20.4.26

Ares de abril

 


Abril, ao abandonar o verão, promete temperaturas amenas, o que nem sempre cumpre. O de 2026, quente e já pelo meio, acontece em um ano no qual o menino levado, El Niño, vai aprontar das suas. Ouvi de um especialista que ainda não se pode prever catástrofes — tempos mais secos no Norte e chuvosos no Sul, sim —, mas é certa uma elevação considerável da temperatura a partir de setembro.

Por motivos alheios ao clima, tenho um acerto de contas com este mês em que dois irmãos, um sobrinho-afilhado, duas sobrinhas-netas e alguns amigos fazem aniversário, pois de cara nos levou aquela amiga – escritora, tradutora e, corajosa, também editora – um pouco mais velha que eu, portanto nem jovem nem idosa. Não, senhor, não é assim que se inicia seu mandato no calendário. Não é assim que se comporta. Sua função é nos dar mãos fortes para muitos parabéns e, insisto, aliviar o calor, nos ajudando a poupar o dinheiro gasto com o ventilador ou o ar-condicionado.

O mês de arianos e taurinos também nos tirou uma prima com mais de 90 anos. Sempre lamentamos a morte, mas minha prima, ao contrário da amiga, teve uma vida plena, não foi antes do tempo. Espero que o senhor entenda a diferença entre encerrar um ciclo completo e interromper aquele por se completar.

Mal associo minha prima à plenitude, me questiono, pois relembro o que me aconteceu um pouco depois do dia internacional da mentira, marco inicial do mês da descoberta do Brasil e de São Jorge.

No meu ônibus de sempre, me sentei ao lado de uma senhora; 97 anos, viria a saber. Estava sozinha e puxou assunto comigo de uma forma pouco usual. Na página da revista que eu lia, havia uma charge: uma mulher está deitada na cama, ao lado de uma cartola de mágico, e um homem, à porta do quarto, diz: “Eu sei que você está aí”. A senhora então, invadindo minha leitura, perguntou quem estaria ali. Ri. Ela respondeu com um sorriso maroto e emendou, assim do nada, que o atual presidente dos EUA é o diabo. Me fisgou. Confessou a idade e contou que servira desde seus doze anos a uma família brasileira, grande parte do tempo vivendo na Inglaterra. Lá, não foram raras as vezes em que cuidou de quinze crianças enquanto os pais se divertiam em pubs. Histórias de exploração começaram a saltar em minha cabeça, mas achei melhor não entrar nesse assunto.

Continuando a conversa, enfiou outra observação política: com o Bolsa Família, o presidente brasileiro estava fazendo com que ninguém mais quisesse trabalhar. O velho e desgastado papo conservador. Para quem achava Trump o diabo, assassino de crianças, a opinião sobre a transferência de renda era um passo e tanto atrás. Depois de tentar, sem sucesso, lhe explicar a ideia desse programa, perguntei se ela estava a passeio ou voltara de vez ao Brasil. Voltou de vez, mesmo sob protesto, já que os patrões viam no país um lugar de no money, no job.

Embora lúcida, com capacidade visual e auditiva impressionante, era dona de um pensamento estranho, que alcançou o ápice ao culpar as mulheres por todas as mazelas do mundo. Fazem filhos e não se importam com a criação deles, enfatizou. Atordoado com tamanho disparate, tentei voltar à leitura. Fui mais uma vez interrompido, agora a senhorinha falava da comida brasileira, da alegria de comer feijão de domingo a domingo.

Enfim, ela toda em si, quase um milagre da natureza, e eu, transitando entre o encanto e a covardia, nos separamos. Para desembarcar, atravessou o ônibus e desceu as escadas sem vacilo algum, num andar de quem tem mais ou menos a idade de minha amiga que, um dia depois, abril, o senhor impediria de chegar aos setenta.

Não bastassem o calor, as mortes ao meu redor e o episódio triste e anedótico do ônibus, este mês de outono infantil seguiu com a ameaça feita pelo Orange Man de extinguir numa noite a civilização persa. Reforçando o comportamento habitual de menino valente de rua que, na hora H, se esconde entre as pernas dos pais, o energúmeno recuou.

Sabe de uma coisa, mês que estende o tapete vermelho para maio, esse, sim, lindo, de céu espetacular? Embora eu não entenda nem acredite no zodíaco, você avança sem personalidade própria, arredio à intensidade ariana e à persistência taurina. Fica um conselho: se redima, sopre-nos um vento fresco, ainda é tempo.




5.4.26

Ziguezagueando

 Estive lendo nos últimos dias “Pequenos fantasmas”, de Humberto Werneck, lançado pela Seja Breve Edições, uma série de contos escritos entre o fim da década de 1960 e o início da seguinte, ou seja, quando eu era menino. De certo modo, aquele mundo (ainda bem rural, com a classe média vivendo em casas, mesmo em cidades grandes, mulheres estudando em colégios que não admitiam homens entre os alunos) ruiu, mesmo assim o caldo humano é o de sempre: a criança descobrindo a vida, os primeiros amores, a reação diante da morte, enfim, tudo isso que se repete desde os tempos das cavernas, embora em ritmos e formas diferentes e, no caso, bem tratado pelo autor mais conhecido como cronista. Tive a impressão de que pelo menos dois contos remetem ao famoso “Casa tomada”, de Cortázar. Não é o caso de resenhar nada aqui, mas de pontuar que Werneck andou transitando no mundo mágico, influenciado também, imagino, por seu amigo, incentivador e mestre, Murilo Rubião.

Talvez por reencontrar um mundo parecido com aquele no qual cresci e fazer a ligação entre o escritor mineiro e Cortázar, essa leitura me levou à minha colega de ginásio Argentina. Argentina era ou é – nunca mais soube dela – uma negra de tal maneira retinta que não era raro eu ficar olhando para ela e me distrair das aulas. Outra característica dela era o silêncio: não me recordo de ter ouvido alguma vez sua voz. Enfim, em torno dela se instalava algo de mistério.

A leitura nos faz perder o controle, vejam onde fui parar. Mas é irônico esse caminho, pois tem muito argentino envolvido em episódios racistas no Brasil. Agora mesmo há uma mulher, Agostina Páez, envolvida em um episódio racista no Brasil, pelo qual ficou presa e foi recentemente liberada — com o que pôde voltar a seu país e protagonizar cenas terríveis de racismo. Há muitas explicações ou pseudoexplicações sobre o fato de alguns de nossos vizinhos se comportarem tão mal, mas não faço sociologia, sou apenas um cronista ziguezagueando em torno de ideias revolutas.

Havia uma campanha na TV educativa bem interessante: um repórter saía à rua e perguntava às pessoas onde elas escondiam o racismo. Isso, isso mesmo, nós, brancos, pero no mucho (afinal a mestiçagem está na origem da nossa formação), fomos educados de forma racista. É preciso então lutar contra isso todos os dias. Quem bate no peito e diz não ser racista por ter um amigo negro só está tentando esconder o preconceito.

Seja como for, ainda pequeno convivi e fui amigo de muitos negros: os filhos da Dita (que trabalhava em nossa casa; nada a se espantar, não é?), a família do Antônio José, motorista de táxi que vivia duas casas abaixo da nossa, além da própria Argentina. Essa convivência quase diária por si só não me livrou de me tornar racista, mas me fez, primeiro, desconfiar e, depois, ter certeza de que não há nada que justifique o racismo. Meus amigos eram e são inteligentes, bem-humorados, descolados, audazes, alguns, como a Argentina, quietos. Enfim, humanos.

23.3.26

Outras guerras

Dia 8 de março, fui à manifestação pelo Dia Internacional da Mulher, que, no Rio, estava bonita, ainda que não com o número de pessoas — particularmente de homens — ideal. Hoje, depois que as mulheres, em luta, conquistaram tantos espaços, não é possível cruzar os braços e achar que toda a violência que sofrem sejam casos isolados, coisa de homem desajustado. Não é, não. O mundo anda bem complicado, e a ascensão dessa direita adepta da guerra e da anticiência, xenofóbica e misógina reflete o ressentimento masculino. No caso do senhor Laranja estadunidense, a reação vem com o que há de mais moderno em termos de armas de destruição, não poupando sequer as crianças, haja vista que um dos alvos americanos no Irã foi uma escola infantil para meninas. O presidente americano faz o trabalho sujo enquanto a maioria de nós, homens, se senta à sombra à espera do novo dia, que na realidade é o velho, o velhíssimo, impossível de ser reproduzido.

Minha amiga Graça, dia desses, me mandou um post reportando o primeiro concurso de miss travesti em Minas Gerais, ocorrido em 1966. Ela conheceu, conviveu até, com a ganhadora, Sofia de Carlo. Interessante é que a vice-campeã, Erika, é minha conterrânea. Posso estar enganado, mas é uma pessoa apagada da história municipal, o que é compreensível, mas não justificável. O que terá sido dela? Em que rua nasceu e cresceu? Continua em Passos (imagina a barra que era naquela época, se ainda é hoje)? Está viva? As travestis, as trans e todas as pessoas nesse grande leque LGBTQIAPN+ formam outra população na mira dos machos em modo vingança.

Diante da notícia anterior, brinco que Passos faz parte da vanguarda, mas, na verdade, a cidade, como tantas outras, está inserida no cenário da violência. No final de semana em que se celebrava o Dia da Mulher — me corrijo, é dia da luta, ligado a momentos de protagonismo feminino nas questões trabalhistas —, uma jovem de 15 anos levou dezessete facadas na zona rural do município. Não houve assalto, ela não sofria ameaças, tudo indica tratar-se de mais um feminicídio. Triste.

É preciso que não percamos de vista essas histórias. O estupro coletivo acontecido no Rio de Janeiro — quatro rapazes armaram uma cilada para a ex-namorada de um deles; ele e ela menores de idade —, ao chegar à mídia, revela muitos outros. Pior que isso, redes misóginas, a machosfera, vêm à tona. Nelas, homens e jovens ensinam uns aos outros como violentar mulheres, como impor o sim ao não. Num mundo de tantas guerras, ao que parece, as mulheres são a pátria a ser abatida.

9.3.26

Um único tiro

Enquanto as bombas estouram a mando de boçais, a prima de mamãe, caminhando para os cem anos, faz lindos crochês e os vende numa lojinha improvisada à porta de sua casa. Nessa mesma hora, o doceiro de Tiradentes prepara os mil tachos de seu doce de leite sem açúcar, uma receita inventada por seu pai e que caiu como uma luva nesse mundo de controle severo dos níveis de glicose no sangue.

Enquanto as bombas inteligentes matam a cúpula do poder iraniano — e uma penca de civis, não poucas crianças entre eles —, meu netinho, vestido num parangolé de algum super-herói, comemora seus dez anos. No instante em que os contra-ataques são planejados e executados, eu e meus primos pelo lado do papai, alguns que eu nem conhecia, brindamos o encontro.

Enquanto os homens com cara de assassinos e não de chefes de estado regozijam de seus feitos de morte, um casal se extasia em seus corpos tão comuns e naquele instante alçados à beleza máxima. Paralelamente, um desportista passa creme nas pernas doloridas pelo esforço recente.

Enquanto outros homens do poder se dizem abismados com o ataque e a morte do líder de um país soberano — alguns desses homens travando suas próprias guerras sem grandes cuidados com a tal “ética” —, um entregador leva pizza a uma família de poucos luxos a não ser um pequeno assim, no final de semana. Em uma cidade aflita, mas não em guerra, tampouco em paz absoluta, uma futura mãe prepara o chá de bebê para sua filhota que chegará pronta para mudar o mundo.

Enquanto os financistas sentam-se à mesa de negociação para planejar estratégias para faturar bom dinheiro com a guerra — como se ela própria já não enchesse seus cofres —, um motorista de ônibus, ao desempenhar uma função adicional que passou a exercer depois da dispensa dos cobradores, se enrola com as moedas do troco. Numa outra mesa na qual não se negocia nada, o pai lembra ao filho que viver tem um quê de beleza.

Enquanto a guerra encobre os mil pecados de seu dono, uma senhora tenta recordar a música cantada por sua mãe quando lavava roupas na beira do rio e um jovem senhor, caçula em uma família de quatro filhos, pergunta à mãe, em pensamento, se não é espantoso ele já ter alcançado a idade de usufruir das pequenas prioridades — uma quase esmola — reservadas aos idosos.

Enquanto a guerra escreve roteiros de livros e filmes que irão levar às lágrimas a mim, a você e até mesmo a alguns dos que estão guerreando, um neném passa dias irritado com o dente que desponta aos poucos e uma calcinha fica esquecida no box do banheiro por uns bons quatro ou cinco dias.

Enquanto a guerra sobrepõe corpos mortos no meio das ruas do que resta da cidade cujos habitantes vão se endurecendo da dor, um jovem arranca uma flor vermelha e a leva à mãe da namorada e dois homens perdem-se em piadas bobas ao abrirem a segunda garrafa de vinho.

Enquanto a raça humana transita no ápice da irracionalidade, a chuva, anabolizada pela destruição da natureza, mata. Cumprindo seu ciclo numa sociedade insana, que muitos consideram evoluída, mata sem primeira ou segunda intenções.

Enquanto o mundo se avizinha do fim — guiado por ideias antigas e cruéis — um escritor covarde senta-se diante do computador e escreve uma crônica como se desse um tiro, um só e certeiro, no coração do tirano.

23.2.26

Aqueles carnavais

Já fui do samba, ainda que do samba mineiro, lá do interior, onde o forte são as congadas. Seja como for, saí em escola de samba e em blocos feitos por minha turma. Fizemos coisas bem interessantes, mas duvido que elas tenham ficado na memória da cidade.

Esses blocos eram sofisticados, não pensem em esculhambação. Nós pedíamos a grandes artistas que nos dessem um tema e desenhassem as fantasias. Contratávamos costureiras para confeccioná-las, enquanto nós acompanhávamos de muito perto a produção dos acessórios. De nossos três blocos mais bonitos — Feiticeiros do Alto Xingu, Mosqueteiros do Rei e Bumba-meu-boi — o castelo dos Mosqueteiros foi montado num galpão de uma concessionária de veículos, de propriedade de um dos componentes; a colagem do papel machê nos bois feitos de bambu (por um cesteiro tradicional) aconteceu num barracão na casa de outro componente; e a preparação do carro dos Feiticeiros (com um caldeirão e tudo) em algum canto perdido na memória.

Os momentos de preparação e desfile pecavam pelo nosso mau comportamento. Éramos terríveis. Quando pensávamos em maneirar, o pintor do castelo tirava o chapéu e nos oferecia um aditivo escondido ali. Sem contar que o carnaval nos convidava a novas experimentações, e algumas delas viriam a cobrar um preço alto de muitos de nós. Lembro-me de certa vez em que um radialista — o mais famoso da cidade e "dono" dos desfiles de rua — disse que "chupávamos bolinhas". Bolinhas, para quem não sabe, eram pequenos comprimidos que, misturados à bebida, nos davam resistência e coragem; podemos chamá-las de ancestrais das atuais "balas".

Bem, exigimos uma entrevista para responder a tamanha afronta. Sugeri ao meu amigo escalado para nos representar — por coincidência apelidado de Bola (por ter sido gordinho na infância) — que explicasse ao radialista que as bolinhas eram tomadas, e não chupadas. Enfim, que nos levassem a nocaute, mas sem espalhar falsas informações. Não conseguimos espaço no programa, se não me falha a memória.

No desfile dos Mosqueteiros, um primo meu, na figura do Cardeal Richelieu, levou o personagem tão a sério que apontava para os policiais na avenida e dizia que mandaria prendê-los. Quase fomos presos, isso sim. Nesse desfile, éramos o único concorrente na categoria luxo e perdemos — quer dizer, fomos desclassificados. Em protesto, queimamos nossas fantasias na frente dos jurados. Já no desfile dos Feiticeiros, o fogo do caldeirão atingiu as cordas da roupa do cacique, e a rua começou a gritar: "É fogo, é fogo!". Diante das primeiras manifestações, pensávamos estar abafando e demoramos a perceber que as chamas quase tomavam o corpo do colega. Perguntado se não sentira o quente, ele disse: "Que quente?"

Outro desfile sem prêmios, apesar da beleza das fantasias e até mesmo de sua importância histórica. Nesse dia, logo depois, caí do carro alegórico que nos levava a algum destino incerto. Passei o carnaval todo esfolado, o que não me impediu de pintar e bordar. A vodca deu a força necessária, nas palavras de um amigo que viria a se tornar veterinário. 

Hoje vejo o carnaval de longe e assustadoramente careta. Alguns dirão, “careta, é?” Falam das minhas cervejinhas. Coitadas, são, quando não entregues por aplicativos, vendidas em mercado, portanto os perigos ligados ao seu consumo parcimonioso são ser atropelado ao atravessar a rua para comprá-las ou levar um choque ao colocá-las para gelar. O carnaval, meu povo, fazendo um paralelo não descabido com o amor escrito pelo Chico e cantado pela Gal, é uma página virada, descartada do meu folhetim.


A primeira escola de samba, o primeiro rabo de galo.


9.2.26

Um mergulho em meu sonho recente

Até agora não me transformei em uma barata — ou sei lá que inseto era aquele em que Gregor Samsa se viu numa certa manhã em Praga —, mas tenho acordado igualmente de sonhos intranquilos. É verdade que me esqueço da maioria deles, embora alguma coisa, um sabor, um aperto, um riso, me acompanhe ao longo do dia ou até mesmo por alguns dias. Não sou de sonhar com papai e mamãe, mas eles andaram por aqui nesse janeiro de clima oscilante, com dias até frios.

Estranho, estranho mesmo foi um dia desses acordar com uma música de bastante sucesso nos anos 1970 e associada aos militares. Se o que sobreviveu daqueles tempos foram as canções de protesto, muitas censuradas, meu HD tratou de registrar uma coisa brega, que enaltecia as belezas do país, tudo que os ditadores queriam. Eu te amo, meu Brasil, dois irmãos, um que dizia ter o dom, o outro que se pensava Ravel, cantavam. Um horror. Há um detalhe sobre a dupla. Tentando fugir dessa associação com a ditadura, fizeram uma música contestatória, quer dizer, na letra os grandes maltratavam os pequenos e, como conclusão, não passávamos de animais irracionais. Com isso, não conseguiram se aproximar da esquerda e distanciaram-se da direita. A vida é cruel.

Seja como for, acordei com um de seus hinos laudatórios a esta pátria, trópico abençoado, e passei o dia com aquela melodia que, se chamada de chiclete, seria um elogio. Sei bem que aqui não é um consultório psicanalítico, mas, devo confessar, o eco da trilha sonora daquele sonho chamou a atenção da parte diurna do cérebro, a que relativiza muito a importância do sonho. Qual o significado disso, monstros meus?

Uma hipótese é a percepção de que regimes autoritários podem tornar-se realidade em países muito orgulhos de sua democracia. Os EUA estão agindo no desespero, interna e externamente. Observo as notícias ao longo do dia, emburaco em sonhos opressores, acordo com músicas estúpidas. Afinal, sou um sujeito preocupado com os rumos do mundo e tenho medo de que o presidente norte-americano, com armas capazes de destruir mil vezes o planeta, invada o meu, quer dizer, o nosso quintal.

Pode ser também que, ao me aproximar de uma idade redonda, 65 anos, comece a visitar minha vida inteira e nela encontre aquele período conturbado no qual, nos programas de televisão dominicais, não era raro a malfadada duplinha se apresentar. As televisões sempre fazem um jogo dúbio, nem sempre tão dúbio assim. Seria então apenas uma coisa natural, e talvez mais tarde eu venha a sonhar com as músicas de protesto, quem sabe “Para não dizer que não falei das flores”, do Vandré, que eu e uns amigos cantávamos bem baixinho e à noite numa praça do interior de Minas Gerais.

Uma terceira possibilidade, essa mais cruel, é que retive nas minhas retinas cansadas, nas minhas elipses em curto-circuito, coisas que não quero confessar que gostava. Mas será o Benedito? Eu, aquele menino com faros canhotos numa terra conservadora, poderia gostar daquilo? Gente, gente, somos um caixinha de quinquilharias de surpresas amarfanhadas. Cruz, credo.

26.1.26

WA em BH

 Mal entramos num tradicional bar de cozinha alemã de BH, apontei o sujeito sentado sozinho à mesa. “Não é o Woody?” Mais interessado em pedir a cerveja e o rosbife, RG deu uma olhada rápida e concordou. O homem era a cara e o focinho do cineasta americano, autor de filmes incríveis e sobre o qual uma sombra de pedofilia ainda pesa, apesar de a justiça tê-lo inocentado. Quando a véu de noiva chegou e molhamos as palavras, o colega de mesa voltou o rosto novamente em direção ao sósia. Dessa vez, se espantou. “Fotografa a peça.” Missão impossível, havia entre nós e o sujeito um grupo ruidoso e movimentado, gente que mudava de cadeira, levantava-se para fumar ou ir ao banheiro. O registro morreria na nossa memória.

Isso de fotografar me lembra “Mystery Train”, de Jim Jarmusch, um filme com três episódios cujo único ponto em comum é o fato de os personagens estarem hospedados em um mesmo hotel em Memphis. Na primeira história, um casal de japoneses chega à cidade americana para visitar o túmulo de Elvis Presley. No aeroporto, o rapaz dispara a tirar fotos, sua companheira lhe pergunta por que ele fotografa todos os aeroportos e nunca as paisagens lindas visitadas nos quatro cantos do mundo. Ele responde que os aeroportos são todos iguais, portanto é preciso fotografá-los para não caírem no esquecimento. O Woody Allen de Minas seria uma paisagem deslumbrante, inesquecível, portanto, segundo o personagem de Jarmusch, desnecessária de ser captada.

Voltando ao bar, que é o que interessa, de repente, WA se levanta e, ao se encaminhar para fora do bar, cutuca as costas de RG e o chama de “meu ídolo”. Desconcertado, meu parceiro de copo leva uns segundos para processar quem era aquele seu fã. Quando a ficha cai, o nome do sósia salta-lhe à boca. O Allen mineiro estava uns goles acima e, impulsionado pelo encontro, começou a contar casos que esclareceram a ligação entre o fã e o ídolo. Este, por sua vez, não conseguia parar de rir. Ria de tudo. Se o WA estivesse sóbrio, teria ficado chateado. Enfim, ouvimos um pouco daquelas histórias, tiramos fotos, nos desejamos boas festas. A vida seguiu, quer dizer, papamos o rosbife, descemos algumas cervejas e, pronto, fomos eu para minha casa, RG para a dele. WA decerto tomou um avião.

RG escreveu “O dia em que os Beatles visitaram Belo Horizonte” (editora Lê) e garante que os meninos estiveram em Minas, embora seja impossível checar as evidências porque o quarteto, antes do sucesso, teria ido de avião de Londres ao Rio pela Panam e de trem do Rio a BH pela Vera Cruz, empresas que não existem mais. Além disso, não se hospedaram em hotel, mas num apartamento na Afonso Pena defronte ao Parque Municipal, onde RG morou até a mocidade, e dali Paul McCartney teria visto e se deslumbrado com um pássaro preto, nessa versão, a verdadeira fonte de inspiração de Blackbird. Esse apartamento também não existe ou ninguém sabe de seus moradores daquela época. Agora que vi o cineasta e jazzista em BH, começo a acreditar que o livro de meu amigo não é uma ficção, mas um relato de quem presenciou os queridinhos de Liverpool — ou seus sósias — flanando pela Capital dos Sonhos. Ê, Minas!

As coisas não acontecem isoladas uma das outras, segundo a voz popular. Digo isso porque, quando fui embora de Belo Horizonte, encontrei uma possível personagem de Woody Allen no ônibus. Detectei tratar-se de uma pessoa compulsiva ao despachar minhas malas no bagageiro. Ela fazia o mesmo e falava, falava pelos cotovelos — não seria a primeira vez que uma mulher seria o alter ego do diretor. Naquele instante, contava a outro passageiro uma história que visivelmente não interessava a ele. O caso tinha a ver com uma esfirra dura comprada num bar de beira de estrada — na viagem feita na noite anterior, do interior para Belo Horizonte — e era descrito com riqueza de detalhes, principalmente o enfrentamento com a vendedora intransigente, disposta a não trocar o salgado. Precisava desabafar, pensei, mas, ao se acomodar no ônibus, a falação não teve fim. Como não havia ninguém ao seu lado, passou a gravar e disparar em sequência mensagens pelo zap. Certa hora, estiquei o ouvido. A personagem do diretor de Nova Iorque dizia a um interlocutor, depois repetia a outro — chegou a falar com aquele rapaz do início, que, sentado na poltrona depois do corredor, fez ouvido de mouco — que o Brasil era um absurdo, veja só, não havia iluminação nas rodovias, tudo era escuro, e sobravam árvores, era preciso podá-las em bom número.


Imagem criada por IA

Maldade minha com Woody, a senhora não era uma de suas personagens, está mais para essa grei que reza para pneus e crê na terra plana. A essa altura, deve estar aplaudindo o senhor Laranja, sem desconfiar de que o que ele fez ao sequestrar o polêmico Maduro, com quem não me simpatizo, e sua esposa é crime. Um ato terrorista? Ah, isso é para os advogados, não entendo nada de direito internacional.

15.12.25

O que não aconteceu em 2025

O Botafogo ganhar o bicampeonato da Libertadores da América.

O mundo tomar juízo, recolher as armas, dar fim aos genocídios de toda espécie.

Eu acertar na loteria e, com tutu no banco, assobiar na pracinha.

A ganância sair de cena cedendo o palco à solidariedade.

A volta de Jesus ou mesmo de um sósia. De um sósia confiável por suposto.

O Brasil ser tomado por um surto de leitura.

Os homens compreenderem que “o verão é o apogeu da primavera, e só por ela ser”, como já cantou Gilberto Gil.

Lô Borges, Jards Macalé, Angela Ro Ro, Arlindo Cruz e Nana Caymmi, sob a regência de Hermeto Paschoal, fazerem o show do ano-novo de Copacabana.

Eleger o amor como a grande aposta. Fazer fé. Se jogar de cabeça.

As crianças da Maré – e de todos os lugares igualmente ultrajados pelo Estado – frequentarem a escola sem preocupação outra que não a de se darem bem na prova.

A humanização das polícias, em especial a carioca e a paulista.

O juiz que gastou quase um dia lendo seu voto esdrúxulo ficar envergonhado.

Os números primos saírem do espelho.

A música universitária estudar de fato.

As balas se acharem.

Essa gente iludida se tocar que ser empreendedor pode ser uma furada só.

Os preços da maçã voltarem a um patamar razoável.

Os cachorros da vizinha acordarem depois das oito.

As bicicletas mecânicas, as elétricas, as quase motocicletas, as que lembram as lambretas, as motocicletas, essas máquinas todas, enfim, descobrirem o que é mão e contramão. Ah, sim, e o que é calçada e rua.

O sol nascer redondo para os golpistas de sempre. Ufa, pelo menos isso.

1.12.25

A cidade por um fio

Não sei como é em outras cidades, mas no Rio de Janeiro os fios que deveriam estar presos entre um poste e outro estão soltos. Às vezes, ficam pendurados, quando não caídos nas calçadas. Com isso, caminhar — atividade que sempre exigiu atenção redobrada pois os passeios, quase sempre desnivelados, estão cheios de buracos — agora cobra atenção triplicada.

Tenho impressão de que esses fios não dão choque, caso contrário já saberíamos de acidentes de toda sorte. Me parece que são os das telefônicas, embora muitas delas façam cabeamento subterrâneo. Não sei se é isso, não entendo nada dessas coisas. Graças a um trauma que conto a seguir, tenho bloqueio com tudo relacionado a fio e eletricidade.

Minha prima ia se casar, então meu irmão e uns primos começaram a furar o chão para gelar as cervejas (garrafa na terra coberta de gelo e serragem). Trabalhavam à noite e chovia. Eu, menininho de tudo, fui dar uma ajuda. Não tendo porte para empunhar uma pá e dar forma ao buraco, resolvi pegar uma lâmpada para dirigir sua luz diretamente ao local do trabalho. Levei um choque. Fiquei preso nela. Meu irmão, herói do dia, deu um soco na minha mão e tudo se resolveu. Quer dizer, nem tudo. Primeiro tive de ir à farmácia fazer um curativo na queimadura (meu pai me convenceu ao custo de um chocolate — sempre fui barato), depois me desavim com a eletricidade. Troco lâmpadas e olhe lá.

Explicado o meu terror aos fios soltos, acrescento uma questão estética. Não bastassem as ruas e calçadas esburacadas e os postes cobertos de fios, estes, quando passaram a ser cortados, transformaram a Cidade Maravilhosa em horrorosa. Para falar a verdade, nem consigo entender como uma metrópole do porte do Rio pode não tê-los enfiado dentro das calçadas; é muito retardo diante da tecnologia disponível. É caro? Telefonia e eletricidade não foram privatizadas? Joga na conta das empresas.


Foto do autor.


Será que os fios são roubados? O sujeito vai lá, mete a tesoura e leva uma parte deles para passar a um atravessador. Vendem-se fios como se vendem bueiros, tampas de aços? Imagino que sim. A suspeita dos roubos recairá nos zumbis criados pelo vício, mas ouso pensar na responsabilidade de gente mais graúda nessa história. Ora, quem sou eu para suspeitar dos outros? No máximo, posso achar feio o resultado. E apontar o dedo para o prefeito e dizer: incompetente.

17.11.25

Old School

Começo pedindo desculpas ao leitor e à leitora pelo inglês do título, mas não me ocorreu outro, que é certo existir, embora aos meus ouvidos a opção nacional, velha escola, não soe tão bem. Essa preguiça — afinal é preguiça — tem a ver com a apatia imposta pela perda do Lô Borges, que não era meu irmão, não era meu primo, nem mesmo distante, sequer era primo de um primo de um vizinho de um outro primo, mas assim mesmo me faz vestir luto por ele. Entre as mortes recentes, a do mineiro foi a de maior repercussão na tal da minha bolha. A tristeza foi generalizada, uma demonstração de como Lô é amado. No início dos anos 1970, o garoto então de dezoito anos apareceu embolando as referências — uma gota de bossa-nova, outra de Beatles, dois pingos de jazz e uma pitada de Dalva de Oliveira, cantora descoberta no rádio valvulado dos pais — naquele álbum icônico, o Clube da Esquina, mostrando-se desde sempre inovador. Se sua música é fácil de cantar, não nos iludamos, ela não é simples e carrega toda a sofisticação de suas influências – Wagner Tiso, no Instagram, chamou a atenção para isso. Para além do músico, Lô preservava a cara de menino, o olhar fixo, a fala um pouco enrolada, enfim, carregava um evidente desamparo capaz de atiçar o nosso – o meu pelo menos – altruísmo. 
Muita coisa aparentemente extemporânea, que parece repercutir o passado, influencia e modifica este presente confuso pelo qual passamos. "A viagem e outros contos" (editora Patuá), livro de meu amigo Luís Pimentel, vencedor do Candango de 2025, é um bom exemplo desse atrito. A coletânea reúne uma série de histórias recheadas de afeto e contadas por quem sabe muito bem manejar a escrita. Ao lado do apuro estético, aparecem nossas mazelas sociais de uma forma ausente da maioria dos livros atuais. Embora não haja qualquer evidência de ser sua intenção, Pimentel ensina que literatura não se faz apenas de boas intenções. Se a cerimônia da premiação em Brasília foi problemática, contando com um longo atraso das autoridades, inclusive daquelas com direito a um troféu sem que tenham escrito uma quadrinha sequer (coitada dessa plateia, gente!), a escolha do júri foi acertada. 
Numa sexta-feira, estava em casa quando pintou um zap do George Patiño, assessor de imprensa atuante e, como já se disse num tempo remoto, amigo ponta firme. Ele me oferecia um convite para assistir ao Victor Biglione. O instrumentista — argentino que, ao mudar-se para o Rio de Janeiro, transformou-se num brasileiro nato — está lançando “Tributo a Luiz Bonfá – Nos tempos do Jacarandá” (Mills Records). A homenagem não passa pela execução das músicas do “Jacarandá”, mas pelo uso da craviola de doze cordas, instrumento usado por Bonfá naquele disco incrível. Ouvi arranjos lindos, econômicos (violão e uma bateria discretíssima), que aqui e ali contavam com a participação da cantora Julie Wein. Tendo tocado com quase toda a MPB — “com o Wando, não!” — e mais uma pá de gringos, as mil e uma histórias do violonista são divertidas e instrutivas (para quem gosta da música brasileira). Aquela figura meio Rick Wakeman, ao longo da apresentação, bebericava o líquido de uma garrafinha. Alguém gritou: uísque? Água benta, foi a resposta. Quando pôde, Biglione não deixou de falar de como rechaça a intervenção dos EUA na América do Sul, nesse momento tendo a Venezuela como alvo. O filho de comunistas obrigados a se exilar da Argentina é fiel a seus velhos. 
Falei de três homens, todos com direito a passagem gratuita no transporte público. Meus leitores e minhas leitoras, não me queiram mal. Primeiro, essa coisa de old school não tem a ver com o fato de serem idosos. Tem a ver com o fato de manterem-se sempre meio à margem, sem se importarem com as novas ondas, com a moda. Nem é uma escolha machista, os exemplos vieram por acontecimentos recentes, mas, sim, eu poderia incluir nessa escola Angela Ro Ro, Sueli Costa, Zezé Motta ou, para não deixar de citar uma escritora, Elvira Vigna. 
No documentário “Toda essa água”, dirigido por Rodrigo de Oliveira e Vânia Catani, Lô diz que nos vinte primeiros anos deste século compôs cerca de oitenta músicas, colocando-se assim em movimento, não se acomodando ao que já produzira, aquela obra majestosa dos anos de 1970. Como o compositor não ocupou a mídia de forma ostensiva, essa fertilidade esteve ligada à necessidade artística dele, um compromisso ético afinal de contas. Essa posição vai ao encontro do que fazem Pimentel e Biglione: produzir sem se curvar à imposição seja lá do que for – mercado, tendência –, mantendo-se atuais. Triste de quem não os acompanha.

3.11.25

Uma festa de bolso

Era tempo de pandemia, e eu estava sentado na mesa do escritório — um puxadinho do quarto — quando a ideia explodiu na cabeça: Felifitá — Festa Literária de Fim de Tarde. Veio assim pronta, como quase prontos vêm alguns poemas. A ideia de uma reunião que pudesse acontecer em qualquer lugar, desde que à tarde, me foi soprada por uma musa. Não deveria dizer isso, já que foge ao assunto e é polêmico, mas muitos poemas meus nascem exatamente desse modo e, com isso, ferem de jeito a história de que literatura se faz com suor.

A Felifitá é uma festa de bolso — pode acontecer numa mesa de bar, num encontro de esquina, ao telefone, ou, tomando as palavras de Hyldon, autor de “Casinha de sapé”, “na chuva, na rua ou na fazenda”. Brinco que a inventei por estar cansado de não ser convidado para nenhuma das inúmeras espalhadas pelo país. Na minha, vou sempre, o que é e não é totalmente verdade, pois às vezes organizo o encontro, escolhendo os convidados, e depois me junto aos ouvintes.

Até hoje, fiz três ou quatro no Rio, uma em Belo Horizonte e a mais recente em Passos. As do Rio nunca foram um sarau, embora tenha havido leitura de poesias ou contos, já as mineiras foram. A de Passos, no início da segunda quinzena de outubro, aconteceu seis anos depois de minha última ida lá. A festinha, cujo nome, em processo de registro no INPI, recebi diretamente das mãos de uma das meninas de Mnemósine e Zeus, facilitou — a partir da literatura, meu esteio nesta vida — minha reaproximação com a cidade natal.

Vejam só: estar à toa, com as ideias soltas, me deu um nome. Passei a usá-lo em eventos amadores – depois que Nilma Lacerda, em resenha de “Aí onde não cabe” (editora Patuá) no site do jornal Rascunho, me chamou de amador, apoiada em Barthes, tornei-me fiel à ideia —, e eles não só têm me dado a chance de juntar amigos como também têm me ajudado a refazer afetos. Não é pouca coisa. Aliás, é um excesso. Nesse momento de puro regozijo egoico (que marcará toda a crônica, me desculpem), confesso: isso me tem feito um bem danado.

 

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No campo da criação, mas agora uma pensada e executada ao longo de muitos anos, ou seja, suada, estou com um novo livro na praça, “Os verbos estão cansados” (editora Patuá). Em dezessete contos, lido com personagens femininas (em oito), masculinas (em outros oito) e, em “A descoberta”, conto posicionado no centro do livro, com uma criança que tanto pode ser uma menina quanto um menino. Juliana Garbayo, escritora da qual muito ouviremos falar, escreveu o seguinte no prefácio:

“Ler ‘Os verbos estão cansados’ é se deixar levar por esse jogo onde cada resposta é, na verdade, o início de uma nova pergunta. E talvez seja essa a sua maior sacada: a intuição de que, enquanto houver perguntas, a narrativa continua viva”.

O trecho ilustra bem o que se passa em meus contos, gênero ao qual volto depois de oito anos (“Uns e outros mais dois ou três”, o anterior, compõe a coleção Estilingues 30, também da Patuá, e é de 2017). O livro, para quem quer conhecer o meu lado contista, está à venda no site da editora.

Aviso aos cariocas e aos que estiverem na “cidade maravilhosa, purgatório da beleza e do caos” (Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Laufer) que no dia 11 de novembro haverá lançamento (no Ernesto Bar, localizado na Lapa, ao lado da sala Cecília Meirelles), um evento no qual meu amigo João Paulo Vaz também apresentará seus novos contos, reunidos em “Os meninos” (7 Letras).

 

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A crônica toda montada no ego escorrega no final. Na última terça-feira, dia 28, em uma operação desarrazoada, as polícias do Rio de Janeiro, sob o comando do governador Cláudio Castro, deixaram um rastro de mais de cem mortos, a maior matança da história policial brasileira — superou a intervenção no Carandiru e a mais recente, também no Rio desse governador, no Jacarezinho. Não acredito de modo algum que matanças desse tipo resolvam o problema da violência — mesmo que matem só os bandidos, o que nunca acontece, pois inocentes morrem aos montes, É só um teatro com vistas a receber os aplausos daqueles que não acreditam na possibilidade da vida comum em harmonia, uns porque lucram com o caos, outros porque a violência está tão próxima deles que a confundem com a própria vida. 




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21.10.25

De bem com as novidades

Não sei quem, na nova versão de “Vale Tudo”, matou Odete Roitman. Aliás, dessa vez não assisti a nenhum capítulo da novela, mas, a julgar pelo que me disse um amigo, fiz bobagem. Por que? É o seguinte: quando o vi debruçado sobre a telinha do celular, apreciando o diálogo entre dois personagens da trama, dei-lhe uma enquadrada: “ora, o que é isso, vendo novela?” Ele então negou que a acompanhasse, pescava, isso sim, alguma coisa para ter assunto com as pessoas. Benza Deus, não tenho assunto, nem terei.

Sempre fui de virar as costas às novidades; desatento, gosto mais de livros do que da vida – embora mais da vida do que de TV. No caso das leituras, nem sempre estou lendo os lançamentos, e os que leio nunca ou quase nunca são os mais vendidos. É um desvio de caráter, bem sei.

Comecei a me preocupar com essa recusa às novidades ao saber que – segundo Derya Unutmaz, imunologista turco e professor do Laboratório Jackson de Medicina Genômica, em Connecticut –, quem viver mais dez anos, viverá mais cinquenta (isso só é espantoso para quem, hoje, tem no mínimo quarenta anos, os demais têm obrigação de viver mais sessenta). Segue daí que, se eu chegar aos setenta e quatro – meu pai morreu aos setenta e oito, minha mãe, aos oitenta e quatro, portanto a probabilidade é grande –, viverei até os cento e vinte e quatro. Preciso me ajeitar com as novidades, caso contrário serei um velho longevo insuportável, nostálgico demais, melancólico, inclusive. Se não faço nada, corro o risco de ser expulso do cômodo da excentricidade e abandonado no da chatice.

Aos oitenta estaremos com a memória comprometida, como é usual, embora fisicamente resistentes? Para o médico turco, a Inteligência Artificial é capaz de resolver qualquer problema (não só os da medicina, se bem o entendi), assim me parece óbvio que em seu prognóstico o cérebro do octogenário também se manterá jovial, funcionando muito bem. Ou seja, uma novidade, a IA, abre o caminho para a vida terrena eterna, enquanto me mantenho por fora de tanta coisa.

Não sei quem são os atuais jogadores do Botafogo – e estava inteirado do time de 2024.

Não conheço a maioria dos escritores asiáticos incensados por amigos, nem o húngaro ganhador do Nobel de literatura, moço de nome complicado.

Minha última atualização em termos de linguagem da internet foi entender o significado de “stalkear”, um trem velho até. Mas o que é LOL? E Shade?

Não danço funk. Não assobio músicas da Pablo Vitar. Não tenho Tiktok. Não corrijo meus textos usando o Chatgpt, embora não descarte a ideia. Não frequento rave – mas, você dirá, e lhe peço que me questione, mas não me acuse, isso já não era novidade no tempo em que os bois pastoreavam carneiros.

Caminho pelo “museu de grandes novidades” e olho atento objeto a objeto. A rave não está nele – ah, sim, claro. Ao contrário da morte.

A morte?

Sim, é a nova peça do museu. A escuridão, – ou o desconhecido, – ou o salto no desconhecido, – ou o fim, está para ser emoldurada num quadro e fixada na parede, uma imagem que talvez nem chegue a doer.

Não sei quem deu o tiro, mas arrisco a dizer que Odete Roitman pode ter sido a última pessoa a morrer nesse mundo que nós humanos arrancamos de Deus.


Pós-escrito: soube há pouco que a senhora Roitman não morreu (aliás, seria sua segunda morte), logo, entramos na eternidade na companhia dela. Sigamos....

6.10.25

As ruas tomadas

 

Candelária em 1984: comício das Diretas Já


Em 26 de janeiro de 1984, eu botava os pés de volta ao Brasil, entrando pelo Mato Grosso, depois de umas férias na Bolívia. No jornal, a manchete dava conta do comício gigantesco em São Paulo, marco inicial da campanha das Diretas Já – enfim sepultada, o que não impediu o campo democrático de ganhar as eleições indiretas. Seja como for, em abril daquele ano, eu estava na Candelária acompanhado de mais ou menos um milhão de pessoas. Se cada um de nós não passava de uma gotinha, juntos desaguamos num dilúvio capaz de afundar a barca de Noé.

Era criança quando houve o golpe de 1964, portanto estudei em escola sob as diretrizes dos militares, aliás, aquela em que eu fiz o ginásio – hoje ensino fundamental – foi criada por eles, o Polivalente. No interior de Minas, eu e meus colegas não éramos politizados, ou éramos para as questões locais. Sempre gostei de apoiar algum vereador, mesmo não tendo idade para votar. Apesar de um pouco alienados, à noite gostávamos de cantar, na surdina, “Para não dizer que não falei das flores”, a música do Vandré. Decerto sabíamos que alguma coisa não andava bem. De qualquer jeito, a maioria dos meus amigos daquela época hoje transita pela direita ou pela extrema-direita, talvez tenham se esquecido – ou queiram se esquecer – daquela nossa insurgência musical e o seu significado.

Ao me mudar para o Rio, em 1980, comecei a participar das assembleias e passeatas que questionavam a ditadura. Algumas vezes, mirávamos uma determinada política, como o redutor nos salários imposto por Delfim Neto com o intuito de conter a demanda. Ele assinava o decreto, e lá íamos para a rua bradar contra o arrocho (o nome dado àquela política). Noutras vezes, a luta era mais ampla e direta pelo fim da ditadura pura e simplesmente. O Rio de Janeiro sempre foi dado a protestos, cada um mais bonito que o outro. Ou foi até 2013, início da onda estranha. Lembro-me de naquele ano ter ido a um comício na Cinelândia e ser surpreendido pela ausência de partidos políticos. Ali começou a dissociação entre o povo e a política formal, o que alimentou uma figura como a do agora condenado e ex-presidente do país. Fora da política ronda o fascismo – uma velha lição que não deveria ser esquecida.

Com a morte da Marielle, a indignação nos animou de novo. Se a militância havia envelhecido, naquele momento os jovens – fundamentais para a derrubada do Collor – voltaram à cena. De qualquer forma, um pouco depois e contra o pior governo da história, não se conseguiu animar as ruas. Claro, houve a pandemia, mas essa não foi a única razão do esfriamento. O mundo estava (e está) confuso, essa é a verdade. Muita gente que questionara o PT, por conta da Lava-jato, não conseguia se posicionar. Uma parte não chegou a se juntar à extrema-direita – os bons votos em Marina Silva e Ciro Gomes e mesmo o voto nulo falam por si –, outra foi e custou a voltar (talvez ainda se sinta sem chão). Muitos continuam lá, não raro rezam para pneus e idolatram santos do pau oco tomados pelo cupim. Os mais exacerbados quebraram Brasília, uns tantos amargam uma cadeia justíssima.

Agora demos um show. A multidão no Rio de Janeiro, em São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Curitiba e em muitos outros lugares fez e aconteceu. Em Copacabana, acompanhados por artistas imensos – Caetano, Chico, Gil, Paulinho da Viola, Ivan Lins, Lenine, Maria Cadu e mais alguns –, cantamos as músicas que sempre questionaram o pobre poder. Num sopro derrubamos o algoritmo e tiramos o protagonismo do mundo virtual – embora nele tenha se organizado a manifestação. Com o barulho, os políticos recuaram um pouco – a tal PEC da Blindagem, mais conhecida como da Bandidagem, foi recusada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, não indo sequer à votação no plenário. Como a questão da anistia aos golpistas de janeiro de 2023 ainda pipoca pela casa legislativa, acho que teremos de tomar as ruas de novo. Estou prontinho, com roupa de ir.

22.9.25

Um teco-teco contra as grandes torres

 


Em “A Montanha Mágica”, Thomas Mann leva o jovem Hans Castorp a uma visita ao primo, Joachim Ziemssen, internado para tratamento da tuberculose em uma clínica nos Alpes suíços, perto da cidade de Davos — hoje ponto de encontro anual dos muito ricos com representantes de governos, alguns desses nem tão ricos assim. Acontece que Castorp entra e não sai. Quer dizer, nesse momento, vencidas mais de quinhentas das oitocentas páginas, ele, que enfim também está tuberculoso, não deixou o sanatório, embora seu primo, num arroubo, o tenha feito. Castorp é descrito assim: “Não era um gênio nem um imbecil, e a razão de evitarmos para sua qualificação o termo ‘medíocre’ reside em circunstâncias que nada têm que ver com sua inteligência, e quase nada com sua personalidade singela”. O que importa é que esse romance de formação (desse, desse, sejamos sinceros, desse medíocre que passa a lutar contra a morte,) explora inúmeras dualidades. Fala-se da vida ali em cima em contraste com a lá de baixo, a do doente em contraposição à dos saudáveis. Ao conhecer os intelectuais Settembrini e Naphta, Castorp entra em contato com visões de mundo opostas, sem nenhum ponto de interseção. O primeiro, um italiano crédulo da humanidade, da ciência, do progresso (à moda europeia); o segundo, um judeu que se tornou noviço jesuíta sem, contudo, por conta da tuberculose, chegar a diácono. Entre os dois ocorrerão embates intermináveis – nas quinhentas primeiras páginas, não há notícia de que se tenham transformado em inimigos. Naphta defende que a ciência deve estar sob o jugo da religião, chegando inclusive a duvidar de que a terra não seja o centro do universo, saber esse que custou a vida de muitos cientistas. Entende a guerra como um desígnio de Deus, em contraposição ao outro, um pacifista. Eu achava que essa gente que aposta em armas, desdenha da ciência, usa a religião como estratégia de dominação era coisa do passado, mas a verdade é que, cem anos depois da publicação do romance (na década de 1920, entre as duas grandes guerras), ainda jogamos a ciência contra as cordas, apesar de tantos avanços, que nos levaram à lua, que curaram muitas doenças (a tuberculose, por exemplo), que produziram armas letais precisas – o que tanto agrada os poderosos beliscosos, quer dizer, belicosos. Um século de passadas largas e pelo jeito patinamos no mesmo gelo.

Se o mundo é assim, também não é tanto assim. Não consigo me lembrar o que me motivou nem como consegui o número, mas um dia liguei para o consultório do Guinga, que, já músico conhecido, parceiro de Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro, ainda atendia como dentista. Sei que da nossa conversa pintou um convite para assisti-lo no Jazzmania, casa de show que não existe mais. Fui, obviamente. Ao final da apresentação, conversei com ele e dei-lhe de presente um exemplar de "A palavra em construção", primeiro livro de que participei, uma coletânea de contos do grupo Estilingues. O Guinga é a simpatia em pessoa. Corta. Alguns anos depois, vou a um show dele com o Hermeto Pascoal. Quem não foi, morra de inveja e imagine a beleza daquele encontro. Terminado o espetáculo fui eu puxar prosa com o Guinga de novo. Ele então me perguntou se eu tinha sacado o que acontecera ali. Do que ele estava falando? Hermeto, com seus improvisos, tentara derrubá-lo o tempo todo. O ex-dentista não estava chateado, ao contrário, estava radiante por ter enfrentado o desafio proposto por um gênio. Hermeto, Hermeto, você me ofereceu os melhores shows a que já assisti em minha vida. 

Escrevo uma crônica da falta de assunto; pior, sem direção. Não vou me desculpar com o leitor, já que, tendo chegado até aqui, não se contentará com um simples “errei, perdoa, vai”. Como tempo é valor, ou tento corrigir a derrapada ou esclareço o real motivo de estar tão disperso, embriagado até. Opto pela segunda. Sabe o que é, não quero carnavalizar minha alegria vingativa, pois acho horrível esse sentimento. Todavia, é com ela que tenho convivido desde o último 11 de setembro, quando as torres dos candidatos a ditador vieram abaixo, abalroadas pelo teco-teco da justiça. 

7.9.25

Antimusical

 


Ouço menos música, constatação que me entristece, pois sempre fui um ouvinte dedicado, tentei até tocar um violãozinho, no que, para sorte do mundo, fracassei. Nos festejos familiares, tive os primeiros contatos com as modas de viola cantadas por meus pais, primos e amigos. Depois, veio a trilha dos meus irmãos com as românticas italianas, sucesso nos anos de 1960, os Beatles (e o iê-iê-iê tão nosso) e o garoto Chico Buarque, xodó das meninas. Andando com as próprias pernas, conheci o rock, fazendo de Pink Floyd e Queen meus preferidos.

Houve um dia, porém, que chegou lá em casa o "Milagre dos Peixes ao vivo", de Milton Nascimento, e sua audição não só transformou o moleque que eu era como também abriu-me as portas para a MPB. E tome os clássicos (Noel, Pixinguinha Dorival Caymmi e Bossa Nova), a geração de 1960 (Chico, Caetano, Gil, Betânia, Gal, Paulinho da Viola, Tom Zé, Sueli Costa), a que veio em seguida (Sérgio Sampaio, Rita Lee, João Bosco, Joyce, Secos e Molhados) e a posterior (os independentes, como Rumo, Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé). Não fui um grande fã do rock dos anos 1980, ainda que escutasse Marina, Cazuza e Titãs. Por outro lado, mergulhei em Cartola e toda a dinastia do samba.

A música instrumental tomou seu lugar não sei bem como (as orquestrações do disco ao vivo do Milton ajudaram), mas certa hora Egberto Gismonti me tirou do chão. No rastro dele, vieram o pessoal do samba-jazz e, orientado pelo avô de meus filhos, o próprio jazz, em particular seus ídolos Chet Baker e Modern Jazz Quartet. Comecei a escrever ouvindo música, em especial a instrumental, mas não somente. As palavras de um Cacaso, de um Fausto Nilo ou de um Vinícius de Moraes não atrapalhavam as que eu, catando milho, escrevia na antiga máquina de datilografar —— primeiro manual, depois elétrica —— e, mais tarde, no computador.

Tudo isso ficou para trás. Não, tenho de me corrigir. Continuo adorando música, mas minha relação ficou mais complexa. Por exemplo, não consigo escrever com música, nem a mais suave das clássicas. Como passei a usar fones para fugir das reclamações sobre meu gosto musical feita pelo pessoal de casa, hoje preciso estar isolado —— no melhor momento caminhando pelo Aterro, pela Urca ou pela Lagoa. Tem acontecido de eu começar a ouvir um disco (sempre inteiro, detesto aleatoriedade ou lista) à noite e perder o sono. A música (mais que os filhos) me tira o sono. Fico excitado, repito não sei quantas vezes o disco todo ou algumas de suas partes.

Claro que, com menos dedicação, tornei-me seletivo. Digo assim para não confessar que não acompanho as novidades. O pessoal xinga ou elogia os novos cantores, diz que é tudo uma pasmaceira ou uma maravilha sem fim, e eu desconheço o objeto do ódio ou do amor. Quer dizer, de quem falam, eu sei, todos ocupam a mídia, mas estou por fora do que tocam ou cantam. De todo jeito, alguns chegam a mim quer porque minha filha ou meu caçula dizem que tenho de ouvir fulano, quer porque uma revista elogia beltrana de tal. Procuro escutar e gosto de uns, de outros, não. Os que gosto, como Alice Passos, Luedji Luna e os não tão novos assim, Márcio Faraco e Emicida, incluo na trilha sonora de minha insônia (ou das passadas fortes sob o sol) na qual já estão Sivuca, Miles Davies, Titane, Lula Queiroga, Pat Metheny, Mônica Salmaso, Deep Purple, Zeca Pagodinho, Fátima Guedes, Vitor Ramil, Marianne Faithfull, Keith Jarret, Nina Simone, Led Zeppelin, Joaquin Sabina, Novos Baianos, Leonard Cohen, Elizeth Cardoso. Sem esquecer Chopin e Satie. Sem esquecer... ah, lista inumerável!

Preocupado com a minha disposição no dia futuro, me policio nas madrugadas e lá pelas tantas tiro o fone do ouvido. Tento dormir, o que não acontece de imediato, é preciso um tempo até que ocorra o desmame do vício.

25.8.25

Etiqueta

Na minha recente ida a Belo Horizonte, uma de minhas irmãs contou que, nos anos de 1960, ao instalarem o primeiro telefone na casa de meus pais – o 752, um dinossauro que, para falar em outra cidade, precisava da ajuda de telefonistas, e uma chamada de Passos ao Rio de Janeiro poderia demorar horas a fio até se completar –, mamãe disse que um dia veríamos numa tela a pessoa com quem falaríamos, ou seja, ela anteviu a chamada de vídeo. Minha irmã acredita que essas visões futuristas de dona Haydée estavam ligadas à leitura de Julio Verne. A literatura parece ter alguma utilidade, vejam só. Meu interesse não é a literatura – ainda que, vocês verão, também seja um pouco –, é ter sido alcançado pela lembrança materna ao voltar ao Rio de Janeiro.

Nossa vida está inteirinha no celular, o que é bom. Mas, gente, inventaram bem antes dele o fone de ouvido, que, numa viagem – dentro ou para fora da cidade –, nos ajuda a ouvir música ou áudio ou ver um filme ou jogar esses joguinhos barulhentos sem importunar ninguém. É a coisa mais simples do mundo. As mensagens trocadas no aplicativo, por sua vez, podem ser escritas, não é preciso usar o áudio. Eu não preciso saber – como soube – que a filhinha do rapaz sentado na poltrona atrás da minha estava com o pé machucado, que assim que ele chegasse ao destino iria levá-la ao médico. Mais que isso, que pensava em recorrer à justiça para ficar com a guarda de suas três crianças, no momento nas mãos de uma mãe relapsa. Um drama sério, mas e meu sono? E a leitura da moça ao lado? Foram para as cucuias. Para lá também foram o sono, a leitura, a conversa fiada recém-iniciada por dois estranhos quando o telefone da senhora na poltrona que o corredor separava da minha tocou numa altura impressionante. Imagino que ela já não escute tão bem – eu mesmo perdi a audição supimpa da juventude, o que, segundo a mamãe (de novo), seria inevitável já que ouvia o Pink Floyd em volume doentio –, mas há meios alternativos de saber se o celular está tocando, o famoso modo vibratório. Enfim, é preciso respeitar o outro, pensar que o coitado não está minimamente interessado na sua vida. Além do mais, preservar a intimidade é uma forma de se proteger nesse mundo abarrotado de larápios.

Minha rabugice encontrou mamãe nas curvas perto de Barbacena, cidade das flores, da aeronáutica e do terrível hospital de doentes mentais, hoje, felizmente, fechado. Dona Haydée prezava a etiqueta, que impunha aos filhos – tenho uma boa educação pequeno-burguesa, apesar de ter sido rebelde. Não digo os bons modos à mesa, nem a educação superlativa que acha um absurdo chamar os outros para comer, quando se pode chamá-los para almoçar, lanchar ou até mesmo cear, mas uma etiquetinha nesses tempos de exposição excessiva ao mundo virtual cairia bem.

Digo mais, podemos estender os bons modos ao mundo literário. Não, não vou sugerir que deixem de ler na rua, no ônibus, onde quer que seja – a leitura não incomoda ninguém. Tampouco direi que não se deve molhar a ponta dos dedos para virar as páginas (mesmo porque muitos leem livros eletrônicos). Por favor, leiam sempre e muito e do jeito que quiserem. Meu assunto é com o escritor circunstancialmente simpático, aquele que é tomado, às vésperas de um lançamento, por uma amabilidade jamais vista. Acho normal convidar, em rede social, deus e o mundo para um evento nosso. Acho razoável abordar com parcimônia pessoas pelo WhatsApp. Agora, enviar mensagens particulares, forçando uma intimidade inexistente, é duro na queda. Pessoas com quem não convivo, sem noção de tudo, já me disseram que sou o escritor/leitor mais importante do mundo. Ô, simpático de ocasião, segura as pontas.          

Para rabugentos feito eu, mamãe também teria conselhos a distribuir. Talvez dissesse: “Ao comer o pão de enxofre que o diabo furtou, mastigue de boca fechada, o cotovelo longe da mesa, o corpo ereto, os pés bem postados no chão. Não avance na comida com sofreguidão, dê-se ao paladar. Distraia-se pensando na infância, na adolescência, na sua história. Não cuide da vida alheia.” Ou seja, me orientaria a, em vez de criticar o outro, me ajeitar comigo mesmo. O fone de ouvido, citado ainda há pouco, serve para eu ouvir o velho Pink num volume confortável e me libertar do movimento dos demais passageiros do ônibus. Posso simplesmente ignorar os excessos do colega de escrita – senão perdoá-los. A ansiedade mata a gente, sei como é.

11.8.25

Um sonho

 Com a democracia pendurada no pau de arara e assim exibida em praça pública, sonhei que havia morrido. Morto, passei por toda a preparação: da limpeza do corpo à vestimenta, da acomodação no caixão ao transporte em carro funerário. O interessante é que, mesmo tendo partido dessa para a outra – quem saberá se é a melhor? –, eu tinha consciência de tudo. Olha só, me vestiram um terno! Ó, até que não é tão desconfortável essa urna! O ápice viria a seguir. Deixado no local do velório, levantei-me, dirigi-me a um sujeito que não parecia estar ali por minha causa e dei-lhe um belo soco na cara. A vítima era ninguém mais, ninguém menos que o torturador máximo da democracia: Trump. O que poderia parecer um pesadelo, era, de fato, uma vingança velada: uma quimera.

Os psicanalistas que me desculpem, não analiso esse sonho a partir de minhas suscetibilidades ou de meus desvãos, mas sim como homem político. Precisamos dar um soco – a minha índole pacifista clama para que o entendam como metáfora – no senhor Laranjinha e passar uma rasteira nessa turma que, empunhando Bíblia, fala sozinha pelo plenário do Congresso ou, agindo como jovens inconsequentes, arma um escarcéu na casa da democracia. Uma vez caída no chão, ordenar que recolham ao lixo essa nata do atraso.

Estamos diante de um velho fantasma, o fascismo, num mundo turbinado por inovações tecnológicas. Lutar nesse ambiente é o desafio. Seja como for, penso que meu sonho quer dizer que o velho homem humanista, na pele do eu defunto do sonho, não pode aceitar a própria morte, deve levantar-se do caixão e partir para a luta.

Como lutar é que é o negócio. Protestar nas ruas parece estar fora do catálogo político, nesses tempos de ágora eletrônica, que, aliás não é isenta e do povo, como a Castro Alves na Bahia carnavalesca. A e-praça tem lado, o deles.

30.7.25

Um amador da literatura - resenha de Nilma Lacerda

 

Duas novelas de Alexandre Brandão revelam a leveza, o humor e a densidade de um escritor amador — no melhor sentido barthesiano do termo (1)

Em 1995, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, uma exposição apresentou ao público intrigantes obras visuais de um grande pensador da literatura. Roland Barthes, artista amador, com curadoria de Silviano Santiago, não apenas surpreendia com sua produção plástica inesperada e bela, como também instigava reflexões sobre o conceito de artista amador. Diz Barthes:

O amador não é obrigatoriamente definido por um saber menor ou uma técnica imperfeita […], mas, sim, por isto: ele é o que não mostra, o que não se faz ouvir. […] O amador procura produzir apenas o seu próprio gozo (mas nada proíbe que este, sem que ele o saiba, venha a ser nosso por acréscimo) […]

Alexandre Brandão é um amador da literatura — no sentido mais nobre do termo. Pratica com afinco o ofício de narrar: escreve contos, poesia, novelas e crônicas, além de funcionar como uma espécie de embaixador da literatura alheia, divulgando o trabalho de colegas em encontros e conversas. De sobrenome generoso, Brandão constrói uma obra sólida, em produção constante, e compreende que a vida literária só existe em regime de troca — como bem apontou Antonio Candido. Tudo isso longe dos holofotes, que hoje brilham mais por engano do que por merecimento.

Mineiro do interior que desemboca no Rio — como tantos —, Brandão é um autor ao qual convém prestar atenção. Seu mais recente livro, aí onde não cabe, reúne duas novelas: zerinho ou um e o anjo ouve os noturnos. Seguindo os passos de grandes cronistas do Rio de maravilhas e mazelas, o autor captura tipos humanos com a leveza de quem trafega entre elegância e marginalidade.

A primeira novela, zerinho ou um, vencedora do prêmio Flipoços/Kindle para escritores independentes em 2022, atualiza O príncipe e o mendigo de Twain no Rio contemporâneo. O narrador, a um só tempo irônico e compassivo, acompanha as vidas entrelaçadas de Blasco, bilionário por acaso, e Dico, excêntrico sonhador. Segundo Andréa Bieri, há ali um convite a um pacto fáustico. O jogo de trocas identitárias se dá em uma narrativa onde as metamorfoses ocorrem com naturalidade, beirando o onírico.

Nesse terreno em que a realidade é porosa, personagens circulam como alegorias vivas. Delcídio, amigo de Blasco nos tempos de escassez, transforma-se literalmente em cão fiel — com direito a coleira e pelos. Em tom de blague, o narrador revela o que, nas ruas da cidade, parece pitoresco, mas é profundamente humano: a fé nos dados viciados da sorte, a ilusão da liberdade como permanência.

Caminhar pela cidade é, para Dico, estratégia contra o tédio e a solidão. Ele busca um cão, um vínculo. Percebe, então, os sinais da vida urbana:

Captava os sinais que reverberavam na cidade: o porteiro vendo televisão em seu posto de trabalho, a ratazana correndo de um saco de lixo a outro; a mulher, ao passar por ele, dizendo ao celular: “Agora é tarde, não dá mais”; e ainda o homem, debruçado à janela, fumando.

É uma cidade de flashes e ruídos, de fragmentos sem nexo — à maneira do mundo drummondiano evocado nos versos da orelha do livro: “Meu bem, o mundo é fechado/ se não for antes vazio”. Mas também há espaço para Leminski: “Não discuto/ com o destino/ o que pintar/ eu assino”. Blasco e Dico assinam o que a vida lhes oferece, seguindo em cena — ainda que troquem de papel.

Blasco saiu à rua. Caminhou pela calçada maltratada pelo prefeito relapso. Esbarrou na bicicleta amarrada ao poste em frente à casa 408. Pulou o buraco aberto na calçada pela raiz de uma árvore.

A cidade — feita de tropeços, desvios e surpresas — é também o cenário da segunda novela, o anjo ouve os noturnos. Clara, a protagonista, lida com a morte do pai. Ao organizar seus pertences, encontra uma foto enigmática, que a conduz por um labirinto de descobertas. A imagem que ela tinha do pai — homem silencioso, apreciador dos Noturnos de Chopin — desmancha-se diante de revelações inesperadas.

Mostrei-lhe a foto de meu pai. Você é filha do Anjo? Do Anjo – me espantei? […] desconversou. Insisti. Ele disse, em tom pouco convincente, que o apelido tinha a ver com Chopin. Fernando gostava de Chopin, que produzia a música dos anjos.

Clara é lançada a uma investigação que, embora permeada por sinais e deslocamentos, não busca apenas respostas sobre o pai. Ela tateia o próprio mundo — seus limites, fragilidades e possibilidades. Em Cantagalo, no final da narrativa, o canto do galo ecoa como prenúncio de manhãs por vir.

Com estrutura de romance policial que deixa pontas soltas, o anjo ouve os noturnos joga com o gênero. Os títulos dos capítulos remetem mais à crônica do que à linearidade narrativa. Os grafismos de Ricardo Tamm, presentes desde a capa até as páginas internas, dialogam com esse caráter fragmentário e lúdico da obra: linhas emaranhadas, setas, asas interrompidas, giletes partidas, braços estendidos para o vazio.

aí onde não cabe habita justamente as frestas do real. São duas novelas que revêm papéis e lugares urbanos, apontando perdas como ponto de partida. Um mundo de minúsculas, de frases em curso de sentença. Nada começa — tudo continua. As identidades se esgarçam para abrir espaço ao inédito. A leveza, o humor, o deslocamento: eis os instrumentos de Brandão, que, como suas personagens, segue caminhando, sem certezas.

Como Barthes sugeriu, o amador escreve para o próprio prazer. Mas, não raro, esse prazer extravasa — e nos atinge. É o que faz Alexandre Brandão, em silêncio, à margem, entre letras que desenham um mundo por vir.


(1) Resenha publicada no site do Rascunho, em 30 de julho de 2025. 

 

26.7.25

Anedotas literárias

Soube não faz muito tempo de uma história ocorrida com dois baitas escritores. Vargas Llosa, ainda jovem, foi entrevistar Borges, seu ídolo, em Buenos Aires. O autor de “O Aleph” vivia num apartamento pequeno e não muito bem conservado. O entrevistador, antes dos assuntos literários – senão em vez deles –, começou a fazer perguntas sobre o apartamento, talvez preocupado, até mesmo desapontado, afinal de contas estava diante de um gigante. Quando o escritor peruano foi embora, Borges perguntou se teria sido um corretor de imóvel que o visitara.


Imagem gerada por IA

Um caso desses vai ganhando demãos de tinta ao passar de uma pessoa a outra. Borges pode ter feito a pilhéria da visita para algum amigo, que tratou de passar a outro já com uma camadinha maior de ironia. O fato e o chiste teriam se perdido caso Llosa não se tornasse também um gigante. Quer dizer, na literatura, imenso; na política, não muito distante do que foi o próprio Borges, um fiasco.

Escutei esse caso num trecho de uma palestra que Ricardo Piglia, outro escritor argentino, fez não sei nem onde nem por qual razão. Seja como for, a “vítima” do disse me disse não raro guarda mágoas. Assim, suponho, o soco que Llosa deu em Gabo – por ciúme, já que o colombiano, um grande amigo até então, esticava os olhos para a sua esposa – pode ter tido a força adicional de uma vingança contra Borges.

No Brasil, onde não falta pugilismo literário, há uma historinha com cheiro de invenção e bem conhecida, cujos personagens são diferentes, conforme a versão. Da primeira vez que a ouvi, eram Antonio Maria, cronista e letrista, e Vinícius de Morais. Antonio Maria contou a Vinícius que, na ponte aérea entre São Paulo e Rio, uma moça o confundiu com ele. O ainda embaixador – Antonio Maria faleceu em 1964 e Vinícius perdeu o posto em 1969, na ditadura – ficou curioso e disparou um “e aí?, e aí?, e aí?”. Aí, disse-lhe Maria, ele deu corda ao papo, pediu um uísque, e a conversa engatou. Desceram no Santos Dumont, alojaram-se no restaurante, comeram alguma coisa e tomaram mais uma bebidinha. “E aí?, e aí?” Aí, continuou o letrista de “Manhã de carnaval”, foram para um hotel. “E aí?, e aí?” “Aí, poetinha, você broxou.”

Vinícius, que se casaria nove vezes – salvo engano meu ou dele – não parece ter se importado com isso. Fosse Ziraldo, a coisa fervia, pois o incansável cartunista, escritor e jornalista nunca admitiu um fracasso sexual. Como o autor de “Flicts” ostentava uma senhora coleção de coletes, não duvido dele.

Embora transite entre escritores desde 1987, não tenho grandes histórias, embora uma ou outra tenham lá sua graça. Quando organizamos o grupo Estilingues – eu e seis amigas, depois de recusados na oficina literária que frequentávamos, pois estávamos, segundo a direção, adiantados e atrapalharíamos os novatos, passamos a nos encontrar em casa, vez ou outra contratando uma pessoa para nos orientar –, resolvemos consultar o Sérgio Sant’Anna sobre a possibilidade de nos acompanhar por uns tempos. Fui encarregado de fazer o contato. Liguei para ele e, logo depois de ouvir sua voz, mandei um “a gente somos um grupo”. Educadamente, recusou o convite. Eu faria o mesmo. Ou não? Sei lá.

Me encontrei certa vez com o mesmo Sant’Anna num lançamento, e ele estava apreensivo, pois pela primeira vez ganhara um bom dinheiro com a literatura. Como a grana estava em sua conta-corrente, seu medo era que um hacker a roubasse. Tentei tranquilizá-lo, afinal não era tanto dinheiro assim, e os golpes eram mais no atacado que no varejo. Por falar em roubo cibernético, depois de um tempo sem nos vermos, eu, Horácio – hoje um retrato na parede do meu afeto – e Nelson marcamos um chope no Bar Luiz, tradicional restaurante alemão que não suportou a crise mais recente e foi fechado depois de funcionar por cento e trinta e cinco anos. Lá pelas tantas, Horácio – além de escritor e artista plástico, um pioneiro da computação no Brasil – sugeriu que roubássemos um banco. Seria, como temia Sant’Anna, uma ação limpa, uma invasão eletrônica, um assalto cibernético. Não, não fizemos isso, porém, como defende um meme já clássico, se feito, estaríamos apenas reagindo já que foram os bancos que começaram.

Nesse mesmo Bar Luiz, estávamos eu e um grupo do trabalho, amigos sem nenhuma ligação direta com a literatura, quando um homenzarrão entrou pelo bar lotado e, vendo que tínhamos uma cadeira vazia, pediu para se sentar conosco. Eu sabia quem era, os demais, não. Ele então contou que havia acabado de sair de uma reunião do PDT (cuja sede era a uma quadra dali) e precisava respirar e tomar um chope com Steinhaeger. Deu um gole, deu outro, mais um e, copos quase vazios, dirigiu-se a nós perguntando se o havíamos lido. Permaneci quieto, enquanto os outros se mexiam nas cadeiras e olhavam o vazio. Contrariado, o penetra balançou a cabeça de um lado para o outro, deu mais um gole e falou sem modéstia que era preciso que o lêssemos, seu nome era Fausto Wolff. Levantou-se e foi embora. Meus colegas me olharam um pouco atônitos, e eu afirmei que, apesar daquela mendicância messiânica, sim, deveríamos ler o escritor gaúcho.

14.7.25

Diagnóstico preciso

Leio que uma atriz global publicou em rede social fotos de seu rosto avermelhado e confessou sofrer de rosácea, doença dermatológica que causa esse tipo de marca principalmente na maçã do rosto, mas que, em graus mais graves, pode atingir os olhos. Não é, de todo modo, nada muito sério, e o remédio sugerido é a velha e boa ivermectina, nesse caso indicada pela ciência em sua forma mais rigorosa possível, sem arroubos de presidentes boquirrotos e perigosos.

A rosácea atinge principalmente brancos, mais mulheres que homens e pode piorar por conta de certos alimentos – picantes, queijos, bebidas alcóolicas – e até por exercícios aeróbicos. No entanto, é o estresse que a faz aflorar.

Sem mostrar meu rosto, mesmo porque a coisa está sob controle por aqui, confesso que também sofro desse trem. Nenhum médico me disse para evitar os alimentos e exercícios físicos, de modo que como meu queijinho – ai de quem me proibir de comê-lo – curado da vida, dou minhas caminhadas suadas da vida, tomo minha cervejinha gelada da vida. O que não controlo é o tal do estresse.

A primeira vez que me senti incomodado com meu rostinho que nunca teve espinhas – ou teve muito poucas – aparecer manchado me fez correr para a nossa antiga dermatologista. Conhecedora de toda a família, o início da consulta foi um bate-papo sobre os filhos, como eles estão, se a pele de um melhorou, se a do outro continua aquela beleza. Enfim, papinho camarada. Então ela olhou para mim, escaneou meu rosto e, de longe, sem fazer um exame apurado, disse assim na lata: “Alexandre, você está precisando ganhar mais dinheiro”.

Nunca vi médica tão sábia.

Já com a lupa na mão e depois de investigar não só a danada da mancha, mas também o resto do rosto, o pescoço, a cabeça, o peito, ela deu o diagnóstico: “Isso no rosto é rosácea, no mais nenhum sinal preocupante”. Receitou a pomada à base da droga que esteve no centro político da covid e pediu para eu voltar daí a um tempo.

Voltei.

Estava melhor.

Só não resolvi o problema de fundo: a grana. Contra isso, a médica não pôde nem pode fazer nada. Me consolo pensando que talvez eu não seja o único, vai que a atriz global também esteja no perrengue.