3.2.07

Um barranco para descansar


O escritor, ô sono, dá uma grande espreguiçada no meio da tarde de sexta-feira, dia de Iemanjá.

Depois de alguns dias de leitura feita sob o solavanco dos ônibus urbanos, na cidade do Rio de Janeiro, o escritor terminou “O Vôo da Madrugada”, de Sérgio Sant’anna. Mestre esse Sant’anna, a conta gotas vai levando a gente no bico. Nesse livro inventou (escritor não inventa, descobre) um tal Gorila, tarado virtual, pouco tarado e muito virtual, sujeitinho frágil, uma casca de ovo. Fez filho e mãe transarem, sem um pingo de pornografia, deixando escorrer o incômodo de coisa dessa natureza; e deu vida a imagens estáticas, vistas em fotos e pinturas. Tenho na ponta da língua mil comentários sobre “O Vôo”, ainda que o melhor meio de fazê-lo seja conversar seriamente cá com meus botões. Explico, explico. Um cadinho na temática, outro na forma, nossa literatura, minha e dele (talvez também a sua, como saber?) tem muita coisa em comum. Mas quem há de se interessar por isso além de mim, escritor em busca de afirmação?

Essa maldita preguiça, de onde vem? Dormi tarde ontem. Pode ser por isso, mas teve, agorinha, o almoço de arroz com camarão e polvo. Sim, sim, a leseira que se segue a um bom cardápio acomete a maioria dos humanos, não nos deixando esquecer do pecado da gula. Uma prova cabal da existência desse Deus inventor de pecados capitais. Como será o inferno?

Não, meus parcos leitores, vocês não merecem tal humor de porca enferrujada, rangendo dia e noite, noite e dia. Nem eu mesmo mereço tamanha chiadeira. O sol. A lua. O amor. O prazer. Bem sei de tudo isso, mas, ô sono, ô olho pesado.

Chega, chega. O que vocês estão fazendo? Digo, além de ler isso aqui. Nada, nadinha?
Então anotem. Ouçam minha quase conterrânea (que só conheço de disco), a Consuelo de Paula (http://www.consuelodepaula.com.br). Leiam o Bernardo Carvalho (http://www.clickescritores.com.br/bernardoc00.html). Beijem seus filhos (não há página na Internet). Assistam ao “Ensaio de Orquestra”, do Fellini (http://www.imdb.com/name/nm0000019/). Compre ingresso, se estiver no Rio, para ver “Gaivota - Tema Para Um Conto Curto” no Poeira.

Esse cardápio mínimo, bem comido e digerido, pode levá-lo, meu caro leitor, a uma preguiça assim interminável, mas você estará, esteja certo, um pouco menos suscetível de passar pela vida cheio de disposição, mas vazio.

30.11.06

O homem mais velho do mundo

Adão, apesar de pecador, ou por isso mesmo, viveu 930 anos. Outros bíblicos também ultrapassaram a barreira da velhice, alcançando outro estágio da vida, que não chegaremos a conhecer. Assuntos de religião são muito controversos, prefiro evitá-los. De qualquer modo, Adão foi menos que um homem, sendo, de fato, um modelo de homem ou um homem-modelo, não sei bem. Sua longevidade é uma metáfora para as dores e prazeres do ser humano, as de ontem, de hoje e de amanhã, explorada no veio de um rio ideológico.


Portanto, o homem mais velho do mundo não sai da bíblia, tem de ser alguém de carne e osso. Minha avó, por exemplo, é candidata. Viveu 96 anos, dos quais os últimos 20 na escuridão da cegueira. Ela não teve os recursos da modernidade, todas as drogas que nos perpetuam mais e mais, sequer saneamento, luz elétrica e água tratada (teve, sim, nos seus últimos 15 anos de vida). Fez 18 partos, traduzidos em 22 filhos, 8 deles natimortos ou mortos na primeira infância. Em suma, um milagre.


Todos os filhos de minha avó viveram menos do que ela. Apenas uma das filhas pode ultrapassá-la, ainda que esteja vivendo completamente alheada da vida, a despeito de enxergar bem. Inventa namorados. Vê pessoas onde não há pessoas. Paquera sobrinhos. Toma sol levada por sua ajudante. Come como uma menina sem intenção de ser top-model. E é magra, magérrima.







Nem minha avó, nem sua filha são os homens mais velhos do mundo. Ao colocar o título do texto pensei em colocar “O ser humano mais velho do mundo”, seria mais correto. Depois, me censurei: politicamente correto demais! Na língua portuguesa, homem é o macho e é a raça. Então, vamos de homem, mesmo que se acabe por escrever a frase anterior: minha avó não foi o homem mais velho do mundo. Logo Dona Tomásia, ceguinha e feminina como ela só.



Já estou eu perdendo o rumo. Toma tenência, escritor!


Esperava a hora de pegar o remédio para meu filho. Daí a pouco cruza por mim um sujeito vestindo uma dessas máscaras típicas de quem está fazendo tratamento e precisa de proteção contra a vida invisível escondida no ar. Fura a fila com todo o direito. Quando volta, uma senhora, dois corpos à minha frente, chama-o. Se conhecem. Começam a conversar. Ele conta sua história bem triste (transplantado de rim, padecendo de efeitos colaterais sobre o coração e, aparentemente sem ligação com a doença original, sofrendo de um começo de surdez). Um homem, entre mim e a senhora que conversa com o transplantado, faz um comentário do tipo: nossa, tão jovem! E ouve como resposta:


— Não, senhor, sou o homem mais velho do mundo. Estou condenado à morte desde os meus 10 anos de idade.


Ele não tem mais de 35 anos. É possível que tenha menos de 30.

14.11.06

Maquinação do Senhor Noll



Instigante sempre foi. Falo da obra de João Gilberto Noll, que agora ganha mais um livro, “A máquina de ser” (Nova Fronteira), reunindo uma série de pequenos contos. Se, em número, o grosso de seu trabalho são os romances, os contos costumam chamar bastante a atenção, não sendo raro encontrar aqueles que os consideram como a melhor parte da criação do escritor gaúcho. Também dizem isso em relação a Clarice Lispector. Não quero entrar no mérito da questão, mas acho que esse é o tipo de debate estéril. Noll e Lispector escrevem bem às pampas e o pior deles tira o fôlego de qualquer um (fazer perder ou não fazer perder o fôlego é a melhor maneira de medir a qualidade da literatura).


Debates à parte, concentro-me nessa tal máquina de ser do Senhor Noll. O título abre dois caminhos claros para associações rápidas: a contemporaneidade (máquina) e a filosofia ou a perenidade (ser). E é bem no interstício entre essas duas forças que Noll, habitualmente e não só neste livro, trafega. Poucos são os autores capazes de cutucar com vara curta a ferocidade de nosso dia-a-dia, no qual, não por acaso, o corpo furioso se apresenta como espaço sintético de todo o resto.


Nos contos da “Máquina”, o corpo é a estrela, também o breu, o que pouco importa, desde que céu e inferno sejam entendidos como foco urgente e principal de Noll. E são. Não só neste livro, em todo o Noll, em contos e romances, de cabo a rabo, dos pés à cabeça, o corpo serve de palco a suas fabulações.


Entre este livro e os romances, há uma diferença fundamental: Noll trancafiou seus personagens no ambiente de suas casas, como o fizera em sua estréia em contos, “O Cego e a Dançarina”. Não vamos encontrar mais o sujeito que permanentemente está mudando de ares, indo de Copacabana para Santo Cristo e, num átimo, rumando para o Leblon, quem sabe descansando no Rocha ou se perdendo num país inexistente; voando de Londres para Porto Alegre, vagueando, antes, pela Lagoa da Conceição. Os personagens do Senhor Noll sempre precisaram de campos abertos e de longas caminhadas, riscando uma metáfora de liberdade na prisão pessoal, intrínseca, não há como não bisar, corpórea.


Eis que, na “Máquina”, o ir-e-vir se reduz a um quase nada, tudo está ali intramuros. Mesmo quando um helicóptero aparece para levar o pouco que resta de um tal personagem para o mais distante possível, para a geografia sem fronteiras do céu, não logrará sucesso. Sim, sim, se o céu é o paraíso religioso, a afirmação anterior não se sustenta, mas se não é, e para Noll não é, o resultado final será um aglomerado de carne e ossos esboroado no chão, instante em que perderá pelos pólos a liquidez das idéias e ganhará, tarde demais, a dimensão do imensurável.


O ilimitado, a partir do novo livro, perde o significado até então concebido a ele, o de metáfora da recusa do que está posto pelas regras da convivência. A mesma recusa continua quando o espaço se reduz ao mínimo possível. Em Noll, nunca houve sinal de agorafobia, nem há, em sua última tacada, sinal de claustrofobia. Em campo aberto, em quarto fechado, o corpo corre sozinho os riscos inerentes à condição humana.

20.10.06

Enfim, um clube

O papo é o seguinte: não sou de pertencer a clubes. Entenda-se clube como qualquer coisa cheirando a determinada coletividade voltada a um fim específico: entretenimento, política, esporte, conselhos profissionais e outros mil exemplos que me escapam no momento.

Sim, sim, sou botafoguense, mas sem paixão exacerbada. Namorei o PT, mas não me filiei, acho melhor dizer: fiquei com o PT. (Aliás, o PT beija tão bem que nada impede que, na próxima festa, nos agarremos no meio da pista de dança, mas, claro, só se ele estiver trajando o velho, mas reciclado, vermelhinho básico e desacompanhado de seus amigos esquisitões.) Não comungo, não busco espíritos, não freqüento terreiros.

Sou quase como o Marx, o irmão americano, não a chama comunista, aquele que não entrava de sócio de clube que o aceitasse como tal. Digo quase porque, na matemática, até o vazio é um conjunto, ou um clube na palavra exata desse lero-lero. Ou seja, pertenço ao clube do eu sozinho. Leitor que nem me conhece, passo longe de ser egoísta, sou, sim, um cético de carteirinha, por mais contraditória possa soar a afirmação.



Apesar de tudo, fui jogado, pelos fundos, a um clube. Bordejei pelos cantos tentando manter-me o mais discreto possível. Daí reparei meus parceiros. Rostos vilipendiados, gestos arrastados, olhares inquietos, fugidios. Tanto como eu, até os mais embrenhados no salão de baile, dançantes e passadiços, escancaravam o mesmo ar de vergonha, ainda que neles já se percebesse uma certa anuência com a situação.


Qual situação? Afinal de contas que clube era esse que nos tragara, que nos buscara, que nos engolira? Éramos os endividados, a classe média que pegou 5 dinheiros para complementar a grana de um mês, outro 1 para trocar a TV e mais outro para dar de entrada no fogão que durou menos do que as prestações. E depois recorreu ao crédito em folha e depois à renegociação de todos os empréstimos em 60 meses, chance única, pegar ou largar.

A classe média voltando do paraíso.

A classe média aguardando o elevador defeituoso, descendo, descendo eternamente.

Baile da última gota de dignidade da classe média muito pouco digna no mais das vezes. Baile de ventiladores desligados porque não foi possível pagar a conta. Baile com os odores do último perfume de Paris.

Arrastado até ali, ali não ficaria. Mesmo com empréstimos e empréstimos-sobre-empréstimos e empréstimos-sobre-empréstimos-sobre-empréstimos, empunhei meu cartão de crédito e caí fora.

Entrei na primeira loja encontrada pelo caminho. Mostrei para o caixa o dinheiro de plástico e levei para casa o novo Caetano (Cê).



Andam dizendo que o disco do baiano é nhenhenhém. Dor de cotovelo. Coisa de velho que perdeu a menina. Se é, dane-se. Caetano acaba de dar outra chacoalhada em si mesmo.


O disco parece com a fase de “O quereres”, mas enxuto. Rock básico. Sofisticação a partir de miudezas. Som de garagem. Harmonia incompleta até o som, arremetido com aparente desgoverno, entrar na gente e ficar. Caetano fala de trepadas mal dadas, da mulher que foi “mor rata” com ele, da saudade de Wally Salomão.


Mil vezes o chororô do Caetano. Mil vezes o baiano abraçado a Lupcínio. Mil vezes Veloso Dylan. Mil vezes o pai do Moreno, irmão do Moreno, filho do Moreno. Mil vezes a rebeldia magrela do falastrão desastrado. Mil vezes. Dez mil vezes.


Nos próximos cinco minutos, cinco dias, cinco mil horas, sei lá, sou do Clube do Caetano. Nele fico protegido dos ataques da nostalgia burguesa da classe média. Nele fico, ainda que endividado esteja, endividado estarei, endividado serei.

Antes só do que mal acompanhado.

10.10.06

Revelação

Acenei…Não, antes olhei pro céu e pressenti chuva. Voltei em casa para pegar o guarda-chuva. Não sei a razão, mas um sujeito com guarda-chuva, apesar da pouca durabilidade dos atuais, made in China, parece mais digno.

Voltei com certa dignidade para o ponto de ônibus e, aí sim, acenei para o 409. Não estava cheio, pude escolher o lugar. Sentei ali no meio, perto da janela, na fila oposta a do motorista. Nessa posição posso deitar a vista na enseada: Botafogo, Flamengo… os Pracinhas, todo o Aterro. Bela cidade, o Rio de Janeiro.


E lá ia o ônibus com o jovem senhor com destino tão certo, rotineiro. Sentadas no banco de trás, duas senhoras conversavam sobre qualquer coisa, nada que aguçasse minha curiosidade. Uma delas desceu no ponto bem em frente ao Shopping da Praia de Botafogo.

E, nesse momento, aconteceu.A senhora que ficou desandou a falar sozinha. Reclamava. Era o ônibus que se arrastava; um ônibus enguiçado logo adiante que atrasava a vida de todo o mundo. Sabem aquele tipo mal-humorado, ranzinza? Era ela.

Não me caiu bem essa reclamação interminável. Era uma segunda-feira, o day after do debate entre os candidatos à presidência. Eu estava triste, mal-humorado também, só não estava falando sozinho, achando que o ouvido dos outros é esgoto.
A mulher, no entanto, continuava. E continuava. E continuava.

Até que falou:

— 9 horas da manhã, e essa lerdeza. Na Europa, o pessoal já almoçou, se duvidar até já lanchou, e nós aqui… Seu Lula, seu Lula, olha o que senhor aprontou!

Quando contei a amigos, pensei que a mulher poderia ficar mais espantada ainda se pensasse não nos europeus, mas nos japoneses. Àquela hora, já se preparavam para dormir.



Esse deslize da mulher, todavia, pode ser debitado ao preço pago por pioneiros. Ela acabava de criar uma teoria. Não é a diferença racial (responsável por tantas guerras). Não é a diferença religiosa (responsável por outras tantas guerras). Não é cultural. Não é econômico. O problema do mundo, leitores e leitoras, é o fuso horário.


Vamos mudar nossa agenda política.


PS. O Guarda-chuva lá em cima é obra de Goeldi.

8.10.06

50 anos de “Encontro Marcado”



O “Prosa e Verso” (O Globo) de hoje, 7 de outubro de 2006, é todo dedicado aos 50 anos do livro do Sabino.

É possível que tenha lido o romance na comemoração de seus 30 anos. Minhas lembranças, portanto, são apenas borrões. Lembro dos personagens transitando por Belo Horizonte, varando madrugadas na Praça da Liberdade, perto de onde, aliás, recentemente colocaram uma escultura em que estão Sabino, Pelegrino, Lara Resende e Mendes Campos, os quatro terríveis.

Essa turma nasceu na década de 20, na mesma de minha mãe, que os conheceu lá em BH, na década posterior.

E daí?

Daí que tomei de achar os nascidos em 20 gente muito interessante. Minha mãe é. E esses escritores mineiros também o são (eram), assim, como, da mesma safra, outro contemporâneo deles, o Ivo Pitangui.

E foi o Pitangui que me fez vir aqui escrever.

No caderno do Globo, ao entrevistarem o médico, perguntam se ele, como os personagens do livro numa determinada passagem, puxava uma angustiazinha. A resposta foi mais ou menos assim: é, como não tinha um fuminho, a gente puxava uma angustiazinha.

A sabedoria não é monopólio da velhice, pois se assim fosse, Sabino não teria escrito o “Encontro Marcado”, salvo engano, com um pouco mais de 30 anos. Seja como for, a idade deve suavizar nossa visão da vida. “Não havia fuminhos, fumávamos angústia”.

Fica aí um pingo de poesia para os dias tão medíocres do Brasil de hoje.

29.9.06

Opinião de Estreante

Acabo de estrear em outro blog, o Opinativas. Agora estou aqui, muito raramente, e lá. Quem sabe não escrevo com mais freqüência...
Assim espero.
Reproduzo a seguir o texto de lá. O opinativas está no endereço: http://opinativas.wordpress.com


O senhor responsável por este blog achou por bem me convidar para dar opiniões a respeito do que eu bem entender. Sujeito corajoso, ele.

Sou da opinião… peraí, estou tentando lembrar. Está muito claro… peraí, estou tentando lembrar.
Sabe o que é? Sou mais de palpite do que de opinião. É um erro, bem sei. Não sou de acreditar que “pau que nasce torto, torto morre”. Pois bem, se um assunto me interessa, sou capaz de estudá-lo, ver um lado, ver o outro, enfim, tomar uma posição. No entanto, na calada da noite, o que desprezei reclama, volta, mostra lá o seu valor. Que nem nos desenhos, onde o diabinho puxa de cá e o anjinho de lá. (No meu pensamento, os dois ficam trocando de roupa, só para confundir e complicar ainda mais.)

Alguém dirá: um sujeito tão infantilizado assim não pode mesmo ter opiniões. Concordo e não discordo. Sendo assim, tomo minha primeira atitude diante do convite do moderador: inauguro no Opinativas a seção Palpitaria. Espero ser inconseqüente, muito pouco economista, bastante moleque. Que não digam que não avisei.

Ao primeiro palpite.

O Lula vai faturar. Nós que acreditamos nele por tanto tempo, tivemos a chance de descobrir um de seus defeitos: o agora e amanhã presidente não sabe escolher os amigos. Sai com uns traíras, com uns “aloprados”, dá até dó. (A exceção, obviamente, é a daquele sujeito que paga as contas sem o presidente pedir. Isso sim é amigo; os meus, se pestanejar, me deixam a conta do bar e ó, pé na tábua.)
Mas acompanhem meu raciocínio: ele perdeu os (piores) amigos, vai ter de escolher outros para governar. A questão então é se vai dar sorte numa segunda vez ou errar de novo, o que é humano, ainda que vá nos custar muito caro. Custar. Muito caro.

Só vejo uma solução: blindar (essa palavra da moda, não tinha tido oportunidade de usá-la ainda) o Lula. Como? Quem sabe uma intriga, modesta, sem maiores conseqüências, com a esposa. Tipo assim: “não sei, dona Primeira Dama, essas idas ao Pará, esses pernoites em Minas, mesmo a senhora o acompanhando, há aqueles seus momentos de cabeleireiro, de comprinhas, necessidades tão prementes, e pode ser, nunca se sabe, não é?, a carne é fraca, patati, patatá…”

Se ferimos a fêmea, o segundo mandato pode ser todo feito lá de dentro do palácio, por e-mail, um governo recluso e virtual, sob as vistas da esposa.

Quem sabe a solidão e o encontro repetido com os diversos espelhos do palácio (serão muitos, imagino), se não derem em filosofia, dêem ao homem a oportunidade de encontrar-se consigo mesmo e com seus valores?

Seria uma bela amizade.

21.5.06

Vaca de Nariz Sutil





Você saca o quadro acima? Não? Descobri-o há pouco, passeando pela WEB. O que buscava? Alguma referência sobre “Vaca de Nariz Sutil”, livro de Campos de Carvalho. O quadro tem o mesmo nome e é do pintor Jean Dubuffet, que, descubro também na WEB, nasceu no início do século XX, tendo sido sua obra atrelada a “arte bruta”, da qual seria o maior representante.

De que forma o quadro está presente na novela de Campos de Carvalho é difícil dizer, e nessa minha imensa pesquisa de dois minutos não encontrei nenhuma referência sobre isso. No entanto, não há nada que uma boa conjectura, neste domingo de céu aberto outonal, não resolva.

Uma vaca de nariz sutil, onde já se viu isso? Se há uma coisa que ninguém presta muita atenção é em nariz de vaca. Dela, olhamos as tetas e os chifres e ficamos muito impressionados em saber que tem um estômago com quatro cavidades, uma que recebe a comida (sem mastigação), que, regurgitada, volta à boca para então seguir o caminho comum da digestão. Esse processo digestivo tem muito mais de sutileza do que o nariz do quadro em questão. Compare-o à foto abaixo. Há algum indício de diferença entre o focinho (melhor do que nariz, aliás) estilizado de Dubuffet e o natural? Não acho.




Eis o mistério. Vamos entrar na história do livro. Um ex-combatente de guerra, que recebeu todas as honras que um país dá a essa classe de gente, apesar de ele mesmo se ver como um assassino, será transformado em um perigoso criminoso (para os outros) quando cometer uma violência sexual contra a filha do administrador do cemitério. O nome dela, Valquíria.


(Um aparte: num dos milhões de lendas existentes mundo afora, essa nórdica, salvo engano (pesquisas de dois minutos são esquecidas em mais ou menos dois minutos e dezesseis segundos), conta-se que as Valquírias seriam seres que escolheriam entre os combatentes aqueles que deveriam morrer para formar um exército no outro mundo, o melhor exército na realidade, com vistas a proteger Odin numa futura guerra.)

Pois bem, a Valquíria de Campos de Carvalho vai em busca de um combatente, de um herói mesmo, embora este não esteja, no frigir dos ovos, morto. Aqui se coloca a questão: se é ela quem corre atrás, por que é ele quem paga o pato? “Sempre é a mulher quem tomba diante do homem, portanto, sobre o masculino recairá invariavelmente o ônus da violência”. Tudo bem, temos aí uma resposta. No entanto, inapropriada. A Valquíria de nariz sutil busca sem buscar; seduz sem se colocar sedutora. Em tudo é igual a qualquer mulher, mas não é igual. Não digo o porquê, leia o livro quem quiser.

A sutileza, no livro de Carvalho, não está na história até certo ponto previsível — ainda que a escrita em primeira pessoa favoreça o desconforto por nos colocar tão próximos do narrador, esse que virou assassino e descreve o crime. Não está na dança da sedução. Não está no ambiente do cemitério, tão e sempre habitado pela morte.

A sutileza do livro está em digeri-lo à maneira dos ruminantes. Aos 18 anos, como fiz, engoli-lo sem mastigação. Regurgitá-lo para novamente engoli-lo. Dessa vez aos quarenta e quatro, depois de tombar em inúmeras guerras sem que nenhuma Valquíria descesse do céu para levar consigo este bom soldado.

7.5.06

Poeminha Contábil





Para ler Ulisses
Pedro levou 10 anos
Eu, 10 meses
Nelson, uma vida, e com a leitura sempre por começar.

29.4.06

Novembro, em Araçatuba

Fui duas vezes a Araçatuba.

Na primeira, para um Natal familiar um pouco raro porque coincidia mais ou menos com os trinta dias da morte de meu tio Elin. Pisávamos em ovos, mas somos, a família eu digo, meio festeiros e nem luto nos impede de saracotear, ainda que dois passos pra cá, dois pra lá se misturassem, naquela ocasião, com lágrimas, as mais sentidas.

Na segunda, vejam quanta honra, convidado pela Academia Araçatubense de Letras, participei da sessão solene de final de ano, quando distribuem prêmios aos vencedores dos concursos literários que promovem e dão posse a novos membros. Além disso, lancei meu “Estão todos aqui”. Falo um pouquinho de cada coisa nos parágrafos a seguir.

Começo pelo lançamento. Chovia em Araçatuba (e por sorte não fazia tanto calor) e a expectativa era a de que o evento estivesse bem esvaziado. Surpresa geral: a família, em peso, não falhou, foram todos, chegando um pouco encharcados, é verdade, mas, como já disse, somos meio festeiros e nem chuva nos impede de saracotear, ainda que saltando uma poça d’água aqui, outra ali.

Além dessa manifestação extrema de carinho de meus primos, me chamou a atenção a livraria (Entre Páginas, rua General Glicério, 690) onde foi o lançamento. Não se encontra uma daquelas fácil por aí, não. Quem conhece esse mundinho dos livros pode imaginar que por trás do empreendimento há uma abnegada, uma idealista. Pois é isso mesmo. A livraria e seu café dão dignidade à Araçatuba, uma das poucas cidades com mais ou menos duzentos mil habitantes que pode se orgulhar de ter uma coisa daquelas. Torço para o negócio vingar e a dona enriquecer. Carisma não lhe falta.

Na livraria me acompanhava uma loura, ia de camisa preta com rosas vermelhas. É a Viveca, minha prima-irmã, grande responsável por tudo. Ela e a professora Cidinha Baracat, esta, por seu dinamismo e entusiasmo, uma mulher de tirar o chapéu. Cidinha é também uma acadêmica e foi quem teve a (estranha) idéia de me levar a Araçatuba. Se bem entendi, meus livros a cativaram (escritor vive disso, sabiam?).

No outro dia, sem chuva, lá fui eu para a sessão solene, na Câmara dos Vereadores. Meu Deus, era tanta gente com fardão. Eram idosos ao lado de jovens. Eram médicos, advogados, professores. Era o prefeito e um discurso que eu, por não viver ali, não pude entender plenamente. Me deu a impressão de rolar uma promessa de grana para a Academia, o que me levou, no improviso, a taxá-la de pífia e pedir mais. Inconseqüência estrangeira, a minha.

Não sabia muito o que falar para aquele público. De casa, havia levado o texto reproduzido abaixo (De onde escrevo), um guia antes de outra coisa. Abri a conversa contando minha ligação com a cidade, de meus parentes que foram para lá há muitos anos, na década de 40, salvo engano. Falei também de meu primo Paulinho, meu grande amigo de adolescência. Ele não estava ali, seus pais sim, mas ele não. (Como eu precisava do Paulinho na platéia. No outro dia, fui visitá-lo. Ele está careca e me deu uma meia dúzia de pares de meia e algumas horas de alegria e, e, ... não importa o que mais. Estive com ele, e rimos.)

A última parte da intensa programação foi um jantar com a turma da Academia. Minha família lá, festeiros como somos não é qualquer calor desumano, num lugar onde nem ventilador funciona, que nos impede de saracotear, ainda que o suor nos deixe menos elegantes do que somos.

Lá pelas tantas a Cidinha me chamou para dizer alguma coisa. Quando levantei da mesa, derramei água na camisa... Rasguei o verbo molhado e amarfanhado. Poderia ter rasgado um verso, mas minha memória, sei lá, acabo de esquecer como gostaria de qualificá-la.

Conheci uma psicóloga, feiticeira também, me pareceu, de uma cidade vizinha. Troquei algumas palavras com um escritor recém ingresso na Academia, um desses que concebem a vida interiorana como uma peça mágica elaborada sob medida por Deus. E ouvi um homem simples, marido de uma acadêmica, homem de mãos calejadas, contar uma história de discriminação ocorrida ali mesmo durante a confraternização.

Ele chegou e não havia mesas. Havia uma e somente uma, sobre a qual repousava um bule de café. Ele pensou bem pensado: para que serve um bule de café no início de uma festa? Tentou puxar a mesa, mas não lhe deixaram, ela tinha de ficar ali, com o bule. Ele, a mulher e a neta se meteram num canto do salão, sentaram-se no chão. Um pouco depois, ele viu outra mesa vazia. Sentou-se, mas não é que tentaram lhe tirar esta também? Estava reservada para outra pessoa. Nosso homem simples bateu o pé, e ficou. Bem, o bule de café foi desalojado e o tal convidado misterioso quando chegou encontrou a sua mesa prontinha, prontinha.

O homem simples me contou essa história porque me imaginava usando-a numa peça literária futura. Não sei, vale mais como história verídica mesmo, como exemplo de como estamos longe da sensatez que, em tese, distinguiria a raça humana das demais. Eu pensava isso, ouvindo o homem ainda. Agora comentava a minha “palestra” do dia anterior. Concordava comigo: sua sombra, como a minha, o acompanhava onde estivesse. Eu havia falado (leiam o texto abaixo) em assombro. Assombro, sombra... Nosso homem simples, que não se curvou à falta de mesa e à indelicadeza, reinventou minhas palavras. Nesse instante, sim, como disse um amigo meu, o homem me dava uma história para contar um dia.

Ainda fiquei mais uma manhã em Araçatuba. O suficiente para limpar a piscina da casa da Viveca, tendo como chefe o marido dela. Assim não, Alexandre. Isso, agora esfrega até a outra ponta. Escritor também trabalha (sob pressão). Como prêmio, Thales, o maridão, me deu uma caneta e uma lapiseira, as quais uso no meu dia-a-dia.

Lucros financeiros? Vendi alguns livros, mas dinheiro no meu bolso quando chegar não vai passar de umas migalhas. Portanto, lucro mesmo só meu caçula, o Pedro. Fui em Birigui visitar uma fábrica de calçados infantis, da irmã do namorado (a cara do Keanu Reeves) da Bárbara, a filha da Viveca. Escolhi um tênis e uma sandália, mas na hora de pagar não deixaram.

Se não fosse o fato de minha memória ser essa gelatina imprestável, me lembraria do nome do motorista que me buscou e me levou ao aeroporto de São José do Rio Preto. Outro homem simples, conversador, boa praça, bom motorista, o único que poderia ter percebido minha inquietação no momento da chegada e minha tristeza na partida.

De onde escrevo

(à Cidinha Baracat e ao Hélio Consolaro)

Sempre é de um lugar ou de um lugar-tempo, lugar-memória. Fala-se muito da infância, a partir dela, de sua nostalgia, sim, mas principalmente de seu encantamento, que nos marca a ferro e fogo.

No meu caso, será a infância se a ela associar-se a ignorância, não uma bestial qualquer, consciente e avessa ao conhecimento. Outra: ignorância inocente, condição de quem desconhece e não de quem nega ou renega.

O mundo me parece grande. Nos seus limites físicos, em seus colapsos geográficos. Maior ainda se a intenção de compreendê-lo não se voltar, em exclusividade, nem para o pronto da religião nem para a aventura da ciência. Porque o mundo cresce quando se apequena; quando é tão-somente um amontoado de gente (mais ou menos) organizada vivendo sobre ele; no seu colo; de seus troços.

Na linha da história, há um constante ascender e descender, neste se aninhando o germe da próxima ascensão e também o da próxima descensão. Fomos nômades, pastores, agricultores; encastelados hoje, aburguesados amanhã; crentes, utópicos, investigativos, guerreiros. Fabris inconseqüentes, ambientalistas raivosos. Fomos assim; vamos assim.

Mundo grande. Aberto à compreensão. Não uma única, várias; polifonia atonal, desafinada, também correta, senão burocrática, alegre e embriagadora. O economista olha assim. O sociólogo assado. O geógrafo releva. O antropólogo visita. E o escritor? Sua matéria é a ignorância, que se compensa, que se busca compensar, através do exercício do desbravamento.

Desbravar qual floresta? Qual obstáculo? Todos. Qualquer um. Até mesmo nenhum. Porque o escritor é, o escritor são. Se caminhássemos num imenso prado, Guimarães Rosa andaria só, com as mãos livres, seguido de longe por tímidos, cônscios de lhes caber apenas a tarefa da reprodução caricatural. Guimarães é único. Graciliano puxaria pelas mãos um séqüito heterogêneo: regionalistas, puristas do idioma, futuros exploradores do imensurável indivíduo (como um Noll). Clarice formaria outro bloco do eu sozinho, enquanto Mário de Andrade fixaria um projeto de coalizão artística ainda hoje ecoado (nova safra de escritores paulistas e outra de cariocas; nestes se vê mais claramente isso, pois demarcam o coletivo dando-se a si mesmos o selo de “Paralelos”).

Nem de longe pretende-se aqui teorizar, apenas se disse: somos vários de variadas formas, mostrando-se alguns e algumas das suas. Comum a todos a recusa de se vestir de um olhar ensinado. Ignoramos, portanto reinventamos, a roda a cada nova vez que nos colocamos em campo.

Eu escrevo entrelaçado a esse assombro do desconhecimento e arrisco a dizer que faço par com a grande maioria dos escritores. Disse assombro. Sobre ele, Julián Marías (História da Filosofia, Ed. Martins Fontes, 2004) afirmou ser a chama inaugural da filosofia. Ora, ora, nada mais natural que literatura e filosofia partam da mesma raia. Na primeira bifurcação, esta rumará para conter o assombro, conhecer tudo até o ponto em que não haja mais dúvida (quando então, sabemos todos, tudo se reinicia porque sempre há uma dúvida torta para uma certeza furada) nem assombro. A literatura, por sua vez, ao encontrar respostas não se dará por elas, porque o que lhe interessa é a travessia, é a peleja, é o vício da procura que nem sempre sabe ser de fato uma procura.

28.3.06

Enfim, um poema

Hoje, direto e reto, sem muita conversa fiada, coloco aqui nessa minha gaveta aberta ao mundo um punhado de versos (quem sabe se ainda em elaboração?). Devo dizer que o escrevi a partir da leitura de uns poemas do grande vagabundo norte-americano, Bukowski.

Saravá, poeta!


Canções Americanas
(Ao Cristiano dos Santos, que me emprestou o livro)

I
Não estou chorando, Kowski,
Vem do casco da cebola com que tempero a carne da carne de plástico —
Da vaca somática —
Ajuntando erva-daninha ao diabo da pimenta
Pra tascar fogo
Oh, Kowski!
Onde está o céu?
Cadê cadê cadê cadeira dura, bunda mole,
Quede quede o quarador de roupa e as colchas de mamãe
E as coxas da sua mãe, Kowski, pequeno marginal do pinto roto?

II
Baixa mulher das tetas que são demais pra minha boca
Sexista dia sim dia não dia sim dia e noite e noite e dívida
Tu carrega no bucho o porra nenhuma o abortumbrado
Filho meu dele de tudo quanto é um que te viu aberta
Em Paris da puta que nos pariu
— Parada.

III
A seiva de hoje é o duplo de cola e gelo
E gordura e sal e fica quieto e não se mexa
E não se mexa e trabalhe o dia a noite toda e mais um trago
E cheire e deite para não dormir para não sonhar para não
Para educada e cordialmente afirmar e reafirmar a próxima invasão, a de mil,
Na base da mão invisível
Com a ajuda da cartucheira de hoje afeita a disparos ininterruptos
Apontada para o artista da fome que sobe para o palco da morte
Num salto só do anonimato à estatística.

IV
Seu way of life
Seu Wayne e his wife
Carros carrões e grandes produções e a boca e a fome
De um russo exibindo a nudez das suas pudicícias
Enquanto a nova guerra (apodrecendo) arromba o glamour da vitória
Cuspindo à tona o suculento sangue do sangue do sangue bom do sangue de todos
Vocês e nós
Nós… apertados… apartados.

V
Furacões eunucos chamam a sua atenção para o seu tão próprio
Irreconhecido quintal. Seus olhos sempre
Esquadrinhando o além da cerca: o mundo, o mundo pouco visto mas imaginado
E fabulado
Para o qual
Sem se deter
Você avança de derrubada em derribada desenfreada
Sem freio freio nenhum.

VI
Marchas.
Estradas.
Algodão.
(Muita dor, de lascar.)
Jaz a alma
Petrifica-se a alegria
Come-se pelas bordas, queimando os beiços,
O último cigarro de bango
A última dose de a-que-incha
Para desbagulhar entrededos a tortura e a tontura
E morgar no colo do coito do coito do coito da violência
Selada nas coxas — e cruel.

VII
Onde estão seus tamborins?
Batendo na mesma tecla
Dos excessos do seu silêncio
Que mareia a miséria cujo endereço
São seus becos sem saída
E suas raízes fissuradas.
Mas também
Ludibriando o rigor da escala
Com tanta paixão e fome e fúria e medo e vergonha e demência
Se assemelham ao que não são: a um assobio descuidado
Nas filas dos seus supermercados de sua previdência social de sua acolhedora morte.

VIII
O carnaval submerso de New Orleans
O vício tabagista das fábricas
A mistura de diesel ao sangue
O batismo cifrado das sementes de trigo
A obesidade dos esgotos:
Ao Lucro, as batatas (de parafina).

IX
O suor de Luther King
O suor (frio) de Parker
Duas gotas da mesma dor
Duas dores da mesma cor
Dois gritos gestados no umbigo das contradições
Que cheiram a flor que cheiram a peido
Que não fedem nem cheiram
Até ... até o pum fatal da pólvora e o tum final do coração ao injetar mais sem poder.

X
Kowski, a descoberta de seus iguais
(Iguais na sede; iguais na perspicácia; iguais)
Cobre os pés, também os meus, quando o cobertor é curto
Abraça quando tudo desmorona
Empurra quando já é cansaço demais.
Mas, Kowski, seu punheteiro,
Conterrâneos, seus desiguais,
Preferem um certo frio,
Cair de vez
e
Morrer
de
Cansaço.



21.3.06

Não sei ao certo

Durante a minha infância, ouvi, e muito, esse papo de que homem não chora. Não lembro de ter saído da boca de meu pai, mas familiares diziam, outros pais diziam, professores também. Sou do tempo em que todos diziam.

Nunca eu mesmo disse, nem a mim, nem a amigos, sobrinhos ou filhos. No entanto, o fato é que poucas vezes chorei.

Lembro de todas elas.

Quando minha avó materna morreu. Um certo dia depois da morte de meu pai. Quando foi a vez do Marião. Sempre a morte. O choro da orfandade é a exceção permitida: lembro de assistir atônito ao pai: homem forte, rasgando-se na frente de todos diante da morte do filho.

Nunca no cinema. Nunca lendo um livro. Nem ao ver uma imagem de terror. Não choro diante da pobreza vergonhosa habitante de nossas ruas, ainda que sofra por ela; covardemente.

Sou da secura de minha mãe.

Ainda que.


Ao ouvir a gravação ao vivo de “Travessia”, feita por Elis Regina (em disco lançado depois de sua morte, a partir de umas fitas que receberam um banho de tecnologia), já não comungo intimamente com o racional dos parágrafos anteriores. Algo se desmancha, se transforma em outra coisa tão eu quanto, mas meu diferente.

Posso muito bem ver Elis levantando os braços, fechando os olhos, naquele instante em que a melodia sofre sua inflexão, para cantar o estribilho (“solto a voz nas estradas...”). Neste momento e todas as vezes, Elis cruza a fronteira, passa para o lado do sublime. A guitarra de Natan Marques toca solo assemelhado a um lamento metálico, levando a voz de Elis. Para onde?

Não sei ao certo... É provável que para um ponto de muitos pontos, onde minha química, minha biologia, meus nervos e minhas fricções elétricas sucumbem à magia da condição humana, que nasce ali entre tudo isso para ser uma força muito maior do que a soma de seus elementos.

Enfim, espaço onde a dor é e pronto.

28.2.06

Alalaô



Escrevo livros.

Corrijo: escrevo, e o que escrevo será livro se combinarem duas coisas: boa safra e sorte. Nos livros, organiza-se aquilo que, na surdina, na dor, na revolta, no silêncio, no escambau a quatro se construiu. Mas para virar livro é preciso percorrer um longo caminho cujo ápice é convencer o editor a investir naquela viagem solitária, feita por necessidade e não por outro motivo qualquer.

Escrever é, portanto, um jogo de azar (não parece haver melhor expressão para isso). Em jogo se ganha, se perde. Ou nem um, nem outro. Na esgrima da escrita, o empate é o resultado mais provável.

Ganho quando escrevo e boto meus diabos para fora. Perco ao ser lido, ao ver tantas leituras distintas das minhas. Mas aí, a partir do sopro do outro, volto a ganhar.

Do lado mercadológico, ... derrota. Os editores me rechaçam. Minto: não a mim, ao que escrevo. Tudo muito cerebral, escatológico, pornográfico, hermético. Como péssimo combatente, não discuto, a grana é deles e o zelo pelo que escrevo é meu. Volto pra casa. As crianças não precisam desse escritor para o leite do dia-a-dia, é um funcionário público que as sustenta (coitadas!).

(Esse meu texto começa capenga, volteando, opa, cai, não cai. Também, escrito numa terça de carnaval.)

A verdade é que um livro traz dentro de si uma chance rara, talvez apenas o encontro amoroso compartilhe de virtude que se compare. Pode nos acontecer de ao ler ter um clique e, a partir dele, ainda que não necessariamente para sempre, enxergar. Enxergar nosso estar no mundo; e entendê-lo. Não com a régua e o esquadro da ciência, mas com o exército de nossas faculdades sensoriais, afetivas, do que não se nomeia assim de chofre numa terça de folia.



“A Náusea”, de Sartre, exige um exercício de algo que deixa lá pra trás o rigor da inteligência, do bem entender. Recorrer em sua leitura à idéia de entrelinha é dar com os burros n’água. Os achados do escritor não estão amealhados nos pequenos vazios simplesmente porque, agarrados ao preto e branco do que está impresso ou às sombras do que está sobre ou subescrito, não podemos nos valer de um só caminho, ainda que o fazendo de mãos dadas à razão, essa nossa irmã metida a besta, que se quer guia.

Não usaria mais do que duas linhas para contar o livro. Se usasse oito mil e trezentas não faria diferença: acompanharia os passos do sujeito que está no interior da França escrevendo sobre um personagem histórico altamente polêmico: burguês e envolto em transações escusas mundo afora.

Mas não é isso. Ou por outra, é também isso. Porque entre a primeira entrada na biblioteca e a última, entre as incontáveis perambulações pela cidadezinha portuária e o encontro com aquela que é seu amor, mas que também não o é, o personagem, ele...

Sartre gastou tempo escrevendo seu livro, ou por outra, fazendo anotações que, a seu juízo, e graças a Deus, poderiam ser — e foram — um livro. Contou então com a sorte e algum investidor (não sei da história, se foi primeiro uma edição independente, bancada pelo autor, mas isso pouco importa) foi lá e fez do livro a “A Náusea”, pronto e acabou. Pude lê-lo quarenta, cinqüenta anos depois de lançado; outros o fizeram ali no calor da novidade.

Fico confortado em pensar em Sartre percorrendo os mesmos caminhos de qualquer outro escritor: a solidão, a obra, o oferecimento, o investimento, o mercado e por aí afora. Me desespero em pensar que ele escreveu essa pequena obra prima, enquanto eu... pornografias para uns, hermetismos para outros...

Caramba, o personagem de Sartre vê a existência das coisas. Esse diferencial humano, o existir, não o diferencia, ao contrário: nossa existência é da mesma espécie da existência das árvores. Somos mais um elemento num dos reinos transitórios que povoam a terra.

(O verbo de Sartre é quase (mais do que) uma pornografia... e alguém pagou pra ver. Meu texto termina cambaleante, tocado por rabo de galo que não bebi.)

“Alalaôôô, mas que calor!”[1]


[1] Antes que eu me esqueça. Meus livros: “Contos de homem” (1995, Ed. Aldebarã) — só eu e uns poucos sebos no Rio o temos; “Estão Todos Aqui” (2005, Ed. Bom Texto) — clique e
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  • 3.2.06

    Voltei


    Andei sumido daqui.

    Sei lá, há umas coisas que estão me incomodando na forma do blog, aquela coisa azul lá no início está totalmente fora do padrão e não sei dar um jeito nisso.

    Mas voltei! Coloquei uma velha crônica, para ver se pego no tranco.

    E também uma velha foto, lá de Trancoso no início dos anos 80. Viagem inesquecível com minha amiga Denise, que reencontrei no ano passado.

    Sonhar com Queijo e Nada Mais



    Os ratos sonham. Quem garante é o Doutor Mattew Wilson do Centro de Memória e Aprendizado do MIT (sigla em inglês para Instituto de Tecnologia de Massachesetts). A “descoberta” é comemorada pelo pesquisador, que garante: “Já se passou um século desde que Freud mostrou que os sonhos são um instrumento para compreender a natureza da cognição e do comportamento humano. Agora, aprendemos a mergulhar nos sonhos dos animais, o que nos permitirá aprender mais sobre nós mesmos”. No duro da cebola, os sonhos dos ratos poderão, no futuro, traduzir-se na cura do Mal de Alzheimer, por exemplo.


    Sabe-se mais a respeito destes sonhos, além do fato de existirem, os cientistas americanos descobriram com o que sonham os ratos e os outros animais de modo geral: sonham que estão comendo, sonham, no caso das cobaias, com os labirintos em que estiveram perambulando durante o dia.
    Quando ninguém ligava para isto, Freud insistia na importância do sonho humano. Um de seus casos mais conhecidos é exatamente o do Homem dos Ratos. Era um sujeito que sonhava que alguém sofria uma estúpida tortura em que ratos vorazes eram postos em seu corpo, digamos que pela porta menos nobre, se é que vocês me entendem. A partir destes sonhos, Freud matou a charada, o sujeito, um neurótico obsessivo, transitava entre um homossexualismo abafado e uma certa tara heterossexual.


    Mas, agora, o Dr. Wilson investiga os sonhos dos ratos. Os ratos jamais investigariam os seus próprios sonhos e é exatamente isto que nos diferencia deles. Além de sonharmos, podemos fazer de nossos sonhos material para nos entender melhor e, ainda, podemos fazer dos sonhos dos ratos, das tartarugas e dos leopardos (e as árvores e as montanhas?) matéria prima para solucionar doenças que degradam o nosso trunfo que é a condição humana.


    Mas ouso dizer, sem nenhuma base científica: o sonho no rato é apenas um resíduo de uma vivência que permaneceu em seu cérebro. Seria assim também em nós não fosse a nossa capacidade de desejar, de alguns mais, outros menos, a de usarmos da razão e, por fim, não fosse o fato de que podemos sonhar acordados. O sonho nos empurra para frente, nos faz pensar em construir uma casa, em ter filhos, em viajar para Angola, em estudar os ratos e os seus sonhos.


    Os ratos sonham com queijo, como não são homens franceses ou mineiros, sonhar com queijo não tem nenhum outro significado além dele mesmo.

    3.12.05

    Nas Quebradas da Vida

    Vamos, confesse aqui para o seu amigo, você já namorou em uma quebrada, não foi? Sua mãe não precisa saber, prometo sigilo, e seus filhos, se você os tiver, sabem o que é estar quebrado mas não sabem o que é uma quebrada. Vamos, amigo, amiga, me contem.

     


    Com o advento do Motel, as coisas mudaram. Por um lado, ficou mais fácil namorar, por outro, não. Se chegar a um quartinho todo arrumado e poder desfrutar dos doces momentos da vida é uma beleza, chegar ao Motel nem sempre é trivial. Às vezes, o casal tem o carro, mas está sem grana. Às vezes, tem o carro, tem a grana, mas a cidade é pequena e o porteiro do Motel é conhecido de um tio, do pai.

    Nessas horas difíceis, dar uma meia-volta na modernidade e aceitar a única opção possível é o que nos resta. Pois, quando um casal fez o pacto do encontro, se não for no Motel será no Fusca. Ah! O Fusca. Quanta ginástica, meu Deus. Muitos dos problemas de coluna que nós temos se devem aos movimentos que fomos obrigados a fazer dentro de um Fusca. Por amor, é claro. Até o amor, que não tem contra-indicação, tem efeitos colaterais.

    Todos sabemos, entretanto, que as quebradas têm lá os seus perigos. Mesmo em cidades pouco violentas, como a nossa Passos, sempre há um espírito de porco doido por assustar alguém. Comigo já aconteceu de ser a própria polícia a me pegar no flagra. Sorte que foram compreensivos e fizeram vista grossa à minha tentativa de corrompê-los — quer dizer, não aceitaram os meus minguados 5 contos —, e nos mandaram, a mim e a namorada, dar o fora da área, e que não se repetisse aquilo outra vez, senão... Com outros amigos foi pior. Uns bandidos os deixaram nus com a mão no bolso — juro que não é exagero.

    Se para o amor a quebrada foi deixada de lado, servindo apenas como a última opção, para coisas ilícitas, a quebrada passou a ser o quente. A moçada corre aqui e ali para enrolar seus fuminhos, o lado A e o lado B de uma transação fora da lei marcam encontro no mais escondido dos lugares. E por aí vai. A quebrada mudou da água para o vinho; ou melhor, deixando a citação bíblica de lado: do suor dos amantes para o ar escuso.

    Todavia, a grande transformação da quebrada ocorreu nesta semana, e lá em casa. Estávamos recebendo amigos. Os adultos ficamos na sala, sorvendo um bom vinho, beliscando queijos e pão. As crianças espalharam-se pelo resto da casa, pulando da cozinha para a sala, da sala para um quarto e deste para outro. Era uma farra medonha. Para nós, os coroas, estava tudo bem, as crianças gritavam, mas a gente conseguia botar a conversa em dia.

     


    Numa certa hora, resolvi pegar um outro CD no meu quarto. Eis a surpresa: num cantinho, entre o guarda-roupa e o armário onde estão trancados meus preciosos CDs, o que eu vejo? O Ken e a Barbie transando. Sim, caro leitor, estava lá o namorado da Barbie, aquela boneca bonitinha, mas sem sal, deitado sobre ela.

    Tudo bem, os dois são só bonecos e meu quarto não é um matinho providencial. Mas, nestes tempos em que o ser humano transa por computador, aquela foi realmente a mais explícita das cenas de sexo. Não tive vontade, leitores, de repreender os meus filhos. Que isto seja um bom presságio, sinais de novos e melhores tempos. Não acredito em repressão sexual pura e simples.

    Não posso negar, entretanto, que estou mesmo é pasmo, sentindo o assombro que nossos pais já sentiram quando éramos nós quem crescíamos. E talvez um pouco mais: mesmo que precocemente, sinto que meus próximos passos serão dados dentro do túnel, dentro da escuridão que a estúpida responsabilidade nos impinge. Posted by Picasa

    25.10.05

    Luiz Tatit


    No início havia o Rumo.

    Porém antes, houvera um menino em mendicância de delicadeza, limpando as coisas da poeira, da qual vasculhou a química e a matemática. Enquanto outros esmeravam em aprender a dança assim, assada, tão na moda, e óbvia, Luiz protegia o patrimônio invisível com bafos de modernidade. Como todo grande artista, menino ainda, dava as costas à contemporaneidade para recriá-la num só sopro.

    Não por acaso, na década de oitenta, diante das primeiras pisadas do roque tupiniquim, Tatit cantava Noel. Como um castiço da garoa, não como carioca da gema, reinventando o tísico da Vila, emparelhando a música anterior à década de quarenta à sua proposta calcada em canto falado.

    Intelectual de cátedra, escreve livros sobre semiótica e música. Reflete sobre música e faz música reflexiva. No entanto, sem perder a espontaneidade (jamais). Cria pequenas epifanias, fábulas de uma certa vida rasteira. Aqui reafirmando: “estou aqui para provar que eu sou eu”. Ali gracejando a partir do lugar-comum: “quer uma coisa? Vai lá e pega. Já pegou? Então sossega.” Ainda que crônicas da vida comum, sua fala não se consome na mesmice, ao contrário, ergue-se de mãos dadas à uma nobre poesia. Algo alegórico como: “Só que as sílabas se embalam como sons que se rebelam, que se embolam numa fila e se acumulam numa bola.” Outro algo melancólico assim: “não há um luar que venha em vão, que não deixe algum sinal no coração.”

    Aliás, o redivivo “Luar do sertão” da última letra não é peça solta. Citações da tradição espalham-se aos montes em toda sua obra. Tatit respeita seus precedentes, ainda que lhes cutuque e até mesmo os derrube impiedosamente. Não é um nostálgico. Nem do passado, nem, como Lobão, da modernidade. É, sim, um artista urbano, fazendo de sua São Paulo musa do mesmo quilate do Rio de Janeiro. Se a ex-capital federal embalou a bossa-nova, o samba, a híbrida composição de Marcelo D2, Tatit canta a São Paulo sisuda, no momento em que se fere de uma alegria jamais vista ou quando acompanha um dos seus vinte milhões de habitantes saltitando entre a Vila Madalena e a Vila Beatriz, entre Santo Amaro e a USP.




    (Foto de Gal Oppido)


    Se com o Rumo a música se apresentava em aparente simplicidade, em seus discos “Felicidade” e “O Meio” Tatit se cerca de craques, arranjadores que se aliam a ele para dar uma caixa rara para guardar as pérolas de suas composições. Quem ouvir com cuidado o arranjo de Ricardo Breim para “Quase” tateará a cumplicidade, sem se importar com o fato de ela ser intangível. “Depois Melhora” ou “O Meio” são outras patadas delicadas de Tatit e os seus.

    Depois do Rumo, Tatit continua o mesmo desbravador que avança ao voltar ao caminho já mil vezes cortado, recortado, dando outro sentido a ele. Se antes, indo por aqui se chegava ali, agora, depois das mãos de Luiz, indo por ali se chega muito mais além.

    23.10.05

    Filosofia Primitiva

    Aprendi com minha sogra: queijo com educação é o cortado bem fino e, consequentemente, o sem educação é um toloco só.


    Essa classificação trouxe elementos para rascunhar algumas idiossincrasias da moçada lá de casa. Somos quatro irmãos e três modos distintos de encarar o famoso queijo com goiabada, estranhamente chamado por alguns de Romeu e Julieta.



    Na primeira turma, o queijo é sem educação e a goiabada, fina. Na segunda, o queijo e a goiabada não primam pela boa educação. Por fim, na minha turma, o queijo é educado e a goiabada chega a ser uma aberração de tão grossa.

    (Por sermos quatro, o leitor pode estar curioso em saber qual dos paladares encontra dois defensores. Nenhum deles. Na realidade, uma de minhas irmãs não come doce já há algum tempo e, então, apagamos de nossa memória qual era mesmo a sua preferência.)

    É hora de entender como cada um de nós faz de sua opção a única.



    Queijo sem educação, goiabada fina: poderíamos batizar essa turma de afrancesada, já que o que importa, na sobremesa, é o sal do queijo. Em sua defesa, a turma diz que o doce deve aparecer muito discretamente e busca comparações com os bons perfumes: mínimos no tamanho e máximos na fragrância.

    Queijo e goiaba sem educação: ora, dizem esses pitgulosos, se é para se lambuzar, que seja por inteiro, sem frescuras. A acirrada disputa entre sabores opostos, o sal e o doce, é o ó do rococó da opção.

    Queijo com, goiabada sem: o queijo, aqui, cumpre o papel daquele jogador que pouco aparece para a torcida, mas é a alma do time. Mesmo discreto – se discretíssimo ainda melhor – o queijo reinventa o doce.

    O que fiz até agora não foi mais do que listar alguns modos de comer a melhor das guloseimas. Não abordei, ainda, a questão filosófica. Portanto vamos amarrar as pontas e dar sentido à coisa.


    Um homem vê-se distante de casa, o mundo continua esta bola sem freio, rodando, rodando, rodando. Conhecedor da noite e do amor, experimenta o lícito e o não lícito, planeja revoluções; é, quando mais se precisa dele, um covarde; quando ninguém dele espera um ai, é o valente e o vitorioso. Rei que já passou pela miséria, íntimo dos segredos dos deuses, é um desbravador com inocência. Este homem lê e reescreve todos os dias os seus dias de ontem e não para aí, nada ao encontro do futuro e descansa na cabeceira do rio circular. Quando tudo parece, enfim, alcançar o ápice e repousar, a nostalgia corta a garganta desse homem, que experimenta, assim, a sensação de ter perdido alguma valia: o seu contorno e o seu recheio. Neste momento, seus planos de escrever versos, de investigar a alma, senhor supremo da filosofia, estancam. Meu Deus – diz com o olhar deitado no horizonte – não sou ninguém se me negarem o queijo e a goiabada.



    Vocês não entenderam nada? Ou falta-lhes filosofia ou sobram-lhes o vermelho (mole ou de cortar, cascão ou liso) e o branco (fresco, curado ou meio) combinados com ou sem educação. Quem vive longe das verdadeiras iguarias e não se contenta com a goiabada em lata, feita de chuchu, e o queijo frescal mais do que entende o ser ou não ser do filósofo sem-doce.

    13.10.05

    Uma Provocação Entre Duas Pingas


    O sujeito entra no bar e pede uma pinga. Ao ser servido, oferece um trago ao pessoal que está por ali. Tendo bebido sua dose, o freguês boa-gente dá pernas pra quem te quero e não paga nem a birita consumida por ele nem a oferecida aos demais.

    Uma semana depois, encontramos, de novo, o cachaceiro no boteco. Ele faz o mesmo pedido e acrescenta, entre os convidados, o dono do recinto, que, sem demonstrar nenhuma contrariedade, aceita a “gentileza”. Os copos vão sendo esvaziados e o cliente já se prepara para dar o fora quando o dono da espelunca salta o balcão, agarra o safado e o cobre de cascudos.

    O cachaceiro não se emenda. Poucos dias depois, volta ao bar, pede cachaça para ele e para a rapaziada, mas adverte o dono do botequim:

    — Para o senhor, que é violento e descontrolado, não.

    O bom desta piada é que ela subverte a ordem das coisas. O trambiqueiro se comporta como vítima.

    Mesmo sendo apenas uma piada, ao conhecê-la encasquetei com uma coisa. Este elo entre o consumo de drogas (cachaça é uma droga, lícita, mas uma droga) e a violência. Todo drogado é violento? Com certeza, não, embora seja senso comum dizer que sim. É até usual que o criminoso recorra ao fato de ter consumido drogas para tentar ficar em hospitais psiquiátricos e não em presídios.

    O mundo das drogas ilícitas é violento por ser clandestino. Como os traficantes organizam-se em verdadeiros exércitos e estão, permanentemente, em pé de guerra com a polícia ou com outro grupo de traficantes, um consumidor ao desejar tão-somente conseguir um naco do produto de que é dependente, acaba tendo de enfrentar um mundo pra lá de violento. Se, no entanto, ele consegue comprar a sua droga e vai para casa, ou para um bar, ou para uma discoteca, e a consome, não necessariamente irá bater na namorada, apagar o primeiro que lhe apareça. Como diz o rock: ele não estará causando mal nenhum a não ser a si mesmo.

    Vou a um posto de gasolina e encontro a frentista inconsolável. Naquele instante, ela havia percebido que alguém surrupiara, bem no seu focinho, o seu celular. Sua revolta, diga-se, não era pelo objeto perdido, que, com algum sacrifício, poderia ser substituído por outro; sua revolta era com a situação em que se encontra o país. Para ela, a culpa disso tudo deveria ser creditada às mães que fazem filhos para, em seguida, largá-los na rua. Eu já vinha rascunhando este artigo quando eu ouvi seu desabafo e minha posição se assemelha em muito à dela, embora, para mim, a culpa pode e deve ser dividida entre pai, mãe e, bem, o Estado. Para conter o exagerado crescimento das taxas de violência são necessários, sim, vários investimentos sociais (escola, saúde, desconcentração da renda etc.), mas, arrisco a dizer, só isso não basta. É preciso que os pais devotem a seus filhos tempo, atenção e carinho. Difícil, todavia, será definir prioridades no tratamento das duas faces de um mesmo cancro: dar educação formal para quem não tem afeto tem um alcance menor do que se espera; tentar resgatar a auto-estima e noção de responsabilidade social de quem já formou família e vive, ou no lodo da pobreza ou no conforto da abastança, é matéria que não encontra bê-a-bá definido e de fácil aplicação.

    Aposto que a violência não se esgotaria se hoje todos os consumidores de drogas, por algum milagre, abandonassem seus vícios. E se é assim, melhor liberar o uso das drogas - reforço: drogas que ainda são ilícitas já que um punhado delas pode ser consumido em qualquer lugar e hora - e, através de pesada carga tributária, auferir recursos para combater os males que causam à saúde física e psicológica das pessoas e também as diferentes espécies de violência que permanecerão existindo - a começar por alguma assistência às pessoas que ou não podem ou não querem ver-se como uma peça muito pequena de um intricado jogo de armar.

    Eu bem disse, não foi? Seria uma provocação. Mas, pronto, acabou. Volto, então, à pinga. Um amigo meu costumava chegar nas vendas (quando estas existiam) e pedia uma pinga e um sabonete. Outra pinga e outro sabonete. E mais uma pinga e outro sabonete. Se perguntada a razão de pedido tão estranho, respondia que no final da farra contava os sabonetes e sabia quantas pingas tinha que pagar. Ninguém lhe passava a perna. Faz sentido, ora se faz.

    7.10.05

    Exercício de Opinião

    É possível passar pela vida meio encoberto, entrando e saindo calado dos conflitos, mesmo dos mais triviais, que não mudam o curso dos fatos em nada. Há quem não torça por um time, não prefira louro a moreno, vermelho a cinza, amar em colchão de água a desfalecer sobre o recheio de palha de um modelo ultrapassado. Não me lembro se Balzac ou Wilde descreve, num jantar daqueles espalhado em mesa de inúmeros talheres, um cidadão beirando seus trinta anos cuja principal característica é o silêncio absoluto. Explica o narrador: esse mutismo seria uma opção racional, uma vez que, pensava o personagem, tudo que tinha para falar fora dito até seus 18 anos. Estamos aí com dois extremos: o covarde e o lúcido, nem um nem outro abre a boca para emitir uma opinião menor sobre nada. Para ferir minha própria covardia (minha lucidez feriu-se de morte na minha inauguração, nenhuma escola deu jeito nisso), vou tentar dizer o que penso dessa consulta pública a respeito de desarmamento.

    Certo dia, adolescente meio perdido, resolvi fazer o curso de economia. Um sujeito que curse economia, principalmente numa linha de pensamento mais ortodoxa, longe do marxismo e afins, fica marcado por todas aquelas teorias. É chato economia, e a gente até tenta se desvencilhar dela, mas, quando algumas questões aparecem, é por meio do raciocínio econômico que nos organizamos.



    Para economista, bem é tudo que se produz. Um carro, uma cama e seu colchão, um revólver, cocaína, craque, serviços hospitalares ou de prostituição. Portanto o mercado, lugar das interações entre pessoas (cada qual vendendo seu produto — a força de trabalho é um deles, claro), é o espaço da socialização por excelência. Com a necessidade, o mercado passou a ser fonte de renda também do estado, através da cobrança de impostos. Portanto acorrem a ele o vendedor, o comprador e o coletor. Estando tudo mais ou menos dentro do razoável, as três figuras acordam que as transações devem ser acompanhadas de um pagamento ao governo, que com a receita provê a todos os serviços cabidos a ele.

    Se é assim, um mercado conhecido, reconhecido e tal sofrerá um revés dilacerante se for jogado ao espaço da ilegalidade. Ontem era legal, hoje não é mais. É verdade que no caso brasileiro as empresas poderão continuar a fabricar suas armas, reduzindo o raio de sua ação ao vender apenas para as polícias ou ao exportar. De outro lado, os cidadãos que gostam de ter armas, que têm armas porque se sentem mais seguros com elas do que sem elas, o que farão um dia depois de serem metidos na ilegalidade? E o que fará o governo ao ter parte de sua receita diminuída concomitantemente ao aumento de seus custos (velar pela nova lei)? Veremos surgir dois legados da disfunção social: mercado negro e corrupção. Quem gosta de armas continuará a tê-las; quem deveria conter o mercado negro, mal equipado, mal remunerado, poderá ceder ao velho e bom jeitinho (dez mil réis para o leite dos meninos).



    Não tenho armas e acho que uma única vez dei um tiro, que, por sorte, passou longe do passarinho, meu alvo. Hoje não carrego o arrependimento de um assassinato; e a ave — eu acho, eu torço — ainda voou por aí durante o tempo próprio dos pássaros. Conheço pessoas que têm. Algumas são facínoras, outras, colecionadoras: Peters Pans de plantão. Uma e outra já estão naquilo que chamamos de meia-idade, portanto, não aceitarão, nem com a força da consulta universal, o fato de não poderem ter mais armas.

    Se é assim, melhor seria, ao invés de uma proibição pura e simples, um investimento em educação da não-violência. Mas como, dirão? É mesmo, como? Só se muda um mundo carregado de violência se nele é desferido um golpe de morte na sua lógica realimentadora. Um exemplo: desarmando a polícia. Por que não?

    Se nunca mexi com armas, brinquei muito de bandido e mocinho, metendo chumbo de mentira em meia dúzia de delinqüentes, ladrões de vacas do velho oeste. Na adolescência, já pacífico e poeteiro, quando muito troquei uns socos em briga de rua. Nelas aprendi uma coisa: há regra até nessa confusão. A coisa só descamba para algo mais perigoso quando uma das partes se arma, seja de cadeira, seja de garrafa, seja de pedaço de pau. Uma reação, sempre. Se ninguém sai do braço e da perna, a porrada vai durar, muita gente vai se machucar, mas tudo no braço e na perna. Se a polícia está desarmada, os bandidos também podem ficar. Inocência? Acreditar que a proibição da comercialização de armas resolverá uma grande parte dos problemas atrelados à violência, não é?

    Digo mais: melhor liberar as drogas, trazer para a legalidade um mercado oculto, quer dizer, ilícito, mas nem de longe oculto. O efeito final sobre a violência e suas adjacências será infinitamente maior.

    4.10.05

    Dorival Caymmi é




    Não sou!
    Tentei; mal provido das penugens de um bigode eu era ainda. Din-don, din-don. Meu violão entre o som metálico e a falta de ritmo. Din-don no samba. Din-don na valsa. Din-don em tudo.
    Sofrível violeiro, nem por isso deixei de ganhar aqui e ali umas moças. Surdinhas que se encantavam com meu din-don ou aquelas que amam por pena. Porque existem mulheres assim, e homens também, que amam o esfarrapado, o inseguro, o feio. Pé torto para sapato furado, o ditado cheira a isso e deve ser outro, não sou bom de memória. Nem de música: don-din.

    Se me perguntassem na lata o músico que eu gostaria de ser, não titubeava e riscava o nome de Dorival Caymmi. Não seria outro. Talvez um Chico para impressionar. Um Paulinho da Viola para ficar impressionado comigo mesmo.
    Inteiro, de sol a sol, sustenido e bemol, repito: seria Caymmi, o marido de Stela e pai de três filhos, dos quais já ouvi dizer: bons como o pai. Acrescento, em tom de advertência, quase tão.
    Baiano preguiçoso, buliçoso, praieiro, bom de bico, fotogênico, dono de voz ao mesmo tempo cavernosa e suave, além de um trejeito no seis cordas de tirar o chapéu, a roupa, a pele, os ossos. Tanta coisa não é para qualquer um.
    Dorival é o Machado de Assis da música. Não só porque todos os demais músicos beijam sua mão em pedido de benção. Mas porque ambos têm cadência parecida, tamborilam uma ironia aqui, carregam numa tragédia ali, riem do mundo, são insinuantes, sensuais e de uma simplicidade só alcançada pelos grandes.
    Por sorte, não sou. A sombra de Dorival ofuscou meu bafo de vontade de ser músico, e desisti. Perdi as meninas ruizinhas de ouvido ou bondosas de alma. Perdi também o hábito de passar dias inteiros só no meu canto, dedilhando din-don, din-don, din-don. Ganhou a música popular brasileira.
    Me virei para a escrita, e a sombra do Bruxo não vai me inibir nem por nada nesse mundo. Em alguma coisa a gente tem de ser sem-vergonha.

    22.9.05

    Dossiê Tio Lozo

    Para tudo há teóricos, principalmente aqueles que agem no rasteirão da vida, gente como eu. Um deles, não deles pois permanecem as teorias, quiçá aforismos, o que seja, e não os teóricos; portanto, me corrigindo, segundo o dito: o mundo e todos os momentos são um só, a despeito da armadura do tempo, e, portanto, nada é por acaso.
    Vamos aos fatos. Depois deles, suas conclusões, amigo leitor, podem ser as mesmas minhas. Ou não. O mundo também é vários.

    ***

    No dia 12 de setembro mandei o correio eletrônico reproduzido a seguir para minha mãe e meus irmãos.

    “Vocês talvez saibam os versos de cor. Eu nunca soube. E acho que o Tio Lozo também não.
    Beijos em todos.

    Santa (soneto)

    Esta que passa por aí, senhores
    De olhos castanhos e fidalgo porte
    É a princesa ideal dos meus amores
    A mais franzina pérola do norte

    Contam que numa noite de esplendores
    A esta que encanta o coração mais forte
    Hinos cantaram e jogaram flores
    Às estrelas em mágico transporte

    Acreditais talvez ser fantasia
    Eu vos direi que não em certo dia
    Quando ela entrou na festival capela

    Eu vi a virgem mergulhada em prantos
    E o Cristo de marfim fitá-la tanto
    Como se fosse apaixonado dela”



    A lembrança de meu padrinho chamava por mim. Bom sujeito era aquele. Não casou. Não foi pai. Trabalhou sem êxito, digo, sem esse êxito da acumulação. Sobre nós, sobrinhos e afilhados, deitou uma influência imensurável. Com os mais velhos compartilhou noitadas, mesas de bilhar, declamações de poemas (como o soneto acima) em lugares pouco santos. Em mim, e em outros de safra mais recente, exerceu um poder mágico, tanto por ser homem de famas (pacificador de zonas boêmias, exímio matador de frango no tiro) como por ser respeitado sem que coubesse nele o modelo de pai, marido, proprietário. Depois de ser levado a sua última morada, num bar, cinco ou seis sobrinhos matamos uma caixa de cervejas como quem reza, repartindo os bens intangíveis deixados por ele da forma mais honesta e equânime possível.
    Bem, pouco depois da mensagem que enviei a meus familiares, minha Tia Yole me manda uma carta registrada, com selo de urgência. Não estando em casa, minha companheira me ligou aflita: “abro?”. Na primeira frase lida, já sabíamos, a urgência não é dessas que pedem socorro, é das que vêm em socorro. Era um carinho de minha tia, deitado no lombo da minha saudade dela e dele, já que junto com a carta vinha a crônica reproduzida daqui um cadinho.
    A tal unicidade garante: as energias, em redes de comunicação para além do bico da engenharia, voam e pousam nos corações dos que se gostam. Eu gosto da Tia Yole. E ambos gostamos de meu padrinho Lozo. (Ou Lôzo. Ou Loso. Cada um escreve a seu modo, e todos têm e não têm razão.)
    Abaixo então vão a carta de minha tia, sua crônica (simples, penetrante, produto de uma observação atenta e sentimental) e, exatamente como a produzi quase vinte anos atrás, uma poesia. Ilustra esse dossiê fotos tiradas por Beth Brandão, hábil em transformar o fugaz de um momento numa espécie de depoimento vivo. Como se vê, Tio Lozo era homem feio, mas, acrescente mais magia ao ente mágico: ao vivo e em cores, sua feiura não se revelava.

    ***

    Carta recebida de Yole Pessoa Brandão

    (Embora sem data, a carta é de algum dia próximo a 20 de setembro de 2005.)


    Alexandre,

    Ai vai uma lembrança do pequeno grande tio Lozo.
    Sua imagem permanece naquela esquina como uma marca de sabedoria de outros tempos.
    Firme na paciência.
    Forte na esperança.
    Grande na resignação.
    Não podemos esquecê-lo... nunca.

    Tia Yole

    ***

    A crônica

    Tio Loso
    (autora: Yole Pessoa Brandão)

    Suave, discreto, quase uma sombra...
    Sempre em silêncio, o corpo curvado, passos ritmados, carregava por ruas e ladeiras sua inseparável solidão. Nas esquinas parava, voltava-se e lançava ao redor seu olhar melancólico. Como a constatar que nada mudara...
    Quando alguém o parava para um papo, ele — fugidio e abstrato — o tornava breve. Nada que amolecesse sua alma acostumada ao frio e ao deserto.
    Postava-se naquele canto da praça, seu território absoluto, e dali, com certa ironia, ficava a observar o pulsar da cidade; gente passando, amores nascendo, a vida fluindo afobada e alegre, mas sempre fora de seu alcance.
    Era frágil e franzino mas emanava uma grande força interior; a força de carregar com dignidade o êrmo irreversível de sua vida.
    Ocupando um espaço mínimo deixou entretanto um vazio enorme na nossa (tão tardia) percepção de sua valente e resignada figura.
    Agora sua doçura transcendeu seu pequeno corpo, pousa longe, aconchegada no sossego das coisas eternas.
    Partiu Tio Loso — o tio de todos nós — um regaço de paz, brandura, humildade...

    ***

    O Poema

    Lôzo
    (autor: Alexandre Brandão, em 28/04/87)
    a meu padrinho

    Um câncer te levou,
    ficaram tacos de bilhar cheios de saudades,
    putas de zona de tua juventude
    que ainda bradam:
    - vem meu menino
    derrama teu esperma em meu umbigo.

    Um câncer
    na tua boca despida de dentes,
    trajando palavras simples, carinhos e sorrisos.
    Um câncer no teu franzino corpo forte
    de saber boêmio.

    II

    A partir de tua morte
    vaca, águia e cachorro não deram -
    estão ocultos e aflitos.
    O copo de cerveja quente,
    o de rabo de galo,
    o de cowboy
    estão com sede do teu consumo.
    Tuas unhas não cravam as mesas,
    não existem mais som, sonho, infância.

    III

    Um câncer te comeu por dentro
    e não houve mais espaço para o macarrão que eu te fazia.
    Um câncer te apagou o mundo,
    e fiquei eu num mundo obscuro,
    andando incerto por ruas e cidades que ignoro.

    Com você
    morreu a geografia.

    17.9.05

    Diálogo com Dois Amigos

    Ilustram essa pequena divagação dois chamamentos visuais.




    O primeiro deles, retirado do FOTOLOG “Olho da Rua”, de meu amigo e jornalista e escritor e músico e também agora fotógrafo Nelson Vasconcelos, é um achado do instante, como são em geral as crônicas visuais desse artista. Vê-se um gato avizinhando-se de uma garrafa de uísque escocês. Há estranheza na junção de dois mundos quase que de todo apartados: o da bebida e suas significações e o do gato também com suas significações.
    O uísque não é para qualquer um, por raridade e, portanto, preço. O gato também não o é, mas por um senso de liberdade muito próprio dele. Isso não impede que alguns pés-rapados se lambuzem com a iguaria escocesa nem que se domestiquem os gatos.
    Na foto, o amarelo que se derrama e se espalha por ela inteira, do primeiro plano até o fundo, pode vir da coloração da bebida ou do olho do bichano, muito embora seja mesmo um efeito secundário da luz, convertida de mera dádiva natural em invento científico muito propício à sociabilidade humana. O artista rouba as funções dos elementos ao alcance de sua criatividade, acrescentando-lhes outras. Na salada de embriaguez, zoologia e ciência, Nelson Vasconcelos brinca com os sentidos de quem navega no mundo que não é, o do espaço virtual. E o faz cavalgando o cavalo do humor tão carioca, tão dele.

    O segundo deles é trabalho de meu amigo Horácio Soares, analista de sistema, escritor e artista plástico, que pode ser visto em www.barenforum.org/ members/soares/(1). Até onde sei, o sítio mencionado é uma comunidade de xilogravuristas espalhados mundo afora, uma turma que troca seus trabalhos e, com isso, cada um deles pode ter sua obra exposta por tudo quanto é canto do planeta. E não digo exposição no espaço virtual, mas aquela das antigas, em museus, ateliês e que tais.
    O nome do trabalho: “Trip”. Batemos os olhos e reconhecemos o trem apinhado de gente suburbana, como o próprio Horácio foi um dia, correndo o caminho entre a casa e o trabalho. Chama a atenção, no entanto, o fato de não ser uma viagem atual, é alguma feita não pelo homem maduro de hoje, mas pelo jovem em descoberta da vida. Uma única mulher está entre os homens cujos trajes fixam o tempo passado. Não só a roupa: é o bigode de um e uma expressão, ainda que cansada, leve de todos; por fim, o próprio fato de ser uma única mulher, então em minoria nas lidas do mercado.
    Mas o esforço de Horácio, ao resgatar de sua memória esse trem em que viajou do subúrbio ao centro e vice-versa, não pretendeu trazer à luz um enunciado sociológico, histórico. Não, ali uma narrativa oculta-se nas expressões. O olhar ausente do homem de terno; a bondade transbordante do careca no primeiro plano à esquerda; a expressão algo irônica e pedinte daquele de bigode logo atrás da mulher. Como bem sei da aproximação do artista com a literatura de Nelson Rodrigues, os personagens de Horácio vão chegar em casa para viver os fantasmas domésticos tão bem revelados pelo dramaturgo.
    Não percamos de vista, está entre tantos uma única. Com uma das mãos agarra-se à alça, com a outra segura o baú. Baú, sim. Lá, no tempo do mundo laboral estritamente masculino, uma mulher, enquanto trabalhadores vão e voltam das oficinas e escritórios, viaja entre eles tendo nas mãos o baú. Uma caixa de Pandora, quem sabe. Ou não: o baú seria apenas o instante, voltamos ao instante, em que a mulher segurou seus segredos com as próprias mãos, tornando-se enfim donas de si mesmas.

    (1)A página pessoal de Horácio é: www.analisevital.com.br/.

    10.9.05

    Na Estrada


    Dentro das Viagens
    Alexandre Brandão

    Depois de dias de muita chuva, vieram outros de plena estiagem. O calor voltou a pino, e a estrada levantava poeira ao menor sinal de carro. Uma poeira branda, é verdade. Mas como o suor escorria de minha testa, a fina camada de pó grudava na pele sem piedade. Meu cabelo ia pouco a pouco ficando nojento, duro. Quando eu voltasse, mesmo tendo passado dias fora e tendo tomado regularmente os banhos, minha mãe murmuraria: — nossa!
    Lá ia eu pensando na volta mal a jardineira apontava para a subida que desemboca no Seu Tuca. A estrada da Julieira terá uns 40 quilômetros de cabo a rabo, não sei, e não cortáramos mais do que um décimo de toda a distância, muito pouco até mesmo para o meu destino e o de meu padrinho, a Fazenda do Gordurinha, a 20 quilômetros de Passos. Pensava na volta, porque sempre pensamos na volta no início das viagens, é como um lembrete para mantermo-nos inteirados de que é preciso, sim, voltar. Mas eu tinha, meu Deus, alguma coisa entre 8 e 10 anos e nenhuma noção de que somos cheios de escapes, subterfúgios. Eu pensava na volta e daí a pouco já não pensava mais — só isso. Sonhava com pomar, com bica de água fria, com a aventura de ter de ir cagar no mato. Sonhava em andar no Segredo, cavalo grande e manso. E tinha certeza de que meu padrinho, ali do meu lado, batendo seus dedos no apoio de braço do banco, olhando tudo e todos, deixaria eu fazer aquilo que me desse na veneta. Comer pão-de-queijo antes do almoço, não almoçar, chupar a fruta que estivesse no galho mais alto da árvore.
    Dentro do ônibus, eu viajava no espaço, rumo à fazenda. E, de pensamento em pensamento, roçava distraído o beco inominável. Insisto: tendo aqueles 8, 10 anos, não podia imaginar que existisse, dentro da gente, um oco mais concreto que alicerce de casas de alvenaria.
    Tendo passado outros 10 anos, lá vou eu de novo dentro de um ônibus maltrapilho. Agora a estrada, embora poeirenta, é outra, e a distância é maior. Cruzo a Bolívia, desde Santa Cruz de La Sierra até Cochabamba e de Cochabamba até nem sei onde e de aí, por fim, até La Paz. Meu padrinho não vai comigo, quem vai é o Carlos, amigo chileno que cometerá o desplante de morrer com pouco mais de 40 anos. Apesar de meus 20 anos de então e de viver sempre um pouco bêbado e de mascar as folhas de coca que me oferecem e de ter deixado um amor no Brasil e de estar lendo com indomada fúria e de ter medo do desconhecido que está por vir e de sentir calor e de ouvir música em um toca-fitas que é uma verdadeira geringonça; apesar de tudo, já tocara com as próprias mãos aquele oco imponderável. Não o conheci (nem conhecerei) plenamente, mas aprendi que é feito de pau e luz, de ferro e brasa, de barro e sombra.
    Os motoristas destes ônibus são gente muito qualificada. O menino que tinha o cabelo cortado a mando da Dona França (nuca quadrada) vê com encantamento o homem que vinha muito sério lá na frente de repente subir, pela escada exterior do carro, na capota da jardineira e ir direto e reto na mala da senhora que irá descer ali nos Meireles.
    O universitário em férias sente frio quando no meio da madrugada o motorista é obrigado a parar o ônibus que vem rateando já há algum tempo. Tendo pego uma lanterna muito da esculachada e enchido a mão de ferramentas, ele desce à estrada, estica um forro de papelão, deita-se sob o chassi e começa a fuçar para ajeitar aquilo e poder dar prosseguimento à viagem. Há crianças espalhadas pelo corredor do carro; Carlos dorme, tombado pelo excesso de chicha; o velho que vai ao meu lado, meu fornecedor de folhas de coca que me caem bem que é uma coisa, está muito preocupado com a galinha que leva sob a jaqueta esfarrapada. Não vou dormir. Nem vou encantar-me com mais nada.
    Noite boliviana que recebe o sono dos lhamas, escrevo na sua escuridão, sem lápis e sem papel, um livro para esquecer logo depois.

    7.9.05

    Setembro é o bicho


    * Setembro, no Rio de Janeiro, apesar do tempo incerto deste resto de inverno que ora é veranico, ora é chuvoso e frio, é um mês que promete. Na EMERJ (Avenida Erasmo Braga, 115/ 4o. andar) acontece o evento Livro Aberto, um misto de entrevista com escritor e encenação de sua obra. Sonia Peçanha baterá papo com Ferreira Gullar (6),Carlos Nascimento Silva (13), Alberto Mussa (20) e Luiz Ruffato (27). Aliás, hoje já era, quem foi, foi, quem não foi não pôde ouvir o Gullar contar-se menino, pivete meio larápio lá em São Luis do Maranhão, nem tampouco comover-se com a visão dele dessa encrenca toda em que o país está metido. A gente se inventa, ele disse. Será que também nos reinventamos? Precisamos, não é?

    *E daqui a pouco é hora do encontro anual das pequenas editoras. São muitas, inclusive a Bom-Texto (que editou o "Estão todos aqui"), e brigam por manter-se vivas nesse mercado feroz. Este ano, a Primavera dos Livros terá como patrono o escritor João Ubaldo Ribeiro e começa no dia 22, nos primeiros susurros das flores, isso se o Rio não inventar um invernico, um outonico, sei lá, o mundo anda tão mais ou menos. Será que a gente se reinventa?

    A ilustração é "Primavera" de Botticelli, baixada, em 7 de setembro de 2005, do Google, que indica o site www.spaceandmotion.com/ Philosophy-Art-Truth.htm.

    5.9.05

    Fica Trevisan


    Soube no Cronópios (www.cronopios.com.br)que o Sesc São Paulo está em vias de acabar com o espaço de oficinas, organizado e conduzido pelo João Silvério Trevisan. Particularmente, e sem saber exatamente os motivos, acho uma perda sem igual. Freqüentei bastante o Balaio de Texto e, em 24 de novembro de 2001, publiquei a crônica abaixo, um grito de satisfação pela exploração saudável e inteligente do espaço virtual. Republico-a como quem pede: parem, revejam suas posições.


    Poetas em Fumo
    Alexandre Brandão


    Muita gente se reúne em torno de uma boa idéia. Outros tantos, o leitor astuto estará pensando, juntam-se em torno de idéias malignas. Verdadeiras uma e outra afirmações. Porém não estou aqui para filosofias, não agora. Trago-lhes apenas notícias de uma boa idéia.
    O SESC São Paulo mantém uma página na INTERNET — http://sesc.uol.com.br/sesc ou http://www.sescsp.com.br/sesc* — bastante interessante. Lá estão desde a programação dos vários programas culturais promovidos em seus muitos teatros espalhados por São Paulo, capital e interior, até espaços virtuais mesmo, onde, de forma interativa, pode-se discutir arte e cultura. Normalmente, freqüento um desses, o Espaço Literário.
    Nele é possível, por exemplo, saber de concursos literários, de endereços de sebos e de participar de debates sobre textos produzidos pelos internautas. Para isso, existem dois, digamos, subespaços. Num, às quartas-feiras, o Sopa de Letras, coordenado por Lizete Mercadante Machado, pode-se falar de literatura de forma bastante informal.
    No outro, coordenado pelo escritor João Silvério Trevisan, há uma outra divisão. Assim é possível, por exemplo, cursar uma oficina literária. Para isso, é preciso acompanhar o calendário de quando estarão abertas novas inscrições e, então, seguir à risca as regras sugeridas ali. Não é um espaço aberto a todos, embora seja possível a qualquer um ler alguns textos produzidos pelos alunos.
    Às quintas-feiras, existe um encontro, coordenado pelo mesmo João Silvério Trevisan e nomeado Balaio de Textos, aberto a qualquer um e que consiste no seguinte: na página de entrada, o internauta lê o texto que estará em destaque na semana — numa é poesia, noutra, conto —, entra na sala e dá a sua opinião, ou melhor, discute a sua leitura com várias outras pessoas. Qualquer um pode mandar um texto para o Balaio. O próprio João trata da seleção, mas como recebe uma quantidade enorme deles nem sempre enviar uma contribuição significa tê-la ali discutida em um curto espaço de tempo.
    Tenho participado com freqüência desse Balaio de Textos. É uma coisa boa. Já se formou uma turma cativa, embora semana a semana surjam novas pessoas. Normalmente, quando estamos na sala, está também uma escritora gaúcha, uma que vive no interior de São Paulo, um conterrâneo de Arcos, um brasileiro vivendo no Canadá, alguns paulistanos, outros baianos. Todos, ou quase todos, poetas. Poetas que só conhecem de si opiniões ou textos, poetas, portanto, sem rosto. Poetas em fumo.
    E, embora sem rosto, as relações que se estabelecem no Balaio expandem-se para outros espaços virtuais. Hoje, me correspondo, com certa disciplina, com três ou quatro balaieiros. Trocamos textos, informações sobre isso e aquilo e, em alguns casos, até nos fazemos algumas confidências.
    Realmente, é um tanto estranho ter amigos assim chegados e não saber a cor de seus olhos. Mas a gente se acostuma.


    * Os endereços podem não estar atualizados, já que a crônica é do ano de 2001.


    A foto do Trevisan foi obtida na pesquisa Google, que indica www.bmsr.com.br/ autores/texto.htm como o caminho para encontrá-la. Foto "baixada" em 5/09/2005, às 22:20 h.

    3.9.05

    Antes das Crônicas



    Para situar:

    Em 1995 lancei "Contos de homem", Editora Aldebarã (sonho que ficou pelo caminho).
    Em 2005, "Estão todos aqui", Editora Bom-Texto. Edição caprichadíssima.
    Ambos foram resenhados em jornais de grande circulação: Folha de São Paulo e Estado de Minas ("Contos de homem"); O Globo, Jornal do Brasil, Rascunho, além dos sites Verdes Trigos e Bestiário ("Estão todos aqui").
    Me fizeram companhia no primeiro: Nelson Vasconcelos (orelha) e João Gilberto Noll (prefácio). No segundo: Nilma Lacerda (orelha).
    Ganhei, em 2000, o prêmio Oficina do Escritor, da Funarte. Em vez de grana, troféu ou coisa parecida, faturei um leitor especial, todo dedicado à leitura do livro. O leitor: Flávio Moreira da Costa. O livro: na época, com o nome "Qual é, solidão?", hoje, recauchutado, "Amor, sexo, o resto e o que ficou esquecido".

    2.9.05

    Apresentação




    Alexandre Brandão. Escritor. Funcionário Público.

    Pretensão/sões:

    Escrever crônicas por aqui. Assim como escrevi, por um ano, no jornal "A Gazeta", de Passos, Minas Gerais. É possível que reproduza algumas delas. Escreverei outras.

    Se pintar um clima, falarei de meus livros, e de leituras que faço, do meu modo. Sempre do ponto de vista afetivo. Cerebral é o economista que bate ponto no IBGE. O escritor, esse é um inconformado com a demanda exacerbada por razão.

    Ganharei outras com a intimidade com essa coisa de blog.