17.2.20

O assobio

para Viveca e Boinha

Aos 18 anos, eu, amigo da noite e de seus maus conselhos, voltava para casa quando os miseravelmente responsáveis (mal sabia que seria um deles em futuro próximo), já acordados, preparavam-se para o trabalho. Foi nessa época que, tendo ficado viúva, tia Yole me escolheu para acompanhá-la nas visitas que fazia à fazenda deixada pelo tio Elin.

Eu me recolhia às três ou quatro da manhã, às seis era despertado, às seis e pouco minha tia e eu entrávamos no carro e fazíamos uma pequena viagem de uns cinquenta quilômetros, de Passos a Cássia. Chegávamos ao Morro Alto, que tinha apenas um curral, nada mais, descíamos e literalmente olhávamos para o pasto e seus boizinhos. Era tudo. “Está tudo bem, não está, querido?” “Sim, tia, está tudo ótimo.” Minha resposta tinha mais a ver com o meu estado deplorável. Apesar de o bate-estaca da boate ainda ecoar pela cabeça e de os infortúnios da ressaca já se prepararem para tomar conta da área, tudo estava bem; ótimo era exagero.

Uma vez, fomos acompanhados por um primo meu (sem parentesco com a tia), veterinário. Ele examinaria o Astuto, touro reprodutor — de má fama, por ter um apetite sexual típico dos pandas — com o qual o tio Elin planejara desenvolver o maior e mais bonito plantel do Sudoeste de Minas, mas que, nas mãos de quem não tinha intimidade com a pecuária, acabou se transformando num estorvo.

Durante a consulta, aproveitando um descuido da tia, meu primo cochichou comigo que não voltaria com ela na direção (ele, de fato, foi o motorista da volta). Puro machismo, claro, tia Yole dirigia bem, aliás dirigiu até às vésperas de morrer, o que foi acontecer quando tinha quase noventa anos (que ela não me ouça falar de sua idade, que, aliás, ganharia mais um ano no próximo 20 de fevereiro), mais de trinta depois da história que conto. O que talvez tenha assustado meu primo é que, alérgica ao sol, ela se protegia segurando uma revista; quer dizer: dirigia com uma só das mãos.

Passada essa época, evoluímos de sobrinho e tia para cúmplices: eu acobertei algumas de suas traquinagens, ela, muitas das minhas. Para reforçar nossos vínculos, houve a escrita. Tia Yole escrevia com sensibilidade, lindamente. Lembro-me da carta que me mandou quando a Helena nasceu. E é inesquecível a crônica que dedicou a meu padrinho, um solteirão, um joão-ninguém, um homem doce, qualidades que “Yoyó, a viúva louca”, como eu carinhosamente a chamava, soube destacar.

Não vou dizer da beleza de minha tia. Não vou dizer de como eram engraçadas suas histórias com o marido, cujo humor era a sua forma de estar na droga deste mundo. Não vou dizer como ela era sofisticada. Vou deixar apenas esse caso miúdo que vivemos juntos. Ah, e acrescentar que tia Yole assobiava. Quem assobia, não sei se vocês sabem, perpetua sua passagem pelo mundo.

3.2.20

Paulinho não só da Viola

Nem sei bem como conheci e quando passei a ouvir Paulinho da Viola. Deve ter sido por meio do rádio, no pré-carnaval, única época em que o samba dava a cara pelas bandas de Minas, isso há mais de cinquenta anos, hoje não sei como é. Samba era só no carnaval e, mesmo assim, perdia em popularidade para as marchinhas de salão. Eu devo ter ouvido nessas circunstâncias, distraída e meninamente, Foi um rio que passou em minha vida, talvez o maior sucesso do compositor.

Depois de eu me curvar à música popular brasileira graças ao antológico “Milagre dos Peixes ao vivo”, de Milton Nascimento, Paulinho entrou no radar da minha curiosidade musical. Não esperava a rádio ou a TV me darem notícias dele, eu procurava por elas. É verdade que não fui, logo no início, um fã ardoroso; Milton, Chico, Caetano e Gil ocupavam esse espaço.

Penso que a aproximação definitiva veio depois de ouvir, numa roda de comes e bebes na casa de meu irmão, um dos convidados falar que o samba havia acabado, nada prestava, e outro fazer um aparte: mas e o Paulinho da Viola? A exceção, concluíram. Eu, que já conhecia um pouco a música do sambista de Botafogo, fiquei intrigado com o diálogo e, aí sim, com afinco fui ouvir seus discos — e na época era isso mesmo: ouvir os discos de vinil ou as fitas cassetes.

Em sua deliciosa Eu canto samba, Paulinho deu o recado: “Há muito tempo eu escuto esse papo furado / dizendo que o samba acabou / só se foi quando o dia clareou”. A audição de sua obra só me fez entender que sobre as costas do samba pesam séculos de ancestralidade e, por isso, ele não acaba. A tal morte não passa de despeito branco. Papo de branco.

Um dos maiores sambistas do país — anda ali com Cartola, com Nelson Cavaquinho, com qualquer gigante —, mas não se pode prendê-lo ao samba, Paulinho é, sim, um dos mais requintados compositores da música popular. Sinal fechado, por exemplo, não é exatamente um samba ou é um samba ao avesso. O fiel compositor de sambas é também um traidor. Sorte do samba. Sorte nossa.

No último 25 de janeiro, fui ao Circo Voador ver o esteta do samba. A qualidade do som não estava muito boa, mas nem isso o tirou do sério. Nesses shows, a ideia é, sem grandes surpresas, tocar os sucessos e promover uma comunhão entre o público e o artista que é porta-voz do afeto desse público. Paulinho soube fazer isso.

Desenho de Elifas Andreato, retirado daqui.


Registrei a história de como nasceu uma de suas composições mais lindas, Para um amor no Recife. Ele teve problema com a hospedagem na cidade, então uma senhora — professora e intelectual que fazia a cabeça do pessoal de Pernambuco — ofereceu-lhe pouso para um ou dois dias, que, por fim, se transformaram em mais de trinta. A música é para ela. O teor desse amor pouco me importa, mas, ao recordar o caso, acho uma oportunidade para falar sobre a qualidade do poeta. 

O filho do violonista Cesar Faria e de dona Paulina Batista não faz feio para ninguém. Pego duas das músicas de que mais gosto. A primeira é justamente a homenagem à pernambucana e fala: “Quero estancar o sangue / e sepultar bem longe / o que restou da camisa / colorida que cobria / minha dor”. A outra é Para ver as meninas: “Quem sabe de tudo não fale / quem não sabe nada se cale / se for preciso eu repito / porque hoje eu vou fazer / ao meu jeito eu vou fazer / um samba sobre o infinito”. Ambas devem ter sido escritas por um menino, um rapazote com seus vinte anos. Não é coisa de monstro? Um monstro delicado, deus preto de calça curta e pés descalços. Em um samba gravado em 1971, ele disse que ninguém explica a vida num samba curto, eu, quase cinquenta anos depois, digo que ninguém explica um Paulinho da Viola em crônica curta ou longa.

Quando eu e a família visitávamos meus pais em Minas, havia uma seleção musical para nos distrair das nove, dez horas de estrada. Rolava de tudo, de Mamonas Assassinas e Rita Lee a João Bosco, passando por Paulinho da Viola, especialmente por seu Bebadosamba. Quando tocava uma de suas parcerias com Hermínio Bello de Carvalho, Timoneiro — “Não sou eu quem me navega / quem me navega é o mar” —, aquele carro tonto das curvas da Mantiqueira a cantava em coro. A música fez parte do show, o que me levou a fazer uma coisa abominável: saquei o celular, gravei um trechinho e enviei para os filhos. Espero que o tenham visto e se dado conta de que Paulinho faz parte de nossa alegria.










20.1.20

Guerras de hoje


Esmiuçando um país

Gennady Privedentsev, artista russo.

Um país não é aquela roupa velha que se veste de quando em quando, longe dos estranhos, na intimidade.

Um país não é uma saudade, sequer uma nostalgia miúda. Não é uma música que seu pai cantava enquanto preparava o cigarro de palha. Não é a lembrança que sua mãe mantém de um antigo amante.

Não é uma tarde com crianças correndo no quintal. Igualmente não são dois vizinhos batendo papo pela janela de suas casas.

Um país não é uma bola na trave. Não é um grito inesperado daquele homem que caminha em silêncio. Qualquer muleta abandonada na calçada é apenas uma potencial metáfora para o país.

Por mais que se pense que um país seja suas sextas-feiras e feriados, ele não é isso. Tampouco é o domingo, no qual velhos casais reencontram o desejo.

Um país, veja bem, não é o conjunto de suas desgraças. Não é o sorriso do velho banguela ao ver seu neto banguela rindo do vento que lhe assopra o rostinho.

Um país não é nem a chuva ruidosa (muito menos a garoa) nem a mulher que, no meio da rua, parece chorar e ao mesmo tempo sorrir. Não é a gargalhada de um grupo de adolescentes.

Alguns querem que um país seja o aplauso comovido para aquela cantora cuja voz é apenas um fiapo da voz de quando ela estava no auge. Esqueçam. Um país não é a vassoura que varre a calçada.

Um país está longe de ser um assalto a banco. Do mesmo modo, está longe de ser um ato altruísta de um mendigo. Até poderia ser, mas não é, um beijo que o senhor violento, às escondidas, dá em uma flor cujo cheiro é mais intenso que a cor. Um país não é a sua literatura ou seus muros pichados.

Um país não é uma greve geral. Não é um dia sem consumir carne ou um dia sem consumir ou um dia em que se vai de visita ao túmulo dos pais.

Um país não são as crianças na escola. Não são os jovens na escola. Não são os adultos empregados. Não são nossas certezas ou sonhos.

Um país não é um filme de terror — ainda que um filme de terror possa ser um país; ainda que uma comédia possa ser um país. Ainda que a tristeza possa representar o país. Ainda que a alegria faça parte das saudades de um país.

Um país não é a sabedoria. Não são os acepipes servidos em reuniões festivas. Não são as quitandas cuja receita é anterior ao próprio país. Um país não são seus tambores e festas.

Um país não tem o rosto que os mapas dizem que ele tem.

Um país — o nosso — é um daqui a pouco urgente.

15.1.20

40 anos no Rio

Cheguei ao Rio no dia 5 de março de 1980. Vim depois de passar as férias em Passos, mas eu já não morava lá, saí de minha cidade em 1977, mudando-me para Belo Horizonte.

Um dia talvez eu escreva alguma memória sobre esse período, mas hoje minha intenção é apenas justificar porque, na efeméride dessa data, resolvi lançar um livro de poesia.

O fato é que a poesia foi minha primeira manifestação artística. Ainda criança, fazia musiquinhas e, um pouco mais tarde, compunha músicas bem precárias. Dessa experiência o que ficou foi a poesia.

Em 1986, minha irmã Patrícia trabalhava na Imprensa Oficial de Minas Gerais, e ali se fazia (e ainda faz, creio) o Suplemento Literário de Minas Gerais. Ela sabia que eu escrevia, conhecia minhas músicas. Como lá no Suplemento circulava um conterrâneo nosso, o premiado poeta Antonio Barreto, a Paçoca levou um material para ele avaliar. Acho que mandei uns cinco ou seis poemas. Passado um tempo, recebi tudo de volta com anotações (tenho tudo em casa, sabe-se lá onde). Mais surpreendente, três foram publicados.

Quando me derramo de agradecimento ao Barreto, ele diz que não teve essa de QI, não. Seu relato é que os poemas foram parar nas mãos de pareceristas e a decisão final foi sugerir a publicação de três. Seja como for, considero o mestre Barreto um dos meus padrinhos literários. Ele, o Noll (que fez o prefácio de meu primeiro livro, Contos de homem) e o Marco Túlio Costa (que me inventou cronista).

Para comemorar meus 40 anos de Rio, pensei em escrever uma série de crônicas memorialistas, mas, quando dei por mim, não teria tempo para preparar um livro a ser lançado em 5 de março de 2020. É uma tarefa hercúlea para um sujeito desmemoriado e que não dá muito valor ao que viveu. As duas coisas indicam que produziria um péssimo livro.

Quando estive na Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto (Gilberto Abreu, outro conterrâneo, meu ex-professor de história e escritor admirável, foi o homenageado), eu, Alexandre Marino e Nádia Monteiro trocamos umas figurinhas e eles se prontificaram a ler minhas poesias. Foi uma coisa linda e uma força danada. Depois pedi outras leituras (com respostas igualmente lindas), de Adriane Garcia e Alberto Bresciani. Isso sem contar o próprio Eduardo Lacerda, editor sensível, com pendores claros para a escrita e a edição de poesias.

Se tenho um livro de poesia, ora, façamos de seu lançamento a comemoração dos meus 40 anos na cidade maravilhosa, mas feia; de cultura inclusiva, mas de segregação; da beleza dos corpos, mas de clima infernal.

É um livro bom? Olha, todo escritor é vaidoso, mas eu, no caso da poesia, sou menos (já como contista e cronista, nem digo). Isso quer dizer que estou mais preocupado com a comemoração do que com a qualidade da poesia (todo escritor é mentiroso). De todo modo, acho que tem alguma coisa bacana, sim, ao lado de poemas menores, ruins de verdade. Na realidade, em tudo que faço (fazemos?) há essas duas porções. Passados 25 anos desde o lançamento de meu primeiro livro, já não alimento grandes ilusões. Escrevo porque quero falar com meu tempo.

Assim será. Ainda que formalmente não dedique meu livro a esses caras que me deram a força inicial, o livro é deles, em especial do Barreto.

Um brinde!

#nenhumapoesiaumaantologia

Lançamentos: 

                    15/02, em São Paulo (na Patuscada, Rua Murat, 40, Vila Madalena).

                    05/03, no Rio de Janeiro (local por ser definido).


Já em pré-venda.

6.1.20

Esqueça os famosos



Para dona Euza, Cristina e familiares do JC


Você conhece algum escritor famoso?

Foi o que me perguntaram quando participei, em 2018, de um dos eventos ligados à Feira Literária de Passos, minha cidade natal. A pergunta seca foi o ápice de uma participação tensa. Acompanhem.

Eu falava com alunos do ensino médio que não conheciam nem meus livros nem meu blog, na realidade, não sabiam nada de mim. Quando era para ser astro de um evento, me vi um zé-ninguém. Como sair daquela situação? Abri O bichano experimental (Editora Patuá), livro que lançaria no dia seguinte, e, apostando no humor como um bom jeito de iniciar o papo, li uma crônica a meu juízo engraçada. As garotas e os garotos sequer ensaiaram um sorriso.

Minha única certeza era de que a conversa deveria servir-se da literatura, então pensei em ler outra crônica do livro. Adolescentes gostam das coisas que dialogam com seus calores. Agarrado a esta ideia, li "Arranjos fresquinhos para uma velha cantiga pornográfica e outra antipatriótica". Eles riram, as duas meninas sentadas logo na primeira fila se deram as mãos, o ambiente desanuviou, passamos a falar uns com os outros. A leitura certa, na hora certa, concluí.

Passado o embaraço inicial e alcançada uma certa cumplicidade, estava preparado para tudo, mas talvez não para a singela questão, que, uma vez formulada, fez meu cérebro ecoar incessantemente: famoso, famoso, famoso. Com certeza, o meu famoso seria diferente do famoso daqueles jovens. Na minha lista João Gilberto Noll, Maria Valéria Rezende, Stella Mariz Rezende, uma parte da fina flor da literatura com quem mantenho laços afetivos. Como seria a deles? Youtubers da hora, best-sellers de sempre, enfim, as celebridades daquela semana? Estávamos num impasse, e eu poderia elaborar um ensaio tresloucado sobre a fama, mas não o fiz. Ao se dar conta da besteira que eu gaguejava como resposta, sabiamente a coordenadora encerrou a conversa.

Por que diabo gostamos tanto de famosos, dos famosos entre os famosos, dos midiáticos, melhor dizendo? Por associá-los a super-humanos ou a pessoas isentas das ziquiziras da vida? Hipótese medíocre, mas vai saber.

Não ligo para essa pompa incentivada pelo mercado e, de fato, dentro ou fora da literatura, conheço poucos que se encaixariam nesse perfil. Desse grupinho pequeno, o mais popular morreu na passagem de 2019 para 2020, o cantor sertanejo Juliano Cezar, com quem convivi antes de ele se tornar estrela do show business.

Não fomos os maiores amigos do mundo, mas compartilhamos algumas mesas de bar, mantivemos animadas conversas de jovens. Sempre metido com cavalos, o inicialmente peão de rodeios um dia me disse que seria cantor. E foi. Em nosso último encontro, o já conhecidíssimo artista e eu fazíamos compras na avenida da Moda da nossa Passos. Trocamos palavras amáveis, falamos de sua mãe e da Cristina, sua irmã e (ela sim) minha amiga, demo-nos um abraço. Ele era o cara humilde e educado de sempre e, mais importante, ainda sonhava.

Não acompanhei de perto a vida artística do Juliano, não gosto muito do sertanejo, principalmente do mais recente, mas sua carreira se meteu na minha vida. Conto.

Certa vez, no meu trabalho, recebemos por duas semanas um consultor americano. Era um senhor boa praça, fácil de lidar. No início da segunda semana da consultoria, perguntei a ele o que havia feito na folga. Mórmon, descobrira onde era a sua igreja. Além disso, passeara pelo calçadão de Copacabana e, principalmente, assistira a programas de televisão. Na programação dominical, ouviu algumas músicas agradáveis, com um quê da música country americana. Anotara o nome de um dos cantores, era o Juliano. No final do expediente, fui com ele a uma loja comprar discos do meu amigo.

Senti orgulho daquele moleque, de maneira alguma por ele ter sensibilizado um ouvinte estrangeiro; fiquei feliz ao constatar que o JC — não o homem do palco, não o apresentador de televisão, não o famoso, mas o velho e bom Lagartixa — realizara seu sonho de ser cantor. Boa, garoto!

Se pudesse voltar ao papo com os estudantes, diria que não há escritor famoso, há escritores. Muitos, assim como Juliano Cezar fez com a música, firmaram cedo seu compromisso com a literatura. A rapaziada deveria procurar por eles.

23.12.19

Uma senhora primavera


Sou um cronista bem fajuto. Digo isso porque são raras as minhas crônicas que se rendem a alguma efeméride. Chega o dia das mães, não escrevo nada a respeito; vem o dos pais, a mesma coisa. Isso sem dizer que não fiz a crônica de ano novo e não farei a de Natal. Não sei explicar os motivos. Se houver algum psicólogo de plantão, aceito palpites, diagnósticos, conselhos e até mesmo algum remedinho.

Dito isso, esta será mais uma crônica a não celebrar o Natal, mesmo estando a dois dias da noite da ceia, da Missa do Galo e, o mais importante, da troca dos amigos ocultos. O mais importante são os presentes? Sintam, leitores, como a questão do Natal me pega de jeito. Fico tão chateado com essa imposição de dar presente que acabo me esquecendo de que o importante, o importante mesmo, é comemorar o nascimento de Jesus Cristo, aquele judeu que, tendo vindo ao mundo há 2019 anos, mudou o rumo da história.

Como não será uma crônica de Natal, qual será seu assunto?

Ah, sim, posso falar a respeito desta primavera que, pelo menos na primeira quinzena de dezembro, segurou o verão, não o deixando chegar antes da hora. Isso é uma atitude digna. O Rio de Janeiro esteve uma delícia, nem liguei o ar-condicionado para dormir. Meu bolso e meu nariz, que não ficou ressecado, agradecem.

A oposição no Brasil deveria aprender com esta primavera e espanar o calor da ignorância que tomou Brasília, que tomou o Brasil. Ora, dirão, esta primavera só está assim porque houve um El Niño ou uma La Niña ou porque as geleiras dos árticos afracaram-se todas ou porque uma borboleta bateu as asas numa floresta chinesa. Mas eu contradigo: não faltam motivos para nossa oposição esfriar o verão desse desgoverno. Aliás, não só a oposição, o que nós estamos fazendo de concreto? O engraçadinho responde: “providenciando a ceia”; mas não estou falando disso. Estou falando de jantarmos as ruas, de fazermos política com presença física. O bravão ameaçou descer o cassetete (no mínimo) em que fizer essas chilenices, equadorices, bolivianices, colombialices aqui nas terras da fartura. Estou ciente, mas, se mantivermos os braços cruzados, o verão político nos derreterá.

Por meus belos olhos, exagerei. Não escrever a crônica de Natal, paciência, mas vir com assunto tão duro e indigesto já é falta de respeito. Peço-lhes perdão. Vou escrever sobre uma coisa leve. Enquanto isso, podem continuar fritando as rabanadas ou embrulhando os presentes (compraram o meu?) ou, olha como me corrigi em três parágrafos, elevando suas preces a Cristo, razão única do Natal.


Prometi leveza, vou a ela, ainda que com alguma erudição. Vocês sabem que a referência ao fato de o bater de asas de uma borboleta na China ter a capacidade de modificar a intensidade da primavera aqui não é poesia, não sabem? É uma metáfora usada por Lorenz — um dos formuladores da teoria do caos, campo razoavelmente novo da física — para explicar o princípio de sua teoria. Em modo rasteiro, a teoria é a seguinte: “Uma pequenina mudança no início de um evento qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro[1]”. Pois bem, se vale para uma borboleta e para lugares tão distantes, China e Brasil, podemos atualizar a metáfora e torná-la mais próxima de nós. Fica assim: quando uma menina garganteia na Suécia, um beócio tonteia no Planalto Central.

Caramba, não me acerto, melhor terminar por aqui. Só mais uma coisa: de fato, hoje é o primeiro dia do verão. Esta crônica foi escrita antes, nem sei como o dia estará no instante em que estiver sendo lida. De minha parte, estando de um jeito ou de outro, ainda torcerei pela primavera; pela primavera política principalmente.



[1] “O que é a teoria do Caos?” — em https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-e-a-teoria-do-caos/ (pesquisado em 12/12/2019).

9.12.19

Minha filha, eu e uns bichos estranhos


Um besouro desses comuns, o escaravelho, quando cai de pernas para o ar, é um deus nos acuda. Imagino que todos já viram uma cena dessas. Eu pelo menos vi muitas, primeiro, na fazenda de minha avó, depois, já crescido, na de meu irmão. Na verdade, até mesmo em casa, quando a cidade em que cresci era menos urbana do que é hoje. Confesso que nem sempre salvei os pobres coitados.

Parto do princípio de que um besouro naquela situação não é capaz de se virar, de “pôr-se de pé” e, enfim, levantar voo a caminho de seus afazeres. O afazer que garante a sobrevivência de um escaravelho é formar uma bola com bosta de cavalo para enfiar num buraco na terra e, então, protegido, se alimentar da iguaria. Diga-se que os besourinhos que saem dos ovos deixados numa bola dessas nascem com o alimento garantido. Espertos os besouros. Sábios.




Sábios ou não, de pernas para cima tornam-se indefesos. O interessante é que aqueles que não ajudei, na manhã seguinte, nunca estavam na varanda ou no quintal onde os encontrara na noite anterior. Eles acabam se virando? São devorados por cachorros, gatos, ratos, lagartixas e até por tartarugas? Sinceramente não sei, mas imagino que sempre ocorra o pior. Se há uma imagem que associo ao desespero, à derrota inglória, é a de um besouro de pernas para cima.

Eu estou assim, um besouro desses — agonizando.

A que ponto cheguei! Percorria as ruas dessa crônica com um pé na ciência, particularmente na entomologia, e outro na lembrança da infância e fui bater no poste da minha fervura privada. Por favor, leitor, não me abandone, juro que não vou confessar minhas ansiedades ou coisas do gênero. Então o que farei?

Ora, dizer que não estou sozinho, hoje formamos um país de besouros com as pernas para cima. Eis a metáfora do Brasil. Ó, céus! Quer dizer que estamos assim: comendo bosta e, incapazes de nos desvirar, a mercê da fome de outros bichos?

Que triste.

Lá pelos seus quatro anos, minha filha andava encafifada com lobos, com o Lobo Mau para dizer a verdade. Eu e ela fomos ao zoológico para ver um guará, a espécie brasileira. Custamos a achar o local em que ficavam e mais ainda a vê-los, pois estavam metidos no fundo da jaula, deitados em algum lugar, enfim, indisponíveis. De repente, apareceu um, um só. Ao avistá-lo, coloquei minha filha no colo, apontei com o dedo e disse: “Olha o lobo”. Ela, frustrada com o que via, em nada parecido com o Lobo Mau, respondeu: “Isso não é um lobo, pai, isso é uma tartaruga”.

Alguns lobos não passam de tartarugas, mas os besouros, coitados, são comidos por um e por outro. Se é que não se desviram e alçam voos. Se é... quero acreditar nisso.

5.12.19

O orientador


Até aquele momento, a oficina transcorria dentro do que se pode considerar normal. Levávamos nossos exercícios, e o orientador fazia aquilo pelo qual nós o pagávamos: orientava. Apontava um personagem incoerente aqui, uma frase que soava como um ruído ali, uma história sem muito sentido.



Foi exatamente a partir da história avaliada por ele como inverossímil que o clima esquentou. O conto de Deluz era bem engraçado, mas o orientador cismou com uma passagem na qual o personagem comprava uma besteira numa grande loja de magazine e pagava com uma nota falsa. Para o orientador, ninguém conseguiria passar uma nota falsa numa loja com tamanha estrutura. A discussão ficou boa, tendo-se formado dois grupos. De um lado, os que reconheciam a impossibilidade de aquilo ocorrer, mas também não viam no fato a menor importância para o desenrolar do conto. Além do mais, havia o maldito “quase”, nessa perspectiva, tudo pode acontecer, a vida imita a arte, essas coisas batidas. O outro grupo, encabeçado pelo orientador, era irredutível. Se o conto é realista, a realidade tem de caber nele. O conto de Deluz seria realista até a medula, então que a realidade coubesse nele.

Gerônimo, o caladão de poucos contos e de poucas opiniões sobre nossos trabalhos, pediu a palavra para dizer que o orientador estava mostrando um lado terrível, a ignorância. Antes que alguém reagisse, ele continuou com seu argumento. Citou dois livros da primeira estante da literatura mundial. Na obra de Proust, há um molecote de uns sete anos que, ao andar pelo campo, reconhece cada uma das florezinhas encontradas pelo caminho, cada miosótis, cada isso, cada aquilo, Gerônimo se lembrava da cena mais geral, não dos detalhes. No entanto, era algo sem realismo algum, nenhuma criança daquela idade conheceria a natureza tão a fundo.

O orientador ficou emudecido, seu olhar embaçou.

Gerônimo, indiferente, continuou argumentando. Victor Hugo, no monumental Os miseráveis, criara uma situação na qual Jean Valjean ficou horas dentro de um caixão quase todo fechado, depois foi jogado na cova e saiu da situação só um pouco tonto. E mais, ele só foi salvo porque seu aliado e protetor conseguiu tirar do bolso da camisa do coveiro um papel importante, sem o qual o coveiro não sairia do cemitério depois das cinco da tarde. Foi uma artimanha para fazer o coveiro largar tudo e correr para a casa atrás do documento e o amigo de Jean ter tempo de abrir o caixão e tirá-lo de lá. Ou seja, zero de verossimilhança.

O orientador suspirou fundo, ficou de costas para nós e deu uns bons murros no quadro negro. Zilda e Lúcio saíram da sala às pressas. O ar ficou carregado. Deluz olhou com raiva para o Gerônimo. Gerônimo deu de ombros. Uma ansiedade coletiva fez o ar carregado ganhar corpo e escurecer a sala.

Um vento leve, mas barulhento, denunciou um movimento abrupto do orientador. Ele rodopiava e, quando pudemos ver novamente seu rosto, o orientador não era mais o orientador. Ao começar a andar em nossa direção, percebi que quem se aproximava era um minotauro, um minotauro dilacerado e faminto. O monstro parou diante da cadeira do Gerônimo, tomou-o pelo cabelo e o devorou.

Retornando a seu lugar, rodopiou outra vez e voltou a ser o baixinho e estridente de sempre. Esfregou as mãos e nos mandou embora. No próximo encontro, fez questão de enfatizar, retornaríamos àquela profícua discussão.


Achei tudo um pouco contraditório, o defensor da verossimilhança fazer o que havia feito, mas quem sou eu se não um reles aprendiz. Meus colegas, em particular o Deluz, ficaram como que petrificados em seus assentos. Para mim, ordem dada, ordem cumprida: caí fora. Carreguei a impressão de ter participado da melhor aula de todos os tempos.

4.12.19

História curta



Conto uma história curta. Na realidade, um crime. Um crime passional. Fim de uma paixão cujo início foi igual a todo início de uma paixão.

O casal se conheceu no carnaval, deitou-se nas cinzas, foi morar junto num maio esplendoroso, mais esplendoroso do que qualquer outro. Maio do amor. Maio da fúria. Maio único. E único maio.

Em setembro, ele, ao abrir a porta de casa, encontrou a mulher encolhida no sofá. Os dois se olharam. O olhar dele carregava o brilho do primeiro dia. O dela continha uma bruma, o amor fugira dali.

Foi o suficiente. Ou melhor: é o que se pode supor.

Ao arrombarem a porta, o que havia? Ela e ele mortos. Ela morta por ele. Ele morto por ele. Não se sabe nada além disso.

A vizinha do lado emprestara-lhes, no início de julho, uma cumbuca de açúcar. Considerava-os simpáticos, mas não os encontrara mais de duas vezes.