23.9.23

Em busca do ouro

 Na classe média estamos os nem lá nem cá, muitos cobiçando o andar de cima, oásis da opulência, outros de olho no de baixo, para onde não querem voltar ou despencar. Diríamos que somos um aglomerado desigual e propício a intensa e merecida piada.

Sonhamos com a Disney e, se conseguimos chegar lá, somos vistos como verdadeiros patetas, a tal ponto que, aqui e ali, nos repreendem. Vocês são muito novos para se lembrarem de Pepeu Gomes e Baby Consuelo barrados no parque. Mickey e seus amigos consideraram a figura do casal roqueiro — cabelos e roupas bem coloridos, uma bobagem aos olhos de hoje — muito chamativa, capaz de roubar a atenção dos demais frequentadores. Tem cabimento usar Pepeu e Baby como exemplo da classe média? Não se iludam, pertencem a ela tanto quanto eu — e talvez você — e podem ter ganhado algum dinheiro, mas, sei lá, nunca permaneceram na lista dos mais tocados, nem daqueles que batem ponto nos programas de auditório badalados. E ainda se separaram, e ainda tiveram muitos filhos. Além do mais, a classe média é um território bem extenso, bastante habitado e com diferenças gritantes entre os quase ricos e os por muito pouco fora da pobreza.

Em 2015, a Piauí publicou uma reportagem do escritor norte-americano Walter Kirn. É um texto típico do que se convencionou chamar de jornalismo literário, uma peça que conta a história aos poucos, enchendo-a de pormenores saborosos que, não raro, esclarecem os interesses do jornalista ao contar aquilo. No caso, Kirn resolve levar um cachorro — que, depois de um atropelamento, ficou paralítico e só conseguia andar com um carrinho que lhe era acoplado à parte traseira do corpo — de Montana à cidade de Nova York para entregá-lo à pessoa que o adotou: ninguém mais, ninguém menos que um Rockefeller. A estranheza de um milionário (não um qualquer) se interessar por um cachorro que lhe daria muito trabalho e talvez tivesse uma vida curta motivou o escritor, que viu nessa história material para um possível novo livro. Na verdade, o Rockfeller não era um Rockfeller, e sim um golpista que, não se sabe muito bem como, vivia em altas rodas sem ser desmascarado e mantinha peças de artes caríssimas (Mondrian, Motherwell, Pollock e Rothko). Mesmo achando o sujeito excêntrico, Kirn manteve uma relação (até mesmo uma amizade) com o golpista de 1998 a bem depois, sem desconfiar de suas trapaças. Em 2013, a farsa do milionário veio à tona. Descobriu-se que muitos anos antes ele havia cometido um crime. A reportagem não esclarece como o alemão (sim, era um estrangeiro) chegou tão longe, quer dizer, como deixou o anonimato da classe média e tornou-se um rico de pedigree, nem rico, nem com pedigree. Conheço histórias não desse quilate, mas com o mesmo princípio. Na minha cidade, havia um homem, pai de amigos, que certa vez vendeu um terreno em Belo Horizonte, e o comprador só se deu pelo golpe quando, indo registrá-lo, descobriu que sua nova propriedade estava submersa na Lagoa da Pampulha. O meu conhecido não foi exitoso como o alemão, mas nunca se emendou e viveu tentando dar o pulo do gato, sem, contudo, conseguir deixar o porão onde se amontoa a ralé dos remediados.

Em tempos de internet, além dos golpes virtuais, há outros meios de alcançar — ou pelo menos de tentar — a riqueza. A classe média sabe ocupar um espaço honesto, mesmo aqueles que os falsos moralistas apedrejam sem dó. Soube ainda esta semana de uma moça muito jovem que, vendo-se em apuros financeiros, começou a obter likes de homens e mulheres em sites adultos. Não é a única que se aproveita da imagem, mas ela vai além e se exibe transando com parceiros de ambos os sexos, o que também não é uma grande novidade. Ela inova ao abordar homens na rua e perguntar-lhes coisas assim: “Tapa ou beijo?”; “Dois reais ou um presente secreto?” Isso foi considerado abusivo e gerou uma campanha de cancelamento contra ela. Apesar disso, ou exatamente por isso, seus seguidores em redes sociais nas quais é possível compartilhar conteúdo erótico só têm aumentado. Hoje ela estaria faturando algo como cem mil reais por mês.

A classe média tem aqueles que não dormem no ponto. Com astúcia e sorte, podem dormir na cobertura da pirâmide da distribuição de renda, mas, presos ao destino irônico, quase sempre amanhecem na pindaíba de sempre — ou mais além.

11.9.23

Viajando na maionese e na abobrinha

Não faz muito tempo, li “Madame Bovary”, de Flaubert. O autor e o editor da revista em que o romance foi publicado tornaram-se réus porque, aos olhos de seus contemporâneos, o adultério – feminino, se fosse o masculino estava tudo certo, sabemos bem disso – teria ganhado certo glamour naquelas páginas. Não é bem assim, quem leu sabe o fim da intensa Emma, a madame. (Espero que essa pequena confidência não seja vista como spoiler e afaste possíveis leitores.) Não vou analisar ou fazer uma resenha do “romance dos romances”, pois não tenho interesse nem os apetrechos exigidos pela empreitada – sou apenas um leitor amador. Trago-o à tona porque fiquei pensando se nosso “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, não seria um “Madame Bovary” do ponto de vista do monsieur Bovary, que, como todos sabem, inclusive quem nunca leu o livro, é um corno. Corno manso, devo acrescentar, na esperança de atrair novos leitores ao romance francês. De quebra, também ao brasileiro.

Retomei uma leitura de muitos anos atrás e dessa vez fui com ela até o fim: “Crônica da casa assassinada”, de Lúcio Cardoso, um livro e tanto, no tamanho (umas 500 páginas) e na qualidade. Quando vejo autores contemporâneos explorando, num mesmo texto, vários narradores, fico pensando que um dos que mais souberam fazer isso foi esse mineiro de Curvelo. Desse ponto de vista, ele é um mestre, e a obra um primor. Mas Lúcio Cardoso (não sei se por pressão externa de pré-leitores ou do editor, ou se interna, a pior delas) não manteve sua história no extremo. Quando nos acostumamos com o fato de o clã dos Menezes ter cruzado a fronteira da moral burguesa, a trama recua e nega o horror, bem, isso até onde seria possível negá-lo naquela altura do romance. No prefácio da publicação comemorativa de quarenta anos da primeira edição, lançada em 2000 pela Civilização Brasileira, André Seffrin diz que “se o último capítulo dilui e desfibra boa parte da tensão e do enigma que o livro encerra, e se no todo a narrativa deixa transparecer um engenho demasiadamente literário, estes detalhes são infinitamente pequenos ante o poder extraordinário da poesia que se levanta destas páginas”. Concordo, e isso me faz pensar no que seria um bom romance. Na realidade, não sei, mas anoto que pelo menos uma – quem sabe duas – de suas partes deve ser muito boa: a história, o texto, a estrutura... ou a coragem de quem o escreve. Flaubert é corajoso. Machado de Assis é corajoso. Lúcio Cardoso é corajoso. Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus, Hilda Hilst, Maria Valéria Rezende são corajosas. Viva a coragem, mesmo aquela – ou principalmente ela – que não tem nada de clara e triunfante.

Troco o assunto literatura por um ameno: comida, que, aliás, dá título a esta crônica em que uso maionese e abobrinha para expressar uma conversa inconsequente, meio à deriva. Sem querer armar confusão, afirmo de forma contundente: a segunda melhor comida do mundo é o pão de queijo. Não os deixarei sem saber qual é a primeira, claro. Num texto em que dei até spoiler, vou esconder uma coisica à toa? A melhor comida do mundo é o pão de queijo da Nilzinha.

Não há comida sem bebida, mesmo os médicos dizendo que é melhor não misturá-las durante as refeições. Olha só, médico nenhum me disse isso, mas essa “verdade” zanza por aí muito antes da existência da internet. Essa, sejamos sinceros, só dá celeridade a assuntos candentes, que despertam apenas o nosso – reles rudes, giróvagos mesmerizados – interesse. Me lembro que em tempos pré-redes sociais uma de minhas irmãs foi convencida de que o jeito mais fácil de emagrecer seria comer com uma colher pequena. Ela adotou a estratégia e, de fato, emagreceu, mas não naquele momento, e sim muitos anos depois, quando já havia abandonado a tal colherzinha, deixado de comer doce e virado rata de academia. Ela é enxutinha agora, passados uns tantos anos após ter recebido a preciosa dica. Se estivéssemos entre 2020 e 2022, interstício do nosso aprisionamento, chamaríamos aquela divulgadora da ciência para nos dizer se a dieta do talher miúdo é comprovada e eficaz, mas, agora que ela cutucou até Freud, parece mais sensato deixá-la de lado e mudar de assunto.

Aliás, não vou mudar de assunto, e sim fugir do enorme parêntese em que me meti. Eu ia falar de bebida e acabei expondo minha irmã e desferindo indelicadezas contra quem eu nem conheço. Falemos de bebida. Não sei se vocês tomam, assim na maciota, um drinquezinho ou uma cervejola. Caso não bebam, não vou aconselhá-los a beber, haja vista que o álcool faz um mal danado e não raro leva ao vício – o que está comprovado, mas há de se pesarem os prós e os contras, pois, nas pesquisas divulgadas até a semana passada, o vinho tinto chileno é visto como um elixir cardíaco. Se você, correndo os riscos do vício e da cirrose, toma um gole aqui e outro ali, preciso dizer o seguinte: beba água entre uma talagada e outra. Não sei se está provado pela ciência – ainda que minha irmã, aquela da dieta, tenha visto na internet que sim –, mas, no meu caso, atenua bem a inevitável ressaca.

26.8.23

A fuga do espelho

Tenho estado com pessoas com quem só me relacionava pela rede social. É incrível, elas existem. Uma tem nariz bem torneado, o que não quer dizer que seja bonita; outra, orelha grande, o que não quer dizer que seja feia. Tem aquela cuja beleza não passa de um filtro; e aquela que é alta – como eu poderia imaginar? Uma, apesar de poeta, de boa poeta, é chata. Já outra, coitada, péssima no verso, na prosa, na piadinha que faz para agradar, é uma simpatia sem fim.

Continuamos tridimensionais, no corpo, e complexos, na essência. Não deixa de ser uma esperança. Afinal de contas, o mundo das redes é um sugador insaciável de nossa humanidade e, se é forte dizer que nos escraviza – melhor deixar a palavra para o que ela de fato representa, a exploração aviltante do trabalho, o uso do castigo físico e o rapto da liberdade –, cabe dizer que nos torna dependentes. Um vício. Injeta-nos uma droga que, antes de destruir o corpo, destrói a cuca. Sem um like, não vivemos mais e, para conquistá-lo, caprichamos nas fotos e escondemos as complicações.

Nos livros, encontramos personagens bastante intricadas, mas elas estão presas a determinadas situações, que se repetem a cada leitura. Raskólnikov, de “Crime e Castigo”, não pode marcar um encontro com um dos leitores, desabafar, contar de seus planos de crime e, quem sabe, ouvir o outro e recuar da jornada de autodestruição e castigo. Tampouco Dmitri, o mais velho dos irmãos Karamázov, consegue abandonar sua existência de palavras e, pedindo que lhe paguem um chope, quer dizer, uma vodca, dialogar com quem, por ser mero espectador de seus dramas, é capaz de alertá-lo de que só se amassa o pão depois de colhido e preparado o trigo. Cito dois personagens de Fiódor Dostoiévski por ser ele um autor conhecido por criar personagens mais humanos do que qualquer um de nós.

Na rede social, somos as personagens. Eu faço o bobo; fulano, o militante; a universitária, a sedutora; o rapazote, o poeta romântico; o tiozão, o defensor dos bons costumes – todos lineares e em busca de uma dose de like. Mas é possível que, num chope, eu não seja tão bobo assim e o tiozão, na terceira tulipa, nos revele que, não sempre, mas também não em tão raras vezes, dorme de conchinha com um sobrinho ocasional.

Se o romance é um espelho que, ao nos refletir quase em minúcia, nos assusta, a rede social é um espaço sem meio-termo, de onde o contraditório (não confundir com treta) foi expulso. No romance, o autor torna complexo o já complexo; na rede social, enxuga-se o simples até que só lhe reste o simplório.

14.8.23

O fim de tudo

 

Há muito tempo eu escuto esse papo furado / dizendo que o samba acabou / só se foi quando o dia clareou (Paulinho da Viola)


Ora acabam com o samba, ora com o conto, com a literatura, com a história. No entanto, meus amigos, o que vai acabar é o mundo, mas até lá nosso assombro, cuja voz é a música, a literatura, a escultura, a pintura, o cinema, a ciência, continuará se manifestando. Portanto não passa de um novo alarme falso o fim da crônica anunciado por Julian Fuks em sua coluna no UOL. Segundo ele, a pressa dos dias de hoje justifica essa morte. Não a pressa de todos, ele esclarece (ou imagina esclarecer), mas a do leitor. Ó, meu deus, a pressa está aí pelo menos desde a Revolução Industrial, claro que se ajustando às novas tecnologias. Ela nada mais é do que a subtração do nosso tempo pelos perrengues da sobrevivência, portanto a gente se adapta a ela não é de hoje. Alguns afoitos leem, no entanto a maioria nunca leu nem vai ler. Assim é a triste realidade.

O tique-taque comeu, sem mastigar, o tempo medido pela posição do sol, pelo desenho da sombra, pelas manifestações do estômago, e essa aceleração não destruiu nada que chamamos de arte, ao contrário, o romance – esse colosso que já teve mil, mil e quinhentas páginas, reduzidas hoje, na pressa de todos, inclusive dos escritores, a no máximo duzentas, com raras exceções – frutificou ali. Agora o vapt-vupt engoliu o tique-taque, e, graças às descobertas e inventos atuais dos tempos velozes, viveremos uma vida longa – morrendo, no entanto, mais novos do que nunca – e, como não?, produzindo arte e ciência. Portanto sejamos menos alarmistas. Quem dá as costas à literatura ao rés do chão é a grande imprensa. A crônica, que nasceu num cantinho sem proveito do jornal, foi expulsa dele. Sobra um Joaquim Ferreira dos Santos aqui, uma Martha Medeiros ali. Mas, em meio ao menosprezo, surge, na cabeça apaixonada e sábia de um jovem paranaense, essa Rubem, que dá guarida a mim e a outros onze cronistas (sem contar os que já contribuíram com ela), alguns inclusive com passagem pelos jornais. O Rascunho, publicação literária já longeva, mantém cronistas entre seus colunistas e, recentemente, o prêmio Jabuti abriu distinção ao gênero, o que sugere que se têm escrito livros de crônica.

Enquanto houver pobreza, haverá crônica. Enquanto houver histórias de amor, haverá crônica. Enquanto houver uma tristeza ou mesmo uma alegria sem motivo, haverá crônica. Tédio? Crônica. Ironia? Crônica. Um sujeito dado a caminhadas pela rua é um potencial cronista. Uma mulher tomada por uma lembrança erótica é uma potencial cronista. Um saudosista pode ser um cronista, ainda que chato. Uma atendente de petshop precisará apenas de um empurrãozinho (do talento) para escrever crônicas contando aonde chegou nosso amor pelos animais domésticos, sem se esquecer dos excessos por conta desse amor.

A crônica não acabará, assim como a história não acabou com o fim da Guerra Fria. Nosso problema é outro: se não cuidarmos do mundo – mantendo florestas em pé, esfriando o planeta um bocado, distribuindo a riqueza –, é certo que, pegos no contrapé, não teremos nem tempo de escrever a crônica do fim de tudo.

30.7.23

O líder

O assunto é futebol.

Até a rodada da semana passada, o Botafogo liderava o campeonato nacional masculino com onze pontos na dianteira do segundo colocado, isso depois de dezesseis rodadas (de um total de trinta e oito). A campanha não tem paralelo na era de pontos corridos: treze vitórias, dois empates e uma derrota. A coisa pode mudar? Sim, mas os fatos são esses.

Não é tanto o futebol o assunto de que trato agora.

Ao Botafogo está grudada a pecha do sofrimento. Feita uma menção ao clube, logo levantam a voz para falar do chororô, remetendo a um jogo contra o Flamengo em que a torcida alvinegra imputou o resultado (a vitória rubro-negra) à mão grande do juiz. Mas não só. Se entre os anos de 1950 e 1960, o Botafogo era, ao lado do Santos, a grande potência do esporte, a partir daí despencou. Ficou sem ganhar um campeonato carioca por vinte anos; depois de 1968, só em 1989. E faturou apenas um nacional, em 1995, ainda na época do mata-mata, quando derrubou o grande rival dos áureos tempos. Não bastasse isso, desceu três vezes à segunda divisão, tendo voltado à elite sempre um ano depois, como vice-campeão em 2003 e como campeão em 2015 e 2021.

Esse cenário de um deus chafurdando entre os mortais explica a tal sofrência do “Glorioso”, que “não pode perder / perder pra ninguém”. (Nos dias de hoje, o hino seria feito não por Lamartine Babo, mas por um desses sertanejos universitários. Pelo menos isso não aconteceu, há de se comemorar.) Mas é preciso ver a trajetória do alvinegro carioca com olhos voltados para além das quatro linhas (as quatro linhas aqui são o que são, ou seja, não têm nada a ver com aquela metáfora surrada da extrema direita). O Botafogo, sofrido, se confunde com o Brasil. E essa identificação é tão clara que não há quem o odeie. Numa espécie de autoironia, brinca-se com a sua situação, faz-se bullying com seus torcedores, mas a verdade é a seguinte: se o clube sai da zona do sofrimento, todo brasileiro sai um pouco também, logo, o sucesso da Estrela Solitária é a chance de redenção do país.

Não é à toa que, quando o Brasil tira um dedo da lama – sabemos que a lama ainda nos segura e continua alimentada por água e terra que não acabam mais –, o time do chororô assuma a liderança do campeonato. O paralelo vai além: o sucesso do Botafogo passa por uma aliança estranha: o dinheiro de um gringo (o Botafogo foi um dos primeiros clubes a se transformarem em sociedade anônima do futebol, SAF) e os pés de um monte de jogadores – os que têm feito a diferença no ataque, paraibanos – que rodavam pelo mundo em clubes médios ou pequenos. É a tal coalizão. 

Talvez a taxa de juros caia e o emprego aumente, talvez nossas dívidas sejam renegociadas e a economia aqueça, talvez o negacionismo regrida e a ciência triunfe, talvez a Amazônia, o cerrado e a mata atlântica passem a ser respeitados e preservados. Se nada ainda é líquido e certo, o clima menos sombrio acende a esperança de dias melhores. Sendo assim, é justo que o campeão seja aquele que sofre em nome de todos. Somos todos Fooooogo.




15.7.23

CM e a rapadura

Carlos Magno, na certidão de nascimento e na esperança familiar de se tornar um grande homem; Classe Medião, como, depois de homem feito e cheio de história, o descreveria aos pais um novo amigo do filho, encantado com tantos brinquedos e aparelhos eletrônicos existentes na casa dos vizinhos recém-instalados no prédio; mas foi como CM que ficou conhecido. O senhor CM. O parça CM. Papi CM. CM, meu amor.

Na infância, carregou caixa de engraxate, negociou passarinho, fez uns pequenos furtos. Depois foi trabalhar na loja de esporte do seu Kalu, de lá arrumou um emprego num banco privado e, por milagre – opinião de sua mãe, baseada no fato de nunca ter visto o Carlinhos (pra mamãe não tinha essa de CM) com um caderno na mão –, passou num concurso do Banco do Brasil. Foi mandado para uma cidade distante. Não sendo conhecido de ninguém, fez do emprego um cabide para favores de toda sorte. Favores, diga-se de passagem, que custavam aos beneficiários uns bons bagarotes.

Quando visitava a mãe, levava-lhe presentes. Filho atencioso, está muito bem no serviço público, comentava envaidecida a senhora. De fato, estava, só que o recheio de sua conta tinha pouco a ver com o salário mensal. Bastava compará-lo a um colega mais ou menos contemporâneo para constatar isso. O outro estaria bem, mas ali no limite, e bastava um sopro nos ares da conjuntura para consumir sua poupança, fazê-lo tirar o filho da escola particular ou voltar a tomar a cerveja barata ou mesmo deixar de tomá-la. Já CM nem se preocupava com cenários econômicos, micro ou macro.

Assediou a moça bonita, filha de uma autoridade importante do município, e foi correspondido. Casamento, filho, construção de uma casa confortável. Um monte de amigos. Depois a transferência para a cidade grande. Quando se instalou no prédio de bairro nobre, aconteceu o caso que lhe custou a alcunha de Classe Medião. Ele achou foi graça, era isso mesmo, mas que não o chamassem assim, pois era CM. Para o filho. Para a mulher. Para a mãe; não, pra ela, não. Para os clientes vips. Nas reuniões de condomínio, à boca pequena, o chamavam do apelido que lhe desagradava, mais por pilhéria que por maldade.

Ah, a vida na capital. No início, o deslumbre. Almoços caros, bares da moda, uma amizade colorida. No entanto os arranjos do banco tornaram-se mais difíceis; difíceis, não, impossíveis. Lá no interior, os favores lhe eram pedidos e já chegavam com o orçamento definido. Era pegar ou largar. Ele sempre pegou, porque ser trouxa não era de seu feitio. Mas na capital... Deveria se oferecer? Desenrolo aquele pedido de empréstimo em troca de um pequeno agrado. Faço sua assinatura subir para o gerente agora. Sumo com essa ficha meio suja. Cidade grande, gente miúda. Vai que todo mundo ali fosse honestíssimo? Ou que o jogo fosse maior? Que ajuda em empréstimo coisa nenhuma, a questão era ocultar umas exportações, usufruir de um câmbio especial, dar um calote sem pena nas contas do governo.

CM foi vendo o dinheiro minguar e a timidez crescer. Não era desses, o que se passava? Veio então o vento outonal de uma crise econômica, e o sortudo bambeou as pernas. Prudente, dispensou a amiga. Mais adiante, a empregada. Tirou o filho da escola privada, notícia recebida com ironia no condomínio: “Agora é o Classe Medinha”. Não ficou muito mais tempo no apartamento caro e bonito, deixando para trás aluguéis, taxas e impostos atrasados. Foi morar longe e começou a economizar nas refeições, a descolar umas caronas para não enfiar o salário todo no transporte urbano. A mulher se mandou para a casa dos pais, lá na cidade do interior, e logo entrou na justiça cobrando-lhe uma pensão pra lá de escorchante.

Conheceu a solidão da pessoa sem dinheiro. Maldisse seu infortúnio e deu de beber. Um dia, embalado pela cachaça (das baratas, nada de luxo), pegou um papel e escreveu: “Sou o lateral esquerdo – ou talvez o beque central – ou talvez o quarto zagueiro – ou talvez o lateral direito – ou todos eles, incluindo o cabeça de área – de minha defesa devassada”.

Seria poeta, decidiu com a certeza do borracho. Escreveria umas coisas aqui, outras ali e, para não perder o hábito, roubaria uns versinhos. Ninguém notaria, afinal quem lê poesia nesse mundo? Se viu recitando seus versinhos nos programas vespertinos de televisão. A fama logo se traduziria em grana. Estava quase feliz com seus devaneios quando o pileque passou, deixando, ainda, a maldita ressaca no descontrole de tudo. Nessa hora, ouviu a mãe dizendo aos vizinhos: “o Carlinhos, coitado, entregou a rapadura”.



3.7.23

A mesa vizinha

Passáramos (o escritor moderno talvez prefira escrever “havíamos passado”, mas há pássaros em passáramos, e eles acabam de pousar bem aqui) o dia indo e vindo entre o velho e o novo apartamento de meu filho e minha nora. Levávamos a parte miúda da mudança: roupa, talher, louça, material de limpeza, livros, mas também duas televisões grandes e até o tampo da mesa de jantar, de vidro, frágil. Terminada a tarefa, fomos deixar o carro na locadora e encontrar um bar para molhar as palavras, estancar o suor, jogar conversa fora, enfim, essas coisas nomeadas de um jeito a não escancarar o fato de que fomos beber. Comemorávamos a casa nova, o sucesso do nosso trabalho, o fato de termos passado o dia juntos.

No bar, sentamo-nos ao lado de uma mesa ocupada por quatro mulheres. Duas mais velhas, uma intermediária e uma menina de uns dez anos, no máximo doze. Conjecturei que era uma família e apostei que a criança estava acompanhada da bisavó, da avó e da mãe. Depois eu soube que não, eram as suas duas avós, a materna e a paterna, e sua mãe. Como eu disse, quando chegamos, elas já estavam lá e, digo agora, de lá saíram no mesmo momento que a gente. Venci a timidez quando esperávamos a condução. Aproximei-me da mãe da menina e perguntei sobre o parentesco (pelo menos essa curiosidade eu não carreguei).

Ainda no bar, elas fecharam e reabriram a conta algumas vezes, quase sempre pediam mais três chopes, embora uma das senhoras tenha passado a tomar refrigerante a partir de determinada hora. Ou tenha tomado um refrigerante e, em seguida, voltado ao chope.

A menina, que estava de costas para mim, foi quem prendeu minha atenção. Enquanto as mais velhas tagarelavam, como é o esperado em mesa de bar, ela jogava no celular, o que passou a ser habitual nos dias de hoje. Ao olhá-la batucando a tela, notei suas unhas, eram enormes e carregadas de esmalte carmim. Mais tarde, quando ela se levantou e pude vê-la de frente, percebi que estava maquiada de um jeito que nem mesmo em moças mais velhas, adolescentes e jovens tenho visto.

A menina, ao estar caracterizada como adulta, parecia presa ao passado e, agarrada ao eletrônico, ao futuro – que já é presente, mas, em perspectiva, está bem aquém do que será em breve. As outras mulheres também davam sinais ambíguos. Falavam o que eu não conseguia captar – e nem queria, afinal, estava com os meus celebrando um dia produtivo –, mas houve uma hora em que a mãe da menina, filha de uma senhora, nora da outra, usou uma expressão bem masculina para falar de uma atitude tomada certa vez: “meti o dito-cujo (não foi bem essa palavra, mas uso-a para não ferir o pássaro que voou sem sentido algum no início da crônica) na mesa”. Não é raro eu ouvir mulheres usando expressões assim. Tudo, inclusive a linguagem, anda mais complexo do que imagino.

Saio pouco de casa, talvez por isso tenha me encantado, melhor dizer – sem querer me proteger de um possível julgamento –, me assustado com aquela mesa. Não deve ser nada diferente nos muitos botequins da cidade, é que perdi a cancha, a malícia, enferrujei. Em devaneio, até escuto o pensamento irônico borbulhando na cabeça daquelas mulheres: “Por aí, seu cronista, tu não vai chegar a lugar nenhum, não envelheça tão casmurro”. Casmurro? Eu? Então me respondam: em que alcova andará escondida minha Capitu?

19.6.23

Futuros

 

O futuro começou ontem

Em entrevista a Daniel Prado (BBC News Brasil), o indígena ticuna Alex Rufino contesta a visão de que, após a queda de um avião, a sobrevivência de quatro crianças indígenas em floresta densa da Colômbia teria sido um milagre. Ao se afirmar isso, ele pondera, não se toma a perspectiva de quem nasce íntimo da floresta, portanto protegido por ela. Rufino nos oferece uma sabedoria alternativa, e nela estão tanto o aprendizado corriqueiro (o que comer, como se proteger de animais) quanto a teia espiritual que atua no sentido de dar bom destino àqueles que se encontram à deriva.

Nós, urbanos, perdemos dia a dia o contato com o passado. Nossa sede é de futuro, acreditando que a colheita brota do nada. Estamos ansiosos pela inteligência artificial – capaz, dizem alguns, e não nos importamos muito com isso, de ceifar a vida humana da face da terra –, do mesmo modo com que esperamos o novo modelo do carro ou do relógio que medirá as horas e nosso batimento cardíaco e que talvez nos faça, durante o sono, virar de lado para facilitar a respiração. Nossa fé é que o passado esteja capsulado nas traquitanas do futuro, portanto não precisamos olhar para trás, um tempo esquecível, morto.

Não sairíamos vivos da floresta, mas os indígenas têm sobrevivido não é de hoje ao nosso mundo, que lhes é hostil. Não só hostil, inimigo. Destruímos quase tudo que era deles, cabendo-nos agora, em respeito, deixar-lhes (aos poucos restantes) as terras que cuidam e preservam desde muito antes de uma formalidade constitucional. Podemos ir além, despir-nos de nossa soberba e aprender com a sabedoria milenar que cultivam. Um pouco mágica? Bastante, por isso potente. Na entrevista de Rufino, ele diz que a mãe das crianças indígenas, morta no acidente, espalhou-se em espírito pela floresta e ajudou seus filhos a sobreviver aos quarenta dias.


O futuro terminou ontem

Eu não a conhecia, na realidade, jamais havia ouvido falar seu nome. Portanto o anúncio de sua morte poderia ter me passado despercebido ou me custado apenas o acionamento de um daqueles botões de solidariedade da rede social. Mas não. Um querido amigo, logo de manhã, começou a dividir conosco seu luto, seu abandono. Esse amigo, além de livreiro, é poeta e perdia uma amiga também poeta. Logo, outros conhecidos meus também se manifestaram. A poeta que perdeu o futuro tinha a idade de meu filho mais velho, jovem demais. Eu não a conhecia, repito, mas a dor daqueles que a perderam me feriu igualmente e de tal modo que o dia todo pensei sobre aquela morte. Talvez o fato de ser uma poeta torne pior o que já é terrível – a morte de uma jovem. Morreu uma jovem justo agora que precisamos dos que carregam os grãos do passado até o futuro, assim como os indígenas, assim como as poetas.

5.6.23

Distraído nefelibata

 

Sou um pedestre distraído. Aliás, hoje quem não é um pedestre distraído? A maioria está capturada pelo celular, alguns conversando com a mãe, checando se ela tomou os remédios da manhã, se marcou o médico, outros olhando o nude que fez soar o alarme do zap. Sim, a turma já olha ali na calçada, sem constrangimento, afinal o nu deixou de ser uma coisa privada. Convidado pela amiga, você vai ver a foto do joelho recém-operado do marido dela e se depara não só com aquilo como também com uma enormidade diminuta ou uma pequenez robusta. Tudo na boa. Novos tempos.

A minha distração não é dessa natureza.

Posso, no corpo a corpo da disputa pelos espaços exíguos das calçadas estreitas, me perder numa lembrança. Com isso, diminuo a velocidade dos meus passos e provoco pequenos engarrafamentos de gente. Se me perguntam o que está pegando, sou obrigado a dizer que empaquei naquela procura sem sucesso em que estou metido. Qual, criatura? Ah, aquele disco instrumental d’A Cor do Som, aquele em que o Egberto Gismonti faz uma participação especial. Mas isso é motivo para reter os atrasados para o trabalho ou para um encontro amoroso ou simplesmente fugidos de uma situação perigosa? É verdade, mas, olha, aquele som já me salvou, num sabe? Ninguém quer saber, e, como pedestre não tem buzina, metem a mão na cumbuca do xingamento: seu isso, seu aquilo e seu aquilo outro. Me ajudar na procura, ninguém.

Mas quem me xinga? O autômato do celular. Ele anda com a cara enfiada na telinha e nada o tira dali a não ser quando dá um encontrão num distraído de outra natureza. A minha distração requer paradas para olhar ao redor. Não que eu espere achar algum link do disco tatuado no chão, ou mesmo um CD abandonado ao lado de uma lixeira, não é isso, é que a nostalgia daquele disco, como eu já disse, me remete a situações meio bravas que aquelas músicas me ajudaram a superar. Então eu preciso parar e suspirar.

Falo desse disco porque o procuro, ainda que apenas nas plataformas aquém da pirataria, já há algum tempo, mas minha distração, sempre nefelibata, se alimenta de outras e muitas miudezas. Nudes também, mas não os que estão escancarados nos smartfones da vida. Entre minha casa e o mercado onde gosto de comprar o pão francês, aquela menina que hoje, feito eu, rompeu a sexta década de existência, me aparece adolescente em seu biquini verde-água em torno da piscina em que nos refrescávamos e, olhando uns aos outros, fazíamos planos de gente grande. Planos que incluíam, se não eram apenas isso, sacar a pouca roupa que vestíamos e nos visitarmos com a sem-cerimônia que ainda não tínhamos. Como é possível caminhar objetivamente, cioso da responsabilidade que um cidadão tem para o bom fluxo de todos os demais pedestres, com minha juventude e aquela menina com a qual não fui além do convívio em torno da piscina ocupando a minha cabeça? Ah, os distraídos das redes sociais que me desculpem e adquiram um aplicativo que sinalize a existência de outros distraídos a sua frente e os ajude a não tropeçarem em nós, pobres coitados.

É verdade que os distraídos de uma e de outra natureza poderíamos conviver de forma mais harmoniosa, mas, na cidade do Rio de Janeiro, já se vão uns vinte anos ou mais, um prefeito resolveu alargar ruas e estreitar calçadas. Na época, muita gente aplaudiu, tudo indicava que diminuiriam os engarrafamentos de automóveis. Talvez tenha acontecido, mas, aos olhos de hoje, o melhor jeito de fazer isso é tirando os carros das ruas, que desse modo devem ser estreitadas, forçando assim a que as pessoas procurem o transporte público. Reduzindo-se o transtorno do trânsito e a poluição, com calçadas largas, distraídos de toda espécie circularão mais soltos, enfrentando riscos menores de se atropelarem e com isso saírem no braço.

Exagero ao dizer que um mundo de calçadas largas e ruas estreitas garante a felicidade, mas é um bom passo para irmos nos aproximando dela.

22.5.23

O sol pelo basculante: o consolo da poesia

Caio Junqueira Maciel 


Publicado pela editora Urutau, o livro de poemas O sol pelo basculante, do mineiro Alexandre Brandão traz, entre algumas epígrafes, um verso de Drummond, de “A flor e a náusea”, que diz: “O sol consola os doentes e não os renova.” Se esse poema drummondiano está em Rosa do povo, é dali que busco outro, “Consolo na praia”, para alavancar melhor essa basculante solar do poeta de Passos, agora acariocado.

 Drummond começa seu poema assim: “Vamos, não chores.../ A infância está perdida./ A mocidade está perdida./ Mas a vida não se perdeu.” No livro de Brandão, estruturado em 8 partes, a primeira vem justamente falar da infância, do “Menino de mim”. O poeta fala de seu refúgio numa mangueira, do cavalo trotão e sua “tristeza zaina”, das descobertas sensuais do corpo, da gambiarra vencendo a escuridão.

 A segunda parte, “Coração pequeno”, que também remete à equação drummondiana do coração vasto ou pequeno diante do mundo, Alexandre branda versos que abordam primeira comunhão, circo, celebração com chope, morte e o “pequeno infinito” que é o seu moleque jogando basquete, “enterra seu seus sonhos e/ resgata, na entrada do garrafão/ a fé na vida.” Um poema elegíaco à morte de uma amiga fecha essa segunda parte, em que a partida para o além significa em aceitação do voo.

 “Diminutas sirenes” batiza a terceira parte: aqui a natureza dá suas cartas, com formiga, montanha, peixe, pássaros e até o prosaico pernilongo, o que porta as tais “diminutas sirenes”. Depois, na quarta parte, vem o cortejo dos “poemas datados”, a tensão da pandemia, o poeta diante da única via ou última quimera; o dia contendo mil horas; o cheiro do medo. E há ali um poema de que gosto bem, é “meu canto”, revisitação daquela frase bandeiriana que a poesia está nas estrelas e nos chinelos. Alexandre canta sua havaiana marrom, sem uma das tiras, e, em vez de tirar, põe de vez sua poética no cotidiano e com isso nos consola.

 Na quinta parte, “O azul não é um acontecimento”, contrabalançando com as sombras da pandemia, o poeta exalta o prazer de estar vivo, o amor que resiste ao redemoinho, a busca do sol não obstante haja a “destruição triunfante”. Porém, em outro texto, afirma que é preciso reagir diante das montanhas de medo. Hesitando entre a paralisia do azul e o movimento, o poeta traça seu mapa, inclui ausências e sai em busca dos “Fantoches”, que é o nome da sexta parte. Se a poesia parte do homem, do logos e do cosmos, esse bloco se estica ao mundo, seja Minas, Bagdá, as guerras e as cidades. E as urgências, as urgências com relação às mortes estúpidas provocadas por balas perdidas.

 Na sétima parte, “Aqui e ali do poema”, mesmo sabendo da dificuldade de se escrever poemas profundos, o poeta sabe que palavra poética traz seu sol, é consolo, afaga a alma, traz esperança. É preciso insistir com “palavra verso estrofe”, liberar trovões reprimidos, “alfabetizar a lucidez do infinito.”

 No epílogo, “Fuga em prosa”, mesclam-se os signos da prosa e da poesia. Poetas, crianças, cachorro, cidade. Que cessem os latidos, a caravana da poesia passa e traz o sol que nos consola, todas as vezes que um poeta refaz e renova o necessário ofício de lutar com as palavras.

18.5.23

BH íntima e distante




Morei três anos em Belo Horizonte, entre 1977 e 1979, assim, sempre que volto à cidade, sinto um misto de intimidade e distanciamento. Vivia no bairro Santo Antônio, frequentava primeiro o icônico Estadual Central – projeto de Niemeyer –, depois o Promove da Gonçalves Dias, batia pernas na Savassi e no Centro, visitava amigos, tudo a poucos metros da república que dividia com minhas irmãs e alguns conterrâneos. As maiores distâncias a que eu ia eram, de quando em quando, o Mineirão e, para encontrar um dos meus primeiros amigos na cidade, a Nova Suíça, o que exigia que eu tomasse pelo menos dois ônibus. A área mais central conheço bem, me desloco com desembaraço. Recentemente, novos amigos (graças à literatura) têm me levado à Cidade Nova, à Nova Vista e até a Sabará. Bares de familiares, por sua vez, e já há algum tempo, me oferecem um drinque no Prado (bairro em que se passa o espetacular “O amanuense Belmiro”, de Ciro dos Anjos) e na Lagoinha. Enfim, enquanto percorro os “novos” lugares, busco alongar meus braços para envolver a verdadeira extensão da cidade.

Passei a semana que subtraiu Rita Lee de nós na capital mineira. Minhas saídas foram, na maioria das vezes, para locais que pouco conheço. Visitei um amigo convalescente no Padre Eustáquio, um escritor querido na Cidade Nova, tomei cerveja com outro no Prado e, com o poeta cujo empurrão me jogou nesse mundo da literatura e sua companheira, minha conversa fiel de Whatsapp, comi uma pizza no Carlos Prates.

Durante a pandemia, fui convidado por três amigos, duas escritoras e um escritor, a discutirmos, em encontros virtuais quinzenais, os capítulos de romances que cada um desenvolveria. Jamais imaginei escrever um romance, pois o preguiçoso que mora em mim é um ditador impiedoso. Mas me voltei contra ele e aderi à proposta. Depois de não sei quantos encontros, a maioria de nós chegou a uma primeira versão dos textos. O meu se passa parte em Passos e parte em Belo Horizonte, numa história que se desenvolve entre o final dos anos de 1990 até os dias iniciais da pandemia, período no qual eu estive bem distante tanto de uma cidade quanto de outra. Ao fazer essa opção, fugi daquilo com que tenho mais contato e intimidade e, quando falo do romance, prefiro esquecer o risco de escrever sobre o desconhecido e explorar o motivo de voltar, por meio da literatura, a essas cidades das quais saí, primeiro de Passos, com quinze anos e, em seguida, de Belo Horizonte, com dezoito.

Há uma razão simples e bastante óbvia: não abandonamos o lugar e o tempo em que germinamos. Até os dezoito, vivemos nossos anos mais esperançosos e os mais sofridos. A descoberta do sexo, o desejo de ser adulto, os sonhos de vida, a impossibilidade de conquistar o mundo, tudo está ali. No meu caso, cheguei a essa idade vivendo nas duas cidades de Minas Gerais onde a história do romance acontece.

Especulo que uma outra intenção, pouco clara, terra a ser explorada, ajude a entender essa opção. Os últimos anos, esses em que a incivilidade da direita fez (e continua a fazer) um estrago nas relações básicas entre familiares e amigos, me custaram muito. Me distanciei de muitos mineiros que amo demais, e isso foi o mesmo que ver Minas escapar de minhas mãos. O romance é um jeito de resgatar não exatamente os amigos, mas a mineiridade da qual gosto tanto.

5.5.23

Entrevistas, cantadas e outras coisas miúdas

 

1.

- Você é muito lido?

- Lindo?

- Lido.

- Ah, também não.

 

2.

- Um medo.

- De sarau.

 

3.

Na foto, o turco Mesut Hancer segura a mão de sua filha de quinze anos, Irmak Hancer. O ambiente é de ruína (pedras, concreto, vergalhões e pedaços de móveis à vista), e a menina está morta, estendida embaixo do colchão em que dormia. O pai não a abandona, enquanto as equipes de socorro procuram sobreviventes ou outros corpos.

Faz muito frio na Turquia.

 

4.

Amor, antes de tirar o diabo do corpo, passa aqui em casa. Tem vinho na geladeira e um queijinho da canastra.

 

5.

- Ontem me senti tão brasileiro.

- Foi prum samba, se acabou na feijoada e na caipirinha?

- Não, nada disso, furei uma fila.

 

6.

- Meu filho, você anda comendo muita gemada.

- É que vou fazer um “pode quede”.

- Um quê?

- “Pó de kedis”.

- O quê?

- “Pote quetis.” “Pô, discaste.”

- Seja lá o que for isso, chupa uma balinha, ovo dá um bafo danado.

 

7.

- Como você tem visto a conjuntura?

- Molhando no chuvoso, sendo até mesmo um pouco crochê, me recorro ao chico popular: Deus escreve ovo por linhas chocas.

 

8.

Caminhando pela pista Cláudio Coutinho, um tiê-sangue, aproveitando que não havia ninguém além de mim por perto, pousou num galho e ficou passando o bico de um lado e de outro. Não sei se amolava, limpava ou coçava o bico, mas que o passarinho contou com o fato de que eu jamais o importunaria, nem mesmo tirando uma foto, disso tenho certeza.

 

9.

Beber, bebi. Ficar bêbado, fiquei. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.

 

10.

Sonhei um poema, acordei sem me lembrar de um mísero sequer de seus versos, mas de sua beleza não me esqueço.

22.4.23

Burnout Cívico

Prensados pelas redes sociais, a gente se vê obrigada a se posicionar o tempo todo, grande parte das vezes sobre assuntos leves ou absolutamente fora de nossa área de conhecimento ou curiosidade. O que pensamos a respeito do ajuste fiscal; da reforma do ensino; da permanência daquele ministro reconhecidamente ficha-suja; do tal novo arranjo do futebol, a sociedade anônima do futebol (SAF); da internação compulsória dessa gente perdida de si que circula pelas cidades; da mudança de sexo na infância; da inteligência artificial? Houve uma época em que, reconhecendo nossa ignorância, procurávamos ler algum artigo para pelo menos entender o que estava em jogo. Agora vem tudo num vapt-vupt de um post, sem contar a lavagem cerebral das mensagens capciosas que pousam na tela do celular – preparadas com o intuito único de angariar devotos a causas escusas.

Estou sofrendo um burnout cívico. Tomo chá de camomila? De cogumelo? Passo a andar de olhos vendados? Me chafurdo na leitura de entretenimento? Ouço apenas os discos da Xuxa? Entro com uma ação pedindo ressarcimento por assédio moral? Me entoco no meio do mato?

Ô Brasil difícil! Melhor pensar que é assim em tudo quanto é canto. Viver em comunidade, por menor que ela seja, significa embates, lutas por espaço; no fundo, disputa de poder. Tudo bem, mas, aqui na terrinha, estamos caprichando. Não é mais uma questão de participação política ou alienação, é o excesso. Sei da importância de ninguém soltar a mão de ninguém, mas, por favor, soltem a minha, preciso sair correndo. Doutor, vou ter um troço.

Corro, mas do Brasil não saio e continuarei a lutar por ele. Só que estou doente dessa contenda na qual entro com a impressão de ser um inocente útil, o zé-mané cansado. Vejo que muitos brasileiros, atrasados, decidiram pelo deixe-o do ditatorial “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Se debandaram para Portugal, Estados Unidos, Austrália, não sei mais onde, com a esperança de fugir de nossas mazelas. Essa turma se esquece de que, num mundo globalizado, o Brasil enviará, via TV, streaming etc., sua dose diária de racismo, homofobia, misoginia e entornará o caldo sujo da injusta distribuição de renda na cara de todos, todas e todes (abraçado à erudição, rechaço o novo pronome, ou, fiel à urgência do agora, abraço-o?). Não se pode esquecer do tio do zap e seu empenho em compartilhar absurdos de toda espécie. De um jeito ou de outro, como o Brasil fincará as garras nos que se ausentaram, cair fora não resolve nada. Pelo menos com isso me consolo.

Então dou de ombros? Bebo o bar da esquina? Todos os bares da rua? Os da cidade? Me caso com vinte mulheres? Assalto um banco? Vou curar berne de bois soltos em pastos abertos pela grilagem no Pará?

Talvez eu melhore fugindo das tretas impostas pelos outros e inventando as minhas. Sertanejo universitário não é nem sertanejo nem universitário. Goiabada é o melhor doce do mundo (seguido de perto pelo arroz-doce), mas nem pensem na cascão, que não chega aos pés da lisa. Os grandes designers criam coisas estupendas, lindas e cheias de sabedoria, mas ninguém até hoje fez nada tão simples e tocante quanto a estrela solitária do Botafogo. Para cada xícara de arroz, duas e meia de água quente; qualquer coisa diferente disso é embuste e má culinária. Não fosse o chifre, o de Capitu em Bentinho, o Brasil nem teria uma literatura nacional. 

Ando me identificando com a galinha-d’angola: Tô fraca!, tô fraca!, tô fraca! Que canseira.

8.4.23

O teatro da rua


Cazuza andava nas ruas, trocava um cheque, mudava uma planta de lugar, dirigia o carro, tomava um pileque (quiçá dirigisse bêbado) e ainda tinha tempo para cantar. Eu não tenho carro, os cheques sumiram do meu cotidiano (o dinheiro de certo modo também), por puro respeito à natureza não toco em planta de jeito nenhum, mas, sim, tomo meus pileques, canto o suficiente para vencer o meu silêncio e ando nas ruas, ah, como ando nas ruas. Esse exercício lubrifica as juntas e o cérebro.

Meu projeto é, meio zureta, passar todo o restinho de velhice que me sobra caminhando a esmo. O pai de uma namorada perguntava à filha se batendo perna o dia inteiro ela media as ruas para a prefeitura. Quero esse emprego, e estou disposto a trabalhar como voluntário.

O que se ganha caminhando? Além de revigorar o físico, a rua, espaço democrático da caminhada, é um teatro. Dia desses, tomei um ônibus e, como meu cartão estava sem crédito, paguei com dinheiro. Assim, antes de passar pela roleta, tive de esperar o motorista descolar o troco. Foi quando um rapaz de bicicleta deu um tapa na janela do motorista. Os dois trocaram insultos. O ônibus havia fechado a bicicleta um pouco antes, e o entregador de uma rede de farmácia (a camiseta tinha o nome da empresa) estava, com razão, revoltado. O problema é que, sem um meio de resolver a questão de forma civilizada, ele partiu para a briga e, aproveitando-se de um ponto logo adiante, entrou no ônibus e começou a esmurrar o motorista, que se defendeu valendo-se de socos e pontapés. Eu ali, entre os dois. A cidade é violenta, a chance de um deles ter uma arma é grande. Disse a eles para se acalmarem, uma frase sem eco algum.

Houve uma trégua, o rapaz da bicicleta desceu e o ônibus avançou. Só que um pé do seu tênis ficou para trás. Novamente um tapa nos vidros. O motorista abriu a porta e atirou o tênis na rua. Aconteceu então a coisa grave: o entregador tirou o boné, pediu ao motorista que tirasse o dele (o que não foi feito), pois os rostos precisavam ficar descobertos, totalmente revelados. O agora sem boné queria guardar a cara do outro para ir atrás dele, assim como queria que seu rosto ficasse registrado para que, quando chegasse o momento, o motorista soubesse quem se aproximava. Enfim, uma ameaça carregava o incidente para outro nível. Como os dois circulam sempre na mesma rua, não é nada difícil que se reencontrem.

Isso é um teatro? Sim. Quem sabe uma tragédia grega atualizada, menos sofisticada, bastante realista e com o final em aberto. Quando desci do ônibus, fiquei pensando: a briga colocava de um lado o trabalhador com carteira (supondo que a empresa de ônibus faça tudo dentro da lei, o que pode ser uma inocente suposição) e de outro o informal, classe de trabalhador que os tempos modernos (impulsionados pela pandemia) jogaram aos borbotões no mercado e principalmente nas ruas. Naquele momento, o dono da empresa de ônibus e o da rede de farmácias talvez estivessem preocupados com um empréstimo contraído ou com um contrato meio frouxo (do ponto de vista legal) com alguma instância de governo ou com uma compra que não lhes fora entregue. Tinham lá suas preocupações (boas e más) de empresário, mas pouco se importavam com a situação de quem trabalhava para eles (seus advogados cuidariam disso, se necessário). Lavavam as mãos, a seu juízo, sempre impolutas.

Não sei se vocês se lembram de que, no começo da crônica, confessei meu desejo de virar um andarilho sem destino, um espectador atento das muitas peças encenadas no dia a dia. À medida que a escrita avançou, me perdi a tal ponto que contei uma história em que não estou caminhando. Descambei do meu propósito digamos filosófico, mas agora tento terminar com alguma coerência. Falo então de um personagem que somente a caminhada com os pés firmes (ou não) no chão pode revelar.

Na movimentada rua em que vivo, ainda existe um orelhão. Fica na parte larga da calçada (um prefeito estreitou tanto as calçadas, em benefício dos automóveis, que em alguns de seus trechos nem namorados conseguem andar lado a lado, de mãos dadas) em que há uma banca de jornais, uma pequena galeria comercial e uma loja de hortifrutigranjeiros. Enfim, é um ponto agitado. Não é raro eu passar ali e encontrar um homem (entre quarenta e cinquenta anos) sentado no chão, com o telefone na mão: o fio esticado, a parte do microfone bem perto de sua boca, o alto falante longe da orelha. O tempo todo ele fala, fala, fala. Decerto tem algum problema mental, o que não importa a essa crônica. O fato é que, ao falar, ele mostra não ter nenhuma intenção de ouvir. Aquele homem em monólogo é a síntese de nosso tempo. 


27.3.23

Guardem para mim

Sou desmemoriado. Não tanto na realidade. Para algumas coisas, a cabeça funciona. Um amigo no trabalho sempre fala assim: “Alexandre, contando com sua boa memória, como foi que de uma outra vez resolvemos essa questão aqui, ó?” Não raro, sei responder. No entanto há instâncias inalcançáveis.

Nomes, por exemplo, eu os esqueço bastante. Puxei a minha mãe, a quem eu criticava por isso. Mãe, não é Flora, é Flórida. E ela dava aquele risinho. Só não tenho o mesmo risinho sapeca de dona Haydée – por muitos chamada de Idê e, no papel, de Aidê, Ydê, enfim, de várias formas abrasileiradas ou nem tanto do nome de origem francesa –, no mais estou igual a ela. O problema com nome me atormenta por exemplo em dia de lançamento de livro. Eu obrigo quem ficar responsável pela venda a colocar um post-it com o nome da pessoa, mesmo que a pessoa diga que é minha mãe. Aliás, se disser isso, melhor sair correndo, é um fantasma. Mas, não tenhamos medo, mamãe seria o fantasma mais camarada da face da terra.

Registrarei alguns casos que estão sumindo da minha lembrança, assim vocês os guardam e, quando eu precisar – é claro que precisarei, a idade está chegando –, já sei a quem recorrer. São bobeirinhas, compreendam. É a parte afetiva da vida, e sei lá se não a efetiva também.

Lá pelo meus doze anos, eu tinha uma paquera, e ela não me dava bola. Certa vez, reunidos em torno da piscina da casa de um amigo, ela me chamou de pateta. Doeu! Mas naquele dia mesmo, numa conversa que descambou para histórias em quadrinho, ela disse que seu personagem preferido era o Pateta. Apesar dessa bandeira, nós nunca namoramos. Fiquei muito impactado pelo adjetivo.

Fomos eu e um amigo andar pela periferia de minha cidade natal. Ela era pequena, mas a divisão pobreza e não pobreza existia ali como em qualquer parte do Brasil. Eu não era rico, mas, aos olhos dos meninos do bairro, era sim. E o que aconteceu? Uma turma começou a correr atrás de mim e de meu amigo. Eles nos atiravam pedra, xingavam. Nós nos enfiamos num pasto e fomos correndo até chegar à linha de trem de ferro. Naquela época, circulavam os últimos cargueiros, um pouco depois fechariam a Mogiana e alguém surrupiaria os trilhos, bem, mas isso é outra história. Eu e meu amigo começamos a andar sem olhar para trás, certos de que os garotos continuavam na nossa cola. Além disso, seguíamos atentos a um possível aparecimento da “Maria Fumaça”, um perigo muito maior. Depois nos acalmamos. Havíamos escapado. Meu amigo então contou que um preso fugira da cadeia (localizada na Praça da Liberdade, vejam só) e que o bandido tinha uma particularidade: ele se transformava em objetos. Por exemplo, ele bem poderia ser aquele cupinzeiro bem ao nosso lado. Saímos em disparada novamente. Não fosse a fome, talvez estivéssemos correndo até hoje.

Eu tinha tosse de cachorro. Muito seca, seca demais, acho que era de cachorro grande, mas manso.

Eu peguei a bola pela direita, fui entrando em diagonal – uma jogada típica de um ponteiro do Botafogo –, driblei dois adversários, entrei sozinho na área e chutei nas mãos do goleiro. Num só lance, meu ápice e meu ocaso como jogador de futebol.

Eles bem queriam que eu fosse o Romeu da montagem da peça na escola. Minha vergonha me impediu. Tive de conviver com o ciúme de ver o escolhido, ao beijar a Julieta, beijar a menina que eu amava. Quando eu e ela íamos ao cinema, ela nem me deixava pegar em sua mão.

Fui para a primeira comunhão com uma camisa estampada, em tons azuis. Não tenho foto, mas a minha irmã mais próxima em idade dizia que eu parecia um homenzinho. Sabe, eu parava com as pernas meio abertas e os braços cruzados, numa pose de quem não seria lá grandes coisas na vida. Os pecados estavam por ser cometidos.

Minha primeira namorada não foi um porquinho-da-índia, mas eu também me enredei pelo amor assim para além do humano. Por isso, tive muitos bichos. Por isso, tive bicicletas. Por isso, me ajeitei com a solidão desde muito cedo.

Nas duas vezes em que levei pedrada na cabeça – a primeira da vizinha da casa da frente, a segunda de um amigo da rua que depois, e não por isso, foi ser padre –, eu não havia feito nada.

As duas meninas convidaram a mim e ao meu primo para irmos os quatro a uma fazenda. Não haveria ninguém lá além de nós. Puxa, era um sonho, tudo que gostaríamos. Mas não fomos, ah, não fomos. Às vezes, não tenho saudade nenhuma de meus quatorze anos.

Contei à minha tia de minha dificuldade em guardar nomes. Ela, no alto de seus noventa, noventa e poucos, me disse que tinha uma estratégia para isso. Quando encontrava alguém cujo nome lhe escapava, dizia: “Você tinha um apelido, não é?” A pessoa logo reagia ou dizendo o apelido ou negando que o tivesse e afirmando o nome. Meu nome é Alexandre, Xandão (não é de hoje, vem de muito antes de virar modinha) é o apelido. Guardem isso também, nunca planejamos o que será esquecido.

11.3.23

Coluna social de um lugar nenhum

Rautosco Ó de Liveira anda cabreiro. O nome de sua mulher, Rita, ecoa pela cidade. Rita linda, Rita linda, ouve-se de norte a sul. Ficou orgulhoso no início, e enciumado a partir de uma certa hora. Abriu-se com um amigo e prestou atenção no conselho: tome a Ritalina, meu caro, e relaxe e goze. Rautosco, injuriado, rompeu com aquele maldito. Além de não saber falar o nome de sua mulher, fez aquela alusão de que o seu problema era sexual.

 

Cornélio sofreu uma vida com o nome. De Cornélio a corno é um pulo, o que lhe custou uma adolescência terrível. Mas a maturidade chega, e com ela Cornélio esqueceu as bobagens da juventude. Virou um intelectual respeitado na pequena cidade. Do alto de sua sabedoria, não poupou os ignaros, o que alguns viram como uma espécie de vingança, uma atitude mesquinha, de gente mal resolvida. Enfim, a vida caminhava como sempre caminha, uns fazendo juízo dos outros, falando pelas costas, mantendo relações cordiais no momento de encontros. Até que... No bar da praça, um mocinho humilde, desses que vivem na periferia, mas gostam de frequentar o centro, manter amizade com os ricos, enfim, esse moço soltou que seu pai estava com um trombone nas veias. Cornélio não se aguentou, arregaçou as mangas, vestiu a arrogância costumeira e corrigiu o jovem: “Trombose, querido, trombose”. O rapaz pegou o celular e ligou o vídeo. O pai esticava a perna e dela saía o som de um trombone muito bem tocado, aliás, tão bem tocado que a turma da rua passou a chamar as pernas do velho de Raul de Souza. Cornélio ficou com cara de tacho. Primeiro por ter sido humilhado por um pé descalço, depois por não ter ideia de quem era Raul de Souza. Voltaram a chamá-lo de corno, e daí em diante doeu como nunca.

 

Cilene ficou em silêncio e mascou o chiclete como se tirasse leite das pedras. Dividia sua atenção entre mascar e ouvir. O chiclete é um negócio incrível, ela pensava. No início é doce, depois vai perdendo a doçura, mas, quando menos se espera, um docinho discreto volta à boca. Decerto ouvia menos do que deveria. Ainda assim entendia as intenções do senhor seu chefe. Quando ele deu uma pausa para beber água e encher a xícara de café velho, ela tirou a goma da boca – naquele momento sem doce de tudo – e a pregou na testa do homem. Deu as costas ao mal-intencionado e foi embora numa alegria com sabor de melancia.

 

Ifigênia ganhou o porco na rifa. Havia comprado o bilhete no intuito de ajudar a igreja, que usaria o dinheiro para adquirir mantimentos para os desvalidos de sempre. Ifigênia apostou que não ganharia o sorteio, pois nunca ganhou nada na vida. Quer dizer, ganhou o que o povo chama de pé na bunda. Melhor seria que dissessem levou um pé na bunda, mas preferiam usar, para azar do verbo, ganhar. Azar dela também, pois nunca ganhou nada e, quando ganhou, ganhou um porco. O que faria com um porco? Onde guardaria o porco? Quem sabe o devolvia à igreja e sugeria que fizessem nova rifa ou o matassem e dessem aos que se beneficiariam com o dinheiro arrecadado? Mas isso seria desprezar a sorte, essa que nunca a visitava. Comprou uma coleira – uma coleira! – e foi buscar o bicho. Era uma leitoa vistosa, que Ifigênia não sabia dizer se pronta para o abate. Ou para a reprodução. Não entendia nada de porcos. Ou por outra, não entendia nada a não ser de levar ou, vá lá, ganhar pé na bunda. Nisso era escolada, tinha título de doutora. O homem riu da coleira. Prontificou-se a entregar a porquinha onde quer que Ifigênia quisesse. Ela então pediu que ele a deixasse na porta da quitinete do Hermes. Que levasse junto um bilhete. “Hermes, seu porco vegano, cuida que a filha é tua.” Ifigênia voltou para casa feliz por ter ganhado alguma coisa na vida. A sorte da vingança lhe sorriu. Ou gargalhou.


O prefeito é um entojo, diz a voz popular. Por que votaram nele, ninguém sabe explicar. O outro, o outro era... O outro candidato, pelo jeito, não tinha empatia. Votaram no entojado. Alguns se mandaram para a roça, outros foram visitar os filhos na capital, sem contar os que viajaram para a Europa, enfim, deram um jeito de ficar bem longe da cidade. Houve de tudo, dependendo das possibilidades de cada um. Os despreocupados ou sem condição teriam de conviver com a situação pelos quase mil e quinhentos dias do mandato. Foi quando a Ritinha, casada com o Rautosco, teve a ideia de a população se aglomerar toda manhã à porta da casa do prefeito e cantar músicas de protesto, gritar palavras de ordem, enfim, chatear bastante quem os vinha chateando e, em nada sendo feito, assim continuaria. Se tudo desse certo, ele renunciaria e, descobrindo-se pessoa não grata, se mandaria da cidade. Se tudo desse certo... mas não deu. Quer dizer, deu. O prefeito não aguentou uma semana e renunciou. O vice, moço bom, apesar de se mostrar em breve péssimo administrador, tomou posse e todos viveram felizes para sempre. Menos Rautosco e Ritinha. Ele não engolia aquela história de os conterrâneos acharem a Rita linda. Não só achavam, anunciavam aos quatro ventos. Com essa dor, o enciumado surtou no meio do povo, foi internado e não passa muito bem. Ritinha agora é política, não tem tempo para assuntos domésticos e diz que entrega sem medo o marido aos cuidados do SUS.

27.2.23

Encontro de escritores

 

A C.J.M. e S.F.

Não sei o que vocês imaginam quando veem uma foto de um grupo de escritores. Eu penso em diálogos profundos, reflexões, críticas que se fazem uns aos outros, além de alguns arranca-rabos. Mas, de fato, não é bem assim, ou, quando um dos escritores sou eu, certamente não é bem assim. Se um dia vier a circular uma foto em que eu e dois escritores mineiros estamos no quase carnaval de fevereiro de 2023, vocês verão que jogávamos botão. A imagem não serve como metáfora sobre a reflexão literária ou o fazer literário, ainda que seja poética, afinal os atletas tinham entre sessenta e setenta anos.

Antes desse encontro, havia jogado botão pela última vez com meu filho mais velho, agora com trinta e três anos. Digamos que ele tivesse dez na época, portanto fiquei mais de duas décadas fora dos gramados de madeira. Isso talvez explique o meu último lugar no campeonato recente. Não foi um vexame, joguei até bem, entretanto, não sei se me elogiando ou me criticando — ou se elogiando e criticando —, o dono dos times e do estádio e anfitrião desse encontro me disse que poeta já sou, mas que, no botão, eu tenho de me esforçar bastante. Preferi me agarrar à parte ligada à poesia, porém, cá com meus botões, não os de acrílico e sim os mentais, já planejo um treinamento forte. Quero voltar lá e, além de me encantar com a variedade de borboletas que circulam pelo jardim, dar uma surra em ambos. Uma surra tão forte que os leve a escrever poemas como aqueles feitos por quem perde um amor.





13.2.23

Uma crônica pungente

 

A crônica, vocês sabem, fala de tudo e mais um pouco. E, quando lhe falta assunto, fala da falta de assunto, numa espécie de terapia a céu aberto. Os assuntos tratados por ela, desde Machado de Assis até meus colegas da Rubem, não têm limite, podendo ser uma reflexão sobre o guarda-chuva, como a de Cássio Zanatta neste ou noutro espaço, não estou certo. Ou um acerto de contas com a memória sobre as tormentas, como fez aqui mesmo e recentemente o Rubem Penz, aliás, em crônica que poderia ser lida como complementar à de Zanatta. Enfim, o cronista escreve sobre o pó da rua ou o do universo. Ou sobre a lama de qualquer galáxia.

Minha memória (vacilante) e meus conhecimentos (parcos) não resgatam, entretanto, nenhuma cujo assunto seja o pum. Peço desculpas aos mais sensíveis –aconselho-os a abandonar a leitura, não lhes fará falta (a crônica, sejamos sinceros, não faz falta a ninguém, mas felizes são os que têm esse textinho mixuruca entre seus principais esteios) –, mas vou escrever sobre o pum.

Nos primeiros cuidados com o bebê começa a estigmatização dessa autêntica e necessária manifestação do bom funcionamento do corpo. “Que pum foi esse, neném?” Daí a pouco, a própria criança passa a rir quando lhe sai o barulho trovejante, de origem desconhecida. Não é raro ver a criaturinha olhar pelos quatro cantos à procura do bicho carrancudo que berra ou zurra ou grasna ou muge daquele jeito. Como tudo se aprende, já nos primeiros anos de escola, o pum passa a ser uma grande porta de socialização. Os “punzeiros” tornam-se populares. Conheço um, hoje avô de família, que sonorizava o hino nacional. Enfim, é mais ou menos nessa época que começam a surgir teorias – que se diga: puro senso comum, sem pesquisa comprobatória. Se é barulhento – portanto, de origem evidente –, não fede e é cômico. Se é silencioso – de evidência questionável (“não fui eu”) –, é puro cheiro e trágico. Na vida adulta, chegam os casamentos e, nessa matéria, um cotidiano de combate e aceite.

A questão é que o pum, coisa tão comum, insisto, passa a ser visto como antissocial, embora, ao que parece, não seja assim em todas as culturas. Na Índia, ouvi dizer, os baixos ventos soariam livres em qualquer ambiente. Me lembro daquela piada de uma família italiana (ah, como são preconceituosas as piadas!) que se encontra num domingo de macarronada na casa em que vive o avô com seus noventa anos e meio tantã. Apesar da decadência, é o patriarca e se senta à cabeceira e, como todo velho e relho, fica alheio à conversa interminável entre os comensais. De vez em quando, ele fica meio de lado. Alguém corre para colocá-lo na posição correta com medo de que ele esteja se desequilibrando. Depois de ser “socorrido” duas ou três vezes, o nono não aguenta e reclama: “mas eu não posso nem ...?” O nonagenário não usa a palavra infantil que tenho usado, preferindo aquela catalogada como palavrão. Bobagem, não existem palavrões, mas, por uma questão pessoal, prefiro ocultá-la dessa crônica que não é daquelas das quais se possa dizer que não fedem nem cheiram.

Recentemente estive em algumas rodas de septuagenários e ouvi a confissão de que, naquela idade, perde-se o controle sobre o pum. As pessoas se sentem constrangidas, afinal é uma vida inteira de repressão e a prova concreta de que, ao envelhecer, não se é mais dono do próprio corpo. Ao mesmo tempo, é uma alegria. É o soltar a franga, o sair do armário de uma de nossas mais básicas funções, talvez a mais reprimida. Aqueles meninos porto-riquenhos, ao cantarem “não se reprima, não se reprima”, bem podiam estar mirando a turma da terceira idade e não a que se despedia da primeira.

A crônica, quando não tem do que falar, do não ter do que falar ela se apossa, repito. Algumas, no entanto, exageram. É o caso desta, que termina aqui para não perder o pouco da graça que tencionou ter.

29.1.23

Com o rosto descoberto

Mesmo tendo tomado quatro doses da vacina, mantenho algumas precauções contra a Covid. Uso, por exemplo, máscara em ambientes fechados. No entanto, em comparação ao que foram meus dias entre 2020 e 2022, estou soltinho.

Em janeiro, fui a festas de amigos. Papos descontraídos, ainda que resvalando de quando em quando nas atrocidades cometidas por aqueles afastados do poder pelo voto.

O confinamento havia me deixado meio cabreiro, com um pé atrás em relação às pessoas. Sempre gostei delas, sou bastante sociável, principalmente se me chamam para conversas em torno de abobrinhas e outros quitutes. Mas o afastamento social, num momento em que realidade e mentira foram intensas e cambiantes, fez com que, isolado, eu construísse um cenário sombrio sobre o ser humano.

Não tinha expectativa de que todos houvessem se transformado em direitistas antidemocráticos, mas temia que pudessem ter perdido as manhas do convívio social. Depois de dois anos flambado no medo, me parecia impossível que alguém continuasse falando de um gol, de um rosto bonito, daquele livro injustamente pouco lido ou de uma saudade escorchante de um tio meio doido, meio poeta. Ou que se debatesse uma polêmica inconsequente por doze horas e mil chopes e se cultivassem a ironia e até um certo cinismo.

A boa notícia: nem todos sucumbiram. Os assuntos frívolos, apesar de tudo, se mantêm vivos como sempre estiveram. Voltar à rua – compartilhar um chope, uma sessão de cinema, uma caminhada, encontrar um amigo por acaso na feira ou na porta do banco – redimensiona a vida, esta que é dura, aliás, como é desde os tempos do pecado original. Temos, é verdade, uma responsabilidade geracional: cortar o delírio direitista que não só se vale da mentira, como também cria histórias inverossímeis e as enfia goela abaixo até de gente esclarecida. Tarefa, no entanto, conciliável com a alegria.

Ainda sabemos rir e sorrir; debochar de nós e do outro. Mantemos a capacidade de argumentar sobre aquilo que ignoramos. Continuamos um pouco ingênuos, quase loucos e nem um pouco loucos.

A leveza não se perdeu, asseguro.

14.1.23

Grito

 Havia um acúmulo. Desde 2013 – com destaque para a retirada à força de Dilma Rousseff da presidência em 2016 e a eleição de um político de extrema direita em 2018 –, os abençoados de sempre preparavam o bloqueio da estrada que nos levava, aos tropeços, a uma democracia estável. Umas pedras eram jogadas ali, uma ponte destruída acolá. Os últimos quatro anos assistiram à avalanche cuja causa foram as dinamites da incivilidade e não os transtornos das intempéries.

Repito, havia um acúmulo. Mas de quê?

De desesperança. Com isso, tornou-se urgente devolver ao palco aqueles que, a duras penas, conseguiram, no período que vai da posse de Sarney ao governo Dilma (principalmente nos anos de governo do PT), um mínimo de visibilidade e voz política. Falo de negros e mulheres, da comunidade LGBTQIA+, de indígenas, dos trabalhadores, dos desassistidos, enfim, dos marginalizados de sempre, acrescidos, nos últimos quatro anos, de artistas, mesmo aqueles que tinham voz e, na concepção do país regredido à Idade Média, passaram a ser tratados como bandidos.


Foto: AP Photo/Eraldo Peres


A posse do dia primeiro de janeiro foi o grito das vozes, emudecidas, mas não mortas, da democracia. E tudo ali funcionou. Foi uma mulher preta, a catadora de lixo Aline Sousa, quem entregou a faixa ao presidente. Ela subiu a rampa do Palácio na companhia de Lula e de sua companheira, Janja, da cadela Resistência (símbolo do acampamento mantido perto de onde Lula esteve preso em Curitiba), de um cacique (Raoni), de um garoto preto e morador da periferia de São Paulo (Francisco Silva), de um professor (Murilo Jesus), de um metalúrgico (Weslley Rocha), de um artesão (Flavio Pereira), de um jovem que, por conta de uma meningite, sofreu, quando tinha três anos, uma paralisia cerebral (Ivan Baron) e de uma cozinheira (Jucimara Fausto). A voz das vozes silenciadas se fez ouvir. Todos eles (e outros tantos) seriam enumerados e chamados ao palco – “vocês existem e são valiosos para nós” – na posse do ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, ele mesmo um negro.

Basta demonstrar apreço à democracia e dar visibilidade aos carentes para garantir um bom governo? Não. É preciso melhorar a vida da população, que, no caso do Brasil, é heterogênea, indo dos trinta milhões de famintos àquela pequena porção de ricos que, sozinhos, têm uma renda superior à dos 90% restantes. É possível agradar a todos? Não. Eu espero que os avanços se deem no sentido de proporcionar as mínimas condições de vida aos mais pobres. Isso exige ações na economia e nas outras áreas e requer precisão e boa vontade dos executores das políticas.

Uma semana depois da posse festiva, que espalhou esperança aos que apostam num país diverso, inclusivo, pacífico – embora com embate de visões de mundo –, uma horda de fascistas, uns poucos crédulos, outros obedecendo a ordens (ainda a descobrir ou confirmar de quem), destruiu o patrimônio público. Não qualquer patrimônio, miraram aquele que a ideia de uma nação moderna construiu, as sedes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário desenhadas por Niemeyer. Além dos prédios, danificaram importantes obras de artes, o que, vindo de quem veio, a extrema direita, não é de se estranhar.

Enfim, vimos um nudes do Brasil cindido, esse país que não resolveu grande parte de seus problemas estruturais (racismo, privilégios de toda sorte, poder excessivo na mão dos militares, concentração pornográfica de renda etc.). Neste momento, chegamos ao ponto no qual ou cuidamos desse débito histórico ou o ataque à democracia se transformará em guerra. Dela sairá um país pior, certamente nas mãos de um autoritário.

Devo confessar, no entanto, que, ao ver a posse das ministras dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, e da Igualdade Racial, Anielle Franco, um balanço desses dias me leva ao otimismo.