22.4.23

Burnout Cívico

Prensados pelas redes sociais, a gente se vê obrigada a se posicionar o tempo todo, grande parte das vezes sobre assuntos leves ou absolutamente fora de nossa área de conhecimento ou curiosidade. O que pensamos a respeito do ajuste fiscal; da reforma do ensino; da permanência daquele ministro reconhecidamente ficha-suja; do tal novo arranjo do futebol, a sociedade anônima do futebol (SAF); da internação compulsória dessa gente perdida de si que circula pelas cidades; da mudança de sexo na infância; da inteligência artificial? Houve uma época em que, reconhecendo nossa ignorância, procurávamos ler algum artigo para pelo menos entender o que estava em jogo. Agora vem tudo num vapt-vupt de um post, sem contar a lavagem cerebral das mensagens capciosas que pousam na tela do celular – preparadas com o intuito único de angariar devotos a causas escusas.

Estou sofrendo um burnout cívico. Tomo chá de camomila? De cogumelo? Passo a andar de olhos vendados? Me chafurdo na leitura de entretenimento? Ouço apenas os discos da Xuxa? Entro com uma ação pedindo ressarcimento por assédio moral? Me entoco no meio do mato?

Ô Brasil difícil! Melhor pensar que é assim em tudo quanto é canto. Viver em comunidade, por menor que ela seja, significa embates, lutas por espaço; no fundo, disputa de poder. Tudo bem, mas, aqui na terrinha, estamos caprichando. Não é mais uma questão de participação política ou alienação, é o excesso. Sei da importância de ninguém soltar a mão de ninguém, mas, por favor, soltem a minha, preciso sair correndo. Doutor, vou ter um troço.

Corro, mas do Brasil não saio e continuarei a lutar por ele. Só que estou doente dessa contenda na qual entro com a impressão de ser um inocente útil, o zé-mané cansado. Vejo que muitos brasileiros, atrasados, decidiram pelo deixe-o do ditatorial “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Se debandaram para Portugal, Estados Unidos, Austrália, não sei mais onde, com a esperança de fugir de nossas mazelas. Essa turma se esquece de que, num mundo globalizado, o Brasil enviará, via TV, streaming etc., sua dose diária de racismo, homofobia, misoginia e entornará o caldo sujo da injusta distribuição de renda na cara de todos, todas e todes (abraçado à erudição, rechaço o novo pronome, ou, fiel à urgência do agora, abraço-o?). Não se pode esquecer do tio do zap e seu empenho em compartilhar absurdos de toda espécie. De um jeito ou de outro, como o Brasil fincará as garras nos que se ausentaram, cair fora não resolve nada. Pelo menos com isso me consolo.

Então dou de ombros? Bebo o bar da esquina? Todos os bares da rua? Os da cidade? Me caso com vinte mulheres? Assalto um banco? Vou curar berne de bois soltos em pastos abertos pela grilagem no Pará?

Talvez eu melhore fugindo das tretas impostas pelos outros e inventando as minhas. Sertanejo universitário não é nem sertanejo nem universitário. Goiabada é o melhor doce do mundo (seguido de perto pelo arroz-doce), mas nem pensem na cascão, que não chega aos pés da lisa. Os grandes designers criam coisas estupendas, lindas e cheias de sabedoria, mas ninguém até hoje fez nada tão simples e tocante quanto a estrela solitária do Botafogo. Para cada xícara de arroz, duas e meia de água quente; qualquer coisa diferente disso é embuste e má culinária. Não fosse o chifre, o de Capitu em Bentinho, o Brasil nem teria uma literatura nacional. 

Ando me identificando com a galinha-d’angola: Tô fraca!, tô fraca!, tô fraca! Que canseira.

8.4.23

O teatro da rua


Cazuza andava nas ruas, trocava um cheque, mudava uma planta de lugar, dirigia o carro, tomava um pileque (quiçá dirigisse bêbado) e ainda tinha tempo para cantar. Eu não tenho carro, os cheques sumiram do meu cotidiano (o dinheiro de certo modo também), por puro respeito à natureza não toco em planta de jeito nenhum, mas, sim, tomo meus pileques, canto o suficiente para vencer o meu silêncio e ando nas ruas, ah, como ando nas ruas. Esse exercício lubrifica as juntas e o cérebro.

Meu projeto é, meio zureta, passar todo o restinho de velhice que me sobra caminhando a esmo. O pai de uma namorada perguntava à filha se batendo perna o dia inteiro ela media as ruas para a prefeitura. Quero esse emprego, e estou disposto a trabalhar como voluntário.

O que se ganha caminhando? Além de revigorar o físico, a rua, espaço democrático da caminhada, é um teatro. Dia desses, tomei um ônibus e, como meu cartão estava sem crédito, paguei com dinheiro. Assim, antes de passar pela roleta, tive de esperar o motorista descolar o troco. Foi quando um rapaz de bicicleta deu um tapa na janela do motorista. Os dois trocaram insultos. O ônibus havia fechado a bicicleta um pouco antes, e o entregador de uma rede de farmácia (a camiseta tinha o nome da empresa) estava, com razão, revoltado. O problema é que, sem um meio de resolver a questão de forma civilizada, ele partiu para a briga e, aproveitando-se de um ponto logo adiante, entrou no ônibus e começou a esmurrar o motorista, que se defendeu valendo-se de socos e pontapés. Eu ali, entre os dois. A cidade é violenta, a chance de um deles ter uma arma é grande. Disse a eles para se acalmarem, uma frase sem eco algum.

Houve uma trégua, o rapaz da bicicleta desceu e o ônibus avançou. Só que um pé do seu tênis ficou para trás. Novamente um tapa nos vidros. O motorista abriu a porta e atirou o tênis na rua. Aconteceu então a coisa grave: o entregador tirou o boné, pediu ao motorista que tirasse o dele (o que não foi feito), pois os rostos precisavam ficar descobertos, totalmente revelados. O agora sem boné queria guardar a cara do outro para ir atrás dele, assim como queria que seu rosto ficasse registrado para que, quando chegasse o momento, o motorista soubesse quem se aproximava. Enfim, uma ameaça carregava o incidente para outro nível. Como os dois circulam sempre na mesma rua, não é nada difícil que se reencontrem.

Isso é um teatro? Sim. Quem sabe uma tragédia grega atualizada, menos sofisticada, bastante realista e com o final em aberto. Quando desci do ônibus, fiquei pensando: a briga colocava de um lado o trabalhador com carteira (supondo que a empresa de ônibus faça tudo dentro da lei, o que pode ser uma inocente suposição) e de outro o informal, classe de trabalhador que os tempos modernos (impulsionados pela pandemia) jogaram aos borbotões no mercado e principalmente nas ruas. Naquele momento, o dono da empresa de ônibus e o da rede de farmácias talvez estivessem preocupados com um empréstimo contraído ou com um contrato meio frouxo (do ponto de vista legal) com alguma instância de governo ou com uma compra que não lhes fora entregue. Tinham lá suas preocupações (boas e más) de empresário, mas pouco se importavam com a situação de quem trabalhava para eles (seus advogados cuidariam disso, se necessário). Lavavam as mãos, a seu juízo, sempre impolutas.

Não sei se vocês se lembram de que, no começo da crônica, confessei meu desejo de virar um andarilho sem destino, um espectador atento das muitas peças encenadas no dia a dia. À medida que a escrita avançou, me perdi a tal ponto que contei uma história em que não estou caminhando. Descambei do meu propósito digamos filosófico, mas agora tento terminar com alguma coerência. Falo então de um personagem que somente a caminhada com os pés firmes (ou não) no chão pode revelar.

Na movimentada rua em que vivo, ainda existe um orelhão. Fica na parte larga da calçada (um prefeito estreitou tanto as calçadas, em benefício dos automóveis, que em alguns de seus trechos nem namorados conseguem andar lado a lado, de mãos dadas) em que há uma banca de jornais, uma pequena galeria comercial e uma loja de hortifrutigranjeiros. Enfim, é um ponto agitado. Não é raro eu passar ali e encontrar um homem (entre quarenta e cinquenta anos) sentado no chão, com o telefone na mão: o fio esticado, a parte do microfone bem perto de sua boca, o alto falante longe da orelha. O tempo todo ele fala, fala, fala. Decerto tem algum problema mental, o que não importa a essa crônica. O fato é que, ao falar, ele mostra não ter nenhuma intenção de ouvir. Aquele homem em monólogo é a síntese de nosso tempo. 


27.3.23

Guardem para mim

Sou desmemoriado. Não tanto na realidade. Para algumas coisas, a cabeça funciona. Um amigo no trabalho sempre fala assim: “Alexandre, contando com sua boa memória, como foi que de uma outra vez resolvemos essa questão aqui, ó?” Não raro, sei responder. No entanto há instâncias inalcançáveis.

Nomes, por exemplo, eu os esqueço bastante. Puxei a minha mãe, a quem eu criticava por isso. Mãe, não é Flora, é Flórida. E ela dava aquele risinho. Só não tenho o mesmo risinho sapeca de dona Haydée – por muitos chamada de Idê e, no papel, de Aidê, Ydê, enfim, de várias formas abrasileiradas ou nem tanto do nome de origem francesa –, no mais estou igual a ela. O problema com nome me atormenta por exemplo em dia de lançamento de livro. Eu obrigo quem ficar responsável pela venda a colocar um post-it com o nome da pessoa, mesmo que a pessoa diga que é minha mãe. Aliás, se disser isso, melhor sair correndo, é um fantasma. Mas, não tenhamos medo, mamãe seria o fantasma mais camarada da face da terra.

Registrarei alguns casos que estão sumindo da minha lembrança, assim vocês os guardam e, quando eu precisar – é claro que precisarei, a idade está chegando –, já sei a quem recorrer. São bobeirinhas, compreendam. É a parte afetiva da vida, e sei lá se não a efetiva também.

Lá pelo meus doze anos, eu tinha uma paquera, e ela não me dava bola. Certa vez, reunidos em torno da piscina da casa de um amigo, ela me chamou de pateta. Doeu! Mas naquele dia mesmo, numa conversa que descambou para histórias em quadrinho, ela disse que seu personagem preferido era o Pateta. Apesar dessa bandeira, nós nunca namoramos. Fiquei muito impactado pelo adjetivo.

Fomos eu e um amigo andar pela periferia de minha cidade natal. Ela era pequena, mas a divisão pobreza e não pobreza existia ali como em qualquer parte do Brasil. Eu não era rico, mas, aos olhos dos meninos do bairro, era sim. E o que aconteceu? Uma turma começou a correr atrás de mim e de meu amigo. Eles nos atiravam pedra, xingavam. Nós nos enfiamos num pasto e fomos correndo até chegar à linha de trem de ferro. Naquela época, circulavam os últimos cargueiros, um pouco depois fechariam a Mogiana e alguém surrupiaria os trilhos, bem, mas isso é outra história. Eu e meu amigo começamos a andar sem olhar para trás, certos de que os garotos continuavam na nossa cola. Além disso, seguíamos atentos a um possível aparecimento da “Maria Fumaça”, um perigo muito maior. Depois nos acalmamos. Havíamos escapado. Meu amigo então contou que um preso fugira da cadeia (localizada na Praça da Liberdade, vejam só) e que o bandido tinha uma particularidade: ele se transformava em objetos. Por exemplo, ele bem poderia ser aquele cupinzeiro bem ao nosso lado. Saímos em disparada novamente. Não fosse a fome, talvez estivéssemos correndo até hoje.

Eu tinha tosse de cachorro. Muito seca, seca demais, acho que era de cachorro grande, mas manso.

Eu peguei a bola pela direita, fui entrando em diagonal – uma jogada típica de um ponteiro do Botafogo –, driblei dois adversários, entrei sozinho na área e chutei nas mãos do goleiro. Num só lance, meu ápice e meu ocaso como jogador de futebol.

Eles bem queriam que eu fosse o Romeu da montagem da peça na escola. Minha vergonha me impediu. Tive de conviver com o ciúme de ver o escolhido, ao beijar a Julieta, beijar a menina que eu amava. Quando eu e ela íamos ao cinema, ela nem me deixava pegar em sua mão.

Fui para a primeira comunhão com uma camisa estampada, em tons azuis. Não tenho foto, mas a minha irmã mais próxima em idade dizia que eu parecia um homenzinho. Sabe, eu parava com as pernas meio abertas e os braços cruzados, numa pose de quem não seria lá grandes coisas na vida. Os pecados estavam por ser cometidos.

Minha primeira namorada não foi um porquinho-da-índia, mas eu também me enredei pelo amor assim para além do humano. Por isso, tive muitos bichos. Por isso, tive bicicletas. Por isso, me ajeitei com a solidão desde muito cedo.

Nas duas vezes em que levei pedrada na cabeça – a primeira da vizinha da casa da frente, a segunda de um amigo da rua que depois, e não por isso, foi ser padre –, eu não havia feito nada.

As duas meninas convidaram a mim e ao meu primo para irmos os quatro a uma fazenda. Não haveria ninguém lá além de nós. Puxa, era um sonho, tudo que gostaríamos. Mas não fomos, ah, não fomos. Às vezes, não tenho saudade nenhuma de meus quatorze anos.

Contei à minha tia de minha dificuldade em guardar nomes. Ela, no alto de seus noventa, noventa e poucos, me disse que tinha uma estratégia para isso. Quando encontrava alguém cujo nome lhe escapava, dizia: “Você tinha um apelido, não é?” A pessoa logo reagia ou dizendo o apelido ou negando que o tivesse e afirmando o nome. Meu nome é Alexandre, Xandão (não é de hoje, vem de muito antes de virar modinha) é o apelido. Guardem isso também, nunca planejamos o que será esquecido.

11.3.23

Coluna social de um lugar nenhum

Rautosco Ó de Liveira anda cabreiro. O nome de sua mulher, Rita, ecoa pela cidade. Rita linda, Rita linda, ouve-se de norte a sul. Ficou orgulhoso no início, e enciumado a partir de uma certa hora. Abriu-se com um amigo e prestou atenção no conselho: tome a Ritalina, meu caro, e relaxe e goze. Rautosco, injuriado, rompeu com aquele maldito. Além de não saber falar o nome de sua mulher, fez aquela alusão de que o seu problema era sexual.

 

Cornélio sofreu uma vida com o nome. De Cornélio a corno é um pulo, o que lhe custou uma adolescência terrível. Mas a maturidade chega, e com ela Cornélio esqueceu as bobagens da juventude. Virou um intelectual respeitado na pequena cidade. Do alto de sua sabedoria, não poupou os ignaros, o que alguns viram como uma espécie de vingança, uma atitude mesquinha, de gente mal resolvida. Enfim, a vida caminhava como sempre caminha, uns fazendo juízo dos outros, falando pelas costas, mantendo relações cordiais no momento de encontros. Até que... No bar da praça, um mocinho humilde, desses que vivem na periferia, mas gostam de frequentar o centro, manter amizade com os ricos, enfim, esse moço soltou que seu pai estava com um trombone nas veias. Cornélio não se aguentou, arregaçou as mangas, vestiu a arrogância costumeira e corrigiu o jovem: “Trombose, querido, trombose”. O rapaz pegou o celular e ligou o vídeo. O pai esticava a perna e dela saía o som de um trombone muito bem tocado, aliás, tão bem tocado que a turma da rua passou a chamar as pernas do velho de Raul de Souza. Cornélio ficou com cara de tacho. Primeiro por ter sido humilhado por um pé descalço, depois por não ter ideia de quem era Raul de Souza. Voltaram a chamá-lo de corno, e daí em diante doeu como nunca.

 

Cilene ficou em silêncio e mascou o chiclete como se tirasse leite das pedras. Dividia sua atenção entre mascar e ouvir. O chiclete é um negócio incrível, ela pensava. No início é doce, depois vai perdendo a doçura, mas, quando menos se espera, um docinho discreto volta à boca. Decerto ouvia menos do que deveria. Ainda assim entendia as intenções do senhor seu chefe. Quando ele deu uma pausa para beber água e encher a xícara de café velho, ela tirou a goma da boca – naquele momento sem doce de tudo – e a pregou na testa do homem. Deu as costas ao mal-intencionado e foi embora numa alegria com sabor de melancia.

 

Ifigênia ganhou o porco na rifa. Havia comprado o bilhete no intuito de ajudar a igreja, que usaria o dinheiro para adquirir mantimentos para os desvalidos de sempre. Ifigênia apostou que não ganharia o sorteio, pois nunca ganhou nada na vida. Quer dizer, ganhou o que o povo chama de pé na bunda. Melhor seria que dissessem levou um pé na bunda, mas preferiam usar, para azar do verbo, ganhar. Azar dela também, pois nunca ganhou nada e, quando ganhou, ganhou um porco. O que faria com um porco? Onde guardaria o porco? Quem sabe o devolvia à igreja e sugeria que fizessem nova rifa ou o matassem e dessem aos que se beneficiariam com o dinheiro arrecadado? Mas isso seria desprezar a sorte, essa que nunca a visitava. Comprou uma coleira – uma coleira! – e foi buscar o bicho. Era uma leitoa vistosa, que Ifigênia não sabia dizer se pronta para o abate. Ou para a reprodução. Não entendia nada de porcos. Ou por outra, não entendia nada a não ser de levar ou, vá lá, ganhar pé na bunda. Nisso era escolada, tinha título de doutora. O homem riu da coleira. Prontificou-se a entregar a porquinha onde quer que Ifigênia quisesse. Ela então pediu que ele a deixasse na porta da quitinete do Hermes. Que levasse junto um bilhete. “Hermes, seu porco vegano, cuida que a filha é tua.” Ifigênia voltou para casa feliz por ter ganhado alguma coisa na vida. A sorte da vingança lhe sorriu. Ou gargalhou.


O prefeito é um entojo, diz a voz popular. Por que votaram nele, ninguém sabe explicar. O outro, o outro era... O outro candidato, pelo jeito, não tinha empatia. Votaram no entojado. Alguns se mandaram para a roça, outros foram visitar os filhos na capital, sem contar os que viajaram para a Europa, enfim, deram um jeito de ficar bem longe da cidade. Houve de tudo, dependendo das possibilidades de cada um. Os despreocupados ou sem condição teriam de conviver com a situação pelos quase mil e quinhentos dias do mandato. Foi quando a Ritinha, casada com o Rautosco, teve a ideia de a população se aglomerar toda manhã à porta da casa do prefeito e cantar músicas de protesto, gritar palavras de ordem, enfim, chatear bastante quem os vinha chateando e, em nada sendo feito, assim continuaria. Se tudo desse certo, ele renunciaria e, descobrindo-se pessoa não grata, se mandaria da cidade. Se tudo desse certo... mas não deu. Quer dizer, deu. O prefeito não aguentou uma semana e renunciou. O vice, moço bom, apesar de se mostrar em breve péssimo administrador, tomou posse e todos viveram felizes para sempre. Menos Rautosco e Ritinha. Ele não engolia aquela história de os conterrâneos acharem a Rita linda. Não só achavam, anunciavam aos quatro ventos. Com essa dor, o enciumado surtou no meio do povo, foi internado e não passa muito bem. Ritinha agora é política, não tem tempo para assuntos domésticos e diz que entrega sem medo o marido aos cuidados do SUS.

27.2.23

Encontro de escritores

 

A C.J.M. e S.F.

Não sei o que vocês imaginam quando veem uma foto de um grupo de escritores. Eu penso em diálogos profundos, reflexões, críticas que se fazem uns aos outros, além de alguns arranca-rabos. Mas, de fato, não é bem assim, ou, quando um dos escritores sou eu, certamente não é bem assim. Se um dia vier a circular uma foto em que eu e dois escritores mineiros estamos no quase carnaval de fevereiro de 2023, vocês verão que jogávamos botão. A imagem não serve como metáfora sobre a reflexão literária ou o fazer literário, ainda que seja poética, afinal os atletas tinham entre sessenta e setenta anos.

Antes desse encontro, havia jogado botão pela última vez com meu filho mais velho, agora com trinta e três anos. Digamos que ele tivesse dez na época, portanto fiquei mais de duas décadas fora dos gramados de madeira. Isso talvez explique o meu último lugar no campeonato recente. Não foi um vexame, joguei até bem, entretanto, não sei se me elogiando ou me criticando — ou se elogiando e criticando —, o dono dos times e do estádio e anfitrião desse encontro me disse que poeta já sou, mas que, no botão, eu tenho de me esforçar bastante. Preferi me agarrar à parte ligada à poesia, porém, cá com meus botões, não os de acrílico e sim os mentais, já planejo um treinamento forte. Quero voltar lá e, além de me encantar com a variedade de borboletas que circulam pelo jardim, dar uma surra em ambos. Uma surra tão forte que os leve a escrever poemas como aqueles feitos por quem perde um amor.





13.2.23

Uma crônica pungente

 

A crônica, vocês sabem, fala de tudo e mais um pouco. E, quando lhe falta assunto, fala da falta de assunto, numa espécie de terapia a céu aberto. Os assuntos tratados por ela, desde Machado de Assis até meus colegas da Rubem, não têm limite, podendo ser uma reflexão sobre o guarda-chuva, como a de Cássio Zanatta neste ou noutro espaço, não estou certo. Ou um acerto de contas com a memória sobre as tormentas, como fez aqui mesmo e recentemente o Rubem Penz, aliás, em crônica que poderia ser lida como complementar à de Zanatta. Enfim, o cronista escreve sobre o pó da rua ou o do universo. Ou sobre a lama de qualquer galáxia.

Minha memória (vacilante) e meus conhecimentos (parcos) não resgatam, entretanto, nenhuma cujo assunto seja o pum. Peço desculpas aos mais sensíveis –aconselho-os a abandonar a leitura, não lhes fará falta (a crônica, sejamos sinceros, não faz falta a ninguém, mas felizes são os que têm esse textinho mixuruca entre seus principais esteios) –, mas vou escrever sobre o pum.

Nos primeiros cuidados com o bebê começa a estigmatização dessa autêntica e necessária manifestação do bom funcionamento do corpo. “Que pum foi esse, neném?” Daí a pouco, a própria criança passa a rir quando lhe sai o barulho trovejante, de origem desconhecida. Não é raro ver a criaturinha olhar pelos quatro cantos à procura do bicho carrancudo que berra ou zurra ou grasna ou muge daquele jeito. Como tudo se aprende, já nos primeiros anos de escola, o pum passa a ser uma grande porta de socialização. Os “punzeiros” tornam-se populares. Conheço um, hoje avô de família, que sonorizava o hino nacional. Enfim, é mais ou menos nessa época que começam a surgir teorias – que se diga: puro senso comum, sem pesquisa comprobatória. Se é barulhento – portanto, de origem evidente –, não fede e é cômico. Se é silencioso – de evidência questionável (“não fui eu”) –, é puro cheiro e trágico. Na vida adulta, chegam os casamentos e, nessa matéria, um cotidiano de combate e aceite.

A questão é que o pum, coisa tão comum, insisto, passa a ser visto como antissocial, embora, ao que parece, não seja assim em todas as culturas. Na Índia, ouvi dizer, os baixos ventos soariam livres em qualquer ambiente. Me lembro daquela piada de uma família italiana (ah, como são preconceituosas as piadas!) que se encontra num domingo de macarronada na casa em que vive o avô com seus noventa anos e meio tantã. Apesar da decadência, é o patriarca e se senta à cabeceira e, como todo velho e relho, fica alheio à conversa interminável entre os comensais. De vez em quando, ele fica meio de lado. Alguém corre para colocá-lo na posição correta com medo de que ele esteja se desequilibrando. Depois de ser “socorrido” duas ou três vezes, o nono não aguenta e reclama: “mas eu não posso nem ...?” O nonagenário não usa a palavra infantil que tenho usado, preferindo aquela catalogada como palavrão. Bobagem, não existem palavrões, mas, por uma questão pessoal, prefiro ocultá-la dessa crônica que não é daquelas das quais se possa dizer que não fedem nem cheiram.

Recentemente estive em algumas rodas de septuagenários e ouvi a confissão de que, naquela idade, perde-se o controle sobre o pum. As pessoas se sentem constrangidas, afinal é uma vida inteira de repressão e a prova concreta de que, ao envelhecer, não se é mais dono do próprio corpo. Ao mesmo tempo, é uma alegria. É o soltar a franga, o sair do armário de uma de nossas mais básicas funções, talvez a mais reprimida. Aqueles meninos porto-riquenhos, ao cantarem “não se reprima, não se reprima”, bem podiam estar mirando a turma da terceira idade e não a que se despedia da primeira.

A crônica, quando não tem do que falar, do não ter do que falar ela se apossa, repito. Algumas, no entanto, exageram. É o caso desta, que termina aqui para não perder o pouco da graça que tencionou ter.

29.1.23

Com o rosto descoberto

Mesmo tendo tomado quatro doses da vacina, mantenho algumas precauções contra a Covid. Uso, por exemplo, máscara em ambientes fechados. No entanto, em comparação ao que foram meus dias entre 2020 e 2022, estou soltinho.

Em janeiro, fui a festas de amigos. Papos descontraídos, ainda que resvalando de quando em quando nas atrocidades cometidas por aqueles afastados do poder pelo voto.

O confinamento havia me deixado meio cabreiro, com um pé atrás em relação às pessoas. Sempre gostei delas, sou bastante sociável, principalmente se me chamam para conversas em torno de abobrinhas e outros quitutes. Mas o afastamento social, num momento em que realidade e mentira foram intensas e cambiantes, fez com que, isolado, eu construísse um cenário sombrio sobre o ser humano.

Não tinha expectativa de que todos houvessem se transformado em direitistas antidemocráticos, mas temia que pudessem ter perdido as manhas do convívio social. Depois de dois anos flambado no medo, me parecia impossível que alguém continuasse falando de um gol, de um rosto bonito, daquele livro injustamente pouco lido ou de uma saudade escorchante de um tio meio doido, meio poeta. Ou que se debatesse uma polêmica inconsequente por doze horas e mil chopes e se cultivassem a ironia e até um certo cinismo.

A boa notícia: nem todos sucumbiram. Os assuntos frívolos, apesar de tudo, se mantêm vivos como sempre estiveram. Voltar à rua – compartilhar um chope, uma sessão de cinema, uma caminhada, encontrar um amigo por acaso na feira ou na porta do banco – redimensiona a vida, esta que é dura, aliás, como é desde os tempos do pecado original. Temos, é verdade, uma responsabilidade geracional: cortar o delírio direitista que não só se vale da mentira, como também cria histórias inverossímeis e as enfia goela abaixo até de gente esclarecida. Tarefa, no entanto, conciliável com a alegria.

Ainda sabemos rir e sorrir; debochar de nós e do outro. Mantemos a capacidade de argumentar sobre aquilo que ignoramos. Continuamos um pouco ingênuos, quase loucos e nem um pouco loucos.

A leveza não se perdeu, asseguro.

14.1.23

Grito

 Havia um acúmulo. Desde 2013 – com destaque para a retirada à força de Dilma Rousseff da presidência em 2016 e a eleição de um político de extrema direita em 2018 –, os abençoados de sempre preparavam o bloqueio da estrada que nos levava, aos tropeços, a uma democracia estável. Umas pedras eram jogadas ali, uma ponte destruída acolá. Os últimos quatro anos assistiram à avalanche cuja causa foram as dinamites da incivilidade e não os transtornos das intempéries.

Repito, havia um acúmulo. Mas de quê?

De desesperança. Com isso, tornou-se urgente devolver ao palco aqueles que, a duras penas, conseguiram, no período que vai da posse de Sarney ao governo Dilma (principalmente nos anos de governo do PT), um mínimo de visibilidade e voz política. Falo de negros e mulheres, da comunidade LGBTQIA+, de indígenas, dos trabalhadores, dos desassistidos, enfim, dos marginalizados de sempre, acrescidos, nos últimos quatro anos, de artistas, mesmo aqueles que tinham voz e, na concepção do país regredido à Idade Média, passaram a ser tratados como bandidos.


Foto: AP Photo/Eraldo Peres


A posse do dia primeiro de janeiro foi o grito das vozes, emudecidas, mas não mortas, da democracia. E tudo ali funcionou. Foi uma mulher preta, a catadora de lixo Aline Sousa, quem entregou a faixa ao presidente. Ela subiu a rampa do Palácio na companhia de Lula e de sua companheira, Janja, da cadela Resistência (símbolo do acampamento mantido perto de onde Lula esteve preso em Curitiba), de um cacique (Raoni), de um garoto preto e morador da periferia de São Paulo (Francisco Silva), de um professor (Murilo Jesus), de um metalúrgico (Weslley Rocha), de um artesão (Flavio Pereira), de um jovem que, por conta de uma meningite, sofreu, quando tinha três anos, uma paralisia cerebral (Ivan Baron) e de uma cozinheira (Jucimara Fausto). A voz das vozes silenciadas se fez ouvir. Todos eles (e outros tantos) seriam enumerados e chamados ao palco – “vocês existem e são valiosos para nós” – na posse do ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, ele mesmo um negro.

Basta demonstrar apreço à democracia e dar visibilidade aos carentes para garantir um bom governo? Não. É preciso melhorar a vida da população, que, no caso do Brasil, é heterogênea, indo dos trinta milhões de famintos àquela pequena porção de ricos que, sozinhos, têm uma renda superior à dos 90% restantes. É possível agradar a todos? Não. Eu espero que os avanços se deem no sentido de proporcionar as mínimas condições de vida aos mais pobres. Isso exige ações na economia e nas outras áreas e requer precisão e boa vontade dos executores das políticas.

Uma semana depois da posse festiva, que espalhou esperança aos que apostam num país diverso, inclusivo, pacífico – embora com embate de visões de mundo –, uma horda de fascistas, uns poucos crédulos, outros obedecendo a ordens (ainda a descobrir ou confirmar de quem), destruiu o patrimônio público. Não qualquer patrimônio, miraram aquele que a ideia de uma nação moderna construiu, as sedes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário desenhadas por Niemeyer. Além dos prédios, danificaram importantes obras de artes, o que, vindo de quem veio, a extrema direita, não é de se estranhar.

Enfim, vimos um nudes do Brasil cindido, esse país que não resolveu grande parte de seus problemas estruturais (racismo, privilégios de toda sorte, poder excessivo na mão dos militares, concentração pornográfica de renda etc.). Neste momento, chegamos ao ponto no qual ou cuidamos desse débito histórico ou o ataque à democracia se transformará em guerra. Dela sairá um país pior, certamente nas mãos de um autoritário.

Devo confessar, no entanto, que, ao ver a posse das ministras dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, e da Igualdade Racial, Anielle Franco, um balanço desses dias me leva ao otimismo.

3.12.22

Eternos baianos

 O sujeito que xingou Gilberto e Flora Gil, lá no Catar, já deve ter dançado ao som das músicas feitas pelo baiano (quem não?). Seu ódio é importado de grupos insanos, coisa a que se apega contra a própria história. Um dia, essa turma acordou dizendo não gostar daquilo que nos é próprio, neste país cuja formação destruiu a genuinidade original — difusa, múltipla e heterogênea —, criando outra, amálgama das culturas dos dominadores e dos dominados. Gil é a África arraigada no samba, no blues, no reggae, no jazz, no rock, mas ele também é a leitura e a apropriação dessa África pelos jovens, brancos e inquietos, da Europa e dos Estados Unidos, que salpicaram os sons de pretos com um caldo da música que, por pura imposição do dominador, chamamos de clássica.

Seria pedir demais ao rico agressor — está na Copa gastando rios de dinheiro — que pense sobre sua incivilidade a partir da História. Estranho, no entanto, é vê-lo rechaçar a vida miúda que na certa leva desde sempre. Por que se esquecer de que dançou de olho naquela paquera ao som de “Palco”, “Andar com fé”, “Toda menina baiana”, “Nos barracos da cidade”? Ele deve ter sua razão. Todos eles têm, mas imagino que muitos apenas encenem e, ao chegarem em casa, liguem o som e ouçam Gil por horas. São uma espécie de clandestinos em si mesmos, sendo assim infelizes ou, me aproveitando do octogenário baiano, “gente estúpida, ô,ô, gente hipócrita”.

 

O primeiro disco de Gal Costa a me marcar foi “Índia”, de 1973. Ali se juntavam vários mundos, de tal modo que eu, com meus 11, 12 anos, meus irmãos, um pouco mais velhos, e meus pais podíamos nos reunir e ouvi-lo. A guarânia “Índia” era cantada nas festinhas de família, e a gravação da baiana mantinha o espírito da canção, o que agradava os velhos, mas também o revolucionava, alcançando a mim, então atraído por Pink Floyd e por tudo aquilo que eu, renegando a bossa nova, o samba, o choro e os sons latino-americanos, chamava de música. Graças a esse disco, mas também a outros, como “Milagre dos Peixes ao Vivo”, de Milton Nascimento, entendi que música é música e que a MPB é tão linda quanto o rock progressivo. Essa certeza se consolidou ao me apaixonar por outra gravação de Gal, “Água Viva”, de 1978. Ali estão pequenas maravilhas, como “Folhetim” e “Pois é”, ambas de Chico, a segunda em parceria com Tom, “Paula e Bebeto”, de Milton e Caetano, a deliciosa “O gosto do amor”, de Gonzaguinha, além da canção mais bonita já feita em homenagem às mães, “Mãe”, de Caetano Veloso.

Como se vê, Gal faz parte da trilha sonora da minha vida, e eu, ao contrário dessa gente ressentida e invejosa (como o truculento agressor de Gil), não preciso me esconder para escutá-la, o que é um jeito de ser feliz. Feliz, mas me sentindo desamparado com a morte repentina de uma pessoa dessa dimensão.

19.11.22

Anotações de improviso

— O que é o mercado?

— Aquele lugar onde, entre outros, o João Sílvio vendia um Canastra daqui, ó. Oferecia também arroz, feijão, até sardinha — em lata e nacional, é verdade. E tudo, veja bem, anotado em caderneta.

— Mas é esse que anda nervoso?

— Ah, não, o nervosinho é de outra categoria. Ele não vende nada, muito menos fiado, mas ganha muito e pressiona que só.

 

Ó, Deus que não existe, dou-te algum contorno, um vulto, quiçá mãos e braços, e me aconchego em ti. Agradeço-te então a existência de Milton Nascimento. Reclamo da subtração repentina de Gal, mas também agradeço por ter-nos dado essa voz, essa beleza.

 

Estar no meio de uma torcida de futebol talvez seja a coisa mais animalesca que existe. As torcidas são violentas e comportam-se como se estivessem em guerra. Dito isso, estar no meio da torcida faz um bem danado, pois liberamos os ácidos da violência, que precisam ser descarregados de uma maneira ou outra, afinal somos violentos.

 

Será que, quando os portugueses desembarcaram aqui nesta terra, que na realidade não era uma, mas muitas, cada uma ocupada por um povo indígena diferente, houve um olho no olho entre eles e o grupo nativo com quem mantiveram o primeiro contato? Aposto que não, a espoliação requer o fingimento, e este não suportaria o enfrentamento imposto pelo olhar recíproco.


Vi um sujeito parado numa esquina, e sua postura era de quem vivia uma angústia, talvez não soubesse como chegar ao endereço a que deveria se dirigir. Resolvi ajudá-lo. Ele me disse que não iria a lugar nenhum, na realidade esperava um amigo. Já ia me retirando, quando ele me chamou. Me olhou de cima a baixo. Era a mim que esperava. (Ou a qualquer outro.)

5.11.22

Teoria e tensão

Em momentos de tensão, faço teorias sem serventia e não passíveis de testagem.

Dia desses, fiz uma que relacionava as etapas da vida ao volume de chaves que uma pessoa carrega. Até os dez anos – um pouco mais, um pouco menos – ninguém tem uma. Quando eu tinha essa idade e morava no interior, as portas estavam sempre abertas. Hoje, com o perigo em todos os lugares, as crianças nunca saem sozinhas ou, quando saem, vão ao play, de onde voltam cedo, apertam a campainha e são recebidas. Dirão que estou com visão classe média alta de cidade grande. É verdade, alguns lugares ainda são seguros, e as crianças entram e saem de portas sem chaves. Em outros, a violência é tanta que elas têm sido impedidas de ter infância. Mas não vamos por aí, fiquemos no mundo idealizado. É só uma teoria.

Entre os doze e dezoito anos, dependendo de onde se vive e da personalidade dos pais, o adolescente ganha uma chave e pode ir às baladas despreocupado, não terá de incomodar ninguém ao chegar de madrugada, embora, mal comece a destrancar a porta, encontrará a mãe (principalmente ela) ou o pai plenamente despertos. Ouvirá então, enquanto se afasta da porta: “Filho, filha, tudo bem?”. Digamos que ele ou ela esteja bem – inteiro está, claro, mas que esteja em estado de quem não bebeu demais e pode responder sem culpa: “Tudo ótimo, voltem a dormir”.

Chega-se à vida adulta, e o trabalho enche o molho de chaves: a da mesinha, a do armário, a da sala. Além das chaves do carro ou do cadeado da bicicleta e a da casa dos pais, que, à medida que envelhecem, exigem atenção especial e prontidão para socorrê-los em caso de uma emergência. Há aquelas pessoas que têm a casa do amante ou da amante, embora, nesses casos, as chaves fiquem noutro chaveiro, guardadas no fundo da pasta, bolsa ou mochila, que, por sua vez, também têm as suas chaves. Hoje existem as eletrônicas, logo o volume – se uma delas servir a muitos propósitos – pode ser menor, mas o número de portas, mesas e carros continua grande.

Um dia, a coisa regride. Aposenta-se, e muitas chaves tornam-se desnecessárias. Os pais morrem, e outras perdem a utilidade. Chega-se a uma idade na qual não se pode mais dirigir, nem bicicleta. Mesmo os amores tórridos e clandestinos acabam.

Assim, quando somos mais potentes (mas não tão sábios), carregamos muitas chaves. Eis a teoria. Tão estúpida, imagine o grau de tensão que me levou a elaborá-la (palavra forte demais? Podem trocá-la, mas dela eu não abro mão). Concebi essa risível teoria na semana anterior às eleições, então é fácil imaginar a que tensão estava submetido.

Se estou mais calmo? Os problemas estão aí, travaremos imensas batalhas para recolocar o país no rumo, em campo democrático e civilizado, mas, de todo jeito, as chaves reabriram a porta do futuro. Podemos entrar.

24.10.22

Todos os latidos o latido

Estive em Tiradentes dias atrás e, entre fantasmas rebeldes reunidos na casa de Padre Toledo e amigos mais vivos que tudo, encontrei muitos cachorros soltos pela rua. Contaram-me que um turista assim feito eu, depois de uma temporada na cidade, expressou o desejo de se reencarnar ali como cachorro. Ele não está errado, os cães são bonitos, fortes, bem tratados. Até mesmo um husky siberiano visitou a mesa em que eu e os amigos mais vivos que tudo também tramávamos revoluções, ainda que a nossa passe pelo voto que expulsará do poder o incompetente e má pessoa que desgoverna o país.


Kira e Yuki
Ando sensível aos cachorros desde que minha filha adotou dois, a Kira e o Yuki. Por conta de uma viagem que ela fez, convivi bastante com eles. Foram dias intensos. Num deles, o Yuki fugiu da minha mão, atravessou a rua sem olhar e, não fosse um menininho de uns nove anos, é possível que ocorresse uma tragédia. O garoto foi para o lado do Yuki e o tocou para perto de mim, enquanto seu avô já estava com uma toalha na mão, pronto para jogar no cachorro e fazê-lo parar. Ufa. Mas, fora essa excepcionalidade, estive a mercê do jeito de ser dos caninos. Dormem, pulam no colo, pedem às vezes carinho e o tempo todo comida, se atacam uns aos outros (brincando, imagino). Latem, claro, mas tem hora até que parecem prontos a falar (conheci um que só andava sobre duas patas, achando-se bípede). Ouvir, ouvem, e com atenção (Freud deveria conviver com cães). Não é raro também enfrentarem (querendo brincar?) aquele sujeito — no caso, eu — que está sentado o dia inteiro, com os olhos no computador, trabalhando. Na verdade, eles não sabem o que é trabalho.

Tive cachorro na minha infância e depois mantive relações razoavelmente distantes daqueles que viveram ou vivem na casa de meus pais e de meus irmãos. Gosto dos que desfrutam dos quintais, com espaço para correr, dormir sob uma árvore, caçar uns bichinhos menores. Acho que desse modo se aproximam do que na essência eles são, sem a humanização forçada no convívio dentro de casa.

Em sua crônica do dia 15 de outubro, ao contar a cena a que assiste numa praça em Lisboa, enquanto trabalha em um café — uma crônica em que enaltece a segurança naquela cidade, naquele país —, Antonio Prata inicia o último parágrafo assim: “O objetivo final da civilização deveria ser o tédio. O tédio é o antípoda da barbárie.” Kira e Yuki (também os finados Tilu e Pirro e os velhinhos Popesco e Tobias) vivem entediados, não tenho dúvida disso. Sempre associei esse tédio a sofrimento, mas, depois do Prata, revejo meu ponto de vista: os cachorros já estão onde um dia almejamos chegar.

10.10.22

Cortando prego

No domingo passado, o resultado das urnas deixou meio mundo abestalhado. No caso da presidência, a ordem dos candidatos seguiu o que vinham apontando as pesquisas, mas o percentual do atual ocupante do cargo foi maior do que o esperado. Não creio que tenha sido um erro, assistimos, isso sim, a um antipetismo abandonar na última hora a terceira via, particularmente a canoa de Ciro Gomes, que teve menos votos do que se indicava. Nas casas legislativas, particularmente no Senado, a extrema direita chegou com força, dando mandato a figuras que parecem mais caricaturas do que outra coisa, razão pela qual são perigosas. A pauta moralista terá representantes vociferantes.

Na segunda-feira, oscilando entre o desânimo do resultado e a necessária força para encarar os dias até o segundo turno, passamos a trocar conversas, nos fazer afagos, nos empurrar adiante. Haja prego para cortar! Os últimos quatro anos foram trágicos, este mês não será nada fácil, e os próximos quatro anos, independentemente de quem seja o vencedor, serão igualmente difíceis. É claro que, se o mandatário de plantão ganhar, seu projeto de destruição se alastrará, pois os boquirrotos da extrema direita ajudarão a passar a boiada enquanto nós estaremos lutando para nos manter vivos (fugindo de bala das armas que estarão espalhadas por aí), em pé, com alguma força que nos leve ao futuro.

Tenho filhos jovens e, no embalo da desilusão momentânea, soltei um “caiam fora”. É uma saída covarde, mas viver num país que já é pária mundial — e será pior ainda num possível segundo mandato do despresidente — é duro demais.

Se a oposição ganhar, com todos os problemas a serem enfrentados (a situação social herdada, um congresso hostil e as pressões das várias forças coligadas), travaremos embates que poderão clarear o futuro imediato (combate à fome, às diferenças de renda, definição de uma política de segurança e tantas outras) e — colocando a questão ambiental como o ponto nevrálgico das decisões políticas — também o mais distante. Nesse cenário, gostaria de ver meus filhos, também a mim, incluídos.

Os jovens têm papel preponderante no que está em jogo, no que virá depois e devem pensar bastante antes de escolher. O atual despresidente não deu sinais, foi claro e evidente: não gosta de trabalhar, menospreza a vida (basta observar suas atitudes durante a pandemia, ou sua crença de que as armas diminuirão a violência, uma inverdade que a ciência tem demonstrado à exaustão), faz do espaço laico do estado um altar para várias religiões, que, por sua vez, cultuam um deus terreno demais e se aprazem com as benesses do dinheiro. E, ainda que a economia dê sinais de melhora (inflação e desemprego em queda), sua gestão lançou quase metade da população do país na fronteira da fome (impossível fazer as três refeições do dia), da qual trinta e três milhões não têm o que comer. Ele alardeia muito o auxílio dado aos mais pobres, mas foi uma ajuda arrancada a fórceps (assim como a compra das vacinas contra a Covid-19), com empenho do legislativo e pressão da sociedade. A situação da educação, por sua vez, é calamitosa.

Os mais velhos, além de considerar tais aspectos, temos de nos lembrar de que o caminho trilhado por este país tem sido árduo. Carregamos passivos históricos (a escravidão que é presente no racismo, a impunidade aos que transgrediram as leis e, em nome de uma ditadura, torturaram e mataram), então não é mais justificável que demos a direção do país àqueles que exaltam a sombra e por ela transitam. Menos justificável ainda fazer isso por meio do voto, direito conquistado a duras penas.

E a corrupção? Nosso sistema político, em vez de inibir, facilita os desvios. O PT transgrediu, e muita gente foi punida. Lula é inocente (e não há meio termo nisso, a despeito do que eu ou você possamos pensar). O despresidente também é, ainda que haja casos de corrupção em seu governo (na compra de vacinas, no Ministério da Educação, no tal orçamento secreto) e sobre ele e sua família pesem suspeitas fortes, quase evidências. Portanto essa questão grave, da corrupção, será combatida aos poucos, com a nossa pressão. Acreditar que, nesse aspecto, o lado hoje no poder é bom e o outro, ruim, é ser ingênuo demais. Eleitores ingênuos geram déspotas, e não queremos mais isso. O voto não é tudo na democracia, mas é o seu feito simbólico e o momento evidente de nossa participação. Se vamos votar entre o obscuro e aquele que pode nos dar chance e fôlego de mudar as coisas, vamos com o segundo, o que está na oposição.



26.9.22

Sobrevoo em Poços de Caldas

 Aos poucos, vou dando meus passinhos fora de casa. Ainda uso máscara e mantenho os braços prontinhos para uma nova dose da vacina contra esse vírus furibundo. Venha quando quiser, garota. Montado nessa coragem contida, fui à décima-sétima edição da Flipoços (Feira Literária de Poços de Caldas), cujo patrono foi, no aniversário de 50 anos do antológico Clube da Esquina, Milton Nascimento.

Gosto de ver os ônibus escolares desembarcarem meninos e meninas pequenos e outros já adolescentes e acompanhar a sua movimentação. Falam muito e se encantam com tudo. Em Poços, com um vale-livro nas mãos, eles foram à compra. Sem me apoiar em nenhuma ciência, acho que a moçada correu para os livros de fantasia e cards de não sei quê. Ah, não vou reclamar de suas escolhas, exigir que prestigiem a alta literatura, prefiro deixá-los na deles. Se são picados pelos livros, hoje leem isso, amanhã aquilo.

Festas e feiras literárias se fortalecem com mesas pensantes, convocações e compartilhamento de beleza. Na Flipoços, houve encontros importantes, como aquele que reuniu os responsáveis por eventos similares espalhados pelo Brasil. A Fli do Xingu, a de Pernambuco, a do Cerrado de Minas, o Fórum das Letras de Ouro Preto, a (quase septuagenária) Feira do Livro de Porto Alegre e a Bienal de Minas estavam lá na companhia de Gisele Ferreira, a idealizadora da feira anfitriã. Levantaram como proposta criar uma espécie de federação e, assim, ganhar força política para pressionar as várias instâncias do Estado e se aproximar da iniciativa privada.

Na Flipoços, tive notícias do Polígono Sul-Mineiro do Livro, esse entrelaçamento de pessoas e instituições que, naquele espaço de Minas, a minha Minas, faz um esforço tremendo em prol da leitura. O Polígono armou mesas para pensar a leitura e premiar leitores da região que se destacaram ao longo do ano. Acompanho o que essa turma faz, é espetacular.

A grande estrela da feira em ano musical foi Ney Matogrosso. Ele participou, num dia, da mesa de lançamento de sua biografia e, no outro, acompanhou a exibição do documentário sobre sua trajetória, feito por Felipe Nepomuceno, e respondeu a algumas manifestações da plateia. Diante de uma figura que, mais que um ídolo, parece um farol, sobrou emoção, e muita gente não conteve as lágrimas. Alguns, como eu, estavam assim porque esse senhor de oitenta anos carrega uma ideia de país pela qual lutamos e que, hoje, está ameaçada. Outros tinham em Ney a força que lhes deu ar e coragem. Um homem, no meio do caminho entre a juventude e a velhice, pediu a palavra. Não queria dizer nada, apenas que Ney o autorizasse a se aproximar (de máscara, porque Ney anda de máscara) do palco e beijar sua mão. Naquele beijo, de um, o beijo de todos.

Em feiras e festas, os bastidores são tão importantes quanto os eventos. Na secretaria, onde tomávamos um bom expresso e beliscávamos um delicioso docinho de leite, trocávamos ideias e livros, firmávamos amizades, prometíamos encontros. Não há como não registrar como as responsáveis (equipe feminina, o que é digno de registro) pela organização do evento nos acolhiam de forma eficiente e amorosa. Coisas de Minas, posso garantir.

Tive encontros com gente não ligada diretamente à feira. Procurei o Pedro César, músico e ativista de Poços, que eu havia conhecido no ano passado no Rio. Tomamos algumas cervejas, e ele me apresentou a outros jovens – à Carol, por exemplo, que papeou comigo enquanto eu tomava um chope num dia e, no outro, papeou comigo também tomando um chope  – e me aproximou da esperança, esse sentimento que nos estão sequestrando. A intermediação da mesa de que participei foi feita pela Cacá D’Arcadia, outra jovem bem preparada e que disputa, pelo PT, uma vaga na Assembleia de Minas.

Todos os encontros foram precedidos por um não previsto. Cheguei à cidade às cinco da manhã, e Danilo estava na rodoviária para me levar ao hotel. Conversador, ele logo disse que não era da cidade, havia nascido não muito longe dali. Perguntei onde. Em Passos. Minha cidade, ora! Ele então perguntou de que Brandão eu era, já que na terrinha há pelo menos dois ramos (meu pai era de um, minha mãe do outro). Antes que eu respondesse, ele quis saber o nome de minha mãe. Naquela altura, Danilo apostava em quem ela poderia ser. Quando falei Haydée, ele disse que era filho da Dionésia. Ah, a Dionésia! Ela começou a frequentar nossa casa para fazer as mãos e os pés de dona Haydée e, nos feriados e férias, de não sei mais quantas mulheres. Mas Dionésia ultrapassou essa função e ajudou minha mãe no joguinho de loteria, no pagamento dos boletos, nisso e naquilo. Muitas vezes, fazia companhia à minha mãe, almoçava com ela, papeava. Enfim, Dionésia doou parte de seu afeto a nossa família, e nunca conseguiremos agradecer tamanha generosidade. Esse encontro com o Danilo e, de quebra, com meu passado anunciava dias lindos, exatamente como foram.

5.9.22

O que fazer durante o horário eleitoral

Entenda aqueles minutos que invadem a programação da televisão ou do rádio como um chamado. Assim, anote o nome de um candidato a deputado estadual, de uma rara jovem lançando-se como deputada federal, de um ou uma senadora em reeleição e dê uma pesquisada para saber um pouco mais sobre eles, pois a aparição relâmpago é insuficiente, não ajuda em quase nada.

Ou fuja à análise mais detalhada do aspirante a legislador, sente-se e ria. É uma comédia, não resta dúvida. Não só há nomes estranhos alguns remetem à profissão, ao negócio, ao fato de o indivíduo ser pastor ou policial, outros parecem apelidos forjados no mais escandaloso bullying —, como também “plataformas” de rachar o bico. No Rio, a credencial de uma determinada candidata é ser irmã de um sujeito cujo mandato acaba de ser cassado por ele ser acusado, entre outras barbaridades, de pedofilia. Quando se para e se toma fôlego, o riso estanca.

A eleição levada como esquete de circo caça-níquel prenuncia um péssimo futuro. Não seria espantoso assistir a um engolidor de fogo devorar a luz, pois é o que faz grande parte desses títeres de donos de partidos. Aquela máxima dos tempos da ditadura — o último a sair apague a luz — se voltou contra nós; não saímos, resistimos, mas um saudosista daqueles tempos não só apagou a luz, mas também arrebentou todos os fios, danificou a caixa de luz, explodiu as usinas.

Melhor então, quem sabe, se distrair com outra coisa. Um olho na TV e o outro no passado. Por favor, só não se engane com o papo de que naqueles tempos tudo era melhor. Leia “Vila dos Confins”, de Mário Palmério, e veja como eram as campanhas eleitorais quando o Brasil era rural e nem em sonho se cogitava a existência de urnas eletrônicas. No romance, um cabo eleitoral se mete no Brasil profundo com a função de agregar os grandes fazendeiros em torno da candidatura para a qual trabalha. Se o coronel fecha um acordo, bem, todos os seus empregados o acompanham — o famoso voto de cabresto. A turma que defende foto do voto ou voto manual deseja a volta daqueles tempos, bons para eles e para mais ninguém. Na realidade, sonham com a época em que nem eleições havia ou só havia, sob muita vigilância, para os cargos menores. São eles os restolhos de uma ditadura que não foi, como deveria, superada, morta e enterrada.

O tempo que o horário político sequestra de nós é propício a rememorar a infância, aquele mágico período em que, retirando alguns probleminhas, problemas ou problemões, ninguém se angustia quanto aos rumos do país, só isso vale um tesouro. Mas insisto: ontem não era melhor que agora, nem hoje será melhor que amanhã, ainda que, sim, houvesse coisas muito boas que se perderam, assim como algumas se perderão daqui para o futuro. Nesse interregno no qual uma horda de siderados quer nos convencer — seguindo um roteiro além de ruim, manipulador — de sua capacidade de resolver todos os problemas do país com soluções simplistas, malabarismos, se é para se dar o direito a um pingo de alienação, entre pela porta de Shangri-lá.

Que tal preparar um milk-shake para compartilhar com as crianças? Ou se aproximar de seu amor e dizer-lhe o quanto a vida é melhor em sua companhia? Ou roubar desse amor um beijo, um arrepio, e oferecer-se de corpo e alma ao corpo e à alma dele? Falar com um velho amigo, aquele que nunca ligou para política e só pensa em futebol? Ah, nada como uma discussão sobre futebol!

Há, ainda, o caminho dos pedregulhos, ou seja, com um paralelepípedo nas mãos, tomar as ruas com a intenção de derrubar tudo ligado a essa gente: sedes de partidos, congresso, assembleias, os palácios modernos de Niemeyer. Confesso que de vez em quando tenho vontades assim, mas a coisa só se acertará a partir da política. São falsos esses que, estando nela, vendem a ideia de que não estão.

Preste atenção no horário eleitoral, ainda que só de vez em quando, pois, entre tantos paspalhos, alguns defendem causas urgentes, pertencem a grupos marginalizados, precisam ganhar voz. Alguns carregam uma vela.

31.8.22

“O SOL PELO BASCULANTE” (Urutau, 2022), poemas de Alexandre Brandão



Basculante é um tipo de janela ou, como se dizia antigamente, um “vitrô”, em que uma parte se abre para cima e a outra para baixo, ambas niveladas por um eixo horizontal. É por onde entra a claridade num ambiente. Pode entrar também o sol, quando houver sol. É nesse lusco-fusco que dançam os poemas de “O sol pelo basculante”, inspirada coletânea do poeta Alexandre Brandão.

Produzido durante a pandemia e em pleno confinamento, o livro é quase um relato das visitas que o autor realizou naquele período aterrorizante por que todos passamos há não muito tempo e cujas cicatrizes ainda carregamos. Talvez pela reclusão forçada, talvez pelo silêncio diante do espanto, talvez pelo olhar que se voltou para dentro de si, talvez por tudo isso e mais um pouco, o autor realizou visitas e as contou em forma de poesia. Que visitas?, alguém poderia perguntar. A resposta: à infância, aos amigos, ao passado não tão distante, aos amores, à cidade natal, ao silêncio, ao fazer poético. E ao futuro, por mais paradoxal que isso pareça.

O poema “A gambiarra da garotada” traz uma beleza doída: “Era terço de vó, feitiço de vô promessa de mãe, revolta de pai / e nada de nada de o escuro ralear / e nada de nada de a luz inflamar. Escuro em casa, escuro na rua a cidade, um breu; o país, um alcatrão.”

“Primeira comunhão” fala da idade das descobertas e do suplício de não saber o que fazer com elas: “Eram tempos de missa / de pecados redimidos / de homens sisudos / de mulheres sóbrias. O menino tomou a comunhão. Pelas laranjas roubadas do vizinho, mil ave-marias / não se falou o que fazer com o desejo por dona Salete / não se falou o que fazer da alegria.”

“A montanha e os bichos” é um soco no estômago dos “você sabe com quem está falando?”: “Se a montanha / pensa, pondera, sopesa, / fatalmente conclui: a formiga e o homem têm a mesma estatura. / Para escalar a menor das montanhas, / o homem precisa de corda, treinamento, preparo físico. / A formiga, não. / Pode ir por dentro, comendo a terra, ou / por fora, como se, intacta, escorresse. / Se a montanha aprende, logo sabe que, embora minúsculos, / o homem e a formiga não são a mesma coisa. / Eficiente, a formiga / bruto, o homem. / Mas é possível que a montanha se interesse apenas pelos pássaros.”

“Em casa” remete diretamente ao confinamento durante a pandemia: “Hoje não desci à portaria. Não sei o que é do porteiro. / Não sei o que é do portão. Não sei o que é do asfalto / sem o peso apressado de ônibus e tensões.”

“Papo de branco” dispensa comentários; sua pungência fala sozinha: “Não vai acontecer com você / muito menos com seus filhos / (Não aconteceu com seus pais). / Portanto, fique calmo / observe o céu, / cheire a flor / cante para um deus todo seu. / Dance com a volúpia da sorte / dois pra lá, dois pra cá e nenhuma culpa. / O pé do soldado, o joelho do meganha — repara — / são atraídos pela pele preta.”

É clichê dizer que poemas emocionam aqueles que gostam de poesia. “O sol pelo basculante” me emocionou. E eu não estou nem aí para os clichês.

Mário Baggio (1), em seu perfil no Facebook

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(1) Escritor, redator, revisor e produtor de conteúdo, é autor, entre outros, de "Antes de cair o pano" (Editora Urutau, 2022) 

27.8.22

De última hora

A caminho da mesa no fundo do bar, o cronista comanda um chope e uma porção de amendoim ou azeitona, o que for mais fácil. Senta-se de frente para a porta, pois não quer perder um só acontecimento. O garçom deixa seu pedido e volta para perto do outro garçom. Ambos se colocam bem na entrada, um à direita, o outro, cotovelo apoiado no balcão, à esquerda. O da direita mexe no celular, o outro olha a rua. O cronista pensa no distanciamento, na incomunicabilidade. Sorve um bom gole do chope, que está bem tirado e na temperatura ideal. Ele gostaria de desejar muita coisa na vida, mas, no fundo, o chope é o máximo a que chega. Fora isso, cultiva um nada de vaidade, que é uma espécie de desejo insaciável.

Bate o dedo indicador na mesa, mas, sem produzir som para não chamar a atenção do garçom, não precisa dele. O dedo, obedecendo a uma música que só toca dentro do cronista, dança. O garçom do celular se aproxima do outro, mostra qualquer coisa na tela e os dois riem. Quer dizer, o que não se desgruda do aparelho ri desbragadamente, o outro, aquele que deixou o chope e a azeitona na mesa, é mais contido, talvez tenha sido apenas educado.

De vez em quando, ao passar pela calçada, alguém cumprimenta os garçons ou o atendente de balcão. Uma jovem senhora avisa que virá mais tarde, tem uma amiga do interior em sua casa e faz questão de que ela experimente as pataniscas de caranguejo. O cronista se dá conta de que, apesar de frequentador assíduo, jamais comeu daquela iguaria. Quando vai além da azeitona e do amendoim, repete o peixe à milanesa, acompanhado de arroz não com brócolis, mas de brócolis — uma licença poética, uma delícia culinária. No bar, estão ele, os dois garçons — um distraído com o celular, o outro retraído, talvez pensando em boletos, problemas familiares ou cultivando nostalgias —, o atendente do balcão e a turma da cozinha, gente que a despeito do pouco movimento tem muito trabalho; cortam cebola, descascam e amassam alho, limpam carne, preparam a massa do bolinho de bacalhau, fazem sabe-se lá o que com o caranguejo, recheiam pastel, amolam facas, cantarolam. Da mesa, é possível ouvir um pouco da comportada algazarra.

Ainda hoje deverá enviar a crônica à revista. Não tem ideia do que escrever. O bar vazio vezes o vazio daqueles poucos homens à espera dos clientes vezes o vazio do próprio cronista resulta em nada. Pede mais um chope e um novo potinho de azeitona. Chega a pensar em beber uma dose, uma cachaça mineira, mas desiste, afinal, há uma crônica a ser escrita. Uma crônica a ser escrita e nada a dizer. Ou por outra: há o que dizer. O governo continua péssimo. O amor não se cansa de bater com a cara na porta. A comédia toma conta das ruas, das mesmas ruas que servem de cenário à decadência. Sim, não falta assunto, mas o cronista não quer lidar com eles. Sua pretensão é observar e falar do que pouco se revela.

Dado o prazo apertado e a delícia do chope que o deixará mais tempo no bar às moscas, talvez não lhe reste outra saída a não ser a de escrever a crônica da falta de assunto. Chegar a esse ponto é a derrota, pelo menos a dele, que não é nenhum Braga ou Mendes Campos; nenhum Pelé das letras.

Pede o terceiro chope e, vá lá, um chorinho de uma daquelas de Salinas. Antes de a cachaça descer goela adentro, deixa-a descansar na boca e formigar a língua. Poderia escrever sobre os pequenos prazeres, mas quem está para pequenos prazeres? Os garçons se aproximaram um do outro e, claro, acompanham um grande acontecimento que se passa na tela do celular. Quando nada acontece, alguma coisa acontece, ainda que de forma mentirosa, no mundo virtual.

Morde com força a azeitona. No impacto dos dentes com o caroço, uma obturação leva a pior. O cronista a recolhe e embrulha-a num guardanapo de papel. Antes de enfiar no bolso aquela bolota branca, passa a língua no buraco do dente e sente o gosto do fracasso, prato mal cozido e sem tempero. Apesar disso ou exatamente por isso, pensa ter encontrado uma crônica. A tarefa será escrevê-la com humor, um mínimo de humor.

Encosta-se no balcão a fim de pagar a despesa, mas resolve pedir, para tomar em pé, outra dose e mais um chope. A saideira. O garçom do celular se aproxima e lhe mostra aquilo que o fez rir tanto, o tempo todo. O cronista pega o aparelho, firma-o bem na mão, afasta o braço e, aos primeiros segundos do vídeo, chora.

13.8.22

Joaquim

Hoje é Dia dos Pais, e eu, cronista que foge das efemérides como o diabo se regozija com o fogo, lembro-me do meu e dele conto, com afeto, algumas historietas.

Quando saiu “A palavra em construção”, primeiro livro no qual aparecem alguns continhos meus, mandei um exemplar para meus pais. Ao encontrá-los, perguntei ao velho se havia gostado. Sua resposta foi não, que parou a leitura na primeira frase. Ele se referia a “Encontro na madrugada sem lua”, que começa assim: “Meu pai morreu”. Tenho várias maneiras de entender a resposta, mas, tocado pelo humor que ele nutria, escolho a da graça. O fato é que não posso afirmar se leu ou não. Se gostou ou não.

Joaquim viajava o Brasil vendendo tourinhos e novilhas. Na juventude, em um país ainda ruralíssimo, no lombo de cavalo, em comitivas cheias de histórias. Mais tarde, enfiando a boiada num caminhão e indo logo ali, ó, no Pará, ou bem aqui, no interior do Rio de Janeiro. Em Santo Antônio de Pádua, deram-lhe o título de cidadão honorário em reconhecimento ao que fizera pela pecuária local. Se hospedava no hotel do Bidinho, que lhe reservava o mesmo quarto, de onde se ouvia o barulho do rio. Só ficava ali, comentou comigo, para ouvir aquela música.

Nesse hotel, no fim da tarde, juntavam-se os fazendeiros que iam fechar um negócio e amigos que Joaquim fez na cidade, como o inseparável Edmundo do Banco do Brasil. Um juiz de direito aposentado, morador do hotel, era presença certa. Ele, iracundo, e meu pai, moleque que só, não se entendiam. Joaquim gastava noites e noites amolando o senhor. Certa época, inventaram que meu velho tinha um caso com a única fazendeira do grupo, e o juiz, que conhecia minha mãe, não se conformou e passou a soltar os cachorros pra cima daquele “vendedor de boiada de uma figa”. A noite passava, os homens e a única mulher (ou as duas, quando minha mãe estava lá) se divertiam. O mal-humorado, em permanente revolta, ainda que ameaçasse meu pai, o devasso, com violência ou delação, nunca cumpriu a promessa nem faltou às reuniões nem as abandonou nos momentos de maior exaltação. O fato de estar sempre ali é sinal de que se divertia tanto quanto os demais. Aliás, fora daquele momento, ele e meu pai eram pura delicadeza um com o outro. Às vezes, tomavam café juntos e elogiavam a coalhada preparada na cozinha do hotel.

Eu e meu pai não tivemos grandes diálogos, não lhe pedi conselho nem ele achou por bem me dar algum. De todo jeito, alimentávamos cumplicidades. Com quatorze anos, eu dirigia pelas rodovias, enquanto ele, no banco do carona, dormia pesado. Pai, se nos param? Não tem problema, filho, eu também não tenho carteira de motorista.

O velho leu poucos poemas em sua vida, mas, à medida que o tempo passa, eu o decifro poeta. Fazia contas de cabeça de forma impressionante, porém nunca soube ganhar dinheiro. Apesar de ser uma autoridade na arte de reconhecer de longe a potencialidade de uma bezerra ou de um garrote, não cobrava pela ajuda prestada a compradores inseguros ou novatos. Apartava animais como se distribuísse palavras em um soneto, ora buscando a rima, ora preocupado apenas em encaixar tudo num quatro, quatro, três, três.

Ah, se o velho se soubesse poeta!

Ah, se eu houvesse percebido a tempo! 

(Ele me chamava de Xandão, e eu o chamava de Joaquim, intimidade de amigos.)



Joaquim, o neto mais velho, Marcelo, e eu.


31.7.22

Semana do escritor

                                                                           Dia 25 de julho é o Dia Nacional do Escritor

 (celebro todos, mas não poupo nenhum, a começar por mim)

 

Dois escritores se encontram num bar. Se encontram por acaso, jamais se fariam companhia, pois se odeiam. Um finge que não vê o outro, numa reciprocidade comovente. O que chegou primeiro chama o garçom e, em tom de quem quer ser ouvido por todos, particularmente por aquele, pede uma caipirinha à Quixote. O outro ri nas entranhas, discreto, onde já se viu tamanha estupidez. O drinque chega e é reluzente, incrivelmente bonito. O primeiro escritor dá um gole, e o segundo sente uma pontada que não consegue localizar bem onde é. Ao segundo gole do escritor de fala alta e ostensiva, o que achou a tal da caipirinha à Quixote não só um péssimo nome, mas também absurdo histórico e desrespeito literário, sente mais que uma pontada. Ele começa a ver estrelas. Quanto mais o outro bebe, mais estrelas cobrem sua visão e, logo depois, não são mais estrelas, são moinhos de vento. Então o escritor que, sem beber, se embebedava, levanta-se e começa a combater os moinhos de vento. Só no outro dia, Dulcinéia, a enfermeira roliça, lhe confidencia a razão de ele estar amarrado ao leito de um hospício.

 

**

— E o que você faz?

— Sou escritora.

— Jura?

— Por são Machado e santa Meireles.

— Você não é cristã, certo?

— Como assim?

— Esses santos não são da bíblia.

 

**

No dia em que seu amado livrinho atingiu a marca de um milhão de exemplares vendidos, ele ficou eufórico. Bote eufórico nisso. Um milhão? Pensa no que é isso. Vende-se um livro, depois um segundo, um leitor comenta e, em seguida, vendem-se dez de uma vez. Uma livraria encomenda mil e, não demora muito, mais mil e depois mais mil e enfim cinco mil. Que loucura, um milhão. Me belisca que vou ter um troço. Ah, tremenda alegria. Alegria é pouco. Tremenda felicidade! Uma coisa dessas deveria ser desfrutada, o que faria descendo à rua e experimentando a notoriedade. Mal posou o pé na calçada, recebeu uma livrada na cabeça. Nem teve tempo de olhar de onde partia o ataque, que livro era, caíram sobre seus ombros mais dois e, no próximo segundo, outros três e quatro. Saiu correndo, enquanto novos o atingiam feito bala. Conseguiu olhar de relance a capa de um deles, e era o seu. O seu! Dobrou a esquina e, quando se achava salvo, levou uma saraivada de tiros, uma biblioteca inteira saída de uma baioneta adaptada. Disparou em fuga feito um doido. De vez em quando, olhava para trás e via que a pilha de livros só fazia crescer, logo tomando a calçada e o asfalto. No barato, eram cem mil, dez por cento de sua venda. Que diabos teria ocorrido? De repente, o ataque cessou, e ele, ao chegar esbaforido a um novo cruzamento, viu uma senhora velha, encarquilhada e encurvada, apoiando-se, com a mesma mão com que segurava uma sacola de mercado, numa bengala. Resolveu ajudá-la a atravessar a rua. Estendeu-lhe o braço. Davam passos lentos, no ritmo dela. No meio do caminho, o sinal abriu, e os carros começaram a buzinar. Foi então que a mulher olhou para ele. Olhou, desviou o olhar na direção dos automóveis. A buzina não se intimidou, tampouco ela, que, enfim, encarou seu guia.

— Você não é o autor deste livro aqui? — parou (carros em ponto morto aceleraram, buzinas blateraram, motoristas xingaram) e, com um grande esforço, tirou da sacolinha o exemplar do best-seller.

— Sim, sou eu.

Ela então, com movimento surpreendentemente rápido, levantou a bengala e acertou a testa do escritor. Motoristas e caronas aplaudiram, passantes uivaram, moradores jogaram páginas picotadas do livro pela janela. Depois, tudo perdeu a pressa. A senhorinha poderia terminar de atravessar a rua, a cidade estava salva.

 

                                                                **           

— Mãe?

— O que foi?

— O livro...

— O que tem ele?

— Bem, sabe, ele me deu uma vontade danada de continuar viva.

16.7.22

Parque de distração

 No Brasil, todo mundo está precisando dar um descanso à cabeça. Para isso, existe um parque cheio de possibilidades que vão do joguinho eletrônico ao carteado, passando por uma leitura leve. Há, meio intrusa, uma opção que me agrada muito: brincar de caçar palavras que sumiram das ruas.

Na minha infância, em casa com duas moças que demandavam intensamente a máquina de costura, chulear era palavra usual. Para quem não sabe, seu significado é dar uns pontinhos na beira do tecido para ele não desfiar. Eu ignorava, mas o Houaiss me conta que chulear também é, ou foi, “ficar na expectativa de obter algo muito desejado”. Chuleei a manhã toda o encontro com Geralda. Ah, até os nomes se perdem pelo caminho. Segundo o IBGE, na década de 1950, havia umas vinte mil Geraldas no Brasil; sessenta anos depois, não chegavam a mil.

A distração por meio de palavras mortas é uma coisa meio sofisticada, cerebral. Ora, então, é melhor agarrar-se a coisa mais trivial: sair à rua em busca de um refúgio, o que não falta no Rio de Janeiro.




Me sentei na mureta da Urca. À minha frente, num dia azul de inverno, o mar, o Cristo Redentor, lá longe o Dedo de Deus. Enfim, uma paisagem exuberante, capaz de restituir o fôlego ao mais estressado entre os estressados. Acontece que, um pouco adiante, havia uma moça linda, mas linda mesmo. Ela também contemplava a beleza do Rio de Janeiro. Ela lá, eu cá: só isso. Homem educado em velhos tempos, se eu não houvesse aprendido tanto com as mulheres desde então, teria sido inconveniente. Talvez a ficasse olhando descaradamente ou a importunasse puxando assunto. Mas sei que não é assim, é preciso respeitar, e eu respeito. Para controlar o impulso, os barcos no mar, os aviões passando rente ao Cristo a caminho do Santos Dumont.

O grupo Rumo tem uma composição chamada “Minha cabeça”. Ela diz: “Eu vou pensar um assunto, certo? / um assunto que eu escolho, é claro / então eu faço força, força, força / e olha o que acontece / não adianta ter cabeça / ela pensa o que quer / para, cabeça / assim você me enlouquece / não cansa você?” Sempre cantei essa música para crianças, primeiro meus sobrinhos, depois meus filhos e agora meus sobrinhos-netos. Elas se interessam, a meu ver por começarem a entender que a relação com a cabeça é complexa. Mas, nesse momento, penso na música porque, naquele dia na Urca, ao olhar a montanha, os barcos, os aviões, não consegui me distrair da moça linda e chuleei um encontro com ela, que, aposto, não se chama Geralda. Mas nada foi além da fantasia, isso que é uma espécie de carrinho de trombada sozinho na pista, sem bater em ninguém, sem bater em nada, rodando em torno de si mesmo.