26.1.20
20.1.20
Esmiuçando um país
![]() |
| Gennady Privedentsev, artista russo. |
Um país não é aquela roupa velha que se veste de quando em
quando, longe dos estranhos, na intimidade.
Um país não é uma saudade, sequer uma nostalgia miúda. Não é
uma música que seu pai cantava enquanto preparava o cigarro de palha. Não é a
lembrança que sua mãe mantém de um antigo amante.
Não é uma tarde com crianças correndo no quintal. Igualmente
não são dois vizinhos batendo papo pela janela de suas casas.
Um país não é uma bola na trave. Não é um grito inesperado daquele
homem que caminha em silêncio. Qualquer muleta abandonada na calçada é apenas
uma potencial metáfora para o país.
Por mais que se pense que um país seja suas sextas-feiras e
feriados, ele não é isso. Tampouco é o domingo, no qual velhos casais reencontram
o desejo.
Um país, veja bem, não é o conjunto de suas desgraças. Não é
o sorriso do velho banguela ao ver seu neto banguela rindo do vento que lhe assopra
o rostinho.
Um país não é nem a chuva ruidosa (muito menos a garoa) nem
a mulher que, no meio da rua, parece chorar e ao mesmo tempo sorrir. Não é a
gargalhada de um grupo de adolescentes.
Alguns querem que um país seja o aplauso comovido para aquela
cantora cuja voz é apenas um fiapo da voz de quando ela estava no auge. Esqueçam.
Um país não é a vassoura que varre a calçada.
Um país está longe de ser um assalto a banco. Do mesmo modo,
está longe de ser um ato altruísta de um mendigo. Até poderia ser, mas não é,
um beijo que o senhor violento, às escondidas, dá em uma flor cujo cheiro é
mais intenso que a cor. Um país não é a sua literatura ou seus muros pichados.
Um país não é uma greve geral. Não é um dia sem consumir
carne ou um dia sem consumir ou um dia em que se vai de visita ao túmulo dos
pais.
Um país não são as crianças na escola. Não são os jovens na
escola. Não são os adultos empregados. Não são nossas certezas ou sonhos.
Um país não é um filme de terror — ainda que um filme de
terror possa ser um país; ainda que uma comédia possa ser um país. Ainda que a
tristeza possa representar o país. Ainda que a alegria faça parte das saudades
de um país.
Um país não é a sabedoria. Não são os acepipes servidos em
reuniões festivas. Não são as quitandas cuja receita é anterior ao próprio país.
Um país não são seus tambores e festas.
Um país não tem o rosto que os mapas dizem que ele tem.
Um país — o nosso — é um daqui a pouco urgente.
15.1.20
40 anos no Rio
Cheguei ao Rio no dia 5 de março de 1980. Vim depois de
passar as férias em Passos, mas eu já não morava lá, saí de minha cidade em
1977, mudando-me para Belo Horizonte.
Um dia talvez eu escreva alguma memória sobre esse período,
mas hoje minha intenção é apenas justificar porque, na efeméride dessa data,
resolvi lançar um livro de poesia.
O fato é que a poesia foi minha primeira manifestação
artística. Ainda criança, fazia musiquinhas e, um pouco mais tarde, compunha
músicas bem precárias. Dessa experiência o que ficou foi a poesia.
Em 1986, minha irmã Patrícia trabalhava na Imprensa Oficial
de Minas Gerais, e ali se fazia (e ainda faz, creio) o Suplemento Literário de
Minas Gerais. Ela sabia que eu escrevia, conhecia minhas músicas. Como lá no
Suplemento circulava um conterrâneo nosso, o premiado poeta Antonio Barreto, a
Paçoca levou um material para ele avaliar. Acho que mandei uns cinco ou seis
poemas. Passado um tempo, recebi tudo de volta com anotações (tenho tudo em
casa, sabe-se lá onde). Mais surpreendente, três foram publicados.
Quando me derramo de agradecimento ao Barreto, ele diz que
não teve essa de QI, não. Seu relato é que os poemas foram parar nas mãos de
pareceristas e a decisão final foi sugerir a publicação de três. Seja como for,
considero o mestre Barreto um dos meus padrinhos literários. Ele, o Noll (que
fez o prefácio de meu primeiro livro, Contos de homem) e o Marco Túlio Costa
(que me inventou cronista).
Para comemorar meus 40 anos de Rio, pensei em escrever uma
série de crônicas memorialistas, mas, quando dei por mim, não teria tempo para preparar
um livro a ser lançado em 5 de março de 2020. É uma tarefa hercúlea para um
sujeito desmemoriado e que não dá muito valor ao que viveu. As duas coisas
indicam que produziria um péssimo livro.
Quando estive na Feira Internacional do Livro de Ribeirão
Preto (Gilberto Abreu, outro conterrâneo, meu ex-professor de história e
escritor admirável, foi o homenageado), eu, Alexandre Marino e Nádia Monteiro
trocamos umas figurinhas e eles se prontificaram a ler minhas poesias. Foi uma
coisa linda e uma força danada. Depois pedi outras leituras (com respostas
igualmente lindas), de Adriane Garcia e Alberto Bresciani. Isso sem contar o
próprio Eduardo Lacerda, editor sensível, com pendores claros para a escrita e
a edição de poesias.
Se tenho um livro de poesia, ora, façamos de seu lançamento
a comemoração dos meus 40 anos na cidade maravilhosa, mas feia; de cultura
inclusiva, mas de segregação; da beleza dos corpos, mas de clima infernal.
É um livro bom? Olha, todo escritor é vaidoso, mas eu, no
caso da poesia, sou menos (já como contista e cronista, nem digo). Isso quer
dizer que estou mais preocupado com a comemoração do que com a qualidade da
poesia (todo escritor é mentiroso). De todo modo, acho que tem alguma coisa
bacana, sim, ao lado de poemas menores, ruins de verdade. Na realidade, em tudo
que faço (fazemos?) há essas duas porções. Passados 25 anos desde o lançamento
de meu primeiro livro, já não alimento grandes ilusões. Escrevo porque quero
falar com meu tempo.
Assim será. Ainda que formalmente não dedique meu livro a
esses caras que me deram a força inicial, o livro é deles, em especial do
Barreto.
#nenhumapoesiaumaantologia
Lançamentos:
15/02, em São Paulo (na Patuscada, Rua Murat, 40, Vila Madalena).
05/03, no Rio de Janeiro (local por ser definido).
![]() |
| Já em pré-venda. |
13.1.20
9.1.20
6.1.20
Esqueça os famosos
Para dona Euza, Cristina e familiares
do JC
Você conhece algum escritor famoso?
Foi o que me perguntaram quando participei, em 2018, de um
dos eventos ligados à Feira Literária de Passos, minha cidade natal. A pergunta
seca foi o ápice de uma participação tensa. Acompanhem.
Eu falava com alunos do ensino médio que não conheciam nem meus
livros nem meu blog, na realidade, não sabiam nada de mim. Quando era para ser
astro de um evento, me vi um zé-ninguém. Como sair daquela situação? Abri O
bichano experimental (Editora Patuá), livro que lançaria no dia seguinte, e,
apostando no humor como um bom jeito de iniciar o papo, li uma crônica a meu
juízo engraçada. As garotas e os garotos sequer ensaiaram um sorriso.
Minha única certeza era de que a conversa deveria servir-se
da literatura, então pensei em ler outra crônica do livro. Adolescentes gostam das
coisas que dialogam com seus calores. Agarrado a esta ideia, li "Arranjos
fresquinhos para uma velha cantiga pornográfica e outra antipatriótica". Eles
riram, as duas meninas sentadas logo na primeira fila se deram as mãos, o
ambiente desanuviou, passamos a falar uns com os outros. A leitura certa, na
hora certa, concluí.
Passado o embaraço inicial e alcançada uma certa cumplicidade,
estava preparado para tudo, mas talvez não para a singela questão, que, uma vez
formulada, fez meu cérebro ecoar incessantemente: famoso, famoso, famoso. Com
certeza, o meu famoso seria diferente do famoso daqueles jovens. Na minha lista
João Gilberto Noll, Maria Valéria Rezende, Stella Mariz Rezende, uma parte da fina
flor da literatura com quem mantenho laços afetivos. Como seria a deles? Youtubers
da hora, best-sellers de sempre, enfim, as celebridades daquela semana? Estávamos
num impasse, e eu poderia elaborar um ensaio tresloucado sobre a fama, mas não o
fiz. Ao se dar conta da besteira que eu gaguejava como resposta, sabiamente a
coordenadora encerrou a conversa.
Por que diabo gostamos tanto de famosos, dos famosos entre
os famosos, dos midiáticos, melhor dizendo? Por associá-los a super-humanos ou
a pessoas isentas das ziquiziras da vida? Hipótese medíocre, mas vai saber.
Não ligo para essa pompa incentivada pelo mercado e, de fato,
dentro ou fora da literatura, conheço poucos que se encaixariam nesse perfil. Desse
grupinho pequeno, o mais popular morreu na passagem de 2019 para 2020, o cantor
sertanejo Juliano Cezar, com quem convivi antes de ele se tornar estrela do show
business.
Não fomos os maiores amigos do mundo, mas compartilhamos
algumas mesas de bar, mantivemos animadas conversas de jovens. Sempre metido
com cavalos, o inicialmente peão de rodeios um dia me disse que seria cantor. E
foi. Em nosso último encontro, o já conhecidíssimo artista e eu fazíamos
compras na avenida da Moda da nossa Passos. Trocamos palavras amáveis, falamos
de sua mãe e da Cristina, sua irmã e (ela sim) minha amiga, demo-nos um abraço.
Ele era o cara humilde e educado de sempre e, mais importante, ainda sonhava.
Não acompanhei de perto a vida artística do Juliano, não
gosto muito do sertanejo, principalmente do mais recente, mas sua carreira se
meteu na minha vida. Conto.
Certa vez, no meu trabalho, recebemos por duas semanas um
consultor americano. Era um senhor boa praça, fácil de lidar. No início da
segunda semana da consultoria, perguntei a ele o que havia feito na folga. Mórmon,
descobrira onde era a sua igreja. Além disso, passeara pelo calçadão de
Copacabana e, principalmente, assistira a programas de televisão. Na
programação dominical, ouviu algumas músicas agradáveis, com um quê da música country americana. Anotara o nome de um
dos cantores, era o Juliano. No final do expediente, fui com ele a uma loja
comprar discos do meu amigo.
Senti orgulho daquele moleque, de maneira alguma por ele ter
sensibilizado um ouvinte estrangeiro; fiquei feliz ao constatar que o JC — não
o homem do palco, não o apresentador de televisão, não o famoso, mas o velho e
bom Lagartixa — realizara seu sonho de ser cantor. Boa, garoto!
Se pudesse voltar ao papo com os estudantes, diria que não
há escritor famoso, há escritores. Muitos, assim como Juliano Cezar fez com a
música, firmaram cedo seu compromisso com a literatura. A rapaziada deveria
procurar por eles.
3.1.20
23.12.19
Uma senhora primavera
Sou um cronista
bem fajuto. Digo isso porque são raras as minhas crônicas que se rendem a
alguma efeméride. Chega o dia das mães, não escrevo nada a respeito; vem o dos
pais, a mesma coisa. Isso sem dizer que não fiz a crônica de ano novo e não
farei a de Natal. Não sei explicar os motivos. Se houver algum psicólogo de
plantão, aceito palpites, diagnósticos, conselhos e até mesmo algum remedinho.
Dito isso, esta
será mais uma crônica a não celebrar o Natal, mesmo estando a dois dias da
noite da ceia, da Missa do Galo e, o mais importante, da troca dos amigos
ocultos. O mais importante são os presentes? Sintam, leitores, como a questão
do Natal me pega de jeito. Fico tão chateado com essa imposição de dar presente
que acabo me esquecendo de que o importante, o importante mesmo, é comemorar o
nascimento de Jesus Cristo, aquele judeu que, tendo vindo ao mundo há 2019 anos,
mudou o rumo da história.
Como não será
uma crônica de Natal, qual será seu assunto?
Ah, sim, posso
falar a respeito desta primavera que, pelo menos na primeira quinzena de
dezembro, segurou o verão, não o deixando chegar antes da hora. Isso é uma atitude
digna. O Rio de Janeiro esteve uma delícia, nem liguei o ar-condicionado para
dormir. Meu bolso e meu nariz, que não ficou ressecado, agradecem.
A oposição no
Brasil deveria aprender com esta primavera e espanar o calor da ignorância que
tomou Brasília, que tomou o Brasil. Ora, dirão, esta primavera só está assim
porque houve um El Niño ou uma La Niña ou porque as geleiras dos árticos afracaram-se
todas ou porque uma borboleta bateu as asas numa floresta chinesa. Mas eu
contradigo: não faltam motivos para nossa oposição esfriar o verão desse
desgoverno. Aliás, não só a oposição, o que nós estamos fazendo de concreto? O
engraçadinho responde: “providenciando a ceia”; mas não estou falando disso.
Estou falando de jantarmos as ruas, de fazermos política com presença física. O
bravão ameaçou descer o cassetete (no mínimo) em que fizer essas chilenices, equadorices,
bolivianices, colombialices aqui nas terras da fartura. Estou ciente, mas, se
mantivermos os braços cruzados, o verão político nos derreterá.
Por meus belos
olhos, exagerei. Não escrever a crônica de Natal, paciência, mas vir com
assunto tão duro e indigesto já é falta de respeito. Peço-lhes perdão. Vou
escrever sobre uma coisa leve. Enquanto isso, podem continuar fritando as
rabanadas ou embrulhando os presentes (compraram o meu?) ou, olha como me
corrigi em três parágrafos, elevando suas preces a Cristo, razão única do Natal.
Prometi leveza, vou a ela, ainda que com alguma erudição. Vocês sabem que a referência ao fato de o bater de asas de uma borboleta na China ter a capacidade de modificar a intensidade da primavera aqui não é poesia, não sabem? É uma metáfora usada por Lorenz — um dos formuladores da teoria do caos, campo razoavelmente novo da física — para explicar o princípio de sua teoria. Em modo rasteiro, a teoria é a seguinte: “Uma pequenina mudança no início de um evento qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro[1]”. Pois bem, se vale para uma borboleta e para lugares tão distantes, China e Brasil, podemos atualizar a metáfora e torná-la mais próxima de nós. Fica assim: quando uma menina garganteia na Suécia, um beócio tonteia no Planalto Central.
Prometi leveza, vou a ela, ainda que com alguma erudição. Vocês sabem que a referência ao fato de o bater de asas de uma borboleta na China ter a capacidade de modificar a intensidade da primavera aqui não é poesia, não sabem? É uma metáfora usada por Lorenz — um dos formuladores da teoria do caos, campo razoavelmente novo da física — para explicar o princípio de sua teoria. Em modo rasteiro, a teoria é a seguinte: “Uma pequenina mudança no início de um evento qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro[1]”. Pois bem, se vale para uma borboleta e para lugares tão distantes, China e Brasil, podemos atualizar a metáfora e torná-la mais próxima de nós. Fica assim: quando uma menina garganteia na Suécia, um beócio tonteia no Planalto Central.
Caramba, não me acerto, melhor terminar por
aqui. Só mais uma coisa: de fato, hoje é o primeiro dia do verão. Esta crônica
foi escrita antes, nem sei como o dia estará no instante em que estiver sendo
lida. De minha parte, estando de um jeito ou de outro, ainda torcerei pela
primavera; pela primavera política principalmente.
[1]
“O que é a teoria do Caos?” — em https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-e-a-teoria-do-caos/
(pesquisado em 12/12/2019).
22.12.19
15.12.19
9.12.19
Minha filha, eu e uns bichos estranhos
Um besouro desses comuns, o escaravelho, quando cai de
pernas para o ar, é um deus nos acuda. Imagino que todos já viram uma cena
dessas. Eu pelo menos vi muitas, primeiro, na fazenda de minha avó, depois, já
crescido, na de meu irmão. Na verdade, até mesmo em casa, quando a cidade em
que cresci era menos urbana do que é hoje. Confesso que nem sempre salvei os pobres
coitados.
Parto do princípio de que um besouro naquela situação não é
capaz de se virar, de “pôr-se de pé” e, enfim, levantar voo a caminho de seus
afazeres. O afazer que garante a sobrevivência de um escaravelho é formar uma
bola com bosta de cavalo para enfiar num buraco na terra e, então, protegido,
se alimentar da iguaria. Diga-se que os besourinhos que saem dos ovos deixados
numa bola dessas nascem com o alimento garantido. Espertos os besouros. Sábios.
Sábios ou não, de pernas para cima tornam-se indefesos. O
interessante é que aqueles que não ajudei, na manhã seguinte, nunca estavam na
varanda ou no quintal onde os encontrara na noite anterior. Eles acabam se
virando? São devorados por cachorros, gatos, ratos, lagartixas e até por tartarugas?
Sinceramente não sei, mas imagino que sempre ocorra o pior. Se há uma imagem
que associo ao desespero, à derrota inglória, é a de um besouro de pernas para
cima.
Eu estou assim, um besouro desses — agonizando.
A que ponto cheguei! Percorria as ruas dessa crônica com um
pé na ciência, particularmente na entomologia, e outro na lembrança da infância
e fui bater no poste da minha fervura privada. Por favor, leitor, não me
abandone, juro que não vou confessar minhas ansiedades ou coisas do gênero.
Então o que farei?
Ora, dizer que não estou sozinho, hoje formamos um país de
besouros com as pernas para cima. Eis a metáfora do Brasil. Ó, céus! Quer dizer
que estamos assim: comendo bosta e, incapazes de nos desvirar, a mercê da fome
de outros bichos?
Que triste.
Lá pelos seus quatro anos, minha filha andava encafifada com
lobos, com o Lobo Mau para dizer a verdade. Eu e ela fomos ao zoológico para
ver um guará, a espécie brasileira. Custamos a achar o local em que ficavam e
mais ainda a vê-los, pois estavam metidos no fundo da jaula, deitados em algum
lugar, enfim, indisponíveis. De repente, apareceu um, um só. Ao avistá-lo, coloquei
minha filha no colo, apontei com o dedo e disse: “Olha o lobo”. Ela, frustrada
com o que via, em nada parecido com o Lobo Mau, respondeu: “Isso não é um lobo,
pai, isso é uma tartaruga”.
Alguns lobos não passam de tartarugas, mas os
besouros, coitados, são comidos por um e por outro. Se é que não se desviram e
alçam voos. Se é... quero acreditar nisso.
8.12.19
5.12.19
O orientador
Até aquele momento, a oficina transcorria dentro do que se
pode considerar normal. Levávamos nossos exercícios, e o orientador fazia
aquilo pelo qual nós o pagávamos: orientava. Apontava um personagem incoerente
aqui, uma frase que soava como um ruído ali, uma história sem muito sentido.
Foi exatamente a partir da história avaliada por ele como inverossímil
que o clima esquentou. O conto de Deluz era bem engraçado, mas o orientador
cismou com uma passagem na qual o personagem comprava uma besteira numa grande
loja de magazine e pagava com uma nota falsa. Para o orientador, ninguém conseguiria
passar uma nota falsa numa loja com tamanha estrutura. A discussão ficou boa,
tendo-se formado dois grupos. De um lado, os que reconheciam a impossibilidade de
aquilo ocorrer, mas também não viam no fato a menor importância para o
desenrolar do conto. Além do mais, havia o maldito “quase”, nessa perspectiva,
tudo pode acontecer, a vida imita a arte, essas coisas batidas. O outro grupo, encabeçado pelo orientador, era
irredutível. Se o conto é realista, a realidade tem de caber nele. O conto de
Deluz seria realista até a medula, então que a realidade coubesse nele.
Gerônimo, o caladão de poucos contos e de poucas
opiniões sobre nossos trabalhos, pediu a palavra para dizer que o orientador
estava mostrando um lado terrível, a ignorância. Antes que alguém reagisse, ele
continuou com seu argumento. Citou dois livros da primeira estante da
literatura mundial. Na obra de Proust, há um molecote de uns sete anos que, ao andar
pelo campo, reconhece cada uma das florezinhas encontradas pelo caminho, cada
miosótis, cada isso, cada aquilo, Gerônimo se lembrava da cena mais geral, não
dos detalhes. No entanto, era algo sem realismo algum, nenhuma criança daquela
idade conheceria a natureza tão a fundo.
O orientador ficou emudecido, seu olhar embaçou.
Gerônimo, indiferente, continuou argumentando. Victor Hugo, no monumental
Os miseráveis, criara uma situação na qual Jean Valjean ficou horas dentro de
um caixão quase todo fechado, depois foi jogado na cova e saiu da situação só um
pouco tonto. E mais, ele só foi salvo porque seu aliado e protetor conseguiu tirar do bolso da camisa do coveiro um papel importante, sem o qual o
coveiro não sairia do cemitério depois das cinco da tarde. Foi uma artimanha
para fazer o coveiro largar tudo e correr para a casa atrás do documento e o amigo de
Jean ter tempo de abrir o caixão e tirá-lo de lá. Ou seja, zero de verossimilhança.
O orientador suspirou fundo, ficou de costas para nós e deu
uns bons murros no quadro negro. Zilda e Lúcio saíram da sala às pressas. O ar
ficou carregado. Deluz olhou com raiva para o Gerônimo. Gerônimo deu de ombros.
Uma ansiedade coletiva fez o ar carregado ganhar corpo e escurecer a sala.
Um vento leve, mas barulhento, denunciou um movimento
abrupto do orientador. Ele rodopiava e, quando pudemos ver novamente seu rosto,
o orientador não era mais o orientador. Ao começar a andar em nossa direção,
percebi que quem se aproximava era um minotauro, um minotauro dilacerado e
faminto. O monstro parou diante da cadeira do Gerônimo, tomou-o pelo cabelo e o
devorou.
Retornando a seu lugar, rodopiou outra vez e voltou a ser o baixinho
e estridente de sempre. Esfregou as mãos e nos mandou embora. No próximo
encontro, fez questão de enfatizar, retornaríamos àquela profícua discussão.
Achei tudo um pouco contraditório, o defensor da
verossimilhança fazer o que havia feito, mas quem sou eu se não um reles
aprendiz. Meus colegas, em particular o Deluz, ficaram como que petrificados em
seus assentos. Para mim, ordem dada, ordem cumprida: caí fora. Carreguei a
impressão de ter participado da melhor aula de todos os tempos.
4.12.19
História curta
Conto uma história curta. Na realidade, um crime. Um crime
passional. Fim de uma paixão cujo início foi igual a todo início de uma paixão.
O casal se conheceu no carnaval, deitou-se nas cinzas, foi
morar junto num maio esplendoroso, mais esplendoroso do que qualquer outro.
Maio do amor. Maio da fúria. Maio único. E único maio.
Em setembro, ele, ao abrir a porta de casa, encontrou a
mulher encolhida no sofá. Os dois se olharam. O olhar dele carregava o brilho
do primeiro dia. O dela continha uma bruma, o amor fugira dali.
Foi o suficiente. Ou melhor: é o que se pode supor.
Ao arrombarem a porta, o que havia? Ela e ele mortos. Ela
morta por ele. Ele morto por ele. Não se sabe nada além disso.
A vizinha do lado emprestara-lhes, no início de julho, uma
cumbuca de açúcar. Considerava-os simpáticos, mas não os encontrara mais de
duas vezes.
1.12.19
28.11.19
25.11.19
O estilo sabático
O olhar
perspicaz, é isso que cobram de nós, de nós, os escritores. O meu, falo em tom
de derrota, passa longe da perspicácia, do tino, que é sinônimo de perspicácia,
da compreensão, que é um passo além. Escrevo mais sobre o que não vejo e talvez
nem exista, mas, pontuo com estardalhaço, essa crônica não é nenhum lamento,
autocrítica — que fique, no momento, no campo da política partidária —, nada
disso. O que é então?
Atrasado, bem
atrasado, tive um lampejo e, a partir dele, rabisquei uma teoria. Teoria é exagero,
vou dizer uma coisa que saltou aos meus olhos hoje, um sábado que substituiu o
resto chuvoso da semana por um sol ameno, um sábado entre outros mais de dois
mil que vivi no Rio, a maioria deles no mesmo bairro.
Antes de
anunciar a descoberta — palavra que deveria estar entre aspas, mas, como estou
presunçoso, afinal nunca lancei uma teoria, ainda que, como disse, não se trate
de uma teoria, vou dispensar as aspas —, preciso esclarecer que a tal descoberta
não necessariamente valha para Paris, para os países nórdicos, nem mesmo para a
região amazônica, quiçá não alcance São Paulo ou Niterói. Vou ser mais radical,
não posso afirmar que valha para Madureira, São Cristóvão, no máximo aconteça o
mesmo no Flamengo e em Copacabana, bairros adjacentes a Botafogo, esse pedacinho
da cidade que, segundo li por aí, está entre os mais cults do planeta.
A tese: há um
jeito típico e exclusivo de se vestir aos sábados pela manhã.
Como descobri? Observando
as pessoas e a mim mesmo. No caso masculino, aquela camiseta velha, se não velha,
amarrotada, a que foi usada num chope na quinta e depois ficou na bagunça do
quarto, esquecida de ser jogada na roupa suja, encontra razão para ser vestida
ou mais uma vez vestida. Pressionados a justificar tamanha deselegância, alguns
devem se mostrar preocupados com o aquecimento global, com a necessidade de economizar
água e evitar ao máximo o descarte de água com sabão em pó no esgoto urbano. Não
importa se falam honestamente ou se é só mais uma forma de sair pela tangente, o
fato é que, no sábado de manhã, os homens resgatam a camiseta velha ou amarrotada.
A bermuda escolhida pode até não estar amassada, mas é velha, vê-se pelo
modelo, ninguém mais traja aquele corte, aqueles bolsos, aquele tecido. No caso
do chinelo, deve-se ponderar que os homens de Botafogo (amplio para os cariocas,
sem medo de errar) não o descalçam nem para dormir, portanto, se o sábado
exigisse uma camiseta nova e uma bermuda da última coleção, o chinelo seria
exatamente o mesmo.
As mulheres continuam
cultivando a vaidade, ainda que o mundo dê seus pulos e elas estejam exigindo
igualdade de tratamento no mercado masculinizado, clamando aos céus o amadurecimento
de seus parceiros, dando banana para a caretice de uma sociedade ainda horrorizada
com a pauta multicolorida da sexualidade e tantas outras lutas políticas de suma
importância. Aqui tenho de fazer um esclarecimento. A vaidade da qual falo não
é vazia, doentia, feito aquela que escravizou uma conhecida. Conta-se que
durante a vida toda seu marido nunca a viu sem maquiagem. Se ele tinha um compromisso
muito cedo, ela se levantava uma hora antes e se embelezava, quer dizer, naquele
tempo embelezar era isso. A questão está aí. Hoje a vaidade não se dá pelo
outro — há casos que sim, paciência, é a tal exceção —, a vaidade é um estar
bem consigo mesmo. Nesse aspecto, a mulher não cai na esparrela de vestir-se do
amarrotado. Quer dizer, até veste-se, notadamente nos sábados matutinos, mas sobre
ele joga um lenço, um cinto, um brinco, enfim, um adorno qualquer para dar um
trato à informalidade. E, dessa forma, nessa hora precisa e nesse dia preciso, sai
à rua.
Chego ao ponto:
nas manhãs de sábado — ao menos em Botafogo, repito, não quero ser acusado de
um generalista inconsequente —, circulam as pessoas no extremo de sua
casualidade. Se vamos à feira; se vamos comprar um prego; se vamos procurar um
ramalhete de flores vermelhas ou amarelas ou brancas, tanto faz; se vamos à
farmácia ou a qualquer lugar, até o meio-dia de sábado, nosso traje é casual, com
ou sem um toque de vaidade.
Sábado cedo é o dia e a hora em que a rua parece
uma passarela de almas dedicadas à verdade. Por pouco não caminhamos nus, e é
certo que estamos lindos.
17.11.19
11.11.19
Conversa mole
aos Escritores de Ressaca
Tudo acontece nos grupos de Whatsapp, o que não é novidade para ninguém. Todos ou quase todos estamos ou já estivemos num daqueles alimentados em velocidade estonteante. Conteúdo? Muito “bom-dia”, “Deus te guie”, nada além. Não reclame, há piores. A fábrica de fakenews, o desfile da rudeza, o suspiro e o gemidão insistentes da pornografia, tudo encontrou no aplicativo que está destruindo a chamada telefônica o local ideal de reprodução.
De todo modo, há horas engraçadas e/ou interessantes perdidas nesse museu de nossas podridões. Tenho um velho conterrâneo que toda manhã envia uma espécie de oração, não, não é oração, é uma reflexão, um texto que os menos incrédulos ou os mais esperançosos leem e se sentem bem, fortalecidos. Não é o meu caso, mas tudo bem, é melhor isso do que um cartãozinho com passarinhos piando “boa semana, coração”. O mesmo amigo, passado o meio-dia, dispara o envio de fotos de mulheres nuas, que chega ao infinito nas sextas-feiras. Acho engraçada a situação, apesar de quase nunca ter paciência de ler o texto matinal e de checar as imagens vesperais.
Há um grupo feito especialmente para alguns escritores nos socorrermos uns aos outros quando somos atacados por aquela dor de cabeça que os porres — não os “de vinho, de poesia ou de virtude” à moda de Baudelaire — causam. As prosas são sempre inconsequentes, amáveis, o que não impede de às vezes algum de nós entrar na hora errada (de pileque e não de ressaca) e distribuir meia dúzia de sopapos virtuais à revelia. Tudo perdoável à luz de São Drummond de Lispector Ramos.
Nesse grupo, há poucos dias, levantou-se a “teoria” de que Joyce, recluso para escrever seu romance mais famoso, verdadeira bomba sobre os alicerces da literatura, não encontrava um bom título. Já em desespero, ele ouviu, de um cômodo contíguo àquele em que estava, alguém perguntar: Ouvisse? Foi o que bastou, o título do livro estava ali: Ulisses. Sim, amigos, a troca de mensagens entre escritores que podem, hoje ou amanhã, abocanhar os prêmios literários mais importantes do país, quiçá do mundo, desce a esse nível. Ou a níveis ainda mais baixos, pois, a essa piada infame, emendou-se que Joyce servira de modelo para a velhinha do “A praça é nossa”, aquela que entendia “Ulisses” quando se dizia “ouvisse” ou, como era o mais habitual e motivo dos conflitos envolvendo a personagem, “a camisinha furou” no lugar de “uma vezinha, por favor”.
Ao falar em Joyce, lembro-me de meu amigo Horácio Soares Neto, falecido antes e não por conta do Whatsapp. Pioneiro em informática no Brasil, xilogravurista e escritor, em um de seus romances policiais, acontece de o detetive, caçador e caça, numa hora de aperto, se meter em um hotel de quinta categoria nos arredores da Central do Brasil. O recepcionista, homossexual efusivo, ao se apresentar, diz: “Meu nome é Ulisses, mas pode me chamar de Joyce”.
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