e sabendo, como todos sabíamos, que o Mosquito não era um menino alto, diagnosticou que ela também deveria render-se ao bisturi, pois era baixinha além da conta. A rata dela virou folclore entre nós, mais que isso: tornou-se nosso patrimônio coletivo. Sempre que nos encontramos, relembramos o bafo. Para quem chegou depois, maridos e mulheres que não pertenciam ao grupo, rata, rata mesmo, é contar e recontar coisa tão desimportante — e sem graça. Essas ratas fraternas, na prática, alinhavam e sustentam as relações duradouras. É a rata mosqueteira: uma por todos, todos por uma.
Nas barbas da diplomacia, prolifera a rata internacional. Não pode ser confundida com atrocidades do tipo invadir países ou promover golpes de estado. A rata internacional é o rei da Espanha mandando Hugo Chávez calar a boca. Ou Reagan dizendo que Buenos Aires é a capital do Brasil. É coisa mais jocosa que grave, mas, nem por isso, isenta de danos. A Guerra de Troia começou com uma rata: entre todos os deuses, a deusa da discórdia, Éris, foi a única não convidada para o casamento de Peleu e Tétis (que viriam a ser os pais de Aquiles). Ora, não deu outra: a deusa, vingativa e manipuladora, fez e aconteceu, jogando, ainda que de forma indireta, Paris nos braços de Helena, a esposa de Menelau. Daí em diante foi o que foi; se é que foi.

Haverá — é lógico, mas não se prova — a rata intergaláctica. Vai que a noite e o dia (resultado de uma complexa engrenagem), do ponto de vista de galáxia distinta da nossa, não passem de um tropeço risível do sistema solar. Ou que um cometa, que só de rai e rui corre visível a olho nu pelo céu, equivalha a um pum impertinente, que escapa no meio de uma reunião de negócios. A ideia de rata nesse nível não parece desajuizada, embora poucos se preocupem com ela, talvez nem mesmo, ou muito menos, a própria cosmologia.
Deus comete ratas. Os muito céticos afirmam que o homem e a mulher foram um erro divino. Não vou discutir essa questão delicada, que julga o ato divino, que o considera errado. Não vou por aí, meu foco é a rata, coisa miúda. E a rata de Deus foi dar próstata ao homem e marcar o ciclo da mulher com a menstruação. Havia soluções de engenharia ou arquitetura mais eficazes. 


30.6.13

Imagens colombianas e outras

Em maio circulou pela internet reportagem sobre um dicionário muito particular, o “Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças” (não há notícia de que tenha sido traduzido no Brasil, e o título é o que consta das matérias). O livro, um apanhado de definições genéricas, foi resultado do que o professor colombiano Javier Naranjo recolheu no seu convívio com crianças ao longo dos dez anos em que lecionou numa região rural de seu país.
Naranjo, autor do livro.
Há coisas realmente surpreendentes. Uma pequerrucha de sete anos, Natalia Bueno, diz que a igreja é “onde a pessoa vai perdoar Deus”. Imagino que o professor catalogou essa “definição” sem fazer nenhum juízo de valor a respeito. Já não sei se, ao sair o livro, a menina não tenha levado um bom corretivo. De seus pais. Do pároco local. Eu considero a frase um soco nas nossas certezas religiosas, o que me apraz, não por ser assunto religioso; de fato me apraz tudo que vá contra qualquer outra certeza. É meu espírito anárquico, e cínico.
Menos controversa é a frase de Duvan Arnnulfo Arango, que, no alto de seus oito anos, definiu o céu como sendo “de onde sai o dia”. Com a mesma idade, Leidy Johanna García afirmou que a lua “é o que nos dá a noite”. Para terminar as citações, com pitada poética e uma ironia desmesurada, ao definir mãe, Juan Alzate (seis anos) disse que “mãe entende e depois vai dormir”.
Ao ler a matéria, me lembrei de Gabriel García Márquez. Se há algo que marque a literatura do colombiano são algumas das imagens que ilustram suas histórias. Boi que sobe escada (“O outono de um patriarca”). Borboletas amarelas que anunciam a presença de Maurício Babilonia (“Cem anos de solidão”). O médico que, ao auscultar um coração, ouve as lágrimas que o paciente derrama dentro do peito (“Crônica de uma morte anunciada”).
García Márquez.

Por pouco não alinhavo uma teoria. Já ia dizendo que o realismo mágico é apenas uma reportagem de García Márquez sobre as entranhas de seu país, haja vista que os meninos do dicionário são tão realistas mágicos quanto ele. Mas aí me curvei às minhas lembranças de pés quebrados. E Kafka, lá doutra banda? E Juan Rulfo, anterior ao colombiano? E os surrealistas? Não encontro razão, mas, nessa viagem rasa, aportei em Murilo Mendes, ele também cheio de imagens brutas. Num de seus poemas mais conhecidos, uma paródia à “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, ele canta: “Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade/ e ouvir um sabiá com certidão de idade!” E noutro momento, em “O homem, a luta e a eternidade”, seus versos finais são estes: “Um dia a morte devolverá meu corpo,/minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins/meus olhos verão a luz da perfeição/ e não haverá mais tempo.”
Murilo Mendes, por Guignard.

Entre o pensamento bruto das crianças colombianas (e de qualquer outra, na verdade) e os trabalhos de García Márquez ou Murilo Mendes, há uma linha estendida, longa; numa ponta, o bárbaro; na outra, a sofisticação, o pensamento profundo e articulado. Mas pergunte a um escritor, os que citei ou outros, o que procuram. Aposto um contra mil que todos querem recuperar a criança que um dia foram, querem abraçar a espontaneidade e a visão assustada e virgem que os pequenos têm.


9.6.13

Hablan Español

         Na década de 80, éramos comunistas, pero no mucho. Na realidade, alguns mais, outros menos, e nenhum metido em lutas armadas. Ficávamos no nível dos comitês de solidariedade. Na PUC, fizemos um pró-Nicarágua. Muitos latinos metidos aí, e entre eles, sim, uns exilados argentinos e chilenos com maior comprometimento político. Líamos Cardenal, o poeta e padre da Nicarágua, país do qual ouvíamos as músicas de resistência. Uma delas nos levava a dançar como só a música de um Tim Maia ou de uma Madona ousam fazer. O refrão desse verdadeiro hit era mais ou menos assim: “los oligarcas de ayer, los verdes claro de hoy”.

       Bem, daí a Borges foi um pulo. Daí aos Parras outro pulo. E tome Cortázar, Garcia  Marques, Sábato, Neruda, Inti Illimani e não sei mais quem.

          Pouco a pouco, foi-se construindo uma geografia inexistente, que definia um país que tinha início no sul do Uruguai e terminava no sul dos Estados Unidos. Tudo isso teoricamente, friso, ainda que não pareça necessário, porque, vocês sabem, ninguém se livra de pequenos rancores. Nem sempre o abraço de um argentino caiu bem num chileno, nem o desse num boliviano ou peruano. Porém, era no mundo das ideias que transitávamos, e nele, uma América só.

         Não sou dos saudosistas de plantão, no máximo sinto falta de quando não tinha barriga e o cabelo era pretinho — bem, mas isso não vem ao caso. O que interessa é que essa nostalgia me veio durante a viagem que fiz a Lima, no Peru.

          Encontrei a cidade em obras, o que aumenta o seu contraste explícito: uma cidade moderna, transitada por veículos — em especial os do transporte público — velhos; uma cidade cosmopolita, habitada por Incas ancestrais.

        Povo hospitaleiro, boa comida, trânsito caótico em ruas de poucos sinais, em suma, várias camadas do tempo num mesmo lugar. Susana Baca, cantora do país, retrata bem essa síntese. Canta seus folclores, canta também a música negra americana e ainda Milton Nascimento. Se não estou enganado, foi, como nosso Tom Zé, uma das pérolas (re)descobertas e lançadas nos Estados Unidos pelo bom líder do Talking Head.

        Minhas visitas a países de língua espanhola sempre se transformam em uma oportunidade para conhecer novos artistas, particularmente os ligados à música. No Peru, foi, graças a uma dica de meu primo Lucas, essa Baca, de voz doce e interpretação contundente. Na Argentina, conheci uma moçada nova, que anda sacudindo o velho e bom tango. O senhor Joaquín Sabina é da Espanha.

          Acho estranhíssimo que se conheça tão pouco a música dessa turma. Sabina, por exemplo, é um espetáculo moderno e antenado com o mundo em que estamos vivendo assoberbados. No Brasil, o único disco dele que encontrei nas lojas foi um gravado com Fito Paez, o argentino que o pessoal do Paralamas nos apresentou. Uma pena! Sabina transita pelo mundo de Almodóvar, artista que conhecemos tão bem, ainda que o cineasta seja mais novo que o músico. Não por acaso, uma de suas músicas é intitulada “Yo quiero ser una chica Almodóvar”. Sabina é engraçado, maldito e, como soam às vezes os hispânicos, um pouco brega — um produto com açúcares de Lobão, farinhas de Chico e baunilhas do Rei.

         Enfim, minha viagem a Lima trouxe de volta a sensação de que estamos longe daqueles que estão aqui mesmo, ao nosso lado, grudados até. Não deveria ser assim.

29.5.13

Tá limpo

Do site Bolsa de Mulher.

Gosto de sabão de coco. Sei lá por que razão, mas gosto. Fico chateado quando vou às compras do mês e falta esse item na lista.
É um sabão de múltiplas funções. Com ele, eu lavo o material usado na ginástica. Quando digo eu, sou eu mesmo. Volto da piscina e esfrego a sunga e a touca. E, para isso, sabão de coco, o mesmo com que se pode lavar a louça, embora lá em casa ao detergente líquido de maçã esteja reservada essa função.
Meu barbeiro conta que certa vez recomendou a um cliente usar sabão de coco no cabelo. O cliente chamou-o a um canto e disse-lhe que tinha uma condição financeira razoável, poderia comprar algo melhor. Sujo preconceito.
Nicolau, um colega de meus tempos de Belo Horizonte, lá pelos anos de 1977 ou 1978, só usava sabão de coco em seus longos cabelos. Nicolau, nunca mais o vi. Uma vez levei-o a Passos. Chegamos bêbados e saímos trêbados. Numa reunião na casa de um rolo meu, o Nicolau, em certo momento, se meteu na cozinha para preparar mais um drinque. Que drinque! Nunca vi nada igual antes ou depois daquele dia. Como haviam acabado o limão, a laranja e outras frutas (o próprio coco ou sua água cairiam bem) com as quais se faz uma boa batida, ele misturou a cachaça com leite e Nescau. A combinação não ficou boa, aliás, ficou péssima, mas bebemos tudo até o fim (dela e nosso). Reforço que o sabão de coco aplicado ao cabelo de meu amigo não explica a experimentação insana que fez. Foi a contingência, momento de uma sede transviada.
Na avenida Brasil, um dos principais acessos ao Rio de Janeiro, na altura de São Cristóvão, havia uma fábrica de sabão; de sabão de coco, inclusive. Era algo repulsivo, fedorento. A desindustrialização do Rio poderia ter melhorado a qualidade do ar, mas a avenida continua com cheiro ruim, agora por outra razão: há por ali uma usina de reciclagem de lixo. Atividade louvável a reciclagem, mas o odor...
A empresa de sabão foi desativada faz tempo e o prédio da fábrica sofreu um incêndio no ano passado. Dizem que a prefeitura pretende construir no local uma segunda cidade do samba, ou seja, um espaço para as escolas montarem seus barracões e, neles, prepararem o carnaval. Assim, concluo, o sabão cede espaço ao samba; ou a indústria, à cultura, coisa rara. Resta torcer para que os envolvidos nesse projeto mantenham suas mãos limpas, lavadas ou não com sabão de coco.
O sabão de coco é apenas umas das maravilhas produzidas a partir do coco. Fruto moderno, muito antes de os dias atuais demandarem trabalhadores capazes de desempenhar mais de uma função, já era usado tanto como alimento (doce ou salgado) e óleo quanto como matéria-prima para bijuterias, enfeites e instrumentos musicais. Não é pouco, e só mesmo um desalmado compositor se atreveu a dizer que havia enjoado de um amor, que nem era doce de coco. Iê-iê-iê mais bobo, sô!
Não, nunca lambi sabão, nem de coco. Quando me mandam, e mandam com frequência, desobedeço de cara limpa. Sou dissimulado; assim mesmo, ou justamente por isso, invejo um amigo por afirmar orgulhoso que na casa dele quem manda é a mulher, mas quem desobedece é ele.

6.5.13

Decisões de um fim de domingo


Amanhã, logo cedo, vou escrever uma carta nos moldes antigos — colocarei no envelope e, depois de selada, levarei aos correios — para a Perpétua, antiga auxiliar de minha mãe no Lactário. Direi a ela que sempre gostei do seu jeito calmo e, do mesmo modo, do seu nome. Se eu me chamasse Perpétuo seria um fiasco paternal sem rima alguma, mas nela o nome tomou feições de sublime, artístico.

A Pair of Shoes, Van Gogh

Fugindo de um dos meus princípios, o de não engraxar sapatos para não tirar deles sua história, é provável que, depois dos Correios, eu entre na engraxataria da Rua da Assembleia e encomende o básico: graxa, sem tinta. O sapato é velho, não nego, mas nada de apuro exagerado. Lá — sei porque já fui outras vezes — o engraxate nos convida a subir numa banqueta alta, da qual se vê o mundo de cima. Confesso que fico um pouco constrangido, tanto por me ver em destaque, mas principalmente por ter alguém a meu serviço em posição tão subalterna. Mais uma razão para odiar engraxar sapatos. Mas, é fim de domingo, bom momento para quebrar ao meio certezas arraigadas.
Com os sapatos limpos — ou seja: sem as digitais de minha história recente (os sapatos duram pouco e guardam, quando muito, um cisco de nada de nossas vidas) —, sentarei numa praça. Uma mulher bonita há de passar por ali, então, planejo de antemão, olharei para ela com todo o respeito possível. Nas suas formas caberão tão bem as minhas! Mas evitarei esse caminho do desejo e trilharei outros. Se ela tiver pedigree de moça bem-sucedida, cujos estudos em boas escolas deram-lhe o emprego cobiçado por um a cada dez jovens no mundo, pedirei a Deus na sua infinita bondade que a poupe de despautérios, que não a faça viver momentos de decisões amargas, muitas vezes cruéis. Que não se coloque em sua vida, por exemplo, financiamento de guerras, maracutaias empresariais, canalhices dessa ordem.
Posso evitar a praça. Sair do engraxate, tomar o rumo do antigo Cais Pharoux, ali embarcar numa balsa para Niterói e, lá, encostar-me a um balcão de um bar qualquer. Provocarei o atendente, dizendo-lhe que consigo lamber o cotovelo enquanto pulo num pé só. Decerto ele estará cansado de fregueses tão sem-noção e, automaticamente, se debruçará sobre o balcão a fim de ver o espetáculo. Eu, que desconheço quem tenha essa dupla habilidade, recorrerei a um escancarado blefe para forçar uma simulação. Quando terminar, raciocinarei que cometi um ato vil, desrespeitoso, mas será tarde, restando apenas o consolo de culpar o domingo por decisão tão disparatada. Como forma de compensar o rapaz, disposto a pagar o dobro do preço registrado no cardápio, pedirei um caldo de cana e um joelho. O joelho fará com que me lembre do cotovelo e acabarei rindo, o que poderá deixar o balconista severamente chateado.
Se sair ileso de Niterói, terá chegado o momento de trabalhar. Ou já até terá passado. Neste caso, farei uso do banco de horas, essa invenção das empresas para cobrar nossos atrasos e não pagar nosso excesso de horas trabalhadas. No escritório, não sei se notarão o lustre de meus sapatos. É possível que um ou outro brinque com o fato, insinue que estou de olho em alguma moça nova, coisa ridícula e corriqueira que acomete homens de meia-idade. Darei de ombros, mais interessado em contar da Perpétua à turma. “Foi uma paixão?”, perguntarão curiosos. Quando lhes disser que não, Perpétua é apenas um nome bonito para identificar uma moça amável que trabalhou com minha mãe há uns quarenta anos, ficarão decepcionados. Não me restará alternativa a não ser a de confessar-lhes que, não faz muito tempo, assisti a um milagre. “Verdade?”
Sim, vi uma senhora na casa dos oitenta anos cair de uma altura de dois metros, dar uma cambalhota no ar e pousar no chão sem sofrer nada além de uns pequenos arranhões. Não é um milagre? Na segunda-feira, contarei isso aos que não creem nas leis da física.

3.5.13

De volta ao miojo


Numa prova do Enem, um rapaz, não de todo bobo, ao escrever sua redação sobre a questão da imigração tascou, entre raciocínios que capengavam com sujeitos separados de verbos por minúsculas vírgulas, uma receita de miojo. Ferva a água, jogue a massa e o tempero, espere três minutos e pronto! Assim mesmo. O encarregado de corrigir a redação não achou nada de outro mundo e deu ao rapaz uma nota razoável.
Mal começou a circular a notícia, os batalhões dos apaixonados por todas as causas começaram a duelar. De um lado, os que viram no fato o fim do mundo. De outro, os que contemporizaram e disseram que, numa perspectiva menos rígida, a coisa não seria tão terrível assim. Poetas, como o meu xará Alexandre Marino, consideraram poética a atitude do rapaz — de fato, é.
Alphabet Soup Talk

Parei de acompanhar o bafafá quando os linguístas saíram da toca e entraram na luta. Ao prender-me a questões eruditas, perco horas que podem ser gastas na vagabundagem, tempo suficiente, por exemplo, para fazer uns quinze miojos e umas três redações sem grandes erros. A gula e a pretensão são meus pecados interioranos.
Bem, não posso ficar aqui dourando a pílula, que, aliás, nem sei se teria uma receita própria para ser dourada. Sou A? Sou B? Sou da laia dos poetas? Respondo assim: grã, foi engraçado, mas é triste.
Foi engraçado o bafafá todo, a inteligência daqueles que, diante da jogada arriscada do candidato, saíram em defesa da lógica menos cartesiana, a mesma que rege o texto literário. No limite, seguindo esse raciocínio, o garoto tirou uma nota baixa.  
É triste, e cozinha meus miolos, o fato de o Enem, que está sob a supervisão do MEC, colecionar mais um desacerto. Não bastou o vazamento das provas na época em que Haddad era o ministro. Agora não é a redação do rapaz, nem seus erros, muito menos sua nota, mas o fato de o MEC não sair em defesa dos critérios das provas que aplica, preferindo acenar para a mudança deles, que passariam a não permitir brincadeiras como as do miojo ou a do hino do Palmeiras, incluído em outra redação.
Ou seja, se o rapaz não é um alienado e ignorante, mas um cáustico humorista, a vida para ingressar na faculdade não será fácil. O governo decidiu, numa canetada e atônito diante da pressão da mídia e das redes sociais — e sem ouvir os poetas, aliados do momento—, sangrar o bom humor. Não adianta ter simpatia pelo Haddad e pelo Mercadante, os fatos jogam contra eles.
O jovem no futuro chorará no ombro da história, nostálgico do tempo em que quem sabia uma receita de miojo era douto. E como de douto pra doutor falta um errezinho de nada, coisa que sempre se acha nessa sopa de letrinhas que é viver no país da bagunça cotidiana, ele, coitado, terá chegado atrasado à festa. Aí não adianta bom humor. Nem chorar sobre o leite derramado.

12.4.13

Que fevereiro foi esse?


Do ponto de vista do universo, dos universos, melhor dizendo, caiu um pedregulho na Terra, logo ali na Rússia. Um pedregulho, e todo aquele estrago. Como somos pequenos!
Duas estagiárias do Senado Federal foram demitidas por terem postado no Facebook a foto de uma ratazana encontrada na gráfica do próprio Senado ao lado de um comentário do tipo: “Renan Calheiros não é o único problema.” Abandono a discussão importante a propósito de se as meninas deveriam ou não ser demitidas, se as empresas deveriam ou não bisbilhotar a vida virtual de seus funcionários etc. e tal. Prefiro dizer que essa história mostra bem como o Renan está “pedindo”. Não só ele, claro, todos os senadores que o recolocaram como presidente da casa em que nem deveria entrar.
Há uns vinte anos, o médico que trouxe à luz meus filhos mais velhos mudou-se do Rio para Santa Catarina. Fugia da violência. O mundo dá voltas, camará.
Não entendo dos meandros do poder do Vaticano, sei avaliar, quando muito, como Bento XVI tem-se mostrado conservador em muitos assuntos. Logo, não reajo nem com alívio nem com apreensão a sua renúncia. Por outro lado, ri com algumas tiradas em torno desse assunto. No Facebook, além de lançarem Sarney, Lula e Malafaia como candidatos à sucessão, fizeram uma charge na qual o Papa incentiva a renúncia do Renan, pois, se ele, que é Papa, renunciou, o que impediria o senador de fazer o mesmo? Tenho amigos sérios e que entendem de política de modo geral, a do Vaticano em particular. Eles me disseram que alguns possíveis substitutos do Papa podem fazer com que consideremos light o conservadorismo do que se despediu em fevereiro.
Um acidente na Avenida Brasil envolvendo um ônibus não é raro, mas acidente provocado por conta de um passageiro indignado ter agredido o motorista que não quis parar fora do ponto já não é assim tão comum. O passageiro é um desequilibrado, não resta dúvida, e, se hoje ele agride por motivo tão banal, amanhã poderá fazer coisa pior por outros vãos motivos. Não conheço o desfecho da história, mas aproveito o incidente para refletir sobre o seguinte: ponto de ônibus no Rio de Janeiro é mais uma ideia do que um lugar onde as linhas A e B param e a C não. Sim, os motoristas fazem o que querem. Não só eles, nós, os passageiros, igualmente. É um tal de pedir ao “motô” — somos sempre transgressores gente boa — para abrir a porta um minutinho. Além disso, acho incrível uma coisa: em frente a minha casa, há um recuo para os ônibus pararem para embarque e desembarque. Com isso, saem um pouco da rua, e o trânsito flui normalmente. O que acontece? Os passageiros ocupam esse lugar, e os ônibus param no meio da rua, e a rua vira o caos. Somos miúdos, mas nossa estupidez não.
Vaticinei há um tempo: Yoani Sánchez não viria ao Brasil. Naquela época, não viria por não conseguir o visto para deixar Cuba. Pois bem, minha “profecia” se concretizou, só que agora, apesar de ter estado por aqui, ela continuou não vindo, pois não a deixamos circular livremente, lançar seu livro, participar do debate sobre um filme no qual dera um depoimento. Cerceamos a moça que, se não tivesse sido constrangida, poderia ter respondido a muitas perguntas que esclarecessem exatamente quem ela é. Qualifico essa passagem da blogueira por aqui como um vexame nacional. 

Fevereiro não foi um mês como outro qualquer. Nunca é, por causa do carnaval, essa coisa toda. Mas a renúncia do Papa, a queda de um meteoro e a vinda/não vinda da Yoani Sánchez ao Brasil tornaram o esquisitão fevereiro mais esquisitão ainda. Que doideira! 

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E veio março. Um Papa Argentino: de um lado, mais piadas e, de outro, uma esperança política na sua figura controversa. E outra briga num ônibus municipal no Rio de Janeiro vitimou 7 pessoas. E três homens, enlouquecidos e reincidentes, estupraram na van (deveria ser apenas mais uma possibilidade de transporte público) uma turista francesa. Esperamos por abril ou já jogamos a toalha e ficamos na expectativa de 2014?

30.3.13

O passado é azul coisa nenhuma


Mamãe ralhava comigo só de pensar nos possíveis amigos mais velhos que eu pudesse ter. Tinha medo de que, inocente, eu aceitasse uma proposta para fazer bobagem com eles. Fazer bobagem era alusão ao sexo, portanto mamãe tinha medo de que os meninos mais velhos (nunca as meninas) abusassem de mim, seu caçula. Naquela época não vinham à tona os casos de pedofilia, mas Dona Haydée era ciosa de sua prole e temerosa de que algo de ruim atingisse os filhos. Nada diferente de outras mães, a não ser o fato de a minha ter sido um pouco mais medrosa que a maioria delas.
Os meninos “grandes” não me fizeram nenhum mal, e pela vida afora, sem trauma, sempre tive amigos mais velhos. Ainda os tenho, apesar de um ou outro já não estarem entre nós. Fazem-me falta, mas morrer é desígnio da vida e conformar-se é imperativo.
O convívio com os mais velhos — não na infância e adolescência, quando, de fato, a diferença de idade não passava de dois, três anos, mas agora, na aurora dos meus cinquenta anos — coloca dois mundos em confronto. O meu, de rapaz do interior de Minas, da década de 1960; o deles, de nascidos em torno de 1940, vindos ou não do interior. No espaço de vinte anos, menos até, o Brasil sofreu uma tremenda mudança, e isso fica patente se me comparo àqueles que vieram à luz durante a II Guerra Mundial, por exemplo. Eles estudaram latim no primário, viveram na pele a ditadura militar e, para não ser exaustivo, sofreram um bocado para transar com a namorada. Nunca estudei latim; a ditadura estava dada quando “virei gente”, portanto sofri suas consequências — uma delas a de ter uma escola menos crítica, mais tecnicista —, mas não fui submetido aos constrangimentos físicos pelos quais passaram aqueles que se voltaram contra ela; e as namoradas da minha geração, nem todas, claro, mas uma grande parte delas, foram mais liberais.
Matuto a respeito de manter amizades como essas. Acho que perduram em grande parte pelo fato de nenhum dos meus amigos “velhos” serem nostálgicos. Deles não ouço nunca, ou quase nunca, a afirmação de que o passado era melhor que o presente. O presente tem o rabo preso com o passado, e eles sabem disso. Acertos e erros atuais foram semeados ontem.

Otto Lara Resende dizia que tudo visto de longe — seja em termos de distância (a terra, pelos astronautas), seja em termos de tempo (o passado longínquo) — é azul. Bela imagem do escritor mineiro, mas, na realidade, o passado é bom porque nele fomos jovens. E, quando se é jovem, tudo é fulgurante. Amamos com intensidade. Não somos moderados ao comer e principalmente ao beber. Como dizia o Renato Russo, vivemos como se não houvesse amanhã.
Os medos de minha mãe foram infundados, e hoje ela se espantaria ao saber que seu caçula passou a ser o amigo mais velho de muita gente por aí. Nessa condição, espero não perder de vista que o azul do passado é apenas o reflexo dos tempos em que fui senhor do mundo.

1.3.13

Rir e chorar


Meu caçula diz que pela primeira vez me viu rindo, rindo pra valer, agora à porta de seus treze anos. O riso fora provocado por uma matéria de Felipe Marra, publicada na Piauí de dezembro de 2012, sobre o comportamento das torcidas de futebol no Reino Unido. Bem, o grave disso tudo foi eu não ter rido durante treze anos. Como pode? Como pude?
Devo explicar a meu Pedro que não comungo de extremos. Quase nada me mata de rir. Tampouco me leva às lágrimas. Coisa de homem desconfiado, cético, sempre com um pé atrás. Homem também (principalmente) ignorante. Sim, sou um ignorante incapaz de rir a rodo. Ou de chorar baldes de lágrimas.
Aqui levo tudo ao pé da letra. Rir é gargalhar, abrir a boca, fechar os olhos, tremer-se todo. Chorar, contorcer-se, fungar, desidratar-se até. Nos dois casos, sair de si. Difícil que eu chegue ali ou lá. Falei em ceticismo, mas talvez seja insensibilidade, incapacidade de me matar (de rir) na piada e/ou de morrer (de chorar) numa possibilidade de tragédia. Burrice emocional.
Preciso dizer a meu filho que não veja em mim um homem duro e pessimista. Ao contrário, acho a vida boa, apesar de tantas coisas estranhas que acontecem por conta de nossa irresponsabilidade. Por exemplo, a morte dos jovens que dançavam na boate em Santa Maria.
A maldição é como me apego com unhas e dentes à razão, ancorado no mar sem eira nem beira da minha ignorância. É grave, gravíssimo. Mas é assim, sou refém desse meu traço.
Dou um cavalo de pau nesta crônica e, à procura de um exemplo que me ajude na explicação ao meu filho, falo do livro do Keith Richards (“Vida”, Editora Globo). O cara é um doidão, todo mundo sabe. Ao longo do livro, ele descreve coisas do arco da velha, algumas devem ser hilárias. São, de fato são, eu que não consigo me entregar simplesmente ao riso. Todos os excessos do cara me deixam um pingo e meio amargo.
E Amor (“Amour”, de Michael Haneke)? Uma amiga, escorpiana como eu, afirmou que somos dos poucos que conseguem ver um filme desses sem abandonar o barco. Ele é duro. A linguagem é dura. Não há, aparentemente, uma linha de escape, os velhinhos estão mais pra lá do que pra cá. (Mas com que elegância percorrem o último caminho!) A atuação dos atores, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, não deixa meia-brecha para pensarmos que estão apenas encenando. Está ali a verdade. (Mas é arte, não é vida; é imitação da vida, como se diz por aí.) Não sucumbi à decadência. Vi todo o esplendor do amor semeado naquele casal de velhos, vi, por exemplo, que eles tiveram uma vida sexual boa e saudável. Não me perguntem como vi, mas eu vi. Não dei banana para a tristeza que há na história contada pelo diretor austríaco, mas encontrei motivos para não chorar.




29.1.13

Coisas da prima


Filha da tia Expedita e do tio Tonico, Rita é a prima que inspira esta crônica. Morava na Primeira Chapada antes de sair de Passos, há tempos. Casou-se em Ribeirão Preto com um bom Edson e, mesmo naquele calor medonho, ela e ele trouxeram à luz André e Thiago.
Rita é a maior contadora de casos do mundo. Ela memoriza as histórias, sabe encontrar o lado jocoso de cada uma delas e, quando se dispõe a contá-las, tem a manha de como segurar a plateia. Quem a conhece talvez concorde comigo; os outros, principalmente os muito jovens, terão de botar fé na minha afirmação — ou acompanhar esta crônica e tirar as próprias conclusões.
Sem o charme da prima, conto uma das inúmeras que ouvi dela. Eu a conto porque, neste mundo de urgências e importâncias superlativas, essa história é, como a maioria do repertório da Rita, sem importância alguma. É apenas caseira... e deliciosa. Com ela, o mundo fica assim também: caseiro e delicioso. Por alguns momentos. Que seja!
Ocorreu em Passos entre os anos de 1950 e 1960. Época festiva, de muitos bailes, acabou, sem querer, fissurando a felicidade de um casal bom de dança. Quem olha de fora os dramas alheios tende a achá-los miúdos, coisa de somenos. Não sejamos assim, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” (Caetano Veloso). O casal com problema dançava o fino, poucos chegavam a seus pés, mas, e aí estava o busílis, entrava mudo e saía calado da pista.
Certa vez, por exemplo, bem ao lado do casal, uma dupla desengonçada, tropeçando nos próprios pés, vagava alegre e falante música adentro. A moça ria, o rapaz falava. O rapaz ria, a moça falava. Outro casal mais adiante nem sequer dançava, isso mesmo, nem sequer dançava. Ficava parado no salão, jogando os ombros para um lado e para o outro sem sair do lugar. Em compensação, quanto assunto! Ela se afastava, tirava uma das mãos do rapaz e acrescentava gestos a um assunto infindável. Ele franzia a testa, muito concentrado naquelas palavras. Educado, quando encontrava uma brecha, falava baixinho, olhando bem nos olhos da parceira. E balanga pra cá, balanga pra lá. E tititi, tititi, blablablá, blablablá. O casal com problemas saiu da pista arrasado, apesar de ter dado, como de costume, um show no foxtrote, na valsa, em tudo que a orquestra soprou.
Baile na Roça - Di Cavalcanti.

Outro dia, antes do baile, a mulher chamou o companheiro a um canto e espetou-o com o tridente de sua diabólica inveja.
Ele não reagiu com menosprezo, ao contrário, concordou com ela, pois sentia-se desmoralizado socialmente. Onde já se viu aquele silêncio? O que achariam deles? Um casal com problemas de relacionamento? Casamento de fachada? Tomassem uma decisão.
Decisão... Essa estava dada, bastava falar um com o outro. Mas o quê? Falar, a bem da verdade, poderia atrapalhar o casal, perturbar o entrosamento rítmico cobrado pela dança. Diante da possibilidade de dançar mal, abateu sobre cada um o silêncio dos silêncios. Nem música, nem nada ali entre eles. A solução acabou assaltando, de estalo, a cabecinha inteligente da mulher.
No baile daquela noite, o casal dançou e falou exultante. Para ser sincero, não foi exatamente uma fala. Eu conto.
Mal colocaram os pés no salão, ela disse: “1, 2, 3”, e ele emendou: “4, 5, 6”. Daí, ela: “7, 8, 9”.
Numa animação de dar inveja, contando de três em três, vararam a noite sem arredar os pés do salão.

11.1.13

Outra pedra no caminho


“Nunca me esquecerei desse acontecimento/na vida de minhas retinas tão fatigadas./Nunca me esquecerei que no meio do caminho/tinha uma pedra...”


No início pedra era uma parte solta ou o todo de matéria rochosa. Ou coisa correlata; o granizo, por exemplo, ainda que este dure pouco na condição de pedra. Pedro, homem pétreo, por associação. Não faz muito tempo, chegou Drummond com o enigma da pedra no caminho. Era ainda a pedra, e não era mais a pedra. Não mais a dura expressão da natureza, mas a síntese do que, na vida, nos leva ao tropeço. Os problemas, as dúvidas; por aí.
É recente a pedra entorpecente, aquela para a qual se corre na esperança de dar um cala a boca na dor. A pedra que, ao contrário da pedra, se transforma em fumaça com um pouco de fogo nos seus fundilhos. A pedra que amealha destruição em doses alopáticas.
O poema de Drummond ganhou nova leitura. A pedra agora é essa sem vínculo direto com a natureza. A pedra química. Joãozinho, o eterno personagem das piadas, analisaria o poema dizendo que a pedra no caminho do poeta é o crack. No caminho de Drummond! A piada fincando o dedo na ilibada poesia, na pretensão filosófica do homem de Itabira, cidade cujas flores são pedras e das pedras vive. A rua invade o santuário da literatura.
(Não consegui descobrir de quem é a imagem. Tirei deste site)

Tudo muda. As palavras ganham novos sentidos. Não poderia ser diferente com a poesia, soma de palavras. A piada sopra aos nossos ouvidos uma leitura contemporânea possível ao poema-enigma de Drummond. Correta até. Presa às suas linhas.
Podemos reclamar de que subtraímos de Drummond sua magia, o seu alcance. É que os dias de hoje são assim. São? Não são? Muita calma nessa hora. É uma leitura de muitas à mesa. Aquelas enraizadas, clássicas por assim dizer; também outras que se apegam à imensidão de significados possíveis da pedra no poema. E esta, piada ou não.
Poema inclusivo, “No meio do caminho” é aberto de tal maneira que traduz o presente tanto do século XX, morto e sepultado, quanto o de agora, em fraldas, aprendendo a engatinhar. Se o mundo não se acabar, dirá alguma coisa para o XXII.
Logo, a pedra bem pode ser um tijolinho de crack. Encontrá-la nunca mais saiu das retinas do viciado, ainda que a lembrança, esta e qualquer outra, não passe, no caso dos noias, de um lampejo de uma efêmera e fantasmagórica lucidez.


31.12.12

Duas faces da honra


Não fui adolescente de briga. Meus amigos eram e, até hoje, se orgulham disso, defendem que nossa turma era a melhor de todas no quesito tapas e pontapés. Não era um deles nesse aspecto, briguei uma única vez, assim mesmo o que houve, no escuro da boate, foram duas tentativas de socos de ambos os lados. Eu estava certamente embriagado, devo desculpas ao meu oponente, que, aliás, não sei quem era, apesar de saber por quem eu armara toda aquela confusão.
Antes de entrar na adolescência, aí sim, tive uns ataques de valentia. Certa vez, lá no Beco, mandei enfileirar os meninos e enfrentei um de cada vez. Noutra ocasião, num arranca-rabo com um dos meus melhores amigos, fui dar-lhe um chute, ele segurou meu pé e me derrubou no chão. (Com esse tombo, ruiu meu pendor de lutador de rua.)
Depois da queda, certo de que era um homem, ainda que não passasse de um projeto de homem, exigi, do alto da minha honra, que meu amigo que me aplicara aquele maldito golpe nunca mais dissesse meu nome; eu não diria mais o dele. No outro dia, continuamos com a nossa velha camaradagem, apesar de adotarmos um genérico Zé para nomear um ao outro. Há muito tempo não o vejo, mas ainda hoje penso nele como Zé.
A honra. Que estupidez! Por ela, criam-se segredos absurdos e fica-se preso a uma desavença de infância. Há aqueles que vão além: matam a mulher que não admitiu ficar presa à insatisfação ou o vizinho abusado que fez fiufiu para a filha adolescente do assassino.
Alguns dos Chicos

Além do amigo que virou Zé, a vida me ofereceu outros Franciscos. De cara, nasci ao lado de alguns deles. Meu tio Chico. O primo Chiquinho. Depois, noutros paralelos, Chicos artistas, curtidos de longe. Recentemente, o Francisco Mendes, escritor lá de Belo Horizonte. Houve outro Mendes, o seringueiro símbolo da luta a favor do meio ambiente. Ah, sim, e o Chico Lopes, fazendeiro amigo de meu pai e pai do Armandinho. Não me esqueço do meu melhor professor de economia, Chico Lopes também. Sim, ele mesmo, o ex-presidente do Banco Central que se meteu num escândalo de tráfico de interesse, isso que sói acontecer com alguma frequência em nossa terra tropical. A lembrança do mestre me faz pensar num outro sentido da honra.
Quando falo honra, também estou dizendo lisura ou, mais diretamente, idoneidade. O mundo do dinheiro não raramente é comparado à vida selvagem. Uns devoram outros. Devoram-se porque têm fome de grana, de mais grana, de grana até não poder mais. Nessa luta, se falta lisura, se falta honra, os golpes baixos são a regra; e a barriga dos famintos por dinheiro não enche nunca. Falo dos esfomeados que são uma espécie de tigre de pança sem fundo, obrigados, por isso, a caçar sem trégua. Num mundo assim, o golpe baixo é a regra. Nós, os que nos saciamos com pouco, ficamos espantados. Eles, os tigres insaciáveis, não estão nem aí para o nosso espanto.
A honra, lei sem letra, mantém um compromisso apenas apalavrado. É esse sentido de honra, não aquele fútil do homem que não esquece a briguinha de infância, que falta na selva onde se comem os que almejam a riqueza a qualquer custo. E isso tem feito um estrago tremendo no Brasil que engatinha na democracia.

10.12.12

Olhando para dois lados


O de dentro

Como dar nó numa onda ruim? Nunca surfei, não tenho nem resposta nem metáfora para usar aqui. Assim, o que posso dizer é que o acaso faz das suas.
Situo-os. Dois amigos meus estão passando por problemas de saúde. Estão melhorando, graças à medicina que, realmente, é fantástica, apesar de nos assustar com seus métodos às vezes bárbaros. Não vou falar de medicina, foi só um comentário. O fato é que dor de amigo nos deixa prostrados. Meus amigos hoje são avós, são pais, logo, ao redor deles, há toda uma rede de dependências, no mínimo afetivas, e a doença seciona-a, pelo menos enquanto tudo fica em suspenso, à espera.
Nesse contexto, dia desses, tomei o ônibus de todos os dias. Nele, cumpri meu ritual: sentar, de prefência à janela, colocar a mochila sobre as pernas, abri-la e tirar lá de dentro a leitura do dia; depois, claro, ler até a hora de descer na Lapa, a dois quarteirões do trabalho. Enquanto me acomodava, meus olhos foram espiar a rua. Lá estava ele. Reconheci-o de longe, enquanto caminhava em direção ao sinal em que meu ônibus estava retido. Usava sua touca branca. Quando se aproximou bastante do ônibus, confirmei, era o Egberto Gismonti. Numa rua de Botafogo, transeunte comum, um de nós. No entanto, era Egberto, o Gismonti. Moço do Carmo, que desceu a serra e, graças à música, é do mundo.
Esse foi o acaso que me confortou. Alguém achará estranho a imagem distante de uma pessoa poder confortar outra. No meu caso, confortou. Quer dizer, o que me confortou, de fato, não foi a imagem, apesar de a figura de Gismonti inspirar certa tranquilidade. Há algo de magia nele. O que me deu alento foi a música que minha memória resgatou e, mais do que isso, foi a lembrança de algumas situações ao longo da vida em que duas gotas da música gismontiana deram-me tranquilidade e discernimento para suportar os maus momentos. Gismonti, a música dele, me põe nos eixos. Vê-lo, lembrar-me de sua música e, ao chegar ao trabalho, ouvi-la deixou-me mais tranquilo, esperançoso. Meus amigos ficarão bem, mesmo que isso leve um tempo.

O de fora


Em 2008, o Cordão da Bola Preta, bloco mais que tradicional do carnaval do Rio de Janeiro, foi despejado de sua sede na Cinelândia. Passou um tempo, o governador cedeu ao bloco um prédio na esquina das ruas Lavradio e da Relação. Não tardou muito, o Bola organizou o espaço e, até onde sei, funciona bem. Porém este ano, parte do imóvel recebido desabou e, por sorte, não feriu ninguém.
Circulo por ali todos os dias, pois trabalho na esquina da Lavradio com a avenida Chile, esta uma extensão da rua da Relação. Então sei o que ocorreu depois do desabamento. Sei o quê? Nada. Nadinha. Necas. Nem a Prefeitura. Nem o Governo do Estado. Nem a Defesa Civil. Nem o Bola Preta. Ninguém moveu uma palha para dar um jeito na construção-destroço. A foto a seguir foi tirada por mim mesmo, não faz muito tempo. A situação é esta. Acho que a ideia é que, com a chegada das chuvas, finalmente se produzam as vítimas que o desabamento por si só não foi capaz.
Quero estar errado.
Foto de Alexandre Brandão.