22.3.25

Março dançante

 Este março de 2025 tem sido agitado. Festas de aniversário, inclusive do meu caçula e da editora Patuá no Rio de Janeiro, lançamentos e encontros casuais com amigos do peito. Sem contar o carnaval. Não é sempre assim e, aliás, esse ritmo poderia ser mais intenso se meus quatro sobrinhos marcianos (é assim que se fala?) morassem no Rio, pelo menos no Brasil. Dois estão na França, um na Austrália e outro, que vai ser papai já, já, no Canadá. Eu os saúdo de longe.

Ao mesmo tempo tem sido um mês intenso de leituras, quer dizer, de leituras de originais. Leio um livro com um conjunto de textos curtos, que ora são crônicas, ora contos (alguns dando voz a animais, quase fábulas, ou fábulas sem moral da história), ora ensaios, ora artigos de opinião. Um olhar amoroso sobre o mundo do Moacyr Godoy Moreira, escritor com quem mantive intensa troca de e-mails há um tempo, antes de nos perdermos. Fui reencontrá-lo em fevereiro, também numa festa, a da Patuá em São Paulo.

Justamente essa leitura me fez pensar em como somos atingidos de tantas maneiras por ela. Antes de continuar com o Moacyr, cito um vídeo do escritor Décio Zylbersztajn, de sua série no Instagram chamada Bibliotopia. Umberto Eco teria dito que há diferentes leitores, Décio complementa: também diferentes leituras: a compartilhada, a releitura, a de textos de múltiplos sentidos, muitas outras. Cita a escritora polonesa Olga Torkaczuk, que lamenta o fato de as leituras contemporâneas serem muito ao pé da letra, literais demais (ou, digo eu, literárias de menos). A partir disso, me ocorre como uma frase – ou verso, no caso de um poema ou de uma letra de música – pode ser poderosa.

Volto ao Moacyr. Um de seus personagens confessa que em “Sol de primavera”, música de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, seus olhos se enchem de água ao ouvir “abre as janelas do meu peito”. Acho isso bonito, quase (ou hiper) religioso. Tenho uma coisa parecida com “eu sou o cheiro dos livros desesperados”, de Caetano Veloso em “Reconvexo”. Aliás, essa é a música que me tira da cadeira (obviamente depois de ter encharcado as palavras e desenferrujado os pés) nas festas. Virou até uma marca da família.

Há algum tempo, pilotava a churrasqueira na festa de minha filha –  uma dezembrina –, e o piloto de churrasqueira, vocês sabem, jamais passaria no teste do bafômetro. Pois bem, quando tocou essa música, larguei espetos e picanhas quase prontas, olhei a turma e disse: “Renata, vamos dançar?”. Renata é uma amiga de minha filha, dessas que a gente adota na família expandida que construímos na vida. De lá para cá, quando a música toca, ouço: “Renata, vamos dançar?”, nem é preciso que ela esteja na festa. Quase sempre a pista enche, e nela rodopio todo serelepe.

Mas, veja bem, enquanto todos olham meus pesinhos claudicantes, meus quadris animados, minhas mãozinhas erguidas ao céu, ninguém percebe, à moda do personagem do Moacyr, meus olhos nublando ao pensar nos livros desesperados. Não são todos, mas são os meus e os de muitos amigos.

10.3.25

Oscar e escola de samba, nem ligo

 Se há duas coisas que, em graus variados, não me pegam são desfile de escola de samba (um pouco) e entrega do Oscar (bastante). Apesar disso, me vi às voltas com ambas durante os dias de Carnaval.

As escolas que gostaria de ver, Mangueira, da qual sou torcedor, e Portela reverenciando Milton Nascimento, eram as últimas a se apresentar em seus respectivos dias. Sem atraso, entrariam na avenida às duas e meia da matina. Nessa hora, meu bem, durmo o sono dos justos e o dos injustos. Com o desfile de cada escola disponível aos assinantes, bem acordado, no meio da tarde, assisti aos dois e, de quebra, ao da Beija-Flor.

A Mangueira me comoveu. Aquela bateria simulando um tiroteio, som que faz parte da paisagem de quem vive nas favelas cariocas, e depois saltando para o funk e o jongo, para, por fim, chegar ao samba tradicional, e tão próprio da Estação Primeira, foi um acontecimento. Um dos jurados – justo o que foi meu vizinho – achou por bem tirar um décimo da Verde e Rosa. Deve ter suas razões, não posso discutir, mas os outros três cravaram a nota máxima, e a “Surdo Um” (apelido carinhoso), sob o comando de Taranta Neto e Rodrigo Explosão, ficou com dez. Numa leitura política que tem marcado a escola, a comissão de frente destacou os “crias”, como são chamados os jovens da favela, ao dar a eles lugar de potência e criatividade, uma contestação à perversidade dos que os veem como problema. Bem, os jurados não gostaram, e a comissão não faturou a nota máxima.

A Portela mexeu comigo quando escolheu Milton Nascimento como tema. Isso tanto é verdade que anunciei – quer dizer, comentei com dois cupinchas – minha troca circunstancial da casaca verde e rosa pela azul e branco. Esperei por um espetáculo brilhante, porém, confesso, não captei muito o sentido do que foi para a avenida. Mas isso não deve ser problema da escola, eu é que não entendo nada de desfile. De todo jeito, ver o Bituca sentado no trono abençoado por Paulinho da Viola, Monarco, tia Surica e tantos outros já vale um Carnaval e duas missas. Sabendo ainda que um dos carnavalescos é filho de um amigo meu, botafoguense ainda por cima, todo o meu envolvimento com essa invasão “mineira” só fez crescer.

A Beija-Flor, odiada por tantos – talvez por ser, junto da Imperatriz Leopoldinense, a que mais ameaça o domínio da Mangueira e da Portela –, com um samba-enredo fácil de aprender, sustentou a beleza das fantasias, a alegria dos integrantes, a emoção da despedida de Neguinho da Beija-Flor como puxador de samba e, o mais importante, a homenagem a um personagem da escola, o Laíla. Campeã sem contestação. Opa, eu não contesto, mas, entre as próprias escolas, há insatisfação e acusação de falcatrua. Isso é lá com eles, meu samba é no pé. Me corrijo, no sofá, vendo o desfile gravado.

O Oscar assisti ao vivo e inteiro. A tradução simultânea funcionou bem, e isso facilita a vida de um monoglota. De todo modo, com boa ou má tradução, a cerimônia é chata. Alguns momentos são bonitos – destaco o discurso pé na porta dos diretores (Yuval Abraham, Basel Adra, Rachel Szor, Hamdan Ballal, uns palestinos, outros judeus) de “No Other Land”, vencedor de melhor documentário –, mas as piadas são pífias, quando não equivocadas. Ao dizer que sua mulher achou uma boa ideia o marido sumir, como no filme brasileiro, o apresentador se mostrou tão desconectado de “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, que deveria, um pouco depois – aconselhado ou pressionado pelos produtores da festa –, pedir desculpas. (E eles lá pedem desculpas?) Enfim, o brasileiro ganhou merecidamente como o melhor estrangeiro e temos de comemorar e esperar – sem muito otimismo – que isso se traduza em mais recursos para o cinema nacional. Só para lembrar: em Berlim, "O Último Azul", do pernambucano Gabriel Mascaro, levou o Urso de Prata, o Grande Prêmio do Júri.

O ganhador do Oscar, “Anora”, de Sean S. Baker, é uma salada de frutas. Começa com uma pegada “Mil tons de cinza”, passa por uma comédia pastelão e, a meu ver, salvando-se de um vexame, tem um final no mínimo sóbrio – amiga minha o viu como um desfecho machista; entendo, mas não concordo. O Carnaval deu o tratamento que o filme merece, parodiando uma clássica marchinha, que agora é assim:

 

"Se você fosse sincera, oh, oh, oh, Anora

Devolvia o nosso Oscar, oh, oh, oh, agora.”

 

Mário Lago, autor da música, lá do infinito, ergueu um brinde. Fernanda Torres, atriz de ponta e figura simpática e engraçada, deve cantar a versão no escondidinho de seus quartos de hotel, onde tem vivido os últimos meses.

24.2.25

Enfim, o verão

 O tão esperado verão chegou.

Tiramos da gaveta a roupa de praia, o protetor solar, a sede de cerveja, caipirinha e pilantragem e vamos tratar de desfrutar dessa deliciosa estação.

Encontrei minha amiga Solange e, mal falei seu nome, ela me interrompeu, não se chama mais Solange, está brigada com o sol. É agora Ange, mas prefere ser chamada de Anja. O que te aconteceu, menina? Ela resolveu, no calor do meio-dia, refrescar-se nas águas do mar. Três horas depois, voltou para casa cheia de hematomas, como se houvesse levado uma surra. Vai entrar em demanda contra a prefeitura por não instalar ar-condicionado naquelas areias escaldantes. Revoltou-se quando tentei lhe explicar que isso seria impossível e me mandou ver o que fazem os árabes no Catar. Não sei o que fazem, e ela tampouco esclareceu. Fechou a cara e me deixou a ver navios. Aliás, navios lotados, em debandada do inferno.

Mas isso é pouco diante do ocorrido com um casal amigo. Começaram a se beijar, a se tocar, a se querer com toda a luxúria do desejo, reforçada por uma segunda intenção talvez até mais forte: ficarem nus para amenizar o calor. Não funcionou. Resolveram então sacar a pele. Nem assim. Se desfizeram das carnes, preservando, no início, o coração. Mas como dele também emanava um outro tipo de calor, o dispensaram igualmente. Esqueléticos, sem suas formas de mútua atração, não se diferenciavam um do outro. Assim, não chegaram aos finalmentes, convencidos de que seria ou masturbação, o que não condizia com a idade, ou necrofilia, o que apontaria uma psicopatia grave.

Vi com meus olhos umedecidos – não de lágrimas, mas de suor – um jovem derreter-se. Caminhávamos pela Atlântica, ele indo pro Leme, eu, por motivos que não vêm ao caso, fugindo de lá. À medida que nos aproximávamos, ele se liquefazia e começava a evaporar. Quando cruzamos um com o outro, só lhe restava de concreto o pensamento. Um pensamento, aliás, em alto e bom som. Não reclamava do calor, mas desses tempos em que nem podia mais ser machista em paz.

Diante de tanta bizarrice, pensei em salvar o mundo. Nosso presidente poderia convidar o homem-laranja para desfrutar de um verão tropical. O convite seria politicamente incorreto – oferecendo ao visitante mulatas, escravos para transportá-lo em liteiras, índios capazes de dar, em troca de espelhos, caça, ouro, mulheres –, impossível de ser recusado por tipo desprezível como o convidado. Logo que chegasse ao paraíso, correria para a praia e, em um segundo, iria de laranja a vermelho, de vermelho a roxo, de roxo a esturricado, de esturricado a, como diriam os jornais do dia seguinte, uma coisa parecida a uma lenha sendo levada pelas ondas frias de Copacabana.

Não posso me perder em fantasias, então volto a pensar com serenidade nas delícias do verão. Nas palavras do Foguinho Inimigo, meu colega de copo, bons tempos eram aqueles em que o calor carioca, em seus piores momentos, se assemelhava ao do Saara. Agora, quando fazem essa comparação, é porque deu uma refrescada, bateu um vento. Estou pronto para discordar, quando Ian, nosso estimado garçom, deixa a cerveja na mesa depois de encher nossos copos. Pô, menino, essa tá quente. Impossível, ele rebate, ela saiu da geladeira vestida de noiva, a ponto de congelar. Três passos entre o freezer e a mesa transformaram o vinho em água vulcânica. O Anticristo está solto.

Ah, como é bom o verão! Que assim continue.

Derrubemos florestas.

Tiremos petróleo da foz da bacia do Amazonas.

Ergamos edifícios.

10.2.25

Finícios

Não, meu leitor, não quis escrever fenícios, de quem quase nada saberia falar. Inventei uma palavrinha (não o alfabeto), se é que inventei, haja vista que não há muita criatividade em juntar o fim e o início.

Essa pequena pérola de gosto duvidoso me ocorreu ao me dar conta de que ainda em janeiro já havia perdido um primo, visto a padaria que frequentei por vinte e oito anos ser fechada e, como se não bastasse, assistido ao Trump voltar à presidência dos EUA, agora mais poderoso e sem a preocupação de esconder seus pendores autoritários, fascistas.

Meu primo está morto. Ele – preciso contar a vocês, por favor, escutem, mesmo sem interesse – nasceu em São Paulo e jovenzinho começou a passar férias na minha cidade natal. Nos tornamos amigos. Eu o invejava não só por ele ser bonito, mas por também ser desembaraçado. Uma vez, fomos tomar um ônibus e, mal chegamos à rodoviária, ele já conversava com uma menina e, mais que isso, dava uma mordida na maçã que ela comia. Seriam Adão e Eva não fosse a minha presença nem um pouco divina, mas cerceadora. Esse dom o levou a trabalhar com turismo e viver na Bahia, onde se deu nosso último encontro, em 2016. Me ocorre outra lembrança: no final dos anos de 1970, andávamos pela avenida do Contorno, em Belo Horizonte, e discutíamos como seriam os fogões do ano 2000. Não guardo ideia de como chegamos a esse assunto e me pergunto por que não apaguei tamanha insignificância da memória. Um palpite: o afeto é alimentado de miudezas, de verdadeiras bobagens. 

Devo confessar que a padaria não era de excelência. Estava mais para inconstante. No dia que acertava a mão, produzia um francês de me fazer esquecer o da padaria do Neném, a da minha infância. Mas não raro a receita desandava. Acontece. Seja como for, quando uma empresa fecha, histórias tristes se insinuam. Pode ser que o dono não tenha resistido à concorrência. Pode ser que a família em conflito tenha renunciado ao negócio para não cultivar a rixa entre os herdeiros. Certo, certo mesmo, é que um fato desses aumenta a fila do desemprego. Alguns talvez logo se ajeitem, outros, não. No caso da padaria, o que será da moça da chapa, faladeira e simpática? Do moço do café e do suco de laranja, mestre em infernizar a vida da chapeira? Do Russo? O Russo, por onde ele anda? Já não estava na padaria havia tempo. Por que não perguntei por ele? Quando uma padaria é fechada, nos descobrimos menos atentos do que imaginamos ou piores do que parecemos ser.

Quanto ao Trump, bem, ele em si já é ruim – figura grotesca, de ideias torpes etc. –, mas pior ainda é que ele abre espaço para os seus iguais ou seguidores mundo afora. Digo uma verdade, palavra de sábio, praticamente de um fenício inventando o alfabeto: a civilização não evolui, os boçais, que ocupam os poderes, não deixam.

Ah, ia me esquecendo. Ainda em janeiro perdi minha paciência. Quer dizer, minha paciência com o verão.

27.1.25

Atores

Nas relações pessoais, namoro, por exemplo, não é raro um dizer que chegou ao limite, que não tem um minuto de paz. É um exagero, quem não tem um minuto de paz é a população de Gaza, os favelados desse Brasil imenso, também os de nossos países vizinhos, africanos de todos os quadrantes, ucranianos, sírios, bem, a lista é grande. Somos superlativos ao expressar nossas pequenas falências e, do mesmo modo, as alegrias miúdas. Sou a pessoa mais feliz do mundo, comi o melhor pão de queijo do universo. Enfim, as palavras nos servem para nos levar além de nós.

Ney Latorraca, em entrevista à Bruna Lombardi – se não estou enganado –, respondeu que não era bom de cama, mas de texto, sim. Uma namorada, naquela altura vivendo em Portugal, de vez em quando ligava para ele e dizia: fala, Ney, fala aquelas coisas, fala. Já o Ney Matogrosso, ao se aproximar dos cinquentas anos, respondeu a um repórter que sua vida sexual estava morna, que tinha muita preguiça de tirar a roupa. Nossos dois Neys mentiam? Isso não faz a menor diferença. Somos, eis a verdade, personagens de nós mesmos.

Lá em Passos, na minha infância... Passos é a minha infância. E parte da adolescência. Passos é a minha vida, mas isso não interessa agora. Enfim, lá havia um garoto, Tiãozinho, goleiro nato e frangueiro. Se o elogiávamos – bravo, Tião! – por agarrar uma bola, ele se atirava no campo. Esclareço. Alguém dava um chutão e Tiãozinho encaixava a bola sem precisar fazer movimento nenhum, um petardo direcionado aos seus braços. Era nessa hora que, aplaudido, ele pulava no chão. Grande Tiãozinho, ator de um único papel, mas ouso dizer, do quilate do Selton Mello, nosso conterrâneo.

Por falar no Selton, a família dele é de artistas. Seu tio, Silas, fez muitas peças com o histórico grupo Alfa, uma turma que não só atuava, como também escrevia boas peças sobre a “Ardeia”. Além do mais, muitos eram (alguns ainda são) professores, logo influenciaram um bando de garotos, eu entre eles. Me lembro do badalado diretor Gabriel Vilela, nascido no Carmo do Rio Claro, cidade vizinha a Passos, dizer que sua paixão pelo teatro teve início ou foi reforçada ao ver nosso maior ator, Gustavo Lemos, o Gugu, atuar em “O Inspetor Geral” (Gogol), dirigido pelo Reinaldo Fonseca, um dos que alimentaram minha cabecinha com migalhas da arte. Outro tio do Selton, Stanley (a letra “S” foi patenteada pela família, só faltou serem Silva), vestia-se de palhaço durante o Carnaval e era a alegria da garotada, mas não só dela. Stanley, a quem eu procurava para uma conversa logo que chegava à cidade, era exímio imitador. Uma de suas melhores imitações era a de um primo de mamãe, Dirceu, que, não sei bem por que, tinha uma voz rouca, provavelmente consequência de alguma cirurgia. Dona Haydée adorava esse primo e, quando visitada por ele, preparava um prato especial, sempre o mesmo. Meu pai morria por aquela comida que só dava o ar de sua graça naquela ocasião rara. O que ele fazia para contornar o problema? Pedia ao Stanley que passasse um trote em minha mãe imitando o primo e marcando um almoço para o dia seguinte. Mesa posta, papai lambia os beiços, enquanto mamãe cultivava uma raiva pelo bolo recebido. Raiva passageira, no outro dia já tinha se esquecido de tudo, rindo da molecagem do marido e do Stanley.

Tínhamos um vizinho que trabalhava numa loja de eletrodomésticos e, um dia, ao chegar para almoçar, me viu, distraído e assobiando – eu era de assobios –, sentado na escada de minha casa. Aproximou-se e perguntou se não compraríamos uma TV para torcer pela seleção canarinho na Copa de 1970 que estava por acontecer. Olhei bem para ele e disse que sim, inclusive minha mãe havia me pedido para passar na loja e resolver esse assunto. Um parêntese: eu tinha oito anos. Ele não se importou com minha idade, anotou a encomenda e mandou entregar, no final da tarde, uma enorme Telefunken valvulada. Minha mãe não se fez de rogada e nem se chateou com a atitude de um pirralho e de um vendedor sem vergonha, instalou a danada e, bem, a vida a partir daí foi novela, futebol, a Copa, a grande Copa, um punhado de campeonatos que acompanhei, programas de auditório, o básico dos poucos canais existentes. No início, ao assistir às novelas, eu pensava que, enquanto acompanhava a vida de umas pessoas, elas acompanhavam a minha. Todos estávamos atuando – ou, ao contrário, todos estávamos ali, na real. Acho que a tecnologia de hoje nos levou a esse ponto.

13.1.25

As férias dos desacontecimentos

 Muita coisa aconteceu durante esse meu período de férias, embora as mais importantes estejam no rol do desacontecimento. Um cachorro que conheço superficialmente, Dado, foi minha companhia durante uma longa caminhada. Quer dizer, num percurso de cinco quilômetros, ele foi comigo até o terceiro e me abandonou do mesmo modo que se juntara a mim. Observei galinhas e galos, pavões e pavoas. Todos os dias em que estive no campo, um canarinho pousou numa árvore bem próxima de onde nos reuníamos. Descobriu-se depois que uma fêmea vivia num ninho perto dali. Formavam um casal e pareciam dialogar. Será que ela dizia para ele ir à padaria comprar pães, não muito clarinhos, tampouco aquele esturricado do dia anterior? Quem sou eu para saber? Sei da beleza, e basta. Numa noite, expulsei três vezes um besouro do meu quarto. O mesmo? Prefiro acreditar que sim. Vou além: ele queria me dizer alguma coisa, que recusei a saber qual era. Não conto detalhes do método utilizado para me livrar dele pelo simples fato de prezar os momentos de paz nas redes sociais. Seja como for, da intenção ao fato, todos sabem, vai uma grande distância, e o besouro só não voltou uma quarta vez porque me impus o isolamento radical, fechando o vitrô e, como ninguém é de ferro, ligando o ventilador.





Esse mundo bucólico me fez rascunhar um poema, logo eu cuja intimidade com a natureza ficou na infância, no Gordurinha, a fazenda da minha avó. De todo modo, gosto do silêncio e, enredado nele, de ler. Li muito, o que para mim não é um desacontecimento, mas para muita gente é. Para que serve a leitura, se pergunta o utilitarista, acumulador de dinheiro e consumidor contumaz de uísques, pílulas e insônias.

Embora o ano novo não me reserve grandes ilusões, ao contrário, será um dos mais complicados, minhas palpitações serenaram, me deixando descansar. O corpo e a mente sabem se dosar. No meu caso, tudo se dá sem o auxílio desses remédios ditos milagrosos, o que me afasta do interesse da indústria farmacêutica. Quer dizer, consumo cápsulas para o sangue fluir melhor e, ao contrário dos negacionistas, vacinas para me proteger razoavelmente dos inimigos invisíveis soltos no mundo. No futuro, distante ou não, sucumbirei a todas as armas para manter-me em pé e lúcido. Quero seguir vivo, ainda que me filie entre os que se encantam – não é apenas respeito – com a decisão do poeta Antônio Cícero de dar adeus à vida antes que a mente se ausentasse e o corpo persistisse.

Grande parte desses acontecimentos miúdos, que nomeio negando-os, se deu ao lado de amigos e familiares. Por isso, eles tomam vulto, embora não transbordem para fora do grupo, nem mesmo para fora de mim, para ser sincero. Assim, repercute ainda no meu descompasso uma frase ouvida no sabor das cervejas, numa mesa grande, na qual era difícil ouvir o outro. Ou, numa conversa reservada, o olhar que, ao perceber o blefe da minha alegria, abandonou a galhofa e se fixou atento e solidário sobre mim. Minha alegria não é um blefe, devo esclarecer, só está temporariamente em banho-maria. Filho de meu pai, sou alegre e raso.

Comprei um vinho errado para levar ao campo. E não uma garrafa, mas duas. Isso me fez escrever o poema abaixo. Considero-o um embrião de poema – aliás, não passo de um poeta embrionário –, mas compartilho-o assim mesmo.

 

Frio Temporão

 

Enfim, o vinho é o errado,

no lugar do seco, o meio seco,

que é quase doce.

 

No penúltimo dia do ano faz frio

na serra, peço então ao vinho

sua mão companheira.

 

Amigo que aos olhos dos pais

é sempre errado, ao meu

calha também de ser,

 

mas nesse frio temporão,

bebo o inconfiável, dando-me à alegria

em tudo espalhada.

30.11.24

Na onda

Tenho um compromisso fajuto e injustificável comigo mesmo: evito as grandes aglomerações. Não estou dizendo só de não ir a grandes jogos, shows ou eventos. Fui ao comício das Diretas Já, aqui no Rio, a shows históricos no Maracanã – Sting e Rolling Stones – e no Nilton Santos vi, no ano passado, Roger Waters e acompanho de vez em quando o Botafogo. Se na minha juventude comparecia a tudo meio empurrado, agora só na força bruta. Uso com alguma liberdade a palavra aglomeração e a associo ao movimento que leva todo mundo a ler o mesmo livro, a ver o mesmo filme, a ouvir a mesma música. Nem li “O nome da Rosa”, do Umberto Eco, nem vi o filme inspirado nele. Não fui assistir ao Paul McCartney, nunca pisei no Rock in Rio. Tenho uma penca de exemplos dos quais não me orgulho. Sofro porque perco boas coisas e, pior ainda, por me ver numa postura bem elitizada. Um entojo de gente. Arre!

Mas não me furtei a pegar a onda do momento. Não, amigos, ainda não foi o último lançamento da Anita, uma figura bem interessante, mas cuja obra desconheço quase completamente. Me refiro ao filme do Walter Salles, “Ainda estou aqui”.

Não faz muito tempo, bati um papo com um amigo estudioso da atuação dos militares no nosso país, em especial do golpe de 1964. Ele me chamou a atenção para o fato de que muitos livros, filmes e séries voltados à ditadura e seus desdobramentos carregam um alto grau de manipulação e esgarçam a história para pegar o leitor ou espectador no contrapé emocional. Usam as artimanhas das novelas televisivas, quase sempre forçando a tinta de histórias românticas ou tentando levar o público às lágrimas. É um ponto a se considerar. De todo modo, tenho como leitura recente “O corpo interminável”, da Cláudia Lage, livro que, a partir das “descobertas” de um jovem casal sobre os estragos da ditadura na vida de seus antepassados, trafega pelo caminho distante do apelo sentimental.

Meu amigo Rafael Conde, cineasta de Belo Horizonte – onde tem havido uma cena audiovisual muito interessante, particularmente no polo de Contagem (de lá saiu “Marte Um”, de Gabriel Martins, talvez o mais conhecido, mas não o único bom) –, está percorrendo o país para divulgar seu mais novo trabalho, “Zé”, baseado em livro de mesmo nome, de Samarone Lima. O filme narra a história do líder estudantil José Carlos Novais da Mata Machado, um mineiro bem-nascido, que aprofunda a visão crítica do pai sobre o golpe e passa a viver, em péssimas condições e clandestinamente, a serviço do movimento de resistência. Ele acaba preso, torturado e assassinado pela ditadura. Rafael também não faz truque dramático para conquistar o espectador. Ele expõe, com habilidade cinematográfica, uma faceta daqueles tempos sombrios.

Comecei a falar do filme arrasa bilheteria do momento (ah, como é bom ter um brasileiro nesse lugar!), aquele que, vencendo meus tolos preconceitos, fui assistir, e me perdi. Não, não me perdi, só rememorava obras que revisam a ditadura e fogem ao dramalhão, numa espécie de elaboração de resposta a meu amigo.

Em “Ainda estou aqui”, o diretor teve a chance de fazer uma senhora novela mexicana da história da família de Eunice Paiva. Afinal é uma mulher que, com cinco filhos menores, teve de dar conta de viver sem notícias do paradeiro de seu marido – o ex-deputado federal e engenheiro civil Rubens Paiva –, um dia arrancado de casa e, soube-se depois, bem depois, logo assassinado pela ditadura. O cineasta, inspirado no livro de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice, passou longe desse caminho e, contando com pelo menos três interpretações fora do comum, de Fernanda Torres, Selton Mello e Fernanda Montenegro, enfrentou um dos piores momentos de nossa história dosando muito bem o drama pessoal e o coletivo. Sem apelação, nos dá a chance de mais uma vez reconhecer as atrocidades da ditadura, o que pode nos ajudar a vencer uma tendência brasileira de, em intervalos marcados, agarrar-nos a propostas autoritárias, inimigas do complexo convívio democrático.

Foi assim que inventamos um caçador de marajás na reta de largada da democracia; quando esta parecia estável, saímos pela rua pedindo para prender todos os corruptos. Bem-intencionados e inocentes, caímos na esparrela desse discurso que não para em pé. O movimento nos levou a um governo incompetente, desatinado e, soubemos há pouco, não só inimigo da democracia, mas também capaz de fazer qualquer coisa para jogá-la no esquecimento, inclusive matar os candidatos vitoriosos da última eleição e um juiz que segurou na careca as investidas antidemocráticas. Teremos aprendido? Não sei, mas o público dos filmes do Walter e do Rafael ou os leitores da Cláudia criam um calo, ficam esperto, não caem em conversa mole de quem vira as costas para a ciência e cultiva o ódio.

16.11.24

Avisos

Os muros falam, isso qualquer um vê ao andar nas ruas de cidade pequena ou grande, no Brasil ou fora. Minha amiga Nilma Lacerda coleciona essas falas, reflete sobre elas.

Gosto especialmente de uma para a qual já dediquei uma crônica: “Não fui eu”. Ao lê-la pela primeira vez, numa parede de Botafogo, meu bairro no Rio de Janeiro, fui imediatamente arremessado àquele período entre a infância e a adolescência, quando já não temos a inocência daquela nem a pretensa sabedoria desta. Enfim, naquele momento em que eu e meus amigos não passávamos de uns bobocas, muito mais do que continuamos a ser (me curvo ao lugar comum de que não há pós-doutorado que arranque de mim e de todos os representantes do gênero masculino a sétima série). Normalmente o não fui eu era a mentira dita por um dos amigos que deixara escapar, por distração ou de caso pensado, uma fedorenta ventosidade. No muro, não sei se inspirado nessa bobagem, o registro escancara uma característica muito brasileira, a de ninguém querer se responsabilizar por nada. É triste, mas, vamos lá, nem tão verdadeiro assim.

Venho reparando, recentemente, não na voz anônima das ruas, mas em avisos de origem clara afixados por aí. Por exemplo: no banheiro lá do trabalho, há vários papeizinhos nos lembrando que: não se deve urinar no chão nem jogar papel higiênico no vaso; é obrigatório dar descarga; é inaceitável deixar a torneira aberta. Gosto muito de um: “Por uma questão de educação e respeito, mantenha a porta fechada”. Imagino que a escolha por essa linguagem solene responda a uma crença de que as pessoas obedeçam a esse tom e não a outro. Não vou discutir isso, mas mães e pais mandam um verbo mais direto: “Tranca a porcaria dessa porta”. Enfim, num ambiente de trabalho, é melhor ser cortês.

Usamos banheiros todos os dias, e, se em nossas casas prezamos a higiene e nos comportamos dentro do que é esperado, então os banheiros públicos deveriam prescindir de avisos que bisam, de fato, as regras básicas da civilidade. (Antes de prosseguir, deixo anotado: para muita gente, água encanada, banheiro e esgoto são um sonho.) A existência desses bilhetes mostra que, no ambiente comunitário, agimos como feras. Que se danem os outros, não fui eu, mesmo que tenha sido. Comportamento triste, uma demonstração clara do que somos na vida cidadã, quer dizer, não cidadã.

A minha experiência diz que, apesar dos bilhetes – às vezes pequenos, tímidos, às vezes em letras garrafais –, os banheiros, no final do dia, estão pela hora da morte. Todos os avisos foram descumpridos. Não se deu descarga, a urina tomou conta do chão, as toalhas de papel usadas ocuparam não só a lixeira, mas também o mármore da pia, o piso, o vaso, o mictório. No sanitário masculino – não sei como é no feminino –, os bilhetes não se criam, são um borrão na arquitetura que, nas entrelinhas, mesmo as inexistentes, documentam parte de nosso fracasso.

Esses dias fomos tomar chope eu e quatro amigos, três escritoras (uma vive fora do Brasil) e um escritor. Não nos víamos havia um tempo. Aliás, a moradora de Portugal e uma das que aqui vivem se encontravam pela primeira vez. Essa distância não tem nos impedido de manter uma troca intensa e honesta de nossa produção literária. O mundo virtual, cheio de perigos, permite aproximações como esta. O importante é que fomos tomar chope e a qualquer instante teríamos de, como se diz, tirar a água do joelho. Chegada a minha vez, um pouco antes de abrir a porta e correr ao mictório, me deparei com a reprodução de um documento timbrado, afixada numa parede lateral. O aviso não tinha a ver com normas de higiene voltadas aos cervejeiros. Está ali, porque, a meu juízo, o cômodo amplo que antecede o banheiro convida a outros usos. Em cópia ruim, lê-se: “Proibido dormir neste local. Administração”.

Nesse caso, não vejo um transbordamento de alguma de nossas mazelas sociais, me parece, isso sim, que é comum alguém se deixar ficar naquele lugar. Pode ser um bêbado, um morador de rua, um trabalhador longe de casa, uma pessoa que não quer mais voltar à vida de sempre. A administração deveria rever a norma, acolher essa gente.




4.11.24

Nudes literários

 

A neta

Escamoteada, fazendo-se de boba, de quem estava ali distraída, lendo um livro, olhando a janela, a neta devorava a avó fazendo crochê. As mãos manufatureiras pareciam determinadas, incapazes de um vacilo. Pareciam, não, eram. Coisa mais linda dessa vida. De vez em quando perguntava alguma coisa sobre o planejamento daquela passadeira, daquele colete, da peça em desenvolvimento. A avó dizia que tudo ia brotando na cabeça aos poucos. Decidia começar pelo ponto corrente, depois via que cairia bem uma parte central em picô, do qual sairiam outros pontos. Aí sentia que estava iniciando um enfeite de almofada, uma touca de frio, o que fosse. O importante, reforçava, era, na composição, perseguir o equilíbrio. Sob essa influência, a neta, tímida e atenta, começou a crochetar uns versos, de início baseados naquelas cenas cotidianas, depois, fora do ambiente domiciliar, fixando-se nas coisas da natureza e nas urbanas – a angústia dos carros, a tristeza do asfalto, a neurótica solidão da única árvore da rua. Havia em tudo a lição da avó: os poemas não poderiam ser livres, insubordinados, ao contrário, seguiriam uma receita (ainda que introjetada), no caso, as formas rígidas. Tornou-se uma sonetista deslocada, antiquada, que nunca seria reconhecida. Aliás, isso nunca a frustrou, empenhava-se em tecer, em palavras, coletes ou echarpes para frios domésticos.




 

O belo

Os poetas são muito asseados: banham-se, escovam os dentes e tiram o excesso de cera do ouvido. Às vezes se acidentam, é preciso correr a um pronto-socorro para extrair o algodão que ficou preso ao canal auditivo, ou quase lá. Mas isso é raro, assim como é raro – é conhecido um caso – o poeta, depois da limpeza do ouvido, usar a cera para lustrar os dentes.

O compromisso com a higiene é tão arraigado que se repete à exaustão a seguinte máxima: de sujo bastam os versos. Talvez por isso, ou seja, por coerência, todos os versos escritos sejam imundos. Enaltecem de forma magnífica o lixo, a lama, o pus, o excremento. Impactados, os patrícios, fiéis leitores, súditos de certo modo, se utilizam dessa poesia para definir o belo.






Marcas de leitura

Pagou um bom dinheiro pelo parecer da escritora de nome, frequentadora de festas literárias, detentora de importantes prêmios. Pagou bem mais que um bom dinheiro, recorreu a um consignado a ser quitado em noventa e seis meses. O retorno de sua autora predileta seria o empurrão a levá-la adiante, a chave do mundo encantado.

Seis meses depois, um e-mail de poucas linhas: “Seu livro tem potencial, trabalhe as passagens, retoque um pouco a personagem da mãe. Sugiro que leia Virgínia Woolf”. Cada palavra lhe custou um salário-mínimo. Cada palavra lhe custaria meses e meses – oito anos – de desconto na folha de pagamento. Palavras opacas, genéricas, anódinas. Valeria uma reclamação comercial, mesmo tudo tendo sido feito na informalidade? Expunha a parecerista em rede social? Enfiava o rabo entre as pernas e deixava de ser besta?

Passados uns dias, novo e-mail: “Esqueci de lhe dizer, o título é bem ruim”.




 

Distração

Andava na rua com uma pergunta martelando a cabeça: pra que você escreve? Por que escrever? Era melhor não ter se metido nisso, mas foi uma força avassaladora que a pegou no contrapé da passagem da infância para a adolescência. Uns amigos foram se drogar; ela, escrever. E ler. E escrever. Por que você escreve? O que a escrita lhe traz? Nem tudo se explica. Ela não criou uma personagem de si mesma, a escritora que sabe tudo. Escrevo para mudar o mundo. Escrevo em nome dos desvalidos. Escrevo para levar conforto ao leitor. Nada disso, escrevia e ponto. Comer, escrever: necessidades orgânicas. Mas quem entenderia isso? O mundo só quer saber daquilo que surge com uma intenção. O mundo é nutrido de certezas. Caminhando assim distraída, perdeu a chance de ver um neném, no colo da mãe, fazer um bruuuuuuu, babando-se todo. Perdeu a chance de ver a vida principiando.

 



A pequena alegria

Comprou o jornal de domingo, sentou-se no café. Na sessão de cultura, uma resenha de seu primeiro livro. Um petardo sem dó, que não deixou nada em pé. Pouco importava, estava no jornal. Foi o domingo mais feliz da vida.




18.10.24

Japona de napa

 Depois que as editoras independentes, pequenas guerreiras, passaram a armar suas tendas em Paraty durante os quatro dias da festa pioneira, pode-se dizer que a Literatura definitivamente hospedou-se na cidade histórica. Aos best-sellers, inclusive ganhadores do Nobel, aos que têm agentes literários e bons contratos, aos que disputam espaço nas livrarias e academias, junta-se a plêiade dos que correm por fora, alguns almejando pertencer à elite, outros menos preocupados com isso. De uns tempos para cá, Paraty tem lá sua diversidade a despeito de os proprietários da festa inventarem moda. Este ano tentaram – por sorte, sem sucesso – proibir as pequenas editoras de venderem seus títulos. Em uma ação deliberada em prol de algum grande grupo, como se fosse preciso, uma festa literária impedir a venda de livros, a estrela do evento, é um acinte, um ataque, quiçá um haraquiri.

Enfim, no Dia das Crianças deste ano da graça de 2024, a Literatura estava em Paraty. Eu não. Como sou parte desse mundo, se estou lá, ocupo meu espaço, se não, deixo de pertencer a ele. Assim como ocorre com qualquer famosão ausente. Isso não é lamento, é matemática. Se, nesses dias, não posso dizer que sou um escritor e que não largo as mãos da Literatura, tenho de me conformar. No entanto, segredo aqui o que aconteceu desta vez: quando a madrugada recolhia os últimos boêmios em Paraty, a Literatura batia suas asinhas, fugia momentaneamente de lá e cantava na árvore do meu prédio. Nesses momentos, dei-lhe de comer.

Um jeito de alimentar esse pássaro, ora corvo, ora pintassilgo – mas nunca pombo, nem o da paz –, é pensar na vida. Ter saudades. Cutucar o passado. Mister Brandão, o que o senhor fazia no glorioso ano de 1966? Decerto não estava preocupado com o terremoto no Usbequistão. Nem com a independência da Guiana Britânica. Pode ser que, metido entre meus irmãos mais velhos, ouvisse “Revolver”, lançamento dos Beatles daquele ano, embora só viesse a ser um beatlemaníaco (nem tanto) algum tempo depois, não com meus cinco aninhos. Tampouco me preocupava com os atos institucionais da Ditadura Militar. Em 1966, minha gente, eu batia bafinha em frente ao Cine Roxy. Aprendia a andar de bicicleta sobre os paralelepípedos do Beco dos Aflitos. Chutava bola em qualquer canto. Dava tiros de espoleta. Confesso: namorava. À porta da casa dos avós de minha namorada, ela e eu nos sentávamos e conversávamos, não passando disso nosso namoro. Eu pousava como um herói capaz de enfrentar qualquer monstro, humano ou não, ela dava trela, gostava. Não sei como o namoro acabou, mas, taí, fomos felizes.

Lembro de mim de calça curta. Calça curta não era só um jeito de nomear o short, mas o corte e o tecido usados na sua confecção se assemelhavam aos de uma calça, só que curta. Eu andava com essa roupa e cabelo penteado para o lado. Naquela época havia muitas regras. Cabelo repartido de um lado para os meninos, do outro para as meninas. O cinto também deveria ser inserido da esquerda para a direita, na calça dos rapazes; o contrário, na cintura das moças. Como foi possível sobreviver a tanto? Olho alguns religiosos atuais e tenho a impressão de que estão naquela mesma batida, com um agravante: seus pastores estão no poder. Bem, a Igreja Católica estava em 1966, esteve desde priscas eras, está agora e estará amanhã. Nos meus cinco anos, as calças eram curtas, minhas ideias igualmente curtas e o mundo já se esmerava em ser um rascunho posto em pé sobre um lamaçal.

Cinquenta e tantos anos atrás, fazia muito frio na minha cidade. Logo cedo, mamãe olhava o termômetro pendurado do lado de fora da casa, perto da cozinha. Um dia, ali pelas seis e meia da manhã, ela me mostrou: zero grau. Destemido, tomei o rumo da escola. Vestia uma japona que podia ser usada dos dois lados. Era chique. Espere um pouco, eu não tinha mais cinco anos, talvez oito. Já cultivava alguma vaidade, como a de me exibir naquela japona. Ainda existe japona? Sumiu do mundo como a calça curta. Que garoto bonito cruzava as ruas, coberto pela peça de napa. Isso, amizade, era de napa, ou seja, uma combinação de poliéster e poliuretano. Não sinto falta do casaco sintético, até condeno seu uso, mas sinto saudades de trajá-lo – apesar de proteger pouco do frio (por baixo da camisa do colégio, metia uma peça de lã) –, de me sentir tão ajeitadinho, de acreditar na vida. Havia visto um homem descer da Apollo 11 e andar na Lua. Aquilo me dava esperança. Não pensava nesses termos, é verdade, mas que coisa fenomenal, que capacidade de irmos tão longe. Como éramos inteligentes! Somos. Dia desses saíram os ganhadores do Nobel de Física, Hinton e Hopfield (no Brasil, formariam uma boa dupla sertaneja, universitária, por suposto), um britânico, outro americano, ligados a pesquisas que abriram campo para a Inteligência Artificial. Um deles disse que, como todo avanço, a IA tem o lado bom e o ruim. A gente sabe disso, a humanidade aprendeu isso, mas a Rússia solta bombas na Ucrânia; Israel, menos por justiça, mais por vingança, bombardeia Gaza e Líbano. Maldição. Que saudades da japona sem avesso, do menino que ia dentro dela.

– Ó, Lítero-pássaro, está bom assim de alpiste ou quer mais, seu faminto?

– Nevermore.

7.10.24

Um passeio à praça inexistente

Há trinta anos, não se encaminhava à editora o texto do futuro livro em arquivo, nem se recebia ao final da revisão o PDF enviado à gráfica. Sendo assim, com o objetivo de organizar meu primeiro livro, “Contos de homem”, lançado em dezembro de 1995, obriguei-me a digitalizá-lo, tarefa que levou um ano, um ano e meio. A sorte é que essa operação, para quem não tem pressa, pode ser feita com um celular e uma ferramenta de uso descomplicado. Basicamente fotografa-se a página, que de pronto é transformada em texto. É preciso corrigir alguma captação imprecisa, mas funciona.

Com os vinte e quatro contos à mão e tomado por um espírito crítico, resolvi revisá-los. Quem faz esse trabalho é um sujeito com mais de trinta anos dedicados à literatura, o que não é uma garantia de qualidade, pois não necessariamente me tornei um escritor melhor, embora tenha hoje mais consciência do que faço. Nessa empreitada, me pergunto se, num possível relançamento, descartaria alguma coisa. Minha resposta é não. Mesmo não gostando de alguns contos, vendo que houve os que envelheceram mal, deixaria o livro exatamente como está, afinal é o reflexo do homem de trinta e quatro anos que eu era, do qual não me envergonho. Apesar disso, faço pequenos ajustes aqui e ali. Um necessário: corrigir os erros.

A andança pela praça inexistente começa ao corrigir os erros. Quando lancei o livro, enviei-o a Manoel Lobato, escritor mineiro, já falecido. Eu o conheci por intermédio de minha irmã Patrícia, ambos trabalhavam na Imprensa Oficial de Minas Gerais. Lobato me deu grandes aulas – sem estar vestido de professor. Seus apontamentos são primorosos e, mais que isso, homem de controlada vaidade, altruísta da melhor estirpe, sua conduta era a de um escritor e intelectual exemplares. Recebi suas anotações, indicando erros de digitação e uma ou outra escorregada gramatical e tecendo alguns elogios, em carta, que, passado um tempo, fotografei. O resultado ficou bom, está legível, mas faltam o cabeçalho, a saudação e a despedida. Fui então procurar o original com o objetivo de refotografá-lo e juntá-lo ao material que está na pasta do livro – além dos contos, os arquivos do prefácio de João Gilberto Noll e da orelha de Nelson Vasconcelos, e as matérias de Bernardo Ajzenberg (Folha de São Paulo) e Duílio Gomes (Estado de Minas). Até agora não achei, mas...


Imagens do caderno de Haydée


Na caixa onde guardo essas coisas, encontrei fotos antigas – umas 3 x 4 de amigas, namoradas adolescentes que mal me davam a mão –, desenhos dos filhos, uma Placar de 1989, quando, depois de uns vinte anos, o Botafogo sagrou-se campeão carioca e meu filho mais velho, que se tornaria um botafoguense fiel, nasceu. Ainda do pequeno museu, um caderno de recordação de minha mãe em formato de livro, capa aveludada e seu nome escrito, com falhas, em letras douradas. Folheio o caderno. No início, algumas páginas em branco, depois amenidades que seus colegas escreveram em dois momentos. Em 1938, quando ela morava em Belo Horizonte – uma das colegas a chama de carioquinha por conta de minha mãe (nascida em Ponte Nova, Minas) ter vivido no Rio antes. De 1939 até 1941, período em que ela estava de volta ao Rio, estudando no Bennett. Os amigos registravam o que já foi tão comum entre os jovens: declaração de amizade eterna, transcrição de poemas, elogio à dona do caderno. Reproduzo a primeira coisa escrita ali: “Todos os homens são mentirosos, traidores, hipócritas e petulantes; todas as mulheres vãs, artificiais e pérfidas, mas há no mundo algo de sagrado e sublime – a união dessas duas criaturas imperfeitas”, uma citação (não consegui confirmar a autenticidade) de Musset – escritor francês do século XIX – feita pela amiga Yóle Sotomaior (se bem desvendei a letra) em dois de setembro de 1940. Há de se dizer que as entradas não respeitam uma cronologia, a essa primeira seguirão outras de 1938, 1939, 1941. Apesar da confusão temporal, é bom saber que aquelas meninas de dezessete anos lançavam um olhar crítico sobre o mundo, sem – o que já não sei se é bom ou ruim – desacreditar na harmonia da vida conjugal.

A partir de um ponto, somem as intervenções dos amigos, e minha mãe se dedica a transcrever poemas e pensamentos. Poetas brasileiros – Vicente de Carvalho, tio-bisavô das queridas Rezende, a escritora Maria Valéria e suas irmãs Viviana e Valentina, é um dos mais presentes – prevalecem sobre os demais, ainda que, no caso dos pensadores, sejam os gregos e os franceses os mais citados. Ela registra de Victor Hugo: “O riso é um camarada às vezes tão útil como o saber”. Desta vez, minha pesquisa confirmou a fonte, ainda que, recorrendo a uma inteligência artificial, tenha encontrado a frase um pouco distinta: “O riso é o começo da sabedoria”. Preciosismos à parte, minha mãe cultivou o riso, mesmo escondendo-o nas muitas horas bravas da vida.

Na noite que sucedeu meu contato com o caderno, sonhei com mamãe. Mas antes com a Patrícia. Encontrava minha irmã nas escadas do prédio onde moro. Era tudo tão alegre, bem poderia – e pode – ser verdade. Depois aparecia minha mãe. Na realidade, uma mulher sem nenhum de seus traços – nem de ninguém que eu conheça –, dizendo-se minha mãe. Não sei, acho que hackearam as redes sociais do céu ou dos sonhos. Há uma impostora no lugar da dona Haydée.


21.9.24

A porta

 

Logo de manhã, um amigo me envia o link de uma matéria em jornal que não assino, portanto, não consigo ler. Acesso a manchete: uma carioca foi eleita Miss Vagina. Soube ainda que foi o segundo ano do concurso e que as pretendentes se inscrevem diretamente.

No mundo que exalta a simetria, lábios vigorosos, de coloração suave e encerrados em um desenho harmonioso devem ser os aspectos apreciados. Isso se um discípulo de Picasso – e aqui não há segundas intenções de um menino da quinta série – não pertencer ao júri. Os cubistas, sabemos todos, veem beleza na assimetria.

A existência de uma disputa assim abre a possibilidade para que também entrem em concorrência o pênis, o dedinho do pé esquerdo, a nuca, o M da mão. Não a bunda, que tem seus milhares de concursos diários, oficiais, oficiosos ou frutos de solitárias fantasias. Muito menos a bunda da mulher farta de tanta objetificação. Hoje, não somos nós que desejamos a bunda da Anita, é a bunda da Anita que nos deseja (ou não). A bunda tem poder. Talvez, por isso, se busque, em concursos nos quais a candidata se aceita como puro objeto, carne fatiada sobre a mesa – comum ou ginecológica? –, a beleza oculta e menos óbvia.

A medida perfeita sempre foi um requisito perseguido nos concursos de misses. Aliás, isso marcou essas disputas no Brasil, já que nossa primeira Miss Brasil, eleita em 1954, a baiana Marta Rocha, teria perdido o título de Miss Universo por duas polegadas a mais no quadril. Ao que parece, tudo não passou de uma invenção de um jornalista, e o motivo da derrota seria outro. Seja como for, nas competições tradicionais, é valorizada também a vida social da candidata, com especial atenção ao modo como se distrai. Todas leem “O Pequeno Príncipe”, então, pesa na avaliação se o leem deitadas, sentadas, em pé; se atentas apenas ao texto ou, ao contrário, só às ilustrações; se leem tudo ou saltam páginas. Enfim, a beleza é um dos pontos observados. Já à Miss Vagina não se pergunta nada. Imagino que nem o rosto se revele, pois conhecê-lo adulteraria o espírito julgador ou o faro de quem julga. O faro seria outro fator a perturbar a neutralidade, logo é melhor desconsiderá-lo até em seu uso figurado.

Com o avanço da tecnologia, antevejo prêmios para os órgãos internos. Teremos em breve a Miss Fígado ou o Mister Rim, a Miss Intestino ou o Mister Baço, além dos genericamente exclusivos Miss Ovário e Mister Próstata. As possibilidades são inúmeras. Carótidas, corram à academia, malhem o bíceps, estejam prontas.

Esta crônica passeia entre a falta de noção e o devaneio, com pretensa e destemperada ironia. Tento corrigi-la conjecturando o real significado de um concurso como esse vencido pela carioca. Podemos pensar em narcisismo exagerado, ou, como já disse, em sujeição máxima a um machismo ultrapassado. Mas também pode ser que, à moda de um personagem bukowskiniano, só queiramos voltar ao útero, à origem, abandonar essa vida cheia de boletos, guerras, desastres ecológicos e luz, excessiva luz. Como nos conforta a beleza, estamos à procura da porta mais atraente para esse retorno. Se é assim, fiat tenebrae.

 











9.9.24

A leveza do ser já era




Como o silêncio não entra na prioridade das políticas públicas, os ônibus continuam fazendo seu barulho metálico nas ruas. Aliás, quais seriam essas prioridades? Ninguém discute. O que vemos por aí são candidatos vestidos da antipolítica agarrados a um humor de baixo nível, o que parece fundamental para angariar votos. Saudades do macaco Tião, voto de protesto, sim, mas incapaz de entregar a coroa aos patifes que a querem só para si.

Atualmente, novos patifes. Ou canalhas. Gosto tanto desta palavra. Salve Nelson Rodrigues, um de seus cultuadores. Volto ao raciocínio. Os novos canalhas não querem apenas roubar o erário, mas, em nome – e só em nome – de não roubar, anseiam destruir o que é público. E por razão nenhuma. Quer dizer, alguns candidatos não têm a menor ideia do que querem. São eficientes em manipular o mundo virtual, embora ideologicamente não passem de títeres em mãos para lá de gananciosas e poderosas. E só. O presidente anterior foi o que foi, um desastre. Mas isso não parece depor contra ele e seus seguidores amestrados. A cidade de São Paulo corre o risco de ser entregue a um sujeito que, na pele de um coach, meteu seus seguidores numa fria, perdidos na floresta. Não fosse o corpo de bombeiro. Mas ele, se chegar à prefeitura, acabará com o corpo de bombeiro. Quer dizer, acabaria, caso fosse de sua alçada. É a turma do incêndio. Dos que aumentarão o subsídio aos que investirem no barulho metálico dos ônibus e promoverão o fim das campanhas de vacinação. Dos que permitirão a volta dos cigarros em ambientes públicos fechados. Tudo em nome de Deus, contra o qual, desconfio, lutam, pois, não sendo nem ateus nem agnósticos, estão na trincheira do diabo.

Disse a uma amiga que sou um cara leve. É verdade, as coisas estão ruindo – pessoal ou socialmente – e estou fazendo graça, fiel à ironia. Aprendi a ser assim. Meu pai e o mundo em torno dele eram assim. Paciência. Mas ultimamente transpus a fronteira. Piso agora o solo do pessimismo (não ainda o do mau humor). Os ônibus continuarão a fazer seu barulho metálico, às nove da manhã, às três da tarde, às dez da noite e, quando passam, em plena madrugada. Que se dane o sono dos justos e dos injustos. O meu, antes tão profundo, hoje com o pé na insônia, não é interrompido pelos ônibus, pelos tiros nas comunidades mais ou menos perto – nas quais, devo confessar, os conflitos não têm sido tão comuns –, pela saída noturna do filho, pela cirurgia que a prima fez, pelos perrengues dos amigos e os meus. O meu sono picotado responde ao fato de minha leveza ter ido para o vinagre, e com ela lá vai indo minha saúde (não se assustem, por enquanto é uma metáfora).

26.8.24

Uma semana de cão

 



Para Helena e Luan


Helena e Luan viajaram, então passei uma semana cuidando da Kira e do Yuki, os cachorros que me conhecem como seus auvô. Fomos felizes, creio, ainda que eles parecessem melancólicos e donos de um vazio evidente. Como também mergulho em poça nem rasa nem funda, fomos felizes também por compartilhar, em silêncio, nossas garatujas existenciais.

Em minha casa, no interior de Minas, sempre houve cachorros. O que marcou minha vida foi o que temia tanto a água quanto a palavra água. Era só dizê-la para o Zorro sumir do mapa. Nunca tomou um banho que não fosse dado pela chuva, da qual não tinha como fugir, pois não frequentava o interior da casa, vivendo no seu, e todo seu, quintal. Assim, o corpo a corpo com meus aunetos foi um aprendizado e me obrigou a me desvencilhar de preconceitos. Os dois dormiam ao meu lado, às vezes me fazendo de travesseiro. Aí está uma ideia a se pensar: nascemos, crescemos, formamos família e, não mais que de repente, nos transformamos em travesseiros. Num mundo em que muitos mal conseguem abrir ao afeto um mínimo espaço dentro de si, não é ruim ser um travesseiro – para cachorro ou não.

Durante aqueles dias, aqui e ali torcia por nossas equipes nas Olimpíadas e, final do dia, início da noite, via ou revia filmes. Houve uma certa decepção com a seleção feminina de futebol – quem ganha a medalha de prata perdeu o jogo final – e a alegria promovida pela dupla feminina de vôlei de praia. Entre as medalhistas de ouro, descobri Bia Souza (1), do judô. Só de olhar para ela, dá vontade de ser seu amigo, de compartilhar daquele sorriso esplendoroso. E principalmente de abraçar aquela mulher que, diante de um repórter sem noção que lhe pede, enquanto ela desce do pódio, uma opinião sobre Teddy Riner – o judoca francês que conquista tudo –, responde que o cara é bom, mas ela, com a medalha de ouro no peito, quer saber é de comemorar a própria vitória. Isso, garota, falo sozinho. Kira balança o rabo, igualmente solidária à Bia. Indiferente, Yuki rói o osso.

As disputas em Paris inspiraram vários memes. Ciscando um aqui, outro ali, cheguei a duas conclusões: não há vida sem memes e Minas está em alta. Graças à inteligência artificial, Simone Biles e Rebeca Andrade conversam, e a americana pede à nossa atleta que leve a Los Angeles, em 2028, um queijo brasileiro bom. Rebeca responde que tem amigos em Minas, que irá arranjar o melhor. Aí Simone comenta que na terra dela também falam uai, e a brasileira, meio surpresa, diz que jurava que sua adversária era mineira. Bobagens saborosas, que Kira e Yuki ignoram, preferindo, em momento de tédio profundo, partir para uma brincadeira mais vigorosa: encaram-se, avançam um sobre o outro, trocam mordidas e latem com ganas de calar o mundo. Com isso, quem não se anima sou eu e, depois de tentar sem sucesso repreendê-los, me abstraio daquela balbúrdia e vou preparar meu café das 16h, que não é boca de pito para aquele cigarrinho das 16h20m.

Sou daqueles que gostam de uma boa e velha sala de cinema, mas quem não tem cão, caça com gato. No caso, eu tinha cães, que, aliás, gostam de caçar pernilongos e não soube nem sei – por sorte – como fariam se, por acaso, um rato nos visitasse. Sendo assim, como se adentrasse uma floresta de raposas, na companhia de meus ferozes cães farejadores, explorei os streamings da vida.

Entre as revisões: “Terra estrangeira”, de Walter Salles e Daniela Thomas, se passa na época de Collor e me faz suspirar: “ah, o Brasil e seu habitual retorno ao abismo”; “Meia noite em Paris”, de Woody Allen, nostálgico e leve, dá uma chave de braço em nossa perspectiva: a utopia está no passado, quer dizer, esteve, ou seja, além de nostálgico e leve, um tantinho pessimista. “Encontro e desencontro”, de Sofia Coppola, é, como minha memória retinha, um ensaio delicado sobre a solidão. Por fim, “Priscilla, a rainha do deserto”, de Stephan Elliott, um filme com vinte anos e atual, é uma deliciosa ode à diversidade sexual, ali representada por duas drag queens e uma transexual.

Vi “Belfast”, de Kenneth Branagh, e “Clube de compra de Dallas”, de Jean-Marc Vallée, pela primeira vez. O primeiro é um olhar sobre a infância numa cidade que vai sendo tomada pelo embate violento entre protestantes e católicos. Nos créditos finais, o filme é dedicado aos que ficaram em Belfast, aos que partiram e aos que se perderam em meio ao conflito. E é isso que essa história de formação evidencia: não é covarde quem vai embora, não é herói quem fica e muitos se perdem, tendo ficado ou ido. O segundo, além de pontuar um momento tão cruel da história recente, o do surgimento da aids, mostra, sem panfletarismo, como a ciência e a indústria em alguns momentos defendem interesses próprios, nem sempre em sintonia com os da população. 

Se os memes não interessaram aos irmãos Kira e Yuki, os filmes, muito menos, ainda mais por nenhum deles colocar em cena um gato, um cachorro, peixinhos no aquário; um rato que fosse.


(1) Uma entrevista com a atleta, feita por meu filho, o jornalista Pedro Werneck, pode ser vista aqui.

12.8.24

Longe do algoritmo

É dada como certa a leitura de nossa mente pelos algoritmos.

Já não é surpresa que, depois de pesquisar sobre um produto, suas propagandas brotem em todo canto da internet a que se vá, das redes sociais à caixa do correio eletrônico.

Cogita-se que as conversas em torno dos celulares sejam ouvidas e associadas a mercadorias condizentes com elas, que são logo oferecidas à roda de amigos. Troca-se uma ideia sobre fotografias de infância e, ao acessar a internet, estão lá vários modelos de câmeras (hoje embutidas em celulares), scanners para digitalizar fotos antigas e espaços em nuvem para armazenamento de arquivos. Não falta ainda, para adular os fiéis ao mundo tátil, uma série de links para a aquisição de álbuns físicos e endereços onde fotografias ainda são reveladas, quer dizer, impressas.

Pincelei as consequências comerciais, mas há possibilidades políticas e de espionagem, além, claro, do treinamento da inteligência artificial, um mundo em expansão. Sugiro, como fazem os políticos – não sei se estou, ao contrário deles, sendo inocente –, desligar o celular quando for tratar de assuntos sensíveis ou desfrutar de momentos íntimos.

Temos chamado essa situação de coincidência, o que não é. Está mais para uma intromissão na vida privada, uma invasão violenta, inclusive. A coincidência, de fato, acontece no mundo real e existe desde sempre. Quem não tem uma história para contar?

Ao lançar meu primeiro livro, “Contos de homem” – que no ano que vem completará trinta anos –, fui convidado para uma conversa em uma faculdade em Belo Horizonte. Fiz uma fala e, em seguida, os alunos, a partir da leitura de um semestre, teceram comentários, encenaram algumas das histórias e ainda me entregaram pequenas cartas escritas sob o impacto da leitura. Um troço lindo.

Um dia antes, havia ido ao cinema com uma de minhas irmãs. Na saída, tomamos um café ali mesmo, no saguão. Na mesa ao lado, duas mulheres conversavam, e certa hora jurei ter ouvido meu nome. Ficou por isso mesmo, já que elas não me reconheceram (porque não me conheciam) nem fui até elas saber se ouvira bem.

O evento ao qual eu iria fora organizado pela professora Marisa Fortes Ribeiro, amiga e colega de trabalho de minha outra irmã, com quem comentei sobre a impressão de ter ouvido meu nome. Num mundo sem internet, apenas no outro dia fui ter a confirmação de que, sim, falaram de mim. Quem estava no café era outra do trabalho, e ela comentara com sua companhia sobre a ida do irmão-escritor da colega a BH. Uma conversa trivial, acrescida de certa curiosidade sobre a figura dos escritores.

Li "A dor fantasma", de Rafael Gallo, livro bastante premiado. O personagem central, um pianista cuja carreira é cortada por conta de um acidente, é um sujeito egoísta, um pouco ridículo e de fato doentio – narcisismo patológico, segundo minha amiga Vânia Osório. Terminada a leitura, parti para outra, um romance de Simenon, "O burgomestre de Furnes".

Há muito tempo, ganhei – do saudoso Horácio, fã do escritor – dois livros de Simenon, o criador do comissário Maigret. Li um deles, uma das histórias protagonizadas pelo inspetor, e supus que o burgomestre também o fosse, mas não, ele é de uma outra categoria explorada pelo profícuo escritor belga, a do romance psicológico, se é que pode ser chamado assim.

Simenon, do mesmo modo que Gallo, coloca em cena um egoísta terrível, com o agravante de o seu prefeito ser poderoso, ao contrário do pianista do brasileiro. Ambos têm filhos com problemas mentais (a filha do burgomestre em grau maior que o filho do pianista). Ambos têm uma mulher com a qual a convivência é praticamente destituída de afeto (mais no caso de Gallo do que no de Simenon, ainda que este seja mais abusivo que o outro). O burgomestre tem mais nuanças que o pianista, é menos linear, mas considerações como essa fogem ao meu objetivo, que é apontar a coincidência entre os romances distantes no tempo em mais de oitenta anos (o de Simenon de 1939, o de Gallo de 2023) e o fato de eu, sem saber disso, lê-los em sequência.

Saquei da pilha que fica na mesinha de cabeceira uma coletânea com quarenta e sete contos de Juan Carlos Onetti, escritor uruguaio. No prefácio, Antonio Muñoz Molina diz: "Onetti, leitor fervoroso dos romances do comissário Maigret, conhece como ninguém um recurso admirável de Simenon, o das repetições de hábitos, lugares e gestos". Por encontrar os mesmos artifícios nos contos de Onetti, a literatura do uruguaio se avizinharia da de Simenon.

Fecha-se assim um ciclo de coincidências. Coincidência verdadeira, raiz – manipulação do acaso em nossa vida –, e não a forjada pelas mãos maliciosas que vêm dominando o mundo de uma forma nunca vista, o tal algoritmo.

29.7.24

Crônica numa hora dessas?

 Ao Xico Sá

Meu amigo Marco Túlio Costa me inventou como cronista em 2000 – quando ele foi editor da Gazeta de Passos, jornal que a família do antigo dono voltou a circular por algum tempo –, e, desde então, venho perseverando nesse gênero tão brasileiro. É difícil ser cronista depois de Machado de Assis, João do Rio, Raquel de Queiroz, Rubem Braga, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Luís Fernando Veríssimo (de quem me servi ao dar título a essa crônica), mas é igualmente difícil ou, mais ainda, escrever, simplesmente escrever, depois de Cervantes, Shakespeare, Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar... O escritor é antes de tudo um cara de pau, e eu sou. Além de contos e poesia, tenho dois livros elaborados com crônicas publicadas em sua maioria aqui na Rubem.

Sinônimo de crônica é liberdade. Ela pode ter contornos poéticos, um jeitão de contos, pode até esbarrar no ensaio, tudo isso com pouca seriedade. Quer dizer, ela é séria, mas descompromissada. A crônica é uma melodia assobiada por acaso. Às vezes, é uma verdadeira assobiofonia. Às vezes, não passa de um vento sibilante.

Nada disso importa. Quer dizer, importa, mas não aqui e agora.

Quero ir por um caminho novo, de reflexão. O leitor pensará: quanta pretensão e ignorância. É verdade, a crônica não faz outra coisa que não seja refletir, ainda que, no mais das vezes, sobre as minudências da vida. Apaguem então essa coisa de caminho novo. A crônica é humilde; seus escritores, nem sempre.

É o seguinte: nós – os cronistas também – não tivemos uma vida fácil durante os quatro anos nos quais o Brasil foi governado pela extrema-direita – a onda não passou, bem sei, mas estou pensando na escuridão que se estendeu de 2019 a 2022. Na realidade, fomos sequestrados por aquela gente. Em vez de olharmos o passarinho bicando a cacunda de um pedestre de cabeça baixa atraído pelo celular, tínhamos de lidar com as mentiras criadas aos borbotões. Em vez de nos determos na conversa da mesa ao lado, subíamos pelas paredes com as pretensas piadas do despresidente. Em vez de acompanharmos a beleza juvenil do casal que andava balançando suas mãos dadas, engolíamos seco as estatísticas de morte pela Covid (uma bobagem, segundo eles).

Se eu fosse fazer o terceiro livro de crônicas, teria uma dificuldade adicional. Digo adicional porque um livro de crônicas sempre nos coloca uma dúvida: elas sobreviverão? No futuro – que pode ser imediato –, os possíveis leitores compreenderão o quê de poesia, de graça, de reflexão o texto carrega? Eis o perigo. Mas, depois dos quatro piores anos da vida pública brasileira pós-democracia, montar um livro com as crônicas daquela época pode resultar numa antologia mal-humorada, revoltada, chiliquenta: tudo que a crônica não é ou não quer ser.

O Xico Sá, por exemplo, lançou recentemente, pela e-galáxia, “Cão mijando no caos”, uma reunião de crônicas escritas ao sabor da indignação. A meu ver, o livro não sofre dos problemas que antevejo porque seu autor recorre ao humor, sem cair numa espécie de fuga, além de se valer de uma escrita rica, inteligente, surpreendente até. Xico Sá nasceu no Crato – uma das cidades do Cariri, Ceará – e, ao assistir a seus parentes receberem o canudo universitário, ouve os ecos do discurso de David Foster Wallace lido em uma formatura nos Estados Unidos. É nesse cruzar de mundos e referências que suas crônicas fogem do lamento, ganham estilo e se sustentam.

A julgar pela crônica-prólogo, Xico também se preocupou com essa coisa de reunir a escrita “daqueles tempos”. Começa assim: “O cão é a crônica da ressaca cívica”. Mais adiante afirma: “Em alguns momentos, o presente volume pode lembrar certos relatos de náufragos. (...) É simplesmente uma narração, quase radiofônica, de como sobrevivemos ao desespero”. É explícito aqui: “Contém, e fica a advertência, fragmentos do discurso de amor & ódio, além de um rastilho de ressentimento”. E esclarece finalmente: “Aqui estão os textos escolhidos para recontar esse tempo agonizante que durou um século. Na política, nos relacionamentos, nos costumes, no amor, no sexo, na falta de erotismo, na sacanagem propriamente dita”.

Quando olho o que escrevi naqueles quatro anos com peso de cem, na boa medida do Xico, não me parece que equilibrei os pratos tão bem quanto ele. Que “Cão mijando no caos” (título tirado de um poema de Drummond) fique como testemunho incerimonioso e lamúria contida de nossa dor coletiva. Vou olhar para a frente, sei lá, vai que passa aqui uma menina conversando com uma borboleta, que por sua vez conversa com um pernilongo, que por sua vez não fala nada, resguardando-se para os zunidos noturnos. Eu vivo melhor – e quem sabe escreva melhor – quando posso, sem culpa, voltar minha atenção para essas trivialidades.




13.7.24

Casa 11

Para quem não é do Rio de Janeiro ou está por fora, preciso dizer o que é a Casa 11. É um sebo. Começou como um sebo e, em seguida, passou a vender livros novos, portanto é uma livraria. Mas, antes mesmo de se materializar, foi pensada como um centro cultural. Logo é um centro cultural.

O espaço fica em Laranjeiras, a cem metros do Instituto Nacional do Coração, um hospital público. A história começa quando uma médica, num momento de folga, bate perna pelo bairro. Ela encontra, numa galeria antiga e aconchegante, uma pequena loja vazia, o que a faz se lembrar da livraria que manteve por longos anos em Santa Teresa. Nostálgica, volta ao hospital e comenta com outros médicos o ocorrido e os provoca: por que não abrir ali um sebo em sociedade? Poderiam formar o acervo inicial com livros que tivessem em casa e receber doações. O custo de manutenção da loja, por sua vez, seria cotizado entre eles. Logo havia um bom número deles disposto a embarcar no sonho. E não demorou muito para não médicos também se incorporarem ao grupo. Não sei quantos são ao certo, mas a Casa 11 tem mais de cem sócios (algumas cotas são compartilhadas por mais de uma pessoa).

Vai dar errado, vaticina a pessoa que tem na cabeça sociedades ambiciosas por lucro e eficiência, a métrica capitalista. Na Casa 11, não se busca o lucro, que, claro, vem. Basta vender um livro e há uma sobra, não é? Mas, no caso, essa sobra ou cobre os custos (que os sócios estão dispostos a bancar) ou se transforma em novas compras. Mais que vender livros, a ideia é movimentar a cena.

A inauguração foi um festão. Havia música, vinho, abraços, encontros. Vez ou outra, promovem festas e já são uma referência em matéria de lançamentos e mesas de bate-papo. Além disso, o nome passou a circular pela cidade, parou em jornais, enfim, a maioria das pessoas já sabe o que é. O antinegócio deu tão certo que alugaram a sala ao lado, a ser inaugurada em breve, provavelmente com festa.

Como se não bastasse, a Casa 11 promove eventos em outros lugares, como foi a recente Festa Literária de Laranjeiras, da qual falo em seguida. Antes pontuo que o tema do empreendimento nefelibata é “mais livros, menos farmácias”, uma cutucada no fato de que no Brasil as farmácias prosperam a olhos nus. A doença pode ser curada com leitura, contrapõe a sociedade dos médicos amantes dos livros.

Com esse espírito, a Casa 11 organizou a festa literária, na qual livreiros vizinhos (como os do Jacaré Livros) e um pessoal ligado à gastronomia se juntaram. As palestras privilegiaram a experiência com mediação de leitura em lugares normalmente excluídos dos investimentos culturais, as favelas, em particular, deram destaque à literatura indígena e, fiel ao slogan, à relação entre saúde e literatura. Ainda que um amigo tenha criticado a ausência de referência a escritores locais – Machado de Assis, do Cosme Velho, bairro adjacente a Laranjeiras; Sérgio Sant’anna, de Laranjeiras, entre outros que têm os pés no bairro –, o que é uma boa observação, isso não diminui o caráter inovador da proposta.

Passei por lá, embora não tenha podido ficar muito tempo. Vi a mesa sobre mediação de leitura e ouvi o coral do São Vicente (escola do Cosme Velho, que fica defronte ao prédio erguido no terreno da casa de Machado). Já conhecia o coral, pois filhos meus estudaram lá, mas, entre a última vez que o ouvira e a recente, percebi uma evolução impressionante. É verdade que havia um elemento emotivo muito grande: foi a primeira apresentação do grupo depois de duas de suas cantoras terem falecido, uma delas muito minha amiga. Além disso, cantaram Milton Nascimento.

Antes do coral, assisti a uma parte da mesa “Mediação de leitura e cidadania: use sem moderação”, organizada por Bia Serra, com os palestrantes negros Vanessa Soares, Otávio Junior e Maria Chocolate. Quando cheguei, Vanessa Soares terminava sua fala. Ouvi então os outros dois. Otávio Junior é bem conhecido, e sua experiência está contada em “O livreiro do Alemão”. Morador do Complexo do Alemão, fominha de bola, com sonho e capacidade de ser jogador de futebol, seu caminho sofreu uma inflexão ao encontrar um livro abandonado no campo da pelada. Não custou muito a se perguntar por que os livros não narravam histórias de meninos como ele – o que lançou na feira é sua tentativa de ocupar esse espaço. Otávio é um sujeito objetivo, ainda que fale com emoção. Já Maria Chocolate, uma senhora assim da minha idade, sessenta e alguns anos, é puro transbordamento. Filha de pais analfabetos, ouvia a profecia da mãe de que seria professora, o que parecia um disparate – como, no meio de tanta penúria? Pois aconteceu. E foi além: um dia montou, na varanda de sua casa, num bairro pobre de Caxias, uma biblioteca, onde orienta crianças em suas leituras. Dona Maria Chocolate, que também lançava um livro, se espanta com a própria trajetória: acabou reconhecida (seu espaço foi visitado por Ziraldo, entre outros), mesmo fazendo tudo de forma precária. É um depoimento comovente. O que veio a seguir, o coral, a ausência de minha amiga e a música do Bituca elevaram aquela comoção inicial ao quadrado de mil, a ponto de eu não conseguir esconder minha emoção e de uma das cantoras (outra minha amiga), lá do palco, percebê-la.